A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano

Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área.

O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica.

 

Marcelo Nogueira de Sousa
Coronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg

 

1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados?

 

Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR.

Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã.

 

2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica?

 

Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas.

Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la.

 

3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico?

 

Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança.

Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local.

 

4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa?

 

Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional.

Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local.

 

5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)?

 

Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035.

- Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025.

- Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%.

- Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis.

- Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M).

- Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais.

- Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus  e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle.

Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório.

 

6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos  e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor?

 

Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence .

O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente.

 

Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo.

 

7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa?

 

Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade:

- Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA.

- Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando.

- França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica.

- Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa  e a modernização do Taurus  são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente.

- Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas.

- Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS).

Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente.

 

 

  

Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026.


 

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