Organizado por Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon
Pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Engenharia Nuclear (IME).
Apresentação
A era digital redefiniu os contornos da soberania nacional, elevando a inteligência artificial (IA), as tecnologias quânticas e a cibersegurança a pilares inegociáveis da defesa e do desenvolvimento. Em novembro de 2024, o Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV) iniciou um debate crucial ao relatar o seminário do Instituto Militar de Engenharia (IME), que inaugurou, em âmbito nacional, nas Forças Armadas, a discussão sobre a convergência entre IA e Defesa. Dando continuidade a essa reflexão estratégica, o presente trabalho aprofunda a análise, agora sob a ótica do V Encontro da Rede Nordeste de Estudos Estratégicos e Inovação (ERENEEI), realizado pelo Comando Militar do Nordeste (CMNE), em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
O V ERENEEI não apenas regionalizou o debate, mas também sinalizou uma transição fundamental: da visão estratégica para a capacidade de execução. Em um cenário global marcado por uma intensa corrida tecnológica e por ameaças híbridas cada vez mais sofisticadas – que vão desde ataques cibernéticos a infraestruturas críticas até campanhas de desinformação em larga escala –, a capacidade de um Estado de controlar seus dados, infraestrutura e fluxos algorítmicos sem coerção externa tornou-se um imperativo. O Brasil, com suas dimensões continentais e sua crescente inserção no cenário internacional, precisa consolidar sua autonomia tecnológica para salvaguardar seus interesses e sua soberania.
Esta análise crítica do V ERENEEI, que integra as primeiras entregas do projeto de pesquisa ‘Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas na Doutrina Militar Terrestre: Desafios Conceituais Associados ao Preparo e Emprego do Exército do Futuro’, financiado pelo Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), busca ir além do relato. Examinar detalhadamente as palestras, os debates e as propostas apresentadas, com o objetivo de identificar os avanços alcançados, as lacunas persistentes e os desafios que ainda precisam ser superados para que o Brasil possa, de fato, converter o conhecimento científico em soluções operacionais de alto impacto.
1 O V ERENEEI no panorama da soberania digital brasileira
Realizado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o V ERENEEI congregou oficiais-generais, oficiais, pesquisadores de dezoito Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), executivos de startups dual-use e representantes de várias agências federais de fomento.
Desde sua abertura, ficou explícita a ambição de transformar o Nordeste em um “laboratório vivo” para o desenvolvimento e teste de soluções em IA, computação quântica e cibersegurança. Essa vocação é reforçada pela estratégica malha de cabos submarinos da região e por um ecossistema universitário em franca expansão, que, juntos, criam um ambiente propício para a inovação.
O maior diferencial do evento, contudo, foi a integração efetiva de atores da quádrupla hélice: Estado, Academia, Indústria e Sociedade Civil. Representantes desses quatro pilares não apenas dividiram todas as mesas de debate, mas também trocaram métricas e firmaram compromissos concretos. Tal articulação consolida a lógica da “tetra hélice”, um modelo indispensável para converter o conhecimento científico em capacidade operacional robusta no domínio cibernético. O avanço vertiginoso da IA, hoje capaz de gerar deepfakes convincentes, potencializar malwares polimórficos e automatizar ataques a infraestruturas críticas, torna a soberania digital um requisito inegociável para qualquer estratégia de Defesa Nacional. Nesse contexto, o alinhamento demonstrado entre o Exército Brasileiro (especificamente o CMNE), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Finep, a Embrapii e a RNP sinaliza que o País está, de fato, estruturando os instrumentos doutrinários, orçamentários e produtivos necessários para a proteção eficaz do ciberespaço.
2 Sessões científicas e debates estratégicos: uma análise aprofundada
As vinte conferências apresentadas no V ERENEEI ofereceram um panorama abrangente e multifacetado sobre os desafios e oportunidades da soberania digital. A seguir, apresentamos uma síntese narrativa e analítica, agrupando as discussões em blocos temáticos para maior clareza e profundidade.
