Especial Irã: Forças armadas do Irã e o atual cenário de conflito no Oriente Médio

João Gabriel Fischer Morais Rego
Doutorando em Ciências Militares do PPGCM da ECEME.

 

1. Introdução

Desde o advento da Revolução Islâmica de 1979, os Estados Unidos da América (EUA) e a República Islâmica do Irã romperam suas relações, ocorrendo diferentes episódios de hostilidades entre ambos os países. A rivalidade entre Washington e Teerã tem se acentuado nos últimos anos, principalmente desde as ações do grupo Hamas no dia 7 de outubro de 2023, que provocaram consequências para a região do Oriente Médio. Porém, pode-se notar uma ampliação da instabilidade geopolítica regional devido a variados fatores e eventos, desde o ataque do grupo palestino a Israel. Entre eles, está a atuação do Irã e de seus aliados regionais pertencentes ao Eixo da Resistência, assim como as ações dos Estados Unidos e de um dos seus principais aliados regionais, Israel.

Desta forma, já era possível observar um significativo aumento das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irã, mesmo antes do início do atual conflito no Oriente Médio, principalmente, no período entre os eventos do ataque do Hamas contra Israel e a atualidade. Neste contexto, podem ser destacados diferentes episódios de operações militares entre Irã e Israel, assim como entre seus respectivos aliados. O atual cenário de conflito entre Washington e Teerã foi construído através de décadas de ameaças de ambos os lados, ocorrendo um acentuado aumento das hostilidades nos últimos anos, motivado, principalmente, pelo desenvolvimento do programa nuclear iraniano.

O início do atual conflito dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica do Irã aconteceu depois de um significativo período de mobilizações militares dos EUA e de seus aliados na região do Oriente Médio.

Este artigo visa discorrer sobre as forças militares iranianas e analisar o desenvolvimento inicial do conflito, que se iniciou no dia 28 de fevereiro de 2026.

 

2. República Islâmica do Irã e as suas Forças Armadas

Quando se analisa a Defesa de uma nação, a preocupação com suas forças armadas faz-se imperativa. Porém, o Irã possui uma particularidade: o país possui na sua estrutura militar duas forças armadas; uma conhecida como Artesh, sendo vista como uma força militar convencional, e outra denominada de Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, também conhecido em inglês como Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Essas duas instituições militares iranianas possuem algumas diferenças nas suas funções. A Artesh tem como uma das suas principais finalidades nas estratégias iranianas a defesa da integridade territorial da República Islâmica, enquanto a Guarda Revolucionária possui tanto a responsabilidade de defender o Irã quanto a de proteger o regime do país. O IRGC é uma organização de múltiplas atuações, atingindo diferentes áreas, podendo ser vista como uma instituição de segurança, uma organização de inteligência, uma força social e cultural, além de uma complexa organização industrial e econômica no Irã (Ostovar, 2016).

A função desempenhada pela Guarda Revolucionária de defender o regime da República Islâmica auxiliou o IRGC a ascender como um dos principais instrumentos de Teerã em diferentes áreas. As ações dessa instituição militar iraniana, visando à proteção do regime, possibilitaram que a organização se expandisse para além da área militar do Irã. Isso transformou o IRGC em um ator com uma considerável influência em variados setores, como no político e econômico, entre outras áreas que podem ser vistas como estratégicas para o regime. Além disso, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e a Artesh também possuem as suas próprias organizações internas, tendo suas próprias Forças Terrestres, Navais, entre outras (Ostovar, 2016). A Força Terrestre da Artesh deve ser vista como a primeira linha de defesa contra possíveis invasores do território iraniano, enquanto a do IRGC, junto com à Basij, deve ser estabelecida como uma segunda linha de defesa do país, atuando como uma força de retaguarda em caso de hostilidade estrangeira. Estas duas organizações, assim como quase todo o IRGC, têm significativas capacidades para realizar guerra assimétrica e operações irregulares (Aryan, 2011).

