The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces

 

Autor: Edward N. Luttwak e Eitan Shamir

Resenhado por Maj Cav Marcelo Eduardo Deotti Júnior
Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior, mestrando do PPGCM
e pesquisador do Laboratório de Ciências Militares.

 

 

O presente texto constitui um convite à leitura do livro The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces, escrito pelo estrategista Edward N. Luttwak e por Eitan Shamir. A obra foi publicada pela Harvard University Press em 2023, e sua versão em português foi lançada pela BIBLIEX, em 2025. A obra investiga os motivos pelos quais as Forças de Defesa de Israel (IDF), pertencentes a um país historicamente modesto em recursos e demografia, tornaram-se uma das instituições militares mais inovadoras do mundo.

“The Art of Military Innovation” é uma leitura recomendada para militares, pesquisadores de defesa e de gestão do conhecimento, e para formuladores de políticas públicas voltadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O argumento central da obra postula que a estrutura institucional e o assessoramento de baixo para cima, combinados às escassas condições materiais e demográficas, funcionam como os motores da “macroinovação” nas IDF. A necessidade imperativa de lutar em desvantagem numérica induziu à quebra de paradigmas para garantir a sobrevivência e, por meio da cultura da inovação, buscou o desenvolvimento de medidas disruptivas que forçaram seus inimigos a criar contramedidas inéditas, colocando a IDF em vantagem nesse processo.

A obra apresenta diversas inovações das IDF. Trata-se da apresentação de muitas soluções próprias das tropas israelenses para resolver problemas militares complexos, a exemplo de modificações doutrinárias, do desenvolvimento do Carro de Combate Merkava, do Sistema de Defesa Iron Dome, do Sistema de Proteção Ativa Trophy, entre outras. Para apresentá-las, o livro é dividido em dezesseis capítulos que as detalham.

A resenha a seguir levanta os principais exemplos práticos e organizacionais de inovação abordados:

O Capítulo 1 descreve a formação das FDI sob fogo cruzado, destacando sua inovação estrutural primordial: a criação de uma força integrada (sem divisão de comando entre Exército, Marinha e Aeronáutica) estruturada em torno de reservistas e com conscrição feminina. Dessa forma, a integração interforças eliminou a rivalidade e permitiu que as inovações fluíssem sem o boicote de interesses corporativistas, viabilizando o pioneirismo no desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados (VANT). Salienta-se que Azevedo et al. (2021) reforçam essa perspectiva no contexto brasileiro, destacando que a integração em Ciência e Tecnologia (C&T) entre o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não é uma realidade devido à escassez de recursos que leva a uma disputa entre as Forças Singulares.

No Capítulo 2, os autores mostram como a escassez forçou inovações conceituais. Impossibilitada de adquirir uma frota diversificada, a Força Aérea Israelense demandou à fabricante francesa Dassault que transformasse o Mirage IIICJ em uma plataforma capaz de lançar bombas, inventando assim o conceito moderno do caça multitarefa. Naquele período, a prática comum era a utilização de caças e bombardeiros, cada um com sua missão tática. Ao perceber que haveria a possibilidade de integrar essas funções, os israelenses foram os pioneiros a utilizar uma mesma aeronave para missões distintas, reduzindo custos com aquisições e com o ciclo de vida desses produtos de defesa.

Nesse sentido, a Defesa brasileira poderia estimular o desenvolvimento de equipamentos de uso dual e multitarefa, a exemplo da Viatura Blindada Multitarefa 4x4 Guaicurus e da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal 6x6 Guarani, ambas com aplicação para tropas de naturezas distintas e com possibilidade de adaptação para diferentes versões, contribuindo para a redução de custos de aquisição e melhorando a logística de Defesa.

O Capítulo 3 analisa o corpo de oficiais jovens de Israel. O princípio de carreiras curtas achata a hierarquia e aloca responsabilidades a oficiais na casa dos vinte e trinta anos. Jovens comandantes mitigaram o que os autores chamam de “dissonância temporal”, que consiste no apego aos sistemas obsoletos do passado, facilitando a aceitação orgânica de novas tecnologias. Destaca-se que diversos autores que estudam as teorias da inovação, como Adamsky (2010), Lee (2016) e Azevedo et al. (2021), indicam que as gerações mais recentes têm mais propensão à busca de inovações.

A descentralização é o foco do Capítulo 4, que aborda a “inovação vinda de baixo”. A doutrina das ordens por missão incentiva a iniciativa de soldados comuns. Como exemplo, o livro cita o rigoroso programa Talpiot (conhecido como o “comando de cérebros”), no qual jovens recrutas operam, simultaneamente, como combatentes e desenvolvedores de novas tecnologias.

