A criação do IME/IPEAM e a parceria estratégica com o CENSIPAM

 

Richard Fernandez Nunes 
 General de Exército R1.Diretor-Geral do CENSIPAM.

Juraci Ferreira Galdino 
 General de Divisão Engenheiro Militar. Comandante do IME.

 

A intenção de criar uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) com o perfil do Instituto Militar de Engenharia (IME), orgânica ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), em Manaus, voltada para a formação de recursos humanos altamente qualificados e para a realização de pesquisa científica não é tão recente. As primeiras iniciativas datam de 2009 (GALDINO, 2010), mas não prosperaram em razão da restrição de meios do Exército, particularmente de pesquisadores.

Estudos de cenários prospectivos sugerem que os motivos que ensejaram essa intenção continuam latentes. A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, é um dos biomas mais importantes para o Brasil e para o mundo. Por abrigar incomensuráveis biodiversidade e riquezas minerais, sobre um território de dimensões continentais, é fundamental para o equilíbrio ecológico e climático e para o desenvolvimento e a soberania nacional. Com o correr do tempo, a região vem se tornando mais importante, defendê-la, protegê-la e desenvolvê-la de forma sustentável é uma necessidade peremptória para o país, uma condição indispensável para garantir a soberania nacional e um fator crítico de sucesso para projetar uma boa imagem do Brasil.

Recentemente, por intermédio da Portaria C Ex nº 2.350, de 24 de outubro de 2024 (BRASIL, 2024), foi criado, no âmbito do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército Brasileiro, o Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), um destacamento do DCT com a missão de incentivar o desenvolvimento de tecnologias duais, apoiar a realização de atividades do Centro de Desenvolvimento de Sistemas (CDS) e do IME em Manaus e divulgar assuntos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de interesse do Exército. Trata-se de uma estrutura modesta, prevista para comportar sete militares e instalada nas dependências do 4º Centro de Geoinformação, Organização Militar (OM) subordinada à Diretoria de Serviços Geográficos (DSG).

A criação do IPEAM foi um passo importante para motivar colaborações entre os mais diversificados setores da sociedade local e, principalmente, lançar as bases para uma cooperação de contornos estratégicos com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM). Assim, o sonho de se criar uma estrutura pujante vinculada ao IME em Manaus assume feições de realidade, pela possibilidade de ampliação do escopo do IPEAM. Nesse mister, a cooperação entre o Instituto Militar de Engenharia (IME) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM) desponta como uma parceria de alto valor científico, tecnológico e geopolítico. Esse sucinto artigo apresenta em linhas gerais o que o IPEAM/IME pretender ser e um pouco de como será a supracitada parceria.

1. O papel do IME na pesquisa e inovação tecnológica

Herdeiro da Real Academia de Artilharia de Fortificação e Desenho, criada em 1792, o Instituto Militar de Engenharia (IME), localizado no Rio de Janeiro, é a escola de engenharia pioneira do Brasil. Em seu enorme legado em proveito da defesa, do desenvolvimento e da soberania do País estão incluídos, por exemplo, a condução de cursos que formaram os visionários que idealizaram e ajudaram a fundar o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Companhia Siderúrgica Nacional e a Embratel; e participaram de extraordinárias inovações destinadas não apenas à área de Defesa, mas também para o mercado convencional, como a TV a cores no Brasil e o motor a álcool, além de participarem da concepção e construção de inúmeras obras da infraestrutura nacional.

Atualmente, o IME tem a missão de formar os oficiais que integram o Quadro de Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, graduar os aspirantes a oficial da reserva não remunerada, realizar pesquisa básica, pesquisa aplicada e pesquisa e desenvolvimento em áreas críticas e estratégicas para o desenvolvimento e à soberania do País. Cabe mencionar que, na graduação, os indicadores oficiais destacam o Instituto como a melhor escola de engenharia do Brasil.

Nos últimos anos, ao adotar o modelo de escola empreendedora e escola corporativa, o IME vem ampliando consideravelmente sua capacidade de gerar invenções e desenvolvimento tecnológico em áreas disruptivas, como Inteligência Artificial (IA), Tecnologias Quânticas, Manufatura Aditiva, Robótica e Cibernética. Tais avanços posicionam o IME na vanguarda do desenvolvimento de inovações voltadas para defesa cibernética de infraestruturas críticas, desenvolvimento de enxame de drones, sensores quânticos e materiais avançados para diversas aplicações.

