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O ensino por competência no Exército dos EUA

Publicado: Quarta, 18 de Novembro de 2020, 17h21 | Última atualização em Quarta, 25 de Novembro de 2020, 12h30 | Acessos: 332

Dário Vargas de Oliveira

Instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

 O Modelo de Aprendizado Experiencial (ELM), Experiential Learning Model, vem sendo desenvolvido e aplicado pelo sistema de Ensino do Exército dos EUA (US Army) desde 2015, por meio da Universidade do Exército e do TRADOC (Trainning and Doctrine Command).

 Atualmente, esse modelo é bastante utilizado, principalmente nos Cursos de Comando e EstadoMaior do Exército dos Estados Unidos da América, onde um ambiente favorável de salas de aulas de até 20 alunos facilita o processo onde o foco é o aluno, em substituição ao antigo modelo de ensino aprendizagem no qual a fonte de todo o conhecimento nas aulas e instruções era o instrutor (EUA, 2018).

 O ELM do Exército dos EUA é descrito como uma variação dos quatro estágios do Ciclo de Aprendizagem Experiencial de David Kolb, um teórico educacional americano contemporâneo, que disse “Aprendizagem é o processo pelo qual o conhecimento é criado através da transformação da experiência. O conhecimento resulta da combinação de capturar a experiência e transformá-la” (EUA, 2018).

 O modelo de Kolb para o Ciclo Experiencial de Aprendizagem é composto por quatro elementos: experiência, observação e reflexão sobre essa experiência (observação reflexiva), formação de conceitos abstratos baseados na reflexão (conceituação abstrata) e prática de novos conceitos (experimentação ativa). O atual ELM do Exército dos EUA é composto de 5 fases sequenciadas, sendo uma derivação do processo de Kolb: experiência concreta, publicar e processar, geração de novas informações, desenvolvimento e aplicação (KOLB, 2004).

Figura 1 - Ciclo de aprendizado experimental

Figura 1 - Ciclo de aprendizado experimentalFonte: Adaptado por Kolb (1984).

 

Os cinco passos do modelo de aprendizado experiencial (ELM), utilizado no sistema de ensino do Exército dos Estados Unidos da América são os seguintes:

1º passo - Experiência concreta (CE – concrete experience)

 A experiência concreta (CE) serve como um gatilho da experiência e conhecimento do passado, um mecanismo de enfoque para a lição que se segue e um suporte para o ensino de novos conteúdos. O papel da CE como um iniciador é essencial, pois força o aluno a conectar o tópico em questão com o entendimento dele, com base em sua experiência e conhecimento prévio sobre o assunto (KOLB, 2004).

 A CE pode ser uma vinheta curta, uma frase ou um videoclipe curto. A CE não marca apenas o início da aula, mas o início da “campanha de marketing” para vender o novo conteúdo ao aluno. Se feito corretamente, esse esforço pode criar uma situação em que o aluno “puxa” o conteúdo do instrutor, em vez do instrutor ter que “empurrar” o conteúdo para o aluno.

2º passo - Publicar e processar (P&P – publish and process)

 No primeiro componente do P&P, publicar, o instrutor solicita observações dos alunos sobre o que eles observaram na CE, normalmente com uma pergunta como, "o que você viu?" Ou "o que aconteceu?" Então, no segundo componente, os alunos são convidados para “processar” suas reações ao que eles viram e como seus pontos de vista comparados com os de seus colegas de turma (KOLB, 2004).

 Nessa fase de “publicação e processo”, os alunos dão o primeiro passo em sua aprendizagem conectando sua experiência e conhecimento prévios ao tópico em questão. A situação desejada que ocorre normalmente é uma “publicação” que produz uma grande variedade de observações dos alunos. Esta é a base para o componente “processo” do P&P. No “processo” o aluno começa uma visualização de onde ele está e, se for obtiver sucesso, onde ele/ ela estará no final da aula (CROSS, 2004).

3º passo - Geração de novas informações (GNI – generalize new information)

 Depois que os alunos tiverem “publicado” e “processado”, o instrutor deve avaliar onde os alunos estão, comparando com onde eles devem estar no final da aula para atingir a competência ou objetivo de aprendizagem, ou seja, a diferença entre o que eles sabem e o que eles precisam saber (KOLB, 2004).

 Muitas vezes, o GNI é considerado a parte de “palestra” do ELM. No entanto, a técnica de ensino específica usada pode incluir discussão, dramatização, simulação, exercícios práticos ou qualquer uma das várias outras técnicas de ensino. Um equívoco comum expresso pelos novos instrutores no método do ELM é utilizar a discussão e a palestra como métodos de entrega principais dos conteúdos. Isso deve ser evitado. A chave é usar uma técnica apropriada ao conteúdo, domínio, nível de aprendizado, conhecimento/experiência prévia do aluno e tempo disponível (MERRIAN, 2007).

