Instituições inclusivas, defesa e autonomia tecnológica: o papel do Exército Brasileiro no contexto das tecnologias quânticas

Magda Gomes da Silva
Mestre em História Comparada (PPGHC/UFRJ).
Pesquisadora do Laboratório de Ciências Militares (LCM/ECEME).

Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon
Doutor em Administração e em Ciências Militares.
Pesquisador/Coordenador do Laboratório de Ciências Militares (LCM/ECEME).

 

1. Introdução: instituições, inovação e o poder tecnológico.

A emergência das tecnologias quânticas no século XXI tem sido interpretada como um dos principais vetores de reconfiguração do poder global, com implicações diretas para a soberania tecnológica dos Estados. Nesse contexto, o desenvolvimento dessas capacidades não depende exclusivamente de avanços científicos, mas da forma como os países estruturam seus ecossistemas de inovação e organizam arranjos institucionais capazes de converter conhecimento em ativos estratégicos. Assim como em revoluções tecnológicas anteriores, o caráter dual dessas tecnologias reforça a centralidade da articulação entre ciência, Estado e defesa.

Este artigo examina o caso brasileiro a partir do referencial de instituições inclusivas, conforme desenvolvido por Acemoglu, Johnson e Robinson[1], com o objetivo de discutir o papel do Exército Brasileiro na conformação do ecossistema nacional de pesquisa em tecnologias quânticas. Argumenta-se que, historicamente, a instituição tem desempenhado funções relevantes na indução de capacidades científicas e tecnológicas, ainda que condicionadas por fatores estruturais do sistema nacional de inovação.

Ao mobilizar esse enquadramento teórico, o trabalho busca analisar em que medida a atuação do Exército pode ser compreendida como parte de um arranjo institucional voltado à promoção da autonomia tecnológica, bem como quais são os limites dessa atuação diante das exigências contemporâneas de coordenação, escala e governança. Dessa forma, pretende-se contribuir para o debate sobre o papel das instituições de defesa na construção de capacidades estratégicas em tecnologias emergentes.

Assim sendo, esta breve reflexão parte da seguinte questão orientadora: como as instituições de defesa podem contribuir para a construção de autonomia tecnológica em tecnologias emergentes, à luz do caso brasileiro.

 

2. Tecnologias quânticas e a reconfiguração do poder global

De forma análoga às transformações observadas com o advento da computação e da internet no século XX, as tecnologias quânticas emergem como um novo vetor estruturante da ordem internacional. Seu desenvolvimento não apenas amplia capacidades científicas e industriais, mas também redefine os parâmetros de poder entre os Estados, ao impactar diretamente áreas críticas como defesa, energia, comunicações e infraestrutura estratégica.

Nesse contexto, o domínio dessas tecnologias tende a gerar assimetrias relevantes. Países capazes de internalizar capacidades quânticas poderão obter vantagens estratégicas significativas, tanto no campo militar quanto na economia digital, enquanto aqueles que não o fizerem correm o risco de aprofundar sua dependência tecnológica. Trata-se, portanto, de um processo que transcende a dimensão técnica, configurando um dinâmica de competição internacional por autonomia e posicionamento estratégico.

A incorporação de tecnologias quânticas em sistemas produtivos e de segurança representa, assim, um elemento central para evitar o que pode ser caracterizado como determinismo tecnológico, no qual a inserção internacional de um país passa a ser condicionada por sua capacidade de acesso e domínio de tecnologias críticas. Nesse cenário, observa-se a formação de uma “corrida quântica”, na qual Estados buscam não apenas avanços científicos, mas a capacidade de transformar esses avanços em aplicações práticas com impacto sistêmico.

Dessa forma, o salto quântico não deve ser compreendido apenas como uma inovação incremental, mas como uma inflexão potencial na distribuição de poder global. Tal transformação impõe desafios institucionais relevantes, especialmente para países em desenvolvimento, que precisam estruturar mecanismos capazes de articular ciência, inovação e estratégia nacional.

