O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna.
Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra.
Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
Sandro Teixeira Moita
Doutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz?
Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm.
Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense.
Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas.
Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países.
Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região.
Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz.
2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito?
Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha.
O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani.
E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos.
Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área.
Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos.
3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz?
Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas.
Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio.
4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah?
Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza.
Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica.
O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã.
5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz?
Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro.
Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro.
Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região.
Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra.
Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz.
6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido?
Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo.
Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico.
Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel.
Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração.
Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região.
7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz?
Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo.
8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza?
Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã.
A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas.
Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil.
O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967.
Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025.
.