Especial Irã: Guerra EUA/Israel x Irã – a economia e sua influência para a consolidação da revolução em assuntos militares em curso

Ricardo Luiz da Cunha Rabelo
General de Brigada da Reserva do Exército Brasileiro.
Pós-graduado pelo Command and General Staff College (US Army) e
pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército/Fundação Getúlio Vargas.

1. O cenário do conflito na ótica estratégica

 

O curso de uma guerra é inegavelmente dependente, dentre outros fatores, da capacidade econômica dos lados envolvidos, bem como da disposição – tanto da sociedade, quanto do governo – para assumir os sacrifícios temporários que uma situação de guerra exige.

André Beaufre[1], respeitado estrategista do século XX, propôs que o modelo estratégico a ser adotado por um país em guerra dependeria da conjugação de diversos fatores. Assim, a estratégia a ser adotada deveria ser coerente com a análise dos fatores morais; dos fatores materiais; da liberdade de ação de que dispõe o país para empregar os meios disponíveis e as manobras exequíveis; bem como do tempo esperado para que o conflito esteja finalizado. Dentre os fatores materiais a serem considerados, além dos meios militares disponíveis, há que se considerar a capacidade econômica[2] para sustentar o esforço de guerra.

Na guerra entre uma potência militar e econômica, os Estados Unidos da América (EUA), em aliança com Israel, uma potência militar regional, com a economia largamente apoiada pelos EUA, versus o Irã, um país de médio porte, com a economia enfraquecida por anos de sanções, já se podia antever que o Irã não buscaria o confronto (ofensiva) direto, preferindo agir defensivamente contra alvos não necessariamente israelo-americanos que poderiam trazer o efeito estratégico desejado, ou seja, prolongar a guerra.

Tornar o conflito mais longo forçaria os EUA a ultrapassar o orçamento previsto, bem como a utilizar maior quantidade de meios militares para atingir os objetivos buscados. Tudo isso adquire ainda mais valor ao considerar-se que o Irã, a partir de um pensamento geopolítico, não é a prioridade de enfrentamento norte-americano no contexto internacional e, com isso, seria prudente que os EUA não comprometessem a sua capacidade dissuasória em outras partes do mundo.

  De fato, a aliança buscou a iniciativa das ações desde o primeiro momento, tendo sido reportados ataques a mais de 7.800 alvos nos primeiros 20 dias do conflito. Os resultados imediatos foram visíveis: quase a totalidade dos líderes iranianos de nível mais alto foi eliminada, a respeitada capacidade antiaérea foi neutralizada, 87% dos lançadores de mísseis balísticos foram destruídos, a Força Aérea foi destruída e 120 navios foram afundados, deixando a Marinha sem capacidade de manobra. Além disso, destruíram-se vários depósitos e fábricas de mísseis, drones e munições. Com isso, a aliança conquistou a superioridade aérea (alguns analistas apontam para supremacia aérea) e atingiu objetivos militares em tempo menor do que o esperado. Segundo o Departamento de Guerra dos EUA, em relatório enviado ao Congresso, os seis primeiros dias de guerra tiveram um custo de 11,3 bilhões de dólares[3].

O Irã, por sua vez, surpreendeu os EUA e Israel ao adotar a estratégia defensiva denominada “defesa em mosaico”, conceito segundo o qual os escalões inferiores das forças militares já tinham conhecimento de uma lista de alvos a serem atingidos, com liberdade de ação para executarem os ataques, de acordo com os efeitos buscados. Para isso, contavam com os meios necessários, devidamente dispersos e bem camuflados pelo território iraniano. Em consequência, não houve uma imobilidade estratégica por parte daquele país, nem devido à falta momentânea de liderança formalmente definida, nem por conta da perda da capacidade de manter comunicações confiáveis, ou de exercer efetivamente o comando e o controle (e, em consequência, os ciclos decisórios).

Além disso, os ataques iranianos contra os países vizinhos, no Oriente Médio, comprometeram polos de produção de gás e petróleo, bem como a efetiva utilização de terminais aeroportuários de destinações turísticas regionais, causando surpresa inicial e tornando o desenrolar do conflito mais complexo.

As ações iranianas exigiram intensa movimentação diplomática dos países da aliança, bem como o comprometimento mais numeroso de meios de defesa para cooperar com a segurança regional, elevando o custo da guerra.

