Competição Estratégica EUA-China: Comércio, Tecnologia e Terras Raras - Impactos Sistêmicos e Implicações para o Brasil

Gustavo Godoy Ribeiro da Silva
Major do Serviço de Intendência.
Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército.

Henrique Endres Bublitz
Major da Arma de Infantaria.
Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército.

Leonardo Leão Fernandes Nishiguchi
Major da Arma de Cavalaria.
Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército.

 

1. Introdução

A crescente rivalidade entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China (RPC) consolidou-se, ao longo da última década, como o principal vetor de transformação do Sistema Internacional (SI). A eclosão da guerra comercial em 2018, marcada pela imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos chineses, revelou não apenas tensões bilaterais relacionadas ao aço, ao alumínio e à propriedade intelectual, mas sobretudo a insatisfação estratégica dos EUA diante do rápido avanço econômico, tecnológico e industrial da China, conforme destacam Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019). Embora as tarifas tenham constituído o elemento mais visível da crise, estudos como os de Pautasso et al. (2021) demonstram que elas representam apenas a dimensão superficial de um processo mais amplo de reconfiguração sistêmica, associado ao declínio relativo da hegemonia norte-americana e à ascensão chinesa, interpretada como parte de uma transição de poder em curso.

Nesse contexto, a competição sino-americana extrapola o domínio estritamente comercial e avança de forma decisiva sobre a esfera tecnológica, particularmente no controle das cadeias globais de inovação e dos setores de alta complexidade. A disputa em torno do 5G, a corrida por semicondutores avançados, as restrições à transferência de tecnologia e o fortalecimento dos regimes de proteção à propriedade intelectual refletem a estratégia norte-americana de conter o avanço chinês em áreas consideradas críticas para a liderança estratégica do século XXI (Valls, 2019; Pautasso et al., 2021). A pressão exercida sobre empresas como a Huawei e a reorganização forçada de cadeias produtivas globais evidenciam que a tecnologia passou a ocupar o núcleo da rivalidade estratégica contemporânea.

Entretanto, a dimensão tecnológica da disputa articula-se a um eixo igualmente estratégico: o controle de recursos naturais críticos, especialmente os minerais estratégicos e as terras raras. Essenciais para setores como defesa, energia, indústria aeroespacial, eletrônica avançada e tecnologias associadas à transição energética, esses insumos tornaram-se elementos centrais da competição geopolítica. A China, responsável por parcela dominante do processamento global desses minerais, utiliza essa posição como instrumento de poder estrutural, conforme evidenciado nos embates jurídicos na Organização Mundial do Comércio (OMC) envolvendo EUA, União Europeia e Japão (Melo, 2017). No caso brasileiro, embora existam reservas relevantes, estudos do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), notadamente o relatório STM-73,[1] indicam limitações industriais e tecnológicas que restringem a inserção competitiva do país nessas cadeias de maior valor agregado.

Nos anos mais recentes, essa rivalidade passou a manifestar-se de forma mais explícita em espaços geográficos e temáticos antes considerados periféricos, como o Ártico, a América Latina e a arquitetura financeira internacional. O interesse estratégico dos EUA pela Groenlândia e os movimentos associados à Venezuela evidenciam a centralidade das temáticas relacionadas aos recursos naturais e às rotas estratégicas na competição sino-americana que, conforme Pautasso et al. (2021), extrapolam o comércio e assumem dimensão sistêmica. Paralelamente, a ampliação do uso de sanções, o debate sobre reservas monetárias e moedas digitais indicam que a disputa também se projeta sobre a governança financeira global, ampliando os contornos da guerra geoeconômica.

Além disso, a rivalidade manifesta-se por meio de instrumentos típicos da guerra híbrida, como sanções econômicas, pressões diplomáticas, disputas cibernéticas, operações informacionais e controle de narrativas (Albuquerque; Da Silva; Da Silva, 2019). A erosão do multilateralismo, o acirramento das tensões no Indo-Pacífico e a fragmentação institucional reforçam, como apontam Pautasso et al. (2021) e González Garcia (2020), a percepção de que o SI atravessa uma fase de incerteza estrutural, marcada por disputas prolongadas de poder e competição estratégica de longo prazo.

