Defesa como vetor de desenvolvimento científico-tecnológico nacional: uma análise focada nas características do mercado de defesa

Juraci Ferreira Galdino
General de Divisão Engenheiro Militar.
Comandante e Reitor do Instituto Militar de Engenharia.


Considerações Iniciais

Recentemente publiquei no OMPV o artigo intitulado “POR QUE DESENVOLVER TECNOLOGIAS SENSÍVEIS HABILITADORAS DE CAPACIDADES MILITARES É IMPORTANTE PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO?” Nele apresentei algumas características do mercado de Defesa (pontos fracos, utilizando como referencial a análise SWOT) que podem ser exploradas por países proeminentes e suas principais empresas no sentido de manter o status quo da dinâmica de poder entre as nações (ameaças, da matriz SWOT) (GALDINO, 2025) e de perpetuar a dependência de tecnologias de vanguarda, prejudicando não apenas a área de Defesa, mas o desenvolvimento e a competitividade de países de industrialização tardia.  

Neste artigo de opinião, analiso outras características do mercado de Defesa que considero importantes para promover o desenvolvimento do Brasil, particularmente pelo potencial que elas possuem para lidar com óbices nacionais que travam nossa competitividade nos setores da indústria e dos serviços.

As características escolhidas para discussão neste artigo são correlacionadas e interdependentes, entretanto optei por apresentá-las individualmente em seções separadas para facilitar tanto a análise quanto a compreensão das especificidades de cada uma dessas características.                                                                                            

1. Estabelecimento de Desafios

Talvez a característica mais marcante e longeva da humanidade seja o seu instinto de sobrevivência. Ele instigou nossos antepassados a criarem armamentos, ferramentas e utensílios para enfrentar ameaças à sua existência.

No âmbito das nações, a área de Defesa herdou a essência do instinto de sobrevivência e tornou-se profícua em gerar desafios que instigam a capacidade inventiva do homem, por meio do estabelecimento de requisitos sofisticados e severos que norteiam o desenvolvimento de sistemas, serviços, produtos e materiais de emprego militar. Esses requisitos definem parâmetros de desempenho rigorosos, às vezes inusitados, que devem ser atendidos, mesmo sob condições adversas de operação e sujeitos a ações de beligerantes que visam prejudicar o funcionamento, o desempenho e até mesmo tornar indisponível o serviço, o sistema ou o produto no Teatro de Operações ou no Campo de Batalha.

Trago à baila um exemplo singelo dos sistemas de comunicações militares, como os equipamentos rádios de comunicações táticas. Esses equipamentos podem operar em uma vasta gama de ambientes e ser expostos a ruídos, variações extremas de temperatura, elevada pressão e intensa vibração, bem como podem ser submetidos a condições climáticas adversas como chuva, vento, poeira e imersão em água. Ademais, eles devem manter suas características de desempenho mesmo quando atacados por interferências eletromagnéticas e ações cibernéticas de toda natureza. 

Esses desafios aguçam a criatividade e impulsionam a inovação promovendo o desenvolvimento de materiais sofisticados, resistentes e leves, bem como de antenas, transmissores, receptores, protocolos de comunicações e sistemas de segurança avançados.

A necessidade de promover a surpresa tecnológica no campo de batalha e propiciar melhores condições de enfrentamento aos beligerantes impulsiona o estado da arte em cada uma das áreas supracitadas. Penso que o gosto pelos desafios e a necessidade instigam o espírito inovador que transborda para outros setores. 

2. Transbordamento tecnológico

O transbordamento tecnológico da área de defesa para outros setores da sociedade pode ocorrer de duas formas: transbordamento de produtos, sistemas ou serviços e transbordamentos de tecnologias.

Fala-se muito de serviços, sistemas e produtos que foram produzidos para emprego em campo de batalha e que se tornaram importantes para uso civil, como o forno de micro-ondas, o GPS, as câmeras digitais, o controle de tráfego aéreo, a produção em massa de antibióticos, o serviço de ambulâncias, o computador e a Internet (ARRUDA, F., 2013). É difícil imaginar nosso cotidiano sem essas invenções.