 

3. Instituições inclusivas e inovação em defesa: enquadramento analítico

O debate sobre o desenvolvimento tecnológico contemporâneo tem ressaltado o papel das instituições na capacidade dos Estados de transformar conhecimento científico em poder econômico e estratégico. Nesse contexto, o conceito de instituições inclusivas, conforme desenvolvido por Acemoglu, Johnson e Robinson, oferece um referencial útil para compreender como arranjos institucionais podem favorecer a inovação, ao promover coordenação, previsibilidade e ampliação do acesso a oportunidades produtivas.

Instituições inclusivas caracterizam-se, em termos gerais, por sua capacidade de estruturar ambientes que incentivam a participação de múltiplos atores, a circulação de conhecimento e a proteção de ativos estratégicos, em oposição a arranjos extrativistas que concentram recursos e limitam o desenvolvimento. No campo da inovação tecnológica, essa distinção torna-se particularmente relevante, uma vez que a geração e a difusão de conhecimento dependem de interações contínuas entre Estado, academia e setor produtivo.

No domínio da defesa, essa discussão assume contornos específicos. Diferentemente de outros setores, a inovação militar frequentemente envolve elevados custos, riscos tecnológicos e longos horizontes de maturação, o que tende a demandar maior protagonismo estatal. Nesse sentido, instituições de defesa podem desempenhar funções estruturantes, não apenas como usuárias finais de tecnologia, mas como indutoras de ecossistemas de pesquisa, de formação de recursos humanos e de articulação entre diferentes esferas institucionais. Essa função é particularmente relevante em contextos nos quais a coordenação entre atores é limitada, sendo a atuação institucional capaz de reduzir assimetrias de informação, alinhar incentivos e viabilizar trajetórias tecnológicas que, de outra forma, tenderiam a não se materializar.

Essa atuação pode ser compreendida, sob uma perspectiva econômica mais tradicional, como resposta a falhas de mercado associadas ao desenvolvimento de tecnologias de alta complexidade. Em setores caracterizados por elevados custos iniciais, incerteza tecnológica e externalidades significativas, como ocorre no campo quântico, o investimento exclusivamente privado tende a ser insuficiente para sustentar trajetórias de inovação de longo prazo. Nesses casos, o papel do Estado não se configura como substituto da dinâmica de mercado, mas como elemento de coordenação e viabilização, responsável por reduzir incertezas, fomentar a pesquisa básica e articular os atores do sistema nacional de inovação.

Essa atuação pode ser observada especialmente em contextos nos quais o sistema nacional de inovação apresenta lacunas estruturais, exigindo mecanismos de coordenação capazes de integrar esforços dispersos. Nesses casos, organizações militares podem atuar como catalisadoras de iniciativas científicas e tecnológicas, contribuindo para a construção de capacidades de uso dual e para a redução de dependências externas.

Entretanto, a caracterização de tais instituições como inclusivas não decorre automaticamente de sua atuação como indutoras de inovação. Essa classificação depende de sua capacidade efetiva de promover uma articulação ampla entre atores, garantir continuidade institucional e converter investimentos em resultados sistêmicos. Assim, a análise do papel das instituições de defesa na promoção da autonomia tecnológica requer considerar não apenas seus potenciais, mas também os limites e condicionantes de sua atuação.

 

4. O caso brasileiro: o papel do Exército na construção de capacidades em tecnologias quânticas

No contexto brasileiro, o desenvolvimento de tecnologias quânticas tem se estruturado por meio de um conjunto de iniciativas que envolvem universidades, centros de pesquisa e agências de fomento. Nesse arranjo, o Exército Brasileiro emerge como um ator relevante, não apenas como usuário potencial dessas tecnologias, mas como elemento de coordenação e indução de capacidades estratégicas. Esse posicionamento sugere que a atuação institucional não se limita à participação em iniciativas existentes, mas contribui para a própria estruturação do ambiente de inovação, especialmente em áreas nas quais a coordenação entre atores é crítica.