2.1 Fundamentos e Estratégias para a Defesa Cibernética e Tecnológica
General de Exército Ribeiro (Comando Militar do Nordeste) – “Objetivo Nacional de Defesa, Setores Estratégicos e Defesa Cibernética”
O General Ribeiro iniciou sua exposição contextualizando a Política e a Estratégia Nacionais de Defesa, reiterando que o ciberespaço, desde o Decreto 6.703/2008, figura como um pilar irrenunciável da soberania brasileira, ao lado dos domínios nuclear e espacial. Ele mapeou as vulnerabilidades do Brasil, que vão desde a sabotagem de cabos submarinos e a proliferação de dispositivos IoT mal configurados no agronegócio, até a desinformação em larga escala. Sua defesa central foi a migração de uma postura meramente reativa para uma dissuasão ativa, sustentada por algoritmos de IA proprietários e pela ampliação da tríplice hélice (Forças Armadas, universidades e indústria) para reduzir dependências tecnológicas. O General enfatizou que o CMNE oferece um terreno ideal para exercícios regionais de resposta a incidentes, mas alertou que, sem um orçamento plurianual e uma cultura de reporte de incidentes compatível com padrões da OTAN, a dissuasão permanecerá no campo da retórica. Propôs, então, a criação de um Centro Experimental de Ciberresiliência no Nordeste, que integraria chips soberanos e laboratórios de IA adversária, um passo crucial para mitigar a dependência de software estrangeiro e garantir acesso a hardware seguro. A dependência de semicondutores importados, que representa um “risco existencial”, exige o fomento a uma design house nacional e à litografia sub-10 nm, com o Nordeste podendo abrigar data centers soberanos alimentados por energia limpa para IA de defesa e administração pública.
Hamilton J. Mendes (MCTI/SETAD) – “Plano IA para o Bem de Todos & IBQuantum”
Representando o MCTI, Hamilton Mendes detalhou os ambiciosos investimentos federais em IA e tecnologias quânticas. O “Plano IA para o Bem de Todos 2024-2028” prevê R$ 6,9 bilhões para 31 metas, incluindo a implantação de um supercomputador petaescala movido a energia solar no Nordeste, clusters GPU em 18 institutos federais e a digitalização de acervos acadêmicos para treinamento de Large Language Models (LLMs). Destacou a criação de dez “Casas da Inteligência Artificial” em capitais nordestinas, com o objetivo de formar 20 mil desenvolvedores por ano, focando em cibersegurança, agroclima e medicina tropical. Na vertente quântica, a proposta “IBQuantum” é um programa decenal de R$ 5 bilhões, focado em sensores gravitacionais para defesa, distribuição quântica de chaves (QKD) em cabos costeiros e um protótipo nacional de computador quântico supercondutor de 100 qubits. Mendes reconheceu a lacuna em hardware, com apenas 12% das startups aceleradas tendo acesso a GPUs de ponta, o que levou o MCTI a negociar transferência de tecnologia com fabricantes asiáticos. A leitura crítica de sua apresentação indica um avanço federal robusto, especialmente ao atrelar a política industrial verde à autonomia digital. Contudo, a ausência de uma meta vinculante de compras governamentais, para criar um mercado inicial para esses hardwares ainda é um desafio. A urgência em formar projetistas de circuitos quânticos e a importância da diplomacia científica, com negociações para um Quantum Testbed em Salvador-BA e acordos de compartilhamento de patentes no BRICS-Tech, foram pontos cruciais de sua fala.
