Especial Irã: O “paradoxo da vitória” na guerra dos EUA/Israel contra o Irã: objetivos políticos x campanha militar

Ricardo Luiz da Cunha Rabelo
General de Brigada da Reserva do Exército Brasileiro, pós-graduado pelo Command and General Staff College
(US Army) e pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército/Fundação Getúlio Vargas.

Ao refletir sobre a guerra, deve-se estabelecer a sua inequívoca relação com a política. Para Sun Tzu, a arte da guerra era um assunto de importância vital para o Estado, envolvendo vida ou morte, e a sobrevivência ou ruína de um povo. Na mesma direção, Clausewitz afirmou que a guerra constitui um verdadeiro instrumento político, a continuação da política por outros meios.

Admitindo-se o monopólio do uso da força na mão do Estado, a guerra pode, assim, ser entendida como uma opção política de um país ao fazer uso da força para submeter o oponente à sua vontade, dentro do contexto de uma disputa relativa aos interesses nacionais de ambos. Não se deve esquecer que o exercício do poder de um Estado concentra-se em sua capacidade de aplicar o poder diplomático (político), informacional (cognitivo e psicossocial), militar e econômico, dentro de um espectro que se estende desde a paz absoluta até a guerra, sendo esta a opção em que prevalece o emprego do poder militar, sem, contudo, excluir a aplicação de outras fontes de poder.

É nesse contexto que o objetivo político de uma guerra ganha importância, pois, a depender de sua satisfação, poder-se-á analisar se houve vitória na guerra. Exatamente por isso, é possível afirmar que um país teve sucesso na campanha planejada, venceu o inimigo no campo de batalha, mas perdeu a guerra. Talvez esse seja o fundamento mais importante ao recorrer à guerra, pois só se pode vencer uma guerra cujo critério de vitória esteja bem traduzido em um objetivo político que seja alcançável e que resolva a disputa que levou ao confronto, sob o preço de o término das hostilidades significar apenas um período de cessar-fogo ou uma “saída honrosa” para um dos lados contendores. 

Especial cuidado deve-se ter ao lidar com alianças, uma vez que é fundamental assegurar o alinhamento entre os objetivos políticos estabelecidos pelos países que as integram, sob risco de provocar consequências estratégicas e geopolíticas graves e indesejadas. Um bom exemplo é a crise provocada pela nacionalização do Canal de Suez pelo Egito, em 1956.[1]

Nesse contexto, certamente a definição dos objetivos políticos dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel, de um lado, bem como do Irã, por outro lado, permitirá concluir sobre quem leva vantagem momentânea, ou mesmo quem está mais perto da vitória.

Israel tem declarado que o seu objetivo político é, primordialmente, eliminar o que considera uma ameaça existencial representada pelo Irã, interrompendo ou destruindo a capacidade nuclear iraniana e degradando a capacidade do país em matéria de mísseis, drones e guerra por procuração. Os líderes israelenses também sinalizam objetivos mais amplos, incluindo o enfraquecimento do poder de decisão do regime e, para alguns, a longo prazo, a busca por uma mudança de regime.

Os EUA, por sua vez, logo após o início das ações em 28 de fevereiro, em uma declaração do presidente Trump, informaram que os ataques ao Irã tinham como objetivo proteger o povo americano contra as ameaças representadas pelo programa nuclear daquele país. Assim, enunciaram três objetivos: a eliminação da capacidade nuclear iraniana (programa que haviam afirmado ter obliterado na chamada Guerra dos 12 Dias, em 2025), a eliminação da capacidade de lançar mísseis balísticos e drones, bem como o impedimento de o Irã continuar patrocinando grupos rebeldes em outros países. Além disso, Trump disse, em tradução livre, diretamente ao povo iraniano: "Quando terminarmos, assumam o governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a única chance que vocês terão por gerações." Com isso, verifica-se que os EUA ao menos nutriam a esperança de promover a mudança do regime iraniano.

Convém ressaltar que os objetivos listados estão conectados diretamente à decisão de recorrer à guerra para a resolução de controvérsias não resolvidas por meio da imposição de sanções econômicas, de ações cognitivas que estimularam o povo a se insurgir contra o regime vigente, ou ainda por intermédio da recente tentativa de negociação diplomática. Em outras palavras, estão ligados às causas que deram origem à guerra, de forma mais imediata. Em consequência, eles podem diferir dos objetivos nacionais ligados à Grande Estratégia dos países envolvidos, a qual estaria mais alinhada aos objetivos geopolíticos[2] de cada Estado.

