Rodolfo Tristão Pina
Coronel veterano do Exército Brasileiro.
Analista do Observatório Militar da Praia Vermelha.
Introdução
O conflito entre EUA/Israel contra o Irã tem sido acompanhado com apreensão por todo o planeta, haja vista as repercussões que a guerra tem provocado na ordem internacional, notadamente os seus impactos geoeconômicos. Sob a lente da tomada de decisão, é possível analisar o conflito com base em alguns modelos, todos com capacidade de sustentar bons argumentos analíticos, a saber:
- Teoria dos jogos: modela arranjos entre os adversários, destacando a racionalidade, a interdependência e o comportamento estratégico, com o intuito de criar um cenário favorável às decisões vantajosas;
- Racionalidade limitada e heurísticas: mostra como as decisões são tomadas com informações incompletas e pressão de tempo, considerando vieses cognitivos e pensamento de grupo nas cúpulas de comando;
- Análise de conflitos em Relações Internacionais: estrutura que usa correntes teóricas do pensamento para explicar os eventos fora das fronteiras nacionais e as interações entre Estados;
- Sistemas de apoio à decisão e modelagem analítica: ferramentas que organizam múltiplas variáveis e preferências de decisores com apoio de dados, ajudando a ponderar opções em cenários de incerteza e de muitos atores; e
- Pensamento sistêmico: trata o conflito como um sistema vivo, adaptativo, no qual as partes isoladas não têm protagonismo, mas sim as suas interações e seus padrões.
A nossa escolha será por essa última abordagem, que se apoia na alternativa de tornar a complexidade da situação no Oriente Médio inteligível, na medida em que se busca a observância das interconexões entre os atores, das causas e de seus efeitos não lineares, espaçados no tempo, e das propriedades que surgem das relações estabelecidas.
“Sistêmico” conota uma forma organizada de pensar e proceder, em que é adotado como ideia nuclear o pressuposto da existência de “todos complexos” (CHECKLAND, 1990 apud KASPER, 2000, p.5). Assim, torna-se fundamental entender que pensar sobre a complexidade exige mudanças na própria forma de pensar sobre ela. Em termos corporativos, (DRUCKER, 1990 apud KASPER, 2000) afirma que o pensamento sistêmico oferece uma moldura conceitual para visualizar como cada decisão no negócio afeta a corporação como um todo.
Além de entender o problema de forma ampla, o pensamento sistêmico oferece alternativas para se buscar maior clareza nos efeitos das decisões tomadas. Nesse propósito, uma de suas propriedades, chamada de "ponto de alavancagem", trata das pequenas intervenções que podem gerar grandes mudanças, o que nos mostra uma nova leitura dos efeitos das decisões naquele cenário conflitivo, e que nos interessa como recorte analítico.
Sendo assim, o presente artigo lança luz sobre o pensamento sistêmico, utilizando os exemplos do mencionado conflito como ilustração, a fim de alcançar novas formas de pensar a guerra, a partir de sua compreensão sistêmica.
A organização da complexidade
“Crise”, “mudança” e “interdependência” são as três palavras que melhor expressam a realidade do mundo contemporâneo. O que para alguns se trata de um universo de novas possibilidades, para muitos é uma fonte de ameaças que traz insegurança (KASPER, 2000). Nesse sentido, um sistema pode ser definido como “uma unidade global organizada de inter-relações entre elementos, ações ou indivíduos” (MORIN, 1977, p.100) o que lhe confere aderência como modelo conceitual para caracterizar um fenômeno social como a guerra.
Pode parecer teórico demais – e essa é justamente uma das críticas a esse modelo – mas quando conseguimos enxergar a realidade como um organismo com entradas e saídas, loops de feedback de reforço e de estabilização, pontos de alavancagem e propriedades emergentes, fica mais fácil entender o cenário e onde podemos atuar para alterar as suas características, o que abre caminho para decisões mais assertivas.
Um dos principais modelos de funcionamento do pensamento sistêmico é o dos níveis de uma situação. Kemeny et al. (1995) sustentam que um bom pensador sistêmico é aquele que pode ver quatro níveis atuando simultaneamente: eventos, padrões de comportamento, sistemas e modelos mentais (MENEZES, 2008, p.46).
Figura 1: Níveis de pensamento sistêmico e a metáfora do iceberg

Fonte: Andrade et al, 2006 apud Menezes, 2008, p.47.
O evento é a percepção do problema em si, na visão do observador. Normalmente, ele provocaria respostas reativas, entretanto, na complexidade conjuntural, o desafio é entendê-lo nas circunstâncias que lhe são próprias. Aqui já não cabe a visão reducionista de olhar apenas para as partes diretamente, buscando fragmentar suas causas e efeitos. O conflito no Oriente Médio é um exercício de visão de uma complexidade única, pois extrapola a instabilidade e a geografia regional, a economia dos países envolvidos e a opinião pública doméstica de seus Estados.
