Gustavo Godoy Ribeiro da Silva
Major do Serviço de Intendência.
Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército.
Renato Cavalcanti Ferreira
Major da Arma de Infantaria.
Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército.
1. Introdução
Conflitos internacionais raramente produzem efeitos confinados e isolados. Em ambientes estratégicos marcados pela competição entre grandes potências e por múltiplas crises simultâneas, ações militares relevantes tendem a gerar ondas de choque que alteram percepções, prioridades e decisões em diferentes esferas de poder. A recente escalada envolvendo ataques conduzidos pelos Estados Unidos da América (EUA), em coordenação com Israel, contra alvos associados ao aparato estratégico iraniano deve ser interpretada sob essa perspectiva ampliada. Operações dessa natureza não produzem apenas efeitos militares imediatos, mas também ampliam as incertezas quanto à evolução do programa nuclear iraniano, à estabilidade regional e à disposição das partes em sustentar custos prolongados (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026). Nesse sentido, mesmo antes da confirmação definitiva de desdobramentos internos em Teerã, o episódio já alterou expectativas estratégicas no sistema internacional (SI).
Do ponto de vista teórico, a crise se desenvolve sob dinâmica compatível com o conceito clássico de “névoa da guerra”. Clausewitz argumenta que os conflitos são atravessados por fricções, informações imperfeitas e limitações cognitivas que reduzem a capacidade de controle racional dos acontecimentos. Em cenários contemporâneos, essa névoa é frequentemente ampliada por disputas de narrativas e pela instrumentalização política de anúncios e ameaças, aumentando o ruído estratégico e elevando o risco de erros de cálculo (Gomes, 2024).
Nesse contexto, o Oriente Médio (OM) permanece um espaço central na interseção entre energia, rivalidades regionais e interesses das grandes potências. Contudo, a escalada envolvendo o Irã não ocorre em um vazio estratégico. Conforme argumenta Kimmage (2025), a política externa contemporânea dos EUA opera sob múltiplas pressões simultâneas, tornando a gestão de prioridades um fator crítico para a manutenção de sua influência global. Assim, a abertura ou intensificação de uma frente no OM interage diretamente com outros teatros estratégicos, incluindo a guerra na Ucrânia e a competição sino-americana no Indo-Pacífico (Cooper, 2026).Além disso, o histórico recente das negociações nucleares demonstra que a crise atual se insere em um contexto de sucessivos impasses diplomáticos associado à lógica de “pressão máxima”, o que reduziu incentivos ao compromisso pacífico. Nesse ambiente, a escalada militar tende a ser interpretada não apenas como um evento tático, mas também como um sinal político capaz de influenciar expectativas sobre o futuro do regime iraniano de não proliferação e sobre a disposição das partes em retomar canais diplomáticos (Garmsiri; Zarif, 2025; Kahalzadeh, 2021).
Diante desse cenário, este artigo sustenta que o ataque ao Irã não deve ser compreendido como um episódio isolado, mas como um movimento capaz de desencadear ajustes sistêmicos mais amplos. Ao examinar os possíveis comportamentos de Rússia e China, as implicações para a segurança energética e os impactos diplomáticos e econômicos para o Brasil, busca-se responder à seguinte questão: como essa escalada altera o equilíbrio estratégico global e quais desdobramentos emergem para atores médios inseridos em um ambiente internacional fragmentado e competitivo?
2. O fato gerador e a escalada regional
O ponto de inflexão recente no tabuleiro geopolítico decorre dos ataques conduzidos em coordenação político-militar entre os EUA e Israel contra alvos associados ao programa nuclear e à infraestrutura estratégica iraniana. Segundo Rodgers e Schiff (2026), operações desse tipo buscam degradar capacidades sensíveis e restabelecer a dissuasão, estabelecendo um “alto padrão de sucesso”. No entanto, caso não produzam resultados estratégicos verificáveis, essas ações podem gerar efeitos colaterais relevantes, ampliando custos e criando incentivos para ciclos subsequentes de escalada (Byman, 2026).
