Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Os impactos da Guerra Russo-Ucraniana na geopolítica Ásia-Pacífico

Publicado: Sexta, 26 de Agosto de 2022, 01h01 | Última atualização em Sexta, 26 de Agosto de 2022, 10h49 | Acessos: 333

 

José Maria Sydow de Barros
Major do Exército Brasileiro e Doutorando em Ciências Militares

Vinícius Lemos da Silva
Major do Exército Brasileiro e Mestrando em Ciências Militares

.

1. Introdução

Após meses de exercícios militares, incluindo a concentração de tropas na fronteira com a Ucrânia, a Rússia iniciou uma campanha militar contra este país no dia 24 de fevereiro de 2022. Horas antes de agredir à soberania ucraniana, o presidente russo, Vladimir Puttin, anunciou uma operação militar especial para conter aquilo que era considerado por ele como um genocídio perpetrado pelos ucranianos contra cidadãos russos que habitam na região do Donbass (GALVANI, 2022). Antecedendo a invasão, a Rússia reconheceu formalmente a independência das duas províncias ucranianas (Luhansk e Donetsk) e reascendeu a discussão sobre a questão da autodeterminação dos povos em oposição à soberania territorial dos Estados, princípios básicos do sistema internacional contemporâneo (AZZI; SILVA, 2022).

O conflito tornou-se um dos maiores já deflagrados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. O seu término ainda parece longe do fim, com diversos especialistas prevendo sua possível longa duração (THE ECONOMIST, 2022; FREEDMAN, 2022). As negociações de paz ainda parecem longe de um acordo, com interesses ainda irreconciliáveis, já que o mandatário ucraniano, Volodymyr Zelensky, conta com o apoio em armas dos EUA e da OTAN, o que o leva a crer na possibilidade de vitória, ao passo que Vladimir Puttin resiste à pressão das sanções econômicas e segue avançando sobre o Donbass.

Além das graves consequências para a segurança europeia, o conflito russo-ucraniano também tem impactado diversos aspectos no sistema internacional. No campo dos estudos internacionais, a guerra trouxe à tona a relevância da geopolítica e da política das grandes potências. A escola realista tem sido usada como lente para buscar a melhor compreensão das razões para o comportamento russo, bem como para analisar o possível declínio da ordem global criada no pós-Guerra Fria, com a prevalência das normas do Direito Internacional e do sistema ONU, os quais condenam piamente o recurso das armas para a resolução de conflitos.

A guerra na Ucrânia, também, tem ressaltado as rivalidades que já vinham se acentuando antes da invasão russa. A principal delas é a existente entre norte-americanos e chineses. Essas tensões sino-americanas já têm sido chamadas, por renomados estudiosos das relações internacionais, como a “Nova Guerra Fria” (BRANDS; GADDIS, 2021; MEARSHEIMER, 2021), tendo em vista as disputas envolvendo o Mar do Sul da China (MSC), a soberania de Taiwan e as Linhas de Comunicação Marítimas (LCM) do Pacífico. Diante dessas considerações, este artigo busca investigar os principais impactos geopolíticos causados pela Guerra Rússia e Ucrânia no continente asiático. 

2. O Posicionamento dos Estados

Um dos desdobramentos mais imediatos, decorrentes da campanha militar russa, foi a adoção de posicionamento, das diversas nações e organizações multilaterais ao redor do globo, favorável aos russos ou aos ucranianos. Os EUA liderando a OTAN, bem como a França e a Alemanha à frente da União Europeia, além do Reino Unido, da ONU e a grande maioria dos países ocidentais, rechaçaram, de imediato, a atitude russa. Estima-se que, somada a ajuda já fornecida e a afiançada pelos norte-americanos e demais países do G7, esse valor alcança cerca de US$ 88 bilhões até o mês de maio (VEJA, 2022). Somente o Congresso dos Estados Unidos aprovou, em 19 de maio, um pacote de ajuda militar e humanitária de quase US$ 40 bilhões (VEJA, 2022).