Para o Brasil, a relevância do tema é incontornável. O país encontra-se em posição estratégica sensível, ao manter elevada dependência econômica da China — sua principal parceira comercial — e, simultaneamente, vínculos históricos com os EUA nas áreas de defesa, tecnologia e diplomacia. Os impactos da guerra comercial já evidenciaram ganhos conjunturais em setores como soja e aço, acompanhados de riscos estruturais relacionados à reprimarização da pauta exportadora e à dependência tecnológica (Carvalho; Azevedo; Massuquetti, 2019). Ademais, a reorganização das cadeias globais de valor, a disputa por minerais estratégicos e a intensificação da competição por ativos naturais e financeiros ampliam os desafios à autonomia estratégica brasileira.

Diante desse cenário, o presente artigo tem por objetivo analisar os reflexos da competição estratégica entre EUA e China sobre o SI, destacando seus impactos econômicos, tecnológicos e geopolíticos, com especial atenção ao Brasil. Para tanto, examinam-se os elementos estruturantes da rivalidade sino-americana, a disputa tecnológica e mineral associada às novas cadeias produtivas e os riscos e oportunidades para a inserção internacional brasileira em um contexto marcado pela intensificação da competição entre grandes potências.

 

2. As origens estruturais da competição

A rivalidade entre EUA e China deve ser compreendida a partir de transformações estruturais que remodelaram a economia política internacional nas últimas quatro décadas. Desde as reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping ao final dos anos 1970, a China passou por um processo contínuo de modernização produtiva, expansão comercial e inserção progressiva nas cadeias globais de valor, alterando de forma significativa a distribuição relativa de poder no SI e deslocando o eixo da produção industrial e tecnológica em direção ao leste asiático.

Ao longo desse período, a China deixou de ocupar uma posição periférica baseada em exportações de baixo valor agregado e passou a construir uma economia marcada por crescente complexidade produtiva. Conforme apontam Pautasso et al. (2021), o país sofisticou sua pauta exportadora e ampliou sua presença em setores intensivos em tecnologia, como eletrônicos, telecomunicações, máquinas industriais e bens de capital. Esse avanço é evidenciado pelo aumento expressivo do número de empresas chinesas entre as maiores corporações globais, superando os EUA em termos absolutos e sinalizando uma mudança estrutural no equilíbrio econômico internacional.

Paralelamente, observou-se uma alteração profunda nos padrões de comércio bilateral entre as duas potências. Segundo González Garcia (2020), o déficit comercial norte-americano em relação à China cresceu de forma acelerada a partir dos anos 2000, tornando-se um dos principais focos de tensão econômica. A combinação entre abertura chinesa ao investimento estrangeiro direto (IED), incorporação de tecnologias ocidentais e relocalização de plantas industriais contribuiu para o deslocamento da manufatura global, afetando setores estratégicos da economia norte-americana e gerando pressões políticas internas que seriam decisivas para a adoção de uma agenda protecionista a partir de 2017.

Outro elemento central das origens estruturais da competição reside na forma como a China se inseriu na ordem liberal internacional liderada pelos EUA no pós-Guerra Fria. Conforme analisam Albuquerque e Silva (2019), Washington apoiou a entrada chinesa na OMC em 2001, sustentando a expectativa de que a integração econômica promoveria convergência institucional e alinhamento geopolítico. No entanto, a trajetória chinesa combinou abertura seletiva com forte planejamento estatal, políticas industriais robustas e investimentos estratégicos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

Esse modelo de desenvolvimento produziu resultados expressivos, mas também intensificou, do ponto de vista norte-americano, a percepção de erosão de sua primazia econômica, tecnológica e estratégica. A frustração das expectativas de convergência política, somada ao avanço chinês em setores sensíveis à segurança nacional, contribuiu para a consolidação de uma narrativa de competição sistêmica. Assim, a interação entre a expansão produtiva chinesa, os desequilíbrios comerciais persistentes percebidos pelos EUA e a frustração quanto à convergência política e institucional da China constitui o núcleo estrutural da atual rivalidade sino-americana, que progressivamente transcende o plano econômico e se projeta sobre a disputa pela liderança global.