Entretanto, a cartada econômica decisiva foram as ameaças e os ataques iranianos contra navios cargueiros de gás natural e petróleo na passagem do estreito de Ormuz, por onde, repete-se exaustivamente, transitam cerca de 20% do comércio internacional desses produtos. Com isso, os efeitos econômicos da guerra começaram a incomodar não só os países regionais, principais produtores de petróleo e gás, como também praticamente todos os países do mundo, em especial, aqueles cuja economia depende, em grande escala, da importação desses produtos e de seus derivados. O barril de petróleo, negociado entre 67 e 71 dólares no início do conflito, passou a ser negociado por valores superiores a 100 dólares, chegando a 120 em determinada ocasião.

As vitórias militares avassaladoras da aliança viram-se diminuídas e quase irrelevantes diante desse novo cenário. Em pouco tempo, como as empresas seguradoras do transporte marítimo não se mostraram dispostas a correr o risco de tentar atravessar o estreito, o controle daquele ponto de estrangulamento da rota marítima passou a ser um eficiente meio de pressão sobre a aliança.

Mas havia outro potencial problema na equação econômica do esforço de guerra. Como o custo dos sistemas de armas e das munições empregados pela aliança era muito superior àquele mantido pelo Irã, constatou-se que a guerra era muito menos custosa aos iranianos. Os atacantes tinham custo de milhões de dólares, enquanto, os defensores, de milhares de dólares.

Por isso, sabendo-se que esses meios são limitados, surgiu o questionamento, em meio à sociedade norte-americana e em outros países, sobre a capacidade da aliança de manter o esforço de guerra sem correr o risco de enfrentar uma escassez de munições estratégicas.

 

2. Os EUA podem enfrentar uma escassez de munições consideradas estratégicas?

Um estudo publicado no Foreign Policy Research Institute (FPRI)[4] estimou que os EUA utilizaram mais do que 11.000 munições de diferentes tipos durante os dezesseis primeiros dias de guerra, o que faz com que essa campanha, denominada Epic Fury, seja considerada a mais intensa campanha aérea da história moderna. Dessas munições, pelo menos 1.000 (mil) delas são do tipo “stand-off[5], consideradas escassas e caras, bem como outras centenas eram mísseis de médio alcance (cerca de 300 tomahawks), ou antirradiação, que interferem em radares antiaéreos. Outro grande problema refere-se à defesa aérea: o mesmo estudo estima o consumo de cerca de 140 mísseis Patriot PAC-3 MSE (interceptadores) e mais de 150 interceptadores THAAD[6].

Repor esse estoque tem o custo estimado em aproximadamente US$ 26 bilhões, mas o custo da guerra é muito maior. Recentemente, o governo Trump encaminhou ao Congresso uma solicitação de crédito orçamentário suplementar, na ordem de 200 bilhões de dólares, cerca de 20% do orçamento de defesa dos EUA para o atual ano fiscal.

Enquanto isso, de acordo com Michael C. Horowitz, que ocupou, no então Departamento de Defesa, entre 2023 e 2024, o cargo de Subsecretário Adjunto de Defesa para o Desenvolvimento de Forças e Capacidades Emergentes, o Irã tem utilizado, em 71% de seus ataques aos países vizinhos do Golfo, os drones Shahed, cujo custo de fabricação gira em torno de 35.000 dólares. Somente os Emirados Árabes Unidos detectaram e destruíram 1.422 drones iranianos, tendo consumido, para defesa contra essa ameaça, mísseis Patriot, cujo valor é de cerca de 4 milhões de dólares por unidade. Ou seja, com o valor de produção de um míssil Patriot, pode-se fabricar cerca de 114 drones Shaheed, configurando uma tremenda desvantagem econômica para os EUA[7].

As autoridades de defesa americanas, sempre que questionadas sobre a discrepância de custo da guerra em relação ao Irã, ou sobre a possibilidade de “acabar” ou “faltar” munição aos EUA para essa guerra, têm fornecido respostas claras e seguras de que há munições suficientes para esse conflito.

Entretanto, deve-se considerar que as forças armadas americanas necessitam dispor de variados tipos de sistemas de armas e de munições, muitas delas, com capacidades únicas e incomparáveis, não só para utilizá-las no conflito atual, mas principalmente para manterem a dissuasão estratégica em todas as regiões do mundo onde tenham que defender seus interesses. Isso significa preservar a capacidade de combate, assegurando a necessária prontidão logística[8], por meio de processos adequados de produção, distribuição, armazenamento e permanentes condições de emprego.

