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Geopolítica no Oriente: O Histórico da Península Coreana

Publicado: Terça, 30 de Junho de 2020, 18h29 | Última atualização em Quinta, 24 de Setembro de 2020, 18h55 | Acessos: 229

Daniel Mendes Aguiar Santos1

A Geopolítica estuda a influência dos fatores geográficos na vida e na evolução dos Estados, apoiando a condução da política e orientando a Defesa Nacional. Friedrich Ratzel (1844-1904) e Rudolf Kjellén (1864-1922) pensaram o território como fonte de poder, ou seja, quanto mais território, maior a capacidade de um estado. Em particular, o inglês Mackinder (1904) detalhou a perspectiva de um centro da massa continental eurasiana denominado Heartland cuja posse, por parte de uma potência terrestre, permitiria o domínio da Eurásia. Já o almirante americano Mahan (1900) apresentou a visão de uma Zona Oceânica Mundial cujo controle, por parte de uma potência marítima, permitiria o estabelecimento de pontos de apoio nas costas da Eurásia, viabilizando o controle do Heartland. Neste diapasão, Nicholas Spykman (1893-1943) indicou a necessidade de controlar as extremidades da Eurásia para dar conta da tridimensionalidade dos conflitos (terrestre, naval e aéreo), influenciando Washington a adotar uma doutrina de segurança baseada na Estratégia da Contenção e lastreada por uma política externa preemptiva.

Sob este prisma, ao observar o Leste Asiático, destaca-se a história da Península Coreana e observa-se o conflito entre os “Três Reinos” - Koguryo no Norte, Paekche no Sudoeste e Silla no sudeste. Em 668, o Reino de Silla derrotou os rivais e unificou a maior parte da península. A Coreia chegou perto de seus limites atuais durante a Dinastia Koryo (918-1392), origem do nome “Coreia”. A seguir, a Dinastia Choson (1392-1910) consolidou as fronteiras e a cultura, com destaque para o Alfabeto Coreano (Hangul), promulgado pelo Rei Sejong em 1446. Neste processo, gradualmente, grupos e reinos concorrentes se fundiram em uma identidade nacional comum.

Na sequência, a região foi palco de invasões deflagradas pelos japoneses, no final do Século XVI, e pelos manchus do nordeste da Ásia, no início do Século XVII. Fruto deste quadro conflitivo, a Coreia adotou uma política de contato estritamente limitado. Os principais contatos estrangeiros eram missões diplomáticas para a China e um pequeno posto avançado de comerciantes japoneses na parte sudeste do seu território. Assim, por cerca de 250 anos, a península esteve em paz e estável internamente, em que pese a agitação camponesa dos anos 1800.

Já no Século XIX, a Coreia tornou-se objeto de interesses imperiais concorrentes, à medida que o Império Chinês declinava e as potências ocidentais começavam a disputar a ascendência no Leste Asiático. Nos anos 1860, a Grã-Bretanha, a França e os EUA tentaram estabelecer relações diplomáticas e comerciais na região, mas o Reino Coreano resistiu firmemente. Por sua vez, o Japão, então aberto às relações internacionais com os EUA, impôs um tratado diplomático à Coreia em 1876. No final do Século XIX, Japão, China e Rússia rivalizaram a busca de influência na região. Em particular, o Japão, depois de derrotar militarmente a China e a Rússia, entre 1895 e 1905, tornou-se a influência externa predominante na Península Coreana.

Neste contexto, em 1910, o Japão anexou a Coreia e, no decorrer dos 35 anos seguintes, impôs um governo rígido e restritivo. Se por um lado, as autoridades japonesas tentaram acabar com a língua e a identidade cultural coreana, por outo lado, fomentaram o desenvolvimento industrial na região, instalando siderúrgicas, cimenteiras e indústrias químicas, nos anos 1920 e 1930, especialmente no Norte, servido de recursos de carvão e energia hidrelétrica. Já em agosto de 1945, no epílogo da 2ª Guerra Mundial, quando o governo colonial japonês foi encerrado, a Coreia já era o segundo país mais industrializado da Ásia, logo depois do Japão.

