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O atual conflito de Nagorno - Karabakh e os ensinamentos para a Doutrina Militar Brasileira

Publicado: Terça, 20 de Outubro de 2020, 17h17 | Última atualização em Quarta, 21 de Outubro de 2020, 17h05 | Acessos: 827

Luciano Hickert

Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME

INTRODUÇÃO1

O conflito entre Azerbaijão e Armênia pelo controle da província de Artsakh (Nagorno-Karabakh) tem se intensificado nas primeiras duas semanas de agosto de 2020. Adicionados à pandemia do vírus Covid-19, que atinge também essa região do Cáucaso, essas agressões mútuas agravam os problemas humanitários da área.

Para a compreensão do problema é necessário o entendimento do contexto histórico e geopolítico do conflito, ambientando o leitor sobre as motivações dos beligerantes. Por fim, destaca-se a relação das doutrinas empregadas naquela guerra com a doutrina terrestre brasileira.

O conflito de Nagorno-Karabakh iniciou-se em 1988 e se estende até os dias atuais, recebendo desde sua eclosão pequena atenção das mídias ocidentais. Milhares de pessoas perderam suas vidas nesses mais de 30 anos de conflito, e grave crise humanitária ocorre naquela fronteira entre Europa e Ásia, sem que sejam mobilizados os órgãos de segurança internacional para a condução de uma solução para a disputa.

A região do Cáucaso compreende a região euroasiática situada entre o mar Cáspio e o mar Negro, de terreno movimentado e disputada historicamente por muçulmanos (Azeris, turcos, curdos e iranianos) e por cristãos (Armênios e ortodoxos).

A região tem propensão para conflitos por conta a sua localização estratégica, pela multiplicidade de etnias e culturas que vivem no território, além de ser alvo de interesse das potências globais que a cerca (WEBER, 2016).

Além disso, o mar Cáspio tem revelado grandes reservas energéticas, aumentando a importância geopolítica da área, o que atrai a atenção das potências mundiais. Oleodutos foram planejados para enviar o petróleo para a Europa, passando pelo Azerbaijão e seguindo por Geórgia e Turquia, servindo como alternativa à Rússia e à Ucrânia, como o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (IPEK, 2020).

Para entendermos a crise na área e os ressentimos étnicos, até os dias atuais, deve-se compreender os acontecimentos no século passado. A dissolução do Império Otomano, que culminou na derrota turca na Primeira Guerra Mundial, teve forte impacto sobre população armênia. Os armênios buscaram sua independência, e foram reprimidos fortemente pela Turquia, a partir de 1915. Apesar da atuante denúncia brasileira na época, que destacava a necessidade de intervenção humanitária, o conflito provocou cerca de um milhão de cristãos armênios mortos e perseguidos (LOUREIRO, 2016).

Dois anos após a sua independência em 1918, a União Soviética invadiu a Armênia, e manteve um firme controle na região, neutralizando os conflitos étnicos por seis décadas. Ainda na década de 1920, Stálin decidiu manter o território de Nagorno-Karabakh, de maioria armênia, como uma região autônoma, do Azerbaijão. Somente com o início da dissolução da URSS é que a questão da autonomia da área voltou à tona. A população de maioria armênia acusou o governo local de conduzir uma “azerificação” forçada da região, e, com apoio armeno, começou um movimento para a autonomia da região.

Nas últimas décadas, a região transcaucasiana tem apresentado diversos conflitos, dos quais se destacam o conflito da Chechênia, em 1999, envolvendo Rússia e os habitantes locais. Outro conflito ocorreu na Geórgia, em 2008, na região da Ossétia do Sul e Abecásia, com outra intervenção russa na região Norte do Cáucaso. Os conflitos na área ampliaram-se com a ocupação do Leste da Ucrânia na atual década, ampliando a influência de Moscou no Cáucaso.

Figura 1 – Mapa do Sul do Cáucaso, com destaque para os países da região
Mapa do Sul do Cáucaso, com destaque para os países da regiãoFonte: Matveeva (2002).

 

O uso de meios militares russos e doutrinas similares às empregadas na Chechênia, Ossétia do Sul e, mais recentemente, Ucrânia, torna interessante a comparação entre as práticas empregadas no conflito e as atualmente estudadas no Brasil, podendo contribuir para a melhoria da doutrina do Exército Brasileiro. O emprego de meios convencionais, apontados como obsoletos por entusiastas das novas tecnologias, somados aos esforços pela busca da legitimidade e controle das informações, tem se mostrado assuntos cada vez mais fundamentais para a manutenção do poderio militar das forças envolvidas

As recentes publicações sobre doutrina de emprego militar, no Brasil, de 2019 e 2020, tem destacado a amplitude dos conflitos modernos, destacando as três dimensões do ambiente operacional, as funções de combate e conferindo atenção à interoperacionalidade, seja entre os sistemas militares, seja entre militares e civis, servindo de arcabouço para a estrutura do presente estudo, demonstrando o esforço de busca pela atualização constante. Nesse aspecto, destacam-se os manuais de Doutrina Militar Terrestre (BRASIL, 2019) e o Processo de Planejamento e Condução de Operações Militares (BRASIL, 2020).