 

 3. A guerra comercial como parte da transição sistêmica

A eclosão da guerra comercial entre EUA e RPC, em 2018, não deve ser interpretada como um evento isolado, mas como expressão de um processo mais amplo de reconfiguração do SI. Conforme destacam Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019), as tarifas impostas pelos EUA, especialmente sobre o aço, o alumínio e os produtos associados à propriedade intelectual, foram justificadas como medidas de proteção à segurança nacional e de correção de práticas comerciais consideradas desleais. Contudo, tais ações buscaram, sobretudo, reconfigurar a competitividade industrial norte-americana e pressionar Pequim a revisar políticas industriais, tecnológicas e comerciais percebidas como estruturalmente assimétricas.

Esse movimento esteve diretamente associado à estratégia “America First”, que marcou uma inflexão relevante na política econômica e externa dos EUA. Ao priorizar instrumentos unilaterais, enfraquecer mecanismos multilaterais e revalorizar a política industrial doméstica, Washington sinalizou uma mudança em relação ao modelo de globalização liberal que havia liderado no pós-Guerra Fria. A guerra comercial, nesse sentido, integrou um esforço deliberado de redução de dependências externas, reindustrialização seletiva e contenção do avanço chinês em setores estratégicos.

Valls (2019) demonstra que a escalada tarifária seguiu um padrão progressivo e juridicamente fundamentado, iniciando-se com investigações técnicas previstas na legislação comercial norte-americana e avançando para listas extensas de produtos tarifados. Destaca-se que parcela relevante dessas medidas incidiu sobre setores tecnologicamente sensíveis, como bens de capital, componentes eletrônicos e insumos industriais avançados, evidenciando o uso da política comercial como instrumento de contenção estratégica.

A literatura econômica aponta que a guerra comercial produziu efeitos sistêmicos relevantes. González Garcia (2020) observa que a intensificação tarifária elevou custos de produção, reduziu fluxos de comércio, desorganizou cadeias globais de valor e contribuiu para a desaceleração do crescimento econômico mundial. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicaram que uma escalada prolongada poderia reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em até 0,8%, refletindo o impacto da incerteza e da fragmentação comercial sobre investimentos.

Esses efeitos reforçam a interpretação de que a guerra comercial atuou como catalisadora de tendências mais profundas, como a regionalização das cadeias produtivas, a revalorização de políticas industriais nacionais e o enfraquecimento da governança econômica multilateral. Assim, mais do que corrigir distorções comerciais pontuais, as tarifas passaram a integrar uma estratégia mais ampla de reposicionamento estrutural dos EUA frente à ascensão chinesa, configurando-se como etapa intermediária da disputa hegemônica entre as duas potências.

 

 4. A guerra híbrida e a dimensão político-estratégica

A competição entre EUA e China assume características típicas de uma guerra híbrida, marcada pelo emprego combinado de instrumentos econômicos, tecnológicos, jurídicos, cibernéticos, informacionais e diplomáticos. Conforme destacam Albuquerque, Da Silva e Da Silva (2019), esse tipo de disputa opera predominantemente em “zonas cinzentas”, nas quais sanções econômicas, restrições tecnológicas, pressões diplomáticas, operações de influência e controle de narrativas são utilizadas para alterar equilíbrios estratégicos sem o uso do recurso militar direto.

Pautasso et al. (2021) reforçam essa perspectiva ao analisar episódios recentes, como o fechamento recíproco de consulados, as restrições a empresas e plataformas digitais, as disputas normativas envolvendo Hong Kong, a pressão diplomática sobre países terceiros e a intensificação de exercícios militares no Indo-Pacífico. Esses eventos evidenciam que a rivalidade sino-americana se manifesta de forma difusa e multidimensional, ampliando a instabilidade sistêmica e dificultando respostas coordenadas no âmbito do multilateralismo.

