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O Emprego de fogos pela Rússia no Conflito Russo-Ucraniano

Publicado: Quinta, 23 de Junho de 2022, 07h01 | Última atualização em Quarta, 22 de Junho de 2022, 11h05 | Acessos: 458

 

Cezar Augusto Rodrigues Lima Junior

Major aluno do primeiro ano do Curso de Comando e Estado-Maior

 

1. Introdução

Em 2014, os russos surpreenderam o mundo com o uso de guerra eletrônica, cibernética e de drones para o levantamento e confirmação de alvos destinados a realização de ataques de artilharia na região do Donbass. Naquela ocasião, obuses e foguetes destruíram a capacidade de combater de dois Batalhões ucranianos num episódio bastante conhecido e que já consta em alguns manuais doutrinários, como o FM 3-0 Operations, do Exército dos Estados Unidos da América (UNITED STATES OF AMERICA, 2017). Presume-se que esse ataque tenha partido de um novo tipo de formação militar, qual seja: Força-Tarefa semiautônoma, também conhecida como BTG (Battalion Tactical Group), ou simplesmente Grupo Tático de Batalhão.

Em síntese, tal estrutura de combate agrega mais poder de fogo a um Batalhão do que o prescrito na doutrina ocidental em vigor. Pode, inclusive, dispor ao seu Comandante, a capacidade de saturação por foguetes. O que os ocidentais entendem por apoio de fogo adequado, para os russos parece ser muito mais. O Comandante do BTG não só tem poder fogo, mas também possui meios de busca e a liberdade de decisão necessária para causar danos significativos ao inimigo. A capacidade de reconhecimento e ataque no nível Unidade é o que torna o BTG tão poderoso e surpreendente, quase numa “pequena Brigada”.

A velocidade como se deu a invasão russa no território ucraniano, associada ao cerco do Exército russo a importantes cidades ucranianas como Kiev, Kharkiv, Odessa e Mariupol, indicam que os russos estejam utilizando, de maneira bem-sucedida, o BTG contra os ucranianos. Dito isto, este artigo tem como finalidade apresentar a maneira pela qual a Rússia está empregando os meios de apoio de fogo nesse conflito contra a Ucrânia.

2. Revisitando a história

Ao revisitar a história militar, verifica-se que durante a 2ª Guerra Mundial, o Exército alemão surpreendeu o mundo com várias inovações no campo de batalha. Inovações que não ficaram restritas ao segmento tecnológico, pelo contrário, de forma hábil e inteligente, os alemães utilizaram novos equipamentos militares sob o contexto de uma doutrina militar até então inédita (GUDERIAN, 2009). Emprego de armas combinadas, controle das comunicações entre o Comandante e os carros, uso da artilharia e apoio aéreo para avançar sobre o inimigo, são apenas alguns exemplos. Da mesma forma como os alemães na 2ª Guerra Mundial, os russos estão tendo sucesso atualmente, pois mesclam o emprego de novos equipamentos militares com a utilização de uma doutrina militar até então desconhecida, fato que surpreendeu os ucranianos.

A maneira como os alemães empregaram os blindados na 2ª Guerra Mundial surpreendeu a todos porque eles souberam identificar e potencializar as inovações da época em prol de uma importante mudança na doutrina (MACKSEY, 2008). De maneira semelhante, os russos estão fazendo atualmente. No entanto, a inovação não está nos blindados, mas sim na artilharia. Desta vez, “encurtando as distâncias”, ao promover um link direto dos meios de busca (drones), com os meios de apoio de fogo e colocando tudo isso nas mãos de um Comandante de Batalhão que possui capacidades altamente móveis.

3. Inovações doutrinárias

Em que pese o emprego de fogos de contrabateria em alvos identificados pela inteligência e de que a utilização de drones na busca de alvos não sejam fatos inovadores, a maneira pela qual isso ocorre nesse conflito é inédita. A velocidade com que os ucranianos foram surpreendidos com o primeiro som das aeronaves remotamente pilotadas e, posteriormente, foram atacados em 2014, demonstra a eficiência dessa mudança, hoje consolidada, e o que deve ser interpretado pelos ocidentais como uma quebra de paradigmas no planejamento e na coordenação de fogos.

O que se pode observar nessa contenda é que os russos permanecem dando grande importância aos fogos, principalmente no uso de seus obuseiros, como o 2S19 de 152,4 mm, e lançadores de foguetes como o 9A52-4 Tornado. Ou mesmo no ataque à Ohtyrka em 1º de março de 2022, onde setenta soldados ucranianos foram mortos num ataque de um único míssil balístico Iskander (BEAUMNOT, 2022).

