Os ataques do Irã contra Israel - Conflitos Árabes x Israelenses

Às vésperas do Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico), no ínicio da noite de 1º outubro de 2024,  o  Irã lançou mísseis balísticos e de cruzeiro sobre o território israelense, iniciativa que teria superado o ataque iraniano a Israel ocorrido em abril deste ano, segundo fontes israelenses. Para esclarecer as circunstâncias desse ataque e entender seus desdobramentos geopolíticos, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou Najad Khouri, da Fundação Getúlio Vargas e do Programa de Pós-graduação da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército:

Najad Khouri
 Nasceu no Líbano em 1947. Imigrou-se para o Brasil em 1970. Atualmente é
professor da FGV e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército


1. OMPV: Por que o Irã resolveu atacar Israel mesmo sabendo que essa ação tem potencial para provocar uma resposta militar dos EUA, o que pode envolver o país em um conflito mais amplo, aumentando a crise interna já existente, e com risco de enfraquecer a Guarda Revolucionária Islâmica e o próprio aiatolá Khamenei, abrindo espaço para os opositores do atual regime dentro do território iraniano?

Najad Khouri: Inicialmente, cabe destacar que o Irã estava devendo uma resposta adequada ao assassinato do Ismael Haniyeh, líder palestino, em Teerã; aos ataques de Israel contra Hezbolah, no Líbano; ao assassinato do seu líder Hassan Nasrallah e do general Abbas Nilfiroshan, Comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, em Beirute.

Até então, a postura do Irã tinha sido ambígua, se limitando a assistir a desarticulação e a matança da liderança do Hezbollah, no Líbano, seu principal representante no exterior.

Outro aspecto a se considerar é que a resposta tinha de ser bem calculada e equilibrada, para levantar a moral dos seus “proxies” no exterior, da ala radical no seu governo, das Guardas Revolucionárias e da população iraniana em geral, tanto as que vivem dentro, como as que vivem fora do Irã. Um ataque mais amplo contra Israel poderia arrastar os Estados Unidos e seus aliados na OTAN a contra-atacarem o Irã, podendo, inclusive, destruir suas instalações nucleares e seus ativos industriais, civis e militares.

Dessa forma, o Supremo Conselho de Segurança Nacional do Irã tinha que calcular bem o ataque e as possíveis respostas de Israel e dos Estados Unidos. Em vista disso, o Irã lançou mísseis contra bases militares em Israel, sem causar danos materiais ou humanos, vez que a Rússia havia sido avisada com antecedência sobre tais ataques e que, provavelmente, deve ter informado Israel e os norte-americanos a respeito dos potenciais ataques que estavam sendo planejados pelo Irã.

Segundo o chanceler iraniano Abbas Araqchi, o ataque foi em “legítima defesa” e “conclusivo”, a menos que haja retaliação de Israel. Mais ainda, o ataque provou que o Irã pode atingir Israel com mísseis balísticos. Benjamin Netanyahu, por sua vez, prometeu vingança severa, ameaçando atacar instalações nucleares e petrolíferas do Irã, ao passo que também pediu junto às potências ocidentais o aumento das sanções, bem como a classificação das Guardas Revolucionárias como grupo terrorista.

O confronto direto entre Israel e Irã, o segundo deste ano, fortalece a liderança do aiatolá Khamenei e das Guardas Revolucionárias, atores que zelam pela revolução e defesa do país, conforme foi provado anteriormente na guerra contra o Iraque.

 

2. OMPV: Ao observar a estratégia iraniana para enfrentar Israel, nota-se que ela se baseia na premissa de que a rede de milícias, apoiada pelo Irã, no Oriente Médio, conhecida como eixo da resistência, se juntaria ao Irã em um esforço coordenado para destruir o estado judeu. Com o sucesso dos ataques de Israel contra o Hamas, o Hezbollah e os Houtis, pode-se dizer que essa estratégia está prejudicada?

Najad Khouri: O Irã aprendeu uma dura lição na guerra contra o Iraque, na década de 1980. Esse conflito durou 8 anos e provocou a destruição de instalações petrolíferas, industriais, militares e civis, acarretando prejuízos bilionários, causando a morte de centenas de milhares de pessoas. Pior, a guerra terminou em armistício sem derrubar o agressor Saddam Hussein.