Do ponto de vista iraniano, a expectativa predominante na literatura recente é de uma retaliação assimétrica e calibrada. Swanson (2026) argumenta que, diante da superioridade militar convencional dos EUA, Teerã tende a privilegiar instrumentos indiretos capazes de impor custos sem ultrapassar limiares que levem a uma guerra aberta. Entre esses instrumentos estão a coerção marítima em rotas energéticas, o emprego indireto de mísseis e drones por parceiros regionais e a possível ativação de capacidades cibernéticas (CSIS, 2026).
A literatura sobre o histórico das negociações nucleares reforça que a escalada atual não surge em um vazio político. Garmsiri e Zarif (2025) destacam que a erosão do acordo nuclear de 2015 e o fracasso em estabilizar mecanismos de contenção ampliaram a desconfiança entre as partes e reduziram incentivos a compromissos graduais. Kahalzadeh (2021), ao analisar os efeitos da política de “pressão máxima”, sustenta que sanções prolongadas e isolamento diplomático contribuíram para endurecer a postura política em Teerã, aprofundando um ambiente negociador já fragilizado.
O risco mais sensível, portanto, reside na regionalização do conflito por meio de redes aliadas e da pressão sobre gargalos estratégicos. Além do Estreito de Ormuz, a instabilidade em Bab el-Mandeb (corredor que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por extensão, ao Canal de Suez) pode produzir efeitos sistêmicos ao afetar simultaneamente fluxos energéticos e cadeias logísticas globais, especialmente diante de ataques conduzidos por grupos alinhados a Teerã, como os Houthis no Iêmen (Swanson, 2026). Esse vetor se soma à possibilidade de ativação coordenada de atores vinculados ao chamado “eixo de resistência”, como o Hezbollah no Líbano e, na Faixa de Gaza, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina. A atuação desses grupos amplia o teatro de operações (TO) e eleva custos estratégicos sem exigir confronto convencional direto, sob lógica de negação plausível e escalada calibrada.
Dessa forma, um conflito que poderia ser interpretado como um episódio bilateral entre Washington e Teerã passa a assumir contornos sistêmicos mais amplos. Ao recolocar a variável nuclear no centro da agenda estratégica e tensionar rotas energéticas críticas, a crise ultrapassa a dimensão local e reforça a centralidade do OM no cálculo estratégico de grandes potências e atores regionais (Kimmage, 2025; Swanson, 2026).
3. Dimensão profunda – Como o sistema internacional se organiza
3.1 Energia e rotas críticas como mecanismos de transmissão sistêmica
A variável energética constitui o primeiro mecanismo estrutural de reorganização sistêmica decorrente da escalada. A centralidade dos chokepoints (pontos de estrangulamento) marítimos do OM, especialmente o Estreito de Ormuz, Bab el-Mandeb e o Canal de Suez, revela uma arquitetura de vulnerabilidade concentrada, na qual a instabilidade regional tende a gerar efeitos de difusão sobre a segurança energética e o comércio global. Nunes e Visentini (2018) demonstram que essas passagens formam um subcomplexo estratégico cuja vulnerabilidade possui consequências estruturais, pois concentram fluxos críticos de hidrocarbonetos e conectam áreas produtoras a grandes mercados consumidores.
Mesmo na ausência de interrupção material prolongada, a elevação do risco percebido sobre essas rotas tende a ampliar a margem de risco, pressionando contratos futuros, seguros, fretes e custos logísticos globais. Swanson (2026) sustenta que o Irã dispõe de instrumentos para impor custos indiretos aos EUA e a seus aliados por meio de pressões sobre fluxos globais de petróleo e transporte marítimo, inclusive com potencial incentivo a incidentes no Mar Vermelho e ações seletivas contra embarcações comerciais. Nessa lógica, não é necessário um bloqueio total para produzir efeitos econômicos relevantes: a percepção de vulnerabilidade já induz reprecificação e comportamentos defensivos.
