Ivi Vasconcelos Elias
Pesquisadora de Pós-Doutorado da ECEME.
Mariana Montez Carpes
Professora-doutora do Programa de Pós-graduação da ECEME.
Desde a pandemia de COVID-19, vários cientistas vêm alertando que a próxima emergência sanitária global não é uma questão de se, mas de quando. Entre os diversos agentes em potencial, a gripe aviária tem se consolidado como uma das candidatas mais prováveis a desencadear uma nova pandemia. A disseminação global recente do vírus H5N1 tem provocado impactos significativos na saúde animal, na segurança alimentar e na vigilância epidemiológica internacional. Este texto explora a trajetória do vírus H5N1, seu impacto recente no Brasil e no mundo, e os esforços nacionais e internacionais para conter sua possível escalada. Por fim, será feita uma reflexão acerca do papel do Exército Brasileiro, caso uma pandemia de gripe aviária seja deflagrada.
De forma geral, os vírus da influenza A representam uma ameaça significativa à saúde pública por sua elevada taxa de mutação e potencial para causar pandemias. Ao longo da história, diversos episódios de pandemias em humanos foram provocados por esses vírus, incluindo a gripe espanhola de 1918 (H1N1), a gripe asiática de 1957 (H2N2), a gripe de Hong Kong de 1968 (H3N2) e a gripe suína de 2009 (H1N1). Esses vírus infectam tanto humanos quanto diversas espécies animais, sendo as aves aquáticas silvestres seus principais hospedeiros naturais. Aves silvestres geralmente carregam subtipos de baixa patogenicidade (LPAI) sem apresentar sintomas, mas os subtipos H5 e H7 podem se transformar em vírus de alta patogenicidade (HPAI) após transmissão para aves domésticas (Wille, Barr, 2022).
O vírus HPAI H5N1 foi identificado pela primeira vez em humanos em 1997, em Hong Kong, a partir da cepa A/goose/Guangdong/1/1996, caracterizada por alta letalidade (Airey; Short, 2024). Após um período de baixa detecção, o vírus ressurgiu em 2003 na Ásia e, em 2005, disseminou-se para a África, Oriente Médio e Europa por meio de aves migratórias, com o surgimento de diversas linhagens genéticas. Entre 2014 e 2016, os subtipos H5N6 e H5N8 emergiram e passaram a dominar a circulação global. Em 2020, uma nova variante do H5N1 tornou-se predominante nas mesmas regiões (Graziosi et al., 2024). No final de 2021, essa variante foi detectada em aves silvestres no Canadá e nos Estados Unidos, onde, em fevereiro de 2022, iniciaram-se surtos em criações comerciais (CDC, 2023).
Entre 2003 e 20 de janeiro de 2025, foram notificados à Organização Mundial da Saúde (OMS) 964 casos humanos de infecção por H5N1 em 24 países, resultando em 466 mortes, o que corresponde a uma taxa de letalidade de aproximadamente 48%. A partir de 2022, observou-se um aumento expressivo nos casos, com 71 infecções humanas registradas nas Américas até fevereiro de 2025, sendo 70 nos Estados Unidos e 01 no Canadá. Nesse mesmo período, estima-se que o H5N1 tenha provocado a morte de cerca de 130 milhões de aves domésticas e silvestres nos Estados Unidos. Na América do Sul, calcula-se que ao menos 600 mil aves silvestres e 50 mil mamíferos morreram em decorrência de infecção pelo vírus (OPAS, OMS, 2025).
Nesse cenário, a gripe aviária é classificada como uma panzootia, ou seja, um surto de doença infecciosa que atinge diversas espécies de animais em diferentes regiões do mundo. O contágio por mamíferos é monitorado com atenção porque se aproxima de uma possível adaptação aos humanos. Cerca de 26 países relataram a contaminação de mais de 48 espécies de mamíferos (Plaza et. al. 2024). Até o momento, não há evidências de que o vírus H5N1 esteja se disseminando de forma sustentada entre humanos, condição essencial para iniciar uma nova pandemia. Porém, há indícios de que transmissões sustentadas entre mamíferos marinhos já ocorreram na América do Sul (Airey, Short, 2024).
A adaptação dos vírus da influenza aviária a mamíferos pode ocorrer tanto por meio de mutações genéticas espontâneas quanto pelo rearranjo genômico resultante da recombinação entre diferentes subtipos virais. A interface entre fauna silvestre, aves domésticas, animais de criação e seres humanos constitui um ambiente propício à transmissão cruzada de patógenos, favorecendo o salto interespecífico. Esse fenômeno está estreitamente relacionado aos sistemas intensivos de produção avícola, que oferecem condições ideais para a disseminação viral, como alta densidade populacional e confinamento. Inclusive, a maior parte das infecções humanas por H5N1 ocorreu em contextos ocupacionais entre trabalhadores que tiveram contato com animais infectados.