4º passo - Desenvolvimento (Develop)

 Esta fase do ELM serve para garantir que o aluno veja a relevância da aula acabada de apresentar. Evidências do valor dos estudantes para o conhecimento devem ser observadas nos comentários e participação dos alunos durante as três primeiras etapas do ELM. Por exemplo, durante o GNI, um aluno pode dizer algo como "Isso realmente vai ser útil para mim no meu próximo trabalho como planejador", ou "Eu posso usar esse processo para negociar melhor em um carro novo”. A etapa de desenvolvimento também oferece outra oportunidade para o instrutor observar as habilidades de pensamento crítico dos alunos ao formularem suas expressões do propósito e da importância do assunto ensinado (KOLB, 2004).

5º passo - Aplicação (Apply)

 A etapa final do ELM é a aplicação. No entanto, deve ser enfatizado que, embora a aplicação possa se assemelhar a um teste, o foco da aplicação é mais servir como uma ferramenta de feedback para o instrutor verificar se o aluno/a aprendeu o que foi ensinado, isso é, uma medida da eficácia do instrutor. Além disso, essa é uma verificação final para garantir que os alunos entendam o material e outra oportunidade em que os alunos sejam o “centro das atenções” dentro da sala de aula, explicando suas respostas oralmente e/ou através de mapas mentais/ esquemas feitos em grupo nos quadros brancos ou outro meio auxiliar de instrução. Se ainda houver perguntas não respondidas ou confusão, o instrutor pode retornar ao GNI para preencher as lacunas antes que os alunos sejam dispensados ou, pelo menos, identificar pontos que precisam ser reforçados em uma lição subsequente para garantir que os alunos absorvam o conhecimento necessário (KOLB, 2004).

 Em resumo, a aprendizagem experiencial não limita sua aplicação ao setor educacional, mas também é utilizada no âmbito profissional, em cursos, treinamentos corporativos, negócios, grupos de estudos, gestão, recursos humanos, coaching, entre outros meios. Da mesma forma, cabe informar que a palavra experiencial se trata de um neologismo para o termo experiential do inglês e seu significado é “através da experiência” (EUA, 2018).

 A aprendizagem experiencial tem como base a construção do conhecimento por meio de experiências, levando-se em conta todas as decorrências situacionais e seus efeitos para o aprendizado. Assim, a tradicional posição passiva do educando, que apenas absorve as teorias e conceitos abstratos, dá lugar a dois pontos principais: a reflexão e a prática.

Figura 2 - Aula de Divisão de Infantaria em Operações Ofensivas (Curso de Comando e EstadoMaior 2019, WHINSEC, Fort Benning,Geórgia, EUA)

Figura 2 - Aula de Divisão de Infantaria em Operações Ofensivas (Curso de Comando e EstadoMaior 2019, WHINSEC, Fort Benning,Geórgia, EUA)Fonte: Autor (2019).

 

 Com a atuação mínima de um supervisor/professor, o indivíduo consegue atuar na resolução de problemas considerando suas percepções, histórico pessoal, bagagem de vida e, assim, conferir sentido àquilo que está sendo aprendido.

 Por fim, percebe-se que o modelo ELM possibilita uma maior retenção de conhecimentos por parte dos alunos, em comparação com os métodos passivos tradicionais, permitindo ao sistema de ensino do Exército dos Estados Unidos da América a aplicação do lema “aprender a aprender”, base do ensino por competência.

 

 Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2020.



Como citar este documento:
De Oliveira, Dário Vargas. O ensino por competências no Exército dos Estados Unidos da América. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2020.


Referência:

  1. Bloom, B.S Taxonomy of educational objectives handbook I: Cognitive domain. White Plans, NY: Longman, 1984.
  2. Cross, K.P. Facilitating learning. Adults as learners. (pp. 220-251). San Francisco, CA: Jossey-Bass, 1984.
  3. Estados Unidos da América, Exército dos. Adult teaching and leraning user’s guide. The Army University Center for Teaching and Learning Excellence Faculty and Staff Development Division Fort Leavenworth, Kansas, 2018.
  4. Kolb, David A. Experiential learning: experience as the source of learning and development. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1984.
  5. Merriam, S. B, Caffarella, R., S. & Baumgartner, L. M. Learning in adulthood. San Francisco: Jossey-Bass, 2007.

64498.011563/2020-13

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