Inteligência Artificial e Defesa Nacional: reflexões sobre o Seminário no IME

 

Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon
 Coronel Veterano do Exército Brasileiro. Doutor em Ciências Militares (ECEME). Doutor em Administração (EBAPE/FGV).
Serve no Comando Militar do Sudeste, onde é o coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/CMSE).
Docente do Programa de Pós-graduação em Ciências Militares (ECEME).
Realiza estágio de Pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Engenharia Nuclear (IME).


1. Introdução

A parceria entre a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e o Instituto Militar de Engenharia (IME) representa uma das mais importantes iniciativas estratégicas do Exército Brasileiro para fortalecer a soberania nacional por meio da inovação.

Ao alinhar as dimensões operacionais e científicas do ensino militar, essa colaboração busca formar líderes e desenvolver soluções tecnológicas capazes de enfrentar desafios contemporâneos. Inspirada pelas visões estratégicas do General de Exército Richard Fernandez Nunes - Chefe do Estado-Maior do Exército; do General de Exército Achilles Furlan Neto - Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia; do General de Divisão Juraci Ferreira Galdino - Comandante do Instituto Militar de Engenharia; e do General de Brigada Mario Eduardo Moura Sassone - Comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, essa aliança reafirma a importância de unir conhecimentos bélicos e tecnológicos no contexto da defesa.

A integração entre essas instituições tem gerado avanços significativos, incluindo a organização de eventos científicos de alto impacto, como o Seminário "Inteligência Artificial na Expressão Militar do Poder Nacional". Esse evento consolidou o papel do IME como um catalisador de debates estratégicos e inovação em defesa, ao mesmo tempo em que reforçou a conexão entre a academia, as forças armadas e o setor privado. No tocante à dimensão operacional, a participação do Estado-Maior do Exército contribuiu para o incremento do diálogo entre inovação tecnológica e questões de soberania e segurança nacional.

Realizado em dois dias intensivos de debates e reflexões, o seminário abordou tópicos fundamentais como ética, segurança cibernética e soberania tecnológica. A programação foi estruturada em apresentações de especialistas de renome e mesas de debate que exploraram as aplicações práticas da inteligência artificial (IA) na defesa nacional. Esses encontros trouxeram insights valiosos, destacando os caminhos possíveis para o Brasil consolidar sua posição como um líder regional na aplicação de IA em operações militares e estratégias de segurança.

2. Desenvolvimento

O primeiro dia do seminário foi marcado por apresentações e debates que estabeleceram a base estratégica para o uso de IA na defesa. A abertura ficou a cargo do General de Divisão Juraci Ferreira Galdino - Comandante do IME, que destacou o papel da instituição como referência em ensino e pesquisa tecnológica no Brasil. Ele enfatizou a necessidade de parcerias entre academia, governo e setor privado para superar desafios e fortalecer a soberania nacional, conectando inovação e segurança de forma integrada.

Guilherme de Paula Corrêa, representante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apresentou o Plano Nacional de IA, detalhando estratégias para transversalizar a tecnologia em setores como saúde, defesa e segurança. Ele ressaltou a importância de investimentos em infraestrutura, como supercomputadores, e defendeu que políticas públicas consistentes são cruciais para transformar o plano em um projeto de Estado, garantindo continuidade e sustentabilidade.

O General de Exército Richard Fernandez Nunes - Chefe do Estado-Maior do Exército, expôs a visão do Exército Brasileiro sobre a integração da IA em suas operações, destacando sua aplicação em simulações de combate, treinamentos avançados e segurança cibernética. Ele enfatizou a necessidade de supervisão humana nos sistemas autônomos e apresentou a criação de comitês de governança para alinhar a inovação com os valores éticos das forças armadas, garantindo decisões responsáveis.

As mesas de debate complementaram as palestras com discussões sobre inovação e capacitação. A primeira, dedicada à tríplice hélice de inovação, reuniu especialistas para explorar como a academia, o governo e o setor privado podem transformar pesquisas em soluções práticas para a defesa. Foram apresentados exemplos de projetos colaborativos bem-sucedidos e discutidos desafios como a burocracia e a falta de alinhamento estratégico.

A segunda mesa abordou a reformulação de currículos educacionais para incorporar tópicos de IA em treinamentos militares e civis. Os participantes enfatizaram a importância de capacitar lideranças para ambientes tecnologicamente complexos e discutiram o papel das simulações em IA como ferramentas fundamentais para treinamento e preparo estratégico.