Ao analisar o conflito poderá ser verificado onde a doutrina brasileira está atualizada, e onde merece modernização. Essa doutrina compreende não apenas aspectos físicos da preparação militar, mas diferentes aspectos para a condução de conflitos, especialmente em um ambiente volátil, incerto e ambíguo.

O estudo ganha ainda mais relevância pois poucos conflitos são tão atuais e oferecem tantas oportunidades para o estudo da doutrina russa como o que será analisado a seguir. O Exército Brasileiro tem buscado acompanhar as doutrinas militares das principais potências mundiais, com maior atenção aos países ocidentais, como Estados Unidos, França e Inglaterra, dedicando menor dedicação para as potências orientais.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 Contexto geopolítico do conflito

O entendimento da geopolítica no Cáucaso é fundamental para a compreensão geral do problema. A Rússia adota uma postura ambígua, pois além de apoiar Armênia, mantém uma aliança econômica com o Azerbaijão. A aliança entre Armênia e Rússia pode ser analisada por uma perspectiva em que a Armênia busca apoio e proteção de uma potência num momento de conflito, enquanto a Rússia busca reforçar sua influência sobre aquele território. Por sua vez, os azeris conservam suas relações com os russos, e sustentam uma relação indireta com os turcos e EUA, alinhandose ao ocidente.

Neste contexto, os Estados Unidos, por meio de uma política externa abrangente, tentam alcançar a região do Cáucaso na intenção de formar alianças militares, como na Turquia, e estar mais próximo da Rússia objetivando circundá-la. Essas alianças chegaram a colocar Rússia e Estados Unidos mais uma vez em posições de divergência. Isso ocorreu, por exemplo, após a Revolução Rosa, na Geórgia, apoiada pelos EUA, trazendo grande aproximação entre estes dois Estados (MEARSHEI- MER, 2014).

Figura 2 – Mapa da região do Conflito, com destaque para países vizinhos
Mapa da região do Conflito, com destaque para países vizinhosFonte: Junior e Xavier (2019).

 

Assim, a Rússia tem um interesse estratégico no conflito de Artsakh, desempenhado um papel central nas relações entre as nações envolvidas e posicionando-se como pacificadora. Paradoxalmente, Moscou tem usado o conflito para ganhar vantagens táticas sobre Armênia e Azerbaijão, o que garante aos russos uma posição no Sul do Cáucaso. Durante a guerra na década de 1990, a Rússia jogou pelos dois lados, até ajudar os armênios na última fase do conflito naquela época (WAAL, 2015).

Portanto, é visível a busca tanto da Rússia, quanto dos EUA, pela maximização de poder e influência. Assim, o conflito do Nagorno - Karabakh apresenta a presença de atores geopolíticos e uma multifacetada rede de interesses por trás dele. Desta forma, para impor a sua agenda de política internacional, qualquer um desses atores podem interferir naquela região de importância econômica.

Somado aos problemas citados, Irã e Turquia, principal aliada histórica do Azerbaijão, enfrentam graves crises políticas e econômicas, ajudando a desestabilizar a região. Não suficiente, a minoria curda existente tem atuado de forma dinâmica na Síria, Iraque e Turquia para reconstituir um Estado, influenciando negativamente para a paz regional, e acentuando os problemas étnicos.

A Rússia é outra causa dos conflitos entre o Azerbaijão e a Armênia, pois ambos os países da Transcaucásia têm importância geopolítica para o Kremlin. O Azerbaijão recebe mais da metade de todas as suas armas de seu vizinho do norte. Essa parcela significativa ocupada pelos russos nos arsenais de Baku não só dá a Moscou uma renda adicional, mas também cria uma fonte de influência política (HARBER, 2020).

A situação para a Armênia não é diferente. O Kremlin tem uma base militar na cidade de Gyumri, que fica a 2 horas de carro de Yerevan. Na Armênia existem mais de 3 mil soldados russos cuja presença é um condutor da influência da Rússia na região, em contraponto à Turquia e à influência dos países e instituições ocidentais, como a OTAN. Nesse sentido, a continuação do conflito permite à Rússia todas as oportunidades de atuar como mediador, garantindo influência política, militar e econômica em a região (HARBER, 2020).

Destaca-se, ainda, a questão religiosa do conflito, que apesar de não ser a causa principal, aparece como um elemento contribuinte para a escalada da crise. Os armênios sofreram opressões durante o período em que a região estava sujeita ao domínio azeri. Toda uma cultura secular armênia existente no território sofreu privações, principalmente em relação à sua liberdade religiosa, produzindo ressentimentos de difícil superação (MENDONÇA, 2012).

Desta maneira, o conflito na região de Nagorno - Karabakh se explica também pela relação de interesses políticos e econômicos na área, encontrando amparo nas teorias geopolíticas de Mackinder e Brzezinski para a Eurásia, que delimitam uma área entre o centro e periferia do planeta como uma área conturbada por sua posição geográfica. Coincidentemente, o Cáucaso encontra-se nesta posição de atrito defendida pelos autores, em que diversos países buscam regular sua influência frente aos outros (BRZEZINSKI, 2012, p. 312).