O Presidente Trump, em seu perfil de mídia social, comunicou, em 06 de março, ter realizado reunião com os CEOs das principais indústrias de fabricação de munições e sistemas de armas considerados estratégicos para os EUA[9]. Naquele comunicado, informou que chegou a um acordo com as empresas para quadruplicar a produção desse material essencial.

Apesar do anúncio de Trump, tornar essa medida uma realidade pode não ser tão simples assim, pois leva um tempo considerável para elevar a capacidade de produção na razão ora esperada. São mudanças que exigirão investimentos consideráveis para a contratação de força de trabalho, para a montagem de novas linhas de produção e para a aquisição de matéria-prima utilizada nos processos de produção.

Além disso, há uma certa “insegurança cultural”, gerada a partir de exemplos já vividos no passado, por parte da indústria de defesa em relação à real capacidade do Estado de adquirir o volume da demanda apresentada. Em primeiro lugar porque, por vezes, as urgências momentâneas podem mudar a sua natureza de ano a ano, podendo redirecionar o esforço do Estado. Além disso, deve-se considerar que os acordos formulados com as empresas precisam ser transformados em alocações orçamentárias, com a aprovação do Congresso, para que os contratos de fornecimento possam, de fato, ser assinados. Por fim, alguns materiais utilizados na fabricação de munições guiadas de alta precisão estão disponíveis em poucos países do mundo, sendo que a sua indisponibilidade pode inviabilizar a produção.

De forma sintética, pode-se inferir parcialmente que é bastante provável que não faltem munições para os EUA e seus aliados utilizarem nessa guerra contra o Irã. Entretanto, o ritmo de consumo, caso mantido, pode comprometer a dissuasão estratégica norte-americana em outros pontos de interesse. A reposição de eventuais estoques baixos pode ser dificultada em função do tempo necessário para produzir toda a munição necessária, da disponibilidade orçamentária para formalizar contratos de aquisição, bem como da possibilidade de aquisição de materiais críticos utilizados nos processos produtivos.

Com isso, a pausa nos ataques à infraestrutura de energia iraniana, largamente anunciada (oficializada em mídia social em 26 de março) pelo Presidente Trump em função de suposta negociação em curso, é coerente com a cautela recomendada a fim de não comprometer o estoque necessário. É possível que essa interrupção sirva para o reestudo da situação e para a busca de cursos de ação que levem ao término do conflito, seja por meio de uma ação decisiva pela aliança, selando a derrota iraniana (mais difícil de ocorrer pela complexidade das ações possíveis), seja por intermédio de um cessar-fogo em torno de um acordo alcançado para encerrar as hostilidades (solução mais provável de ocorrer, porém considerada temporária).

Mas o Irã explora essas técnicas, táticas e procedimentos favorecidos pelo baixo custo de forma inédita? Essa forma de combater indica alguma tendência nos combates modernos? Como tudo isso influencia a preparação para combate nas forças armadas dos países? Esses tópicos vão ser explorados no próximo segmento deste trabalho.

 

3. As tendências do combate moderno e o seu significado para as forças armadas de todo o mundo

“O primeiro, o mais importante e o mais impactante ato de julgamento que um estadista e um comandante devem fazer é compreender o tipo de guerra no qual está embarcando, sem que haja erros, ou que se tente transformá-la naquilo que acredita ser” (Clausewitz, 1989, p.88 – tradução livre).

O modelo norte-americano de supremacia militar, mundialmente consagrado e reconhecidamente eficiente ao longo da segunda metade do século passado e dos primeiros 20 anos do atual, depende de sistemas de armas com capacidades únicas, exóticas, de alta precisão, de elevado custo, cuja produção exige tempo e, naturalmente, suas destruições ou consumo representam uma grande perda.

Em contraponto a esse modelo de dissuasão, verificou-se a recente propensão à utilização de sistemas aéreos remotamente pilotados (SARP) em combates modernos, com custos significativamente menores, de fácil produção e rápida reposição. O emprego de drones marcou uma tendência de elevada eficácia para as atividades de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos, como também tem exigido uma boa dose de adaptação, em especial, das forças blindadas e das tropas desembarcadas.

