Da lacuna de conhecimento à integração estratégica: competências em defesa QBRN no currículo de medicina veterinária como ferramenta de governança de defesa

Daiane Oldiges Heck
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares
da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Médicos-veterinários ocupam uma posição estratégica na defesa contra ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares (QBRN), especialmente no componente biológico, em razão de sua atuação na interseção entre saúde animal, segurança alimentar, saúde pública e segurança nacional (Pappaioanou, 2004; Hamilton, 2025). Enquanto a medicina humana costuma atuar somente após a exposição de pessoas em um incidente, a medicina veterinária intervém em um momento anterior, na fase de prevenção, quando apenas populações animais estão sendo afetadas, ou seja, antes de um possível evento de transbordamento (spillover) zoonótico (Ubgoma, 2025). Nesse estágio prévio, o médico-veterinário torna-se elemento-chave para a detecção de novas ameaças biológicas, naturais ou deliberadas, cumprindo, na prática, o princípio de Saúde Única de intervir na interface humano–animal–ambiente (Adisasmito et al., 2022).

Animais de companhia, de produção e silvestres funcionam, nesse contexto, como sentinelas biológicas precoces e passivas. Compartilham o mesmo ambiente que os humanos, respondem de forma semelhante a diversos agentes infecciosos e tóxicos e, em muitos cenários, manifestam sinais clínicos antes da ocorrência de casos humanos, criando uma janela temporal crítica para detecção e intervenção (Rabinowitz et al., 2006). Essa função sentinela é particularmente relevante diante de ameaças intencionais ou emergentes, porque: (1) permite identificar rapidamente alterações anormais na circulação de patógenos em um ecossistema; (2) torna possível acompanhar exposições contínuas, delineando a distribuição geográfica do agente; e (3) no caso de espécies com grande mobilidade, auxilia a rastrear a propagação de possíveis epidemias. Ao incorporar esses dados de vigilância animal em plataformas integradas com bases de vigilância em saúde humana, ou seja, com foco em Saúde Única, o médico-veterinário permite que sinais provenientes de rebanhos, fauna silvestre e animais de companhia sejam analisados em conjunto com informações de saúde humana e ambiental, fortalecendo a detecção precoce de eventos QBRN e de zoonoses emergentes (Neo; Tan, 2017; Hamilton, 2025).

A vigilância integrada de animais exige um conjunto de capacidades veterinárias específicas – como o reconhecimento de síndromes clínicas incomuns, a condução rápida de investigações epidemiológicas, a notificação em prazos curtos e a coordenação com autoridades de saúde humana e de defesa (Gubernot; Boyer; Moses, 2008). Isso evidencia que as competências necessárias para a atuação como um agente ativo em defesa QBRN configuram um desdobramento direto da prática veterinária, o qual certamente é aprimorado por meio de especializações na área, mas que não precisaria estar restrito a elas.

A partir dessa constatação, é possível argumentar que, mais do que formar apenas um grupo restrito de especialistas, é estratégico capacitar todos os médicos-veterinários para reconhecer situações de risco e acionar fluxos de resposta, ampliando a capilaridade da vigilância e tornando-a mais compatível com o contexto contemporâneo de defesa integrada.

Preparar médicos-veterinários para compreender e reportar essa dinâmica constitui, assim, um investimento em capacidade defensiva nacional, justificando a integração formal desses conteúdos no currículo, de modo a garantir que os graduandos sejam capazes de identificar padrões epidemiológicos sugestivos de eventos QBRN, empregar protocolos de investigação apropriados a ameaças deliberadas e conhecer os canais de coordenação civilmilitar para resposta em cenários de defesa.

O conhecimento em ameaças e defesa QBRN não deveria estar desvinculado da formação base do médico-veterinário, pois, sem competência para reconhecer padrões epidemiológicos incompatíveis com o comportamento esperado de doenças naturais, o egresso de Medicina Veterinária tenderá a interpretar eventos suspeitos como surtos usuais, perdendo a oportunidade de sinalizar introduções deliberadas ou emergentes. De forma semelhante, sem familiaridade com os mecanismos de governança que articulam saúde animal, defesa, gestão de emergências e compromissos internacionais de biossegurança, esses profissionais permanecerão à margem de estruturas decisórias e de coordenação intersetorial que, na prática, já dependem de informações e análises oriundas do campo veterinário.