Por ocasião do fim da guerra, os EUA e a URSS acordaram a rendição japonesa na Coreia, com a URSS ocupando a região ao Norte do paralelo 38, e os EUA ocupando o Sul, até que um governo coreano pudesse ser estabelecido. Contudo, em 1947, a geopolítica da Guerra Fria colapsou as negociações em prol de um governo unificado, resultando na divisão da Coreia em dois estados - a República Popular Democrática da Coréia, sediada em Pyongyang e pró URSS; e a República da Coreia, sediada em Seoul e pró EUA.

Na fricção bipolar, em junho de 1950, a Coreia do Norte, apoiada pela URSS, invadiu o Sul e tentou unificar a península à força. Em contrapartida, sob a égide da ONU, uma coalizão liderada pelos EUA veio em apoio da Coreia do Sul. No conflito, a URSS apoiou a Coreia do Norte com armas e suporte aéreo, enquanto a República Popular da China enviou centenas de milhares de tropas. Finalmente, em julho de 1953, após a perda maciça de vidas, o conflito foi distendido, sendo a Coreia do Norte e a do Sul divididas em territórios, aproximadamente iguais, por uma linha de cessar-fogo (zona desmilitarizada), que ainda delimita a fronteira atual.

Desde então, as duas Coreias evoluíram de uma base cultural e histórica comum para duas sociedades muito diferentes, com sistemas políticos e econômicos contrastantes. A Coreia do Norte passou a ser influenciada pela cultura e política soviética/russa, bem como pela China. Ademais, desenvolveu uma política autodeclarada autossuficiente e armamentista, baseada na centralização econômica, tendo um regime totalitário, conduzido por Kim Il-Sung (1948-1994), Kim Jong-Il (1994-2011) e Kim Jong-Un (desde 2011). Por sua vez, a Coreia do Sul passou a ser influenciada pelos EUA, estreitando laços políticos, militares e econômicos, bem como pelo Japão. Tal relação, permitiu ganhos econômicos expressivos à Coreia do Sul, em especial nos anos 70 e 80. Fruto deste desenvolvimento, atualmente, é um dos países mais desenvolvidos do mundo, sendo a terceira maior economia do Leste da Ásia, depois do Japão e da China.

Figura - Estimativa de alcance do armamento nuclear da Coreia do Norte

estimativa arma nuclear corea

Fonte: Al Jazeera, 38North, Missile Threat CSIS (2017)2.


1 Major de Cavalaria do Exército Brasileiro. Doutor em Ciências Militares. Aluno no Korean Defense Language Institute, República da Coreia. Etmail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. e Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
2 Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2018/11/north-korea-hiding-missile-bases-remote-areas-report- 181112200040149.html


Referências:

ATENCIO, Jorge E. Qué es la Geopolítica, 2ª ed. Buenos Aires: Editorial Pleamar, 384 p., 1975.

BROOKINGS. On the Record. Korea: A Geopolitical Overview. Michael H. Armacost. Sunday, November 18, 2001. Disponível em: https://www.brookings.edu/on-the-record/korea-a-geopoliticaloverview/. Acesso em: 09 fev. 2019.

CENTER FOR GLOBAL EDUCATION. Korean History and Political Geography. Disponível em: https://asiasociety.org/education/korean-history-and-political-geography. Acesso em: 08 fev. 2019.

SINO NK. The Korean Peninsula and Great Power Geopolitics: Then and Now. By Anthony Rinna. November 05, 2018. Disponível em: https://sinonk.com/2018/11/05/the-korean-peninsulaand- great-power-geopolitics-then-and-now/. Acesso em: 08 fev. 2019.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracia na América, 2.ª ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, vol. I, 560p., 2005.

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