No cenário internacional, a OMS, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) desempenham um papel central na coordenação das ações de vigilância, contenção e compartilhamento de dados genéticos sobre a influenza aviária, em conformidade com o Regulamento Sanitário Internacional (RSI). Essas organizações publicam, de forma conjunta, análises periódicas de risco com base em evidências atualizadas (FAO, OMS, OMSA, 2024). Caso ocorra a transmissão sustentada entre humanos, a OMS poderá declarar uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), conforme previsto no RSI, como ocorreu, por exemplo, durante a pandemia de gripe H1N1 em 2009. O regulamento também impõe aos países a obrigação de desenvolver e manter capacidades mínimas para vigilância, detecção, diagnóstico laboratorial e resposta rápida a surtos. Diante do potencial pandêmico da gripe aviária, diversos países têm ampliado investimentos e realizado avaliações nacionais e internacionais sobre essas capacidades. Nesse contexto, a FAO e a OMSA lançaram uma nova estratégia global para a prevenção e o controle da influenza aviária altamente patogênica, com base na abordagem "Uma Só Saúde” (One Health, na denominação internacional) com o objetivo de tornar os sistemas agroalimentares nacionais mais resilientes, reduzindo os impactos sobre as cadeias produtivas e comerciais da produção animal (FAO, OMSA, 2024).
No Brasil, houve o registro do primeiro caso de gripe aviária em plantel comercial em 15 de maio de 2025 no Rio Grande do Sul (Brasil, 2025a). Desde a detecção inicial do vírus em aves silvestres, em maio de 2023, foram identificados 166 focos, concentrando-se majoritariamente em aves silvestres (163 casos) e, em menor escala, em aves de subsistência (3 casos). Como resposta à conjuntura, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) decretou estado de emergência zoossanitária por meio da Portaria nº 782, de 27 de março de 2025, posteriormente prorrogado por mais 180 dias pela Portaria nº 784, de 4 de abril (Brasil, 2025b). A confirmação, em 9 de abril, do primeiro óbito por H5N1 na América Latina ocorrido no México intensifica os alertas quanto ao potencial de expansão do risco sanitário no território brasileiro.
De forma estratégica, o Instituto Butantan desenvolveu a primeira vacina brasileira contra a gripe aviária ainda em fase de testes clínicos (Fiocruz, 2025). Diferentemente do que ocorreu durante a pandemia de Covid-19, o objetivo é garantir autonomia tecnológica e capacidade de resposta nacional diante da possível emergência de uma nova pandemia. No entanto, mesmo com a disponibilidade de uma vacina eficaz, outros desafios permanecem caso o cenário pandêmico seja confirmado, como a necessidade de produção em larga escala, a logística de distribuição em território nacional, a garantia de acesso equitativo à imunização e a coordenação de medidas de saúde pública para conter a propagação da doença.
Esses desafios abrem espaço para uma reflexão quanto ao papel que o Exército Brasileiro teria ante à necessidade de enfrentamento de uma nova pandemia. Constitucionalmente, está previsto o emprego das Forças Armadas em território nacional para a garantia dos três Poderes e para a Garantia da Lei e da Ordem. A partir da Lei Complementar nº 97 de 1999, também está prevista a atuação das Forças Armadas em ações subsidiárias, dentre as quais estão o apoio a outros órgãos públicos em situações de emergência, calamidade pública ou desastres, incluindo os biológicos - como seria o caso de uma pandemia. Tradicionalmente, o emprego das Forças Armadas, em especial do Exército Brasileiro, tem se justificado a partir da sua capilaridade no território nacional, da sua prontidão do contingente e da capacidade nacional de mobilização desse contingente. Assim, e à luz do que se viu na resposta à COVID-19 e campanhas de combate ou prevenção a outras doenças transmissíveis, pode-se inferir que frente a uma nova pandemia o Exército Brasileiro atuaria na logística e distribuição de medicamentos e insumos hospitalares, construção de hospitais de campanha, disponibilização de leitos e profissionais de saúde. Mais além, frente a uma pandemia, espera-se que a capacidade de defesa química, biológica, radiológica e nuclear do Exército seja mobilizada e empregada para a desinfecção de áreas e, em conjunto com as demais Forças, para a evacuação aeromóvel de paciente graves e tratamento em um dos hospitais militares de referência.