Ao analisar os objetivos políticos dos EUA e de Israel para o conflito, verifica-se que eles podem ser considerados convergentes, porém audaciosos e com elevado risco de não se concretizarem. Entretanto, o estado final desejado (EFD) político para os EUA, ao eliminar a ameaça nuclear àquele país, pode diferir significativamente das condições que definem o EFD político para Israel. Além disso, a indefinição ou a falta de clareza de ambos os países quanto à perseguição da mudança de regime iraniano com a guerra iniciada em 28 de fevereiro dificulta o estabelecimento da estratégia a ser aplicada, uma vez que esta é completamente dependente do firme e transparente estabelecimento dos objetivos políticos. Em consequência, a estratégia militar concebida pode assegurar a conquista dos objetivos militares, mas não garantir o cumprimento do EFD político, o que representaria um problema sério ao término do conflito.

Pelo lado do Irã, o objetivo político perseguido é a manutenção do regime vigente, o qual já poderia ser definido e exercitado desde o término da Guerra dos 12 Dias, ainda em 2025. A antecipação da identificação e a clareza na definição do objetivo político asseguraram ao Irã a oportunidade de desenvolver uma estratégia que permitisse o sucesso na guerra, principalmente ao prever que não teria força militar capaz de se contrapor à coalizão israelo-americana.

Estando definidos os objetivos políticos, há necessidade de conceber as ações necessárias, por meio de uma estratégia, que permitam as suas consecuções. A concepção da estratégia nasce, pois, como sendo a arte de desenvolver métodos de emprego dos meios disponíveis ao Estado, ao longo de um determinado tempo, para se atingir o objetivo estabelecido. Com isso, o estrategista traz o objetivo político para o nível estratégico, integrando, de forma equilibrada e deliberada, os conhecimentos disponíveis (inteligência) e as estimativas formuladas sobre o inimigo, mesmo diante da incerteza que reina durante a guerra.

O corpo da estratégia deve apresentar coerência entre os métodos a serem utilizados (forma), os meios disponíveis e os objetivos estratégicos estabelecidos, sendo validada se for adequada (permitir a consecução dos objetivos políticos), praticável ou exequível (possibilidade de executar as ações previstas com os meios disponíveis e capacidade de executá-las) e, por fim, aceitável quanto aos métodos empregados e aos efeitos produzidos. Além de ser válida, a análise de riscos da estratégia formulada vai indicar as consequências da sua aplicação (inclusive de sua falha) e da reação do oponente, tudo sob o prisma da probabilidade de cada fato se concretizar, bem como do seu impacto.

Assim, os EUA e Israel, do que se pode verificar, optaram por uma estratégia direta, com ações coordenadas nos diversos domínios para conquistarem a superioridade aérea, garantindo liberdade de ação para que o vetor aéreo atingisse os alvos, degradando a capacidade de liderança do regime, bem como impedindo ou dificultando sobremaneira o exercício do comando e controle por parte das forças iranianas.

Com isso, pretendiam abrir espaço para uma possível revolta interna da população, seguida de um maior enfraquecimento do regime e sua consequente deposição. Esse efeito seria o caminho mais rápido e de menor custo para assegurar a conquista dos objetivos políticos estabelecidos, uma vez que o governo que assumisse seria pró-coalizão ou estaria em uma situação que o obrigasse a se submeter aos interesses dos atacantes.

Para isso, neutralizaram a temida artilharia antiaérea iraniana, atacaram centros de comando do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica - considerado o centro de gravidade da manutenção do regime - e destruíram os locais de produção e armazenamento de mísseis balísticos, do programa nuclear e de drones. Em poucos dias, a liderança iraniana estava morta, incluindo o líder religioso, o aiatolá Ali Khamenei, e os ataques continuavam a fim de provocar a destruição e inoperabilidade do aparato de defesa iraniano.