Costuma-se dizer que os russos, muitas vezes, manobram pelo fogo, tudo para minar ao máximo o poder de combate do inimigo. Quando passaram a atacar os alvos em poucos minutos e com a grande letalidade de suas munições termobáricas usando a descentralização para aumentar a eficiência dos fogos, os russos deram um salto à frente. Isso se deve especificamente ao uso combinado do sistemas de drones e artilharia, ou estabeleceram um link eficiente entre os três subsistemas: 1) busca de alvos; 2) direção e coordenação; e 3) linha de fogo (BAKER, 2022).

Parece que os meios de artilharia, como ocorrido em outrora na defesa em profundidade em Kursk, volta a ser vista como emprego massivo numa guerra convencional (CROSS, 2008). Tudo isso, em tempos em que o ocidente por décadas se agarrou a doutrinas de contra insurgência e relegou aos fogos um papel secundário, quiçá terciário, deixando parte do seu poder de combate quase que desvanecer ou sucatear.

Além do uso de drones, os russos também utilizam seus meios de guerra eletrônica, radares de contrabateria e, até mesmo, a cibernética para a localização da artilharia e de outros meios ucranianos (FOX, 2022). Tal capacidade torna a sobrevivência das tropas ucranianas extremamente difícil, mesmo com as lições colhidas em 2014 e 2015.

Embora seja interessante ver certas mudanças e quebras de paradigmas no emprego de tropas em combate, a guerra continua sendo guerra e os russos usam sua artilharia autopropulsada da mesma maneira há quase oitenta anos, com os seus 2S19 acompanhando as colunas de blindados no eixo estratégico Norte-Sul, fornecendo o famigerado “apoio cerrado e contínuo”. A verdadeira inovação, a meu ver, está na velocidade da integração entre fogos e inteligência.

4. Considerações finais

Do exposto, pode-se verificar que um dos grandes trunfos militares dos russos nesse conflito é a capacidade de destruir grande parte do poder de combate do inimigo, empregando fogos de artilharia altamente eficazes e letais num espaço de tempo muito pequeno entre o levantamento dos alvos e a execução das missões de tiro. Isso se deve a uma excepcional capacidade de sincronização entre os subsistemas da artilharia, onde a busca de alvos tem adquirido papel cada vez mais relevante, ao mesmo tempo que detém o poder de “martelar” os meios inimigos (CRANNY-EVANS, 2022).

Por fim, apesar da natureza da guerra, de seus efeitos colaterais sobre os civis, da justiça ou não, e do porquê de as nações optarem por escalar a crise para o pior dos cenários, pode-se tirar alguns ensinamentos dela para que a sociedade esteja mais bem preparada para um cenário semelhante no futuro. Dito isto, é importante destacar que a busca de alvos é fundamental e deve ser trabalhada em sinergia com os meios de apoio de fogo. Além disso, a descentralização dos meios de apoio de fogo, associada à liberdade para empregá-los nos escalões mais baixos, tem se mostrado uma boa solução para alcançar os objetivos fornecidos pelo escalão superior de forma mais rápida. Armas com alta precisão e elevada letalidade são fundamentais para minar o poder de combate do inimigo e sua vontade de lutar.

 

  1. BAKER, Ryan. The russian invasion has some logistical problems. That doesn’t mean it’s doomed. The Washington Post, 28 Fev. 2022. Disponível em: https://www. washingtonpost.com/politics/2022/02/28/russia-ukraine-logistics-invasion/. Acesso em: 28 Fev. 2022.

  2. BEAUMONT, Peter. More than 70 ukrainian soldiers killed in Russian attack on a base near kharkiv. The Guardian. 01 de março de 2020. Disponível em: https://www. theguardian.com/world/2022/mar/01/fears-of-bloody-fight-for-kyiv-as-huge-russian-ar mt-convoy-gathers-on-outskirts. Acesso em: 28 Fev. 2022.

  3. CRANNY-EVANS, Sam. The role of artillery in a war between Russia and Ukraine. Rusi, 24 Fev. 2022. Disponível em: https://rusi.org/explore-our-research/publ ications/commentary/role-artillery-war-between-russia-and-ukraine. Acesso em: 28 Fev. 2022.

  4. CROSS, Robin. Citadel - A batalha de kursk. Rio de Janeiro: Bibliex, 2008.

  5. FOX, Amos. The Russian-ukranian war: understanding the dust clouds on the battlefield. MWI, 17 de janeiro de 2017. Disponível em: https://mwi.usma.edu/russian-ukrainian-war-understanding-dust-clouds-battlefield/. Acesso em: 28 Fev. 2022.

    GUDERIAN, Heinz. Achtung panzer. Rio de Janeiro: Bibliex, 2009.

  6. MACKSEY, Kenneth. Guderian. General panzer. Barcelona: Tempus, 2008.

  7. UNITED STATES OF AMERICA. Department of the Army. FM 3-0: Operations. Pg 1-3, 2017.

 

Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho de 2022.


Como citar este documento:
Lima Junior, Cezar Augusto Rodrigues. O Emprego de fogos pela Rússia no Conflito Russo-Ucraniano. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

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