Nesse contexto, o conflito entre Armênia e Azerbaijão pela região de Nagorno-Karabakh, em 2020, terminou com grande vantagem em favor do Azerbaijão, que lançou uma ofensiva para retomar territórios perdidos nos anos 1990, aproveitando-se de um investimento militar robusto e de alianças estratégicas, especialmente com a Turquia.

Um dos elementos mais marcantes dessa campanha foi o uso massivo e altamente eficaz de drones de reconhecimento e ataque, como os Bayraktar TB2 turcos e outros drones “kamikaze” de origens diversas. Essas plataformas permitiram ao Azerbaijão destruir blindados, sistemas antiaéreos e posições fortificadas armênias com precisão e baixo risco para suas tropas. A superioridade tecnológica no campo aéreo reduziu drasticamente a capacidade de resposta da Armênia, que operava com equipamentos mais antigos e defesas aéreas insuficientes para lidar com enxames de drones. O resultado foi uma vitória rápida e contundente do Azerbaijão, que alterou o equilíbrio regional e redefiniu o papel dos drones como protagonistas em conflitos modernos.

Outro conflito marcado pela larga utilização dos drones é a Guerra da Ucrânia, avaliada como o grande laboratório militar dessa nova era. Por pura questão existencial, a Ucrânia foi obrigada a conceber e implementar um modelo eficaz de adaptação na velocidade em que a guerra ocorre.

A superioridade tecnológica e quantitativa dos meios militares empregados pela Rússia exigiu que a Ucrânia, além de empregar efetivamente os sistemas de armas advindos da importante ajuda dos países europeus e, principalmente dos EUA, reconhecesse a finitude dessa cooperação, passando a empregar os drones, de variadas formas, para multiplicar o poder de combate de suas tropas no terreno.

A variação da forma de atuação, com o emprego de drones kamikazes contra veículos blindados e helicópteros, ou casamatas e posições fortificadas, ou ainda contra a tropa em progressão em terreno aberto, foi suficiente para reduzir o ímpeto do ataque russo, limitando o avanço de suas tropas e causando pesadas perdas. A frente de batalha permaneceu estacionada, com tentativas de avanço de ambos os lados em pontos específicos, mas com limitado sucesso.

A Rússia, com a cooperação do Irã, passou também a utilizar os drones em seu favor, exigindo, uma vez mais, a adaptação ucraniana para o desenvolvimento da defesa antidrones.

De forma sintética, vale mencionar o drone de interceptação Sting, desenvolvido pela Ucrânia. É um SARP, com custo de produção de cerca de 2.000 dólares, que possui capacidade de carregar explosivos, atuando como interceptador dos drones Shahed, versão russa. Ele tem alcance de cerca de 37 km e é capaz de voar a 280 km/h, tendo abatido mais de 3.000 drones russos (estes com custo de cerca de 35.000 dólares). Chama a atenção a facilidade de produção, que exige apenas uma impressora 3D e pouco conhecimento para operá-la. Com isso, estima-se ser possível produzir aproximadamente 10.000 drones como esses por mês (é bom lembrar que os EUA têm previsão orçamentária para aquisição de apenas 67 mísseis Patriot no corrente ano fiscal). Para aprender a pilotá-lo, levam-se de 2 a 3 dias para quem já é operador de drones FPV (first person view).

É esse o tipo de drone que despertou o interesse dos países do Oriente Médio no atual conflito, pois seria uma ferramenta muito útil para a defesa aérea contra os ataques do Irã[10]. Soma-se a isso a capacidade de utilização de inteligência artificial para o reconhecimento de modelos inimigos e classificá-los como alvos. Com essa experiência, a Ucrânia reuniu um banco de dados contendo os parâmetros de drones inimigos que, conforme afirmou Mykhailo Fedorov, Ministro da Defesa da Ucrânia, possui “uma variedade única de dados obtidos em campo de batalha, os quais são incomparáveis em qualquer outro lugar do mundo” (tradução do autor)[11].

Daquilo que foi observado nos conflitos de Nargono-Karabakh, na Ucrânia e, atualmente, no Irã, pode-se afirmar que a guerra de precisão, hoje, pode ser travada com a larga utilização de drones “descartáveis”, muitos de origem comercial, lançados em “enxame”. Dominar essa capacidade não requer um extenso parque industrial de alta tecnologia, podendo ser produzido, montado ou adaptado em escala por países médios ou pequenos.

