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Covid-19, transformações e vulnerabilidades da sociedade durante o isolamento

Publicado: Terça, 30 de Junho de 2020, 15h16 | Última atualização em Terça, 20 de Outubro de 2020, 16h28 | Acessos: 332

Breno Pauli Medeiros

Mestre e Doutorando em Ciências Militares pelo PPGCM da ECEME

Henrique Ribeiro da Rocha

Mestrando em Ciências Militares pelo PPGCM da ECEME

Prof. Dr. Luiz Rogério Franco Goldoni

Professor do PPGCM da ECEME

 Em seus esforços para compreender o processo de transformação socioeconômica do mundo globalizado, o geógrafo Milton Santos definiu o chamado meio técnico-científico-informacional. Entendido como uma evolução do meio técnico e do meio técnico-científico decorrentes das primeira e segunda revoluções industriais, respectivamente, o meio técnico-científico-informacional é caracterizado pela ação conjunta da tecnologia e informação em diferentes aspectos da vida cotidiana (SANTOS, 2009).

Nesse novo meio, as formas de interação humana com seu ambiente, isto é, o espaço geográfico, é transformado conforme desenvolvimentos tecnológicos suscitam o transporte e o estabelecimento de redes de mercadorias e trabalho em escala global. Por seu turno, as telecomunicações engendram redes de dados e informações que transformam a interação social, suscitam novas plataformas de comércio, governança e geram uma miríade de possibilidades para empreendimentos e empregos.

Intrínseca à sociedade hodierna, a dinâmica entre tecnologia e comunicação é fundamental para a formação e manutenção dos processos sociais e produtivos dentro de uma lógica global e extremamente interconectada, na qual a informação surge simultaneamente como base e produto fundamental dessa lógica globalizada. Essa dinâmica repercute cultura, social, política e economicamente, de modo que intensifica as relações sociais em escala mundial (CASTRO, 2005).

De acordo com Milton Santos, a informação se torna o vetor fundamental do processo social no mundo globalizado, ao ponto de transformar o espaço geográfico, em concordância com os interesses dos atores "hegemônicos da economia, da cultura e da política e são incorporados plenamente às novas correntes mundiais. O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização" (SANTOS, 2009, p. 239). A perspectiva de Milton Santos é evidenciada pela substituição de agências bancárias por caixas eletrônicos e aplicativos, a digitalização de mídias informacionais e de entretenimento e a intensificação do mercado digital e conseguinte ampliação de redes de transporte. Isto é, as transições correntes nas esferas local, regional e global, exemplificam como o espaço geográfico é transformado para se adaptar às novas lógicas decorrentes da interação entre tecnologia e informação1.

No cerne da dinâmica interconectada do meio técnico-científico-informacional está o ciberespaço2, um espaço virtual criado pela interconexão de diferentes camadas de hardware, software e usuários, que interagem e o transformam (MEDEIROS, 2019) afetando, consequentemente, o espaço geográfico. Em sua forma mais expressiva, o ciberespaço se manifesta por meio da rede global de computadores e dispositivos, a Internet3, que interconectou mais de 4,5 bilhões de usuários, cerca de 58% da população mundial, até o final de 2019 (INTERNETWORLDSTATS, 2019).

O ciberespaço incorpora uma das principais características da contemporaneidade: a crescente dependência humana para com inovações até então desconhecidas, que rápida e profundamente transformam as interações sociais. O relacionamento da sociedade com inovações tecnológicas foi o que impulsionou o desenvolvimento da indústria de alta tecnologia que caracteriza o meio técnico-científico-informacional, no qual múltiplos inovadores exploram e transformam a forma como se consome e se interage com tecnologia e o espaço geográfico. Steve Jobs notabilizou-se por desenvolver produtos inéditos para responder demandas impensadas sem os quais o indivíduo não conseguiria mais sobreviver4.

A exploração e “colonização” do ciberespaço distingue a pandemia da COVID-19 das demais registradas na história. O advento da nova pandemia tem como consequência a procura por plataformas de trabalho remoto (BANJO et al., 20205), redes de distribuição de serviços e mercadorias adquiridas pela Internet, incluindo alimentos (MEYERSOHN, 20206), aumento do consumo de informações e entretenimento online (LAVADO, 20207) e a proliferação de informações falsas e atuação danosa de determinados atores (CINELLI et. al., 2020).

O isolamento promovido para conter a pandemia da COVID-19 pelo qual o mundo globalizado está passando não só torna evidente a retórica de Milton Santos, como evidencia a dependência social para com o ciberespaço como aspecto definidor do meio técnico-científico-informacional. Contudo, ao passo que as demandas e buscas aceleradas por possíveis soluções e informações têm o intuito de mitigar, em parte, os impactos sociais e econômicos do isolamento social, o aumento da demanda por tecnologias e informações também engendra uma série de vulnerabilidades que podem ser exploradas. Dentre estas, a inserção de uma parcela da população que não necessariamente conhece ou pratica determinadas recomendações de segurança cibernética ou informacional, o que a torna mais suscetível a ataques cibernéticos8 (ALBERT, 20209) ou a proliferação de desinformação. De forma análoga à pandemia, parte da população, até então alheia ao ciberespaço, não tem anticorpos desenvolvidos para a nova realidade que lhe foi imposta pelo isolamento social.