Malgrado o sucesso e a abrangência dessas invenções, o transbordamento tecnológico da área de Defesa é um fenômeno que se manifesta com uma frequência e importância muito maiores do que aquelas normalmente percebida pela sociedade. Acredito que isso ocorra por uma razão simples: é mais comum ocorrer o transbordamento de tecnologias desenvolvidas para serem embarcadas em sistemas e produtos militares do que o transbordamento de produtos, serviços e sistemas de defesa. Entretanto, o transbordamento de tecnologias é mais difícil de se perceber, de se aquilatar ou de se inferir do que o transbordamento de produtos. Aquelas, mais frequentes, são transparentes para a sociedade, ao passo que estes, mais raros, são mais perceptíveis e evidentes. De fato, apenas uma ínfima parcela dos produtos militares é adequada para uso civil. Em alguns casos, esses produtos exibem funcionalidades que os tornam onerosos e que não agregam valor para o mercado comum. Em outros casos, as suas funcionalidades se destinam à guerra, não sendo de uso ostensivo pela população de um modo geral.

A situação muda quando nosso elemento de análise é a tecnologia embarcada nos produtos e não o produto pronto, em condições de ser utilizado pelo usuário. Vejamos dois casos emblemáticos para lançar luz sobre essa distinção entre transbordamento de produtos militares e transbordamento de tecnologias.

O primeiro deles é ilustrado na seguinte figura (MAZZUCATO, 2014). Nela são apresentadas as principais tecnologias que foram integradas para produzir a primeira geração do iPod, do iPhone e do iPad. Perceba que essas tecnologias habilitadoras tiveram suas origens ou foram significativamente impulsionadas por investimentos estatais, particularmente da Defesa. Importantes para a geração de capacidades militares, essas tecnologias foram adaptadas e integradas para gerar produtos de grande sucesso comercial de uso civil. Ou seja, o iPod, o iPad e o iphone não foram desenvolvidos visando aplicações militares, mas muitas das tecnologias que deram origem a esses produtos foram desenvolvidas para atender interesses militares.

Figura 1:Tecnologias habilitadores de produtos pioneiros da Apple

Fonte: Estado Empreendedor, MAZZUCATO, 2014.

Agora vamos revisitar o exemplo mencionado previamente do desenvolvimento do equipamento militar de comunicação tática. Os materiais sofisticados, resistentes e leves e as avançadas técnicas de transmissão e de recepção (protocolos de comunicações, sistemas de segurança e antenas) que são desenvolvidas e integradas para produzir o rádio militar, podem ser adaptados e empregados como tecnologias habilitadoras de diversos produtos de ponta, de alto valor agregado e inovadores destinados ao público em geral.

Como responsável pelas pesquisas e desenvolvimentos de alguns dos principais equipamentos de comunicações táticas do Exército ao longo de mais de uma década (PRADO, GALDINO, MOURA, 2017), tenho plena consciência do potencial de transbordamento dessas tecnologias. De fato, as tecnologias que são desenvolvidas nos projetos de PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) e incorporadas aos equipamentos militares podem ser utilizadas para gerar inovações em diversos tipos de sistemas de comunicações sem fio destinados ao mercado mais amplo, tendo em vista a natureza dual, como discutido em (GALDINO, 2025).

Além de mais frequente, o transbordamento de tecnologias tem um potencial de difusão muito maior do que o transbordamento de produtos. Apresento a seguinte figura para ilustrar esse ponto de vista.

Os eixos dessa figura informam os níveis de maturidade e de criticidade de tecnologias, sendo que cada pontinho dessa figura representa uma determinada tecnologia. O significado dos conceitos de maturidade tecnológica e criticidade não é importante para o objetivo deste artigo. Essa figura ilustra as diversas tecnologias que devem ser desenvolvidas e integradas para gerar um sistema real do Exército, um caso concreto. Perceba quantas tecnologias estão envolvidas em um desenvolvimento de um sistema complexo de defesa, cada uma delas devendo atender a requisitos sofisticados e cada uma delas, provavelmente, tendo potencial para ser utilizada no desenvolvimento de aplicações civis. E o mais importante, as equipes que participam do desenvolvimento de tais tecnologias auferem acúmulo de conhecimento e ganham experiência em projetos de PD&I de alto valor agregado, tornando-os mão de obra altamente especializada e competente para desenvolver outras inovações para outros setores da economia. Ou seja, em vez de pensarmos em transbordamento de um produto ou sistema, temos a possibilidade de transbordamento de cerca de uma centena de tecnologias embarcadas em um único produto ou sistema militar. É nesse aspecto que se verificam as principais externalidades e contribuições da Defesa para o desenvolvimento de outros setores da economia.