De modo convergente, análises do CSIS indicam que o impacto energético pode derivar não apenas de Ormuz, mas também de ações contra infraestrutura de produção, oleodutos e navios, ampliando a instabilidade mesmo sob ataques limitados (CSIS, 2026). Os fatos históricos indicam que a fragilização das rotas energéticas críticas tende a produzir efeitos em cascata sobre inflação, política monetária e cadeias industriais globais, reforçando o papel da energia e da logística como infraestruturas estratégicas do poder (Swanson, 2026; CSIS, 2026).
Essa dimensão estrutural também se conecta à evolução da política energética das grandes potências. Cherem e Marques (2024) indicam que, da administração Bush à Biden, a energia deixou de ser apenas uma variável econômica e passou a operar como instrumento de projeção estratégica e contenção geopolítica, articulando segurança energética e estratégia de poder em escala global. Em síntese, a energia não constitui mero efeito colateral da crise: ela opera como um mecanismo central de difusão sistêmica, elevando custos, ampliando incertezas e projetando a escalada regional para além do OM (CSIS, 2026; Swanson, 2026).
3.2 Negociação nuclear, “linhas vermelhas” e dinâmica de escalada
O segundo mecanismo de reorganização sistêmica decorre da interação entre ação militar e impasse diplomático no campo nuclear. Rodgers e Schiff (2026) observam que ataques contra instalações estratégicas podem reduzir riscos imediatos de avanço técnico, mas ao mesmo tempo introduzem incertezas quanto ao paradeiro de materiais enriquecidos e à dispersão de especialistas, gerando riscos no médio prazo. Essa ambivalência reforça a natureza estrutural da crise: ganhos táticos podem gerar vulnerabilidades estratégicas quando não acompanhados de mecanismos políticos capazes de estabilizar expectativas.
O histórico recente das negociações nucleares reforça essa interpretação. Garmsiri e Zarif (2025) argumentam que o fracasso em restaurar mecanismos estáveis de contenção aprofundou desconfianças mútuas e reduziu o espaço político para compromissos graduais. Kahalzadeh (2021), ao analisar os efeitos da estratégia de “pressão máxima”, sustenta que sanções prolongadas endureceram o ambiente doméstico iraniano, fortalecendo setores menos inclinados a concessões.
Além das variáveis materiais, a literatura construtivista acrescenta um elemento relevante: identidades estratégicas e narrativas políticas moldam percepções de ameaça e margens de compromisso. Aguiar (2025) demonstra que a diplomacia nuclear iraniana se articula a narrativas de soberania, resistência e reconhecimento internacional, influenciando a aceitabilidade política de concessões e, consequentemente, a delimitação de “linhas vermelhas[1]”.
Em paralelo, Motamedi (2026) destaca que as conversas entre EUA e Irã permanecem atravessadas por desacordos sobre parâmetros de conformidade, etapas de verificação e exigências consideradas “inegociáveis”. Esse cenário tende reduzir margens para fórmulas intermediárias de compromisso. Nesse contexto, ataques militares não operam em vazio diplomático: interagem com negociações fragilizadas e com identidades estratégicas mais rígidas, elevando o risco de inflexibilização adicional das “linhas vermelhas” (Garmsiri; Zarif, 2025; Kahalzadeh, 2021; Motamedi, 2026; Aguiar, 2025). Swanson (2026) acrescenta que, diante de ações militares diretas, a tendência iraniana é privilegiar retaliação indireta e escalada gradual, reduzindo a probabilidade de encerramento rápido da crise e ampliando a interação entre vetores nuclear, marítimo, regional e cibernético.
