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Irã versus EUA: um novo episódio

Publicado: Quinta, 18 de Junho de 2020, 11h20 | Última atualização em Segunda, 03 de Agosto de 2020, 15h55 | Acessos: 262

Tenente-Coronel de Cavalaria Daniel Mendes Aguiar Santos

A ação de neutralização executada pelos EUA contra o Gen Soleimani (Irã), no dia 03 de janeiro de 2020, última quinta-feira, pode ser percebida por 3 abordagens: a da geopolítica; a das relações internacionais (RI); e a da política doméstica dos EUA. Por isso, o tema é polêmico e dificilmente haverá um consenso. Tais abordagens são brevemente apresentadas abaixo.

Em um primeiro plano, a abordagem da Geopolítica - eixada a uma visão realista, pragmática e, portanto, priorizando a segurança nacional dos EUA (abarcando seus cidadãos em qualquer parte do mundo). Neste caso, ao enxergar os antecedentes mais distantes, podemos olhar para 1990 e relembrar a Invasão do Iraque, em prol da liberação do Kuwait, refletiu em uma espiral de instabilidade que ainda persiste no Iraque. No presente, o ataque realizado, pelo Gen Soleimani, contra a embaixada dos EUA no Iraque, em 31 de dezembro de 2019, mesmo com a significativa presença americana no país, pode ser percebido como um desafio feito aos EUA pelo Irã (um dos protagonistas regionais, cuja contraparte é a Arábia Saudita, aliada americana). Cabe lembrar que fruto do impasse do acordo internacional para exploração do ciclo do urânio pelo Irã, os embargos dos EUA e as escaramuças junto ao fluxo de petroleiros no Estreito de Ormuz colocaram pressão sobre o Governo de Teerã. Assim, a possível escalada da tensão por parte do Irã já era algo previsto nos cálculos geopolíticos. Inevitavelmente, a ação perpetrada pelo Gen Soleimani contra a embaixada americana, demandaria uma resposta por parte dos EUA, fato que ocorreu de forma cirúrgica e exitosa, sob a perspectiva geopolítica, uma vez que os EUA neutralizaram um vetor de ameaças, que permeava as fronteiras dos países da região e atuava como um proxy de Teerã, em ações clandestinas e terroristas.

A seguir, a abordagem das RI - polarizada pelo atrito entre as visões idealistas versus realistas, e permeadas pela discussão do Direito Internacional, em especial, acerca das condições para o uso da força na arena internacional. Neste contexto, a resposta americana seguiu uma visão realista e não buscou um debate prévio na ONU, por exemplo, adotando, provavelmente, a perspectiva de autodefesa e, como consequência, desenvolvendo uma ação preemptiva para dissuadir novas ameaças contra os seus cidadãos e instalações. Neste tipo de episódio, a polêmica no cenário internacional sempre será recorrente, em especial ao considerar os interesses dos grupos globalistas versus os interesses dos grupos nacionalistas, que tem polarizado o debate das RI.

Em um terceiro plano, a abordagem da política doméstica dos EUA - em ebulição fruto da ‘corrida eleitoral’ e da consequente polarização entre democratas e republicanos, recrudescida ainda mais pelo debate acerca do processo de impeachment. Neste contexto, a ação de neutralização de Soleimani tende a ser criticada pela bancada democrata e seus simpatizantes internacionais, com destaque ao Governo de Macron (tendência globalista) que devem questionar a intensidade e os reflexos da resposta. Por outro lado, para os republicanos (tendência nacionalista) a ação de neutralização pode apoiar o discurso da segurança nacional e reforçar a perspectiva de um governo que protege os cidadãos americanos onde quer que estejam e, com isso, transbordar dividendos para a campanha republicana e, ainda, atenuar a narrativa do impeachment.

Ademais, podemos pensar acerca do Brasil e do seu posicionamento oficial em face da situação. Neste cenário, uma visão realista e cautelosa tende a ser a opção mais apropriada, uma vez que potências como Reino Unido, Rússia e China (CS ONU), a seguir, devem se posicionar a respeito da ação. Por outro lado, uma vez tendo sido apontado, pelos EUA, como aliado militar extra OTAN, o Brasil, provavelmente, não adotará uma neutralidade per se, mas buscará se posicionar de uma forma pragmática, enfatizando o compromisso de combater o terrorismo internacional.

Da mesma forma, atentos à Arte da Guerra, cabe estudar com atenção os meios utilizados na ação de neutralização, como por exemplo, o Drone Reaper e suas capacidades de emprego, controlado de forma remota, provavelmente do próprio território americano. Cabe destacar que fruto das tensões do atual cenário mundial, a expansão de uma guerra, cada vez mais híbrida, tende a se consolidar. Como provocação, vale iluminar uma estratégia em desenvolvimento por várias potências - o Drones Swarming - emprego de múltiplos microvetores aéreos armados, remotamente controlados, capazes de avançar em forma de enxame, uniforme ou randomicamente. Portanto, pensar a Guerra inserida na ‘Internet das Coisas’, na tecnologia 5G e, principalmente, no incessante desenvolvimento da Inteligência Artificial se tornou crucial à Defesa Nacional.

Finalmente, as próximas ações advindas deste novo episódio Irã versus EUA, quer sejam militares e/ou político-econômicas, devem impactar diretamente no papel do Irã do Oriente Médio e, por outro lado, refletir no curso das eleições americanas, polarizando ainda mais a disputa entre republicanos e democratas.

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