Figura 2: Maturidade tecnológica versus criticidade tecnológico das tecnologias importantes para realizar o desenvolvimento de um sistema de emprego militar

Fonte: InovaEB: prova de conceito de sistema de apoio à decisão para a gestão da inovação no Exército Brasileiro, GIRARDI, GALDINO, FRANÇA JUNIOR & PELLANDA, 2025.

3. Demanda de alta tecnológica em todos os setores

No afã de provocar a surpresa tecnológica no campo de batalha, as Forças Armadas são profícuas em gerar desafios que ensejam o desenvolvimento de tecnologias de ponta que podem ser aproveitadas para gerar inovações em vários setores da sociedade.

Um país que busca a integração da ciência, tecnologia e setor produtivo com a área de Defesa tende a se desenvolver.  Em outras palavras, a integração estratégica entre esses domínios constitui um pilar fundamental para o desenvolvimento nacional. Este processo é catalisado pelas exigências intrínsecas de inovação e alto desempenho do setor de Defesa, que induzem transbordamentos tecnológicos e capacitação em um amplo espectro de setores econômicos, extrapolando as aplicações militares de alta complexidade. Isso não se manifesta apenas em áreas de tecnologias de vanguarda incorporadas em plataformas sofisticadas como caças, carros de combate e submarinos nucleares, mas em todos os setores da economia, como por exemplo a indústria têxtil.

Para produzir uniformes militares de ponta, a indústria têxtil realiza pesquisas para desenvolver sistemas de camuflagem ativa que se adaptam ao ambiente, tecidos resistentes e com propriedades de controle térmico, repelência a insetos e ação antimicrobiana (SENAI CETIQT, 2024). Essas inovações visam aprimorar as condições de operacionalidade e a capacidade de durar na ação do combatente, aumentando suas chances de sobrevivência e melhorando a sua eficácia em operações militares. Certamente os avanços nesse setor podem agregar valor aos produtos e serviços que a empresa oferece, aumentando a sua competitividade em amplo espectro.

Decisivamente, a atuação no setor de Defesa significa muito mais do que produzir armamentos. Ela contribui para a evolução da expressão científico-tecnológica do poder nacional.

4. Demanda de mão de obra altamente qualificada

Além da capacidade de gerar desafios, do transbordamento tecnológico para outros setores da economia e da demanda tecnológica de alto valor agregado em amplo espectro, vamos agora discutir outra característica importante do setor de Defesa que se correlaciona com as demais, mas pela sua importância optei por analisá-la separadamente: elevada demanda por mão de obra altamente qualificada.

Alguns indícios sugerem a importância do setor de Defesa no tocante à demanda de mão de obra altamente qualificada. O Exército Brasileiro e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizaram uma pesquisa em 2018 sobre o perfil dos funcionários das empresas contratadas pelos Projetos Estratégicos do Exército. Os resultados evidenciaram a geração de 41.695 empregos diretos, sendo 1.457 vagas preenchidas por engenheiros (3,5% do total) e 12.869 vagas por técnicos de nível médio (28,2% do total), ao passo que a média da indústria brasileira revelada na pesquisa era 1,3% e 13,2% de engenheiros e técnicos, respectivamente (PEREIRA, SAMPAIO, 2021). Em que pese o modesto conteúdo nacional dos projetos estratégicos do Exército, esses números chamam a atenção. A Embraer, nossa principal empresa da Base Industrial de Defesa, possui cerca de 18 mil funcionários, dos quais 3,5 mil são engenheiros, ou seja, aproximadamente 19,4% dos funcionários da empresa (SAMPAIO, 2023). Esses números são impressionantes.

É possível afirmar, portanto, que a Defesa demanda mão de obra qualificada, mesmo no Brasil em que o setor não é muito desenvolvido. Esse perfil da indústria de defesa tem uma enorme capacidade de arrasto, não apenas pelo potencial de geração de empregos indiretos, face ao bom poder aquisitivo desses trabalhadores, mas principalmente pela demanda de ensino, em todos os níveis, visando à preparação de pessoal qualificado que deseja ingressar ou se manter nesse mercado de trabalho.