3.3 Sobrecarga estratégica, custo de presença e efeito de precedente
O terceiro mecanismo refere-se à sobrecarga estratégica e ao custo político de sustentar a presença militar. Os EUA mantêm presença significativa no OM, estimada em dezenas de milhares de efetivos distribuídos em bases na região, o que amplia vulnerabilidades em caso de retaliação iraniana (Swanson, 2026). A proteção de instalações, rotas marítimas e aliados regionais impõe custos materiais e políticos crescentes, sobretudo quando combinada a compromissos simultâneos em outros teatros estratégicos. Esse cenário expõe limites práticos para a sustentação da primazia sem custos crescentes de desgaste e dispersão estratégica (Miller, 2026).
Kimmage (2025) argumenta que a política externa contemporânea dos EUA opera sob restrições de atenção estratégica e legitimidade doméstica, tornando a administração de múltiplas crises um desafio central para a manutenção de primazia. De modo convergente, Cooper (2026) sustenta que a capacidade dos EUA de sustentar influência no Indo-Pacífico depende de escolhas seletivas e gestão cuidadosa de compromissos globais. A abertura ou intensificação de uma frente no OM, portanto, gera trade-offs (trocas compensatórias) materiais e políticos que podem repercutir em outros tabuleiros estratégicos.
Há ainda o chamado efeito de precedente. Quando uma grande potência amplia o emprego da força em determinado TO, outros atores passam a reinterpretar os limites do aceitável e recalibrar suas matrizes de risco. Segundo Byman (2026), operações militares que não produzem resultados claros podem sinalizar vulnerabilidade ou dispersão estratégica, incentivando rivais a testar limites em arenas concorrentes. O precedente, nesse sentido, é político-militar: sinaliza disposição para sustentar custos, mas também expõe a elasticidade das coalizões e da atenção estratégica.
Em conjunto, esses mecanismos (energia, impasse nuclear e sobrecarga estratégica) indicam que a crise ultrapassa a dimensão regional. Ela reorganiza prioridades, redistribui riscos e altera cálculos de dissuasão no sistema internacional, reforçando a transição para um ambiente de competição mais intensa e menos previsível.
4. EUA e Israel: objetivos, risco de prolongamento e “barra alta” de sucesso
No curto prazo, ataques coordenados tendem a perseguir três objetivos estratégicos principais: degradar capacidades sensíveis ligadas ao programa nuclear iraniano, reduzir a eficácia do ecossistema de coerção indireta de Teerã (redes e parceiros regionais) e redefinir os termos da dissuasão regional em bases mais favoráveis a Washington e Tel Aviv. Essa lógica se conecta ao entendimento de que, em ambientes de competição prolongada, a credibilidade da dissuasão depende não apenas de capacidades militares, mas também de sinais claros de disposição para impor custos ao adversário (Swanson, 2026; Rodgers; Schiff, 2026).
O problema central é que o conceito de “sucesso” nesse tipo de campanha envolve um padrão elevado. Os objetivos precisam ser claros, verificáveis e sustentáveis mesmo diante de escalada. Caso contrário, a operação pode elevar o custo político e militar de encerrar o conflito. Byman (2026) argumenta que a condução do esforço EUA–Israel estabelece uma “barra alta” de resultados e aumenta o risco de que, na ausência de critérios claros de término, a guerra se prolongue por inércia estratégica, gerando custos cumulativos de legitimidade, coesão de coalizão e presença militar.
A literatura também indica que operações punitivas ou “cirúrgicas” frequentemente produzem um paradoxo estratégico. Embora imponham danos imediatos, podem ampliar incentivos para retaliação assimétrica e prolongar ciclos de escalada, sobretudo quando os canais diplomáticos se encontram bloqueados ou politicamente fragilizados. Swanson (2026) destaca que, diante de ataques diretos, o Irã tende a buscar mecanismos de resposta capazes de elevar custos ao adversário sem simetria militar, o que aumenta a duração provável da crise e dificulta uma saída de baixo custo.