General de Brigada Luís Carlos (Comando de Defesa Cibernética) – “Fortalecimento da Soberania Digital por meio de IA e Ciberdefesa”
O General Luís Carlos apresentou uma das exposições mais abrangentes, definindo soberania digital como “o direito e a capacidade de um Estado controlar seus dados, infraestrutura e fluxos algorítmicos sem coerção externa”. Ele mapeou um panorama de ameaças emergentes, como deepfakes eleitorais, ransomware segmentado para utilities e exploração de zero-days em sistemas ferroviários. Ao comparar os investimentos em IA para defesa de potências como EUA (US$ 17 bi em 2025) e China (US$ 16 bi) com o Brasil (R$ 1,2 bi), o general posicionou o País na 30ª colocação do Global AI Index, atribuindo o atraso a gargalos de semicondutores e à fuga de mentes brilhantes. Apresentou o organograma reformulado do ComDCiber, incluindo o Centro de Guerra Eletrônica, a Escola Nacional de Defesa Cibernética (ENaDCiber) e um novo Laboratório de Avaliação de IA Adversária. Relatou o desempenho brasileiro em exercícios internacionais, como o 4º lugar no Cyber Flag 2025 (EUA) e a melhor pontuação em defesa de SCADA no Locked Shields 2025 (OTAN), justificando a ambição de sediar, em 2027, o primeiro grande exercício de ciberdefesa latino-americano integrado às simulações de IA generativa. O general ainda sustentou que a IA eleva a ciberdefesa a um patamar de velocidade inalcançável ao fator humano, com modelos de deep reinforcement learning prevendo ataques com horas de antecedência. Contudo, alertou para a face adversária da IA, capaz de gerar malware polimórfico em minutos. Defendeu um programa de chips soberanos (FPGA, design house de RISC-V para criptografia pós-quântica) e a transformação da ENaDCiber em Escola Superior de Soberania Digital. No plano normativo, indicou a necessidade de regulamentar o PL 2338/23 (Marco Legal de IA) sob a perspectiva de defesa, sugerindo um “Código de Conduta Algorítmica” para algoritmos de Defesa. Sua fala reforçou que “soberania digital não é atributo declaratório, mas ativo que se conquista diariamente”, conclamando indústria, academia e governo a acelerar a construção de um ecossistema endógeno de IA confiável.
Prof. Edmar Gurjão (Universidade Federal de Campina Grande) – “Panorama das Pesquisas Cibernéticas no Brasil”
O Professor Edmar Gurjão da UFCG e coordenador do Observatório de Cibersegurança, apresentou um diagnóstico inédito do ecossistema nacional de pesquisa, desenvolvimento e inovação em cibersegurança. Seu levantamento revelou 106 grupos de pesquisa cadastrados no CNPq que mencionam “cibersegurança”, mas apenas 49 mantiveram publicações ou projetos ativos nos últimos três anos. A densidade regional é desigual, com o Sudeste respondendo por 57% das iniciativas e o Nordeste por 18%. As bases de dados do INPI indicam 71 patentes relacionadas à segurança cibernética deferidas em 2023, mas menos de 5% referem-se a software embarcado para defesa. Gurjão destacou a ausência de um organismo nacional para articular prioridades de pesquisa, sugerindo a criação de uma “Agência Brasileira de Cibersegurança Aplicada” subordinada ao Ministério da Defesa e ao MCTI, argumentando que a dispersão de esforços reduz a competitividade. Analisou o marco regulatório (PNSI, E-Ciber, ANPD, Comitê Nacional de Cibersegurança), considerando-o sólido, mas apontou a falta de indicadores de desempenho claros e orçamento dedicado. Mapeou iniciativas industriais como o Febraban CyberLab e o Hub de Segurança Digital do Porto Digital, avaliando que a integração desses pólos ao ComDCiber poderia acelerar tecnologias TRL 7-9. Entre os temas emergentes, destacou criptografia pós-quântica e segurança em sistemas autônomos, sublinhando a urgência de proteger cabos submarinos, por onde passa 97% do tráfego internacional de dados do Brasil. Concluiu propondo a criação de um Cybersec Map interativo, que integraria metadados de laboratórios, linhas de pesquisa, patentes e necessidades da indústria, permitindo políticas de fomento baseadas em evidências e a atração de talentos para o Nordeste.
2.2 Aplicações e Inovação: O Impacto da Tecnologia em Diversos Setores
General de Divisão Engenheiro Militar Juraci Galdino (Instituto Militar de Engenharia) – “Geopolítica e Planejamento Estratégico em CT&I: Perspectivas do IME”
O General Galdino examinou como os controles internacionais sobre semicondutores, IA e comunicações quânticas impõem ao Brasil um planejamento de longo prazo. Apresentou a matriz “criticidade-maturidade” para priorizar P&D e descreveu programas-âncora como radares AESA e a viatura blindada Guarani autônomo, demonstrando um multiplicador econômico de 3:1 para investimentos em defesa. Sua perspectiva é de mission-oriented research, em que cada linha de pesquisa possui um TRL (Technology Readiness Level), meta econômica e plano de certificação. O ponto crítico, contudo, permanece a ausência de um fundo soberano que blinde o ciclo de inovação contra contingenciamentos orçamentários, garantindo a continuidade de projetos estratégicos.