Em períodos de guerra, as Forças Armadas da República Islâmica foram desenvolvidas para operar de forma conjunta para defenderem o país, como pode ser visto no atual cenário de conflito no Oriente Médio – embora, em períodos de paz, elas, geralmente, atuam em áreas separadas. Mas, observando algumas das organizações internas dessas instituições militares, a Marinha da Artesh supervisiona as operações e estratégias relacionadas à região do Mar Cáspio e na costa sul do território iraniano, enquanto a Força Naval do IRGC tem a responsabilidade de atuar no Golfo Pérsico. Além da área geográfica, os equipamentos e embarcações que ambas as instituições utilizam também possuem certas diferenças. A Artesh possui navios maiores, podendo ser vistos como mais tradicionais, enquanto o IRGC possui uma maioria de embarcações vistas como menores, incluindo milhares de lanchas levemente armadas (Ostovar, 2016).

No caso da Força Aérea da Artesh, ela controla uma quantidade maior de aeronaves em comparação com a Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária. Porém, a organização aeroespacial do IRGC possui o controle sobre certos programas estratégicos para o regime de Teerã, assim como para todas as Forças Armadas da República Islâmica. Entre esses programas, está o de mísseis balísticos de Teerã, sendo um instrumento relevante para as estratégias de defesa do Irã (Ostovar, 2016). A Artesh ainda possui uma outra instituição interna, a sua Força de Defesa Aérea. Criada em 2008, essa tem como um de seus principais objetivos fornecer um foco maior à doutrina de dissuasão do Irã, atuando na área de defesa aérea iraniana. Esta instituição militar opera radares, armamento antiaéreo, uma variedade de mísseis terra-ar, entre outros equipamentos militares de Teerã (Aryan, 2011).

Além do programa de mísseis balísticos, a Força Aeroespacial do IRGC consolidou-se como uma referência global no desenvolvimento e emprego de Veículos Aéreos Não Tripulados (UAVs). Esta capacidade técnica permite ao Irã realizar ataques de precisão e operações de vigilância com baixo custo operacional, complementando a força dos mísseis através de táticas de "saturação", que visam sobrecarregar os sistemas de defesa antiaérea adversários (Ostovar, 2016). A integração entre drones e mísseis balísticos forma o núcleo da estratégia de guerra assimétrica de Teerã, conferindo ao regime uma capacidade de retaliação de longo alcance que reduz a dependência de uma frota aérea convencional envelhecida. Assim, a sinergia entre a defesa aérea da Artesh e a ofensiva tecnológica do IRGC estabelece um complexo sistema de dissuasão multidimensional no atual conflito (Aryan, 2011).

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica ainda possui duas outras instituições relevantes para as estratégias iranianas, a Basij e a Força Quds. A Basij está presente em quase todos os níveis da sociedade da República Islâmica do Irã, principalmente por meio de divisões locais, estando relacionada a instituições educacionais, fábricas, mesquitas, entre outros lugares onde a organização tem conseguido realizar suas estratégias. Teerã buscou incentivar o desenvolvimento e a expansão da Basij, tendo como intenção a ampliação da influência ideológica e religiosa do Líder Supremo e do próprio regime iraniano. Esta instituição funciona especialmente como uma organização sociocultural, patrocinando e fornecendo apoio a eventos de orientação religiosa, tais ações visam aumentar a própria influência do regime de Teerã sobre a população. Além das atuações mencionadas, a Basij também possui a responsabilidade estratégica de operar no setor de segurança interna da República Islâmica do Irã, realizando atividades como o policiamento moral e ações de repressão contra protestos. Os níveis mais avançados da estrutura interna da Basij participam de operações armadas, inclusive como parte do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (Ostovar, 2016).

No caso da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, ela é a principal instituição iraniana que atua nas operações e estratégias de Teerã relacionadas ao Oriente Médio. Entre os objetivos para a criação da Força Quds, está o de liderar as ações e estratégias do IRGC contra Israel. Porém, desde o seu surgimento, houve a ampliação das suas responsabilidades, englobando a maioria das operações militares e sigilosas da Guarda Revolucionária. A Força Quds também é um dos principais instrumentos usados pela República Islâmica para expandir a sua influência no Oriente Médio. Ela possui a função de desenvolver e ajudar certos grupos armados aliados ao Irã na região, localizados fora das fronteiras da República Islâmica. A Força Quds auxilia as operações de alguns grupos armados, fornecendo treinamento, equipamento e financiando diferentes organizações para realizarem as suas atuações. As estratégias desta instituição do IRGC provocaram a formação de parcerias com variados grupos armados, como o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza, entre outros. Esta estratégia de alianças com diferentes atores transformou a Força Quds no principal instrumento de influência de Teerã e um relevante pilar na estratégia de defesa do Irã, além de permitir a atuação da República Islâmica do Irã em diferentes países do Oriente Médio (Ostovar, 2016).

