Marcos André Costa Fortunato
Mestrando em Ciências Militares no Programa de
Pós-Graduação em Ciências Militares da ECEME.
Introdução
O desenvolvimento de submarinos, sejam de propulsão nuclear ou convencional, consolidou-se como uma das dimensões mais relevantes da dissuasão naval no período contemporâneo. Desmond Ball (1985, p. 17) observa que a capacidade de manter patrulhas oceânicas prolongadas tornou os submarinos o componente mais estável do chamado second-strike[1], justamente porque a incerteza sobre sua localização preserva a retaliação mesmo diante de um ataque inicial. James Holmes (2016) amplia essa análise ao examinar a experiência chinesa, na qual a introdução dos Submarine-launched Ballistic Missiles (SSBNs) da classe Jin (Type 094) foi associada a uma estratégia de antiacesso e negação de área[2] (Anti-Access/Area Denial — A2/AD), reconfigurando equilíbrios no Indo-Pacífico.
Esse movimento, como nota Manpreet Sethi (2021), pressionou a Índia a acelerar o programa Arihant, visando completar sua tríade nuclear[3] e reduzir a dependência de arrendamentos de Submarinos Nucleares de Ataque (SSN) fornecidos pela Rússia. Feroz Hassan Khan (2021, p. 13) acrescenta que, diante dessas transformações, o Paquistão buscou compensar assimetrias por meio da adaptação de Submarinos Convencionais da classe Agosta-90B, capazes de lançar mísseis de cruzeiro do tipo Babur-3 com ogiva nuclear, garantindo uma dissuasão mínima no domínio marítimo. A partir desse quadro, constata-se que submarinos nucleares e convencionais refletem escolhas estratégicas relacionadas tanto à segurança quanto à busca por autonomia tecnológica. Essa percepção fornece um ponto de contraste para o caso brasileiro. Andrade, Silva, Hillebrand, Franco (2020, p. 36–37) analisam o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) como iniciativa que combina a construção de quatro Submarinos Convencionais (S-BR, versão modificada da classe Scorpène) e o desenvolvimento do primeiro Submarino de Propulsão Nuclear Brasileiro (SN-BR). Moura (2024, p. 3) relaciona esse empreendimento à proteção da chamada Amazônia Azul, conceito que delimita os recursos marítimos sob jurisdição brasileira, enquanto Andrade, Platiau e Hillebrand (2020, p. 626–627) ressaltam que sua credibilidade está vinculada ao funcionamento da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) e ao ciclo de combustível nuclear supervisionado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Dessa forma, a questão que orienta este artigo é: como a experiência sul-asiática no emprego de submarinos nucleares e convencionais pode iluminar a discussão sobre o entorno estratégico brasileiro? A hipótese sustentada é que, embora Índia, China e Paquistão mobilizem essas plataformas em um ambiente de rivalidade imediata, o Brasil as insere em um quadro distinto, marcado pela busca de autonomia tecnológica, pela defesa de sua Amazônia Azul e pela consolidação de legitimidade internacional nos regimes de não-proliferação. Autores como Rehman (2015, p. 212) ressaltam que a dissuasão marítima no Sul da Ásia intensifica dilemas de instabilidade, pois cada inovação desencadeia ajustes imediatos dos rivais. Ao transpor esse contraste para o Atlântico Sul, percebe-se que o SN-BR operaria em lógica diferente: em vez de alimentar ciclos de ação e reação, funcionaria como meio de sustentar credibilidade e, indiretamente, projetar prestígio internacional (Medcalf et al., 2020, p. 52).
O presente artigo adota uma abordagem qualitativa orientada pela análise comparativa, buscando identificar convergências e contrastes entre o emprego de submarinos nucleares e convencionais no Sul da Ásia e no entorno estratégico brasileiro. De acordo com Collier (1993, p. 105), a análise comparativa permite examinar unidades distintas a partir de critérios comuns, oferecendo subsídios para compreender como fenômenos similares assumem formas diferentes em contextos específicos. Nesse sentido, a comparação entre as trajetórias de Índia, China e Paquistão, de um lado, e a experiência brasileira, de outro, não visa estabelecer generalizações universais, mas destacar como escolhas relativas à propulsão, dissuasão e legitimidade internacional refletem ambições estratégicas diferenciadas.