Desde então, o Irã começou a recrutar e treinar milícias regionais com estruturas organizacionais, apoiando-se na fundamentação religiosa islâmica. Essa política tem sido um pilar central da doutrina militar e da estratégia de segurança nacional do Irã. Ao longo de quatro décadas, esses grupos passaram a integrar o poder regional do Irã, que se baseia na guerra assimétrica para ganhar influência contra adversários mais poderosos, especialmente os Estados Unidos e Israel. Vale a pena mencionar que o Irã não possui fronteiras terrestres ou marítimas com ambos. Paralelamente, esses “proxies” foram usados para interferir e projetar o poder iraniano no mundo árabe, com o objetivo de afastar a guerra do seu território.

Ao cultivar e mobilizar representantes estrangeiros em conflitos contra adversários, o Irã conseguiu compensar limitações nas suas capacidades militares convencionais, contornar as sanções que lhe foram impostas e espalhar, eficazmente, sua esfera de influência por todo o Oriente Médio. O Irã quer a saída militar norte-americana da região e advoga a destruição do estado de Israel. Enquanto isso, Israel propaga e destruição do regime islâmico do Irã. 

No momento atual, os eixos de resistência “proxies” podem ter tido o sistema de comunicação totalmente comprometido, por causa das ações executadas por Israel, e suas lideranças mostram-se desarticuladas. Porém, cabe destacar que, por mais que a estrutura geral tenha sido afetada, ela não está destruída. Os eixos de resistência possuem estrutura organizacional social, religiosa e militar bem enraizada na população local. Com o apoio do Irã, tais grupos devem se erguer, recuperando sua organização original. O Irã, provavelmente, aumentará o suprimento militar e financeiro para os grupos de resistência.

3. OMPV: É possível ocorrer uma espécie de coalizão de forças contra Israel, a exemplo de ações do Hamas, na faixa de Gaza; do Hezbollah, no Líbano, e dos Houthis, no Iêmen, já que todos têm um apoiador em comum que é o Irã?

Najad Khouri: Além de patrocínio financeiro, Teerã tem equipado, treinado e transferido não apenas armas, como também meios de produção que permitem a fabricação independente de armamentos pelos grupos de resistência que apoiam o Irã.

Assim, esses “proxies” servem também como um elemento dissuasor significativo, permitindo ao Irã potencializar a sua influência, sem responsabilidade direta, reduzindo o risco de retaliação e condenação internacional, permitindo alcançar objetivos estratégicos que seriam inatingíveis sem esse apoio. Esta estratégia tem sido fundamental para manter e expandir o poder regional do Irã, particularmente em áreas voláteis como o Líbano, a Síria, o Iraque, o Iémen e em Israel.

A formalização de uma coalizão é improvável por diferenças culturais, regionais e logísticas. A estratégia geral deve permanecer a cargo das Guardas Revolucionárias do Irã. O que pode haver é a orquestração dos seus ataques, cada um dentro do seu alcance, como estamos vendo atualmente. Entendo que o Hezbollah e Hamas realizando ataques territoriais diretos no Líbano e em Gaza, respectivamente. Os Houthis, por sua vez, devem continuar investindo contra a navegação marítima destinada a Israel no mar Vermelho e algumas milícias locais devem realizar ataques contra bases norte-americanas localizadas no Iraque, na Síria e na Jordânia.

4. OMPV: A morte de lideranças importantes do Hamas e do Hezbollah pode ameaçar o atual desenho geopolítico no Oriente Médio e contribuir para um isolamento do Irã?

Najad Khouri: O Irã está praticamente isolado do Ocidente, por causa das sanções severas impostas pelos norte-americanos e europeus desde o início da revolução iraniana, em 1979.  Para se ter uma ideia de como essas sanções afetam o país, o Irã não consegue operar em dólares americanos, nem usar o sistema bancário SWIFT para transações internacionais há mais de 10 anos. Para compensar esse óbice, o Irã tem adotado políticas de aberturas regionais, asiáticas e internacionais com o Sul Global.