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Figura 1: Instalações do IME na Urca, Rio de Janeiro.

2. O CENSIPAM e o monitoramento integrado da Amazônia

O CENSIPAM, órgão subordinado ao Ministério da Defesa, é responsável pela coordenação do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), que reúne informações de satélites, radares, sensores meteorológicos e redes de comunicação para subsidiar ações de defesa, preservação do meio ambiente, segurança pública e desenvolvimento sustentável. Contando com um quadro diversificado e altamente qualificado de servidores civis e militares, o CENSIPAM é uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) que desenvolve projetos e atua na integração de dados para apoiar políticas públicas de controle do desmatamento, combate a atividades ilícitas, previsão climática e suporte de comunicação a populações isoladas em toda a Região Amazônica.

Criado em 2002, o CENSIPAM está organizado com um Centro de Coordenação Geral (CCG), em Brasília, e três Centros Regionais localizados em Manaus (CR-MN), Belém (CR-BE) e Porto Velho (CR-PV). Com essa estrutura, o CENSIPAM cobre toda a Amazônia Legal e estende suas capacidades para a chamada Amazônia Azul (mar territorial e zona econômica exclusiva) e para outras áreas do País, sempre que demandado.

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Figura 2: Centro de Coordenação Geral do CENSIPAM, Brasília.

3. O projeto de criação do IPEAM

Atento às aspirações nacionais, o Exército Brasileiro, por intermédio do Departamento de Ciência e Tecnologia e, mais especificamente, por meio do IME, pretende criar em Manaus uma ICT voltada para a formação e especialização de recursos humanos altamente qualificados e para o desenvolvimento tecnológico em áreas disruptivas, visando à proteção, ao desenvolvimento e à soberania da Amazônia: trata-se do Instituto de Pesquisa do Exército na Amazônia (IPEAM/IME).

O programa de Implantação do IPEAM está estruturado em duas fases. A primeira delas prevê o funcionamento do Instituto em instalações cedidas pelo CENSIPAM, já a partir de 2026. A segunda, deverá ser executada em seis anos, porém com resultados previstos ao longo desse período. Esse tempo será necessário para a ampliação das instalações, a estruturação de quatro linhas de pesquisa (IA, Tecnologias Quânticas, Transição Energética e Biotecnologias), a realização de concurso público para composição de parte do corpo permanente e a submissão do programa de pós-graduação interdisciplinar de Engenharia de Defesa junto à CAPES.

Inicialmente, planejava-se instalar o IME/IPEAM em um pavilhão de 250m2 no 4º Centro de Geoinformação, OM subordinada à DSG. Entretanto, as possibilidades de atuação do IME/IPEAM, ainda na primeira fase de implantação, podem ser ampliadas sobejamente com a sua instalação no CENSIPAM. Assim, passar-se-á a contar com uma área de aproximadamente 750m2, com viabilidade de futuras expansões, uma ampla infraestrutura logística para o funcionamento excelente de uma ICT e a oportunidade de compartilhamento de dados e de realização de trabalhos conjuntos.

Nessa fase, a atuação do IPEAM envolverá dois vetores principais. O primeiro deles visa apoiar as atividades de extensão do IME na região amazônica, promovendo aulas de reforço para alunos do ensino fundamental e capacitando professores da educação básica (participação do IME/IPEAM no Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR/CAPES)). Em ambos os casos, atingindo um público que reside em localidades ermas. Para concretizar essa atividade todos os alunos de graduação do IME dedicarão 7% da carga horária total dos seus respectivos cursos. Adicionalmente, contaremos com o apoio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), realizando atividades presenciais, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), como órgão de fomento, bem como do Exército, com sua capacidade logística. O projeto piloto será realizado no próximo ano na cidade de Itacoatiara. A partir de 2027, caso seja bem-sucedido, o projeto será expandido para outras localidades.

