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Análise de Situação – Conflito Estados Unidos x Irã

Publicado: Quinta, 24 de Setembro de 2020, 14h40 | Última atualização em Segunda, 28 de Setembro de 2020, 12h04 | Acessos: 212

Professor Sandro Teixeira Moita1

O ataque realizado pelos Estados Unidos da América (EUA), em 2 de janeiro de 2020, que levou à morte do General iraniano Qasem Soleimani, abalou o Oriente Médio. Seja pelo alvo, e toda a importância voltada a si nos anos recentes na geopolítica da região, seja pela ação dos EUA, ousada e direcionada. Mas para entender a razão por trás de tal ato, é preciso o entendimento de como o conflito velado2 entre EUA e Irã se desenvolveu, desde a Revolução Islâmica de 1979 até os dias atuais.

A Revolução Islâmica de 1979 e a Guarda Revolucionária do Irã

Após a queda do regime imperial em 1979, o Irã se transformou numa República Islâmica, uma teocracia dirigida por aiatolás, em um movimento que sacudiu a conformação geopolítica de então e privou os EUA de um aliado relevante na região. Com a Guerra Irã-Iraque (1980-1988) a tensão se confirmou, uma vez que os EUA prestaram extenso apoio em material e dados de inteligência para os iraquianos em suas campanhas. Apesar disto, a capacidade iraniana foi decisiva e impediu os planos do Iraque de conquistar suas ricas províncias petrolíferas do sul.

Durante a Revolução de 1979, a Embaixada dos EUA foi tomada, com diplomatas e cidadãos norte-americanos feitos reféns, em um sequestro que só terminou em janeiro de 1981. Isso foi uma das razões para o apoio dado por nações ocidentais, em especial os EUA, ao Iraque durante a guerra, e que marcou profundamente o imaginário do povo iraniano. Surgiu a percepção de que, para sobreviver, o Irã precisaria “resistir” e expandir a Revolução Islâmica.

Neste sentido, com a transformação do Estado iraniano durante a guerra, surgiu uma força altamente temida em todo o Oriente Médio, o pilar de defesa da Revolução: foi fundado o “Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica”, mais conhecido como a Guarda Revolucionária Islâmica ou Guarda Revolucionária Iraniana. A “defesa da Revolução” confere à Guarda uma grande área de atuação, que vai desde assuntos internos do Irã até uma agressiva atuação externa no sentido de construir uma hegemonia no Oriente Médio.

Por serem os defensores da Revolução, com grande proximidade com os aiatolás que governam o Irã, a Guarda ascendeu em poder, recebendo meios, intercâmbios externos e construindo um império que envolve desde empresas em diversos ramos da economia bem como conglomerado de mídia (Sepah News), com canal de televisão, rádio e portal de internet. Embora considerada uma das Forças Armadas do Irã, a Guarda é subordinada diretamente ao Líder Supremo do país, e possui um efetivo de 125 mil homens. Conta com forças terrestres, navais, aéreas, além de foguetes e mísseis, junto com a responsabilidade de proteção das principais autoridades iranianas.

Tamanho poder veio por meio da participação da Guarda em diversos conflitos nos quais o Irã se envolveu e em atividades para promoção da causa iraniana no Oriente Médio. A Guarda foi responsável pela criação ou o aperfeiçoamento de diversos grupos ou movimentos na região, por meio do suporte logístico, financeiro e de pessoal. Exemplos desta cooperação são o Hizbullah no Líbano, o Hamas e a Jihad Islâmica na Faixa de Gaza e as milícias criadas no Iraque e Síria, que floresceram durante os conflitos nestes países.

A construção desta rede de contatos e apoios ao Irã na região e a colocação de agentes de inteligência nestes países e em outras partes do mundo se deve à Força Quds, especializada em operações especiais e inteligência militar. Seu nome (tradução: “Força Jerusalém”) é ligado à sua missão: “libertar as terras muçulmanas”. Lidando com atividades de guerra não-convencional, a força tem expertise em operações clandestinas no exterior, tendo atuado em países da região, mas também em locais distantes como na Argentina, onde há fortes indícios de ter operacionalizado, por meio do Hizbullah, dois atentados contra a comunidade judaica local.