Uma primeira dimensão dessa atuação refere-se à formação de capital humano altamente qualificado, especialmente por meio de instituições como o Instituto Militar de Engenharia (IME). Ao longo de sua trajetória, o IME tem desempenhado papel central na formação de quadros técnicos e científicos em áreas críticas, contribuindo para a consolidação de competências nacionais em domínios de alta complexidade tecnológica. No campo das tecnologias quânticas, essa função se torna ainda mais relevante, dada a escassez global de especialistas e a necessidade de capacitação contínua de recursos humanos. Essa dimensão contribui para reduzir uma das principais restrições ao desenvolvimento tecnológico em áreas emergentes: a carência de pessoal técnico altamente especializado.

Uma segunda dimensão diz respeito à coordenação institucional e articulação de redes de pesquisa. A participação do Exército em iniciativas como a Rede Rio Quântica e a condução da Rede Hermes Quântica evidenciam um esforço de integração entre diferentes atores do sistema nacional de ciência e tecnologia. Essas redes conectam universidades, centros de pesquisa e instituições militares, criando um ambiente propício à circulação de conhecimento e ao desenvolvimento de aplicações em comunicação quântica e proteção de dados estratégicos. Essa articulação tende a ampliar a eficiência do sistema de inovação ao reduzir fragmentações institucionais e estimular o compartilhamento de saberes.

Além disso, destaca-se o papel da instituição na articulação entre pesquisa científica e aplicação estratégica, especialmente por meio de programas como o PRÓ-DEFESA. Tais iniciativas contribuem para aproximar o meio acadêmico das demandas da defesa, favorecendo o desenvolvimento de tecnologias de uso dual e ampliando a capacidade de absorção de inovações pelo Estado. Esse tipo de interação é fundamental em áreas emergentes, nas quais o tempo de transição entre pesquisa básica e aplicação prática tende a ser um fator crítico. Esse mecanismo reduz a distância entre produção científica e aplicação prática, um dos principais desafios em tecnologias de alta complexidade.

Por fim, observa-se que a atuação do Exército ocorre em um ambiente mais amplo de políticas públicas voltadas à promoção da ciência e da tecnologia, que envolve instituições como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e fundações estaduais de amparo à pesquisa. Nesse sentido, a contribuição da instituição deve ser compreendida como parte de um arranjo mais amplo, no qual diferentes atores desempenham papéis complementares na construção de um ecossistema nacional de inovação.

Apesar desses avanços, a consolidação de capacidades em tecnologias quânticas no Brasil ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles, destacam-se a necessidade de continuidade de investimentos, a ampliação da escala dos projetos e o fortalecimento de mecanismos de governança capazes de integrar, de forma mais eficiente, os diversos atores envolvidos. Assim, embora o Exército desempenhe funções importantes na indução e coordenação de iniciativas, sua atuação deve ser analisada como parte de um processo em desenvolvimento, sujeito a condicionantes estruturais e institucionais mais amplos.

 

5. Tecnologias quânticas, competição internacional e condicionantes estruturais

O avanço das tecnologias quânticas tem sido acompanhado por uma intensificação da competição internacional por capacidades científicas e tecnológicas, configurando o que parte da literatura denomina uma nova corrida tecnológica. Nesse contexto, os Estados buscam assegurar vantagens estratégicas em áreas como comunicação segura, computação avançada e sensoriamento, com impactos diretos sobre a soberania digital, a segurança nacional e a inserção internacional.

Para países em desenvolvimento, essa dinâmica impõe um desafio adicional: a necessidade de construir capacidades tecnológicas em um ambiente caracterizado por assimetrias estruturais. A concentração de investimentos, infraestrutura e capital humano em um número restrito de países tende a dificultar a consolidação de ecossistemas nacionais de inovação capazes de competir em escala global. Nesse cenário, o risco de dependência tecnológica permanece elevado, especialmente em setores intensivos em conhecimento e de rápida evolução.

Em comparação com as nações que lideram o desenvolvimento dessas tecnologias, como Estados Unidos, China e membros da União Europeia, observa-se que o Brasil ainda opera em escala inferior de investimento, capacidade industrial e integração entre pesquisa e aplicação, o que reforça a necessidade de estratégias institucionais mais coordenadas.

