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A Guarda Revolucionária e as estratégias iranianas de expansão regional

Publicado: Quarta, 04 de Novembro de 2020, 17h21 | Última atualização em Quarta, 25 de Novembro de 2020, 11h05 | Acessos: 94

João Gabriel Fischer Morais Rego

Mestrando do PPGCM da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

O governo iraniano possui diferentes estratégias para defender seus interesses, seja na escala nacional ou na internacional. Um dos principais instrumentos do sistema de segurança iraniano é a Guarda Revolucionária, ou Pasdaran em persa, a organização compõe a elite militar e a inteligência do Estado persa, atuando na esfera externa e interna iraniana. Sua criação ocorreu pelo decreto do Aiatolá Khomeini1, no ano de 1979, mesmo ano da Revolução Iraniana, ela possuía dois objetivos principais no ano de sua criação (ADGHIRNI, 2014). Primeiro, proteger o regime de ameaças internas e externas. Segundo, ser uma força com capacidade de contrapor ao Exército regular iraniano, pois, neste início, as Forças Armadas iranianas ainda possuíam soldados ligados ao regime do Xá Reza Pahlavi (ADGHIRNI, 2014). A Guarda Revolucionária tem a característica singular de responder somente às ordens do Aiatolá, não sendo subordinada ao presidente iraniano. Ela é uma força de segurança separada das Forças Armadas regulares do país. Ela também participa do programa nuclear iraniano e do desenvolvimento de mísseis de longo alcance. A organização é composta pelas Forças Aéreas, Terrestre, Marinha, Força Quds e Basij (HENTOV; GONZALEZ, 2011; ADGHIRNI, 2014). Este artigo aborda estas duas últimas subdivisões mencionadas, as Força Basij e Quds.

A importância da Força Basij para a Guarda Revolucionária é por ela ser um grupo paramilitar que possui um contingente que pode chegar a mais 1 milhão de indivíduos em caso de necessidade, sendo formada por voluntários de todas as classes sociais. Destes membros, 90 mil são considerados profissionais e o restante é considerado como reservistas ou voluntários (ADGHIRNI, 2014; ARROYO, 2020). O grupo é o núcleo ideológico e militar do governo iraniano, tendo o principal objetivo apoiar as forças de segurança. Por estar presente em universidades e mesquitas, sendo formadas por mulheres e homens, a Força Basij atua como um poderoso instrumento da inteligência iraniana contra movimentos contrários ao governo. Nos protestos estudantis de 1999 e 2003, os basijis foram, por exemplo, mobilizados para reprimir protestos contrários ao governo, inclusive realizando repressão dentro das universidades. A influência da Força Basij também é demonstrada com a eleição do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que integrava o grupo. Além disso, durante a eleição de 2009, o grupo reprimiu fortemente protestos que contestavam a eleição de Ahmadinejad, provocando morte de manifestantes (KATZMAN, 2007; ADGHIRNI, 2014; ARROYO, 2020).

Outra importante Força dentro da Guarda Revolucionária é a Força Quds. Suas primeiras ações foram durante a guerra entre Irã e Iraque. Ela é responsável pela atuação externa da organização, financiando e treinando grupos armados não estatais e prestando auxílio militar a países aliados. Ela realiza operações de inteligência, tendo como objetivo exportar princípios e valores da revolução iraniana para outras regiões, consequentemente, expandindo a influência do governo iraniano sobre outros Estados, como no caso do Iraque, Líbano e Síria (BIEZUS; COSTA; TRAUMANN, 2020).

A Força Quds tem sido essencial para as estratégias contemporâneas do governo iraniano, que tem conseguido expandir sua influência sobre países do Oriente Médio e grupos armados. Tal fenômeno pode ser observado quando se analisa a influência sobre grupos como Hezbollah, no Líbano; o apoio ao regime de Bashar al-Assad na Síria na luta contra grupos rebeldes e o Daesh, ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante; o apoio aos grupos iraquianos, principalmente financiando ações contra tropas e bases dos Estados Unidos no Iraque. Essas ações têm aumentando a rivalidade contra outros países, especialmente na região, como no caso da Arábia Saudita, o que tem ampliado a instabilidade geopolítica no Oriente Médio (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2019; BIEZUS; COSTA; TRAUMANN, 2020).