Além disso, a ampliação dos custos de presença tende a ser quase automática. O aumento de escoltas marítimas, defesa aérea regional, proteção de bases, vigilância de inteligência e prontidão para responder a ataques distribuídos eleva o custo operacional da campanha. Swanson (2026) observa que a presença militar norte-americana no OM cria um amplo conjunto de vulnerabilidades potenciais, pressionando o processo decisório e aumentando o risco de escalada gerencial, não por intenção de ocupação, mas pelo encadeamento de retaliações, contra-retaliações e medidas de proteção de ativos estratégicos.
5. Irã: coesão doméstica, retaliação assimétrica e coerção indireta
Do lado iraniano, a questão central não é apenas se haverá retaliação, mas de que forma ela ocorrerá. O desafio para Teerã é responder preservando coesão doméstica, prestígio político e capacidade de barganha internacional. Em cenários marcados por forte fricção informacional, choques de liderança tendem a elevar pressões internas por respostas simbólicas e por ações indiretas que demonstrem resiliência do regime. Choksy e Choksy (2026) destacam que a estabilidade política iraniana depende de equilíbrios internos delicados e que choques abruptos podem intensificar disputas entre facções, influenciando o cálculo entre escalada e contenção.
As análises disponíveis indicam que a resposta mais provável é assimétrica e gradual. Diante da superioridade militar convencional dos EUA, o Irã tende a explorar vulnerabilidades distribuídas (rotas marítimas, infraestrutura energética, logística, ciberespaço e redes regionais) em vez de buscar confronto direto. Swanson (2026) argumenta que esse repertório inclui coerção marítima, ataques indiretos por parceiros e ações contra infraestruturas sensíveis, com o objetivo de impor custos políticos e econômicos sem ultrapassar imediatamente o limiar de uma guerra convencional.
Esse comportamento também se relaciona ao contexto diplomático deteriorado. Garmsiri e Zarif (2025) sustentam que a ausência de um arranjo estável para o impasse nuclear cria incentivos para o uso recorrente da força e reduz a credibilidade de compromissos graduais. Kahalzadeh (2021) acrescenta que estratégias prolongadas de coerção econômica tendem a endurecer posições internas e fortalecer setores menos inclinados à concessão, o que torna respostas indiretas e de desgaste incremental mais prováveis em momentos de crise.
No plano técnico-operacional, análises do CSIS indicam que ataques contra instalações e capacidades estratégicas iranianas podem gerar efeitos ambivalentes: reduzem capacidades no curto prazo, mas ampliam incertezas sobre dispersão de ativos e sobre as escolhas futuras do regime. Esse cenário reforça a probabilidade de respostas distribuídas, incluindo operações cibernéticas e ações irregulares, como forma de elevar custos e preservar margem de manobra estratégica (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026).
6. Rússia: benefício indireto por competição de prioridades e saturação estratégica
Embora a Rússia não seja parte direta do TO, a escalada no OM pode gerar ganhos indiretos ao redistribuir atenção e recursos do Ocidente. O principal mecanismo é a competição de prioridades: quando os EUA precisam reforçar presença militar, proteger ativos e administrar a escalada, aumentam os custos de oportunidade em outros tabuleiros estratégicos. Swanson (2026) descreve justamente esse risco de prolongamento da crise e de ampliação dos custos de presença.
Esse efeito é consistente com análises mais amplas sobre os limites práticos da primazia norte-americana. Kimmage (2025) argumenta que a política externa dos EUA opera sob restrições de seletividade estratégica e que crises simultâneas ampliam fricções domésticas e entre aliados, reduzindo a capacidade de sustentar múltiplos compromissos com a mesma intensidade. Nesse contexto, mesmo sem adotar posicionamentos diplomáticos formais, Moscou pode explorar janelas de oportunidade criadas pela saturação decisória e pela disputa por recursos, estoques militares e atenção política. Entre essas possibilidades, destacam-se o aumento das exportações de hidrocarbonetos para países dependentes do petróleo iraniano, preenchendo eventuais lacunas no mercado energético internacional, e a intensificação da pressão militar sobre Kiev.