Os EUA e Israel devem ter considerado a possibilidade de o regime iraniano não cair, o que possuía alta probabilidade de ocorrência, uma vez que a mudança de regime exigiria a presença de força militar no terreno que pudesse apoiar os revoltosos e oferecer-lhes segurança, garantindo a ordem inicial para o estabelecimento de um novo governo (caso contrário, seria alta a probabilidade de os revoltosos serem massacrados pela força leal ao regime no poder). Não havendo a mudança de regime iraniano, os ataques deveriam prosseguir, em princípio, até que:

1) o programa nuclear estivesse destruído, não sendo possível reconstruí-lo, e os 440 Kg de urânio enriquecido a um percentual aproximado de 60% estivessem seguros em poder da aliança (eliminar a ameaça nuclear);

2) o Irã tivesse perdido a capacidade de lançar mísseis balísticos e drones, seja pela incapacidade de fabricá-los, seja pela impossibilidade de lançá-los sem ser alvejado (eliminar a principal fonte de instabilidade regional no Oriente Médio); e

3) a liderança do regime, enfraquecida politicamente, diante do caos econômico e da necessidade de reconstrução das áreas devastadas, estivesse impossibilitada (ou com capacidade bastante reduzida) de patrocinar ações de grupos rebeldes que atuam em outros países e, então, submetesse-se aos termos de paz da coalizão (incluiria a livre navegação no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no Estreito de Ormuz).

Entretanto, o Irã concebeu uma estratégia defensiva, designada “defesa em mosaico”, buscando dispersar e homiziar meios nobres de ataque para, por meio de diretrizes emitidas antes do conflito e assegurando o máximo de iniciativa a todos os escalões da força militar, pretendiam manter os ataques, por período considerável, contra alvos localizados em países regionais considerados colaboradores da coalizão, em uma tentativa de tornar o conflito mais complexo e até de expandir a guerra, sabendo ser este um efeito indesejado da aliança israelo-americana. Ao mesmo tempo, buscou prolongar ao máximo o conflito, expandindo os efeitos econômicos da guerra à comunidade internacional, valendo-se, principalmente, do mercado de energia, uma vez que cerca de 20% desse comércio tem origem no Golfo Pérsico, passando pelo Estreito de Ormuz.

Torna-se a frisar que as ações diplomáticas e cognitivas continuaram sendo executadas em apoio ao esforço de guerra, como se constata com a aprovação da Resolução nº 2817, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 16 de março, que condenou os ataques iranianos aos países vizinhos, contando com a abstenção da China e da Rússia. Da mesma forma, no campo econômico, houve a injeção norte-americana de recursos para o aumento da capacidade de produção dos meios utilizados na guerra, bem como as reações mundiais à diminuição da oferta de petróleo e gás, tendo em vista a redução significativa da passagem de navios pelo Estreito de Ormuz.

Atualmente, a estratégia iraniana tem se mostrado efetiva por ter sido capaz de manter o regime vivo, ameaçar alastrar o conflito a outros países, e estimular a oposição mundial ao conflito, em função, principalmente, das fortes consequências econômicas, fazendo com que o barril de petróleo saísse do patamar de US$71 e fosse negociado a US$120 em momento de pico. Além disso, o chamado dos EUA para que outros países cooperassem com o esforço de estabelecer escoltas navais aos petroleiros que se deslocassem pelo Estreito de Ormuz foi mal recebido pelo Reino Unido (um dos principais aliados dos EUA) e pela Alemanha, criando fragilidades e desconfianças dentro da OTAN.

A estratégia dos EUA e de Israel, por sua vez, assegurou a redução drástica da capacidade militar iraniana, sobretudo aérea e naval; diminuiu a atividade de lançamento de mísseis em 90%, estimando a existência de apenas 50% de meios ativos nessa capacidade; e, por fim, limitou a capacidade de ação da liderança política e militar. Entretanto, além de ainda persistir a capacidade de lançar mísseis balísticos, a coalizão não pôde, até então, afirmar que o programa nuclear iraniano está completamente destruído, como também não obteve sucesso em garantir a livre utilização do Estreito de Ormuz.

Outros dois fatos representaram um certo revés à implementação da estratégia israelo-americana. O primeiro foram as ações do Hezbollah contra Israel, obrigando-o a realizar ações militares, inclusive terrestres, contra o Líbano, o que aumentou o seu desgaste e dividiu o foco de suas ações. O segundo, fruto da névoa da guerra e da fricção[3], foi o erro norte-americano ao atacar uma escola iraniana, vindo a vitimar cerca de 165 pessoas, a maioria meninas de 7 a 12 anos, que estavam ali reunidas.

No contexto geopolítico, o isolamento da China e da Rússia, atingido logo no início das ações, foi bastante enfraquecido quando os EUA suspenderam a sanção contra a comercialização de petróleo russo, o que gerou 160 milhões de dólares diários de receita para aquele país, atenuando, em consequência, o problema chinês de dependência do petróleo iraniano e concedendo fôlego à Rússia na guerra contra a Ucrânia.