No caso brasileiro, iniciativas voltadas ao desenvolvimento de tecnologias quânticas indicam a existência de uma base institucional em construção, com potencial de expansão. No entanto, a consolidação dessa trajetória depende de fatores que extrapolam a atuação de uma única instituição. Entre esses fatores, destacam-se a continuidade de políticas públicas de ciência e tecnologia, a estabilidade de mecanismos de financiamento e a capacidade de integração entre os diferentes atores do sistema nacional de inovação.

Adicionalmente, a inserção internacional do Brasil nesse campo dependerá não apenas da geração de conhecimento, mas da capacidade de transformá-lo em aplicações em escala, o que envolve desafios industriais, regulatórios e estratégicos. Nesse sentido, embora a atuação de instituições de defesa contribua para a estruturação de capacidades iniciais, sua efetividade está condicionada à articulação com políticas mais amplas de desenvolvimento tecnológico.

Assim, o cenário geopolítico contemporâneo sugere que a construção de autonomia tecnológica em tecnologias quânticas não é um processo linear, mas depende de múltiplos fatores institucionais e estruturais. A capacidade de coordenar esses elementos será determinante para definir o posicionamento do Brasil na emergente ordem tecnológica do século XXI.

 

6. Conclusão: instituições de defesa e autonomia tecnológica no contexto das tecnologias quânticas

A análise desenvolvida ao longo do artigo indica que a emergência das tecnologias quânticas coloca novos desafios para a construção da autonomia tecnológica dos Estados, especialmente em países em desenvolvimento. Nesse contexto, a capacidade de articular conhecimento científico, coordenação institucional e aplicação estratégica torna-se elemento central para a consolidação de capacidades nacionais em áreas críticas.

À luz do referencial de instituições inclusivas, argumentou-se que as organizações de defesa podem desempenhar funções relevantes na indução de ecossistemas de inovação, particularmente em cenários marcados por lacunas estruturais no sistema nacional de ciência e tecnologia. No caso brasileiro, o Exército tem contribuído historicamente para a formação de recursos humanos, para a articulação de redes de pesquisa e para a aproximação entre demandas estratégicas e produção científica, configurando um papel relevante na construção de capacidades tecnológicas de uso dual.

Entretanto, a análise também sugere que essa atuação, embora significativa, não é suficiente, por si só, para assegurar a autonomia tecnológica em tecnologias emergentes. Sua efetividade depende de fatores mais amplos, como a continuidade de políticas públicas, a integração entre diferentes instituições e a capacidade de transformar conhecimento em aplicações em escala.

Dessa forma, o papel das instituições de defesa deve ser compreendido como parte de um arranjo mais amplo de governança tecnológica. A consolidação de uma posição mais relevante no cenário internacional dependerá da capacidade do país de coordenar esses diferentes elementos de forma sustentada, reduzindo vulnerabilidades e ampliando suas possibilidades de inserção na nova dinâmica de poder associada às tecnologias quânticas.

 

Referências bibliográficas

 

ACEMOGLU, Daron; JOHNSON, Simon; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

 

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Institutions, institutional change and economic performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.



[1] Daron Acemoglu, Simon Johnson e James A. Robinson são economistas e cientistas políticos cujas pesquisas se concentram na relação entre instituições, desenvolvimento econômico e distribuição de poder. Sua principal contribuição teórica está na distinção entre instituições inclusivas e extrativistas, amplamente difundida na obra Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty (ACEMOGLU; JOHNSON; ROBINSON, 2012), considerada referência seminal no campo da economia política institucional.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 19 de maio de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Instituições inclusivas, defesa e autonomia tecnológica: o papel do Exército Brasileiro no contexto das tecnologias quânticas. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/instituicoes-inclusivas-defesa-e-autonomia-tecnologica-o-papel-do-exercito-brasileiro-no-contexto-das-tecnologias-quanticas.