O conflito velado entre EUA e Irã

Desde que os Estados Unidos se retiraram, em 2018, do acordo nuclear de 2015 assinado com o Irã, na esteira da assunção do Presidente Donald Trump, em 2017, as relações entre os dois países tiveram um aumento gradativo nas tensões, que se aprofundaram em 2019. Função da retirada do acordo nuclear, os EUA impuseram sanções que produziram efeitos devastadores na economia iraniana, combalida por décadas de sanções e que estava começando uma recuperação após a assinatura do acordo nuclear.

As ações americanas foram respondidas pelo Irã com uma série de medidas que visavam a demonstrar a resolução iraniana em não se sujeitar aos desígnios dos EUA. Tais medidas foram desde ameaças a fechar o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, assim como o incentivo a milícias no Iraque que atacassem forças americanas ali estacionadas, tal como o estímulo de ataques por parte de grupos militantes palestinos a Israel, o que influi na opinião pública dos EUA.

Para além disso, os iranianos redobraram seus esforços para promover sua influência na região, aumentando seu envolvimento na Síria com o envio de homens da Guarda Revolucionária, influenciando a política do Líbano, em especial por meio do Hizbullah, que é um partido político ativo no país. No Iraque, destaca-se o papel de protagonismo das Forças de Mobilização Popular, milícias equipadas, treinadas e organizadas pela Força Quds, durante a guerra contra o grupo terrorista Estado Islâmico. No Iêmen, viu-se o apoio iraniano aos Houthis na guerra civil local, contra a coalizão liderada pela Arábia Saudita e que garante acesso iraniano a um eventual bloqueio do Estreito de Bab Al Mandeb, fechando o Mar Vermelho.

Isso, naturalmente, colocou os EUA e o Irã em uma rota de colisão no ano de 2019, com a ocorrência de diversos eventos, caracterizando uma escalada de crise. O Irã capturou uma aeronave remotamente pilotada da Marinha dos EUA, que possui uma força-tarefa com navio-aeródromo no Golfo Pérsico, por tentativas iranianas de interferir no tráfego de navios petroleiros de países da região e de potências ocidentais, sendo que a força naval da Guarda Revolucionária conseguiu capturar um navio petroleiro britânico.

Em um movimento controverso mesmo para setores do governo norte-americano, a Guarda Revolucionária do Irã foi designada pelo Departamento de Estado dos EUA como uma organização terrorista, ato respondido pelo Irã com a designação das Forças Armadas dos EUA como organizações terroristas.

Em setembro de 2019, um ataque a duas refinarias de petróleo na Arábia Saudita, teve um grande efeito na economia mundial. Em questão de minutos, o ataque afetou 5% da produção mundial de petróleo. Embora reivindicado pelos Houthis do Iêmen, tanto Arábia Saudita quanto os EUA declararam o Irã como responsável pela ação, uma vez que o grupo não teria os recursos nem a capacidade para promover tal ataque.

O movimento mais recente do conflito

O ponto final dessa escalada se deu no Iraque, quando, em 27 de dezembro de 2019, um ataque à base K1, que hospeda forças iraquianas e americanas, matou um contratado militar privado norte-americano e feriu soldados, também norte-americanos, levando os EUA a realizarem ataques contra bases das Forças de Mobilização Popular no norte do Iraque e sudeste da Síria, matando 25 e ferindo 50 membros de tais milícias.

A resposta se deu em 31 de dezembro, quando, a título de uma procissão funeral, elementos das Forças de Mobilização Popular ingressaram na “zona verde” de Bagdá, uma área fortificada da capital onde se localizam diversos prédios do governo e representações estrangeiras, tendo como alvo a Embaixada dos EUA, que foi cercada. A tentativa de invasão foi abortada pela reação americana, com o envio de fuzileiros navais e helicópteros de ataque, além do envio em 18 horas de 750 paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada.

