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A atuação do Exército Brasileiro durante a pandemia do covid-19

Publicado: Sexta, 16 de Dezembro de 2022, 01h01 | Última atualização em Sexta, 16 de Dezembro de 2022, 10h48 | Acessos: 184

 

Christiano Marins Anselmo Pinheiro
Major do Exército Brasileiro e atualmente está realizando o CAEM na ECEME

Higor Cezar Villaça Menezes Patusco
Major do Exército Brasileiro e atualmente está realizando o CAEM na ECEME

Luiz Fernando Bastos Valverde
Major do Exército Brasileiro e atualmente está realizando o CAEM na ECEME

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1. Introdução

No final de 2019, o mundo se viu diante um grande desafio após o vírus Sars-CoV-2 se espalhar por todo o mundo. Com a rápida difusão do vírus, em 11 de março de 2020, a ONU classifica o Sars-CoV-2 para o nível de pandemia, com o Brasil intensificando suas medidas e protocolos de proteção contra a nova doença.

Diante dessa realidade e considerando a importância do tema, bem como a relevância da participação do Exército Brasileiro no combate à pandemia do covid-19, este artigo se propõe a apresentar a atuação do Exército Brasileiro durante a pandemia do covid-19.

 

2. Desenvolvimento

O Exército Brasileiro, coordenado pelo Ministério da Defesa, ativou a operação Covid-19, atuando de forma protagonista no país por meio dos Comandos Conjuntos, sendo 8 dos 10 Comando Conjuntos permanecendo sob responsabilidade da Força Terrestre. Além disso, o Exército Brasileiro teve papel fundamental no início da crise sanitária no âmbito da Força-Tarefa Logística Humanitária.

Foram elaborados cenários e levados a cabo planejamentos diversos, em diferentes escalões de comando, para que a Força Terrestre possa se ajustar com a necessária flexibilidade às diferentes exigências que a crise oferece. O planejamento estratégico do Exército considerou cinco Estados Finais Desejado, com linhas de esforço e de operações adequadas: 1) Surto de coronavírus controlado; 2) Imagem do Exército Brasileiro fortalecida; 3) Nível de prontidão e operacionalidade mantidos; 4) Exército Brasileiro reconhecido como um dos fatores de não proliferação da covid-19; e 5) Confiança da família militar no Exército Brasileiro fortalecida (NUNES, 2020).

Dentre as linhas de esforços desenvolvidas pelo Exército Brasileiro, três merecem destaque: linha operacional, linha de ensino e linha de ajuda humanitária. Em vista disso, este artigo se propõe a analisar a atuação do Exército Brasileiro na pandemia do covid-19 em cada uma das três linhas de esforços citadas anteriormente.

 

3. Linha operacional

No campo operacional e em termos resumidos, as ações do Exército Brasileiro podem ser divididas em  três fases: resposta imediata, controle da disseminação do vírus e vacinação.

A 1ª fase (resposta imediata) ocorreu imediatamente após a declaração de pandemia por parte das autoridades mundiais e brasileiras. Neste momento, as ações que marcaram a resposta imediata foram o fechamento de fronteiras terrestres, controle do acesso de pessoas vindo do exterior e o apoio logístico, mais especificamente o resgate de nacionais brasileiro em países estrangeiros, transporte e armazenamento de medicamentos e pacientes, e a montagem de hospitais de campanha.

Na 2ª fase (controle da disseminação do vírus), as ações se voltaram para a estabilização e diminuição do número de contaminados. Esta fase ficou caracterizada pelo emprego do Exército Brasileiro na produção e distribuição de equipamentos de proteção individual, pela capacitação de pessoal militar e civil e pelo início da campanha de doação de sangue. As atividades logísticas se mantiveram durante a 2ª fase, notadamente no translado de pacientes entre os Comandos Conjuntos ativados e na distribuição de equipamentos médicos como cilindros de oxigênio.

Na 3ª fase, iniciou-se os trabalhos de imunização da população. A participação dos militares do Exército Brasileiro catalisou os resultados obtidos durante a vacinação, contribuindo para a diminuição do número de casos confirmados no país e o retorno à uma situação mais próxima da situação existente antes da pandemia. A doação de sangue continuou sendo executada nessa 3ª fase, bem como as atividades de apoio logístico, que se intensificaram com o emprego do pessoal de saúde capacitado para aplicação de vacinas e a operacionalização dos chamados Drive-thrus. O quadro a seguir sintetiza o que foi descrito anteriormente:

Quadro 1 - Fases e tarefas operacionais da pandemia

Fases

Tarefas

Resposta imediata

Ações de controle da faixa de fronteira

 

 

Apoio

Logístico

 

 

Controle de disseminação do vírus

Produção de EPI

Capacitação de pessoal

Doação de sangue

 

 

Vacinação

Apoio com pessoal de saúde

Doação de sangue

Fonte: Patusco, 2022.

