O avanço do terrorismo no Níger: desafios à estabilidade no Sahel e implicações para o Brasil

Frederico Pimentel Soares de Almeida
Major de Infantaria do Exército Brasileiro.
Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior e
mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos.

 

1. Introdução

Na atual configuração do tabuleiro global, desenhada por ameaças assimétricas, híbridas e voláteis, o Níger retorna ao epicentro da crise no Sahel. O país, que tradicionalmente ocupou papel central nas redes de influências das potências ocidentais, como a França, a Rússia e os Estados Unidos, enfrenta atualmente uma escalada de violência, cujos efeitos colaboram para a desestabilização do equilíbrio de poder no continente africano.

 

Desde os eventos ocorridos na Primavera Árabe (2011), a expansão do terrorismo na região do Sahel vem se alastrando de forma vertiginosa. Uma das causas desse fenômeno reside na queda do regime do ditador Muammar al-Gaddafi, primeiro-ministro da Líbia, em outubro de 2011. Esse fato gerou uma onda de dissidentes das Forças Armadas líbias, que, sem remuneração, se filiaram a grupos jihadistas, além da facilidade de acesso desses grupos ao arsenal bélico líbio, por meio do comércio ilegal de armas.

 

Questões identitárias também desempenham um papel central na mobilização de novos combatentes. Grupos extremistas adaptam narrativas globais para abordar ressentimentos locais, apresentando-se como protetores de etnias contra injustiças governamentais ou milícias rivais. A presença de forças militares estrangeiras e o legado colonial também são explorados pela propaganda jihadista para deslegitimar governos nacionais que mantêm parcerias com potências ocidentais.

 

Nesse ínterim, o ataque ao Aeroporto Internacional Diori Hamani, na capital Niamey, em 29 de janeiro de 2026, é um evento que se inscreve como uma tendência de expansão do terrorismo transnacional. Nesse contexto, ao longo dos anos, grupos insurgentes exploram a baixa capacidade dos países africanos de prover segurança em seus territórios. A porosidade fronteiriça, herdada dos processos de descolonização traumáticos do século XX e agravada pelas sucessivas crises políticas e alternâncias de poder no continente, eleva a tensão nos países da costa ocidental africana e, consequentemente, a insegurança do Atlântico Sul.

 

2. Desenvolvimento

Como ponto de partida para a análise dessa temática, colocam-se as contribuições de Enders e Sandler (1999), Kissinger (2015) e Hoffman (2017) que tratam dessa grave crise institucional pela visão das teorias de Relações Internacionais aplicadas ao terrorismo. Esses autores elucidam a evolução desse fenômeno transnacional que, sob a ótica econômica e política, pode ser entendido como um bem público negativo, no qual atores não estatais utilizam a violência para alcançar objetivos políticos, explorando vulnerabilidades em Estados fracos. Essas abordagens salientam que o terrorismo não é um mero ato de violência aleatória, mas uma estratégia racional que visa maximizar seu impacto com o mínimo de recursos, influenciando dinâmicas globais de segurança e criando ciclos de retaliação que perpetuam instabilidade (Enders; Sandler 1999, p. 148).

 

Dentre as obras que abordam questões geopolíticas ligadas ao terrorismo, a lição analítica de Rapoport (1984) é relevante para a análise do terrorismo religioso atual, destacando como as doutrinas sagradas podem sustentar uma violência prolongada, em oposição à racionalidade instrumental do terrorismo secular, e como as crenças se traduzem em rotinas organizacionais e táticas (Rapoport, 1984, p. 674-675), a exemplo dos casos africanos contemporâneos. Inicialmente, é possível fazer essa conexão com as "ondas" de terrorismo religioso, nas quais as ideologias, como o salafismo (doutrina sunita que exige adesão literal ao Alcorão e à Sunnah) militante, se espalham por regiões instáveis, inflamando conflitos locais.

 

Nesse contexto, fatores estruturais e conjunturais, bem como a imposição ideológica do jihadismo islâmico, têm influenciado o avanço das redes terroristas no Níger. A fragilidade das instituições governamentais e a incapacidade de prover segurança em zonas rurais têm gerado vazios de poder, que estão sendo ocupados por atores não estatais violentos. Fatores socioeconômicos, incluindo o desemprego juvenil, a pobreza endêmica e a disputa por recursos naturais, como minas de ouro artesanais, têm servido de combustível para a radicalização e o financiamento das katibas (unidades militares).