2.2 O conflito entre 1988 e 2018.

Para compreender melhor o presente, deve-se recordar 22 de fevereiro de 1988, quando o conflito de Nagorno - Karabakh foi iniciado. Naquele dia, um grupo de azeris atacou um grupo de armênios, provocando violência generalizada entre as etnias. Milhares de deslocados abandonaram as regiões da Armênia, de Artsakh e do Azerbaijão, à medida que se iniciou a violência contra as populações minoritárias nas áreas.

Em outono de 1989, o conflito se intensificou, levando a União Soviética a conceder às autoridades azeris maior poder para controlar a região. A política soviética, no entanto, teve o efeito contrário ao esperado. Depois de uma decisão conjunta dos armênios e de dirigentes de Nagorno - Karabakh, foi proclamado a independência da região de Artsakh, em 1991.

As tropas do Azerbaijão e Armênia empregaram um grande número de mercenários, e até mujahidin afegãos participaram no combate pelo lado azeri, acompanhado de chechenos. No fim de 1993, o conflito já havia provocado milhares de vítimas, e criado centenas de milhares de refugiados em ambos os lados.

Em maio de 1994 os armênios dominavam cerca de 14% do território do Azerbaijão; a esta altura o governo deste país decidiu, pela primeira vez no conflito, reconhecer o Nagorno - Karabakh como uma terceira força envolvida no conflito, e iniciar negociações diretas com as autoridades carabaques.

Merece destaque que somente em 1993 os contendores converteram-se signatários dos acordos de direito internacional. Os governos se acusam mutuamente de cometimento de atrocidades, muitas confirmadas por fontes de organizações de direitos humanos. O massacre de Khojali, por exemplo, foi confirmado pela Human Rights Watch e Memorial, e o massacre de Maraghar foi denunciado por um grupo da organização Christian Solidarity Worlwide, em 1992. O Azerbaijão foi condenado por uso de bombardeios aéreos em zonas civis densamente povoadas, e ambas as partes foram criticadas por fogo indiscriminado, tomada de reféns e deslocamento forçado de civis. Os saques e a mutilação de soldados mortos viraram prática comum na época.

Quatro resoluções do Conselho de Segurança da ONU, aprovadas em 1993, requereram a retirada das forças armênias das regiões não abrangidas nas fronteiras de Nagorno - Karabakh, estando ainda em vigor, garantindo maior legitimidade ao Azerbaijão no conflito.

Em agosto de 2008, os Estados Unidos, França e Rússia (membros do Grupo de Minsk) começaram a negociar o fim do conflito, propondo um referendo sobre o status da região, que culminou com a viagem do Presidente azeri, Ilham Aliyev, e do seu equivalente armênio, Serj Sarkisian, até Moscou, para negociações de paz mediadas pelo presidente russo Dmitri Medvedev. A rodada de negociações terminou com um acordo parcial, assinado pelos três presidentes. Mesmo com as negociações, as relações entre Armênia, a República de Artsakh e Azerbaijão continuaram a se deteriorar, com ameaças mútuas e tiroteios ao longo da fronteira. Ambos os lados se acusam de iniciar os combates, inclusive com o emprego de artilharia.

Em 02 abril de 2016, Armênia e Azerbaijão retomaram os enfrentamentos na linha de contato entre suas forças armadas, na denominada "A Guerra de 4 dias", com bombardeio dos territórios. Os primeiros enfrentamentos iniciaram-se na madrugada, com tropas de Azerbaijão iniciando o ataque noturno, mediante fogos de artilharia pesada, veículos blindados, e aviação. O Ministério da Defesa do Azerbaijão declarou que a ocupação de vários pontos dominantes de Karabakh, incluíndo a aldea Seysulan, as alturas ao redor da aldea Talysh e Leletepe, foi para assegurar maior segurança para a região. Em 05 de abril de 2016, anunciou-se um cessar fogo, contudo as escaramuças persistiram.

2.3 O conflito na atualidade.

No aspecto de forças envolvidas, o Azerbaijão está realizando um programa de modernização e expansão de capacidades militares, aumentando o orçamento militar em mais de oito vezes nos últimos dez anos. Sua força terrestre conta com cerca de 57 mil integrantes, com a maioria de soldados profissionais. O equipamento militar do Azerbaijão consiste em 220 carros de combate T-72, e foram adquiridos 162 carros T-80 adicionais entre 2005 e 2010, o que poderia mobiliar pelo menos quatro Brigadas Blindadas no Brasil. Ainda, o país conta com 595 veículos mecanizados e 270 sistemas de artilharia. Em 2017, o Global Firepower classificou o Azerbaijão em 59º lugar dentre 127 países em força militar, com o melhor desempenho dentre os países do Sul caucasiano (GLOBAL FIREPOWER, 2020).