As respostas ao aumento das atividades da Força Quds na região foram diversas. As duas principais foram realizadas pelos Estados Unidos. A primeira, foi a aplicação de sanções econômicas contra a Guarda Revolucionária, empresas ligadas a organização e suas lideranças. Segundo TORRES FILHO (2019), os efeitos dessa estratégia dos EUA foram significativos para a economia iraniana. Ocorreu a proibição de compra de produtos do Irã, incluindo o petróleo, com a ameaça do país comprador de sofrer retaliações econômicas dos EUA. A consequência dessa ação estadunidense para o Irã, foi desvalorização da moeda iraniana, o Rial Iraniano, perdendo 4 vezes o seu valor e o recuo de 3,8% do Produto Interno Bruno iraniano em 2019 (TORRES FILHO, 2019).

A segunda foi o bombardeio do comboio que levava sua principal liderança, o general Qasem Soleimani, provocando a sua morte. É importante ressaltar que Soleimani era um dos principais estrategistas da Força e que realizava a ação de expansão da influência iraniana sobre a Síria, Iraque e Líbano (BIEZUS; COSTA; TRAUMANN, 2020). O general utilizava a estratégia de construir redes de aliados com grupos/milícias em diferentes países na região e ao redor do Oriente Médio, com o objetivo de realizar uma guerra não convencional, ameaçando interesses de outros Estados, como dos EUA, Arábia Saudita e Israel (HASHIM, 2020). A rede de países e parceiros não estatais construída por Soleimani estende-se do Oriente Médio até o sul da Ásia (alcançando diferentes países, como por exemplo Síria, Iraque, Líbano, Afeganistão, Palestina e Iêmen), sendo um importante instrumento para as ações regionais da Guarda Revolucionária (TABATABAI, 2020). A estratégia geopolítica iraniana tem como objetivo principal impedir a interferência direta dos EUA na região (BIEZUS; COSTA; TRAUMANN, 2020). No mapa a seguir, destaca-se as áreas de influência do governo iraniano em 2020 no Oriente Médio, isso contribui notadamente para a instabilidade geopolítica regional.

Mapa - Irã e sua Influência no Oriente Médio

Mapa - Irã e sua Influência no Oriente MédioFonte: Global Administrative Areas (GADM), 2018. Editado pelo Autor.
 

A influência sobre grupos, ou mesmo governos, como no caso do Líbano, Iraque e Síria, garantem ao regime de Teerã o acesso estratégico ao Mar Mediterrâneo, por onde escoa parte da sua produção interna, mesmo que esteja ainda sob fortes sanções aplicadas pelos Estados Unidos (MILBURN, 2017). Ademais, salienta-se que o governo iraniano é indicado como uma das bases de apoio do grupo rebelde Houthis no Iêmen, caso tal grupo obtenha vantagem militar e a situação de guerra civil se estabilize no país a favor do grupo, o controle sobre o estreito de Bab elMandeb poderá ser alterado, influenciando diretamente nos fluxos de navios petroleiros no Mar Vermelho (CORDESMAN, 2019).

Observa-se, com o auxílio do mapa sobre a influência iraniana, que as ações iranianas têm cercado uma outra potência regional e rival aos interesses iranianos, a Arábia Saudita, proporcionado a instabilidade geopolítica na região. Os ataques realizados em setembro de 2019 pelo grupo Houthis contra refinarias sauditas, afetando a produção de petróleo do país árabe, é uma demonstração da ampliação de influência iraniana e da instabilidade geopolítica regional (GAMAL; KALIN; ZHDANNIKOV, 2019). Segundo NUNES (2020), a estratégia de expansão e a região de influência iraniana é conhecida como Crescente Xiita, circundando o reino saudita. Outro exemplo de evento foi durante a Primavera Árabe, em 2011, onde ocorreram manifestações da população xiita no Bahrein contra o regime que governa o país, da família Al-Khalifa. O governo iraniano possui interesses na mudança de governo, devido a aliança entre os governos do Bahrein e da Arábia Saudita. Outro interesse é a ampliação da influência regional iraniana pelo Oriente Médio (NUNES, 2020).