Essa postura, entretanto, está longe de ser unânime. Existem Estados que adotaram a neutralidade, ainda que mantendo a condenação de qualquer forma de resolução armada de disputas. É o caso do Brasil, que busca o equilíbrio entre sua condição de integrante dos BRICS e grande dependente da importação de fertilizantes russos, com a sustentação dos pilares básicos de sua Política Externa, consagrado no Art. 5º de sua Carta Magna: a resolução pacífica dos conflitos, a não intervenção e a cooperação entre os povos (BRASIL, 2020). Tal posição ficou clara na manifestação do Embaixador Brasileiro na ONU, Ronaldo Costa Filho, na Assembleia Geral da ONU do dia 28 de fevereiro de 2022 (SOARES, 2022).

Outros países têm se alinhado, ainda que não diretamente, às alegações russas da franca hostilidade gerada pela expansão da OTAN, e por consequência dos EUA, para o Oriente. Nesse aspecto, destaca-se a China, a qual, em encontro entre seu líder, Xi Jinping, e Vladimir Puttin, pouco antes da invasão da Ucrânia, anunciou uma “parceria sem limites” com a Rússia. Em comunicado conjunto, foram feitas críticas abertas à atuação da Aliança Militar ocidental, denunciando também a formação de blocos de segurança na região da Ásia-Pacífico (DUCHIADE, 2022), em referência ao AUKUS, grupo formado por Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, e ao QUAD, integrado por Austrália, Índia, EUA e Japão, ambos por iniciativa estadunidense.

3. O Reordenamento Geopolítico

O primeiro movimento geopolítico realizado pela China que causou preocupação junto aos EUA ocorreu em junho desse ano, ocasião em que a China firmou um acordo com as ilhas Salomão que, dentre as diversas atribuições existentes, há uma assistência de defesa mútua entre os países, procedimento que alimentou temores de que Pequim possa vir a instalar uma base naval naquele Estado insular, projetando poder na região em que os EUA tentam se impor geopoliticamente. O almirante Samuel Paparo, comandante da Frota do Pacífico dos EUA, afirmou que o acordo, firmado dias antes da visita às ilhas Salomão, é motivo de preocupação para muitos países ocidentais do Pacífico, especialmente para a Austrália e Nova Zelândia. Após o acordo, Peter Dutton, ministro da Defesa da Austrália, anunciou um incremento de US$ 3,5 bilhões para as Forças de Defesa Australianas, a fim de estarem prontas para qualquer potencial conflito na região (SPUTNIK BRASIL, 2022; BBC, 2022).

Outro movimento geopolítico chinês que causou preocupação junto às autoridades norte-americanas ocorreu no dia 17 de junho de 2022, ocasião em que a China apresentou o seu terceiro e mais avançado porta-aviões, o primeiro inteiramente projetado e construído no país, o qual, segundo especialistas, possui uma tecnologia próxima daquela que equipa os porta-aviões dos EUA. De maneira sugestiva, o porta-aviões chinês foi batizado de Fujian, nome da província chinesa mais próxima de Taiwan, ponto de intensos atritos entre os EUA e a China (LENDON; GAN, 2022).

Nesse panorama, o status de Taiwan tem gerado inúmeros atritos diplomáticos entre os EUA e a China, a partir do distanciamento dos norte-americanos de uma postura que reconhecia o princípio de uma só China adotado na década de 70, por ocasião da reaproximação com Pequim (O GLOBO, 2022). Contudo, a oposição à independência de Taiwan é um dos objetivos fundamentais da Defesa Nacional da China, claramente descrito em seus documentos de Defesa (CHINA, 2019). Para aumentar ainda mais o grau de hostilidades entre norte-americanos e chineses, por ocasião do encontro realizado entre Wei Fenghe, ministro da Defesa da China, e Lloyd Austin, Secretário de Defesa dos EUA, em 10 de julho de 2022, durante o fórum Shangri-La Dialogue, o ministro chinês declarou que o país não hesitará em declarar uma guerra, caso Taiwan insista na independência. Ratificou suas palavras dizendo que Pequim defenderá resolutamente a unificação da pátria, da mesma forma que alertou os EUA para não usar Taiwan para conter a China (O GLOBO, 2022).

