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A percepção russa sobre o ataque a Qasem Soleimani

Publicado: Quinta, 18 de Junho de 2020, 11h16 | Última atualização em Segunda, 03 de Agosto de 2020, 15h49 | Acessos: 228

Fernando Botafogo de Oliveira1

 No dia 3 de janeiro de 2020, o ataque realizado por um drone MQ-9 Reaper da força aérea norte-americana, ao disparar um míssil AGM-114 Hellfire, atingira uma comitiva composta por dois carros onde estavam o General Qasem Soleimani, e o comandante de milícias iraquianas Abu Mahdi al-Muhandis, tirando a vida de ambos (TIMES OF ISRAEL, 2020).

O envolvimento russo no Oriente Médio, após a queda da União Soviética, vem desde 2015 com o apoio ao governo de Bashar Al-Assad e também é fruto de percepção geopolítica da Rússia em projetar a sua influência nesta região com fins equilibrar a balança de poder em relação aos EUA e a China (MACKINNON, 2020). Outro aspecto importante na percepção que Moscou têm deste acontecido passa pela intenção de utilizar o ataque a Soleimani como um ativo que permita a obtenção de vantagens políticas e diplomáticas tanto no Irã quanto na Síria (MACKINNON, 2020).

No contexto da Guerra da Síria, a Rússia colaborou com o Irã na questão da manutenção do Presidente Bashar Al-Assad e suas forças de apoio, mas ao mesmo tempo procurou estreitar as relações com Israel e Arábia Saudita. É possível que Moscou atue no sentido de prevenir a escalada do conflito na região. O acirramento das tensões traria impactos significativos na presença e nos interesses russos no Oriente Médio.

Assim, se considerada a possibilidade de uma guerra entre Irã e Estados Unidos, tal guerra colocaria e risco um país que é sumariamente importante para os interesses russos no Oriente Médio, não apenas por apoiar o governo da Síria e combater o Estado Islâmico, mas também prejudicaria qualquer intenção russa em aumentar a sua influência no seu entorno estratégico que tem fronteiras com o Irã (SHERR, 2020).

No tocante do entorno estratégico russo, são importantes os territórios do Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão, regiões que eram repúblicas da URSS, e que mesmo com o fim desta, o território destes três países ainda é relevante para a manutenção da influência russa como instrumento de projeção de poder em relação ao cerco geopolítico e econômico dos EUA ao Irã.

É correto, portanto, afirmar que não há interesse russo em rearmar o Irã, já que isso significaria um desgaste nas relações com a Arábia Saudita e com Israel, como também são difíceis as possibilidades da Rússia agir contra o governo iraniano em qualquer área.

Neste sentido, o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, condenou as ações estadunidenses no Irã, afirmou:

These actions on part of Amerians are beyond the limits. Russia advocates overcoming existing differences solely through dialogue, at the negotiating table. This is what the Russian concept of collective security in the Persian Gulf region, presented last summer, is aiming for. So, in contrast to the confrontational schemes promoted by a number of states, we are offering the region a constructive, unifying agenda, and are calling for the formation of mechanisms for joint responses to challenges and threats2 (LAVROV, 2020 apud TEHRAN TIMES, s.p, 2020).

Contudo, isto não diminui as tensões iranianas, ou mesmo russas, já que o General Qasem Soleimani era um comandante de um país soberano que estava em território estrangeiro a convite de oficiais do Exército Iraquiano (AZIZI, 2020). Do ponto de vista iraniano, o que se espera é que haja um aumento na cooperação com milícias xiitas no Iraque para que ocorra a retirada de tropas norte-americanas do território iraquiano.

É possível que os desdobramentos da ação dos EUA, que levou a morte do general iraniano, resulte em uma intensificação nas atividades iranianas em conjunto com a Rússia na Síria, tanto como resposta à morte de Soleimani, quanto como consolidação da política externa iraniana no Oriente Médio (AZIZI, 2020).