O aumento da influência de Teerã foi ampliado no Iraque com a retirada de contingente significativo de tropas dos EUA e nas ações de combate de Forças iraniana e milícias iraquianas xiitas contra o Daesh. Na Síria existe o apoio militar, inclusive com o estabelecimento de bases militares, e assistência para combater o Daesh (NUNES, 2020).

Desde os anos 2000, a Guarda Revolucionária expandiu suas atividades para a esfera econômica, com investimentos em bancos, empresas de construção, telecomunicações e do ramo petrolífero utilizando a Basij Cooperative Foundation (BCF) como um instrumento para adquirir empresas no país (GOLKAR, 2012). Um exemplo dessas ações é demonstrado na empresa Negar-ye Naser, que possui projetos relacionados a área de petróleo e mineração iraniano. Ela é subordinada a BCF, consequentemente, possuindo ligações com a Guarda Revolucionária (GOLKAR, 2015).

Em 2020, devido as sanções impostas contra o governo iraniano, a organização se tornou um dos pilares da economia nacional, com participação em diferentes setores produtivos do país, inclusive na condição de monopólio em alguns setores, como o de telecomunicações com a empresa Iran´s Telecommunications Company, o que impacta na capacidade de exercer controle sobre as informações (ADGHIRNI, 2014; GOLKAR, 2015). De acordo com GOLKAR (2012), as atividades econômicas servem também como instrumento de propaganda da Guarda Revolucionária, diversas ações consideradas populistas são realizadas, como a construção de residências em áreas carentes ou a prestação de assistência aos membros da organização, o que contribui com o objetivo de aumentar o alistamento à organização.

Como exposto, a Guarda Revolucionária é um importante instrumento do regime dos Aiatolás. As Forças Basij e Quds fornecem segurança tanto na esfera interna, para a estabilidade política, quanto a externa, expandindo a área de influência iraniana sobre outros países da região. Mesmo que a morte do General Soleimani, considerado o principal estrategista dessa expansão iraniana, represente um duro golpe, ressalta-se que o país já conseguiu nas últimas décadas aumentar sua influência regional, seja apoiando governos de outros Estados, como no Iraque, Síria e Líbano ou dando suporte a grupos armados como os Houthis, no Iêmen, o Hezbollah, no Líbano, e milícias no Iraque (TABATABAI, 2020). É provável que as táticas da Força Quds se mantenham, o substituto do Soleimani, o General Esmail Qaani, também estava na Guarda Revolucionária durante a Guerra Irã-Iraque, além de ter acompanhado seu antecessor em diferentes ações no Oriente Médio e na Ásia Central (TABATABAI, 2020). Em entrevistas recentes, Qaani demonstra a disposição em continuar com as estratégias iranianas de projeção de poder e influência regional.

Rio de Janeiro - RJ, 04 de novembro de 2020.



1 Líder supremo do Irã, após a Revolução Iraniana de 1979 (ADGHIRNI, 2014)

Como citar este documento:
REGO, João Gabriel Fischer Morais. A Guarda Revolucionária e as estratégias iranianas de expansão regional. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2020.


Referência:

