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A Logística do Exército Brasileiro na Amazônia Ocidental: Como Vencer os Desafios?

Publicado: Sexta, 11 de Novembro de 2022, 01h01 | Última atualização em Sexta, 11 de Novembro de 2022, 09h11 | Acessos: 178

 

Felipe Rímolo Cosendey
Tenente-Coronel do Exército Brasileiro e Instrutor da ECEME.

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1. Introdução

A região conhecida como Amazônia Ocidental apresenta peculiaridades intrínsecas, que trazem grandes desafios às atividades logísticas conduzidas pelo Exército Brasileiro, em especial, pela densidade de suas reservas florestais, pelos regimes dos rios com períodos de seca e pela carência de infraestrutura de transportes. A Amazônia Ocidental é uma imensa faixa territorial situada na porção norte do país, com uma superfície de aproximadamente 2,4 milhões de Km², que correspondem a 25% do território brasileiro, tendo uma faixa de fronteira de 10.363 km². Apesar de toda a sua importância geoestratégica, em razão da biodiversidade, de possuir a maior reserva de água doce do mundo e pelas riquezas minerais ainda imensuráveis, é a única ainda não totalmente integrada às demais regiões do país. 

A complexidade das missões inerentes às tropas do Exército Brasileiro no ambiente operacional peculiar da Amazônia é agravada por limitações de infraestrutura e de meios logísticos. O transporte aéreo é de alto custo e de baixa disponibilidade e a malha rodoferroviária é quase inexistente, provocando uma dependência quase exclusiva do modal aquaviário fluvial. Esses fatores limitadores impactam diretamente no apoio logístico, indispensável para a sustentação das operações e para a vida vegetativa das Organizações Militares de selva.

2. A Estrutura da Logística no Exército Brasileiro na Amazônia Ocidental

Na Amazônia Ocidental, o Exército Brasileiro é representado pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), Grande Comando Operacional da instituição responsável pelas operações conduzidas nesse local. O CMA, por sua vez, possui a 12ª Região Militar, Grande Comando Logístico responsável pelo apoio às Brigadas de Infantaria de Selva localizadas na Amazônia Ocidental: a 1ª Brigada de Infantaria de Selva sediada em Boa Vista-RO, a 2ª Brigada de Infantaria de Selva sediada em São Gabriel da Cachoeira-AM, a 16ª Brigada de Infantaria de Selva sediada em Tefé-AM e a 17ª Brigada de Infantaria de Selva sediada em Porto Velho-RO.

Em termos de planejamento, a responsabilidade recai sobre o Centro de Coordenação de Operações Logísticas (CCOL), órgão subordinado à 12 ª Região Militar. Assim, em coordenação com o CCOL, as Organizações Militares subordinadas à 12ª Região Militar executam o apoio às Brigadas de Infantaria de Selva. Senão vejamos: o Parque Regional de Manutenção da 12ª Região Militar é o responsável pela manutenção dos meios, o 12º Batalhão de Suprimento é o responsável pelo suprimento e o Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia (CECMA) é o responsável pelo transporte logístico fluvial. Além dessas Organizações Militares específicas, o CMA ainda conta com o 2º Grupamento de Engenharia para prestar o apoio de mobilidade, contra mobilidade e proteção em sua área de atuação.

3. As Funções Logísticas mais importantes na Amazônia Ocidental

Dentre as funções elencadas na logística militar, a função logística manutenção e a função logística transporte são as que geram maior impacto no apoio às Organizações Militares de Selva. Essa demanda foi visualizada pela 12ª Região Militar, a qual elencou, dentre outros objetivos estratégicos estabelecidos para a melhoria da logística na Amazônia”[1], a ampliação da capacidade de apoio nas funções logísticas manutenção e transporte.