O Exército Armeno é composto por cerca de 50 mil homens, e também opera com variado material russo. Investiu em novas armas entre 2015 e 2017, destacando-se pelo menos a aquisição de 20 carros de combate T-80, 137 carros T-72. e 140 veículos blindados, podendo mobiliar cerca duas Brigadas Blindadas nos moldes brasileiros. Ainda possui cerca de 200 veículos blindados sobre rodas, e tem enfrentado dificuldades para manter suas forças pesadas. Busca, ademais, ampliar suas capacidades de operar em terreno montanhoso (GLOBAL FIREPOWER, 2020).

O Artsakh possui 20,000 soldados na ativa, dos quais 80 por cento são armênios, defendendo as posições na fronteira. Eles estão bem treinados e são equipados com 316 carros de combate, 324 veículos blindados, 322 peças de artilharia acima de 122mm, 44 lançadores múltiplos de foguetes, e nova artilharia antiaérea de baixo e médio alcance. Comparando com a realidade brasileira, tais números poderiam compor até quatro Brigadas Blindadas brasileiras. Assim, somadas as capacidades armenas e do Artsakh, os azeris parecem estar em desvantagem numérica em termos de equipamentos blindados, existindo equilíbrio nos efetivos totais.

Figura 3 – Áreas ocupadas do Azerbaijão e de Nagorno - Karabakh e Armênia
Áreas ocupadas do Azerbaijão e de Nagorno - Karabakh e ArmêniaFonte: Kucera (2020).

 

O aumento recente dos gastos militares do Azerbaijão, financiado pelo petróleo, pode assinalar o desequilíbrio no conflito, com a Armênia em desvantagem. Esse reaparelhamento pode ser um dos motivos para os recentes conflitos na região que voltaram aos noticiários no mês de julho de 2020, em plena crise provocada pelo vírus Covid 19. Foram relatados bombardeios mútuos das posições fortificadas na fronteira de Nagorno - Karabakh, que provocaram a morte de cerca de 12 militares azeris e 18 armenos, com um helicóptero sendo derrubado. Dessa forma, as hostilidades recrudesceram, e reiniciaram os bombardeios de vilas e bases militares fronteiriças. (YESILADA, 2020).

As autoridades do Azerbaijão disseram que o fogo de artilharia armênia matou um civil, Aziz Azizov, da vila de Aghdam, no distrito de Tovuz, no oeste do Azerbaijão, em 14 de julho. Diversas casas também foram atingidas na vila próxima de Dondar Gushchu e a vila de Alibeyli foi alvo, segundo os relatórios da Eurasianet. (YESILADA, 2020).

Do outro lado da fronteira com a Armênia, o fogo do drone do Azerbaijão atingiu a “infraestrutura civil” na vila de Berd em 14 de julho, informou o lado armênio. No dia anterior, as aldeias de Chinari e Aygepar foram visadas, disse Yerevan. Sete soldados azeris, incluindo um general de duas estrelas, foram mortos no conflito de 14 de julho, informaram as autoridades do país. O lado armênio relatou que dois soldados morreram no início do dia e mais dois no final da tarde. Esse número de mortos seguiu-se à morte de três soldados azerbaijanos no dia anterior. (YESILADA, 2020).

A luta, que começou em 12 de julho, é agora a mais mortal desde a “Guerra de abril” de 2016, quando mais de 200 de ambos os lados foram mortos. O conflito ocorreu na linha de contato entre a república de Nagorno - Karabakh, controlada pela Armênia, e o próprio Azerbaijão e na fronteira internacional entre a Armênia e o Azerbaijão, onde ocorreram trocas de tiros ocasionais nos últimos anos, mas sem combate tão sério desde os anos 1990 (YESILADA, 2020).

Na noite de 27 para 28 de julho 2020, o cessar-fogo foi violado 17 vezes, com 220 tiros disparados contra posições armênias. A situação na fronteira foi relativamente calma, segundo a porta-voz do Ministério da Defesa da Armênia, Shushan Stepanian, em uma mensagem no Facebook. As Forças Armadas da Armênia foram acusadas por violar por 38 vezes o cessar-fogo em diferentes setores da frente, apenas no dia 29 julho, segundo comunicado do Ministério da Defesa do Azerbaijão. (YESILADA, 2020).

O conflito militar é a última coisa de que os países precisariam agora. Tanto a Armênia quanto o Azerbaijão estão lutando para conter a pandemia do coronavírus. O combate complica o que já é uma delicada situação humanitária em toda a região. A Rússia, o Irã e toda Ásia Central estão enfrentando taxas altas de infecção do coronavírus, com aumento do desemprego e crise econômica (STRONSKI, 2020).

Figura 4 – Mapa físico dos combates travados na região de fronteira
Mapa físico dos combates travados na região de fronteiraFonte: Yesilada (2020).

 

A retomada das hostilidades ecoou no cenário internacional. Em Moscou, azeris impediram caminhões armênios de entrar no mercado de alimentos, criando uma briga generalizada que resultou na prisão de 50 azeris, situação similar ocorreu em Istambul. Na Ucrânia, azeris atearam fogo em dois cafés armênios, não tendo o incidente deixado vítimas, com a União dos Armênios da Ucrânia condenando as ações. Além disso, armênios realizaram protestos na França, Bélgica, bem como nos Países Baixos e EUA, contra atitudes hostis dos azeris e pelo fim da violência.