Inserir defesa QBRN na formação não significa militarizar a profissão, mas reconhecer um papel que ela já desempenha, tornando-o explícito, tecnicamente sustentado e articulado à agenda de Saúde Única. O contexto brasileiro torna essa discussão ainda mais urgente, já que o país combina ampla produção pecuária, papel central do agronegócio na economia, elevada biodiversidade e histórico de vulnerabilidade a zoonoses e doenças emergentes, em um cenário de crescente interdependência entre saúde humana, animal e ambiental (Oliveira et al., 2022).

Nessa convergência entre riscos agrícolas, ambientais e epidemiológicos, um agente que comprometa plantações, rebanhos ou cadeias de processamento poderia desencadear crises simultâneas de segurança alimentar, saúde pública e estabilidade econômica, colocando os médicos-veterinários no centro da resposta (Donachie; Ewann; Poudevigne, 2023). Nesse contexto, articular segurança da cadeia de suprimentos, biossegurança, Saúde Única e preparação para cenários QBRN deixa de ser teoria opcional e passa a constituir uma dimensão real da prática veterinária em um país cuja economia se sustenta, em larga medida, na sanidade animal.

Ao mesmo tempo, é evidente que o currículo da Medicina Veterinária no Brasil já é extenso e sofre pressão constante por adição de novas temáticas (D’Eon, 2023; Paula et al., 2024). A criação de uma disciplina isolada de “Defesa QBRN” é, em muitos casos, pouco viável. Uma alternativa mais realista, e pedagogicamente mais consistente, é fragmentar o conteúdo QBRN em blocos conceituais e práticos e inseri-los de forma transversal em disciplinas já existentes. Essa estratégia aproveita a base já consolidada do curso, evita inflar a carga horária e reforça a percepção de que defesa QBRN não é um tema alheio à prática veterinária, mas um desdobramento natural de competências que o aluno já precisa desenvolver para sua futura atividade profissional.

No eixo das ameaças químicas, a toxicologia veterinária já aborda a exposição a pesticidas, resíduos químicos em alimentos, contaminação de água e ração e outros poluentes ambientais. A ampliação desse conteúdo para incluir princípios e exemplos ligados a agentes neurotóxicos organofosforados, vesicantes e gases irritantes em cenários de acidentes, uso criminoso ou conflitos armados exige, sobretudo, uma aplicação mais focada de estruturas toxicológicas que o estudante já domina.

No eixo das ameaças biológicas, as disciplinas de microbiologia, imunologia e doenças infecciosas trabalham rotineiramente com patógenos que também figuram em listas de interesse em biodefesa, como Bacillus anthracis, Clostridium botulinum e Yersinia pestis. O desafio não é introduzir novos agentes, mas explicitar como essas mesmas doenças podem manifestar-se em contextos naturais, acidentais ou deliberados, e treinar competências epidemiológicas que permitam distinguir padrões esperados de sinais que apontem para eventos atípicos. Com relação às ameaças radiológicas e nucleares, embora esse componente seja tradicionalmente menos explorado em Medicina Veterinária, já existe contato com informações acerca de radiação ionizante por meio de disciplinas de diagnóstico por imagem. A partir desse ponto, é possível expandir e introduzir noções sobre exposição de animais a materiais radioativos em acidentes, contaminação da cadeia produtiva, efeitos de diferentes doses em distintas espécies e bases de protocolos de proteção e resposta em emergências radiológicas envolvendo animais, profissionais e alimentos de origem animal. Dessa forma, o conhecimento envolvendo a defesa QBRN integra-se de maneira orgânica a conteúdos já presentes, ao mesmo tempo em que reforça a dimensão de Saúde Única ao considerar riscos compartilhados entre animais, humanos e ambiente.

Ao organizar esse conteúdo de forma integrada, a defesa QBRN deixa de ser “mais um assunto” e passa a operar como um eixo transversal que conecta toxicologia, microbiologia, saúde pública, clínica médica, inspeção de alimentos e gestão de riscos. Esse eixo dialoga diretamente com a abordagem de Saúde Única, na medida em que utiliza os mesmos princípios de integração de diferentes setores e vigilância compartilhada, mas enfatiza explicitamente os componentes de prevenção, preparação e resposta a ameaças de alta consequência.