Trata-se, portanto, de uma inferência cautelosa. Se a crise impõe custos adicionais de presença e escalada aos EUA, é plausível que aumente a pressão sobre a alocação de recursos estratégicos e, consequentemente, amplie incentivos para Moscou testar limites no teatro europeu. O argumento não implica ganho automático para a Rússia, mas sugere uma recalibragem de riscos em um ambiente de recursos finitos (Swanson, 2026; Kimmage, 2025).
7. China: choque de custos, segurança econômica e ruído estratégico no Indo-Pacífico
Para a China, os efeitos da crise se manifestam principalmente por dois canais: geoeconômico e estratégico. No plano econômico, o aumento do prêmio de risco sobre energia e rotas marítimas tende a elevar custos industriais e reduzir previsibilidade econômica, fatores sensíveis para uma potência engajada em competição tecnológica de longo prazo. Swanson (2026) observa que a coerção marítima e o tensionamento das rotas energéticas podem elevar custos globais de transporte e petróleo, afetando economias industriais profundamente integradas às cadeias de suprimento globais.
No plano estratégico, crises simultâneas ampliam a sobrecarga norte-americana e aumentam o ruído estratégico no Indo-Pacífico. Cooper (2026) argumenta que a capacidade dos EUA de sustentar influência regional depende de foco estratégico, credibilidade e gestão eficiente de compromissos. Kimmage (2025) acrescenta que a seletividade estratégica se torna essencial quando múltiplas frentes competem por recursos e atenção. Nesse cenário, uma escalada prolongada no OM pode alterar o cálculo de risco no Estreito de Taiwan, não como determinismo, mas como recalibragem de incentivos e maior propensão a demonstrações coercitivas.
Há ainda um pano de fundo estrutural associado à competição tecnológica entre EUA e China. Winter-Levy e Leicht (2026) destacam que a concentração de capacidades avançadas, como inteligência artificial e infraestrutura computacional, cria dependências e vulnerabilidades persistentes para países que não controlam essas plataformas. Em disputas geopolíticas prolongadas, choques que pressionem energia, logística e planejamento econômico tornam-se particularmente relevantes para a segurança estratégica.
8. Europa e Golfo Pérsico: vulnerabilidade político-econômica e incentivos à desescalada
Para a Europa, os impactos tendem a ser principalmente político-econômicos. A elevação dos preços da energia, o aumento dos custos logísticos e a instabilidade prolongada ampliam pressões domésticas e dificultam a formação de consensos políticos, especialmente em um contexto já marcado por tensões internas relacionadas à segurança, inflação e migração. O mecanismo energético descrito por Swanson (2026), a exemplo da pressão sobre rotas e custos, sustenta essa leitura de vulnerabilidade indireta.
No Golfo Pérsico, por sua vez, prevalecem incentivos à desescalada, embora acompanhados de riscos relevantes. O CSIS (2026) observa que, em cenários de escalada regional, os Estados do Golfo Pérsico precisam ajustar suas posturas para reduzir a probabilidade de serem diretamente arrastados para o conflito. Ao mesmo tempo, enfrentam riscos concretos à infraestrutura energética e à estabilidade econômica. Essa ambiguidade aumenta a probabilidade de realinhamentos táticos e decisões defensivas rápidas, contribuindo para maior instabilidade.
9. Escalada assimétrica e risco transnacional: a internacionalização da instabilidade
Um vetor adicional, decisivo para compreender a dimensão sistêmica da crise, é o risco transnacional associado à escalada assimétrica. Quando retaliações são distribuídas por redes e instrumentos indiretos, o conflito pode transbordar do teatro regional para infraestruturas críticas e sistemas de segurança interna de diversos países. Swanson (2026) argumenta que a lógica estratégica iraniana privilegia coerção distribuída (marítima, energética e por intermédio de parceiros), ampliando custos e imprevisibilidade.
Além disso, análises do CSIS (2026) indicam que, em cenários de guerra prolongada, cresce a probabilidade de ações irregulares e operações cibernéticas integradas ao ciclo de escalada. Esse tipo de dinâmica amplia o custo sistêmico do conflito ao afetar cadeias econômicas, infraestruturas críticas e mecanismos de resiliência doméstica.
