Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

A importância estratégica dos Tiros de Guerra

Publicado: Quinta, 17 de Novembro de 2022, 01h01 | Última atualização em Quinta, 17 de Novembro de 2022, 11h27 | Acessos: 255

 

Marco André Menezes dos Santos
Coronel do Exército Brasileiro e aluno do Curso de Política,
Estratégia e Alta Administração do Exército.

Maykon Dutra Barbosa
Coronel do Exército Brasileiro e aluno do Curso de Política,
Estratégia e Alta Administração do Exército.

.

1. Introdução

Este artigo apresenta os resultados preliminares de uma pesquisa realizada junto aos militares que servem nos Tiros de Guerra (TG), cujo objetivo principal foi verificar a importância estratégica dos Tiros de Guerra para o Brasil. Para atingir o objetivo selecionado, este artigo está estruturado da seguinte forma: inicialmente, realiza-se um breve histórico dos Tiros de Guerra no Brasil, seguido de uma descrição sumária dos principais valores cultuados pelo Exército Brasileiro. Posteriormente, realiza-se uma apresentação sobre a inserção e o papel do Exército Brasileiro no cenário atual, da mesma forma que são tecidos alguns detalhes sobre a Estratégia da Presença. Por fim, são realizadas algumas considerações sobre a importância estratégica dos Tiros de Guerra para o Brasil.

 

2. Breve histórico dos Tiros de Guerra no Brasil

No século XIX, o Exército Brasileiro carecia de uma reserva mobilizável que fosse capaz de integrar o contigente militar em caso de guerra. Nessa época, o serviço militar era prestado por meio do voluntariado ou por meio do recrutamento forçado, dinâmicas que trouxeram sérios obstáculos para a mobilização do contingente militar durante a Guerra da Tríplice Aliança e outras guerras ocorridas no mesmo século (OLIVEIRA, 2007).

Com grandes desafios a serem superados pelo país e com um sistema de recrutamento deficitário, o Brasil se viu obrigado a implementar ações inovadoras para dinamizar o serviço militar que, até então, era praticado no país. Para tanto, o país se inspirou no sistema de mobilização da Suíça e, em 1902, foi criado o primeiro Tiro de Guerra no Brasil, o qual foi denominado de “Sociedade de Propaganda do Tiro Brasileiro”, instituição que tinha como objetivo ministrar instrução de tiro aos cidadãos civis (MAGALHÃES, 1992).

Imediatamente, outros municípios seguiram a mesma ideia e passaram a criar Tiros de Guerra em suas cidades. E assim, não tardou para que fôsse criada a Confederação de Tiro Brasileiro em Rio Grande, organização que coordenava e dava as diretrizes para todos os Tiros de Guerra no país (OLIVEIRA, 2007). Anos depois, devido ao aumento e a importância dos Tiros de Guerra no Brasil, foi criada a Diretoria Geral dos Tiros de Guerra em 1917, estrutura subordinada diretamente ao Ministério da Guerra. Tal iniciativa demonstrou o claro interesse do Exército Brasileiro pelos Tiros de Guerra, ressaltando a importância estratégica desses órgãos junto ao país no início do século XX. Para que se tenha uma ideia, nesse período o Brasil chegou a possuir 572 Tiros de Guerra, os quais abrigavam um efetivo de cerca de 50.000 (cinquenta mil) atiradores, números que representam uma média de quase 100 atiradores a cada Tiro de Guerra (MIOTTO, 1994).

Contudo, com o advento da 1ª Guerra Mundial, os Tiros de Guerra sofreram profundas modificações estruturais. Questionou-se à cúpula militar da época, a validade dos Tiros de Guerra e considerou-se que houve questões que desvirtuaram os princípios fundamentais destas organizações, o que gerou descrédito e decadência desses órgãos junto ao Exército Brasileiro (MOSCA, 2002). Além dessas questões, percebeu-se o desequilíbrio social que havia entre os atiradores e os soldados. Se os atiradores, majoritariamente, eram oriundos de classes sociais mais favorecidas, os soldados, em sua grande maioria, eram analfabetos.

Durante a 2ª Guerra Mundial, os Tiros de Guerra sofreram novas adaptações, sendo extintos em localidades onde existiam Organizações Militares do Exército Brasileiro. Após o final da 2ª Guerra Mundial, quando tudo caminhava para a extinção definitiva dos Tiros de Guerra no Brasil, o interesse das autoridades municipais pelos Tiros de Guerra mostrou ser o fiel da balança e permitiu que se mantivesse o funcionamento dos Tiros de Guerra por meio de uma inserção na pauta da Constituição Federal de 1946 (BRASIL, 1946).

Desde então, os Tiros de Guerra tem funcionado no Brasil sob um formato híbrido, o qual é composto pelo interesse e forte apoio dos municípios de um lado e, pela coordenação e diretriz de funcionamento estabelecida pelo Exército Brasileiro de outro lado.