Referências
AIREY, Megan; SHORT, Kirsty R. High pathogenicity avian influenza in Australia and beyond: could avian influenza cause the next human pandemic? Microbiology Australia, v. 45, n. 3, p. 155–158, 19 ago. 2024. DOI: 10.1071/MA24040. Disponível em: https://www.publish.csiro.au/ma/MA24040. Acesso em: 9 abr. 2025.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária confirma primeiro foco de gripe aviária em granja comercial no Brasil. Brasília: MAPA, 16 maio 2025a. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-agricultura-e-pecuaria-confirma-primeiro-foco-de-gripe-aviaria-em-granja-comercial-no-brasil. Acesso em: 16 maio 2025.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Portaria MAPA nº 784, de 4 de abril de 2025. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 163, n. 66, p. 3, 7 abr. 2025b. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-mapa-n-784-de-4-de-abril-de-2025-6222407 19. Acesso em: 10 abr. 2025.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Emergence and Evolution of H5N1 Bird Flu. 2023. Disponível em: https://archive.cdc.gov/www_cdc_gov/flu/avianflu/communication-resources/bird-flu-origin-infographic.html. Acesso em: 9 abr. 2025.
FAO; OMS; OMSA. Avaliação conjunta atualizada da FAO, OMS e WOAH sobre eventos recentes do vírus da influenza A(H5N1) em animais e pessoas. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 20 dez. 2024. Disponível em: https://www.who.int/publications/m/item/updated-joint-fao-who-woah-assessment-of-recent-influenza-a(h5n1)-virus-events-in-animals-and-people_dec2024. Acesso em: 9 abr. 2025.
FAO; OMSA. Global Strategy for the Prevention and Control of High Pathogenicity Avian Influenza (2024–2033). Roma: FAO; Paris: OMSA, 2025. Disponível em: https://www.woah.org/en/document/global-strategy-for-the-prevention-and-control-of-high-pathogenicity-avian-influenza-2024-2033/. Acesso em: 10 abr. 2025.
FIOCRUZ. Fiocruz e Butantan farão estudo clínico da primeira vacina brasileira contra gripe aviária. Rio de Janeiro: Fiocruz, 3 abr. 2025. Disponível em: https://agencia.fio cruz.br/fiocruz-e-butantan-farao-estudo-clinico-da-primeira-vacina-brasileira-contra-gripe-avi aria. Acesso em: 10 abr. 2025.
GRAZIOSI, Giulia; LUPINI, Caterina; CATELLI, Elena; CARNACCINI, Silvia. Highly Pathogenic Avian Influenza (HPAI) H5 Clade 2.3.4.4b Virus Infection in Birds and Mammals. Animals (Basel), v. 14, n. 9, p. 1372, 2 maio 2024. DOI: 10.3390/ani14091372. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11083745/. Acesso em: 9 abr. 2025.
MENDES, Vitor. Butantan desenvolve primeira vacina brasileira contra gripe aviária. Agência Brasil, Brasília, 7 abr. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/inovacao/audio/2025-04/butantan-desenvolve-primeira-vacina-brasileira-contra-gripe-aviaria. Acesso em: 10 abr. 2025.
OPAS; OMS. Atualização Epidemiológica: Influenza Aviária A (H5N1) na Região das Américas, 4 de março de 2025. Washington, D.C.: OPAS/OMS, 2025. Disponível em: https://www.paho.org/sites/default/files/2025-03/2025-mar-4-phe-atualizacao-influenzaaviar-port-final.pdf. Acesso em: 9 abr. 2025.
PLAZA, Pablo I.; GAMARRA-TOLEDO, Víctor; RODRÍGUEZ EUGUÍ, Juan; LAMBERTUCCI, Sergio A. Recent changes in patterns of mammal infection with highly pathogenic avian influenza A(H5N1) virus worldwide. Emerging Infectious Diseases, v. 30, n. 3, p. 444–452, mar. 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC 10902543/. Acesso em: 10 abr. 2025.
WILLE, Michelle; BARR, Ian G. Resurgence of avian influenza virus. Science, v. 376, n. 6592, p. 459–460, 26 abr. 2022. DOI: 10.1126/science.abo1232. Disponível em: https://www.sci ence.org/doi/10.1126/science.abo1232. Acesso em: 9 abr. 2025.
Rio de Janeiro - RJ, 05 de junho 2025.
Como citar este documento:
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Gripe aviária: a ameaça de uma nova pandemia. Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/dqbrn/desastres-e-mudancas-climaticas/desastres-e-mudancas-climaticas-seminarios/68-dqbrn/770-gripe-aviaria-a-ameaca-de-uma-nova-pandemia