A Rússia, os EUA, a UE e a ONU solicitaram em 2018 para que ambos os países encontrem uma solução pacífica, retomando as negociações, e ressaltaram a importância de impedir qualquer tipo de ação que eleve a tensão no Cáucaso. Após tantos anos de conflitos, uma solução parece ser algo difícil de acontecer ainda em 2020, com o Azerbaijão defendendo que uma saída para o desentendimento com a Armênia passa por uma libertação dos territórios ocupados, respaldado por diversas resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

2.4 Atividades militares desenvolvidas pelos litigantes em 2020

A análise dos vídeos, publicações das mídias tradicionais russas, azerís e armênias, além do conteúdo publicado pelas grandes redes de notícia internacional sobre as atividades militares desenvolvidas são o material disponível para os eventos que ocorrem nos últimos dias, representando grande limitação para uma melhor pesquisa, sendo inclusive um dos temas objetos do estudo.

Mesmo diante das evidentes limitações quanto às fontes, pode-se evidenciar diferentes aspectos doutrinários aplicados pelas Forças Armadas envolvidas no conflito, que podem ser analisadas por funções de combate. Apesar dos confrontos serem de baixa intensidade, se destaca a integração entre as dimensões do ambiente operacional: informacional, humana e física.

A evolução dos conflitos ao longo do tempo demonstrou que o aumento da sua complexidade provocou diminuição da liberdade de ação dos comandantes durante as operações. Por isso, o estudo do ambiente operacional em três dimensões tornou-se fundamental para a condução das ações de defesa, pois o controle das informações é um aspecto fundamental para aumentar a liberdade das ações físicas e humanitárias (MORGADO, 2019).

No mesmo sentido, pelo observado no conflito, a defesa nacional acarreta inúmeras necessidades de coordenação entre os diversos sistemas governamentais, sobretudo dos órgãos de mídia, de formação de opinião e mobilização nacional, não sendo mais aceitável a condução estanque de atividades militares sem participação de diversos atores. Além da complexidade de atores, não necessariamente militares, o conflito deve ser analisado de forma mais ampla possível. Nesse sentido, a análise do conflito ocorrerá nas dimensões física, informacional e humana, buscando relacionar as funções de combate

Na dimensão física, destacam-se nesse conflito alguns aspectos da guerra no século XX, conforme também foi observado nos combates na Chechênia, Ossétia e Ucrânia. Na função de combate movimento e manobra, pelas imagens geradas recentemente pela mídia mundial, foi destacado o emprego de armamento convencional, como meios blindados e mecanizados russos, com canhões de repetição. Também ficou sublinhada a busca da conquista de posições dominantes que facilitam a observação das áreas em litígio, ação já tradicional nos combates. Ademais, a proeminência de ações noturnas pode ser observada nas imagens dos combates, acentuando uma tendência que se intensifica cada vez mais, buscando a conquista de regiões ainda durante a noite. O emprego combinado de obstáculos no terreno e campos de minas, atiradores de escol e armas anticarro, tem dificultado a progressão do binômio carro-fuzileiro, forçando os dois lados a adotarem posturas mais fixas, em trincheiras preparadas para a defesa, aproveitando as características do terreno ondulado.

Ainda, a participação de paramilitares e mercenários no conflito, além de civis voluntários e reservistas, evidencia o caráter popular dos combates e sua natureza híbrida. Essas forças, muitas vezes decisivas, podem provocar efeitos indesejáveis para os assuntos civis, em especial quanto aos crimes humanitários e contra os direitos internacionais contra conflitos armados, devido a sua falta de regulamentação, disciplina e treinamento. Ainda, esses civis recrutados constituem-se instrumentos essenciais para a busca de informações, possuem maior conhecimento do terreno e das rotinas logísticas locais, recebendo cada vez maior destaque no conflito.

A função de combate fogos merece especial destaque, respeitando a doutrina russa de amplo emprego de obuses e mísseis, com menor cuidado com os danos colaterais e emprego de munição comum sobre vilas e cidades. O amplo emprego de fogos indiretos tem demonstrado a intersecção complexa entre a dimensão física e humana, especialmente quanto aos tiros não observados, que podem agravar os danos nas populações civis, legitimando e fortalecendo a vontade de combater da população adversária. O uso de drones equipados com mísseis agrega um elemento a mais para os combates, ampliando os alcances sobre alvos estratégicos.

pliando os alcances sobre alvos estratégicos. Na função proteção, percebe-se o largo emprego de trincheiras e fortificações na linha de contato, fruto do combate em posição, com amplo emprego de pontos fortes, espaldões para a artilharia e para carros de combate. O emprego de diversos materiais, inclusive improvisados, denuncia as debilidades dos meios de engenharia dos países. A existência de meios antiaéreos russos modernos dificulta o emprego das forças aéreas dos contendores, limitando as operações aerotransportadas, inclusive as de apoio logístico. Nesse contexto, os sistemas de armas antiaéreos russos de ambos contendores garante uma maior liberdade para as tropas em terra, assim como protege as forças aéreas de cada país.

