Apresentação
O ano letivo teve início na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e nossos alunos, civis e militares, assistiram, no dia 5 de fevereiro do corrente, à aula magna do Gen Ex R/1 Richard Fernandes Nunes, atualmente Diretor-Geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Na sua conferência, o antigo comandante da ECEME reforçou as ideias-força que são a tônica para o decisor na arte da guerra, traduzidas nos verbos: pensar, criar, decidir e agir, que há mais de 100 anos vêm sendo norteadores dos estudos nos cursos regulares da Escola.
O desafio para as atuais gerações de discentes passa a ser como direcionar a tomada de decisão em uma conjuntura complexa como a atual, na qual a dimensão informacional ganhou protagonismo, e muitos dos problemas estão no campo do incognoscível.
O ambiente empresarial, que também enfrenta as mesmas dificuldades, tem criado novas formas de gestão para atuar no campo das incertezas. Como exemplo, pode ser citada a metodologia Lean Startup, que une o design, a prototipação e a experiência do cliente, inverte a ordem do conhecido ciclo PDCA, entendendo que a fase do planejamento só deve iniciar quando se conhece realmente o problema a ser enfrentado.
No campo das Ciências Militares, o processo de tomada de decisão tem sido objeto de estudos, muitos deles destacando o papel das tecnologias disruptivas e as competências próprias que devem acompanhar o decisor. A pergunta que fica é se as Instituições podem ter mecanismos próprios que viabilizem esse processo em alguma medida, criando seus ecossistemas que favoreçam a atuação dos decisores.
O OMPV selecionou três artigos do General Richard que analisam e propõem ferramentas institucionais para criar o ambiente favorável à tomada de decisão, os quais nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o tema.
1. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército

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Os preceitos da comunicação estratégica passaram a ser efetivamente adotados pelo Exército Brasileiro a partir da constatação da conveniência de se expandir os ramos da tradicional comunicação social praticada – relações públicas, assessoria de imprensa e divulgação institucional – por meio da sincronização, da integração e do alinhamento das mídias sociais operadas no âmbito da Força, bem como da sistematização das relações institucionais estabelecidas em todos os níveis. Tudo de acordo com os objetivos constantes no Planejamento Estratégico do Exército.[1]
As discussões levadas a cabo para a implementação dessa visão foram abrangentes e inéditas, devido à dificuldade de obtenção de literatura capaz de considerar as condicionantes específicas da expressão militar de um país com a trajetória histórica e as dimensões geográfica, política e estratégica do Brasil. Tentativas de adaptação de doutrinas estrangeiras, particularmente praticadas em blocos e alianças multinacionais, definitivamente não fornecem soluções aplicáveis à nossa realidade sui generis.
Os projetos interdisciplinares conduzidos pelo Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), na ECEME, em consonância com as diretrizes do Comandante e as orientações do Estado-Maior do Exército (EME), foram fundamentais para o aprofundamento do tema. O órgão de direção operacional e os de direção setorial e de assistência direta e imediata aportaram contribuições. Naturalmente, coube ao CCOMSEx, órgão central do Sistema de Comunicação Social do Exército, papel de relevo na consolidação dos trabalhos.
Como resultado de todo esse esforço, vários documentos foram elaborados. Algumas portarias do Comandante do Exército e do EME, como a que instituiu as regras para o emprego das mídias sociais, começaram a ser publicadas em 2019. Mas foi no ano seguinte que o arcabouço normativo se completou. A Portaria nº 1.237-C Ex, de 23 de novembro de 2020, que aprova a Diretriz Geral de Comunicação Estratégica no Âmbito do Exército, consolida e integra conceitos, responsabilidades e ações a realizar.
Vencida a etapa da sistematização, o momento seguinte é o da concretização das ideias em objetivos, ações, metas e indicadores. Para isso, há necessidade de acurada análise do ambiente informacional. E essa tarefa, diante dos desafios vivenciados neste início de terceiro milênio, requer maturidade estratégica. A dificuldade de interpretação da conjuntura demanda permanente consciência situacional para o entendimento do nível adequado de posicionamento à tomada de decisão. Uma força, que transita dos níveis tático e operacional do campo de batalha aos político e estratégico da definição de objetivos organizacionais e da obtenção dos meios correspondentes, impõe aos seus agentes da comunicação estratégica a realização de constante ESAON[2].