Quanto à função logística manutenção, as longas distâncias entre o Parque Regional de Manutenção da 12ª Região Militar, sediado em Manaus-AM, e as Grandes Unidades apoiadas, incluindo seus Pelotões Especiais de Fronteira, fazem com que o tempo de retorno do material manutenido seja longo, afetando diretamente o índice de disponibilidade e de operacionalidade das Brigadas.

No que diz respeito ao transporte logístico fluvial efetuado pelo CECMA, as demandas são sempre maiores do que a disponibilidade de meios (empurradores e balsas). A 16ª Brigada de Infantaria de Selva e a 2ª Brigada de Infantaria de Selva estão debruçadas nos extensos rios Solimões e Negro, os quais possuem seus regimes e características próprias, requerendo um minucioso planejamento por aquele Centro de Embarcações.

4. Os Modais de Transporte na Amazônia Ocidental

Numa breve análise dos modais de transporte, pode-se chegar à conclusão de que, pela existência de uma vasta bacia hidrográfica que abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá e norte do Mato Grosso, o modal fluvial é o mais utilizado na Amazônia (BRASIL,2014). Todavia, a realidade é bem distinta disso.

No tocante a Amazônia Ocidental, em que pese tenha o menor custo, o modal fluvial é mais lento, pois percorre longas distâncias, fato que impacta diretamente no apoio logístico às Brigadas eixadas nos rios Negro e Solimões. Exemplo disso é o trecho Manaus-Tabatinga, que pode levar mais de 10 dias, em razão da embarcação empregada, do peso da carga transportada e do regime dos rios. Esse fator se agrava no trajeto Manaus-São Gabriel da Cachoeira, em razão do Rio Negro ser encachoeirado em alguns trechos.

Quanto ao modal aéreo, merece destaque o Plano de Apoio à Amazônia, que utiliza os meios aéreos do VII Comando Aéreo Regional (VII COMAR), priorizando os gêneros frigorificados, com ênfase nos Pelotões Especiais de Fronteira (BRASIL, 2018). Contudo, a capacidade de transporte executada pela Força Aérea Brasileira é limitada, tanto pelas características das aeronaves, quanto pela quantidade de meios aéreos disponíveis. Ademais, o custo é mais elevado do que qualquer outro meio de transporte. Soma-se a isso, o fato de os meios aéreos serem muito impactados pelas condições meteorológicas adversas na Amazônia. 

5. Infraestrutura na Amazônia Ocidental

Os aspectos acima mencionados são agravados pela existência de comunidades localizadas em áreas de difícil acesso, pela existência de infraestruturas portuárias, pelas telecomunicações inconsistentes, pela deficiência na energia elétrica e pela escassez de empresas fornecedoras locais. Esses aspectos conduzem o planejador militar à seguinte questão: como vencer os desafios logísticos?

Diante dessas limitações e deficiências, que impactam a diretamente a logística, não há solução fácil e nem de baixo custo. Nesses casos, a resposta normalmente está na realização de ações estratégicas de curto, médio e longo prazo. De acordo com o projeto interdisciplinar, realizado em 2014 pelos alunos do Curso de Política Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), a Amazônia Legal carece de estratégias para fazer evoluir a atual estrutura econômica regional e que o setor de transportes na Amazônia brasileira se apresenta aquém do atendimento das demandas locais, com baixo grau de eficiência e operação em condições bastante precárias (BRASIL, 2014). Para vencer esses desafios, é necessário a realização de inúmeras ações, como por exemplo: obras de melhoria portuária nas principais hidrovias (Solimões, Negro, Amazonas e Madeira); a ampliação da malha ferroviária da Ferronorte, que se encontra inacabada; e a recuperação da malha rodoviária federal nas rodovias BR-230, BR-364, BR-317 e BR-174 (BRASIL, 2014).

6. Os esforços realizados pelo Exército Brasileiro

Somadas às propostas elencadas acima, as quais somente serão concretizadas com a participação efetiva do Governo Federal e dos Governos Estaduais, o Exército Brasileiro, de forma proativa, realizou diversos estudos com ênfase na melhora da performance da logística para a Amazônia Ocidental.