Nesse contexto, a questão de Taiwan ocupa posição central na dimensão político-estratégica da disputa. Considerada por Pequim parte integrante da doutrina de “Uma Só China”, a ilha é tratada como questão essencial de soberania e legitimidade interna. Ao mesmo tempo, sua relevância na cadeia global de semicondutores e o aprofundamento de seus vínculos políticos e militares com os EUA transformam o Estreito de Taiwan em um dos principais pontos de tensão do SI, com elevado potencial de escalada e impactos globais.

De forma complementar, as disputas marítimas no Mar do Sul da China (MSC) reforçam o caráter híbrido da competição. A presença constante de forças navais, operações de patrulhamento e disputas jurídicas sobre zonas econômicas exclusivas revelam uma escalada controlada de tensões, frequentemente mediada por narrativas concorrentes de soberania e direito internacional, envolvendo aliados diretos dos EUA e ampliando os riscos geopolíticos regionais.

A guerra híbrida também se expressa no plano jurídico-estratégico, especialmente no controle indireto de recursos e ativos críticos. O caso das terras raras, analisado por Melo (2017), ilustra como recursos naturais estratégicos podem ser instrumentalizados em arenas jurídicas internacionais, notadamente na OMC. O uso de licenças, quotas e controles de exportação pela China afetou cadeias produtivas globais e desencadeou disputas normativas, evidenciando que a competição transcende o mercado e incorpora dimensões jurídicas e geopolíticas.

Assim, a guerra híbrida consolida-se como elemento estruturante da rivalidade sino-americana, expressando-se no entrelaçamento de pressões econômicas, disputas tecnológicas, instrumentos jurídicos, conflitos diplomáticos e operações informacionais. Esse ambiente de competição ampliada, marcado pela erosão do multilateralismo e pela fragmentação normativa, molda o atual SI e condiciona as escolhas estratégicas de países como o Brasil, inseridos em um contexto de crescente complexidade e risco sistêmico.

 

 5. As três dimensões da disputa EUA-China

Conforme analisam Pautasso et al. (2021), a rivalidade sino-americana pode ser compreendida a partir de três níveis analíticos inter-relacionados: o nível superficial, caracterizado por tarifas comerciais e medidas de proteção setorial; o nível intermediário, associado à disputa tecnológica e ao controle das cadeias produtivas estratégicas; e o nível profundo, no qual se insere a competição pela liderança do SI. Essa abordagem evidencia que a guerra comercial representa apenas um dos instrumentos de uma disputa mais ampla, cujos efeitos extrapolam o comércio e alcançam dimensões geopolíticas, normativas e estratégicas.

No nível superficial da disputa situam-se as medidas tarifárias e as iniciativas de proteção setorial que marcaram a eclosão da guerra comercial em 2018. Valls (2019) descreve o uso de instrumentos jurídicos previstos na legislação comercial norte-americana que permitiram a imposição de tarifas elevadas sobre um amplo conjunto de produtos chineses, abrangendo setores como aço, alumínio, máquinas, eletrônicos, produtos químicos e componentes industriais.

Essas medidas foram justificadas pelos EUA como mecanismos de correção do desequilíbrio comercial bilateral, de resposta às práticas consideradas desleais e de estímulo à reindustrialização doméstica. Contudo, seus efeitos extrapolaram o âmbito bilateral, impactando os mercados globais por meio da alteração de preços relativos, do desvio de fluxos comerciais e da reconfiguração das cadeias internacionais de suprimentos.

Como observa González Garcia (2020), o impacto agregado da guerra comercial foi amplamente negativo para a economia global, resultando em aumento de custos produtivos, elevação da incerteza econômica e retração do comércio internacional. Assim, embora as tarifas constituam a face mais visível da rivalidade sino-americana, elas operam sobretudo como instrumentos táticos de pressão estratégica, integrados a um processo mais profundo de competição estrutural entre as duas potências.

O nível intermediário da disputa sino-americana está associado ao controle das cadeias tecnológicas e dos setores de alta complexidade, nos quais se localiza o núcleo estratégico da rivalidade entre EUA e China. Estão em jogo áreas decisivas para o poder nacional no século XXI, como telecomunicações, semicondutores, inteligência artificial (IA), sistemas espaciais, defesa e infraestrutura digital.