Nesse contexto, o risco não deve ser interpretado como inevitabilidade de uma “onda terrorista”, mas como aumento de vulnerabilidades em um ambiente marcado por conflito assimétrico e negação plausível. Esse transbordamento é justamente o elemento que transforma uma crise regional em fator de instabilidade global: quando os custos passam a envolver economia, infraestrutura e segurança interna, o tabuleiro estratégico se amplia e obriga diferentes atores a recalibrar prioridades simultaneamente (Rodgers; Schiff, 2026; Swanson, 2026).
10. Implicações para o Brasil
No plano econômico, a principal via de transmissão da crise para o Brasil é a combinação entre energia e logística. A literatura sugere que a coerção indireta iraniana pode incidir sobre fluxos globais de petróleo e sobre o transporte marítimo global, elevando prêmios de risco e pressionando custos de frete e seguros (Swanson, 2026). De modo convergente, análises do CSIS indicam que ações contra rotas críticas e infraestrutura energética podem gerar efeitos sistêmicos mesmo sem interrupção total do fluxo, pois a simples elevação do risco percebido já tende a impactar preços e cadeias produtivas (CSIS, 2026). Para uma economia como a brasileira, cujas cadeias são intensivas em transporte, dependência de fertilizantes importados e sensibilidade a preços de combustíveis, choques desse tipo podem pressionar inflação, câmbio e a margem de manobra da política econômica.
O segundo canal é o diplomático. A crise reforça um dilema típico de potências médias: preservar relações funcionais com os EUA e parceiros ocidentais, sem perder capacidade de interlocução com o Sul Global e com a China (maior parceira comercial do Brasil). Pautasso et al. (2021) argumentam que, em ambientes polarizados, a equidistância pragmática se torna mais custosa, porque decisões e posicionamentos passam a ser lidos como sinais de alinhamento. Assim, em cenário de escalada prolongada e de internacionalização dos custos (energia, logística e segurança), votos e declarações em fóruns multilaterais tendem a ter peso geopolítico maior do que em crises de menor intensidade.
A dimensão institucional do BRICS+ adiciona complexidade a esse cálculo. Embora o arranjo seja heterogêneo e, em grande medida, voltado à cooperação econômica e à diversificação de instrumentos financeiros, sua ampliação pode gerar percepções externas de alinhamento automático em contextos de alta tensão estratégica. Como indicam Pautasso et al. (2021), a competição sistêmica entre grandes potências frequentemente se projeta sobre fóruns multilaterais, elevando a pressão por posições mais nítidas. Nesse contexto, a diplomacia brasileira deve realizar um exame detalhado sobre a coerência entre o discurso de legalidade internacional e a prática de engajamento em coalizões e plataformas emergentes.
Há também um componente estrutural: quanto mais a crise se prolonga e quanto mais seus efeitos se espalham, maior tende a ser a pressão por iniciativas de desescalada e recomposição de canais diplomáticos. O CSIS (2026) ressalta que conflitos desse tipo reduzem o espaço de acomodação política se não forem acompanhados por mecanismos mínimos de contenção e monitoramento. Para o Brasil, cuja tradição diplomática enfatiza multilateralismo e solução negociada de controvérsias, isso abre espaço para apoiar medidas de confiança, inspeções e recomposição de um diálogo prudente, evitando protagonismo retórico que limite a autonomia de manobra.
Por fim, a crise oferece uma oportunidade estratégica condicionada. Em ambientes de polarização e sobrecarga decisória das grandes potências, atores intermediários que sustentem uma postura consistente de legalidade e diálogo podem contribuir como pontes diplomáticas, ainda que de forma discreta. A literatura sobre limites da primazia norte-americana e competição sistêmica sugere que crises simultâneas ampliam a demanda por coordenação e gestão multilateral de riscos (Kimmage, 2025; Cooper, 2026). Para o Brasil, a estratégia mais prudente combina proteção econômica doméstica frente à volatilidade energética com diplomacia calibrada, preservando autonomia decisória e evitando que a polarização EUA–China e OM contamine de forma estrutural sua inserção internacional.