O período compreendido entre 2015 e 2017 gerou diversas pesquisas voltadas para aperfeiçoar a logística no âmbito da Amazônia. Estudos como o Diagnóstico Logístico de 2015 à 2017; a Portaria nº 019-EME (2016), aprovando a Diretriz para Otimizar a Logística no CMA; o Simpósio Nova Concepção Logística do CMA; e o Planejamento Estratégico para a Implementação da Nova Concepção Logística da Amazônia - 2018,  são apenas algumas, das inúmeras iniciativas realizadas pelo Exército Brasileiro para melhorar a logística de suas tropas na região amazônica (BRASIL, 2018). Tais estudos, sem exceção, contribuíram significativamente para o alicerce das ações previstas pelo EME em seu Planejamento Estratégico. Atualmente, o Plano Estratégico do Exército - PEEx (2020-2023) define as ações estratégicas que devem ser feitas pois impactam diretamente na melhoria da logística na Amazônia Ocidental (BRASIL, 2020):

Quadro 1: Planejamento Estratégico do EME

OEE

Estratégia

Ação Estratégica

Atividades

1 - Contribuir com a Dissuasão Extrarregional

1.2 Ampliação da mobilidade e elasticidade da Força

1.2.2 Estruturar a Aviação do Exército

- Ampliação da capacidade de transporte logístico na Amazônia (Asa Fixa). (2020-2023).

3 - Contribuir com o Desenvolvimento Sustentável e a Paz Social

3.1 Aperfeiçoamento das capacidades de
monitoramento/

Ctl, apoio à decisão e apoio ao emprego

3.1.1 Desenvolvimento das Capacidades de Monitoramento/ apoio à decisão e emprego da fronteira terrestre

- Implantação do SISFRON na área da 2ª, 16ª e 17ª Bda Inf Sl. (2020-2023).

8 - Aperfeiçoar o Sistema Logístico Militar Terrestre

8.1 Adequação da estrutura logística do
Exército

8.1.1 Aperfeiçoar a estrutura logística do Exército (Prontidão Logística)

- Transformação da 17ª Ba Log Sl em 17º B Log Sl, em Porto Velho-RO;

- Implantação do 2º Batalhão Logístico de Selva, em São Gabriel da Cachoeira-AM;

- Adequação da infraestrutura logística dos Destacamentos, Pelotões e Companhias Especiais de Fronteira, OM de Fronteira e OM Logística de Selva; e

- Transformação do Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia (CECMA) em 12º Batalhão de Transporte de Selva.

Fonte: BRASIL, 2020.

As supracitadas ações estão no contexto do Programa Amazônia Protegida e do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteira (SISFRON). Visualiza-se que tais ações contribuirão para o aumento da sustentação logística na Amazônia, sendo esta uma das capacidades militares requeridas à Força Terrestre. Assim, pode-se afirmar que:

[...] o maior desafio a ser superado na Amazônia no que tange ao setor, talvez seja a tendência histórica de desconsiderar as alternativas de integração multimodal e de melhoria dos transportes fluviais, já que a abundante existência de rios navegáveis não deixa dúvidas quanto à vocação natural da região para o deslocamento de cargas e pessoas (BRASIL, 2014).

7. Considerações Finais

Diante do exposto, pode-se inferir que o estabelecimento de um suporte logístico eficiente só será realidade quando as estruturas logísticas requeridas, desde as Organizações Militares Logísticas do Grande Comando Logístico em Manaus até os Pelotões Especiais de Fronteira, passando pelas Bases Logísticas de Brigada, estiverem concretizadas. Isso significa adquirir empilhadeiras, guindastes, esteiras, rampas de aço naval, visando o transbordo de carga, inclusive com troca de containers abastecidos por vazios na ponta da linha. Soma-se a isso, a necessidade de os Pelotões Especiais de Fronteira terem depósitos de gêneros e de combustíveis com grande capacidade de armazenamento, visando evitar o desabastecimento em caso de atrasos no transporte logístico.