Pautasso et al. (2021) destacam que a disputa em torno do 5G, particularmente envolvendo a Huawei, tornou-se um dos símbolos centrais dessa competição. Para os EUA, permitir que uma empresa chinesa lidere a infraestrutura global de telecomunicações representa riscos à segurança nacional e à influência geopolítica; para a China, consolidar liderança nesse setor significa reduzir dependências tecnológicas e projetar poder por meio da definição de padrões digitais globais.

No campo da IA, estudos recentes indicam que a concentração de capacidade computacional e de capital humano tende a aprofundar assimetrias estruturais entre grandes potências e países intermediários. Winter-Levy e Leicht (2026) argumentam que EUA e China concentram a maior parte da capacidade global de computação avançada e dos pesquisadores de ponta em IA, criando um ciclo cumulativo de vantagens tecnológicas que dificulta a inserção autônoma de outras economias nesse setor estratégico.

Outro elemento central desse nível é o setor de semicondutores, considerado o “coração” das tecnologias avançadas. Conforme Valls (2019), os EUA concentram domínio nas etapas de maior valor agregado da cadeia, como o design de chips, os softwares de automação de projeto (EDA) e a produção de equipamentos críticos, enquanto a China busca acelerar sua autonomia por meio de políticas industriais como o programa Made in China 2025, enfrentando restrições crescentes impostas por Washington.

Destaca-se ainda o papel estratégico de Taiwan, cuja empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) consolidou-se como principal fabricante mundial de chips de última geração. A elevada dependência global dessa capacidade produtiva transforma o Estreito de Taiwan em um dos pontos mais sensíveis do SI.

A essa dimensão tecnológica soma-se o controle de minerais estratégicos, especialmente as terras raras, insumos essenciais para semicondutores, baterias e sistemas de defesa. Melo (2017) demonstra que a China concentra as maiores reservas e, sobretudo, domina as etapas de refino e processamento — responsáveis pelo maior valor agregado — consolidando posição hegemônica nesse segmento e ampliando sua capacidade de influência sobre cadeias produtivas globais.

Dessa forma, o nível intermediário evidencia que a disputa entre EUA e China envolve o controle das cadeias tecnológicas e minerais que sustentam o poder no século XXI, configurando uma competição estrutural por liderança tecnológica e estratégica.

No nível profundo, a rivalidade assume caráter sistêmico, envolvendo a disputa pela definição das regras, instituições e padrões que estruturam a ordem internacional. Não se trata apenas de quem produz ou exporta mais, mas de quem estabelece os marcos normativos e os mecanismos de governança global.

Conforme Pautasso et al. (2021), a China tem ampliado sua projeção internacional por meio da Belt and Road Initiative (BRI), combinando infraestrutura, financiamento e diplomacia econômica para expandir sua influência. Em paralelo, os EUA reforçam alianças estratégicas no Indo-Pacífico, como o Quad[2] e o AUKUS[3], numa estratégia de contenção ao avanço chinês.

O fortalecimento e a expansão do BRICS, sobretudo após as sanções financeiras impostas à Rússia em 2022, evidenciam tentativas de diversificação do sistema financeiro internacional, com iniciativas voltadas à ampliação de mecanismos alternativos de pagamento e à redução da centralidade do dólar. No plano normativo, disputas como as travadas na OMC em torno das terras raras (Melo, 2017) demonstram que a competição também envolve a capacidade de moldar regimes jurídicos e regulatórios globais.

Assim, o nível profundo da disputa revela a essência da transição sistêmica em curso: a competição pela liderança da arquitetura internacional nas próximas décadas.

 

6. Os riscos identificados para o Brasil

 A competição estratégica entre EUA e RPC produz impactos diretos e indiretos sobre o Brasil nas dimensões comercial, tecnológica e geopolítica. Como economia emergente fortemente dependente da demanda chinesa por commodities e historicamente vinculada aos EUA em áreas sensíveis, o país ocupa posição particularmente vulnerável na transição sistêmica em curso. A seguir, serão analisados os principais reflexos dessa rivalidade a partir de seus efeitos comerciais imediatos e de seus desdobramentos estruturais.