Enquanto o mundo depende cada vez mais de cientistas, de pesquisadores e de engenheiros, no Brasil o número de candidatos por vaga dos cursos de engenharia vem diminuindo sensivelmente. Além disso, a taxa de titulação dos cursos na área de engenharia vêm caindo acentuadamente no país e boa parte destes cursos possuem desempenho modesto. Agravando esse quadro, observa-se que a quantidade de engenheiros trabalhando em atividades não-típicas é maior do que a daqueles que labutam em atividades ligadas às engenharias (WEISE, 2024).

Mão de obra qualificada é essencial para a competitividade da indústria. Em um estudo recente realizado pela CNI, mostra-se que o Brasil ocupa o último lugar no ranking de competitividade industrial, dentre 18 (dezoito) países considerados na pesquisa, a saber: Coreia do Sul, Países Baixos, Canadá, Reino Unido, China, Alemanha, Itália, Espanha, Rússia, Estados Unidos, Turquia, Chile, Índia, Argentina, Peru, Colômbia e México (ANFACER, 2025; CNI, 2025). Esses países foram selecionados para o estudo justamente por possuírem portfólio de produtos assemelhado ao do Brasil e estarem presentes nos mesmos mercados, tanto em nível de importação quanto de exportação.

O Brasil possui baixa taxa per capita de engenheiros, dificultando o crescimento da economia. Indiscutivelmente, a disponibilização de profissionais das engenharias e das ciências exatas em todos os níveis, mormente nas grandes áreas de conhecimento da 4ª Revolução Industrial, é essencial para tornar o país mais inovador         (GALDINO, 2019). Entretanto, não basta formar esses profissionais, é preciso fortalecer o ensino médio, o ensino de engenharia com especial ênfase para as ciências básicas de suas grades, e, sobretudo, criar mercado para absorver essa mão de obra qualificada. Nesse contexto, sobressai-se o mercado de Defesa.

5. Pesquisa orientada à missão

Vejamos agora outra característica importante da área de Defesa que pode contribuir para ajudar a resolver um problema antigo do modelo de desenvolvimento científico-tecnológico nacional. No Exército realiza-se pesquisa orientada à missão.

Esse tipo de pesquisa se notabiliza por direcionar os esforços para resolver problemas concretos, mobilizando diferentes saberes e setores. Em vez de focar em descobertas científicas isoladas, que visam contribuir para o acúmulo de conhecimento universal e gerar produção científica, a pesquisa orientada à missão busca soluções que gerem impacto prático e duradouro, favorecendo o estabelecimento de conexões com os setores produtivos. Em apertada síntese, a pesquisa orientada à missão busca gerar inovação tecnológica, promovendo uma integração entre academia, centros de pesquisas e empresas.

Infelizmente, a pesquisa orientada à missão, comum nos países desenvolvidos, não é uma prática frequente em nosso país. Os recursos de fomento não reembolsáveis são pulverizados pelas centenas de universidades e centros de pesquisa nacionais, servindo para patrocinar pesquisas de baixo impacto e criar infraestruturas de pesquisa modestas e cujos resultados mais expressivos são publicações científicas.

Diferente do que ocorre em outros setores do Brasil, as pesquisas realizadas no Exército são orientadas à missão. Esse tipo de pesquisa é o DNA do Exército, onde esses esforços são realizados para dominar conhecimentos sensíveis e destinados a obter sistemas e produtos que contribuirão para gerar elementos de capacidades militares, como radares, rádios de comunicações táticas, optrônicos, componentes de Defesa cibernética, sistemas de navegação inercial etc. No Exército, os temas a serem pesquisados são determinados pelo Estado-Maior do Exército e surgem a partir de um sofisticado processo de alinhamento estratégico, de acompanhamento e de controle.

Vale destacar que outros setores nacionais, de grande competitividade, como o agronegócio, capitaneado pela Embrapa, e o do óleo e gás, pela Petrobrás, também adotam a mesma filosofia de pesquisa orientada à missão (SCHONS, PRADO FILHO, GALDINO, 2022), uma evidência de que essa filosofia de pesquisa, focada na obtenção de resultados tangíveis, é essencial para criar um ambiente de inovação auspicioso.