Propulsão submarina e o Impacto na Doutrina
A distinção entre submarinos de propulsão nuclear e convencional projeta-se para além da engenharia naval, por condicionar a forma como cada Estado organiza suas doutrinas de segurança marítima. Ball (1985, p. 22) destaca que a autonomia quase ilimitada dos submarinos nucleares os converteu no componente mais sofisticado da tríade nuclear, já que patrulhas prolongadas em mar aberto asseguram a possibilidade de retaliação mesmo diante de um ataque inicial. Esse raciocínio não se esgota na dimensão tecnológica: ele sugere que a própria lógica da destruição mútua assegurada (MAD) depende, em larga medida, da resiliência proporcionada por essas plataformas.
Por outro lado, a permanência dos submarinos convencionais nas frotas contemporâneas revela que sua utilidade não pode ser subestimada. Embora limitados em alcance e tempo de imersão, sua furtividade em áreas costeiras e o custo inferior explicam sua difusão em marinhas de médio porte. Cote (2019, p. 221) observa que, em ambientes regionais, os SSKs — especialmente quando equipados com mísseis de cruzeiro lançados de tubos convencionais — cumprem função relevante de negação de área. A introdução da Propulsão Independente de Ar[4] (Air Independent Propulsion — AIP) ampliou ainda mais essa capacidade, ao reduzir a vulnerabilidade associada ao uso de snorkel e prolongar o tempo de submersão, mantendo-os competitivos no século XXI.
Quadro 1 - Comparação entre os tipos de propulsão
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Tipo de Submarino |
Autonomia / Endurance |
Uso Estratégico |
Exemplos |
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Convencional (Diesel-elétrico / AIP) |
Limitada; alguns dias a semanas submerso (dependente de snorkel ou AIP). |
Defesa costeira, patrulha de proximidade, negação de área em teatros regionais. |
Classe Scorpène (Brasil, Índia), Classe Agosta-90B (Paquistão). |
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Nuclear (SSN/ SSBN) |
Virtualmente ilimitada; meses de submersão contínua. |
Projeção oceânica, presença global, patrulhas de dissuasão nuclear. |
Classe Virginia (EUA), Classe Jin/Type 094 (China), Classe Arihant (Índia). |
Fonte: Elaboração própria a partir de Ball (1985), Holmes (2016) e Cote (2019).
Holmes (2016, p. 47) acrescenta que essa divisão entre nuclear e convencional expressa, em última instância, a escolha estratégica de cada país. Estados que almejam presença oceânica e capacidade de dissuasão global tendem a privilegiar os submarinos nucleares, enquanto aqueles voltados para a defesa de proximidade mantêm a aposta em convencionais. Essa constatação é importante porque mostra que não se trata de uma hierarquia linear de obsolescência, mas de opções moldadas pelo horizonte geopolítico. Ao interpretar conjuntamente Ball, Holmes e Cote, percebe-se que a dicotomia nuclear/convencional revela menos um contraste técnico do que político: o nuclear traduz autonomia estratégica e presença global, enquanto o convencional permanece associado à defesa costeira e ao aproveitamento racional de recursos.
Sul da Ásia: Escaladas marítimas e Dilemas de estabilidade
A competição marítima no Sul da Ásia explicita como os submarinos se converteram em elementos determinantes para a dissuasão estratégica e para a remodelação dos equilíbrios regionais. Constata-se que cada país organizou seu programa naval em consonância com suas vulnerabilidades e projeções de poder: a China priorizou a consolidação de uma frota de Submarinos Lançadores de Mísseis Balísticos (SSBN), projetando sua presença oceânica de longo alcance; a Índia estruturou o programa Arihant em conjunto com a modernização de seus meios convencionais, buscando garantir credibilidade ao seu second-strike; e o Paquistão, por sua vez, incorporou a adaptação de submarinos convencionais armados com mísseis de cruzeiro como via de compensação assimétrica diante das disparidades existentes. O quadro a seguir resume essas capacidades e usos estratégicos, fornecendo uma visão comparativa das opções navais na região.