 

3. Valores do Exército Brasileiro

Indissociável a História do Brasil, o Exército Brasileiro é uma instituição fortemente identificada com o povo brasileiro, haja vista sua participação nas lutas pela independência e na manutenção do território brasileiro. Tendo em vista essa relação histórica, verifica-se que as tradições e vocações do Exército Brasileiro foram definidas e consolidadas ao longo do processo histórico-cultural da Nação com forte ligação com a sociedade brasileira:

- Tradições de bravura, sacrifício e participação na conquista e na manutenção da soberania, da unidade e da integração e a promoção da paz social; de culto e respeito à Pátria, aos seus símbolos, aos chefes militares, aos heróis e aos momentos históricos da formação.

- Vocação democrática, com base nos ideais de liberdade e repulsa aos extremismos, às ideologias e aos regimes autocráticos. A vocação democrática do Exército Brasileiro é reforçada pela presença de brasileiros oriundos de diferentes classes sociais e credos religiosos, pela igualdade de oportunidades de acesso à carreira militar e por sua lealdade ao compromisso permanente com a liberdade e com a democracia.

- Vocação de solidariedade, manifestada sobretudo na assistência às populações mais carentes, bem como em situações de calamidade pública, mantendo-se imune e desvinculado da influência de qualquer organização político-partidária.

Ou seja, fica bastante claro que a instituição possui um papel social bem definido no Brasil e que está diretamente ligado ao seu posicionamento enquanto instituição capacitada à formação educacional, cívica e moral dos jovens. O auxílio das Forças Armadas brasileiras, em particular o que é prestado pelos Tiros de Guerra na formação moral e cívica dos jovens brasileiros, é um dos mais importantes papéis desempenhados pela instituição. Trabalhando em conjunto, os seus integrantes buscam definir os rumos e direcionam seus esforços com o propósito de cumprir a missão constitucional e suas complementariedades.

Nos últimos anos, o Exército Brasileiro tem adotado uma política muito mais participativa e proativa, seja como instituição formadora de jovens soldados, seja como um agente a serviço da formação educacional ou em apoio à comunidade prestando auxílios em geral. Todas as ações sociais implementadas pela instituição visam ao estreitamento das relações com a comunidade, bem como buscam ampliar o conhecimento da sociedade sobre as atividades militares.

 

4. O Exército Brasileiro no cenário atual

A globalização permitiu possibilidades para todos os segmentos sociais participarem da chamada educação informatizada. À medida que novas tecnologias de ponta surgem num espaço relativamente curto, os antigos bens com o mesmo know-how se popularizam, tornando-se mais acessíveis para as camadas menos favorecidas.

Na era do conhecimento, com as pessoas tendo acesso cada vez mais fácil e mais rápido às informações, as transformações sociais, culturais e econômicas estão acontecendo cada vez mais rápido, pelo que acabam reformulando princípios, moralidade e éticas na sociedade. Nesse cenário turbulento e complexo, aumenta ainda mais o valor das Forças Armadas na sociedade moderna. No Brasil, sua interação com a sociedade dar-se-á por meio da informação e na relação representativa com as principais instituições sociais, ou seja, utilizando-se dos instrumentos da comunicação moderna, o Exército Brasileiro busca difundir no seio da população imagens simbólicas e sagradas para a nação brasileira, visando engendrar no seio da população civil elementos que justifiquem o sentido de ser brasileiro.

Dada a necessidade de difundir a cultura militar na sociedade, sobretudo entre os jovens, tanto para promoção dos princípios morais e cívicos do Exército Brasileiro, quanto para formação intelectual dessa juventude, o Exército Brasileiro tem feito ações no sentido de se apresentar mais à sociedade, de divulgar ainda mais sua missão e suas metas sociais junto à sociedade brasileira. Inserido nesse rol de ações, os Tiros de Guerra têm em seu âmago a essência de uma escola que interfere diretamente na qualidade de vida das pessoas. Dessa forma, além de formar reservistas de 2ª Categoria para o Brasil, os Tiros de Guerra também promovem um maior entrelace entre o Exército Brasileiro e a sociedade.

Dentro da estrutura organizacional do Exército Brasileiro, os Tiros de Guerra foram redescobertos como fontes potenciais de comunicação social, favorecendo a disseminação da cultura militar e a ampliação do efetivo de jovens que participam do serviço militar obrigatório. São estes órgãos, também, excelentes oportunidades de formação educacional da juventude, que têm o duplo privilégio de servirem à Pátria, ao tempo em que adquirem noções de cidadania e civismo, promovendo ainda, num terceiro estágio, a valorização das instituições militares na sociedade brasileira.

 

5. Estratégia da Presença

De acordo com a Política Nacional de Defesa, garantir a Soberania, o Patrimônio Nacional e a Integridade Territorial, bem como preservar a coesão e a unidade nacionais são objetivos nacionais de defesa (BRASIL, 2005). Para atender a tais necessidades, a Estratégia Nacional de Defesa preconiza que o Exército Brasileiro deve promover a integração e a cidadania, aperfeiçoando o Serviço Militar Obrigatório e intensificando a presença dos Tiros de Guerra em áreas estratégicas de baixa densidade demográfica (BRASIL, 2013).