Ela incentiva a colaboração entre diversos atores, como governo, empresas e academia, além de envolver a integração de diversas áreas do conhecimento, sendo, portanto, adequada para desenvolver o modelo de tripla hélice de inovação ou outros modelos que preveem a adoção de uma quantidade maior de hélices. A despeito do moderno arcabouço legal nacional criado nos últimos anos para impulsionar a integração da academia com o setor produtivo, as conexões entre esses setores ainda são precárias. Fomentar as pesquisas científicas das Forças Armadas pode ajudar nesse processo, pois, indubitavelmente, os resultados desse investimento serão produtos, serviços e sistemas inseridos no mercado, como radares, optrônicos, sistemas de comunicações.

6. Demanda de tecnologias de vanguarda

Uma característica permanente de uma Força Armada é a busca do avanço tecnológico para promover a surpresa tecnológica no Campo de Batalha. Por isso, a agenda estratégica do Exército Brasileiro compreende o desenvolvimento de tecnologias de vanguarda, que na atualidade envolvem tecnologias que se inserem no cerne da 4ª Revolução Industrial, tais como Inteligência Artificial, Tecnologias Quânticas, Defesa Cibernética de infraestruturas críticas, sistemas de comando e controle, dispositivos (sensores, biossensores, detectores e atuadores) e materiais avançados. Essas áreas são essenciais não apenas para o desenvolvimento de elementos de capacidades militares sofisticadas, mas também são fundamentais para todos os setores da sociedade. Infelizmente, nessas áreas, o Brasil apresenta indicadores com valores modestos tanto de produção científica quanto de pedidos de proteção de propriedade intelectual (depósitos de patentes e modelos de utilidade) quando comparados com os valores de países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Malgrado avanços na produção científica mundial no último quartil, elevando a contribuição científica nacional de 0,9% para 3,5% da produção científica mundial, essa contribuição ainda é inferior a 1% nas áreas que impulsionam a Era do Conhecimento e a 4ª Revolução Industrial. No que tange aos depósitos de proteção industrial, nossa contribuição é bem mais modesta. Investir nas demandas da Defesa significa apoiar iniciativas que são importantes no contexto da Era do Conhecimento e da 4ª Revolução Industrial.

7. Planejamento de longo prazo

A incorporação de avanços tecnológicos nas Forças Armadas demanda bastante tempo. Isso é necessário para a obtenção de sistemas complexos (por aquisição ou PD&I), para incorporar avanços doutrinários, realizar o preparo e o emprego. Por isso, as Forças Armadas e, em particular, o Exército Brasileiro, realizam planejamento de longo prazo. Esse tipo de planejamento também é fundamental para o avanço científico-tecnológico.

Nesse contexto, trago à baila o Força 40, que representa o prosseguimento do processo de transformação da Força Terrestre, fruto da elaboração do Conceito Operacional e da evolução da Concepção de Transformação do Exército Brasileiro, visando preparar o Exército para os desafios a serem enfrentados em 2040. Certamente, o Força 40 norteará as atividades de PD&I visando obtermos autonomia em tecnologias que ensejarão capacidades essenciais para a Força Terrestre superar os desafios vindouros, circunscritos até o ano de 2040.

Considerações Finais

Para deixarmos de ser o eterno País do Futuro, teremos que realizar mais pesquisa básica, pesquisa aplicada e pesquisa e desenvolvimento de vanguarda, sobretudo nas áreas que impulsionam a 4ª Revolução Industrial. Entretanto, é preciso que essas pesquisas, além de contribuírem para o estoque de conhecimento universal (produção científica), gerem invenções capazes de incrementar a competitividade do Brasil.

Teremos que formar mais e melhores engenheiros para transformar os resultados de pesquisa tecnológica em inovação de processos, de serviços e de produtos, aumentando a competitividade e a atratividade de nossos produtos e serviços em um mercado globalizado. Para tal, precisamos, sobretudo, criar para esses profissionais um mercado de trabalho com salários competitivos internacionalmente a fim de evitar a fuga de cérebros (SAMPAIO, 2022).

