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A Métis das Armas Químicas na Síria

Publicado: Terça, 30 de Junho de 2020, 18h36 | Última atualização em Sexta, 25 de Setembro de 2020, 11h49 | Acessos: 197

Anderson Wallace de Paiva dos Santos1
André Luiz Bifano da Silva2

Na épica narrativa de Homero sobre o cerco à Troia, a guerra é vista sob duas óticas potencialmente antagônicas. Os protagonistas da narrativa homérica, Aquiles e Odisseu representam o conflito entre a força e a astúcia, e dessa dicotomia nasce o debate sobre qual seria a melhor estratégia para o uso da força em combate. Aquiles é a personificação do conceito grego de biē, que diz respeito à força, coragem e ação direta, enquanto Odisseu incorpora a mētis, caracterizada pela inteligência, estratagemas e ação indireta. No entanto, foi a combinação dessas duas modalidades de se fazer guerra que permitiu que os gregos infiltrassem soldados no ventre de um cavalo de madeira, levando os troianos à ruína.

Na visão de Sun Tzu, o general sábio seria aquele cuja maestria na arte da guerra permitiria vencer um oponente mais forte por meio da dissimulação. O estrategista chinês defendia a primazia da mētis grega no conflito armado. Esse também foi o pensamento de Maquiavel que, ao aconselhar o príncipe de Florença sobre como se relacionar com a força superior de franceses e espanhóis, defendia o uso de ardis e subterfúgios para alcançar os objetivos do Estado e sua sobrevivência.

Atualmente, a intrínseca relação entre biē e mētis nos conflitos armados continua importante. A guerra que ocorre na Síria desde 2011 permite aprofundar a análise sobre as diferentes estratégias utilizadas pelos contendores. A configuração híbrida do conflito, que reúne atores estatais e não estatais, grupos terroristas, movimentos separatistas, mídias sociais utilizada como arma, organismos internacionais de mediação, caracteriza um ambiente operacional extremamente complexo. Nessa conjuntura, a liberdade de ação para o uso da força é pequena. O poder cinético do conflito está condicionado à existência de cenários considerados legítimos pela comunidade internacional, onde seu emprego é justificável devido as circunstâncias extraordinárias de uma guerra. Em outras palavras, o uso de uma estratégia baseada exclusivamente na biē será encarada como desproporcional, imoral e reprovável. Dessa inferência, se depreende que o poder bélico de potências militares como os Estados Unidos da América e da Rússia encontra-se simbolicamente limitado pela (des)aprovação da opinião pública mundial. Desta feita, as estratégias militares dessas potências tendem a se basearem no poder da mētis para conseguir atingir seus objetivos políticos e econômicos na região do Oriente Médio – a astúcia da narrativa da guerra justificaria o uso da força.

A névoa da guerra inerente ao conflito sírio, amplia a eficiência da estratégia militar indireta idealizada pelo general francês Andre Beaufre nos meados do século passado. Nessa abordagem estratégica, que usa a mētis como pressuposto, são preconizadas ações militares sucessivas e limitadas, complementada por ações políticas e econômicas. No entanto, atualmente essa abordagem estratégica deve ser adequada à aprovação da opinião pública mundial que, condicionada à narrativa da mídia internacional, pode definir os rumos da guerra.

Um exemplo do uso da mētis no domínio da narrativa para justificar o uso da força no conflito armado se relaciona com a repercussão dada ao uso de armas químicas na guerra da Síria. Os ataques de 7 de abril sobre Douma criaram uma guerra de versões sobre a sua autoria, que antes de esclarecida tal questão já resultou na ação militar dos Estados Unidos, Reino Unido e França contra o governo da Síria apoiado pela Rússia.

Os abomináveis efeitos de armas químicas sobre a população civil causam forte impacto na opinião pública internacional e demandam uma resposta imediata. No entanto, a rapidez dessa réplica não acompanha a desejável presteza dos organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou Organização para Proibição de Armas Química (OPAQ). A Convenção para Proibição de Armas Química (CPAQ) condena o uso de agentes químicos constante de suas listas de controle ou de materiais utilizados em indústrias como arma. Todos os países envolvidos no conflito são signatários da Convenção, e no caso da Síria, desde 2013 colabora com o desmonte de seu programa de armas químicas. Ocorre que o processo de desarme químico sírio se realiza em meio a uma guerra civil, onde partes dos territórios ficaram sob o controle de outros atores, o que, por óbvio, incluiria o arsenal dessas terríveis armas.

Mesmo que a hipótese de descontrole do arsenal químico sírio seja descabida, o recente ataque em Douma pode ter sido realizado, por qualquer dos contendores, com o simples emprego de material industrial tóxico (MIT) como o cloro. É o que sugerem as imagens das vítimas veiculadas pela mídia internacional. O cloro na temperatura ambiente se encontra na forma gasosa e pode causar grave irritação nas vias respiratórias e nos pulmões, sendo classificado como um agente químico sufocante, na sua classificação militar. O rastreamento dos resquícios do cloro é bastante dificultado devido a sua grande volatilidade, deixando poucos vestígios no ambiente, a não ser que se encontrem as munições ou barris que o disseminaram. Isso torna mais difícil o trabalho das equipes da OPAQ que lutam contra o tempo para identificar um agente químico que se deteriora no ambiente em uma região suscetível a manipulações de toda ordem.

O único fato concreto sobre o ataque químico do dia 7 de abril foi a sua consequência: o envolvimento dos EUA, Reino Unido e França na guerra com o lançamento de mísseis tomahawk, storm shadow, SCALP e JASSM e declarações no twitter e na imprensa. Essa ação pode ter novos desdobramentos e potencializam o antagonismo desses países com a Rússia, como pontua o secretário-geral da ONU Antonio Guitierrez ao declarar que a “guerra fria voltou”. De acordo com o modelo estratégico de Beaufre, essa poderia ser a primeira de outras ações sucessivas da coalisão do ocidente em uma estratégia indireta para atingir seus interesses no Oriente Médio. O que é possível inferir é que a ação militar fora legitimada pela narrativa, ou seja, a biē fora justificada pela mētis. De forma cautelosa, só nos cabe agora como observadores, reviver a angústia de Príamo, o rei de Tróia. O cavalo de madeira seria um presente ou uma arma destruidora?


1Major de artilharia e especialista em Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (DQBRN), mestrando do PPGCM/ECEME
2Major de artilharia e especialista em DQBRN, doutorando do PPGCM/ECEME

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