A Síria de Bashar al-Assad resistiu à Primavera Árabe na década de 2010, com o apoio da Rússia e do Irã. Apesar dessa resistência, a oposição armada continuou e, no dia 8 de dezembro, com o maciço apoio da população, o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) pôs fim a 50 anos de poder da família Assad, libertando a capital Damasco. Como um dos principais países do mundo árabe, a situação da Síria pode influenciar a ordem regional e a balança de poder no Oriente Médio. Para falar da questão Síria, com o enfoque iraniano, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o professor Najad Khouri, da Fundação Getúlio Vargas e do Programa de Pós-graduação da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército:
Najad Khouri
Nasceu no Líbano em 1947. Imigrou-se para o Brasil em 1970. Atualmente é
professor da FGV e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército
1 - Como as autoridades iranianas e a população viram a deposição do presidente sírio Bashar al-Assad?
O Irã tenta justificar a queda do governo sírio como sendo um complô entre os Estados Unidos e Israel.
A queda de Bashar al-Assad, na Síria, é prejudicial ao Irã tanto financeiramente quanto estrategicamente.
A Síria deve ao Irã bilhões de dólares, além de outros bilhões em investimentos iranianos, a fundo perdido, em armamentos, petróleo e presença de conselheiros militares que atuavam na Síria.
Estrategicamente o “Eixo da Resistência” - uma aliança informal liderada pelo Irã que une a Síria e grupos armados como Hamas, Hezbollah e os Houthis no Iêmen, sofreu perdas significativas. Com os dois principais aliados, Síria e Hezbollah, destruídos ou enfraquecidos, o Irã será forçado a redefinir sua política de segurança contra Israel e o seu papel regional.
2 - Pode-se inferir que o presidente Bashar al-Assad vinha perdendo apoio do Irã? Em que medida a morte de lideranças como o ex-presidente Ebrahim Raisi, morto em acidente de helicóptero recentemente, bem como o apoio iraniano aos xiítas no Líbano e aos houthis no Iêmen prejudicaram o presidente Assad e enfraqueceram o apoio ao ex-líder sírio?
O Irã apoiou a Síria com armamentos, ações diplomáticas, envio de conselheiros militares, financiamentos diversos e etc. até o último minuto, antes da queda do presidente Bashar al-Assad e sua fuga para a Rússia.
O presidente iraniano Pezeshkian, apesar de uma agenda moderada, tem que seguir a orientação do líder espiritual aiatolá Khamenei que define a política externa junto ao Corpo de Guardas da Revolução Islâmica.
O Irã retirou o seu pessoal da Síria, com segurança, antes do saque à sua embaixada em Damasco.
O que enfraqueceu o regime do Assad foi a guerra Russo-Ucraniana e o desmantelamento parcial do Hezbollah, no Líbano, após os ataques israelenses. Como a Rússia e o Hezbollah eram dois pilares relevantes de segurança e sustentação do governo Bashar al-Assad, só restou o Irã que, possivelmente, enfrentará desafios significativos. Nessa perspectiva, estima-se que o Irã terá dificuldades de manter sua influência sobre a Síria.
3 - Um boletim da Autoridade de Rádio e Televisão em Damasco noticiou que centenas de sírios que residiam na Jordânia estariam voltando ao seu País. Isso tem ocorrido no Irã?
Milhares de refugiados sírios se reuniram nas passagens na fronteira sul da Turquia e da Jordânia, preparando-se para voltar para casa, após o colapso do governo de Bashar al-Assad.
À medida que a Síria ganha mais estabilidade, há uma tendência de aumento do retorno dos refugiados, em particular dos alojados nos países vizinhos e, eventualmente, daqueles que estão na Europa.
Há a possibilidade de que não ocorra outro fluxo de refugiados no futuro, em caso de haver nova repressão interna.
No Irã, não há refugiados sírios nem palestinos, somente refugiados afegãos.
4 - As minorias religiosas conseguem conviver bem no Irã? Como o governo tem tratado essas minorias?
Dos quase 85 milhões de pessoas que vivem no Irã, cerca de 80% são muçulmanos xiitas, a religião oficial do país. Cerca de 18% são sunitas (curdos) e sufis e os outros 2% por cento compõem-se de minorias religiosas.
Dentre as minorias religiosas, apenas estão autorizados ao culto no Irã os zoroastrianos (religião que antecedeu o Cristianismo e o Islamismo), os judeus e os cristãos, que incluem, por sua vez, os assírios, os caldeus e os armênios. Estas são as minorias com assento reservado no Parlamento iraniano.
5 - Há informações da presença de ocupação curda ao norte do Iraque e a intenção daquele povo em criar um território independente na região. Como o Irã vê essa iniciativa curda na região?
O Iraque possui uma população curda expressiva, 16% dos habitantes daquele país. A região Autônoma de Curdistão é garantida pela constituição do Iraque.
O presidente iraquiano é curdo; o chefe do parlamento é sunita, etnia que representa 20% da população; e o primeiro ministro é xiita, representando a maioria de 60% da população.
O Curdistão sírio, também conhecido como Curdistão Ocidental, é uma região autônoma "de fato" situada na porção norte-nordeste da Síria, dividida em três regiões autogovernadas: Afrîn, Jazira e Kobaní. As bases americanas e as forças SDF (Syrian Democratic Forces) estão baseadas nessa região.
Os curdos, no Irã, constituem uma minoria significativa no país, com uma população de cerca de 9 a 10 milhões de pessoas.
Na Turquia, os curdos são a maior minoria étnica. De acordo com estimativas, eles compõem cerca de 15% a 20% da população turca. Há curdos vivendo em várias províncias, mas eles estão concentrados principalmente no leste e sudeste do país dentro da região vista como o Curdistão turco.
Em 2017, foi realizado um referendo na região do Curdistão do Iraque com resultados preliminares mostrando aproximadamente 92,73% dos votos expressos a favor da independência. Apesar de relatar que o referendo da independência não seria vinculativo, o Governo Regional Autônomo do Curdistão (KRG) o caracterizou como sendo vinculativo, embora tenham alegado que um resultado afirmativo desencadearia o início da construção do Estado-Nação.
6 - Como a queda do presidente sírio Bashar al-Assad pode influenciar a já conturbada geopolítica do Oriente Médio?
O colapso do regime de Bashar al-Assad não apenas redesenha o mapa da Síria, como também redefine a dinâmica de poder do Oriente Médio.
Até agora, o Ocidente tem se beneficiado da queda do presidente sírio. A Rússia deve fazer acordos para não perder suas bases (marítima e aérea) na Síria e, portanto, grande parte de sua capacidade de projetar poder no Oriente Médio e na África.
A influência iraniana na Síria e sua ponte terrestre para apoiar o Hezbollah no Líbano também foram perdidas. Milhões de refugiados podem agora retornar à Síria e isso aliviará a pressão política interna sobre os governos da Turquia e da Europa, que os abrigaram por mais de uma década.
Israel também tem vantagens com o enfraquecimento de um inimigo declarado.
Enquanto isso, a Turquia, até o momento, tem atuado de forma mais incisiva na Síria, superando a Rússia e o Irã, e solidificando sua influência na formação do cenário pós-Assad. Isso dá uma posição de destaque à Turquia no Oriente Médio e, podendo transformá-la num “player” fundamental na arena geopolítica mundial.
Rio de Janeiro - RJ, 19 de dezembro 2024.
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