Mas as mudanças verificadas na forma de combater vão muito além dos drones. Na verdade, são inspiradas pelo emprego desses meios em associação com a inteligência artificial (e a promessa da computação quântica), com outras capacidades agregadas, caracterizando uma nova estrutura militar, cuja composição pode integrar:

- sistemas autônomos de custo baixo;

- sistemas de aquisição de alvos assistidos por inteligência artificial;

- imagens de satélite obtidas por empresas privadas e negociadas em redes de comércio;

- sistemas de comunicações resilientes;

- sistemas integrados a centros de decisão e unidades de intervenção; e

- ferramentas cibernéticas, especialmente as incapacitadoras de sistemas de IA empregados por oponentes.

Tudo isso operando de forma coordenada nos diversos domínios do campo de batalha, com o objetivo de comprimir o tempo dos ciclos de busca, análise, processamento, decisão e atuação em combate.

 

4. Reflexões finais e os impactos sobre a Revolução em Assuntos Militares

 

Do que foi visto até então, pode-se afirmar que o fator economia, como analisado nesta guerra em curso contra o Irã, está agindo como um catalisador das mudanças verificadas no emprego dos meios, particularmente em conflitos recentes, cujas características promovem mudanças na doutrina, nas táticas empregadas ou em procedimentos que tornam a ação em combate mais efetiva, o que muitos analistas apontam como uma Revolução em Assuntos Militares (RMA, sigla em inglês).[12]

Os drones, de fato, podem alcançar qualquer lugar no campo de batalha e, com isso, os soldados não têm um local considerado seguro para recuperação ou descanso, exigindo atenção contínua e, com isso, provocando um desgaste acentuado do militar. Além disso, o uso de drones em larga escala contribui para suprimir a surpresa de manobras e inibe movimentos e concentrações de tropas, o que tende a levar à estagnação das frentes de batalha. Em uma guerra assimétrica, as características do material e as possibilidades de seu uso tendem a favorecer o lado mais fraco.

É importante reconhecer que as grandes potências também estão incorporando os ensinamentos dos combates modernos às suas doutrinas. Como demonstra Mike Horowitz[13], pode-se detectar pontos acertados na atual gestão da defesa. O primeiro é o lançamento de novas e baratas armas, como o Low-cost Uncrewed Combat Attack System (LUCAS), um drone fabricado a partir do modelo iraniano do Shahed, que pode ser produzido em massa de forma mais rápida que os Tomahawks. O segundo ponto é a experiência de combate colhida pelas forças americanas, representando uma grande diferença entre os EUA e a China. O terceiro é o uso de modernos centros de suporte a decisão com o uso de IA, para tarefas como de seleção de alvos, bem como de comando e controle.

Um exemplo é a pesquisa, conduzida em 2025, pela Força Aérea dos EUA, nomeada Decision Advantage Sprint for Human-Machine Team, ou DASH-2[14]. O referido estudo concluiu que as máquinas produzem recomendações em menos de 10 segundos, com uma variedade de opções de intervenção 30 vezes maior do que times formados somente por humanos.

É prudente, entretanto, reconhecer que a RMA não substitui a forma de combater em curso, mas complementa os métodos utilizados, transformando o combate de forma significativa. O processo de desenvolvimento das novas capacidades passa pela absorção das mudanças necessárias pelo sistema de doutrina para que, então, gerem as repercussões na organização e nas instalações das unidades militares, na formação dos recursos humanos, na adoção efetiva dos materiais necessários e, por fim, no treinamento das tropas para que sejam capazes de desempenhá-las nos campos de batalha.

O vencedor da guerra moderna e do futuro, se as tendências observadas mantiverem-se presentes, talvez não seja aquele que reúna sistemas de armas e munições de alta tecnologia, como mísseis balísticos de precisão, bombardeiros e aeronaves de ataque com capacidade stealth. É provável que a vitória sorria para aquele que tiver a capacidade de incorporar ao seu arsenal militar aquelas plataformas que são boas o bastante, com menor custo e reduzido tempo de produção (e de reposição), bem como muito bem integradas a outros sistemas e redes, utilizando o máximo que a IA pode oferecer.