É necessário aproximar os setores que geram conhecimento e invenções nos estágios iniciais da escala de maturidade tecnológica daqueles que têm capacidade de se apropriar desses resultados para transformá-los em inovações, atuando, portanto, nos níveis mais avançados dessa mesma escala (GIRARDI, FRANÇA Jr., GALDINO, 2022; FRANÇA Jr., GALDINO, 2019). Em suma, é preciso aproximar a academia do setor empresarial, tanto do ramo industrial quanto do de serviços. Uma forma para conseguir isso é realizar pesquisa orientada à missão.

Em suma, o Brasil precisa realizar planejamento de médio e longo prazos; desenvolver setores que demandam mão de obra qualificada; priorizar áreas inerentes à 4ª revolução industrial; aproximar governo, academia e indústria; desenvolver tecnologias sensíveis para enfrentar a dualidade da dualidade tecnológica (GALDINO, 2024; GIRARDI, GALDINO, 2024); realizar pesquisas orientadas à missão, cujos resultados tenham potencial para serem externalizados para toda a sociedade.

Um setor que congrega todas as possibilidades supracitadas é a área de Defesa, conforme sumarizado na Tabela 1. Além de ser fundamental para a soberania do país e uma necessidade e obrigação do Estado, o Sistema Setorial de Inovação de Defesa tem o condão de contribuir para aumentar a competitividade do Brasil e enfrentar alguns dos problemas de seu Sistema Nacional de Inovação.

Além disso, a área de Defesa tem um mercado internacional extraordinário, encontra-se em franca expansão e, apesar de modesto no Brasil, representa cerca de 4% do PIB nacional, tendo o potencial para mobilizar e colimar esforços de todos os atores importantes da cadeia de pesquisa científica e produtiva, como academia, institutos de pesquisa, startups e empresas.

Precisamos desenvolver tecnologias críticas e sensíveis e dinamizar a nossa indústria de Defesa (GIRARDI, FRANÇA Jr., GALDINO, 2024). Esse assunto precisa ser tratado como política de Estado sem preconceitos e vieses ideológicos. Ele não se restringe a desenvolver a capacidade bélica, sendo essencial para aperfeiçoar a competitividade de nossa indústria e setor de serviços.

Em (GALDINO, 2025) apresentei características do mercado de Defesa que podem levar à dependência nacional em tecnologias de ponta, dificultando não apenas a geração de capacidades militares, mas também o avanço da expressão científico-tecnológica do poder nacional. Em contraposição, aqui apresentei outras características desse mercado que, se devidamente exploradas, podem criar um círculo virtuoso de desenvolvimento científico-tecnológico nacional. Defesa e desenvolvimento nacional são indissociáveis.

Tabela 1: Características da área de defesa que podem trazer benefícios ao Sistema Nacional de Inovação do Brasil

Característica da área de Defesa

Benefícios

Estabelecimento de Desafios

Impulsiona a criatividade

Transbordamento tecnológico

Inovação

Demanda de alta tecnologia em todos os setores

Impulsiona a competitividade

Demanda de mão de obra altamente qualificada

Ajuda a reduzir a fuga de cérebros

Pesquisa orientada à missão                         

Foco na geração de resultados concretos

Demanda de tecnologia de vanguarda

Esforço principal alinhado com as tendências mundiais de desenvolvimento tecnológico

Planejamento de longo prazo

Resultados expressivos

Fonte: o autor

 

Referências

 

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ARRUDA, F., 8 tecnologias inventadas para a guerra que fazem parte do nosso cotidiano: Apesar de causar mortes e destruição, as guerras também servem como incentivo para o desenvolvimento de tecnologias diversas. TECMUNDO, 2013. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/tecnologia-militar/34671-8-tecnologias-inventadas-para-a-guerra-que-fazem-parte-do-nosso-cotidiano.htm.

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Rio de Janeiro - RJ, 23 de julho 2025.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Por que desenvolver tecnologias sensíveis habilitadoras de capacidades militares é importante para países em desenvolvimento?. Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/dqbrn/desastres-e-mudancas-climaticas/desastres-e-mudancas-climaticas-seminarios/65-ciencia-tecnologia-e-inovacao-para-a-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/778-por-que-desenvolver-tecnologias-sensiveis-habilitadoras-de-capacidades-militares-e-importante-para-paises-em-desenvolvimento.