A Rússia, por sua vez, após o início do conflito entre russos e ucranianos, redirecionou para a Ásia grande parte da venda de seus recursos energéticos e, por isso, tem sido capaz de dirimir os efeitos das pesadas sanções impostas pelos EUA e União Europeia. Nesse sentido, transcorridos 100 dias do início da guerra na Ucrânia, a China ultrapassou a Alemanha como o principal comprador das exportações russas no setor de energia (petróleo e gás natural), tornando a Rússia o principal fornecedor de petróleo para Pequim, superando a Arábia Saudita (BBC, 2022a; CNN, 2022). Cumpre, ainda, mencionar que a Índia também expandiu consideravelmente a importação de petróleo russo. Antes do conflito na Ucrânia, apenas 1% das exportações russas de petróleo tinham como destino o país indiano. Entretanto, em maio de 2022, essas exportações correspondiam a cerca de 18% (BBC, 2022a).

Pelo exposto, pode-se inferir que essa dinâmica comercial tem contribuído para que a Rússia, definitivamente, tenha se voltado para o continente asiático, afastando-se, gradualmente, da Europa. Pode-se inferir, também, que a guerra russo-ucraniana proporcionou o fortalecimento das relações entre esses gigantes asiáticos (Rússia, China e até a Índia), pelo que, também, tem dado novo ânimo para o grupo dos BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.  

4. Considerações Finais

Em vista do que foi apresentado, observa-se que a guerra entre Rússia e Ucrânia se tornou num importante marco nas relações internacionais no século XXI, onde a geopolítica clássica continua relevante para se compreender as relações entre as grandes potências mundiais. Ademais, o uso da força ainda se configura como um importante instrumento nas relações entre os Estados.

A guerra russo-ucraniana aparenta, ainda, estar longe de um desfecho. Além disso, novas iniciativas, como o convite formal da OTAN para que a Finlândia e a Suécia possam aderir à aliança, ratificam a percepção de que os Estados resgataram a preocupação com a segurança e com a autodefesa, proporcionando uma reorganização do tabuleiro internacional.

Desta forma, entende-se que o conflito analisado reacendeu e intensificou as disputas geopolíticas entre as grandes potências, especialmente entre EUA e China, cujas ações e jogo de poder caracterizam a “Nova Guerra Fria”, discutida por inúmeros acadêmicos.  Desde o início da campanha militar russa contra a Ucrânia e após a China ter ratificado sua relação de amizade “sólida como uma rocha” com a Rússia, os EUA têm intensificado suas ações de contenção da influência chinesa na região da Ásia-Pacífico, alçando essa região como um importante foco de tensão e disputas geopolíticas.

  

Referências Bibliográficas: 

  1. AZZI, Enio Moreira; SILVA, Sylvio Pessoa. Reconfiguração do tabuleiro e realinhamentos estratégicos. Revista Análise Estratégica, Vol. 24, nº 2, 2022.

  2. BBC. Por que acordo entre China e ilhas no Pacífico preocupa EUA. BBC News, 21 de abril de 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61173 663. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  3. BBC. Como China e Índia têm ajudado Rússia a driblar sanções comprando petróleo barato. BBC News, 25 de junho de 2022a. Disponível em: https://www.bbc.c om/portuguese/internacional-61890519?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D%5Bcorreiobrazi liense.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  4. BRANDS, Hall; GADDIS, John Lewis. The New Cold War: America, China and the Echoes of History. Foreign Affairs, 2021. Disponível em: https://www.foreignaffairs.c o m/articles/united-states/2021-10-19/new-cold-war. Acesso em: 15 de março de 2022.

  5. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil - 1988. 56. ed. São Paulo: Saraiva, 2020.