 

Nesse contexto, os planejadores brasileiros também poderiam buscar, na inspiração dos subordinados, a iniciativa para as atualizações doutrinárias e até mesmo de equipamentos, contribuindo para a evolução das Forças Armadas.

 

Salienta-se que o Programa Forças Blindadas, junto ao Sistema de Ciência e Tecnologia do EB, desenvolveu adaptações para o blindado Guarani, na versão Morteiro Médio, que foram inspiradas em soluções de usuários do corpo de tropa, o que serve de boa prática para as Forças Armadas.

Adicionalmente, o Capítulo 5 explora o “exército de reservistas inovadores”. Devido às peculiaridades do contexto geopolítico de Israel, há a necessidade de manter um efetivo pronto maior do que o Exército Permanente seria capaz de fornecer. Nesse contexto, a conscrição e a mobilização possuem características próprias. Diferente de forças puramente ativas, as FDI absorvem as habilidades da economia civil as quais contribuem para a inovação. O grande exemplo foi a introdução visionária do primeiro computador israelense (o Weizac) e do Philco TRANSAC S-2000 na logística militar, já em 1959, trazidos por reservistas que eram matemáticos no Instituto Weizmann.

 

No caso brasileiro, o sistema de mobilização tem potencial para identificar a expertise de oficiais e sargentos temporários, alunos de CPOR e NPOR, atiradores e reservistas espalhados pelo país que se destaquem em suas carreiras, principalmente na área de Ciência, Tecnologia e Inovação.

 

A sobreposição entre a Defesa e a base industrial é detalhada no Capítulo 6. Comitês que alongam o processo de aquisição são substituídos por uma comunicação direta entre clientes militares e provedores da indústria, acelerando os projetos de inovações disruptivas, gerenciadas por órgãos como a MaFat e a Rafael Advanced Defense Systems, responsável pela criação de mísseis como o Spike, o Popeye e o Python.

O Capítulo 7 ilustra o desenvolvimento acelerado. O primeiro grande exemplo foi a rápida criação do míssil antinavio Gabriel e sua integração em barcos de ataque rápido (classe Sa'ar), aprimorando o poder naval tradicional. Posteriormente, os autores detalham o peculiar desenvolvimento do Domo de Ferro (Iron Dome), criado em apenas quatro anos, por meio de ousadia administrativa e de atalhos em processos convencionais. O Iron Dome é um sistema de Defesa que surgiu da necessidade de proteção contra o lançamento de mísseis e foguetes inimigos. Sua criação teve início pela iniciativa de Danny Gold, chefe da unidade de pesquisa e desenvolvimento da MaFat (Administração para o Desenvolvimento de Armas e Infraestrutura Tecnológica), um órgão conjunto do Ministério da Defesa e das FDI. Diante da urgência de proteger os civis de bombardeios constantes, enfrentando a resistência burocrática e a falta de financiamento por parte dos escalões superiores, Gold decidiu iniciar o desenvolvimento do sistema em agosto de 2005. Para contornar a falta de recursos e a ausência de aprovação oficial, ele persuadiu os executivos das empresas de defesa estatais Rafael e Elta a adiantarem fundos próprios para o projeto. Além disso, implementou um método de desenvolvimento, no qual as fases de pesquisa, engenharia e produção foram realizadas simultaneamente, ao invés de sequencialmente, comprimindo de forma considerável o tempo de concepção da arma e permitindo que o equipamento entrasse em operação, com eficiência comprovada em combate, em menos de seis anos de projeto.

A disrupção do paradigma de gênero é o tema do Capítulo 8. Devido à restrição demográfica, as FDI transformaram mulheres nas principais instrutoras de combate, inclusive de veículos blindados, e criaram unidades mistas de fronteira de alta eficácia, como o Batalhão Caracal, maximizando todo o capital humano disponível.

 

Da mesma forma, as Forças Armadas do Brasil estão ampliando o ingresso feminino, com destaque para o recente Serviço Militar Inicial Feminino (SMIF), que passou a incorporar recrutas mulheres e pode potencializar o emprego dos recursos humanos em atividades ligadas à Defesa.

 

O Capítulo 9 lida com a inovação doutrinária. Ao descartar a burocrática doutrina de desgaste britânica em favor da veloz guerra de manobra e do estilo furtivo da força Palmach, Israel adaptou técnicas operacionais para prevalecer contra massas inimigas. Isso fomentou inovações como os comandos navais da Shayetet 13, que adaptaram táticas dos homens-rã italianos da Segunda Guerra Mundial.