11. Conclusão
A escalada coordenada envolvendo EUA e Israel contra alvos estratégicos iranianos não deve ser interpretada como um evento isolado, mas como um catalisador de reorganização sistêmica de riscos e prioridades no xadrez geopolítico. Análises do CSIS indicam que ataques desse tipo podem reduzir riscos imediatos associados a capacidades sensíveis, mas ao mesmo tempo introduzem novas incertezas, inclusive quanto à dispersão de materiais e especialistas, e ampliam a probabilidade de ciclos prolongados de retaliação (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026). De forma convergente, Swanson (2026) argumenta que, nas condições atuais, ações militares contra o Irã tendem a estimular retaliação assimétrica e pressão sobre energia e transporte marítimo, aumentando o risco de um conflito mais longo e custoso do que o inicialmente previsto.
O “movimento no tabuleiro” decorre, portanto, da convergência de três mecanismos estruturais: (i) pressão sobre energia e rotas críticas como vetores de transmissão geoeconômica; (ii) retaliação assimétrica distribuída por meio de instrumentos marítimos, irregulares e cibernéticos; e (iii) sobrecarga estratégica associada à necessidade de proteger ativos e administrar múltiplos compromissos simultaneamente (Swanson, 2026; Rodgers; Schiff, 2026). Em um ambiente de competição entre grandes potências, essa redistribuição de atenção e recursos tende a alterar incentivos em outros teatros estratégicos. Kimmage (2025) observa que a política externa dos EUA opera sob restrições de seletividade estratégica, de modo que crises simultâneas ampliam fricções domésticas e disputas de prioridade. Nesse contexto, a Rússia pode perceber oportunidades para testar limites contra a Ucrânia no teatro europeu, enquanto a China pode recalibrar seu cálculo estratégico no Indo-Pacífico, sobretudo em relação a Taiwan, à luz da sobrecarga político-militar norte-americana e da volatilidade sistêmica (Cooper, 2026).
Para a Europa, os efeitos tendem a se manifestar sobretudo por meio da volatilidade energética e de seus impactos políticos domésticos, com potencial para fragilizar consensos e ampliar tensões internas. Para potências médias, como o Brasil, o “e daí” estratégico assume dimensão dupla: econômica e diplomática. A pressão sobre petróleo e transporte marítimo tende a afetar cadeias logísticas e expectativas macroeconômicas, enquanto o ambiente internacional mais polarizado eleva o custo da equidistância pragmática e a necessidade de um posicionamento assertivo em fóruns multilaterais (Pautasso et al., 2021).
Em síntese, o ataque atua como uma peça deslocada em um tabuleiro já tensionado. Ao redistribuir riscos, prioridades e oportunidades, a crise reforça a transição para um SI mais fragmentado, competitivo e sensível a choques geoeconômicos. O desafio para Estados de diferentes perfis não está apenas em reagir ao evento, mas em ajustar estratégias a um ambiente no qual energia, dissuasão e competição sistêmica interagem de forma cada vez mais interdependente.
Referências
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[1] O conceito de "linhas vermelhas" (ou red lines) no contexto das relações internacionais e negociações diplomáticas refere-se ao limite máximo que uma das partes está disposta a aceitar antes de interromper uma conversa ou tomar medidas drásticas (como retaliações econômicas ou intervenção militar).
Rio de Janeiro - RJ, 11 de março de 2026.
Como citar este documento:
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O tabuleiro geopolítico se move: o ataque EUA-Israel ao Irã e a reorganização sistêmica de riscos e prioridades. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/o-tabuleiro-geopolitico-se-move-o-ataque-eua-israel-ao-ira-e-a-reorganizacao-sistemica-de-riscos-e-prioridades.
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