Prof. Gilberto Sousa Filho (Universidade Federal da Paraíba) – “Inteligência Artificial como Ferramenta das Ciências Forenses”
O Professor Sousa Filho traçou a evolução da IA forense, apresentando um sistema de detecção de deepfakes de voz com 96% de precisão e um algoritmo de análise de licitações que reduz diligências em 40%. Ele também abordou a correção automática de redações do ENEM via transformers. Contudo, alertou para os desafios de explicabilidade e viés da IA, enfatizando que, sem trilhas de auditoria robustas, decisões judiciais baseadas em IA podem ser contestadas. Propôs a criação de laboratórios de data forensics integrados a órgãos de segurança, uma medida alinhada às boas práticas da OCDE, e antecipou o uso de IA generativa para a reconstrução de cenas criminais, o que demonstra o potencial transformador da IA nesse campo.
Prof. Andrey Brito (Universidade Federal de Campina Grande) – “Computação Confidencial: Blindagem de Dados em Ambientes de Nuvem”
O Professor Andrey Brito discorreu sobre Trusted Execution Environments (TEEs), como SGX, SEV-SNP e TDX, e sua capacidade de criptografar a memória, permitindo a atestação remota e a redução do chamado “fator administrador”. Ele mostrou casos de uso em treinamento federado de IA na saúde, inferência sigilosa para modelos proprietários e outsourcing seguro de dados críticos. Apontou uma sobrecarga de 5-15% e lacunas de padronização, propondo um selo nacional de conformidade e defendendo que setores regulados exijam computação confidencial como pré-requisito contratual, o que sublinha a importância da segurança e privacidade dos dados em ambientes de nuvem.
Wânderson Pio (DHF) – “Plataforma DHF: Análise Preditiva na Saúde”
Wânderson Pio apresentou a plataforma DHF, uma solução inovadora que integra chatbot, dashboards preditivos e roteirização inteligente para reduzir o absenteísmo em consultas do SUS. Um piloto municipal demonstrou uma queda de 20% nas faltas a agendamentos de consultas e uma economia anual de R$ 1,2 milhão. O roadmap da plataforma inclui teledermatologia e integração com prontuários eletrônicos, com um modelo de negócio SaaS (Software as a Service) baseado em assinatura per capita, visando um retorno em cinco meses por economia logística. Este exemplo ilustra o potencial da IA para otimizar serviços públicos e gerar impacto social e econômico direto.
Alisson Daniel (Arandu Lab) – “Arandu Lab: Aprendizagem 5.0 com IA Interativa”
Alisson Daniel detalhou o Arandu Lab, uma plataforma educacional que oferece 20 mil atividades alinhadas à BNCC, gamebooks, vídeos acessíveis e um motor de recomendação adaptativo. Escolas-piloto que utilizaram a plataforma registraram um aumento de 19% na conclusão de tarefas e uma redução de 11% na evasão. A plataforma também oferece dashboards preditivos, cursos de formação docente e detecção de plágio por IA. O plano é alcançar um milhão de usuários em dois anos, expandindo para a América Latina com um modelo de monetização híbrida, demonstrando como a IA pode revolucionar a educação, tornando-a mais personalizada e eficaz.
Ten Cel Vítor G. Andrezo (Instituto Militar de Engenharia) – “Impacto das Tecnologias Quânticas sobre o Setor Cibernético”
O Tenente-Coronel Vítor G. Andrezo estabeleceu metas ambiciosas para o Brasil no campo das tecnologias quânticas, incluindo um enlace QKD terrestre de 100 km até 2027, um satélite experimental em 2029 e a produção de chips de detecção de fótons únicos. Equilibrando ambição e pragmatismo, Andrezo reconheceu as divergências entre a Agência de Segurança Nacional (NSA) e a QKD, mas sustentou que países com vastos cabos submarinos, como o Brasil, ganham ao combinar QKD e criptografia pós-quântica para proteger suas comunicações. O desafio reside em financiar sensores de fóton único com escala industrial, um passo crucial para a autonomia tecnológica em um domínio tão estratégico.