A propósito do uso deste acrônimo tão peculiar ao Exército, cabe ressaltar que o recurso a esse expediente para simplificar o entendimento e a memorização de conceitos vem de longa data, mas tem-se intensificado com o volume extraordinário de informações disponibilizado na Era do Conhecimento. Por serem úteis ao tema deste artigo, serão discutidos o VUCA e o BANI.
O chamado Mundo VUCA (volátil, “uncertain”/incerto, complexo e ambíguo) popularizou-se na virada do milênio, sintetizando a imprecisão de cenários gradativamente aprofundada no pós-guerra. Esse conceito tem sido empregado em trabalhos acadêmicos, no meio corporativo e pelos mais variados órgãos e agências, incluindo-se as forças militares. Lidar com as ideias de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para se estruturar a comunicação estratégica do Exército é como realizar o ESAON em terreno movediço. O importante agora pode tornar-se rapidamente irrelevante, o que é neste momento pode não ser daqui a pouco, as conexões são múltiplas, o inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo, aliás, quem é amigo de quem?
E daí? Como sair desse atoleiro? O estudo do lanço[3], neste caso, perde qualquer noção de simplicidade.
Analisar essas características pode ser útil, se não para a obtenção de balizamento mais claro ao planejamento, pelo menos para se evitar certas armadilhas capazes de turvar o pensamento e as atitudes. Se é lícito supor que estamos diante de ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, é indispensável que os diversos sistemas que compõem a Instituição sejam integrados, alinhados e sincronizados. Se entendermos a comunicação estratégica como um sistema de sistemas, podemos reduzir significativamente as ameaças e potencializar o aproveitamento das oportunidades, com vistas à consecução dos objetivos estratégicos do Exército.
Mas o que parecia complicado ficou ainda mais instigante. Em 2018, o norte-americano Jamais Cascio, a partir da premissa de que o Mundo VUCA não favorecia mais o entendimento acerca da conjuntura atual, cunhou o acrônimo BANI (“brittle”/frágil, ansioso, não linear e incompreensível), que também logrou se popularizar, impulsionado pela perplexidade causada pela pandemia da COVID-19. Em sua visão, o Mundo VUCA admite a ideia de planejamento, desde que considerada a interligação de múltiplos sistemas; quando isso não funciona, surge o Mundo BANI, para expressar o caos resultante e nos fazer refletir sobre a necessidade de esboçar cenários capazes de nos proporcionar caminhos plausíveis a seguir.
Ainda assim, cabe a pergunta: e daí? Como lidar com isso? Longe de cair em desânimo, é necessário aprimorar nosso ESAON, nossa capacidade de interpretação da realidade, a fim de se evitar a mera aceitação dessas características globais como condicionantes incontornáveis.
Se o mundo é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, enfim, caótico, é necessário desenvolver resiliência e flexibilidade compatíveis para o enfrentamento de múltiplos cenários com um mínimo de orientação quanto à melhor trajetória a adotar. E a comunicação estratégica se impõe como absolutamente necessária a uma Força que não pode se fragilizar, que deve reagir com sereno rigor, sem dar vez à ansiedade, que deve lidar com um amplo espectro de atuação, e que precisa fazer-se compreender pelos diversos públicos de interesse.
Se os mundos VUCA e BANI ainda não tiverem despertado suficiente inquietação, que tal uma provocação ao pensamento crítico? No que diz respeito ao entendimento da dimensão informacional, sugiro cunharmos outro acrônimo: PSIC! Não, talvez não seja o que sugere. Não se trata de rotular o ambiente como psicótico, desconectado da realidade. Para muitos pode ser isso mesmo, mas o que tenho observado é que estamos diante de um mundo precipitado, superficial, imediatista e conturbado.
A precipitação é um mal recorrente na comunicação. Se antes, a volúpia de certos órgãos de mídia e jornalistas pelos furos de reportagem, muitas vezes sem a devida checagem, produzia danos de difícil reparação à veracidade dos fatos; hoje, com a disseminação das mídias sociais, essa mazela aumenta de modo exponencial, com inúmeros conteúdos sendo disparados sem o menor cuidado. Demonstrar estar bem informado é um dos traços de vaidade mais comumente observados. Para o Exército, alvo contumaz de matérias precipitadas, outra faceta dessa característica é que ela também afeta seu próprio público interno. E disciplinar essa questão é tarefa imperiosa para a comunicação estratégica. Assim como se adota a Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) como etapa indispensável à utilização do armamento, tem-se que atribuir a mesma prioridade à instrução com vistas ao emprego das ferramentas de comunicação digital[4]. Enviar ou encaminhar uma mensagem com um simples toque na tela de um smartphone pode ser tão crítico quanto acionar o gatilho de uma arma.