 

4. Linha de ensino

No que diz respeito ao ensino militar, a pandemia de covid-19 também exigiu do Exército Brasileiro muita flexibilidade a fim de que a formação de seus recursos humanos não fosse comprometida. Diante das diversas orientações da Organização Mundial da Saúde que determinavam que o isolamento social era a melhor ferramenta para a prevenção e o combate à pandemia, observou-se que um dos maiores desafios para o sistema de ensino do Exército Brasileiro foi a manutenção da formação dos oficiais e sargentos de carreira em regime de internato.

O Departamento de Educação e Cultura do Exército, órgão responsável pelos cursos de formação de oficiais e sargentos de carreira do Exército Brasileiro, verificou, à época, a necessidade de se manter a formação no regime de internato. Para isso, uma série de medidas foram tomadas a fim de adaptar os cursos sob a responsabilidade do Departamento de Educação e Cultura do Exército, em especial nos estabelecimentos de ensino que trabalham em regime de internato (Escola Preparatória de Cadetes do Exército, Academia Militar das Agulhas Negras, Escola de Sargentos das Armas, Escola de Sargentos de Logística, Centro de Aviação do Exército, e, também as treze Unidades Escolares Tecnológicas do Exército.

Nesse contexto, verificou-se que as principais adaptações realizadas nos cursos foram relacionadas às adaptações das instalações de ensino. Viu-se a necessidade de se aumentar a distância entre as camas/beliches nos alojamentos dos alunos/cadetes, o que reduziu a capacidade destes dormitórios.

Além disso, foi necessário, também, separar um espaço específico destinado a acomodar os instruendos que estivessem com sintomas ou com a confirmação de contaminação pelo coronavírus. Tais aspectos se configuraram em um grande desafio logístico para a manutenção dos cursos em regime de internato.

Além disso, foi necessário cumprir, da melhor forma possível, as orientações estaduais e municipais que estiveram em vigor durante os anos de 2020 e 2021. Essas adaptações, principalmente, foram realizadas a fim de se evitar o contato aproximado entre os alunos, evitar aglomerações em ambientes fechados e evitar a realização de esforços físicos intensos. Dessa forma, buscou-se proteger os alunos, instrutores e a família militar. Para isso, algumas medidas se fizeram necessárias como adaptações em atividades de campanha, redução da intensidade de sessões de treinamento físico militar, realização de quarentenas em períodos específicos, disponibilização de vacinas, uso de máscaras de proteção, higienização constante de ambientes e limpeza frequente das mãos.

Conforme pesquisa feita sobre o impacto da pandemia nos alunos dos cursos de formação e Sargentos do Exército, verifica-se que, na opinião das equipes de instrução dos referidos cursos e, observando o desempenho escolar no biênio 2020-2021, as medidas tomadas pelo Exército Brasileiro, em especial pelo seu Sistema de Ensino, no combate à pandemia foram eficientes. Mesmo com alguns óbices observados, no geral, as

adequações realizadas permitiram, em boas condições, a continuidade da formação dos sargentos de carreira do Exército Brasileiro em regime de internato.

 

5. Linha de ajuda humanitária

A Força-Tarefa Logística Humanitária foi o instrumento do Estado Brasileiro em resposta à crise humanitária na República Bolivariana da Venezuela, que levou milhares de venezuelanos a buscar melhores condições de vida no Brasil. Como resultado, desde 2018, foram estabelecidas as condições operacionais no Estado de Roraima por meio da operação Acolhida, com ações em prol da ajuda humanitária aos imigrantes, por meio do ordenamento da fronteira, abrigamento e interiorização.

Neste sentido, o Exército Brasileiro, por intermédio do Ministério da Defesa, passou a ser protagonista no controle e organização do fluxo migratório, notavelmente no abrigamento e no processo de interiorização, particularmente em Boa Vista-RR. Todo o processo contou com a participação de inúmeros apoios e cooperação da Organização das Nações Unidas (ONU) e Organizações Não-Governamentais (ONGs).