Além da melhoria em infraestruturas, há que se investir nos meios fluviais de carga, por possuírem elevada capacidade de transporte a um baixo custo, em comparação com o aéreo. Neste viés, ressalta-se que os meios a serem empregados na área de cada Brigada devem sempre se adequar às peculiaridades dos rios, com destaque ao Negro e Solimões, que impactam de forma distinta o apoio logístico junto às Organizações Militares subordinadas da 16ª Brigada de Infantaria de Selva e da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.

Em que pese o esforço principal estar vocacionado ao transporte fluvial, o meio aéreo é imprescindível ao suporte logístico em regiões de difícil acesso na Amazônia Ocidental, principalmente na região de fronteira. Exemplo disso são os Pelotões Especiais de Fronteira de Auaris, Surucucu, São Joaquim, Querari, Marechal Thaumaturgo e Santa Rosa do Purus, os quais só recebem apoio logístico por meio aéreo, em razão de não possuírem via de acesso terrestre ou fluvial.

Com o fim de complementar o apoio proporcionado pela Força Aérea Brasileira, o Exército Brasileiro vem desenvolvendo o Projeto Sherpa, para aquisição e operação de Aeronaves C-23, que foram doadas pelos Estados Unidos da América. Esse projeto se apresentou viável à Força Terrestre por possuir uma ótima relação custo-benefício, baseada nos seguintes parâmetros: 1) boa capacidade de carga da aeronave, 2) existência de rampa traseira, 3) possibilidade em operar em pistas curtas e não preparadas, 4) fácil manutenção e 5) valor de hora de vôo muito inferior ao helicóptero.

De tudo que foi exposto, observa-se que desde 2015, o Estado-Maior do Exército vem realizando um trabalho consubstanciado em diagnósticos logísticos e planejamentos estratégicos que possibilitaram o estabelecimento de metas de curto, médio e longo prazos para aperfeiçoar a logística na Amazônia. Espera-se que essas metas sejam atingidas pela aplicação adequada de recursos financeiros, com destaque aos provenientes do SISFRON e do Programa Amazônia Protegida, nas ações estratégicas previstas no PEEx (2020-2023).

Por fim, fica evidente que a melhoria do apoio logístico na Amazônia Ocidental será obtida pela aquisição de equipamentos e pela construção de infraestruturas logísticas portuárias, sempre com soluções distintas para cada Brigada de Infantaria de Selva, as quais contribuirão para a necessária integração dos modais de transporte terrestre, fluvial e aéreo. Em suma, a infraestrutura existente na Amazônia Ocidental é o maior desafio a ser superado pela logística militar.

 

[1] Apoio Logístico. Disponível em: www.12rm.eb.mil.br. Acesso em 16 Ago. 2021.

 

    

 Referências Bibliográficas: 

  1. BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Instruções Provisórias: O Batalhão de Infantaria de Selva - IP 72-20. Brasília: EME, 1997.

  2. BRASIL. Exército Brasileiro. ECEME. Plano de Desenvolvimento Socioeconômico Sustentável para a Amazônia Legal (Projeto Interdisciplinar do CPEAEx). Rio de Janeiro: ECEME, 2014.

  3. BRASIL. Exército Brasileiro. Comando Militar da Amazônia. Planejamento Estratégico para a Implementação da Nova Concepção Logística da Amazônia. Manaus: CMA, 2018.

  4. BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Plano Estratégico do Exército (PEEx 2020-2023). Brasília: EME, 2020.

 

Rio de Janeiro - RJ, 11 de novembro de 2022.


Como citar este documento:
Cosendey, Felipe Rímolo. A Logística do Exército Brasileiro na Amazônia Ocidental: Como Vencer os Desafios? Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

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