 

3. Conflito entre Estados Unidos e Israel contra Irã e aliados

Em 28 de fevereiro de 2026, teve início o atual conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica do Irã. Os Estados Unidos nomearam a sua atuação como Epic Fury, enquanto Israel denominou sua ação de Roaring Lion. Estas operações utilizaram a estratégia de ataques aéreos contra diferentes alvos iranianos, como lideranças políticas e militares. Segundo a Tasnim News Agency (2026a), no início do conflito entre esses países, no Irã, estava acontecendo uma reunião do Conselho de Defesa, com a presença de diferentes lideranças militares iranianas, como o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, Comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, o secretário do Conselho de Defesa iraniano, o ministro da Defesa iraniano, entre outros atores da República Islâmica. Israel e Estados Unidos realizaram um ataque contra esta reunião, provocando a morte de diversas lideranças militares iranianas (Tasnim News Agency, 2026a). Esta ação pode ser observada como uma tentativa estadunidense e israelense de neutralizar a resposta iraniana ao ataque, que aconteceria logo após o bombardeio dos EUA e Israel.

Além da morte dessas importantes figuras do regime iraniano, o Líder Supremo do país, o Aiatolá Ali Khamenei, principal liderança iraniana em diferentes áreas, como a militar, foi morto em uma ação no primeiro dia de conflito. Khamenei ocupava o cargo desde 1989 (Tasnim News Agency, 2026a). O Líder Supremo pode ser visto como o comandante-em-chefe das Forças Armadas do país, detendo o poder de nomear e alterar os comandantes na hierarquia militar iraniana, entre outras capacidades que o Líder possui, estando no topo da estrutura de poder da República Islâmica do Irã (Katzman, 2021). Desta forma, a morte do Khamenei visava desestabilizar a estrutura de liderança do Irã em diferentes setores. O país já vinha sofrendo com frequentes protestos, como os recentes que se iniciaram no fim do ano de 2025.

Em resposta às ações dos Estados Unidos e de Israel, o regime iraniano iniciou a operação True Promise 4 contra diferentes alvos no Oriente Médio, como as bases militares estadunidenses localizadas em vários países da região e o território israelense. A operação iraniana expandiu o conflito para diferentes áreas que possuem alvos relacionados com os Estados Unidos, como os Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, entre outros (BBC News, 2026). Além desses alvos, as operações iranianas têm como objetivo atingir áreas no território israelense, utilizando a estratégia de ondas de mísseis e drones, visando acertar instalações militares de Israel. O IRGC tem buscado atingir as embarcações militares de seus adversários que estão sendo usadas para operar contra o território iraniano, como o porta-aviões estadunidense USS Abraham Lincoln (Tasnim News Agency, 2026b).

Parte dos aliados iranianos na região, como o Hezbollah no Líbano, também iniciou suas ações contra os adversários do Irã. O Hezbollah já realizou diversas operações neste conflito contra Israel, lançando mísseis e drones contra alvos no território israelense. Estas ações provocaram a intensificação das operações israelenses contra o grupo no território libanês, ampliando a área de instabilidade regional no Oriente Médio para outros países (Tasnim News Agency, 2026c). Desta forma, o atual conflito no Oriente Médio expandiu-se para múltiplas áreas, envolvendo diferentes países e atores na região.

Outra ação que o Irã está realizando, através do IRGC, é atuar contra a navegação de petroleiros relacionados aos Estados Unidos e a seus aliados no Golfo Pérsico — principalmente na rota do Estreito de Ormuz, por onde trafega parte significativa dos recursos energéticos mundiais. A Guarda Revolucionária já tem operado contra petroleiros na região, inclusive realizando ataques com mísseis a essas embarcações (Tasnim News Agency, 2026d). Esta ofensiva iraniana no Golfo Pérsico tem o potencial de desestabilizar o mercado global, devido à expressiva produção de hidrocarbonetos e à importância estratégica das rotas marítimas utilizadas. Com o eventual fechamento do Estreito de Ormuz, o escoamento da produção será comprometido, afetando severamente o comércio mundial de energia.