No que diz respeito à desinformação, a velocidade de divulgação e proliferação de notícias em redes sociais e aplicativos de comunicação suscita uma multiplicidade de informações, não necessariamente verídicas, que tem seu compartilhamento potencializado devido à própria natureza interconectada do ciberespaço. O desafio decorrente da profusão de informações equivocadas e/ou falas tem sido enfrentado pela mídia e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e é considerado como parte da contenda mais ampla à epidemia, como posto pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus: "não estamos combatendo somente uma epidemia, mas também uma 'infodemia" (ZAROCOSTAS, 2020, tradução nossa).

"Infodemics" se refere aos perigos oriundos da desinformação durante a tentativa de conter a proliferação do vírus. Nesse contexto, como Cinelli, et. al. (2020) colocam, conforme indivíduos têm acesso à uma infinidade de informações via plataformas sociais, o potencial de disseminação de informações falsas e rumores é intensificado, ainda mais quando os algoritmos e sistemas dessas plataformas direcionam informações que estejam de acordo com posicionamentos e conteúdos acessados por esses indivíduos. A dinâmica de pandemia de desinformação é inerente às redes sociais, mas se tornou mais evidente em 2018, durante o escândalo da Cambridge Analytica, no qual uma empresa direcionava conteúdos e informações, independente de sua veracidade, para arquétipos pré-estabelecido de eleitores, no intuito de manipular eleições nos Estados Unidos, Reino Unido e outras partes do mundo (THE GUARDIAN, 2018).

Ainda segundo Cinelli, et. al. (2020), a infodemia seria uma das consequências da intensificação da interação social no ciberespaço decorrente do isolamento. Uma de suas características é a divulgação e compartilhamento de informações que podem afetar as medidas de combate a pandemia, dentre elas a busca desesperada por medicamentos e alimentos supostamente capazes de curar ou prevenir a COVID-19. Além da inexistência de produtos “milagrosos”, a infodemia aumenta o risco de contaminação das pessoas, ao incentivar que estas procurem pela “cura” ou “proteção” em supermercados ou farmácias ou, ainda, ao afirmar que o sol mataria o vírus10.

Ao se observar a transformação do espaço geográfico a partir do isolamento social e se transpor aspectos cotidianos para o meio digital, a visão de Milton Santos é potencializada. Enquanto é impossível prever como será o mundo pós-epidemia, é pertinente notar que apesar de ser profundamente impactado, o meio técnico-científico-informacional é mais do que nunca fator caracterizante da sociedade em isolamento. Resta uma certeza: a pandemia demandará a aquisição de anticorpos digitais essenciais para a vida no admirável mundo novo que se aproxima

Rio de Janeiro - RJ, 30 de março de 2020.

 


1 Concebido em um contexto cibernético, tanto no que se refere à combinação de informações digitais (cognitivas, sintáticas e binárias) circulando pelas infovias do ciberespaço, quanto informações propriamente ditas.
2 Efêmero e em constante transformação, o ciberespaço é compreendido como um espaço de interação humana artificial e parcialmente imaterial. É composto por camadas virtuais do espectro eletromagnético que concomitantemente interconectam diferentes dispositivos em escala global, transpondo fronteiras, de forma a engendrar uma série de desafios práticos e teóricos para diferentes áreas do saber (MEDEIROS, 2019).
3 É importante ressaltar que apesar de comumente usados em conjunto, o ciberespaço e a Internet não são sinônimos. O ciberespaço é um domínio operacional eletromagnético e a Internet é uma rede de computadores inserida nesse domínio (LEVY, 1999, p. 17; CEPIK et al. 2014, p. 163 apud LOBATO; KENKEL, 2015).
4 Jobs cunhou várias frases de efeito, dentre elas: “Você não pode simplesmente perguntar aos consumidores o que eles querem e daí tentar dar isso a eles. Assim que você conseguir construir isso, eles já vão querer algo novo” (ÉPOCA NEGÓCIOS ONLINE, 2015).
5 "Coronavírus leva à maior experiência de trabalho ... - Exame." 3 fev. 2020, https://exame.abril.com.br/carreira/coronavirus-leva-a-maior-experiencia-de-trabalho-remoto-do-mundo/. Acessado em 28 mar. 2020.
6 "Grocery shopping is forever changed by the coronavirus - CNN." 19 mar. 2020, https://www.cnn.com/2020/03/19/business/grocery-shopping-online-coronavirus/index.html. Acessado em 29 mar. 2020.
7 "Isolamento por coronavírus muda padrão de ... - G1 - Globo." 19 mar. 2020, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/03/19/isolamento-por-coronavirus-muda-padrao-de-consumo-da-internet-no-brasil.ghtml. Acessado em 28 mar. 2020.
8 A forma como o isolamento suscita vertentes para ataques cibernéticos foi analisado previamente (BATISTA JUNIOR et. al., 2020), mas é decorrente do aumento de usuários como fator atrativo para atores mal-intencionados capazes de explorar a dependência destes e demais usuários conforme a dependência cibernética se torna mais intensa em decorrência do isolamento.
9 "Cyberattacks spike in midst of coronavirus worries - WJCL.com." 26 mar. 2020, https://www.wjcl.com/article/cyberattacks-spike-in-midst-of-coronavirus-worries/31945566. Acessado em 28 mar. 2020.
10 Conforme notícia falsa difundida via WhatsApp e desmentida pela Fiocruz (MONNERAT, 2020).