Já a superficialidade é o reino da “água na canela”. A mídia recorre sistematicamente a especialistas. Alguns não passam de embusteiros que se autointitulam como tal e mal sabem do que estão falando. Não raro, influenciam opiniões a partir de platitudes acacianas. Pior, ainda, é quando por trás desses pseudoespecialistas se encontra a má-fé, com o objetivo de manchar reputações pessoais e institucionais, tratando-se temas complexos e sensíveis sem nenhuma profundidade de análise. No caso dos assuntos militares, esse problema se agrava, pois não são muitos os autênticos especialistas capazes de discuti-los com isenção e propriedade.
O imediatismo grassa no meio informacional. O que importa é a obtenção de resultados no curto prazo. Sacrifica-se a construção de bases sólidas de relacionamentos institucionais e de relações de confiança. Parece não haver mais paciência para, de modo continuado, colher-se no futuro o que se semeia no presente. Para a comunicação estratégica do Exército, instituição cujo caráter permanente é constitucional, esse fenômeno tem-se caracterizado como de mão dupla, e precisa ser enfrentado sistematicamente. Pessoas e percepções são passageiras; o Exército, segue adiante.
A conturbação tem encontrado terreno fértil na polarização exacerbada que tem caracterizado as relações sociais por todo o mundo. O que se observa é a preferência pelo dissenso em detrimento do consenso, a primazia das controvérsias e o desprezo pelo diálogo. Esse comportamento chama a atenção em certas plataformas de mídias sociais, onde o que mais se encontra são ofensas e demonstrações de intolerância. Na chamada mídia tradicional não é diferente. Certas matérias mais se assemelham a provocações irresponsáveis, alimentadas por atípicos bombeiros, que apagam incêndio com gasolina. É preciso reagir com lucidez a esse desafio. Se considerarmos como premissa que “quem me irrita me domina”, responder a certos provocadores pode ser exatamente a resposta por eles esperada. A maturidade proporcionada pela comunicação estratégica – alinhada, integrada e sincronizada – pode indicar a melhor linha de ação a adotar.
Em síntese, ao combinarmos as características da realidade atual, plasmadas nos acrônimos discutidos neste artigo – VUCA, BANI e PSIC –, percebemos o quão desafiador é obter a consciência situacional necessária à tomada de decisões com base na dimensão informacional.
As atividades de inteligência e de comunicação social, integradas a outras capacidades e aos centros de estudo e pesquisa, valendo-se de ferramentas adequadas e em permanente conexão, são imprescindíveis. Os trabalhos realizados no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), do EME, bem como no Instituto Meira Mattos (IMM) e no Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), da ECEME, são exemplos de subsídios relevantes para a concretização da comunicação estratégica do Exército.
Por fim, é de se destacar que, ante a carência de referências típica desta época em que vivemos, há que se fortalecer o ethos militar, única garantia de preservação da autenticidade e da relevância da Instituição. Além do desenvolvimento de competências pessoais e de capacidades organizacionais, o que é fundamental para se fazer um adequado ESAON, com vistas à melhor condução da comunicação estratégica, nos ambientes VUCA, BANI, ou até mesmo PSIC, é a permanente observância dos princípios éticos e dos valores morais que têm notabilizado o Exército Brasileiro ao longo de sua extraordinária trajetória histórica.
2. O Mundo PSIC e a Ética Militar

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Em abril do ano passado, em artigo publicado neste blogi, provoquei o pensamento crítico dos leitores com a cunhagem do acrônimo PSIC, para caracterizar o ambiente informacional da atualidade.
Decorridos dez meses, retorno ao tema, por constatar que a precipitação, a superficialidade, o imediatismo e a conturbação atingiram patamares consideráveis, devido ao comportamento de muitos civis e militares, quando o assunto abordado é o papel desempenhado pelas forças armadas no cenário nacional.
Tratando especificamente do Exército Brasileiro, cabe relembrar que sua História, cuja gênese remonta às Batalhas dos Guararapes, confunde-se com a própria evolução histórica do País. A atuação da Força Terrestre é ampla e abrangente, cobrindo nosso território de dimensões continentais com o braço forte e a mão amiga, o que exige tomada de decisões desde os níveis político e estratégico aos ambientes operacional e tático. A cada um desses níveis correspondem especificidades no que tange ao estudo de situação e à liderança. É bem sabido que não há solução tática capaz de corrigir uma formulação estratégica inadequada. E é indispensável destacar que só se chega aos mais altos postos percorrendo-se todos os graus hierárquicos, após décadas de dedicação à carreira das armas. Ninguém ingressa no Exército como general!
