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Análise de Situação – Disputa China – Índia

Publicado: Quarta, 16 de Setembro de 2020, 16h25 | Última atualização em Quinta, 24 de Setembro de 2020, 14h22 | Acessos: 247

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Sandro Teixeira Moita
Doutorando do PPGCM e Coord – Adj da Aérea Temática Conflitos Bélicos do OMPV

Em 5 de maio de 2020, tropas indianas e chinesas se enfrentaram em um incidente de fronteira, em área contestada pelos dois países, resultado de questão ainda não resolvida pelos dois países. A despeito dos choques, não houve utilização de armas de fogo, seguindo um acordo tácito entre as duas potências de não armar suas patrulhas com mais do que “varas e bastões”.

O incidente deu início a uma série de movimentações militares por parte da China na área contestada, escalando a crise e elevando as tensões com a Índia, reacendendo questões remotas desde a época do domínio britânico sobre o subcontinente indiano.

Fronteira não demarcada: a linha de controle atual.

Herança dos tempos coloniais, boa parte da fronteira entre China e Índia é delimitada pela Linha de Controle Atual, que marcava o limite do poderio britânico. Com a independência da Índia, em 1947, não foram feitos esforços para que as duas nações resolvessem a questão em definitivo.

Isto faz com que a fronteira seja disputada pelas duas potências em mais de vinte lugares, com incidentes já ocorridos em vários momentos nos últimos 70 anos. Para citar um exemplo, em 2017, tropas chinesas e indianas ficaram em um impasse por setenta e três dias no platô de Doklam.

O cerne da discórdia se encontra em que, diferente de Índia e Paquistão, que utilizaram a Linha de Controle Atual para delimitar parte de sua fronteira, não houve processo parecido com China e Índia. Assim, a China clama parte de um estado indiano, Arunachal Pradesh, e ocupa parte do território indiano delimitado em 1947, a área de Aksai Chin.

Em 1962, os dois países foram à guerra pelas questões de fronteira, com a China prevalecendo sobre a Índia e as tropas chinesas avançando sobre território indiano. As tropas indianas, com exceções dos batalhões de Gurkhas, estavam despreparadas para combater em terreno tão difícil. A maior parte dos combates ocorreu em alturas superiores a quatro mil metros de altitude, sendo que nenhum dos lados se valeu de apoio aéreo. Os chineses recuaram após um mês de sucesso militar para a demarcação da linha de fronteira que consideravam fazer juz, desprezando o clamor indiano.

A derrota da Índia gerou uma onda de nacionalismo, uma revisão da política com a China, e, a consequente a modernização das Forças Armadas indianas. Isso gerou efeitos positivos pois em 1965, o Paquistão, aliado da China, atacou a Índia tentando conquistar a Caxemira, sendo derrotado. A própria China foi derrotada em escaramuças de fronteira em 1967 pela Índia.

O conflito de 1962 também afetou a política externa indiana. Com o revés no campo de batalha, a Índia solicitou ajuda aos Estados Unidos e ao Reino Unido, que foi recusada. A União Soviética ofereceu apoio e vendeu armamentos a preços baixos, o que serviu para a criação de laços comerciais e diplomáticos com a Índia, o que explica a forte relação entre Rússia e Índia.

Incidentes de pequeno monte ocorreram até 1987, quando uma decisão do governo indiano, transformando Arunachal Pradesh em um estado, deixando de ser um território, gerou protesto do governo chinês. Tropas chinesas se movimentaram, mas tropas indianas estavam bem preparadas como consequência de exercícios feitos desde 1982, ficando entrincheiradas e dissuadindo as tropas chinesas do seu intento. O impasse foi resolvido com negociações entre o Ministro das Relações Exteriores da Índia e a liderança chinesa em Pequim, voltando ao status quo.

A década de 1990 assistiu um distensionamento das tensões relações entre os dois países, com tratados assinados entre China e Índia em 1993 e 1996, onde foi acertado a prática de que as patrulhas de fronteira não usariam armas de fogo. Isto já ocorria, porém sem uma previsão legal.