Em 1º de janeiro de 2020, com a presença de efetivos militares norte-americanos e presença de tropas iraquianas, as Forças de Mobilização Popular levantaram o cerco a Embaixada e se retiraram. No mesmo dia, o Secretário de Defesa dos EUA alerta que o Irã estava preparando ataque a instalações e pessoal norte-americano no Oriente Médio e que se ocorresse algo, haveria resposta por parte dos EUA.

No dia 2 de janeiro, uma aeronave remotamente pilotada MQ-9 Reaper, do Comando Conjunto de Operações Especiais dos EUA, realizou o ataque que eliminou o General Qasem Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis, líder da milícia Kata’ib Hizbullah e vice-comandante das Forças de Mobilização Popular, nos arredores do aeroporto de Bagdá. As repercussões da ação americana e da eliminação de Soleimani ainda estão em movimento, não sendo possível registrar a todas.

O Irã prometeu se vingar da morte de Soleimani e disto decorrem diversas possibilidades:

• Não há garantias de uma resposta iraniana imediata, mesmo por causa dos três dias de luto pela morte de Soleimani e dos possíveis preparativos para uma ação.

• Embora a maior ameaça aos EUA na região seja um ataque cinético direto do Irã, por causa dos mísseis e foguetes produzidos por este, tal curso de ação é improvável, pois envolveria o Irã em uma guerra convencional com os EUA, coisa da qual o país conseguiu evitar até o momento e parece pretender assim continuar.

• Não há dúvida que o Irã pode tentar realizar ataques como os feitos às refinarias sauditas, em setembro de 2019, usando enxames de aeronaves remotamente pilotadas contra instalações dos EUA no Oriente Médio e tendo como cobertura a atuação de alguns de seus agentes, como as Forças de Mobilização Popular, os Houthis, dentre outros.

• Há uma chance significativa de que o Irã tente “espelhar” a ação americana que eliminou Soleimani, tendo como alvo uma alta autoridade militar ou civil dos EUA, ao mesmo tempo que poderia lançar ações violentas por meio de seus agentes na região contra pessoal norte-americano militar ou civil. Esta possibilidade foi considerada pelo Departamento de Defesa dos EUA, que reduziu as operações na região como meio de prover segurança a seus militares.

• Existe, ainda, a possibilidade do Irã valer-se da utilização de ciberataques contra alvos de interesse dos EUA, o que pode afetar a internet global, com vírus de propagação planetária em poucas horas.

• Da mesma forma, não se pode olvidar da possibilidade de o Irã valer-se de ações de guerra irregular contra alvos norte-americanos, no Oriente Médio, principalmente, ou ainda, em território norte-americano, de forma secundária.

O que se pode extrair do fato recente é que se trata da continuação de um conflito típico do século XXI, onde aparecem atores estatais entremeados com organizações não estatais que atuam isoladamente ou operacionalizando interesses dos países envolvidos, com amplas características de guerra híbrida conduzida em ambiente absolutamente volátil, incerto, complexo e ambíguo. Apesar do elevado impacto da recente ação norte-americana e da possível reação iraniana na escalada das hostilidades, há que se entender que estamos vivenciando, sim, o novo modo dos conflitos contemporâneos, no qual esse tipo de embate será muito mais comum.


1 Coordenador Adjunto da área temática Conflitos Bélicos – Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).
2 Segundo o manual C 124-1 Estratégia: Conflito - É o enfrentamento intencional entre oponentes, predispostos a usar variado grau de violência. Possui uma ampla faixa de abrangência que vai do conflito entre indivíduos ou grupos de indivíduos ao que ocorre entre Estados ou grupos de Estados. A guerra é o conflito no seu grau máximo de violência. Crise - É um fenômeno complexo, de diversas origens, internas ou externas ao país, caracterizado por um estado de grandes tensões, com elevada probabilidade de agravamento, e risco de sérias consequências, não permitindo que se anteveja com clareza o curso de sua evolução.

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