Autor: Mark Zachary Taylor
Resenhado por Carlos Wellington Leite de Almeida
Pós-Doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (IMM-ECEME).
Doutor em Administração (UDE-Uruguai), Doutor em Estudos Marítimos (EGN) e Mestre em Ciência Política (UnB).
Auditor Federal do Tribunal de Contas da União (TCU).
O presente texto constitui um convite à leitura do livro “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor[1]. Publicado, originalmente, pela Oxford University Press, “The Politics of Innovation” recebeu tradução de Adeliz de Siqueira Ferreira e foi editado em português pela Biblioteca do Exército Editora (Bibliex), em 2023. Desde então, passou a ser ofertada ao público brasileiro a ideia do autor acerca dos motivos pelos quais alguns países se destacam em suas políticas de inovação tecnológica, assumindo a liderança de complexos processos globais de gestão do conhecimento, enquanto outros permanecem à margem desse poderoso movimento.
“Políticas de inovação” é leitura indicada para todos aqueles que se dedicam ao estudo das políticas públicas voltadas à ciência, à tecnologia e à inovação (CT&I). A obra destaca a conexão entre os incentivos à inovação, os modelos econômicos, as estratégias de desenvolvimento e as políticas de segurança e defesa. Para pesquisadores das áreas de economia, ciência política e defesa, a recomendação de leitura se transforma quase em uma convocação.
O argumento central defendido por Mark Zachary Taylor é que o êxito de determinados países em inovação tecnológica está relacionado ao conceito de “insegurança criativa”. Segundo o autor, esse fator é o verdadeiro motor dos altos índices de inovação nacional observados em nações que lideram os processos globais de desenvolvimento em CT&I, definindo “insegurança criativa” como:
“A condição de sentir mais as ameaças advindas de perigos externos do que a que é propiciada por rivais domésticos [...] diferença positiva entre as ameaças advindas da competição econômica ou militar originada no exterior em comparação aos perigos fomentados pelas rivalidades político-econômicas internas” (Taylor, 2023, p. 37).
A teoria da “insegurança criativa” descreve a interação entre duas forças opostas — rivalidades internas e ameaças externas — ambas pautadas pela competição e determinantes para os índices de inovação nacional. Entretanto, enquanto os conflitos domésticos alimentam a resistência política à inovação, os riscos externos tendem a ampliar o apoio às políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Nesse contexto, a inovação seria vista pelas partes domésticas em conflito como a principal forma de defesa contra ameaças econômicas vindas do exterior, bem como contra ameaças militares externas (Taylor, 2023, p. 370-373).
A “insegurança criativa” é apresentada como o núcleo oculto da chamada “caixa-preta” da inovação, funcionando como o elemento invisível a distinguir os países que alcançam êxito daqueles que não obtêm resultados expressivos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Isso porque, mesmo quando um país dispõe de instituições sólidas, economias competitivas e recursos financeiros para sustentar políticas científicas de grande escala, pode não avançar significativamente na inovação se carecer desse motor essencial. A “caixa-preta” que conecta insumos — como investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e universidades — aos resultados, exemplificados pelo crescimento econômico e pela produtividade, seria, justamente, a “insegurança criativa” (Figura 1).
Figura 1 - A caixa-preta da inovação

Fonte: Taylor, 2023, p. 71
Nos estudos relacionados à defesa, destaca-se a ligação entre inovação tecnológica, avanço científico e políticas de segurança e defesa. Para Taylor, as estratégias de segurança nacional atuam como parceiras fundamentais da ciência e da tecnologia, na busca por inovação. O impacto das políticas de segurança e defesa seria ampliar a capacidade de um país em garantir sua própria proteção, por meio de investimentos intensivos em CT&I. Embora reconheça que a tecnologia, por si só, não assegura a supremacia militar, o autor argumenta que o desenvolvimento de tecnologias avançadas, ainda que não garanta a vitória em um conflito, aumenta significativamente as chances de êxito (Taylor, 2023, p. 376-377).
“Políticas de Inovação” oferece uma análise realista sobre o que está por trás dos grandes resultados nacionais em inovação tecnológica. A “teoria da insegurança criativa” não nega a relevância de modelos econômicos adequados, de políticas públicas eficazes ou da construção de instituições sólidas para o avanço em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Contudo, o autor enfatiza que o diferencial decisivo está na experiência da “insegurança criativa” vivida pelos países que alcançam os maiores índices de inovação. Nesse sentido, sua visão se aproxima de outros estudiosos que defendem a competição como elemento essencial para o progresso científico e tecnológico das nações (Porter, 1998; Chesbrough, 2006; Christensen, 2011).
A ênfase nas ameaças econômicas e militares evidencia o tipo de competição que sustenta a “insegurança criativa” e a teoria que a acompanha. Trata-se de riscos de caráter internacional, que se diferenciam das disputas internas vivenciadas dentro dos países. Nesse contexto, ao afirmar que a “insegurança criativa” contribui para reduzir ou neutralizar os conflitos domésticos e, assim, favorecer a inovação, o livro transmite a ideia de que superar rivalidades internas é condição indispensável para o avanço científico e tecnológico. Essa perspectiva se aproxima de autores que defendem a pacificação nacional como requisito essencial para o desenvolvimento econômico e social de uma nação (Chatterjee; Gassier; Myint, 2023; Miranda, 2025).