Profa. Andersan dos Santos Paula (Instituto Militar de Engenharia) – “Manufatura Aditiva em Prol da Defesa Nacional”
A professora Andersan dos Santos Paula mapeou a evolução da impressão 3D metálica, discutiu suas vantagens logísticas para a Defesa e apresentou projetos em desenvolvimento, como blindagens balísticas e peças de grande porte. Ela insistiu na necessidade de produção nacional de pós metálicos especiais, como o titânio pulverizado, e na criação de uma norma brasileira equivalente à ASTM F42. A análise revela um gargalo significativo na produção desses materiais. A cadeia integrada proposta (Forças Armadas + IME + Base Industrial de Defesa e Segurança - BIDS + universidades) só vingará com incentivos à mineração e metrologia avançada, garantindo a matéria-prima e a qualidade necessárias para a manufatura aditiva em larga escala.
Ícaro Emanuel (Universidade Federal da Paraíba) – “Saúde Positiva: IA para Acompanhamento Contínuo em Saúde Mental”
Ícaro Emanuel apresentou a plataforma “Saúde Positiva”, que combina um chatbot empático, gamificação e teleconsulta para combater o abandono terapêutico em saúde mental. O acompanhamento de 2.300 pacientes resultou em um aumento de 76% na adesão ao tratamento e uma sensibilidade de predição de crise suicida de 0,89. O modelo de negócio B2B2C (Business-to-Business-to-Consumer), contratado por secretarias, prevê integração futura com wearables e foco na prevenção de burnout corporativo, projetando um faturamento de R$ 2 milhões no segundo ano. Este projeto demonstra o potencial da IA para impactar positivamente a saúde pública, especialmente em áreas sensíveis como a saúde mental.
Gutemberg Ramos – “RX Gestão Inteligente: Compliance Fiscal Automatizado”
Gutemberg Ramos detalhou o software em nuvem “RX Gestão Inteligente”, que automatiza o EFD-Reinf (Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais) em 230 unidades públicas. A solução resultou em uma redução de 68% nas pendências e evitou R$ 2,3 milhões em multas. O software opera em AWS GovCloud, possui trilha de auditoria imutável e prevê um módulo antifraude para notas de serviço. A proposta é que a adoção estadual transforme o sistema no primeiro ecossistema fiscal digital descentralizado do país, um exemplo claro de como a tecnologia pode otimizar processos burocráticos e gerar economia para o setor público.
Cláudio Furtado (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino superior da Paraíba) – “Programa Paraibano de Pesquisa Aplicada em Cibersegurança”
Cláudio Furtado anunciou um edital de R$ 1 milhão de reais para dois projetos-âncora em cibersegurança, que devem reunir ICTs (Instituições de Ciência e Tecnologia), empresas da Base Industrial de Defesa e órgãos públicos usuários. O programa prevê a criação de um consórcio estadual de ciberinteligência, a redução do tempo de detecção de incidentes e o surgimento de spin-offs exportadoras de serviços. Também estão previstos bolsas de pós-graduação e cursos de extensão para servidores, demonstrando um esforço coordenado para fortalecer a capacidade local em cibersegurança.
Ronaldo Carmona (Financiadora de Estudos e Projetos) – “Fomento Finep à Defesa e o Nordeste como Plataforma Geopolítica”
Ronaldo Carmona exibiu a expansão do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a linha “Autonomia Tecnológica em Defesa”, com um aporte de R$ 280 milhões. Ele destacou contratos para radar multimissão, motor hipersônico e satélite submétrico, projetos de alto valor estratégico. Carmona propôs a criação de um corredor tecnológico Fortaleza-Recife-Salvador para semicondutores, sistemas quânticos e IA embarcada, convocando consórcios nordestinos a apresentar projetos alinhados a essas prioridades. Essa visão de um polo tecnológico regional é fundamental para a descentralização e o fortalecimento da base industrial de defesa.
Cláudio Schefer (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) – “Modelo Embrapii de Cofinanciamento Ágil para Defesa”
Cláudio Schefer detalhou o modelo Embrapii, que permite que empresas negociem projetos com unidades Embrapii em 90 dias, com contrapartida pública de até 50% (70% para Micro e Pequenas Empresas - MPEs). Ele ressaltou que 25 unidades nordestinas estão aptas a atender o ComDCiber e propôs um acordo com o CMNE para testes de protótipos em batalhões locais, visando acelerar o TRL (Technology Readiness Level) de 3 a 7 em três anos. Este modelo de cofinanciamento ágil é crucial para a translação de pesquisa básica para aplicações práticas em defesa.