Essa óbvia constatação é importante para que se compreenda o contexto ético-profissional que distingue a carreira militar. Hierarquia e disciplina, bases institucionais constantes em nossa Lei Magna, representam a própria essência da força armada. São conceitos que traduzem o exato cumprimento do dever e o respeito à cadeia de comando, composta por autoridades, em todos os escalões da estrutura da Força, que alcançam determinada posição, tendo experimentado as vicissitudes de seus subordinados.
Esse arcabouço ético também é composto pelos valores indispensáveis a quem se dispõe a seguir a vida militar: patriotismo, coragem, lealdade, camaradagem, espírito de corpo, fé na missão, entre outros. Esses valores, ainda que universais, podem manifestar-se de modo distinto, conforme o nível de atuação considerado. A coragem esperada de um comandante tático, por exemplo, não se expressa da mesma forma que a de um líder no nível estratégico. Semelhante na essência, distingue-se na demonstração. Se do primeiro se requer o acatamento imediato da ordem recebida para conduzir seus subordinados ao cumprimento da missão; do outro se espera firmeza na defesa de princípios e valores, de tal forma que, por vezes, dizer "não" pressupõe muito mais coragem do que alinhar-se a eventuais pressões de caráter político.
E o que o Mundo PSIC tem a ver com isso? Tudo! Pois é exatamente na dimensão informacional que temos assistido a condutas em desacordo com a ética militar por parte daqueles que, por indignação, ingenuidade, desconhecimento e, até mesmo, má-fé, têm contribuído para disseminar a desinformação, a relativização de valores e, consequentemente, a desunião que enfraquece o espírito de corpo. Fica a pergunta: a que interesses servem tais pessoas?
Analisando-se o que têm expressado, via de regra em mídias sociais e aplicativos de mensagens, que adicionaram a comodidade do anonimato a esse tipo de atitude, facilmente se identificam as componentes PSIC.
A precipitação é marca típica desse ambiente repleto de meias-verdades e fake news, onde se disparam e replicam mensagens sem a menor preocupação com a veracidade dos fatos e a idoneidade das fontes. Toma-se como verdade, de modo absolutamente irresponsável, conteúdos com juízos de valor destinados ao ataque a reputações e à crítica a decisões dos escalões superiores. Iniciado o processo, que é realimentado por “gatilhadas” digitais, o que se produz é uma verdadeira marcha da insensatez. A um militar que se preza não se permite essa falta de cuidado e de lealdade para com a instituição a que serve.
A superficialidade é outro aspecto dissonante do comportamento ético. A atividade militar é, por natureza, grave e complexa. Em tempos de paz ou de conflito armado, lida-se com o poder dissuasório da Nação. Soluções simples para problemas complexos não são a regra. Tratar o emprego do Exército com base em análises simplórias de “especialistas” de ocasião, é o caminho mais seguro para se chegar a concepções inoportunas, parciais e ineficazes, o que é inadmissível por quem quer que tenha um mínimo de seriedade no processo de tomada de decisão. Quando um militar extrapola a esfera de suas atribuições, e passa a opinar publicamente sobre o que não é de sua competência, contribui para o descrédito na cadeia de comando e no cumprimento da missão.
O imediatismo, por princípio, não se coaduna com o caráter permanente atribuído às forças armadas no texto constitucional. A relação custo-benefício de se trocar ganhos imediatos por duradouros resultados positivos costuma caracterizar vitória de Pirro. Os preceitos da ética militar indicam claramente que não se pode prejudicar a reputação e a credibilidade do Exército, conquistadas em séculos de História, por conta do oportunismo de uns e do jogo de interesses de outros, algo que tem sido observado em inúmeras postagens veiculadas em tempos recentes.
A conturbação talvez seja o aspecto mais danoso do Mundo PSIC. A excessiva polarização da sociedade e a atuação dos extremos do espectro ideológico no ambiente informacional têm gerado visões radicais, resultando num círculo vicioso de intolerância e de absoluta ausência de diálogo. Essa situação é inaceitável aos membros de uma instituição apartidária, que se orgulha de oferecer oportunidades a todos os brasileiros, sem distinção de classe social, raça, gênero e credo. O inconformismo com a tradicional postura legalista e de neutralidade do Exército tem dado ensejo a insultos a camaradas de longa data, ataques a reputações típicos de regimes totalitários, “vazamentos” de supostas informações, divulgação de memes difamatórios, tudo para tentar atingir a coesão da Força, em flagrante traição ao sacrossanto respeito à hierarquia e à disciplina.