O segundo vetor de atuação volta-se para a realização de cursos de pós-graduação em colaboração com UEA e UFAM e contará também com o apoio de bolsas de estudo fomentadas pela FAPEAM. Os alunos participarão de atividades presenciais nas universidades locais e no IME e terão acesso as disciplinas dos programas de pós-graduação do IME ministradas na modalidade híbrida, em uma sala de aula do IPEAM dotada de sofisticados recursos de TIC, enquanto estiverem em Manaus.

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Figura 3: Instalações do CENSIPAM em Manaus (Centro Regional localizados em Manaus (CR-MN), destacando-se a área que será ocupada pelo IME/IPEAM.

A segunda fase compreende a ampliação das instalações, a estruturação e a consolidação de quatro linhas de pesquisa (IA, Tecnologias Quânticas, Transição Energética e Biotecnologias), mediante a realização de projetos de P&D, a realização de concurso público para composição de parte considerável do corpo permanente e a submissão à CAPES do programa de pós-graduação interdisciplinar de Engenharia de Defesa.

O programa de pós-graduação em Engenharia de Defesa em Manaus adotará o modelo de Escola Empreendedora e Escola Corporativa do Instituto Militar de Engenharia. Nele, serão criadas as linhas de pesquisa de IA, Tecnologias Quânticas, Transição Energética e Biotecnologias. A atuação nessas linhas permitirá não apenas formar mestres e doutores, mas também realizar desenvolvimentos tecnológicos em áreas cujos estudos prospectivos, realizados no Brasil e em países proeminentes, sugerem que irão revolucionar e condicionar a geopolítica em futuro próximo, bem como o crescimento econômico, o desenvolvimento e a soberania das nações.

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Figura 4: Esquema ilustrando as principais atividades a serem desenvolvidas nas duas fases de implantação do IME/IPEAM.

Na segunda fase vislumbra-se também a realização de projetos de P&D em colaboração com instituições locais, tais como: Inteligência Artificial para Monitoramentos Transfronteiriços e Ambientais na Amazônia Legal Através de Fontes Multimodais; Criação de uma Rede de Comunicações Quânticas em Manaus; Desenvolvimento de plantas voltadas à Segurança Energética e Transição Sustentável para Localidades Desconectadas do Sistema Integrado Nacional na Amazônia, agregando energia solar, baterias e hidrogênio verde; além de P&D na área de biotecnologia, visando explorar a rica biodiversidade local para gerar invenções em fármacos, sensores, camuflagem espectral e antídotos para armas químicas e biológicas, reativadores e bioativos, dentre outros projetos.

Nesses projetos, além do acúmulo de capacidade científica-tecnológica, da formação, capacitação e aperfeiçoamento de pessoal altamente qualificado, devem ser geradas inovações, como a Plataforma de Monitoramento Geoespacial para processar dados e identificar automaticamente atividades ilegais (como desmatamento, garimpo e queimadas); a Rede de Distribuição Quântica de Chaves (QKD) em Manaus; o Sistema Fotovoltaico híbrido em escala piloto e Sistema de Supervisão e Controle com capacidade de tomada de decisão automatizada em tempo real baseado em IA; e, bioprodutos de alto valor agregado para uso como antídotos QBRN e fármacos contra doenças neurodegenerativas.

Em suma, a missão do Instituto é realizar a formação de recursos humanos altamente qualificados na pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado), realizar desenvolvimento científico-tecnológico e promover atividades de extensão do Instituto Militar de Engenharia. Com essas atribuições pretende-se fortalecer o ensino médio e fundamental em áreas remotas da Amazônia; contribuir para a capacitação de professores de ensino fundamental e médio; e, incrementar a inovação em áreas críticas e sensíveis. Tudo visando o desenvolvimento sustentável, a defesa e a soberania da Amazônia.

4. Cooperação em prol do desenvolvimento sustentável e defesa nacional

Em que pese materializada pela instalação do IPEAM/IME nas dependências do CR-MN, a cooperação entre o IME e o CENSIPAM vai muito além de compartilhamento de área física. A união entre excelência no campo científico-tecnológico e capacidade operacional de duas instituições que possuem aspirações assemelhadas, porém com perfis complementares, permitirá potencializar suas capacidades individuais, ampliando as possibilidades de contribuir com a afirmação da soberania e o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

O CENSIPAM dispõe de pessoal qualificado, uma vasta e ampla gama de sensores espalhados pela região amazônica e sistemas que utilizam tais dados para a geração de informações valiosas para cumprir a missão de subsidiar ações de defesa, preservação do meio ambiente, segurança pública e desenvolvimento sustentável. São radares de abertura sintética (do termo em inglês, Synthetic Aperture Radar (SAR)), antenas de varredura lateral, sensores e radares meteorológicos embarcados em aeronaves, estações meteorológicas e diversos sensores embarcados em sistemas aéreos remotamente pilotados de categorias 2 e 3.