 

A incursão conduzida pelo Estado Islâmico na Província do Sahel (IS-Sahel, em inglês) contra a Base Aérea 101, que divide as instalações com o terminal de passageiros do aeroporto de Niamey, no Níger, evidencia uma mudança profunda na estratégia das insurgências regionais. Nota-se a transição de ações armadas esporádicas em áreas remotas para ataques coordenados em grandes centros urbanos, com alvos de alta relevância estratégica. A operação, que durou cerca de uma hora, envolveu um elevado nível de inteligência e de coordenação de fogos, bem como armamento pesado e uso de drones, causando severos danos a infraestruturas críticas, como hangares e aeronaves de transporte. (Syft, 2026).

 

Além disso, essa mudança de modus operandi revela vulnerabilidades na doutrina de defesa da junta militar que governa o país. Salienta-se que o Aeroporto Diori Hamani constitui um centro nevrálgico da logística das Forças Armadas nigerianas e o ponto de entrada de suprimentos vitais para aquele país sem litoral. A capacidade dos insurgentes de penetrar no perímetro de segurança do centro político da nação refuta o compromisso da junta militar de restaurar a ordem pública, razão invocada pelo golpe de Estado liderado pelo General Abdourahamane Tiani (International Crisis Group, 2026).

 

A incursão demonstrou o elevado nível do serviço de inteligência insurgente e contou com uma coordenação precisa de esforços que sobrepujou a capacidade das forças de segurança nigerinas de reagir oportunamente, indicando a infiltração da célula terrorista nas estruturas do Estado e nas comunidades periféricas (BBC, 2026). O ataque do IS-Sahel, em Niamey, transmite a mensagem de que o grupo possui capacidade de interdição de estruturas críticas, além de sinalizar o avanço das táticas terroristas, cujo objetivo não é a ocupação territorial imediata, mas a paralisia do poder de decisão e de manobra do oponente.

 

Ademais, as potencialidades da África Ocidental, somadas ao avanço do terrorismo e do narcotráfico, atraem novos atores extrarregionais e modificam a dinâmica das forças no país. A confirmação da atuação do Africa Corps, sucessor do Grupo Wagner, na defesa do aeroporto, corrobora a transferência do eixo de influência geopolítica na região. Moscou confirmou oficialmente a participação de seus instrutores e combatentes na repulsão do ataque do IS-Sahel, validando a hipótese de que a junta militar depende do suporte do Kremlin (Al Jazeera, 2026).

 

Essa atuação eslava preenche o vácuo deixado pela ruptura unilateral do Níger com a França e pela retirada das forças de segurança norte-americanas e europeias, que buscavam preservar a presença na região sob o pretexto de contenção do terrorismo, mascarando seus reais interesses econômicos. A militarização, orientada pela Rússia, gera diversas variáveis de incerteza para a diplomacia regional, que substituiu os antigos “parceiros ocidentais” por agentes estatais russos, no intuito de aumentar a autonomia do país. Essa situação criou um cenário de turbulência, e a longevidade do regime nigerino fica atrelada aos interesses estratégicos do Kremlin na África.  Essas inclinações priorizam o acesso aos recursos minerais em detrimento da estabilidade institucional de longo prazo.

 

Além disso, a conjuntura securitária se deteriora por meio do aprofundamento das tensões diplomáticas entre a Aliança dos Estados do Sahel e os países da costa ocidental. Isso é verificado por intermédio das acusações, efetuadas pela junta militar, de patrocínio do terrorismo por parte de Benin e da Costa do Marfim, enfraquecendo a cooperação na área de inteligência, vital para conter ameaças transnacionais. O International Crisis Group alerta que essa estratégia de culpar atores externos visa desviar a atenção do público doméstico sobre a incapacidade do governo local de conter a violência (International Crisis Group, 2026).