 

4. Conclusão

O atual cenário de conflito no Oriente Médio demonstra uma significativa possibilidade de ampliação da instabilidade regional, que já se expandia desde as ações do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Desde o ataque do grupo palestino, ocorreram diferentes episódios que acentuaram as hostilidades dos EUA e de Israel em relação ao Irã, alcançando um nível crítico com o início do atual conflito. As consequências da recente guerra regional podem ser variadas, especialmente devido aos efeitos provenientes das operações no Golfo Pérsico e ao fechamento do Estreito de Ormuz — relevante rota marítima utilizada por petroleiros —, afetando o mercado energético mundial de forma significativa.

As Forças Armadas iranianas têm demonstrado as suas capacidades militares em suas operações regionais, principalmente contra bases militares dos Estados Unidos e o território de Israel. Ademais, o IRGC possui uma relevante estratégia de guerra assimétrica, observada nas ações da Guarda Revolucionária no Golfo Pérsico contra petroleiros que utilizam a rota do Estreito de Ormuz. O poderio bélico iraniano manifestou-se em ataques quase simultâneos contra diversas bases estadunidenses em variados países do Oriente Médio. Contudo, o Irã tem sofrido prejuízos consideráveis devido às operações de Washington e Jerusalém, especialmente pelas mortes de chefias estratégicas e de seu principal líder, o Aiatolá Khamenei.

 

REFERÊNCIAS

 

ARYAN, Hossein. The Artesh: Iran’s Marginalized and Under-Armed Conventional Military. In: MIDDLE EAST INSTITUTE. The Artesh: Iran’s Marginalized Regular Military. Estados Unidos: Middle East Institute, 2011. p. 46-50.

 

BBC NEWS. In maps: Eight days of strikes across the Middle East. Londres, BBC News, 07 mar. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c4g0pnnj8xyo. Acesso em: 07 mar. 2026.

 

KATZMAN, Kenneth. Iran: Internal politics and U.S. policy and options. Washington, DC: Congressional Research Service, 29 jul. 2021. Disponível em: https://www.congress.gov/crs-product/RL32048.

 

OSTOVAR, Afshon. Vanguard of the Imam: Religion, Politics, and Iran’s Revolutionary Guards. Estados Unidos: Oxford University Press, 2016.

 

TASNIM NEWS AGENCY. Top Iranian generals confirmed martyred in US, Israeli strikes. Teerã: Tasnim News Agency, 1 mar. 2026a. Disponível em: https://tasnimnews. ir/en/news/2026/03/01/3528279/top-iranian-generals-confirmed-martyred-in-us-israeli-strikes.

 

TASNIM NEWS AGENCY. IRGC fires 4 ballistic missiles at US aircraft carrier. Teerã: Tasnim News Agency, 1 mar. 2026b. Disponível em: https://tasnimnews.ir/en/news/ 2026/03/01/3528721/irgc-fires-4-ballistic-missiles-at-us-aircraft-carrier. Acesso em: 7 mar. 2026.

 

TASNIM NEWS AGENCY. Hezbollah announces entering war of revenge against Israel. Tehran, Tasnim News Agency, 2 mar. 2026c. Disponível em: https://tasnimnews.ir/en/news/ 2026/03/02/3529038/hezbollah-announces-entering-war-of-revenge-against-israe. Acesso em: 7 mar. 2026.

 

TASNIM NEWS AGENCY. IRGC hits American oil tanker in Persian Gulf. Tehran, Tasnim News Agency, 5 mar. 2026d. Disponível em: https://tasnimnews.ir/en/news/ 2026/03/05/3532070/irgc-hits-american-oil-tanker-in-persian-gulf. Acesso em: 7 mar. 2026.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 18 de março de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Forças armadas do Irã e o atual cenário de conflito no Oriente Médio. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/forcas-armadas-do-ira-e-o-atual-cenario-de-conflito-no-oriente-medio.

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