No que tange aos padrões de comportamento, é importante buscar bases históricas, similaridades com outros comportamentos dos envolvidos e suas tendências. No caso em questão, não se trata somente de EUA/Israel e o Irã, mas de um campo de forças que inclui aliados regionais (como os grupos Hezbollah, Hamas e Houthis), potências extrarregionais (Estados nucleares como China, Rússia e Paquistão) e o sistema global de energia e comércio.
A terceira camada refere-se à estrutura sistêmica e aqui podemos ver como o sistema é dinâmico, pois cada ataque, sanção ou bloqueio, consegue alimentar reações que, por sua vez, reforçam ou arrefecem o conflito (esses são os chamados loops de feedback).
Senge et al. (1995 apud MENEZES, 2008) escreveram que nas representações sistêmicas existem basicamente dois tipos de construções: enlaces reforçadores e de equilíbrio. A escalada militar é um loop do tipo reforço. Quanto mais ataques dos EUA/Israel ocorrem, mais retaliações iranianas são vistas, aumentando a intensidade do conflito. Outro loop de reforço é a radicalização interna no Irã ao se sentir ameaçado, o que fortalece a narrativa de resistência e alimenta novas ações de seus aliados. A lógica aqui é entender que uma ação reforça várias outras.
Já o loop de estabilização tende a promover o equilíbrio do sistema. Por exemplo, o aumento do custo econômico global (a alta do petróleo e os mercados tornando-se voláteis) gera uma pressão interna e externa nos países envolvidos para recuar e evitar a guerra, o que tende a restaurar certo equilíbrio. O custo político da escalada militar também funciona como um ciclo de feedback de estabilização, na medida em que os danos colaterais provocados sobre a população civil sensibilizam a opinião pública mundial e pressionam pela redução da letalidade.
A despeito da real motivação dos partícipes diretos, o fato de atuar sobre os ciclos de feedback torna claro quais loops aumentam a escalada e quais tendem a estabilizar o sistema. Decisões de intervenção que enfraquecem os primeiros e fortalecem os segundos serão decisões eficazes no caminho do arrefecimento da crise.
Reduzir o ganho dos chamados ciclos de retaliação (por exemplo: promover acordos de limitação de ataques de alto impacto em infraestruturas críticas ou nos petroleiros que passam pelo Estreito de Ormuz), bem como romper a lógica de que recuar demonstra fraqueza (criando canais de comunicação explícitos de negociação) são medidas que podem garantir uma certa liberdade de ação política e até mesmo uma legitimidade relativa de propósito perante a opinião pública doméstica. Além disso, intensificar a participação de uma diplomacia multilateral, envolvendo outros países como contrapesos para evitar excessos unilaterais, constitui uma estratégia de fortalecimento de ciclos de feedback estabilizadores.
Identificar os pontos de alavancagem também faz toda a diferença, já que eles terão impacto profundo sobre o cenário. São ações que desencadeiam uma forte modificação na dinâmica do sistema, influindo fortemente no seu funcionamento. Uma estratégia de alavancagem seria redefinir objetivos estratégicos, abandonando a lógica de que os EUA/Israel querem derrubar o regime iraniano, e que o Irã pretende se opor ao modelo de vida no Ocidente. Criar, por exemplo, objetivos compartilhados, como evitar o colapso do Estreito de Ormuz, buscar a contenção de programas nucleares via acordos, e garantir a não destruição mútua, estabelecem formas de alavancar o sistema na direção de um cessar-fogo e na contenção de hostilidades de forma duradoura.
Mudar as regras do jogo também funciona como alavancagem, pois altera as estruturas de poder. Criar ou fortalecer, por exemplo, mecanismos de segurança regional conjunta (acordos de desescalada militar no Golfo Pérsico ou a criação de zonas de exclusão de armas de longo alcance), paralisa os feedbacks de reforço, criando espaço para negociações em substituição às decisões baseadas no “tudo ou nada”.
No pensamento sistêmico, as propriedades essenciais são as propriedades do todo, chamadas de propriedades emergentes. Elas surgem das relações e do padrão de organização entre os diversos elementos. Quando quebramos o sistema em partes isoladas, essas propriedades emergentes deixam de existir, pois dependem das interconexões sistêmicas.
Uma propriedade emergente central no conflito entre EUA/Israel e o Irã é o estado de guerra prolongada e assimétrica, no qual a combinação de ações militares, econômicas e geopolíticas não produz um vencedor claro, mas sim um campo de hostilidades contínuas, que se espalham por rotas energéticas, mercados globais e redes regionais de aliados.