  6. CHINA. China's National Defense in the New Era. Beijing: July 2019.

  7. CNN. China passa Alemanha e se torna maior importadora de energia da Rússia. CNN Brasil, 13 de junho de 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/bu siness/china-passa-alemanha-e-se-torna-maior-importadora-de-energia-da-russia/. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  8. DUCHIADE, André. China e Rússia anunciam parceria ‘sem limites’ em meio a tensões com potências ocidentais. O Globo, 04 de fevereiro de 2022. Disponível em:  https://oglobo.globo.com/mundo/china-russia-anunciam-parceria-sem-limites-em-meio-tensoes-com-potencias-ocidentais-1-25380470. Acesso em: 24 de junho de 2022.

  9. FREEDMAN, Lawrence. Why War Fails: Russia’s Invasion of Ukraine and the Limits of Military Power. Foreign Affairs, 2022. Disponível em: https://www.foreign affairs.com/articles/russian-federation/2022-06-14/ukraine-war-russia-why-fails. Acesso em: 23 de junho de 2022.

  10. GALVANI, Giovanna. Entenda a Guerra da Ucrânia em 10 pontos. CNN Brasil, 24 de junho de 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-a-guerra-da-ucrania-em-10-pontos/. Acesso em: 24 de junho de 2022.

  11. LENDON, Brad; GAN, Nectar. “Fujian”: China apresenta seu terceiro e mais avançado porta-aviões. CNN Brasil, 17 de junho de 2022. Disponível em: https://www .cnnbrasil.com.br/internacional/fujian-china-apresenta-seu-terceiro-e-mais-avancado-po rta-avioes/. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  12. MEARSHEIMER, John. The Inevitable Rivalry: America, China and the Tragedy of Great Power Politics. Foreign Affairs, 2021. Disponível em: https://www.foreignaf fairs.com/articles/china/2021-10-19/inevitable-rivalry-cold-war. Acesso em: 15 de março de 2022.

  13. O GLOBO. China adverte EUA que não hesitará em “começar uma guerra” se Taiwan declarar independência. O Globo, 10 de junho de 2022. Disponível em: https: //oglobo.globo.com/mundo/noticia/2022/06/china-adverte-eua-que-nao-hesitara-em-co mecar-uma-guerra-se-taiwan-declarar-independencia.ghtml. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  14. SOARES, Gabriella. Brasil condena ataque russo, mas também critica sanções. Poder 360, 28 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.poder360.com.br/euro pa-em-guerra/brasil-condena-ataque-russo-mas-tambem-critica-sancoes/. Acesso em: 24 de junho de 2022.

  15. SPUTINK BRASIL. Almirante dos EUA adverte sobre possível conflito no Pacífico frente ao acordo Ilhas Salomão-China. Sputnik Brasil, 05 de abril de 2022. Disponível em: https://br.sputniknews.com/20220405/almirante-dos-eua-adverte-sobre-possivel-conflito-no-pacifico-frente-ao-acordo-ilhas-salomao-china-22128223.htm. Acesso em: 27 de junho de 2022.

  16. THE ECONOMIST. Does a protracted conflict favour Russia or Ukraine? The Economist, 01 de julho de 2022. Disponível em: https://www.economist.com/briefing/2 022/06/30/does-a-protracted-conflict-favour-russia-or-ukraine. Acesso em: 11 de julho de 2022.

  17. VEJA. Com pacotes dos EUA e G7, Ucrânia acumula US$ 88 bi em ajuda militar. Veja 20 maio. 2022. Mundo. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/com-pacot es-dos-eua-e-g7-ucrania-acumula-us-88-bi-em-ajuda-militar/. Acesso em: 24 de junho de 2022.

 

Rio de Janeiro - RJ, 26 de agosto de 2022.


Como citar este documento:
BARROS; SILVA. Os impactos da Guerra Russo-Ucraniana na geopolítica Ásia-Pacífico. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

.

 

Fim do conteúdo da página