A guerra comercial abriu oportunidades conjunturais para determinados setores brasileiros. Conforme Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019), a retaliação chinesa às exportações norte-americanas ampliou a demanda por soja brasileira, com impacto positivo sobre a produção nacional. Dinâmica semelhante foi observada no setor de aço, em razão do redirecionamento de fluxos comerciais.

Entretanto, tais ganhos foram essencialmente circunstanciais. González Garcia (2020) observa que a escalada tarifária elevou custos globais, aumentou a incerteza e desacelerou o comércio internacional. Além disso, a desorganização das cadeias globais de valor, apontada por Valls (2019), afetou o acesso brasileiro aos insumos industriais, ampliando vulnerabilidades produtivas.

Assim, embora tenha havido benefícios pontuais decorrentes do desvio de comércio, estes não alteraram a estrutura da inserção internacional brasileira, marcada pela dependência de commodities e pela limitada autonomia tecnológica.

A intensificação da disputa tecnológica entre EUA e China evidencia as fragilidades brasileiras em setores de alta complexidade. Conforme Pautasso et al. (2021) e Valls (2019), a reorganização das cadeias globais tende a restringir o acesso a componentes críticos e elevar exigências regulatórias, ampliando a vulnerabilidade de países que não dominam etapas estratégicas da produção tecnológica.

A literatura recente aponta ainda que a revolução da IA pode aprofundar essa assimetria. Winter-Levy e Leicht (2026) alertam que a incapacidade de “estocar” capacidades de IA — dependentes de acesso contínuo à infraestrutura computacional avançada — cria vulnerabilidade permanente para economias intermediárias, que passam a depender de sistemas controlados por grandes potências.

O Brasil insere-se nesse grupo. A ausência de capacidade nacional em segmentos como semicondutores, microeletrônica e equipamentos avançados de telecomunicações limita sua autonomia diante de restrições externas e choques geopolíticos, sobretudo em um cenário de fragmentação das cadeias globais de valor.

Essa dependência tecnológica é agravada pela dimensão mineral da disputa. Como demonstra Melo (2017), o domínio chinês sobre o refino e processamento de terras raras, etapas de maior valor agregado, cria assimetrias estruturais no SI. Países que não convertem reservas em capacidade industrial permanecem dependentes de cadeias controladas por terceiros.

No caso brasileiro, estudos do CETEM, especialmente o relatório STM-73, indicam reservas relevantes de terras raras, mas também limitações industriais nas etapas de separação e processamento. Assim, a vulnerabilidade nacional decorre menos da ausência de recursos naturais e mais da dificuldade de internalizar valor agregado.

Em um contexto de crescente interdependência entre tecnologia, minerais e energia, essa combinação de dependência tecnológica e fragilidade industrial configura risco estrutural à autonomia brasileira, afetando setores estratégicos como defesa, energia e indústria de transformação.

No plano geopolítico, o Brasil enfrenta o que Albuquerque, Da Silva e Da Silva (2019) definem como “dilema do alinhamento”. Enquanto mantém forte dependência comercial da China, seu principal parceiro econômico, preserva cooperação histórica com os EUA em áreas sensíveis como defesa, segurança e governança digital. Em um cenário de crescente polarização, essa dupla vinculação impõe escolhas complexas à política externa brasileira (PEB).

Conforme Pautasso et al. (2021), o enfraquecimento do multilateralismo e a intensificação da competição tecnológica reduzem o espaço de manobra de países emergentes. Ao analisar a posição das “middle powers”, Winter-Levy e Leicht (2026) identificam três estratégias possíveis na disputa tecnológica: alinhamento a uma das grandes potências, equilíbrio pragmático entre ambas ou busca de soberania tecnológica. Todas implicam custos e riscos distintos e exigem capacidade estratégica interna para evitar dependência estrutural.