  1. ADGHIRNI, Samy. Os Iranianos. São Paulo: Contexto, 2014.
  2. ARROYO, Karina. De Sayyeda Zayanab às Basijis: a atuação feminina na preservação da Revolução Islâmica de 1979. In: COSTA, Renatho; TRAUMANN, Andrew. República Islâmica do Irã 40 anos: de Khomeini a Soleimani. 1. ed. Rio de Janeiro: Autografia, 2020. cap. 4, p. 69-96. ISBN: 978-65-5531- 339-0.
  3. BIEZUS, Devlin; COSTA, Renatho; TRAUMANN, Andrew. A Política Externa dos Estados Unidos para o Oriente Médio (Obama e Trump): seu impacto no Irã em 2019 e 2020. In: COSTA, Renatho; TRAUMANN, Andrew. República Islâmica do Irã 40 anos: de Khomeini a Soleimani. 1. ed. Rio de Janeiro: Autografia, 2020. cap. 12, p. 296-326. ISBN: 978-65- 5531-339-0.
  4. CORDESMAN, Anthony H. The Strategic Threat from Iranian Hybrid Warfare in the Gulf. CSIS Center For Strategic & International Studies, Estados Unidos: Washington, 13 jun. 2019. Disponível em: <https://csiswebsite-prod.s3.amazonaws.com/s3fspublic/publication/190613_Iran_Threat_Hybrid_Warfar e.pdf>. Acesso em: 3 set. 2020.
  5. COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Iran’s Revolutionary Guards. Council on Foreign Relations, [S. l.], 6 maio 2019. Disponível em: <https://www.cfr.org/backgrounder/irans-revolutionaryguards>. Acesso em: 1 set. 2020.
  6. GAMAL, Rania El; KALIN, Stephen; ZHDANNIKOV, Dmitry. Attacks on Saudi oil facilities knock out half the kingdom‘s supply. Reuters, Arábia Saudita: Riad, 14 set. 2019. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-saudi-aramcofire/attacks-on-saudi-oil-facilities-knock-out-half-thekingdoms-supply-idUSKCN1VZ01N>. Acesso em: 2 set. 2020.
  7. GLOBAL ADMINSTRATIVE AREAS (GADM). GADM database of Global Administrative Areas. Universidade da California, Estados Unidos, 2018 Disponível em: <https://gadm.org/data.html>. Acesso em: 1 set. 2020.
  8. GOLKAR, Saeid. Paramilitarization of the Economy: The Case of Iran’s Basij Militia. Armed Forces & Society, Estados Unidos, v. 38, n. 4, p. 625-648, 9 abr. 2012. DOI: 10.1177/0095327X12437687. Disponível em: <https://www.academia.edu/39288569/Paramilitarizati on_of_the_Economy_The_Case_of_Irans_Basij_Militi a>. Acesso em: 1 set. 2020.
  9. GOLKAR, Saeid. Captive Society: The Basij Militia and Social Control in Iran. Woodrow Wilson Center Press / Columbia University Press, Estados Unidos, 2015. ISBN: 978-0-231-80135-5.
  10. HASHIM, Ahmed S. Iranian General’s Killing:How Will Iran Respond?. S. Rajaratnam School of International Studies, [S. l.], n. 05, 7 jan. 2020. Disponível em: <https://www.rsis.edu.sg/wpcontent/uploads/2020/01/CO20005.pdf>. Acesso em: 2 nov. 2020.
  11. HEN-TOV, Elliot; GONZALEZ, Nathan. The Militarization of Post-Khomeini Iran: Praetorianism 2.0. The Washington Quarterly, Estados Unidos, p. 45- 49, 2011.
  12. KATZMAN, Kenneth. The Pasdaran: institutionalization of revolutionary armed force. Iranian Studies, [S. l.], v. 26, p. 389-402, 1993.
  13. MILBURN, Franc. Iran´s Land Bridge to the Mediterranean: Possible Routes and Ensuing Challenges. Strategic Assessment, [S. l.], v. 20, n. 3, p. 35-48, out. 2017. Disponível em: <https://www.inss.org.il/wpcontent/uploads/2017/10/irans-land-bridge.pdf>. Acesso em: 4 set. 2020.
  14. NUNES, André. A Arábia Saudita e o Crescente Xiita. Observatório Militar da Praia Vermelha, Brasil, 18 jun. 2020. Disponível em: <http://ompv.eceme.eb.mil.br/masterpage_assunto.ph p?id=174>. Acesso em: 02 nov. 2020.
  15. TABATABAI, Ariane M. After Soleimani: What’s Next for Iran’s Quds Force?. CTC SENTINEL, Estados Unidos: Nova York, v. 13, n. 1, p. 28-33, jan. 2020. Disponível em: <https://ctc.usma.edu/wpcontent/uploads/2020/01/CTC-SENTINEL012020.pdf>. Acesso em: 3 set. 2020.
  16. TORRES FILHO, Ernani Teixeira. A bomba dólar: paz, moeda e coerção. IE/UFRJ. Texto para Discussão, Brasil, 26, 2019. Disponível em: < https://www.ie.ufrj.br/images/IE/TDS/2019/TD_IE_026 _2019_TORRES%20FILHO.pdf>. Acesso em: 2 nov. 2020.

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