Sendo os recursos humanos a força da nossa Força, é imperioso reafirmar diuturnamente a essencialidade da prática e do culto aos princípios e valores característicos da profissão militar para o aprimoramento da capacidade operacional necessária ao cumprimento de suas diversas missões.
3. A Liderança Estratégica ante os Desafios do Mundo PSIC

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Em artigos anteriores, procurei caracterizar o ambiente informacional da atualidade por meio do acrônimo PSIC (precipitado, superficial, imediatista, conturbado), apreciando seus reflexos para a comunicação estratégica do Exército[5] e para a ética militar[6]. Neste trabalho, volto a abordar esse tema do Mundo PSIC, agora, sob o enfoque da liderança estratégica.
Com efeito, se essas características PSIC devem merecer atenção no planejamento e na execução da comunicação do Exército, bem como suscitar reflexões de caráter ético-profissional, é natural que o exercício da liderança militar também possa sofrer consequências desse fenômeno. Comunicação, ética e liderança são abordagens indissociáveis, ainda mais nestes tempos de profundas mudanças nas relações sociais, provocadas pelos avanços que temos observado na tecnologia da informação.
O exercício da liderança militar, em qualquer nível, pressupõe coragem e integridade de caráter plenamente reconhecidas. Quando se emprega a liderança direta, é possível mais facilmente superar óbices à percepção desses pressupostos, uma vez que a comunicação é menos suscetível a ruídos e manipulações. A força do exemplo se faz mais presente. Entretanto, quando lidamos com o nível estratégico, há variáveis mais difíceis de se controlar, o ambiente é mais complexo, e o distanciamento físico amplia o desafio de se influenciar comportamentos e direcionar esforços para a conquista de objetivos institucionais. O caráter digital e virtual do ambiente informacional PSIC potencializa as limitações da liderança indireta.
Historicamente, os meios de comunicação de massa vinham se consolidando segundo uma lógica socioeconômica top-down. Foi assim com a mídia impressa, com o rádio, com a televisão – aberta e por assinatura –, e com a rede mundial de computadores. Entretanto, quando a telefonia celular e a internet se combinaram em smartphones, de aquisição amplamente disseminada, essa lógica deixou de prevalecer, uma vez que pessoas dos mais diversos estratos sociais passaram a desfrutar simultaneamente dessa ferramenta de produção e de difusão instantânea de conteúdos e mensagens. Esse fenômeno é de extrema relevância para a compreensão dos desafios enfrentados pela liderança estratégica, particularmente em uma Instituição de Estado, que tem na hierarquia um de seus alicerces.
Qualquer que seja a abordagem adotada acerca da temática da liderança, é inquestionável que o conhecimento exerce papel primordial. O exercício da liderança, de modo geral, requer competências que proporcionem correta análise do ambiente considerado e adequada visão dos caminhos a seguir. No nível estratégico, mais incerto e complexo, a obtenção de razoável consciência situacional constitui requisito ainda mais crítico para o êxito.
Em meio a um acúmulo exponencial de informações, veiculadas por intermédio de uma incontrolável massa de mídias, a questão que se impõe é separar o essencial do supérfluo, o significativo do irrelevante e o autêntico do falso ou distorcido. E essa tarefa é extremamente desafiadora, pois ao líder não é mais proporcionado tempo suficiente para a necessária reflexão, para ser proativo em vez de reativo, para elaborar a estratégia de comunicação adequada. A instantaneidade, a rapidez e o volume de dados disponibilizados no ambiente informacional escapam à lógica hierárquica e acarretam para a liderança um ciclo frenético de interpretação de dados e de tomada de decisões, de modo a que seja exercida com acerto e oportunidade.
Para isso, é necessário identificar e contornar as armadilhas do Mundo PSIC.