Disputas por padrões tecnológicos, regimes regulatórios e infraestrutura crítica, como no caso do 5G, ampliam pressões externas e geram dilemas simultâneos de soberania, segurança e desenvolvimento. Paralelamente, recursos estratégicos, cadeias energéticas e ativos financeiros tornam-se instrumentos de pressão geopolítica. Sanções, controles de exportação e disputas jurídicas integram o repertório central da competição entre grandes potências. Como observa Melo (2017), normas e regimes multilaterais também operam como instrumentos de poder.

Para o Brasil, cuja tradição diplomática se ancora no multilateralismo e na solução negociada de controvérsias, esse ambiente representa desafio adicional à preservação da autonomia estratégica. O principal impacto da rivalidade EUA-China reside na necessidade de equilibrar relações sem comprometer a margem decisória nacional em um SI cada vez mais fragmentado e competitivo.

 

7. As oportunidades estratégicas para o Brasil

Apesar dos riscos associados à rivalidade sino-americana, a reorganização das cadeias globais abre oportunidades estratégicas para o Brasil, desde que acompanhadas por planejamento de longo prazo, coordenação institucional e políticas industriais consistentes.

Em primeiro lugar, conforme indicam Melo (2017) e estudos do CETEM, o país possui potencial relevante para ampliar sua inserção nas cadeias de minerais estratégicos e terras raras, avançando da extração para etapas de maior valor agregado, como processamento e refino. Investimentos em pesquisa mineral, engenharia e capacitação industrial podem reduzir vulnerabilidades estruturais e posicionar o Brasil de forma mais estratégica na transição energética e em setores como defesa, mobilidade elétrica e tecnologias verdes.

Em segundo lugar, o Brasil pode fortalecer sua atuação em articulações Sul-Sul. Como apontam Pautasso et al. (2021), blocos emergentes tendem a ganhar relevância em contextos de fragmentação geopolítica. A ampliação recente do BRICS, com a incorporação de novos membros estratégicos, amplia o peso geoeconômico do grupo e diversifica alternativas de financiamento e cooperação. Contudo, essa expansão também exige do Brasil uma diplomacia ainda mais cuidadosa, capaz de evitar a percepção de alinhamento automático a agendas geopolíticas que possam comprometer sua tradicional estratégia de equilíbrio entre grandes potências.

Por fim, a intensificação da competição tecnológica pode servir como catalisador para uma estratégia nacional mais assertiva em CT&I. Áreas como semicondutores, segurança cibernética, indústria de defesa e infraestrutura digital oferecem espaço para políticas industriais voltadas à redução de dependências externas e ao aumento da densidade tecnológica da economia.

Assim, a disputa EUA-China não representa apenas risco, mas também janela de oportunidade. Seu aproveitamento depende da articulação entre diplomacia ativa, política industrial consistente e visão estratégica orientada à preservação da autonomia nacional em um sistema internacional cada vez mais competitivo e fragmentado.

 

8. Conclusão

 A rivalidade entre China e EUA confirma que o SI atravessa uma transição marcada pela convergência de disputas comerciais, tecnológicas, normativas e geopolíticas. A guerra comercial revelou apenas a dimensão mais visível de um fenômeno estrutural que envolve proteção setorial, controle de cadeias críticas e competição pela liderança da ordem global. Países de posição intermediária, como o Brasil, são diretamente impactados por essa reconfiguração.

Os ganhos conjunturais obtidos em setores como soja e aço não alteraram a dependência estrutural brasileira de commodities nem reduziram sua vulnerabilidade tecnológica. A exposição às cadeias de semicondutores, telecomunicações e equipamentos avançados evidencia fragilidades em segmentos centrais da economia do conhecimento. De modo semelhante, embora possua reservas relevantes de terras raras, o Brasil carece de capacidade industrial e tecnológica para convertê-las em autonomia estratégica.

No plano geopolítico, o país enfrenta o risco do “dilema do alinhamento”, decorrente da dependência comercial da China e da cooperação estratégica com os EUA. Em um ambiente de polarização crescente, pressões regulatórias e tecnológicas tendem a intensificar-se, restringindo a margem de manobra diplomática.