Quadro 2 - Capacidades no Sul da Ásia
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País |
Capacidades Submarinas |
Uso Estratégico |
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China |
SSBNs (Jin/Type 094), desenvolvimento de novas gerações (Type 096), presença oceânica no Indo-Pacífico. |
Disuasão nuclear de second- strike; doutrina A2/AD. |
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Índia |
Programa Arihant (SSBN), arrendamento de SSNs russos, SSKs (Scorpène). |
Construção da tríade nuclear; patrulha no Índico. |
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Paquistão |
SSKs (Agosta-90B), mísseis de cruzeiro lançados do mar (Babur-3). |
Garantir dissuasão mínima; compensar assimetrias com Índia. |
Fonte: elaboração própria a partir de Holmes (2016), Sethi (2021), Feroz Hassan Khan (2021), Ahmed (2016), Cote (2019), Talmadge; Rovner (2023).
A modernização da marinha chinesa, marcada pela introdução dos SSBNs da classe Jin (Type 094) e pelo avanço no desenvolvimento do Type 096, insere-se em uma lógica de projeção estratégica que transcende a defesa costeira imediata. De acordo com Holmes (2016, p. 43), tais vetores representam um componente central da estratégia de anti-access/area denial (A2/AD), na medida em que ampliam as possibilidades de dissuasão para além do entorno geográfico próximo. A esse raciocínio soma-se a análise de Talmadge e Rovner (2023, p. 4), segundo a qual o deslocamento progressivo das patrulhas de submarinos chineses para águas oceânicas estende significativamente o raio de alcance da dissuasão, obrigando Índia e Paquistão a reconsiderarem suas posturas navais.
A Índia, situada entre o avanço chinês e as assimetrias com o Paquistão, busca consolidar a tríade nuclear com o programa Arihant[5]. Sethi (2021, p. 6) observa que, apesar do marco representado pelo SSBN indiano, a dependência de SSNs arrendados da Rússia demonstra limitações estruturais. Ainda assim, a manutenção de Submarinos Convencionais da classe Scorpène[6] confere flexibilidade adicional, compondo uma combinação que, como nota Cote (2019, p. 221), reforça a credibilidade da dissuasão ao mesmo tempo que preserva a capacidade de operar em águas costeiras. Essa articulação mostra que, no caso indiano, o nuclear e o convencional não competem, mas se complementam numa mesma lógica de segurança marítima.
O Paquistão, por sua vez, responde com uma estratégia de compensação assimétrica. Feroz Hassan Khan (2021, p. 13) enfatiza que os SSKs da classe Agosta-90B[7] adaptados para lançar mísseis de cruzeiro Babur-3[8] visam sustentar a dissuasão mínima diante da superioridade indiana. Ahmed (2016, p. 2) adverte, entretanto, que essa escolha reduz o limiar de emprego em crises, ao transferir parte da dissuasão para plataformas vulneráveis em cenários de confronto. Nesse ponto, Sethi (2021, p. 6) argumenta que a interação entre Índia e Paquistão tende a produzir um ciclo de ação e reação no domínio naval, em que cada inovação de um lado gera pressões imediatas sobre o outro[9]. O conjunto dessas análises sugere que a dinâmica submarina no Sul da Ásia não deve ser entendida como mera modernização tecnológica, mas como expressão de um jogo estratégico em que capacidades nucleares e convencionais se entrelaçam. O resultado é a configuração de um espaço marítimo — do Índico ao Pacífico — marcado por dissuasão em constante adaptação, no qual a estabilidade depende de um equilíbrio sempre precário entre ambição tecnológica e vulnerabilidade percebida[10].
Brasil: PROSUB, SN-BR e a defesa da Amazônia Azul
O desenvolvimento de submarinos pela Marinha do Brasil insere-se em uma trajetória distinta daquela observada no Sul da Ásia, mas não menos significativa para a compreensão das relações entre tecnologia naval e dissuasão. Cote (2019, p. 221) aponta que o PROSUB[11] representa o maior investimento já realizado em defesa naval no Atlântico Sul, articulando a aquisição de submarinos convencionais da classe Scorpène à construção do primeiro Submarino de Propulsão Nuclear Brasileiro[12] (SN-BR). Andrade, Platiau e Hillebrand (2020, p. 17) ressaltam que essa estratégia combina objetivos de defesa costeira com a busca por autonomia tecnológica, configurando um projeto de longo prazo que conecta dissuasão regional e prestígio internacional.