A chegada da pandemia da covid-19 em março de 2020 foi um acontecimento que modicou uma série de ações já desenvolvidas, mapeadas e consolidadas no âmbito da operação Acolhida. Isso criou dificuldades na condução das diversas atividades e tarefas executadas, levando o comando da Operação a adaptar toda sua estrutura de trabalho, como resposta à rápida proliferação do novo coronavírus.

Um dos grandes desafios foi o controle sanitário no abrigamento dos venezuelanos. Na ocasião da chegada do vírus em Boa Vista-RR, a operação Acolhida tinha sob sua coordenação logística e humanitária 11 onze abrigos no total, tendo a capacidade de absorver cerca de 5.581 imigrantes, que naquela ocasião foi superada, sendo foco de preocupação diante do quadro pandêmico.

Dessa maneira, tornou-se o controle sanitário muito mais complexo, uma vez que as características de abrigamento dos imigrantes iam de encontro às principais orientações definidas pelos órgãos de saúde nacionais e internacionais naquele momento inicial da pandemia, que era a aglomeração como forma de propagação rápida do vírus, dificultando o distanciamento social.

Na ocasião foi elaborado o Plano Emergencial de Contingenciamento para Covid-19, com finalidade de estabelecer as normas gerais de ação para a prevenção, controle e tratamento referentes à infecção pelo novo coronavírus em todas as estruturas da operação Acolhida, sendo uma excelente resposta ao desafio de combater a crise sanitária dentro de um ambiente de crise humanitária.

Como consequência, outro desafio na operação Acolhida no início da pandemia, principalmente nos 7º e 8º Contingentes, tendo como ponto de partida a elaboração do Plano Emergencial de Contingenciamento para Covid-19, foi a transferência do Hospital de Campanha de Pacaraima-RR para Boa Vista-RR, gênese da área de proteção e cuidados. Esta foi montada em coordenação com os governos do Município de Boa Vista-RR e do Estado de Roraima, criando leitos e a estrutura de saúde necessária para o atendimento aos imigrantes, sendo uma contribuição da operação Acolhida para a saúde do Estado de Roraima.

Cabe salientar, que a logística de interiorização foi duramente impactada pelas restrições nos diversos meios de transportes, reduzindo os imigrantes interiorizados. Além disso, os recursos financeiros aquém do necessário na ocasião da chegada da covid-19 em prol do enfrentamento da pandemia e as incertezas sobre a forma de combater os efeitos do vírus que exigiam atualizações financeiras corriqueiras, criaram dificuldades adicionais no âmbito da operação Acolhida.

No que tange aos desafios do Exército Brasileiro por ocasião da chegada da pandemia da covid-19, no âmbito da operação Acolhida, as respostas dadas contribuíram para a superar os obstáculos criados pelo vírus Sars-CoV-2. Todos os entes envolvidos no processo tiveram participação fundamental para mitigar os efeitos da Covid-19, permitindo que diversas vidas de brasileiros e venezuelanos fossem salvas, o que tornou o combate à pandemia no âmbito da operação Acolhida um caso de sucesso e referência no espectro da atividade de ajuda humanitária, acrescida de uma crise sanitária sem precedentes na história do mundo.

  

 

 Referências Bibliográficas: 

  1. BASTOS, Luiz Fernando Bastos. Os impactos da pandemia de Covid-19 na formação dos sargentos de carreira do Exército Brasileiro. Trabalho de Conclusão de Curso na  ECEME, 2022. Rio de Janeiro: ECEME, 2022.

  2. PATUSCO, Higor Cezar Villaça Menezes. A Atuação do Exército Brasileiro na Pandemia da Covid-19 - análise das tarefas realizadas. Trabalho de Conclusão de Curso na  ECEME, 2022. Rio de Janeiro: ECEME, 2022.

  3. PINHEIRO, Christiano Marins Anselmo. Os principais desafios encontrados pelos 7º e 8º contingentes de Operação Acolhida, no contexto da chegada da pandemia da COVID-19. Trabalho de Conclusão de Curso na  ECEME, 2022. Rio de Janeiro: ECEME, 2022.

 

Rio de Janeiro - RJ, 16 de dezembro de 2022.


Como citar este documento:
PINHEIRO; PATUSCO; VALVERDE. A atuação do Exército Brasileiro durante a pandemia do covid-19. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

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