Diante do que foi apresentado, caso não mudem as tendências atuais, os EUA e Israel estarão diante de um dilema. Deveriam permanecer na guerra para a total consecução de seus objetivos políticos, resistindo à pressão econômica e, por conseguinte, à diplomática e à cognitiva por insistirem em um conflito tido como “infrutífero”? Ou deveriam encerrar as hostilidades, clamando vitória por terem degradado as capacidades do Irã de tal forma que levariam alguns anos até que ele representasse uma ameaça novamente, bem como resistir à pressão por não terem alcançado os objetivos políticos propostos e, internamente, absorverem as consequências de possíveis perdas de importante capital político neste ano?

O Irã, por outro lado, apesar de enfraquecido, estaria mais próximo de assegurar a manutenção do regime. Com isso, poderia declarar-se vencedor frente ao país de maior poder militar do planeta e ao seu rival regional.

Diante do que foi estudado, pode-se inferir que uma forma justa e precisa para se estabelecer o “critério de vitória” em uma guerra é baseá-lo no cumprimento dos objetivos políticos estabelecidos. Atingir os objetivos estabelecidos no nível político passa, necessariamente, por conceber a estratégia adequada, tendo-a como algo dinâmico, que deve ser acompanhada e atualizada, permitindo assim antever possíveis resultados indesejados e corrigir rumos tempestivamente. Entretanto, dificilmente uma ação tática pode corrigir um erro estratégico.

Nesse contexto, deve-se reconhecer, entretanto, que a guerra é caracterizada pelo embate de forças e de vontades, não configurando um fenômeno estático. Nesse sentido, a aliança EUA-Israel, detendo a iniciativa das ações neste momento, age para alterar as tendências atuais. Em meio às ações em curso, os EUA enviaram o USS Tripoli, uma embarcação de assalto anfíbio, com 2.500 fuzileiros navais embarcados. O controle da navegação no Estreito de Ormuz passou a ser um importante objetivo do nível operacional, mas com reflexos estratégicos, a ser perseguido pelos dois lados.

Por fim, convém relembrar que grandes estrategistas sempre apontaram os efeitos da sorte (fortuna) e da fricção durante a guerra como fatores que podem alterar a lógica do resultado. Além disso, Clausewitz alertou que nem sempre o desfecho de uma guerra deve ser tomado como ato final em uma disputa. (texto escrito em 23 de março de 2026).



[1] Israel, França e UK aliaram-se contra o Egito para reganharem o controle da passagem pelo canal. Após os ataques israelenses, a URSS ameaçou entrar no conflito e os ataques aéreos da França e Inglaterra, inicialmente exitosos, galvanizaram a apoio da população egípcia ao presidente Nasser. A falta de alinhamento político fez com que UK se retirasse do conflito prematuramente, frustrando a França e Israel. Em consequência, a animosidade franco-britânica enfraqueceu a OTAN momentaneamente, a URSS ganhou poder de influência no mundo árabe, a França enfrentou instabilidades internas que levaram à eleição de De Gaulle e à perda da Argélia.

[2] São apontados como objetivos geopolíticos dos EUA a contenção ao avanço da China no Oriente Médio e Ásia, bem como a redução da influência russa, países que têm no Irã o principal hub de suas atuações naquela região. Além disso, a estabilização da região permite maior concentração de meios na área do indo-pacífico, onde a China exerce sua influência em maior grau. Do ponto de vista israelense, trazer o Irã para o nível de relacionamento existente antes da Revolução Iraniana de 1979 promoveria maior estabilidade regional, torná-lo-ia uma potência mais relevante no Oriente Médio, permitindo que estendesse o Acordo de Abrahão a outros países.

[3] Conceitos defendidos por Clausewitz. A névoa da guerra caracteriza o ambiente de incerteza onde são conduzidas as ações. A fricção é a característica da guerra, segundo a qual até as coisas fáceis, ao serem executadas em guerra, carregam a probabilidade de não terem o desfecho esperado. O erro norteamericano foi, supostamente, utilizar dados de inteligência antigos, quando aquela escola era utilizada como centro de operações do IRGC.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 08 de abril de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O “paradoxo da vitória” na guerra dos EUA/Israel contra o Irã: objetivos políticos x campanha militar. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/especial-ira-o-paradoxo-da-vitoria-na-guerra-dos-eua-israel-contra-o-ira-objetivos-politicos-x-campanha-militar.

.