No segundo dia, o foco esteve em aplicações práticas e questões éticas associadas ao uso da IA na defesa. A professora Telma Woerle, da Universidade Federal de Goiás, trouxe um panorama sobre os avanços em algoritmos adaptativos e IA generativa, abordando tendências tecnológicas e implicações éticas. Ela destacou como a IA pode ser usada para resolver problemas estratégicos e melhorar a eficiência operacional em cenários de alta complexidade.

Fernando Garcia, da Petrobras, apresentou casos práticos de aplicação da IA generativa em processos de governança e conformidade regulatória. Ele demonstrou como a tecnologia pode ser usada para otimizar operações, reduzir custos e melhorar a eficácia organizacional, com implicações significativas para a governança no setor de defesa.

A Mesa 4 tratou da importância da IA para a defesa cibernética, explorando como algoritmos avançados podem antecipar ameaças e proteger infraestruturas críticas. O debate também destacou a necessidade de uma infraestrutura robusta e de maior colaboração entre o governo e o setor privado para lidar com ameaças cibernéticas emergentes.

Na Mesa 5, os participantes abordaram a integração de IA em sistemas de comando, controle, comunicação e inteligência (C3I), enfatizando sua relevância para operações conjuntas. Os debates sublinharam a necessidade de tecnologias interoperáveis e protocolos comuns para assegurar a eficácia operacional em coalizões internacionais e missões conjuntas.

A Mesa 6 encerrou os debates com reflexões sobre ética, chefia e liderança em contextos militarizados. Os participantes discutiram os desafios éticos do uso de IA em decisões críticas e destacaram a importância de capacitar líderes para operar em cenários de alta tecnologia, combinando habilidades técnicas com julgamento ético refinado.

3. Sugestão de Agenda a Ser Desenvolvida

O seminário levantou uma série de tópicos que demandam maior aprofundamento e pesquisa no campo da defesa nacional. Um dos temas centrais foi o desenvolvimento de sistemas interoperáveis de IA, essenciais para operações conjuntas e para a proteção de infraestruturas críticas. Esses sistemas precisam ser projetados com alto grau de resiliência, garantindo que as forças armadas possam operar com eficiência em contextos tecnológicos complexos e de rápida evolução.

Outro ponto de destaque foi a necessidade de regulamentação ética e governança robusta para o uso de IA em sistemas autônomos letais. Debates enfatizaram a importância de equilibrar eficiência tecnológica com supervisão humana significativa, reduzindo riscos de escalada de conflitos e garantindo a adesão aos princípios do direito internacional humanitário. Essas diretrizes devem ser estabelecidas, tanto no âmbito nacional, quanto em cooperações multilaterais.

Além disso, foi enfatizada a importância de fomentar a pesquisa e o desenvolvimento por meio de parcerias público-privadas. A tríplice hélice foi apontada como um modelo eficaz para impulsionar a inovação, e novas políticas de incentivo devem ser estruturadas para atrair investimentos em startups e pequenas empresas voltadas para IA. Programas educacionais e de capacitação contínua, que integrem ciência de dados, cibersegurança e governança de IA, são igualmente essenciais para formar lideranças preparadas para os desafios futuros.

4. Considerações Finais

O Seminário "Inteligência Artificial na Expressão Militar do Poder Nacional" reafirmou a relevância estratégica da parceria entre a ECEME e o IME, mostrando como a integração entre ensino bélico e científico-tecnológico pode transformar a capacidade de defesa do Brasil. O evento consolidou o papel do IME como referência em inovação tecnológica, com reflexos para análise estratégica, promovendo discussões de alto nível com impacto direto na formulação de políticas públicas e na aplicação prática da IA.

A continuidade dessa agenda estratégica exige atenção e impulso por parte dos líderes do presente, com reflexos no melhor posicionamento do Brasil para fazer frente aos desafios do futuro. A implementação de tecnologias disruptivas como a IA, deve ser objeto de uma visão integrada de longo prazo, que permita ao Brasil se posicionar como líder no uso responsável da IA em defesa e segurança.

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 28 de novembro 2024.


Como citar este documento:
Migon, Eduardo Xavier Ferreira Glaser. Inteligência Artificial e Defesa Nacional: reflexões sobre o Seminário no IME. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2024.  

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