Ainda, na função inteligência, destaca-se o emprego de meios de busca de alvos e informações, tanto humanos quanto de drones aéreos, produzindo dados tanto das posições em contato quanto dos meios deslocados em profundidade, oferecendo capacidades de obtenção diferenciados. Tanto os azeris quanto os armenos utilizam largamente de elementos irregulares, em especial, milícias paramilitares, melhorando os sistemas de busca de informações em profundidade, facilitados pela existência de minorias étnicas.

O emprego de forças não profissionais pela Armênia, com a maioria de soldados do serviço militar obrigatório, representa uma menor capacidade de interpretar os dados e garantir maior segurança das operações. Por outro lado, o Azerbaijão busca profissionalizar suas forças armadas, aumentando seus investimentos em defesa. Contudo, como os azeris buscam recuperar áreas perdidas, povoadas por armenos, enfrentam desvantagem para movimentar-se no terreno e para a obtenção do apoio dos moradores locais.

Destaca-se também a logística, podendo ser avaliadas as capacidades de mobilização dos recursos humanos e de meios logísticos, em regiões já empobrecidas e de difícil acesso. Com o acirramento do conflito, inúmeros são os problemas para abastecer as regiões isoladas, tanto do Artsakh, quanto do Oeste do Azerbaijão. Para tanto, são utilizados processos aéreos de suprimento, limitados, e o suprimento noturno das posições, utilizando inclusive rodovias no Irã e Turquia. Ainda, o largo emprego de artilharia implica no transporte de grandes cargas de munições, dificultando as ações logísticas.

Quanto a função comando e controle, as doutrinas similares e meios de comunicação com capacidades parecidas asseguram alguma vantagem para as tropas armenas, que em posições já conhecidas, realizando uma defensiva, podem explorar os meios físicos, que oferecem maior segurança e confiabilidade. Por outro lado, percebe-se a deterioração das lideranças políticas nos dois países, e em especial na Armênia, que provoca reflexos para o comando militar. As denúncias internas de corrupção nos governos corroem o sentimento de confiança mútua fundamental para a coesão das tropas e para o cumprimento de missões que requerem maior iniciativa e confiabilidade entre líderes e subordinados. Esse aspecto também fica evidenciada a simbiose entre aspectos de liderança e de informação, com grande correlação entre a dimensão física a informacional.

Encerrada a dimensão física, mais tradicional nos estudos militares, merece grande destaque a busca pelo controle da narrativa, por ambos lados. Eles seguem as tendências do conflito na Ucrânia, na dimensão informacional, com evidentes ações dos países beligerantes para o controle da mídia e a manutenção da mobilização militar. Assim, buscam a manutenção da liberdade de ação para a condução dos combates e redução das pressões internacionais.

A busca do controle das mídias locais para obter o apoio da população e motivar os combatentes, muito dos quais irregulares, tem recebido grande prioridade. Essas ações são paradoxais, pois por um lado fortalece a mobilização dos contendores, e por outro termina provocando acirramento dos problemas étnicos, aumentando os deslocamentos e perseguições, e podem vir a fragmentar a hierarquia e disciplina das próprias tropas.

Na guerra das informações, o conflito se ampliou para diferentes partes do globo, dos EUA e Canadá até o Paquistão, com imigrantes armênios e azeris entrando em conflito, protestando e pressionando pela intervenção internacional. Turcos e paquistaneses buscam reforçar suas ligações históricas com o Azerbaijão, ao mesmo tempo que gregos e iranianos apoiam os armenos.

A dimensão informacional tem sido fundamental para garantir a mobilização nacional dos beligerantes, assim logrando manter o interesse dos cidadãos para a participação no conflito, e conseguindo manter o investimento na área militar. Esse aspecto facilita o serviço militar obrigatório de cerca de dois anos, em ambos os países. Isso é fruto da capacidade de repassar para a população a necessidade de retomar territórios perdidos e proteger suas etnias, protegendo sua cultura e independência. Isso ocorre de forma mais evidente nas áreas mais conflituosas, provocando inclusive agravamento dos problemas humanitários, pelo acirramento das desigualdades entre cristãos e muçulmanos.

Ainda na área da informação, ao controlar as informações do que ocorre no campo de batalha, os países limitam o interesse internacional, diminuindo as pressões internacionais para o encerramento das hostilidades. Isso garante para os dois lados maior liberdade de ação para a busca de seus interesses finais, que ainda são distantes para ambos os lados. O controle sobre o acesso dos órgãos de mídia e de ajuda humanitária permite que o conflito se desenvolva de forma mais aguda, sob a tutela dos costumes locais.

Dessa maneira, a dimensão humana tem ampliada sua ligação com a dimensão informacional. Diante da baixa intensidade do conflito na atualidade, a dimensão informacional é preponderante em relação aos aspectos físicos da guerra. A ampliação da repulsa étnico-religiosa entre armênios e azeris aumenta os problemas de violência contra civis, desencadeando um constante fluxo de emigrantes e deslocados, que provocam graves problemas humanitários e agravam o conflito, provocando mais ressentimentos e um ciclo de ódio.