A relação entre políticas de segurança e defesa e a inovação tecnológica possui especial relevância para pesquisadores de áreas como ciência política, relações internacionais e estudos de defesa. “Políticas de Inovação” ressalta de maneira clara os efeitos positivos decorrentes da pesquisa e do desenvolvimento voltados à defesa, que beneficiam diversos setores da economia, em especial o industrial. Essa perspectiva se insere na corrente de pensamento que considera os investimentos em defesa como uma política pública altamente favorável à CT&I, já que as novas tecnologias podem ser transferidas do setor de defesa para outros segmentos e vice-versa, em um processo de troca bilateral de informações que impulsiona o progresso nacional. Essa associação está em consonância com estudos amplos que relacionam diretamente as políticas de segurança e defesa ao avanço tecnológico (Kaldor, 2001; Krause, 2009; Bitzinger, 2022).
No que se refere ao Brasil, as considerações acerca dessa associação entre políticas de defesa e políticas de inovação se mostram extremamente relevantes e muito atuais. Os esforços pelo desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID), em especial, têm sido muitas vezes frustrados pelo entendimento insuficiente (ou inexistente) de que os investimentos na área de defesa têm um grande potencial de transbordamento de conhecimentos e tecnologias para outros setores da atividade econômica nacional, sobretudo os setores industriais. Esse (des)entendimento da relação entre defesa, ciência, tecnologia e inovação pode trazer prejuízos irremediáveis ao Brasil ao consolidar uma tendência de dependência tecnológica do exterior, bem como à cristalização da falta de soberania tecnológica, assim comprometendo boa parte da expectativa brasileira de se posicionar entre os países tecnologicamente mais inovadores.
Ao adotar como argumento central a ideia de que os países mais bens sucedidos em CT&I tiveram na “insegurança criativa” o verdadeiro impulso para seus elevados índices de inovação, o autor alerta, na verdade, para a incapacidade perceptiva de muitos policy-makers. Isso porque, como se destaca em diversas passagens da obra, as ameaças geradoras estão por todo lado, seja nas questões ambientais, seja na área da saúde, por exemplo. O fato de a obra destacar as ameaças de natureza econômica e militar não reduz a análise realizada a esses dois tipos de ameaça. A verdade é que países que se sentiram ameaçados dos pontos de vista econômico e militar dispararam na busca de soluções tecnológicas inovadoras para compensar suas desvantagens, de forma a permitir a continuidade de sua atuação no cenário internacional e, em alguns casos, a continuidade de sua própria existência.
Assim, o convite à leitura de “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor se põe ao lado de um apelo por que se queira, realmente, entender a lógica da relação entre defesa e tecnologia. Um apelo a que sejam postos de lado os preconceitos de natureza política, filosófica ou de outra ordem, para que se possa absorver deste importante livro, disponibilizado ao público brasileiro pela Bibliex, a noção de que a “insegurança criativa” faz parte do caminho evolutivo do desenvolvimento tecnológico nacional. A “teoria da insegurança criativa”, nesse sentido, coloca-se como uma nova forma de se raciocinar sobre a inovação tecnológica que pode ser obtida em um contexto de união nacional e superação de disputas políticas, econômicas e sociais danosas ao crescimento científico e tecnológico do Brasil.
Referências bibliográficas
BITZINGER, Richard A. The 4th industrial revolution, military-civil fusion, and the next RMA. Insight, v. 24, n. 3, p. 11-22, Turkey, Summer, 2022. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/48733373. Acesso em: 11 abr. 2026.
CHATTERJEE, Sherya; GASSIER, Marine; MYINT, Nykolas. Leveraging social cohesion for development outcomes. Policy research working paper, n. 10417, World Bank, 2023. Disponível em: https://www.socialcohesion.info/fileadmin/user_upload/Library/PDF/Leveraging_Social_Cohesion_for_Development_Outcomes.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026.
CHESBROUGH, Henry. Open business models: how to thrive in the new innovation landscape. Brighton: Harvard Business Review Press, 2006. 256p.
CHRISTENSEN, Clayton Magleby. O dilema da inovação: quando as novas tecnologias levam empresas ao fracasso. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2011.
KALDOR, Mary Henrietta. New and old wars: organized violence in a global era. Stanford: Stanford University Press, 2001. Reprinted.
KRAUSE, Keith. Arms and the state: patterns of military production and trade. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. ISBN 978-0511521744. DOI: https://doi.org/10.1017/CBO9780511521744.
MIRANDA, Rodrigo Marzano Antunes. Macrofilosofia da coesão e teleologia da paz: sobre o conceito de coesão econômica, territorial e social na União Europeia. Tese de doutorado (Filosofia). Barcelona: Universitat de Barcelona, 2025. Disponível em: https://www.tdx.cat/handle/10803/694152. Acesso em: 11 abr. 2026.
PORTER, Michael Eugene. Competitive strategy: techniques for analyzing industries and competitors. New York: Free Press, 1998.
TAYLOR, Mark Zachary. Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia. Tradução Adeliz de Siqueira Ferreira. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército (Bibliex), 2023. 656p. ISBN 978-65-5757-112-2.
[1] Mark Zachary Taylor é professor do Georgia Institute of Technology, Doutor em Ciência Política pelo Massachussets Institute of Technology, Mestre em Relações Internacionais pela Yale University e graduado em Física pela Berkeley University. Em 2024, recebeu os prêmios Distinguished Teaching Award e Innovation in Co-Curricular Education Award, por sua excelência acadêmica. Foi titular da Seção de Políticas para a Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da APSA.
Rio de Janeiro - RJ, 21 de maio de 2026.