 

A solução do Estado do Níger para a crise de legitimidade tem sido caracterizada pelo aumento do autoritarismo. A Lei de Mobilização Geral, de dezembro de 2025, que exemplifica essa tendência, permite a requisição discricionária de propriedades e a conscrição de civis para a guerra. A chamada para uma mobilização patriótica sinaliza a quebra dos direitos civis e a crescente instabilidade psicossocial. O governo, ao armar milícias civis e militarizar a sociedade, aumenta o risco de fomentar conflitos intercomunitários, cujas consequências residem na elevação do recrutamento jihadista, criando um ciclo vicioso de violência no país.

 

Nesse sentido, dados estatísticos indicam que o número de mortes no Níger dobrou desde o golpe de 2023 (Fundação Pontifícia ACN, 2025). Essa métrica fúnebre é o indicador mais preciso da falência da abordagem puramente militar, na qual a população se encontra coagida entre a brutalidade dos insurgentes e a repressão estatal, impactando negativamente a base social necessária para a estratégia de contrainsurgência.

 

Cabe enfatizar que a proteção do equilíbrio de poder no Sahel é primordial para a segurança internacional e afeta diretamente o entorno estratégico brasileiro. A teoria geopolítica clássica do Rimland (Spykman, 2020) coloca o controle das orlas continentais como determinante para a projeção de poder global. O colapso da segurança no Níger atua como um rompimento de barragem, cujos insumos de insegurança fluem em direção ao sul, para os países costeiros do Golfo da Guiné.

 

Abdenur e Souza Neto (2014a) analisam a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) como um arcabouço político para consolidar a identidade regional brasileira, mitigando ameaças assimétricas, como o terrorismo. O fortalecimento do fórum contribui para a consolidação do Brasil como ator regional relevante, aumentando sua influência no entorno estratégico e minimizando a possibilidade de interferência militar de potências extrarregionais no Atlântico Sul (Abdenur; Souza Neto, 2014a, p. 14). Já Pereira (2013) enfatiza o papel do Atlântico Sul como ligação vital entre a América do Sul e a África, destacando seus recursos como petróleo, gás e minerais, que impulsionam o desenvolvimento econômico e atraem potências extrarregionais.

 

Corroborando esses prismas, Visentini (2022) sublinha o "flanco leste" do entorno estratégico brasileiro, apontando o litoral africano como uma área de crescente relevância securitária, suscetível a ameaças transatlânticas, como a pirataria (Visentini, 2022, p. 94). O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2023) reforça a agenda da Amazônia Azul, destacando o Atlântico Sul como vetor de riqueza, incluindo petróleo, gás natural offshore e cabos submarinos de internet, bem como a necessidade de vigilância para garantir a resiliência econômica (IPEA, 2023, p. 254).

 

Assim, a expansão do IS-Sahel e do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) na direção de Benin, Togo, Gana, Costa do Marfim e Nigéria ameaça a integridade das rotas logísticas que conectam o interior do continente aos portos do Atlântico. A Nigéria, gigante econômico regional e parceiro comercial do Brasil, sofre com a permeabilidade de sua fronteira norte, região de entrada de combatentes radicais e de equipamento militar oriundo dos arsenais líbios e sahelianos. A contaminação extremista do Porto de Lagos e das zonas de extração petrolífera no Delta do Níger possui a capacidade de afetar negativamente o comércio marítimo no Atlântico Sul.

 

Este cenário se forma com elevada sensibilidade para o Brasil, uma vez que a Política Nacional de Defesa define o Atlântico Sul e a costa ocidental da África como áreas de interesse vital (Brasil, 2025c). A insegurança nessas águas, proveniente da pirataria e da interrupção de fluxos comerciais, influencia diretamente a economia brasileira. Isso decorre do aumento dos custos de seguro marítimo, da ameaça ao tráfego de navios mercantes, da possível necessidade de operações de evacuação de brasileiros e da proteção de rotas comerciais, exigindo que a Marinha do Brasil e o Itamaraty reavaliem a postura estratégica na ZOPACAS.

 

A presença militar russa e a atividade terrorista transformam o Atlântico Sul, historicamente uma zona de paz (Brasil, 2026b), em um teatro de complexidade securitária crescente. O Brasil, de acordo com a recente Política Nacional de Defesa (Brasil, 2025c) não observa passivamente a "fronteira oriental" de seu entorno estratégico. A diplomacia brasileira lidera esforços para revitalizar a cooperação em segurança marítima e inteligência com os países da costa africana, buscando blindar o Atlântico das turbulências internacionais (Brasil, 2026).