Na dimensão humana, o conflito tem apresentado pouco cuidado com a população, exemplificado pelo emprego de artilharia contra alvos civis. Somado a este problema, a reduzida capacidade de intervenção dos organismos internacionais, e impossibilidade de empregar uma força militar internacional na área pelos diversos interesses presentes, resulta em mútuas acusações de violações do Direito Humanitário e do DICA.

As dificuldades de acesso das mídias internacionais e o grande controle sobre a informação realizado pelos dois lados do conflito, ampliam os desafios para o controle das ações armadas sobre as populações, o que acentua e protela o fim das ações militares, retroalimentando os sentimentos de inimizade.

2.5 Ensinamentos do conflito para a doutrina brasileira

O atual conflito de Nagorno - Karabakh demonstra diversos aspectos importantes que podem representar ensinamentos para a Força Terrestre, tanto para aspectos estratégicos, quanto para aspectos táticos, nas três dimensões operacionais.

Na dimensão física, o conflito comprova que a doutrina militar brasileira se encontra atualizada e adaptada para os meios existentes no Brasil, similar a dos contendores. As modernas armas divulgadas pela mídia internacional colocam em dúvida alguns aspectos tradicionais do combate, como emprego de artilharia de tubo, munições não inteligentes e trincheiras, mas esses recursos se mostram atuais no conflito de Nagorno - Karabakh.

O emprego de grupos paramilitares e forças especiais, por ambos os lados, comprova o caráter híbrido do conflito, agregando diversas funções de combate, conciliando meios tradicionais e tecnológicos avançados, como drones e sistemas de mísseis antiaéreos de média altura, aspectos que se encontram em aperfeiçoamento na doutrina brasileira.

Destaca-se que os beligerantes já possuem artilharia antiaérea de média altura, drones e meios blindados sobre roda que possuem torres remotamente controladas e equipadas com canhões automáticos, similares aos que o Brasil busca adquirir para suas forças armadas, reforçando a necessidades desses itens.

Na dimensão informacional, destaca-se a capacidade de ambos os contendores para controlar as mídias locais e para manipular a produção de material midiático nas zonas de contato, impedindo o acesso de jornalistas nacionais e internacionais ao local sem controle e supervisão.

Conforme se percebe no conflito de Nagorno - Karabakh, os países beligerantes conseguem mobilizar sua população, com um controle muito rígido das mídias. Contudo, essas ações dificultam o exercício de fiscalização democrática dos governos e resulta, também como efeito colateral, no aumento das disputas étnicas e religiosas, assim como podem aprofundar problemas de gestão e corrupção.

Assim, a dimensão informacional termina sendo decisiva para agravar problemas humanitários e para afastar os organismos internacionais da área, refletindo diretamente na dimensão humana. O afastamento dos órgãos de ajuda humanitária agrava os problemas com refugiados, com civis atingidos e de violência étnica, sem que sejam solucionados alguns crimes cometidos.

No Brasil, a Força Terrestre tem empenhado grande atenção na dimensão humana dos combates, fruto do emprego constante em missões de GLO e interagências. O estudo da proteção de civis, dos assuntos civis e a evolução da doutrina, acompanhando as mais novas tendências mundiais, coloca o Brasil mais próximo ao estado da arte no assunto, sem que o controle da informação receba a mesma atenção.

Para o Exército Brasileiro, poucos ensinamentos podem ser colhidos do conflito na dimensão humana. Um dos aspectos que podem servir como tema de estudo é a inexistência de ressentimentos entre brasileiros em níveis parecidos aos existentes no Cáucaso, o que pode conduzir nossa Força Terrestre a não considerar com maior profundidade o preparo dos militares para confrontos que envolvam tamanho antagonismo cultural.

Estas lições têm correlação com alguns pontos debatidos pelos doutrinadores russos e norteamericanos, sendo que a doutrina militar russa tem tido menor penetração nos estudos doutrinários brasileiros. Desde 2013, o Chefe do Estado-Maior Russo, General Valeriy Gerasimov, junto com outros estrategistas militares, tem enfatizado o uso crescente de medidas não militares em todo o espectro do conflito. A doutrina militar russa de 2014 ampliou esse conceito, que os líderes militares então operacionalizaram na Ucrânia, Síria e possivelmente Venezuela (MARISSINOV, 2020).

Gerasimov descreveu que a doutrina russa atualizada priorizaria novos recursos como robótica de combate, inteligência artificial e uma sofisticação crescente na combinação de ferramentas militares e não militares para obter resultados. Ele apontou que ameaças militares e não militares integradas irão logicamente exigir uma defesa integrada, e ainda observou que durante um conflito militar, os inimigos realizarão ações indiretas para desestabilizar a Rússia internamente, ao mesmo tempo que conduzem operações militares (MARISSINOV, 2020).