Cabe ressaltar, por fim, que a RMA já estava em processo de consolidação, mas o fator econômico acabou por catalisar o curso de sua implementação. Essa é uma lição que não deve ficar restrita aos países envolvidos no conflito, sendo recomendável a absorção dos ensinamentos colhidos pelo Brasil, particularmente no cenário vivenciado. A recomendação é desenvolver capacidades militares coerentes com a RMA em curso e reforçar a Base Industrial de Defesa (BID). (texto escrito em 10 de abril de 2026).

 

5. Referências Bibliográficas

 

BEAUFRE, A. Introdução à Estratégia. Tradução de L.de Araripe. Rio de Janeiro: BIBLIEx, 1998.

 

CLAUSEWITZ, C. V. On War. Editado por M. H. Paret. Tradução de V. Kriege. Princeton: Princeton University Press, 1989.

 

HAZAM, C. M.; PAOLINI, D. D. The army´s logistics readiness posture. US Army, 26 jun. 2025. Disponível em: https://www.army.mil/article/286646/the_armys_logistics_readiness_posture. Acessado em 25 de março de 2026.

 


[1] Para mais informações, consultar Beauffre, A. (1963, traduzido em 1998). Introdução à Estratégia. (L. d. Araripe, Trad.) Rio de Janeiro: BIBLIEx, com direitos adquiridos de Librairie Armand Colin.

[2] Apenas para expandir a ideia, a capacidade econômica refere-se não só à disponibilidade de recursos para arcar com os custos correntes de uma guerra, ou para investir na produção de bens para reposição ou inovação dos meios e sistemas empregados, mas também a existência de infraestrutura de apoio, sendo essencial contar com um parque industrial capaz e diversificado.

[3] Edmondson, C. (11 de março de 2026). New York Times. Fonte: Site do New York Times: https://www.nytimes.com/2026/03/11/world/middleeast/iran-war-costs-pentagon.html.

[4]Matisek, J., Bazilian, M., & Amoah, M. (16 de março de 2026). Foreign Policy Research Institute (FPRI). Disponível em: https://www.fpri.org/article/2026/03/over-5000-munitions-shot-in-the-first-96-hours-of-the-iran-war/. Acessado em 23 de março de 2026.

[5] Munições de longo alcance, geralmente com elevado grau de precisão, projetadas para serem lançadas a uma distância considerável do alvo, permitindo que a plataforma de lançamento — como uma aeronave, navio ou sistema terrestre — permaneça fora do alcance das defesas aéreas inimigas. Elas permitem atacar sem entrar na zona de ameaça, o que aumenta drasticamente a capacidade de sobrevivência.

[6] Terminal High Altitude Area Defense – sistema de mísseis antiaéreos, utilizados para interceptar ameaças aéreas (mísseis balísticos de curto, médio e longo alcances) na sua trajetória terminal para o alvo.

[7] Mísseis com alto índice de tecnologia incorporada, com capacidade de rastreamento, dirigibilidade autônoma e precisão elevada não constituem, com certeza, as armas mais adequadas para se contrapor às ameaças representadas pelos drones. Porém, por vezes, os mísseis são a única arma disponível naquela região contra o drone.

[8] De acordo com o Exército dos EUA, a prontidão logística é entendida como a capacidade mensurável das forças militares de gerar, projetar e sustentar poder de combate, garantindo a disponibilidade oportuna de material, de manutenção, da movimentação (transporte), do apoio médico e de outros serviços (contratuais ou não) em todo o espectro operacional — inclusive em ambientes contestados ou degradados. (Hazam & Paolini, 2025)

[9] Mensagem do Presidente Trump na rede Truth Social, em 06 de março de 2026. Disponível em https://truthsocial.com/@realDonaldTrump/116184185735585906.

[10] Peleshuk, Dan; Reuters, 2026.

[11] Hunder, Max; Reuters, 2026.

[12] Revolução em Assuntos Militares (Revolution in Military Affairs – RMA) são entendidas como períodos de inovação em que as forças armadas desenvolvem novos conceitos envolvendo mudanças impactantes na doutrina, na tática, nos procedimentos e na tecnologia. (Knox & Murray, 2001)

[13] Briefing, The Economist, 2026.

[14] Henley, Debora; Department of War, 2025.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 30 de abril de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Guerra EUA/Israel x Irã – a economia e sua influência para a consolidação da revolução em assuntos militares em curso. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/guerra-eua-israel-x-ira-a-economia-e-sua-influencia-para-a-consolidacao-da-revolucao-em-assuntos-militares-em-curso.

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