Em termos de competências a serem desenvolvidas, destacam-se: capacidade diagnóstica e compreensão da fisiopatologia de exposições QBRN; comunicação de risco com diferentes públicos em situações de crise; colaboração em estruturas de resposta multiagência e civil-militar; tomada de decisão ética em cenários complexos; e entendimento do papel da profissão veterinária na defesa, na biossegurança e na conformidade com acordos internacionais.

O componente que provavelmente apresenta maior dificuldade de ser trabalhado e efetivamente incorporado ao arcabouço de conhecimentos dos estudantes diz respeito aos mecanismos de coordenação civilmilitar, às estruturas de resposta interagências e às obrigações internacionais de notificação (Janse et al., 2022; WHO, 2021). Tratase de um conteúdo que extrapola o domínio técnico-biológico tradicional da Medicina Veterinária e exige compreensão de arranjos institucionais, marcos legais e fluxos decisórios em Defesa e Saúde Pública. Por isso, o desenvolvimento docente tornase um elemento crítico da implementação: é necessário apoiar professores na apropriação desses temas e na sua tradução didática para a realidade da graduação. Neste contexto, parcerias com centros acadêmicos que já possuem currículos maduros em defesa QBRN – como o Instituto Meira Mattos (Santos, 2019)– se mostram uma maneira acessível de qualificar tanto a formação de docentes quanto a aprendizagem dos alunos. O Instituto Meira Mattos também pode funcionar como ponte institucional entre universidades civis, as Forças Armadas e órgãos de Defesa Civil, facilitando a construção de protocolos de cooperação, estágios curriculares em ambientes de Defesa e participação de docentes e estudantes em exercícios conjuntos. Ao produzir pesquisa aplicada em Defesa QBRN e Saúde Única, sistematizar boas práticas internacionais e traduzi-las em propostas didáticas adaptadas à realidade brasileira, o Instituto contribui para que a integração da DQBRN na formação veterinária não dependa de iniciativas isoladas de indivíduos, mas seja sustentada por uma infraestrutura acadêmica estável, alinhada aos marcos de governança de Defesa do país.

Sob a ótica da governança, a incorporação de competências em QBRN na graduação em Medicina Veterinária alinha-se diretamente com os compromissos nacionais e internacionais em Saúde Única, colaboração civil-militar e prevenção de ameaças biológicas. Documentos recentes no contexto brasileiro enfatizam que a integração entre saúde humana, animal e ambiental exige profissionais capazes de transitar entre esses domínios (Soeiro-Barbosa et al., 2025), inclusive em cenários de emergência e defesa. Formar médicos-veterinários com compreensão simultânea de defesa QBRN e Saúde Única significa dotar o país de quadros que entendem tanto a biologia das ameaças quanto os arranjos institucionais que coordenam vigilância, resposta e recuperação. Ao aproveitar conteúdos já existentes no currículo, ajustar enfoques e criar pontos de contato com a agenda de defesa, é possível qualificar a participação dos médicos-veterinários em redes de vigilância, resposta a emergências e formulação de políticas, sem demandar uma reforma curricular disruptiva.

Em síntese, integrar competências em defesa QBRN à formação de médicos-veterinários é uma medida estrategicamente justificada, profissionalmente necessária e pedagogicamente viável. A profissão já ocupa, na prática, o ponto de interseção entre saúde animal, segurança alimentar e saúde pública; o que se propõe é tornar essa centralidade visível, reconhecida e tecnicamente suportada pela formação de base. Ao transformar a lacuna atual em integração estratégica, amplia-se a capacidade do Brasil de: detectar precocemente ameaças; proteger sua população, sua economia e seu patrimônio biológico; e cumprir, de forma mais robusta, seu papel em um sistema internacional que depende, cada vez mais, de respostas coordenadas a riscos de natureza biológica, química, radiológica e nuclear.

 

Referências bibliográficas

 

ADISASMITO, Wiku B. et al. One Health: A new definition for a sustainable and healthy future. PLoS Pathogens, [s. l.], v. 18, n. 6, p. e1010537, 2022.