Emilio Nakamura (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) – “RNP: Testbeds e Grupos de Trabalho em Segurança Digital”
Emilio Nakamura detalhou os Grupos de Trabalho anuais da RNP em malware, IoT, blockchain e IA adversária, além do projeto ILIADA em identidade descentralizada, o Hub Nacional de Cibersegurança e o programa Hackers do Bem. Ele ofereceu infraestrutura SDN (Software-Defined Networking), clusters Kubernetes e integração à rede óptica de 16.000 km para exercícios militares e pesquisas em criptografia pós-quântica. A infraestrutura da RNP é um ativo valioso para o desenvolvimento e teste de soluções de cibersegurança no Brasil.
Thayane Belchior (TrêsBê Delas) – “TrêsBê Delas: Aceleradora de Empreendedorismo Feminino Digital”
Thayane Belchior apresentou o programa “TrêsBê Delas”, uma aceleradora que capacita microempreendedoras em marketing, finanças e e-commerce, hospedando lojas virtuais e um gateway de pagamentos inclusivo. Das 500 aceleradas, 90% permanecem ativas, duplicando a receita média em 18 meses e aumentando a arrecadação municipal de ISS em 18%. O programa planeja expandir para 20 cidades, firmar parceria com microcrédito e integrar-se a carteiras digitais, propondo cotas de compras públicas para cadeias de suprimentos femininas treinadas pela aceleradora. Este projeto, embora não diretamente ligado à defesa, demonstra o potencial do empreendedorismo digital para gerar impacto social e econômico, fortalecendo a base tecnológica do país de forma inclusiva.
3 Síntese: Da Visão Estratégica à Execução e o Futuro da Soberania Digital Brasileira
O balanço entre o seminário do IME (2024) e o V ERENEEI (2025) confirma uma transição fundamental na abordagem brasileira sobre soberania digital: da visão estratégica para a capacidade de execução. Enquanto o encontro no IME consolidou o enquadramento conceitual de IA, quântica e cibersegurança, o evento em João Pessoa demonstrou um avanço significativo ao apresentar linhas de financiamento operacionais, testbeds funcionais e startups com contratos em vigor. Essa regionalização do debate, aliada à incorporação de métricas socioeconômicas, é um indicativo claro de que o Brasil está amadurecendo sua estratégia de inovação dual-use.
A articulação de formulação doutrinária, políticas de fomento e aplicações de mercado, evidenciada no V ERENEEI, fornece ao País um protocolo replicável de inovação. A soberania digital brasileira, portanto, não é um conceito abstrato, mas um ativo que se constrói diariamente, dependendo diretamente da capacidade de converter o conhecimento científico em soluções operacionais que fortaleçam o poder terrestre e gerem externalidades positivas para a sociedade. A integração da quádrupla hélice – Estado, Academia, Indústria e Sociedade Civil – revelou-se um modelo promissor para acelerar os TRLs (Technology Readiness Levels) e aumentar a resiliência nacional.
Entretanto, o desafio da coordenação interinstitucional permanece. Para que a tetra hélice atinja seu potencial máximo, é imperativo estabelecer uma governança robusta que assegure um fluxo anticíclico de recursos, padrões de interoperabilidade claros e indicadores de desempenho compartilhados. A ausência de um fundo soberano que blinde o ciclo de inovação contra contingenciamentos orçamentários ainda é um ponto crítico a ser superado.
Finalmente, as propostas de um corredor tecnológico Fortaleza-Recife-Salvador para semicondutores e data centers soberanos, alimentados por energia renovável, sugerem que o Nordeste pode converter-se em uma plataforma geopolítica estratégica para o Brasil. Concretizar essa visão exigirá metas ambiciosas de conteúdo local, políticas de compras públicas tecnológicas que estimulem a indústria nacional e um ecossistema regulatório que favoreça a rápida transição de protótipos para o campo de operações. O V ERENEEI não foi apenas um evento, mas um marco que reforça a urgência e a viabilidade de o Brasil consolidar sua autonomia tecnológica, garantindo sua segurança e prosperidade em um cenário global cada vez mais complexo e interconectado.
Rio de Janeiro - RJ, 09 de julho 2025.