Por meio do compartilhamento de dados, da realização de projetos conjuntos e da cooperação entre pesquisadores, as duas instituições poderão promover o desenvolvimento de novos algoritmos de sensoriamento remoto, modelos preditivos de desmatamento, sistemas de IA para detecção de queimadas e soluções de comunicação em áreas remotas. Repise-se que para desenvolver esses novos sistemas baseados em tecnologias de IA, os pesquisadores do IPEAM/IME poderão acessar a colossal quantidade de dados produzidos pelos sensores avançados empregados pelo CENSIPAM.

Para processamento dos dados produzidos por esses sensores, o IPEAM/IME contará com infraestrutura computacional de altíssimo desempenho a ser instalada nas próprias dependências do CR-MN, bem como com os recursos computacionais já existentes no IME por acesso remoto. Com essa parceria, os alunos de pós-graduação do IPEAM/IME desenvolverão teses e dissertações em áreas importantes da IA, tais como Visão computacional, Mineração e Análise de dados, e Fusão de Dados Mulstissensoriais. As pesquisas serão alinhadas às atividades fundamentais do CENSIPAM, gerando conhecimento e inovações que poderão ser incorporadas nos produtos oferecidos pelo Centro. Ademais, a cooperação facilitará a capacitação dos servidores do CENSIPAM, pelo ingresso desses servidores nos programas de pós-graduação oferecidos pelo IPEAM/IME.

5. Conclusão

O Ministério da Defesa e, em particular, o Exército possui uma presença marcante na Região Amazônica. Entretanto, ainda não dispõe de uma infraestrutura de formação de pessoal altamente qualificado e de desenvolvimento tecnológico em áreas duais (tecnologias de interesse civil e militar) com a capacidade do Instituto Militar de Engenharia. Com essa iniciativa, o Exército pretende preencher essa lacuna e auferir mais uma contribuição para a proteção e o desenvolvimento sustentável da região, bem como estreitar ainda mais os laços com a parcela civil da sociedade amazônica.

Adicionalmente, a cooperação entre IME e CENSIPAM representará um importante fator crítico de sucesso desse empreendimento. Essa parceria simboliza um novo paradigma de cooperação entre ciência, defesa e sustentabilidade. Ao combinar rigor acadêmico, tecnologia de ponta e compromisso com a preservação ambiental, essa aliança se consolida como um pilar estratégico para o futuro da Amazônia e do Brasil. Em um cenário global cada vez mais atento às questões ambientais e à segurança dos recursos naturais, essa integração institucional reafirma o papel do país como guardião legítimo e inovador da maior floresta tropical do planeta.

Ao investir em pesquisa aplicada, formação de recursos humanos e integração interinstitucional, o Brasil amplia sua autonomia científica e reduz a dependência de tecnologias estrangeiras em áreas críticas como sensoriamento remoto, tecnologias quânticas, ciberdefesa, IA, transição energética e biotecnologias. A presença técnica e científica do Estado na Amazônia reforça a defesa da soberania nacional, elemento essencial diante de recorrentes interesses internacionais sobre os recursos amazônicos.

Referências

BRASIL, Portaria C Ex nº 2.350, de 24 de outubro de 2024.

GALDINO, J. F. O Papel da Engenharia Militar na Formação de Recursos Humanos na Amazônia: Reflexos no Desenvolvimento Regional e na Soberania Nacional. Trabalho de Conclusão de Curso — Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, 2009.

 

 

      

Rio de Janeiro - RJ, 31 de outubro 2025.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A criação do IME/IPEAM e a parceria estratégica com o CENSIPAM. Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/ompv/65-ciencia-tecnologia-e-inovacao-para-a-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/803-a-criacao-do-ime-ipeam-e-a-parceria-estrategica-com-o-censipam.

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