Estas movimentações se davam pela política externa chinesa não desejar uma aproximação da Índia com os Estados Unidos, para contrabalançar seu crescente papel global. Isso ensejou a assinatura de resoluções de problemas de fronteira em 2005, 2012 e 2013, criando mecanismos diplomáticos para soluções de questões de fronteira. Isso também foi estimulado pelo comércio entre os dois países, sendo a China a segunda maior parceira comercial da Índia, com receitas de mais de US$ 92 bilhões.

Mas apesar de tais iniciativas positivas, ainda existe muita desconfiança entre as lideranças dos dois países. Tal processo é acentuado pela onda nacionalista que as duas nações vivenciam, além de arranjos no tabuleiro global, com o crescimento da relevância dos dois países no cenário internacional.

A crise de 2020

A recente crise de fronteira, parte fruto de uma crise ocorrida em 2017, na qual uma disputa de fronteira entre a China e a pequena nação do Butão, apoiada pela Índia, gerou um impasse que durou 73 dias com tropas indianas e chinesas estacionadas a pouca distância umas das outras. Apesar da negociação direta entre o Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, e o Premiê da China, Xi Jingping, ter contribuído para desescalar a crise, não houve a iniciativa de estabelecer novas medidas de confiança por parte dos dois países.

Pode-se explicar em parte por causa da visão da liderança chinesa do temor de uma ascensão indiana no cenário internacional bem como da aproximação desta com os Estados Unidos, algo que vem ocorrendo desde o segundo governo do Presidente George W. Bush (2001-2009), foi mantido no governo do Presidente Barack Obama (2009-2017) e intensificado pelo Presidente Donald Trump (2017 até os dias atuais).

Outra razão para a maior agressividade das patrulhas chinesas se dá pela época do ano, onde, após o degelo de boa parte da região, as tropas indianas e chinesas aumentam a intensidade das ações, conforme dito pelo Comandante do Exército Indiano.

Nos últimos dez anos, a Índia vem aumentando a infraestrutura da região, com a construção de novas estradas, bases militares e aeroportos, o que tem gerado desconfiança da China, que, por sua vez, tem aumentado as tropas na fronteira, inclusive fazendo um sistema de rotação de efetivos de outras regiões, além da dotação de material militar moderno para o combate em área montanhosa, como blindados leves e helicópteros.

A Índia também tem aumentado os efetivos na fronteira, dando preferência por unidades preparadas para combate em ambiente montanhoso, como os batalhões de Gurkhas, que gozam de alta reputação em seu Exército, além da presença de caças Sukhoi Su-30MKI, peças de artilharia, bem como a construção de diversos bastiões fortificados.

Em 5 de maio, ocorreu o primeiro incidente, na região do Lago Pangong, entre tropas chinesas e indianas, com uma briga entre soldados usando golpes e atirando pedras uns nos outros. Nos dias 10 e 11, a dinâmica se seguiu, com feridos dos dois lados, inclusive oficiais, sendo necessária a evacuação para hospitais. Helicópteros chineses foram observados por caças indianos, escalando tensões.

Também em 10 de maio, em uma região demarcada da fronteira, Sikkim, que pertence a Índia, houve confrontação entre tropas indianas e chinesas, nos mesmos moldes do que ocorreu no Lago Pangong, inclusive com oficiais envolvidos. Soldados indianos e chineses ficaram levemente feridos, mas isto contribuiu para o aumento da presença militar dos dois países na fronteira, levando a outro evento.

Em 21 de maio, entre 10 e 12 mil soldados chineses ultrapassaram diversos pontos da fronteira e acamparam em áreas contestadas pela Índia. Isto levou a novas altercações entre as tropas e elevou as tensões da crise. Quatro pontos, distantes, foram ocupados pelos chineses: Lago Pangong, Demchok, Vale de Galwan e Naku La. Os três primeiros ficam no estado indiano de Ladakh, contestada entre chineses e indianos, enquanto Naku La fica em Sikkim, área já pacificada, onde a China já aceitou a posse indiana.

Tropas indianas, com carros de combate e artilharia, foram enviadas a Ladakh e passaram a bloquear pontos possíveis de avanço das forças chinesas, que parecem estar interessadas em impedir a finalização de uma estrada indiana na região, que facilitaria muito a infraestrutura local e sua ligação com o resto do país.