Para alcançar os objetivos estabelecidos na Política Nacional de Defesa, o Exército Brasileiro adotou a estratégia da Presença, baseada em dois aspectos fundamentais: o primeiro aspecto, direcionado à expressão militar, caracteriza-se pela criteriosa articulação territorial das Organizações Militares e pela capacidade de rápido deslocamento e concentração para qualquer região do País; o segundo aspecto, direcionado à expressão psicossocial, caracteriza-se pelo desenvolvimento da mentalidade de defesa e pela integração da expressão militar junto à sociedade brasileira (BRASIL, 2015).

No entendimento de Gonzales (2008), os Tiros de Guerra podem ser definidos como uma rede institucional estratégica que se apresenta em alguns locais, em função de diversas variáveis. Por meio de Tiros de Guerra localizados em várias partes do território nacional, o Exército Brasileiro atende à estratégia da Presença, da mesma forma que promove a integração nacional e leva cidadania aos jovens que prestam o Serviço Militar Obrigatório, sobretudo em municípios de baixa densidade demográfica. Ou seja, além de prestar relevante apoio à sociedade brasileira, os Tiros de Guerra se constituem em valiosas ferramentas estratégicas para o Exército Brasileiro, uma vez que auxiliam a instituição no alcance dos objetivos definidos pela Política Nacional de Defesa.

Atualmente, existem 221 (duzentos e vinte e um) Tiros de Guerra em funcionamento no Brasil. Distribuídos em quase todas as Unidades de Federação do Brasil, somente os estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Acre, Amapá e Roraima não há Tiros de Guerra. No caso do Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, a ausência dos Tiros de Guerra é explicada pelo fato de tais estados possuirem um número extenso de Organizações Militares do Exército Brasileiro localizadas em diversos municípios de grande, médio e pequeno porte. No caso do Acre, Amapá e Roraima, a justificativa se dá pelo fato de que tais estados, além de possuírem área e população reduzidas, abrigam várias Organizações Militares operacionais em suas respectivas áreas de jurisdição. 

 

6. Considerações Finais

Este artigo retoma o objetivo norteador da proposta deste trabalho e  apresenta as seguintes considerações sobre a importância estratégica dos Tiros de Guerra no Brasil:

A primeira consideração é sobre a importância dos Tiros de Guerra junto à sociedade brasileira, particularmente no serviço social prestado junto ao jovem brasileiro oriundo de locais longínquos e isolados. No atual mundo globalizado, os Tiros de Guerra são uma ferramenta que o Exército Brasileiro possui para integrar o jovem à Instituição, difundindo os valores cívicos e morais da sociedade.

A segunda consideração relevante é sobre a função do Tiro de Guerra como organização do Exército Brasileiro que busca zelar pela segurança nacional, mantendo a identidade da Nação. A existência de 221 Tiros de Guerra no Brasil complementam e auxiliam a tarefa do país, em particular do Exército Brasileiro, em manter coeso e unido o território nacional.

A terceira e última consideração é de ordem econômica. Tendo em vista a necessidade da instituição em diminuir o efetivo, os Tiros de Guerra auxiliam o Exército Brasileiro na tarefa de formar o efetivo mobilizável para uma eventual necessidade, na medida em que tais Organizações Militares formam o reservista de 2ª categoria em várias partes do território nacional a um custo muito mais baixo do que o praticado nas demais Organizações Militares. 

 

 

    

 Referências Bibliográficas: 

  1. BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro: Presidência da República, 1946.

  2. BRASIL. Exército Brasileiro. Informativo Estratégico. Estratégia da Presença: Antigos conceitos, novas ideias. Brasília: Exército Brasileiro, 2015.

  3. BRASIL.  Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2013.

  4. BRASIL.  Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2005.

  5. GONZALES, Selma Lúcia de Moura. A territorialidade militar terrestre no Brasil: os Tiros de Guerra e a estratégia da presença. São Paulo: USP, 2008.

  6. MAGALHÃES, João Batista. A evolução militar do Brasil. São Paulo: Cortez, 1982.

  7. MIOTTO, Geraldo Antônio. Tiro de Guerra: histórico e organização: contribuições para o Exército e a sociedade. Rio de Janeiro: ECEME, 1994.

  8. MOSCA, Alexandre Gouvêa. Escola de Instrução Militar/Tiro de Guerra: fator de comunicação social no mundo globalizado. Rio de Janeiro: ECEME, 2002.

  9. OLIVEIRA, Hermann Moreira de. O papel dos Tiros de Guerra na comunicação social do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: ECEME, 2007.

 

Rio de Janeiro - RJ, 17 de novembro de 2022.


Como citar este documento:
SANTOS; BARBOSA. A importância estratégica dos Tiros de Guerra. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

.

 

Fim do conteúdo da página