Como Citar este documento:

MEDEIROS, Breno Pauli; ROCHA, Henrique Ribeiro da; GOLDONI, Luiz Rogério Franco. COVID-19, transformações e vulnerabilidades da sociedade durante o isolamento. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: ECEME. 2020.

Referências:

  1. ALBERT, Mark. Cyberattacks spike in midst of coronavirus worries. Disponível em: https://www.wjcl.com/article/cyberattacks-spike-in-midst-of-coronavirus-worries/31945566#. Acesso em: 27 de março de 2020.

  2. BANJO, Shelly et al. Coronavírus leva à maior experiência de trabalho remoto do mundo. Disponível em: https://exame.abril.com.br/carreira/coronavirus-leva-a-maior-experiencia-de-trabalho-remoto-do-mundo/. Acesso em: 27 de março de 2020.

  3. BATISTA JUNIOR, Eliezer de Souza; MEDEIROS, Breno Pauli; ROCHA, Henrique Ribeiro da; GOLDONI, Luiz Rogério Franco. Vetores Cibernéticos da Pandemia de Covid-19. In: Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro, RJ, 27 mar. 2020. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/masterpage_assunto.php?id=194. Acesso em: 27 mar. 2020.

  4. CASTRO, Iná Elias de. Geografia e política: território, escalas de ação e instituições. Bertrand Brasil, 2005.

  5. CINELLI, Matteo et al. The covid-19 social media infodemic. arXiv preprint arXiv:2003.05004, 2020.

  6. ÉPOCA NEGÓCIOS ONLINE, 2015. As 20 melhores frases de Steve Jobs. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Vida/noticia/2015/09/20-melhores-frases-de-steve-jobs.html.

  7. INTERNETWORLDSTATS, 2019. INTERNET USAGE STATISTICS: The Internet Big Picture. Disponível em: https://www.internetworldstats.com/stats.htm. Acesso em: 27 de Março de 2020.

    LAVADO, Thiago. Isolamento por coronavírus muda padrão de consumo da internet no Brasil. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/03/19/isolamento-por-coronavirus-muda-padrao-de-consumo-da-internet-no-brasil.ghtml. Acesso em: 27 de março de 2020.

  8. LOBATO, Luísa Cruz; KENKEL, Kai Michael. Discourses of cyberspace securitization in Brazil and in the United States. Rev. bras. polít. int. Brasília, v. 58, n. 2, p. 23-43, Dec. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292015000200023&lng=en&nrm=iso. Acessado em 27 de março de 2020.

  9. MEDEIROS, Breno Pauli. Ciberespaço e Relações Internacionais/ Rumo a Construção de um Novo Paradigma?. 2019. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) - Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2019.

  10. MEYERSOHN, Nathaniel. Coronavirus will change the grocery industry forever. Disponível em: https://edition.cnn.com/2020/03/19/business/grocery-shopping-online-coronavirus/index.html. Acesso em: 27 de março de 2020.

  11. MONNERAT, Alessandra. Coronavírus: Fiocruz alerta para mensagem falsa que circula no WhatsApp. O Estado de São Paulo, 17 mar. 2020. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/coronavirus-fiocruz-alerta-para-mensagem-falsa-que-circula-no-whatsapp/. Acessado em 30 mar. 2020

  12. SANTOS, Milton. 1926-2001. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos 4. ed. 5. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. – (Coleção Milton Santos; 1).

  13. THE GUARDIAN. The Cambridge Analytics Files. In: THE GUARDIAN (org.). The Cambridge Analytics Files. [S. l.], 2018. Disponível em: https://www.theguardian.com/news/series/cambridge-analytica-files. Acesso em: 26 mar. 2020.

  14. ZAROCOSTAS, John. How to fight an infodemic. The Lancet, [s. l.], v. 395, ed. 10225, p. 679-679, 29 fev. 2020. DOI https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30461-X. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S014067362030461X. Acesso em: 26 mar. 2020.




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Assunto(s): covid-19
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