Em 6 de junho, o comandante do 14º Corpo de Exército indiano se encontrou com o comandante chinês do Distrito Militar do Tibete, abrindo espaços para o arrefecimento das tensões. Deste encontro, foi combinada a retirada parcial das tropas, o que já se iniciou em alguns pontos de Ladakh, com os chineses recuando, porém, mantendo efetivos e construindo defesas permanentes no Lago Pangong.

As negociações continuam entre os generais indianos e chineses, selando o compromisso de não escalar para não haver guerra, mas a questão do Lago Pangong, no qual a China pode ter anexado até 50 quilômetros quadrados de território, ainda é assunto delicado, sendo alvo da discussão dos militares entre os dois países.

Os Estados Unidos ofereceram a possibilidade de mediação da situação em 27 de maio, com uma manifestação do Presidente Trump, enquanto a Rússia, manifestou preocupação com a situação e lançou um comunicado no qual apoia uma negociação bilateral entre Índia e China. O Primeiro-Ministro Modi recebeu o embaixador russo e trocou ligações com o Presidente Trump.

Apesar de a crise aparentar arrefecer e as tensões diminuindo, ainda é incerto dizer que a China retirará todas as suas tropas do território contestado, assim como a reação indiana, cuja opinião pública já estava hostil à China por causa da pandemia de COVID-19, além de ser aliada do inimigo histórico da Índia, o Paquistão.

Na madrugada de 16 de junho, durante o processo de retirada das forças chinesas e indianas, houve violenta luta em um ponto, entre as tropas, com baixas confirmadas do Exército indiano. Houve baixas também de soldados chineses, mas não há um número oficial ainda. Um coronel comandante de um dos mais famosas regimentos do Exército indiano foi morto neste evento. Os números podem ser na casa das dezenas de baixas.

Para evitar que a crise escale, comandantes de divisões chinesas e indianas se encontraram onde ocorreu o evento e mantiveram conversações no sentido de manter o negociado anteriormente, a retirada das tropas e o relaxamento das tensões, reforçados por contatos de alto nível foram realizados entre generais chineses e indianos. Diplomatas estão realizando conversas para que o episódio não se repita e seja usado como forma de impedir que a crise escale.

As movimentações das duas potências devem ser observadas e, se o histórico das escaramuças de fronteira for levado em conta, levará algum tempo para que China e Índia retirem suas tropas, sendo que este movimento pode se completar até o fim do outono, quando as condições climáticas da região impedem um emprego de grande número de tropas além do terreno montanhoso, que dificulta muito a possibilidade de operações militares.

Rio de Janeiro - RJ, 19 de junho de 2020.


Como citar este documento:

MOITA, Sandro Teixeira. Análise de Situação: Disputa China - Índia. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: ECEME. 2020.


Para saber mais:

All-out combat' feared as India, China engage in border standoff, Al Jazeera, 28/5/2020. https://www.aljazeera.com/news/2020/05/tense-india-china-standoff-himalayan-border-escalate-200527120501581.html

The Chinese and Indian armies settle a clash by fisticuffs, The Economist, 16/05/2020. https://www.economist.com/asia/2020/05/16/the-chinese-and-indian-armies-settle-a-clash-by-fisticuffs

The China-India Standoff and the Myth of a New Cold War, The Diplomat, 13/6/2020. https://thediplomat.com/2020/06/the-china-india-standoff-and-the-myth-of-a-new-cold-war/

India-China border talks: Incremental gain, long way for resolution, The Economic Times, 15/6/2020. https://economictimes.indiatimes.com/news/defence/indo-china-border-talks-incremental-gain-long-way-for-resolution/articleshow/76374277.cms?utm_source=contentofinterest&utm_medium=text&utm_campaign=cppst

India discussed China border tensions also with Russia, the same day Modi and Trump spoke, The Print, 5/6/2020. https://theprint.in/diplomacy/india-discussed-china-border-tensions-also-with-russia-the-same-day-modi-and-trump-spoke/436500/

Kashmir clash: 20 Indian troops killed in fighting with Chinese forces, BBC, 16/6/2020. https://www.bbc.com/news/world-asia-53061476

Not the ‘Spirit of Wuhan’: Skirmishes Between India and China. Royal United Services Institute, 21/5/2020. https://rusi.org/commentary/not-%E2%80%98spirit-wuhan%E2%80%99-skirmishes-between-india-and-china



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