Essa propriedade tem sido bem explorada pelo Irã, na medida em que utiliza sua localização estratégica junto ao Estreito de Ormuz e sua capacidade de pressionar o preço do petróleo e de fertilizantes para criar uma distribuição de custos também assimétrica. Grande parte desse impacto recai sobre economias dependentes de energia e das cadeias de suprimento globais, influenciando muito além do teatro militar imediato.
Esse padrão, por sua vez, reconfigura alianças e antagonismos regionais e globais, contribuindo para um equilíbrio instável e dificultando sobremaneira as decisões com impactos pontuais e restritos por parte dos EUA e de Israel, o que seria o melhor cenário para esses partícipes. Em outra perspectiva, considerar a análise linear nesse caso concreto, buscando uma causa-raiz para as ações dos países em conflito, pode limitar a real compreensão do que realmente está em jogo, mascarando os sistemas de feedbacks, o que pode simplesmente deslocar o problema real, gerando novas crises.
Por fim, a quarta camada e mais profunda trata dos modelos mentais dos envolvidos. Essa camada eleva o nível de complexidade em sistemas sociais, pois envolve as construções humanas, suas crenças e valores.
A lógica sistêmica, em certa medida, contrasta com o princípio clausewitziano de Centro de Gravidade (CG), aspecto de uma doutrina militar consolidada e referendada que, em linhas gerais, busca a identificação do elemento essencial que sustenta a capacidade de luta do oponente. Do ponto de vista sistêmico, é controverso pensar na identificação clara de um CG e de que a ação sobre ele terá o efeito derradeiro (derrubar uma liderança, mudar uma política de governo específica). O conflito é sustentado por múltiplos canais de ressentimento, histórias, interesses econômicos e alianças que se alimentam entre si, tornando difícil a aplicação do conceito de CG. Como vimos, a ótica sistêmica elenca pontos de alavancagem e ciclos de feedback destrutivos e equilibradores. Identificar esses padrões e atuar sobre eles sugere maior eficácia na tomada de decisão.
Além do conceito de Centro de Gravidade, o conflito no Oriente Médio também expõe outros paradigmas, como o uso da expressão do poder militar superior para alcançar os objetivos políticos pretendidos. Naquele cenário complexo, fica notório que a mesma tecnologia que dá superioridade armada à aliança israelo-americana oferece recursos de baixo custo com capacidade para reduzir as assimetrias em prol do Irã, o que embora não coloque em xeque a capacidade de pressão do hard power, abre um precedente para se pensar no verdadeiro alcance político de uma vitória no campo militar.
Considerações finais
Há muito o que se considerar em pensamento sistêmico, mas o presente trabalho tentou mostrar como ele pode ser útil no momento atual. Ficou notório que a ótica sistêmica pode ser uma ferramenta para mapear os problemas (eventos) em suas mais ocultas nuances, bem como fornecer alternativas sustentáveis para robustecer o processo decisório.
O grau de complexidade envolvido nos conflitos modernos traz à reflexão o que Samuel P. Huntington chamou de Controle Civil Objetivo (o modelo ideal), quando escreveu “O Soldado e o Estado (1957)”, no qual os civis definem por que e quando lutar (política) e os militares definem como lutar (técnica). Há que se considerar que o planejador das forças armadas na atualidade precisa buscar entender o contexto sistêmico do poder militar muito além dos efeitos cinéticos e não cinéticos da campanha, sob o risco de vencer batalhas, mas, ao fim e ao cabo, perder a guerra.
Por fim, a complexidade atual exige a tomada de decisão em ambientes de incerteza, mas o pensamento sistêmico não desacredita o processo de planejamento e condução das operações. Ele auxilia na estratégia de sondar, entender e responder por meio de feedbacks que vão promover o aprendizado e a adaptabilidade necessárias, a partir da identificação de padrões decisórios equivocados.
Referências bibliográficas
HUNTINGTON, Samuel P. O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1996.
KASPER, Humberto. O processo de pensamento sistêmico: um estudo das principais abordagens a partir de um quadro de referência proposto. 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.
MENEZES, Felipe Moraes. Proposta de desenvolvimento de um método sistêmico de formulação estratégica integrada, integrando planejamento estratégico, pensamento sistêmico e planejamento por cenários. 2008. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção e Sistemas) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e Sistemas, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2008.
MORIN, Edgar. O método 1: a natureza da natureza. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 1977.
Rio de Janeiro - RJ, 27 de maio de 2026.
Como citar este documento:
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O que o pensamento sistêmico nos ensina sobre a guerra no Oriente Médio e seus efeitos sobre a tomada de decisão. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/o-que-o-pensamento-sistemico-nos-ensina-sobre-a-guerra-no-oriente-medio-e-seus-efeitos-sobre-a-tomada-de-decisao.