A precipitação conspira contra o senso de oportunidade. Sendo o tempo um dos fatores da decisão, há que se resistir a conclusões antecipadas, devido à disseminação indiscriminada da informação a níveis que não tenham competência funcional para realizar adequada análise da situação. O impulso de rapidamente se livrar de um problema ou atender ao clamor de bolhas midiáticas pode acarretar sérios prejuízos ao processo decisório. O líder estratégico precisa enfrentar com serenidade a tendência atual de agir apressadamente e preservar a capacidade de controlar os anseios daqueles a quem deve conduzir. Deve sempre se valer do ESAON3[7]. Navegar, ou seja, percorrer o caminho selecionado não pode ser um ato impensado. Deve ser o coroamento de todo um processo consciente, pautado pela ponderação e pelo equilíbrio.
A superficialidade impede a obtenção do grau de conhecimento requerido para se analisar uma situação e se chegar à melhor decisão. A consciência situacional plena requer estudo abalizado. Não há como equacionar problemas complexos, como costumam ser os de nível estratégico, com informações insuficientes ou incompletas. Simplicidade é princípio de guerra. Permite descomplicar a solução, particularmente devido ao modo de se comunicar o que precisa ser feito. Simplismo, ao contrário, revela carência de fundamentos, sem levar em consideração aspectos essenciais à compreensão do ambiente. O líder precisa conhecer em profundidade a realidade a enfrentar, cercando-se de assessores zelosos, e não de meros repetidores de ideias e opiniões de “especialistas” e influencers, encontradas em profusão nas plataformas digitais.
O imediatismo obscurece a visão de futuro, uma das componentes primordiais da liderança estratégica. As decisões de caráter estratégico exigem mais persistência no tempo e mais abrangência no espaço. Vantagens momentâneas raramente são sustentáveis, tampouco atendem a todos os aspectos envolvidos na análise da questão. Tendências de longo prazo devem sobrepujar percepções passageiras. É necessário semear para que se possa colher. E isso requer desprendimento, paciência e compreensão histórica. O líder estratégico precisa fazer escolhas que nem sempre lhe permitirão desfrutar dos resultados em curto prazo, mas a responsabilidade e o compromisso com as gerações vindouras impõem a humildade de preparar o terreno para que outros eventualmente colham os louros.
A conturbação afeta a capacidade que se requer de um líder de conciliar múltiplos e diversos interesses na busca de um propósito comum. A polarização da sociedade, os posicionamentos radicais, o desprezo pelo diálogo e a cultura do cancelamento e linchamento nas redes virtuais têm causado sérias restrições ao exercício da liderança. No meio militar, esse tipo de comportamento atenta contra a hierarquia e a disciplina e compromete a coesão. Ambientes conturbados geram círculos viciosos de preconceitos, ofensas e retaliações, que subtraem energia e desviam o foco dos legítimos anseios coletivos e dos objetivos estratégicos a serem alcançados. A liderança estratégica demanda resiliência para sobrepujar essas questões limitadas e dispersivas.
Como se pode observar, o exercício da liderança estratégica tem sido confrontado por características próprias do ambiente informacional altamente digitalizado da atualidade, que tenho identificado como Mundo PSIC. Assim como sugerido nos trabalhos anteriores, é necessário compreender essa questão a fim de se encontrar as respostas mais adequadas ao desafio que representa.
De modo conclusivo, identifico na trilogia liderança estratégica – ética militar – comunicação estratégica o arcabouço mais indicado para se analisar o ambiente informacional de nossos dias e melhor compreender a realidade em que estamos inseridos, a fim de que se possam encontrar soluções integradas, alinhadas e sincronizadas para o amplo espectro de atuação do Exército, em face da relevância, da complexidade e da variedade das missões que lhe são atribuídas pela Nação Brasileira.
[1] Definição proposta em artigo publicado após apresentação sobre o tema no XXI Ciclo de Estudos Estratégicos da ECEME, em julho de 2019 (Nunes, R. F. A Comunicação Estratégica do Exército e a Dimensão Informacional. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 13, n. 48, p. v-xi, 8 nov. 2019.)
[2] Significa estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se e navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão.
[3] Em situação de combate, para progredir no terreno, o militar deve condicionar-se a responder aos seguintes questionamentos: Para onde vou? Por onde vou? Como vou? Quando vou?
[4] Em 2020, por proposta do CCOMSEx, o COTER aprovou o Caderno de Instrução de Comunicação Social – Formação Básica, que orienta a instrução a ser ministrada a todos os militares incorporados ao Exército acerca deste e de outros assuntos correlatos.
[5] O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito.
[6] O Mundo PSIC e a Ética Militar, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar.
[7] Acrônimo usual no Exército para Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se e Navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão.
Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.