A doutrina russa de 2014 mencionou brevemente pela primeira vez empresas militares privadas, listandoas como uma característica dos conflitos modernos. Desde então, empresas militares privadas participaram ao lado de forças regulares em complexos espaços de batalha na Síria, Ucrânia e Líbia. A doutrina a ser revisada na Rússia, em 2020, provavelmente, pode apenas incluir uma referência vaga ou codificada ao papel crescente dos empreiteiros militares privados, com linguagem semelhante a uma declaração como a de Gerasimov: “O número de atores que participam do combate armado está aumentando. Junto com as forças armadas de estados soberanos, vários grupos rebeldes, empresas privadas e autoproclamados ‘quase-estados’ são combatentes no campo de batalha” (MARISSINOV, 2020).

Por fim, o conflito de Nagorno - Karabakh demonstra a aplicação de diversos aspectos da doutrina russa moderna, sobretudo quanto ao controle do espaço informacional e o uso de diversos instrumentos de poder para a conquista dos objetivos das nações envolvidas. Um conflito rico para ser estudado sob ponto de vista histórico, geopolítico e militar, que pode oferecer uma abundante fonte de ensinamentos para as Forças Armadas Brasileiras.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conflito de Nagorno - Karabakh tem evidenciado o caráter híbrido dos conflitos modernos, destacando a sincronia das ações militares e civis em três dimensões da guerra moderna. Do estudo dos fatores operacionais, destacaram-se os aspectos da dimensão informacional, pois o controle da informação tem se mostrado fundamental para a mobilização de forças em nível operacional e para a liberdade de manobra no nível tático. Nesse aspecto, se percebe que a doutrina estudada na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, ECEME, encontra-se atualizada e em sintonia com diversos aspectos observados nos combates.

Nessa direção, pode-se concluir que o conflito de Nagorno - Karabakh tem sido disputado nos diversos domínios: físico, informacional e humano, mas que é cada vez mais importante o controle da imprensa para a condução da guerra. Ainda, apenas a expressão militar do poder não é suficiente para enfrentar os desafios dos interesses nas nações envolvidas na atualidade, pois diversos pontos civis e militares devem ser integrados para os assuntos de defesa, em tabuleiros paralelos e complexos.

O estudo da história do conflito e sua concepção geopolítica demonstram a complexidade das ações necessárias para sua solução, pois diversos aspectos humanos e históricos tornam difícil a superação dos ressentimentos. Nessa mesma linha, é interessante a análise das teorias geopolíticas clássicas, a exemplo de Mackinder, e de autores mais modernos, como Bzrezinski, pois facilitam o entendimento dos eventos de forma mais ampla.

O estudo do conflito em Artsakh, no domínio físico, pode servir para reforçar pontos positivos de nossa doutrina, como o aperfeiçoamento dos blindados e aquisição de artilharia antiaérea de média altura. Ainda no aspecto físico, destaca-se no conflito a utilização intensa de fogos indiretos com munição comum, e o emprego de combate noturno, ressaltando a necessidade de ser reforçado o treinamento nessas áreas. O emprego de Forças Especiais, atuando para preparar forças irregulares recrutadas junto às populações locais, em conjunto com tecnologias de drones, somente reforça o esforço dos brasileiros para atualização da doutrina.

Essas medidas na dimensão física evidenciam o esforço brasileiro para manter-se ao nível dos países beligerantes. Cabe o questionamento se o papel a que se propõem o Brasil no contexto internacional deve ser similar a esses países, ou se deveria ser além dos mesmos, mesmo com a inexistência de um conflito atual ou iminente. Ainda, pode ser questionada a necessidade de importação de material militar, evidenciada pelos azeris e armênios, com dependência junto aos países vizinhos, e se isso pode servir de modelo para o Exército Brasileiro na aquisição de seus meios.

O trabalho, ao mesmo tempo, ilumina a importância da manutenção do sistema militar obrigatório, aos moldes dos adotados nos países em conflito, assim como também destaca a necessidade de constante evolução tecnológica e de profissionalismo dos militares na força terrestre, demonstrando o emprego ainda atual de um misto de tropas convocadas e profissionais a fim de garantir a soberania nacional.

Ainda, ressalta como a cooperação entre militares e civis pode facilitar as operações militares de diversas maneiras. Primeiramente, por apoio de informações, garantindo vantagem para obtenção de dados. O apoio logístico é outro ponto importante na integração de civis e militares, com empresas contratadas para fornecer, transportar, manutenir e mesmo recuperar materiais. Por fim, civis cooperando com ações militares são importantes para a composição de forças paramilitares, atuando diretamente na linha de frente.

Dessa maneira, a integração de diversas dimensões, atores e sistemas, civis e militares, é o desafio para o planejamento e condução das operações militares, em todos os níveis, merecendo destaque as capacidades do domínio da informação, fundamental para a mobilização, minimização da pressão internacional e manutenção da liberdade de ação.

Rio de Janeiro - RJ, 19 de outubro de 2020.

 

Como citar este documento:

HICKERT, Luciano. O atual conflito de Nagorno - Karabakh e os ensinamentos para a Doutrina Militar Brasileira. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: ECEME, 2020.

 

Referência:

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