Em 2023, o Irã tornou-se membro pleno do Acordo de Cooperação de Xangai.  Em 2021, o país assinou um acordo estratégico com a China por 25 anos. Em 2022, o país reatou relações diplomáticas e comerciais com a Arábia Saudita, com o patrocínio da China e recentemente foi admitido nos BRICS. O Irã está, atualmente, realizando negociações estratégicas com a Rússia para a compra e venda de armamentos e cooperação logística. Além disso, o Irã é membro fundador ativo da OPEP.

Consequentemente, o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Israel, os grupos de Mobilização Popular “Hashd al Sabi” no Iraque, os Houthis no Iêmen ou mesmo as forças da milícia na Síria devem continuar, visto que a continuidade da guerra por procuração está enraizada nos benefícios estratégicos do Irã. Embora o Irã possa moderar o comportamento dos seus representantes, como parte de uma solução negociada para conflitos regionais, é improvável que ele os desmantele voluntariamente.

5. OMPV: É possível que o assassinato de Hassan Nasrallah tenha sido projetado para provocar o Irã a reagir, atraindo-o para uma armadilha estratégica, criada por Israel para poder aumentar sua influência no Oriente Médio?

Najad Khouri: Israel iniciou uma ofensiva no Líbano, após quase um ano de hostilidades na fronteira, desencadeadas pela guerra contra o Hamas na faixa de Gaza, informando que tais ataques tinham como objetivo garantir o retorno seguro de 60.000 pessoas que viviam na fronteira norte do país, moradores das áreas de fronteira norte, que foram desalojados pelos ataques do Hezbollah em solidariedade ao Hamas.

Nesse contexto, há que se destacar que Israel é favorável à criação de uma zona tampão (região considerada neutra) no sul do Líbano, para afastar os combatentes do Hezbollah da fronteira. Os resultados positivos auferidos nessa campanha no Líbano, vem fortalecendo a política interna de Israel, aumentando a popularidade do seu primeiro-ministro.

Caso Israel consiga seu objetivo, que é desarmar o Hezbollah no Líbano, resta um desafio ainda mais complexo: solucionar a questão palestina. Somente com o alcance dessas metas, Israel pode aumentar sua influência regional e internacional, a iniciar pela Arábia Saudita, que provavelmente voltará estabelecer relações diplomáticas e comerciais com Israel, nos moldes dos acordos de Abraão, conforme o que foi estabelecido com os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e o Sudão, em 2020.

6. OMPV: Diversos países estão se articulando para resgatar seus cidadãos no Líbano. O Brasil já desencadeia uma operação de repatriação em território libanês e acredita-se que um movimento migratório forçado se intensifique nos próximos dias. Quais os reflexos desses deslocamentos no Oriente Médio, já que os ataques estão atingindo muitos alvos civis e a ajuda humanitária se mostra precária na região?

Najad Khouri: O Líbano alertou que até um milhão de pessoas, um quinto de sua população, pode ter sido forçada a deixar suas casas fugindo dos bombardeios de Israel. Para que se tenha uma ideia desses números, se isso acontecesse no Brasil, esse percentual corresponderia a cerca de 40 milhões de brasileiros.

As autoridades estão se esforçando para atender a todos, mas os abrigos e hospitais no Líbano já estão sobrecarregados. Metade desse quantitativo, cerca de 500.000 pessoas, foi para a Síria. O restante se dirigiu para outras partes do mundo, com destaque para o Brasil (aqueles que também possuem nacionalidade brasileira) e para os Estados Unidos (aqueles que possuem nacionalidade norte-americana). Os voos comerciais estão escassos e as empresas que operam no Líbano estão encarecendo os preços das passagens, haja vista os ataques israelenses.

Há um outro fator agravante, qual seja: o Líbano está passando por severa crise política e econômica. O país está sem presidente há mais de 2 anos e sofreu uma explosão devastadora no porto de Beirute, em 2020. Os brasileiros estão concentrados nas áreas que estão sendo bombardeadas no sul do Líbano e no vale do Beka.

 

[1] Nasceu no Líbano em 1947. Imigrou-se para o Brasil em 1970. Atualmente é professor da FGV e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 03 de outubro 2024.


 

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