Diante desse cenário, torna-se essencial adotar uma estratégia de inserção internacional baseada em autonomia tecnológica, fortalecimento industrial e diversificação produtiva, com investimentos consistentes em setores críticos como semicondutores, defesa, energia e minerais estratégicos. Mais do que escolher entre Washington ou Pequim, o desafio central consiste em construir um projeto nacional capaz de combinar pragmatismo, soberania decisória e protagonismo internacional em um sistema global cada vez mais competitivo.

 

Referências

ALBUQUERQUE, José Luiz; DA SILVA, Antônio Marcelo Jackson Ferreira; DA SILVA, José Medeiros. A Guerra Comercial entre China e Estados Unidos. Revista do Fórum Internacional de Ideias, v. 9, n. 1, p. 11, 2019.

CARVALHO, Monique Fernandes Pereira; AZEVEDO, André Filipe Zago de; MASSUQUETTI, Angélica. O Brasil no contexto da guerra comercial entre EUA e China. 2019. Disponível em: https://www.anpec.org.br/sul/2019/submissao/files_I/5-0835cda12a9792564cef6a42fd641bd a.pdf. Acesso em: 26 nov. 2025.

GONZÁLEZ GARCIA, Juan. G. Causas, evolución y perspectivas de la guerra comercial para China. Análisis Económico, v. 35, n. 89, p. 91–116, ago. 2020. Disponível em: http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2448-66552020000200091&lng=es&nrm=iso. Acesso em: 26 nov. 2025. Epub 13 nov. 2020.

MELO, Filipe Reis. A geopolítica das terras raras. Carta Internacional, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 219–243, 2017. DOI: 10.21530/ci.v12n2.2017.634. Disponível em: https://cartainternacional.abri.org.br/Carta/article/view/634. Acesso em: 26 nov. 2025.

PAUTASSO, D.; NOGARA, T. S.; UNGARETTI, C. R.; PRESTES RABELO, A. M. As três dimensões da guerra comercial entre China e EUA. Carta Internacional, [S. l.], v. 16, n. 2, p. e1122, 2021. DOI: 10.21530/ci.v16n2.2021.1122. Disponível em: https://cartainternacional.abri.org.br/Carta/article/view/1122. Acesso em: 26 nov. 2025.

VALLS, Lia. Avanços e recuos na guerra comercial Estados Unidos e China. Revista Conjuntura Econômica, v. 73, n. 6, p. 60–65, 2019.

VIEIRA, Elbert Valdiviezo; LINS, Fernando Antonio Freitas. Concentração de minérios de terras-raras: uma revisão. Rio de Janeiro: CETEM/CNPq, 1997. 53 p. (Série Tecnologia Mineral, 73).

WINTER-LEVY, Sam; LEICHT, Anton. The AI Divide: How U.S.-Chinese Competition Could Leave Most Countries Behind. Foreign Affairs, 10 fev. 2026. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/united-states/ai-divide. Acesso em: 12 fev. 2026.

 


[1] O relatório STM-73 integra a Série Tecnologia Mineral (STM) do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/CNPq). Trata-se de um estudo técnico especializado sobre ocorrência, caracterização e tecnologias de processamento de minérios de terras raras no Brasil, incluindo panoramas geológicos, rotas de beneficiamento e limitações estruturais nacionais.

[2] QUAD (Quadrilateral Security Dialogue): Mecanismo de cooperação estratégica entre Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia, voltado à segurança marítima, ao Indo-Pacífico livre e aberto e ao equilíbrio de poder na região.

 

[3] Acordo de parceria de segurança firmado entre Austrália, Reino Unido e EUA em 2021, voltado para defesa avançada, compartilhamento tecnológico e transferência de submarinos nucleares.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 25 de fevereiro 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Competição Estratégica EUA-China: Comércio, Tecnologia e Terras Raras - Impactos Sistêmicos e Implicações para o Brasil. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/competicao-estrategica-eua-china-comercio-tecnologia-e-terras-raras-impactos-sistemicos-e-implicacoes-para-o-brasil.

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