 

DE OLIVEIRA, Renata Carvalho et al. Out of the shadows, into the spotlight: Invisible zoonotic diseases in Brazil. Lancet Regional Health - Americas, [s. l.], v. 8, p. 100202, 2022.

 

D’EON, Marcel F. The overcrowded curriculum is alarming. Canadian Medical Education Journal, [s. l.], v. 14, n. 4, p. 1–5, 2023.

 

DONACHIE, Daniel; EWANN, Fanny; POUDEVIGNE, Frederic. Animal Agrocrime: An Overlooked Biological Threat | Health Security. Health Security, [s. l.], v. 21, n. 5, 2023. Disponível em: https://www.liebertpub.com/doi/10.1089/hs.2022.0144. Acesso em: 7 fev. 2026.

 

GUBERNOT, Diane M.; BOYER, Benita L.; MOSES, Marina S. Animals as Early Detectors of Bioevents: Veterinary Tools and a Framework for Animal-Human Integrated Zoonotic Disease Surveillance. Public Health Reports (1974-), [s. l.], v. 123, n. 3, p. 300–315, 2008.

 

HAMILTON, Keith. Veterinary Services: Guardians Against Biological Weapons - The Animal Echo. [S. l.], 2025. Disponível em: https://theanimalecho.woah.org/en/veterinary-services-guardians-against-biological-weapons/. Acesso em: 9 fev. 2026.

 

JANSE, Jacobine et al. Civil–military cooperation in the management of infectious disease outbreaks: a scoping review. BMJ Global Health, [s. l.], v. 7, n. 6, p. e009228, 2022.

 

NEO, Jacqueline Pei Shan; TAN, Boon Huan. The use of animals as a surveillance tool for monitoring environmental health hazards, human health hazards and bioterrorism. Veterinary Microbiology, [s. l.], v. 203, p. 40–48, 2017.

 

PAULA, Eric Mateus Nascimento de et al. AVALIAÇÃO DOS COMPONENTES CURRICULARES E DOS CONTEÚDOS DISCIPLINARES DOS CURSOS DE MEDICINA VETERINÁRIA DO BRASIL. REVISTA DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES, [s. l.], v. 6, n. 1, p. 01–15, 2024.

 

PAPPAIOANOU, Marguerite. Veterinary medicine protecting and promoting the public’s health and well-being. Preventive Veterinary Medicine, [s. l.], v. 62, n. 3, One Medicine for the Future - A Symposium Honoring the Lifetime Achievements of Dr. Calvin W. Schwabe, p. 153–163, 2004.

 

RABINOWITZ, Peter et al. Animals as Sentinels of Bioterrorism Agents. Emerging Infectious Diseases, [s. l.], v. 12, n. 4, p. 647–652, 2006.

 

SANTOS, Anderson Wallace de Paiva dos. A Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear no Brasil: um debate sobre o estado da arte. 2019. Dissertação de Mestrado (Programa de PósGraduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos) - Escola de Comando e EstadoMaior do Exército, Rio de Janeiro, 2019.

 

SOEIRO-BARBOSA, David et al. The São Paulo declaration on One Health: Brazil’s path forward to face intersectoral health challenges. One Health Outlook, [s. l.], v. 7, n. 1, p. 34, 2025.

 

UBGOMA, Agatha. Veterinary Diagnostics: The First Line of Defence Against Human Infectious Diseases - The Animal Echo. [S. l.], 2025. Disponível em: https://theanimalecho.woah.org/ en/veterinary-diagnostics-the-first-line-of-defence-against-human-infectious-diseases/. Acesso em: 6 fev. 2026.

 

WHO. National civil–military health collaboration framework for strengthening health emergency preparedness. [S. l.]: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/b/58834. Acesso em: 9 fev. 2026.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 13 de maio de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Da lacuna de conhecimento à integração estratégica: competências em defesa QBRN no currículo de medicina veterinária como ferramenta de governança de defesa. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/dqbrn/artigos/da-lacuna-de-conhecimento-a-integracao-estrategica-competencias-em-defesa-qbrn-no-curriculo-de-medicina-veterinaria-como-ferramenta-de-governanca-de-defesa.