 

Verifica-se que o reflexo geopolítico mais sensível para o Brasil reside no risco crescente de militarização do seu entorno estratégico por potências extrarregionais. A expansão desses grupos extremistas no Níger e no Sahel oferece justificativa política para que potências como os Estados Unidos, por intermédio do AFRICOM, a França, a Rússia e a OTAN reforcem sua presença militar na África Ocidental sob o pretexto da “Guerra ao Terror”.  

 

Desse modo, o que se apresenta como solução contra o terrorismo pode se converter, para a diplomacia e a defesa brasileiras, em uma ameaça indireta de elevada magnitude, ao atrair para a região alianças militares indesejadas. Cabe destacar que o ex-ministro da Defesa, Celso Amorim, alertou para esse horizonte de instabilidade, no qual forças como a OTAN, podem se instalar de forma consolidada no Mali e no Níger, e a sua projeção de influência poderá se estender até o Atlântico Sul, ferindo de maneira direta os interesses, a independência e a soberania do Brasil sobre seus recursos e espaços marítimos jurisdicionais. (Amorim, 2016, p.146, Amorim, 2013)

 

Observa-se que a instabilidade securitária gerada pelo terrorismo no Níger e em países vizinhos produz reflexos tangíveis sobre a economia e a sociedade brasileiras. Nesse contexto, verifica-se o aumento do fluxo de refugiados, uma vez que a crise humanitária e securitária impulsiona a migração de populações africanas em direção ao Brasil, gerando, a médio e longo prazo, uma significativa pressão demográfica e desafios de integração social.

 

Constata-se, ainda, que os prejuízos econômicos são evidentes, já que a insegurança generalizada afeta as relações comerciais bilaterais, ocasionando perdas substanciais aos investimentos e ao comércio de empresas brasileiras atuantes no continente africano. Além disso, a segurança energética também se vê comprometida, pois a turbulência na África Ocidental e no Golfo da Guiné produz reflexos negativos para a importação de petróleo e para a proteção das rotas marítimas, locais de trânsito relevante do comércio internacional brasileiro.

 

3. Conclusão

Do exposto, infere-se que há um vínculo entre as redes terroristas do Sahel e o crime organizado transnacional, particularmente no âmbito do tráfico de drogas e de armas (Ortmann, 2017). O Brasil sofre os efeitos da porosidade das fronteiras africanas e da interação entre as economias ilícitas que financiam o terrorismo no Níger e no Mali, e as organizações criminosas de alcance global, pois o país se configura como uma rota de trânsito de entorpecentes com destino à Europa via África Ocidental.

 

Em síntese, embora o Níger não faça fronteira direta com o Brasil, o terrorismo na região atua como um catalisador de instabilidade que ameaça a configuração de paz e de segurança no Atlântico Sul, prejudicando interesses econômicos nacionais e atraindo forças militares extrarregionais para as proximidades das águas jurisdicionais brasileiras.

 

O cenário de 2026 instiga a revisão das doutrinas de defesa e das estratégias de inteligência, pois a instabilidade em Niamey não é um fenômeno isolado, mas um componente vital de uma crise sistêmica de governança regional africana, que ameaça transbordar para o sul do Atlântico. A confirmação da participação russa nos combates (Al Jazeera, 2026) e a sofisticação do ataque ao aeroporto (BBC, 2026) demonstram que o conflito atingiu um novo patamar de letalidade e internacionalização.

 

Por fim, as evidências apontam para o aprofundamento da dependência extrarregional e da repressão interna nos países do Sahel. Nesse quadro, a política externa brasileira opera com pragmatismo, reconhecendo que a defesa da Amazônia Azul começa na estabilidade da costa oposta (Brasil, 2026a), cuja falência configura uma ameaça aos objetivos nacionais.

 

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Rio de Janeiro - RJ, 26 de março de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O avanço do terrorismo no Níger: desafios à estabilidade no Sahel e implicações para o Brasil. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/o-avanco-do-terrorismo-no-niger-desafios-a-estabilidade-no-sahel-e-implicacoes-para-o-brasil.