A ação norte-americana, portanto, pode inclusive beneficiar as intenções de Moscou na região da Síria e aproximar ainda mais Moscou de Teerã, fortalecer as relações russo-iranianas, aumentar a cooperação na política externa e de defesa entre ambos os países, e ainda corroborar com a influência a Rússia nos territórios que antes pertenciam à URSS.

Porém isso não significa que não haverá cautela na conduta das ações russas, o diplomata russo Sergey Lavrov condenou o ataque a Soleimani mas não fez afirmações sobre o que a Rússia poderá ou não fazer em relação a esse acontecimento (MANKOFF, 2020). Não menos importante é o sentimento da necessidade de retirada de tropas estadunidenses do Iraque, algo que permitiria ainda mais a aproximação entre Irã e Rússia, mas também estaria alinhado com os princípios da Política Externa Iraniana.

Finalmente, o ataque a Soleimani aponta para uma janela de oportunidade para a aproximação entre Irã e Rússia tanto na Síria quanto no Oriente Médio, porém sem o aumentar a chance de uma possível guerra entre Estados Unidos e Rússia, seja na Síria, no Iraque, ou no Teerã.


1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). É membro do Grupo de Pesquisa “Geopolítica, Defesa e Desenvolvimento”, registrado no CNPq, e integrante do Projeto de Pesquisa ‘Geopolítica, Grande Estratégia e Defesa: subsídios analíticos à transformação da Força Terrestre” (ECEME/DECEX). Exerce também a função de pesquisador colaborador no Observatório Militar da Praia Vermelha na área de Geopolítica e Defesa.

2 Essas ações por parte dos americanos estão além dos limites. A Rússia defende superar as diferenças somente pelo diálogo, em uma mesa de negociações. É isso o que o conceito russo de segurança coletiva a região do Golfo Pérsico, apresentada no último verão, pretende atingir. Então, contrastando com os esquemas conflitivos promovidos por outros Estados, estamos oferecendo a região uma agenda construtiva e unificada e propondo a formação de mecanismos de resposta conjunta para enfrentar desafios e ameaças (LAVROV, 2020 apud TEHRAN TIMES, s.p, 2020).


Referências Bibliográficas:

AZIZI, Hamidreza. What awaits us in the “Post-Soleimani” Middle East?. Rússia: Valdai Group, 2020. Disponível em: https://valdaiclub.com/a/highlights/whatawaits-us-in-the-post-soleimani-middle-east/. Acesso em: 14 fev 2020.

MACKINNON, Reid Standish, Amy. Putin Moves to Heighten Russia’s Role After Suleimani Killing. Foreign Policy. Estados Unidos da América: Foreign Policy, 2020. Disponível em: https: //foreignpolicy.com/2020/01/08/putin-suleimani-russia-iran. Acesso em: 13 fev 2020.

MANKOFF, Jeffrey. How Will Russia React to the Killing of Soleimani?. Estados Unidos da América: Center for Strategic and International Studies, 2020. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/how-will-russia-react-killing-soleimani. Acesso em: 14 fev 2020.

SHERR, James. The Killing of Qasem Soleimani: The Russian View. Estônia: International Centre for Defence and Security, 2020. Disponível em: https://icds.ee/the-killing-of-qasem-soleimani-the-russian-view. Acesso em: 13 fev 2020.

TEHRAN TIMES. Lavrov says assassination of Soleimani was a flagrant violation of international law. Irã: Tehran Times, 2020. Disponível em: https://www.tehrantimes.com/news/445237/Lavrov-says-assassination-ofSoleimani-was-a-flagrant-violation>. Acesso em: 18 fev 2020.

TIMES OF ISRAEL. Four Hellfire missiles and a severed hand: The killing of Qassem Soleimani. Israel: Times of Israel, 2020. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/four-hellfire-missiles-and-a-severed-hand-thekilling-of-qassem-soleimani. Acesso em: 13 fev 2020.

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