Do triunfo ao fracasso aéreo, o Capítulo 10 disseca a Operação Moked de 1967. Nela, o brilhantismo tático foi coroado por uma inovação técnica modesta, mas vital: a bomba penetradora de pistas de voo (PaPaM), que aniquilou a força aérea árabe no solo. Contudo, a vitória mascarou falhas frente aos mísseis antiaéreos (SAM) soviéticos, resultando em pesadas perdas na Guerra de 1973.

A resposta a esse trauma é relatada no Capítulo 11, com a Operação Artzav 19, em 1982. Através de um salto tecnológico colossal, as FDI utilizaram pioneiramente drones para vigilância em tempo real (Scout/Mastif), mísseis antirradiação e, como inovação máxima, o “Periscope”, o primeiro sistema computadorizado do mundo empregado no comando e controle de uma batalha aérea.

O Capítulo 12 analisa a “produção em massa de excelência” por meio das unidades de elite. Desde a criação da Unidade 101, nos anos 1950, Israel usou táticas de operações especiais para elevar o padrão de todo o exército convencional. A inovação mais recente citada é a “Ghost Unit”, projetada para mitigar a burocracia e integrar instantaneamente inteligência, poder aéreo, cibernético e terrestre.

Esta cultura é apresentada no Capítulo 13 pelos “empreendedores militares”: oficiais de baixa patente que persistiram de forma obstinada para fundar unidades disruptivas, tais como Avraham Arnan, com a Unidade 269 (Sayeret Matkal, inteligência profunda e resgate de reféns) e Muki Betzer, fundador da Unidade 5101 (Shaldag, comandos operando designadores a laser para a Força Aérea).

Na tropa blindada (Capítulo 14), a inovação tomou a forma de improviso e rigor disciplinar sob o comando do general Israel Tal, atualizando e integrando antigos chassis dos carros de combate Sherman e Centurion. Foi nesse ambiente ágil que as FDI introduziram a pioneira blindagem reativa explosiva (ERA), desenvolvida após 1973 com o físico alemão Manfred Held, reconfigurando a proteção blindada mundial.

O ápice dessa jornada é o Capítulo 15, focado na viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) autóctone Merkava. Concebida do zero, a plataforma inverteu dogmas ocidentais ao alocar o motor na parte frontal para blindar a tripulação. Esse pensamento gerou inovações de sobrevivência inigualáveis, como o sistema de defesa ativa antimíssil Trophy (Me'il Rooakh) e os inteligentes projéteis multifunção Kalanit e Hatzav, otimizados para guerra urbana moderna.

Por fim, o Capítulo 16 aborda as unidades de Inteligência e Cyber: a Unidade 8200 (SIGINT/Cyber) e a Unidade 81 (P&D sob demanda). Aqui surgiram as armas cibernéticas Stuxnet e Flame, além de tecnologias de defesa civil para o combate à COVID-19. O capítulo relata até a inovação em recursos humanos no programa Roim Rachok, que aloca soldados com Transtorno do Espectro Autista na Unidade 9900 para análises de inteligência geoespacial.

No contexto brasileiro, pode-se depreender uma miríade de ensinamentos colhidos pelas experiências relatadas no estudo de caso de Israel. Há exemplos de diversos setores como o desenvolvimento de produtos de defesa, a criação de organizações militares e as inovações doutrinárias. Acadêmicos como Azevedo et al. (2021) e Borba (2020, p. 21) afirmam que “a cultura de inovação é identificada como um dos principais determinantes para a performance inovativa de uma organização”. Ao longo do livro, pode-se verificar que esse aspecto é amplamente incentivado nas FDI.

 

Dessa forma, seria viável incentivar um ambiente inovador no Exército Brasileiro, contribuindo para o aprimoramento da cultura organizacional no que concerne ao desenvolvimento científico e tecnológico militar.

 

Em suma, ao apresentar as evidências em sua conclusão, The Art of Military Innovation converge de forma clara com o campo acadêmico das Ciências Militares e da tecnologia de defesa. Luttwak e Shamir ensinam que a constante vulnerabilidade e o desapego aos rígidos regulamentos garantem que as Forças de Defesa Israelenses continuem a assimilar e a antecipar o futuro da guerra.

 

REFERÊNCIAS

ADAMSKY, Dima. The culture of military innovation: the impact of cultural factors on the revolution in military affairs in Russia, the US, and Israel. Stanford: Stanford University Press, 2010.

AZEVEDO, Carlos Eduardo Franco; BORBA, Gabriela Alves de; ARAÚJO, Laércio Eduardo de. Desafios para a política de inovação no setor de defesa brasileiro: óbices e barreiras culturais e estruturais. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 121-160, jan./abr. 2021.

BORBA, Gabriela Alves de. A influência da cultura de inovação no programa rádio definido por software de defesa (RDS-DEFESA). 2020. 116 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2020.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 09 de junho de 2026.