Quadro 3 - PROSUB
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Marco |
Descrição |
Expressão Política/Militar |
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Década de 1970 |
Início do Programa Nuclear da Marinha (PNM), foco no ciclo do combustível e reator de pequeno porte. |
Autonomia tecnológica; formação de base científica nacional. |
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2008 |
Lançamento do PROSUB em parceria com a França. |
Construção de 4 SSKs (Scorpène) e início do SN-BR brasileiro. |
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Atualmente |
Consolidação da infraestrutura industrial (Itaguaí), finalização dos SSKs e avanço no reator nuclear. |
Defesa da Amazônia Azul; dissuasão regional; afirmação de status internacional. |
Fonte: elaboração própria a partir de Ball (1985), Cote (2019), Andrade; Platiau; Hillebrand (2020), Moura (2024).
Ball (1985, p. 22) já havia assinalado que os submarinos nucleares constituem o pilar mais resiliente da dissuasão, ao garantirem patrulhas oceânicas prolongadas e preservarem a capacidade de retaliação. Esse ponto ganha ressonância quando Cote (2019, p. 221) observa que, ao inserir o SN-BR no PROSUB, o Brasil buscou exatamente ampliar o raio de ação no Atlântico Sul, estabelecendo condições de negação de área em águas profundas e projetando incerteza sobre potenciais adversários. Andrade et al. (2020, p. 36–37), ao detalhar a lógica operacional do submarino nuclear brasileiro, acrescentam que sua vantagem não se resume ao tempo em imersão, mas à possibilidade de adotar uma “estratégia de movimento”, que contrasta com a “estratégia de posição” típica dos convencionais, permitindo ao comandante escolher o momento de intervir. Moura (2024, p. 3), ao inserir essa capacidade no quadro da Amazônia Azul[13], reforça a ideia de que o SN-BR articula proteção de recursos e linhas de comunicação marítima, configurando-se menos como peça de corrida armamentista e mais como instrumento de autonomia estratégica.
Essa dimensão estratégica soma-se a fatores institucionais e tecnológicos. Andrade; Platiau; Hillebrand (2020, p. 626–627) ressaltam que o Programa Nuclear da Marinha foi estruturado em consonância com o ciclo de combustível gerido por INB/IPEN[14], supervisionado pela CNEN[15] e sujeito às salvaguardas da ABACC. Essa arquitetura regulatória distingue o Brasil de países como Índia e Paquistão, onde a opacidade institucional é mais pronunciada, e confere maior legitimidade internacional ao empreendimento. O mesmo estudo também destaca que o LABGENE[16] exemplifica o caráter dual do programa, com impactos sobre setores civis de ciência e tecnologia, ampliando o alcance das externalidades. Essa leitura converge com Andrade et al. (2020, p. 37), que qualificam o PROSUB como vetor tanto de defesa, quanto de dinamização industrial, já que sua estrutura contratual, articulada ao Naval Group e à ICN sob a golden share[17] da Marinha, assegura mecanismos de transferência e absorção tecnológica.
Nesse ponto, Cote (2019, p. 227) enfatiza que o SN-BR possui alcance que extrapola a defesa imediata da costa, permitindo presença em áreas distantes e até cooperação em operações multilaterais, algo que reforça a posição do país em fóruns internacionais de segurança marítima. Tal interpretação complementa a análise de Moura (2024, p. 4), para quem a autonomia proporcionada pelo submarino nuclear fortalece a narrativa de soberania brasileira sobre o Atlântico Sul. Em paralelo, Andrade; Platiau; Hillebrand (2020, p. 621) argumentam que a continuidade do programa deve ser tratada como política de Estado, já que sua maturidade o tornou central para a inserção internacional do Brasil em um campo sensível como o nuclear. Da comparação com a experiência sul-asiática decorrem duas conclusões principais. Primeiro, que tanto Brasil quanto Índia, China e Paquistão veem nos submarinos um caminho de reforço da autonomia e da credibilidade estratégica; segundo, que os contextos divergem profundamente[18]. No Sul da Ásia, a introdução dessas plataformas opera em um ciclo de ação e reação permanente, intensificando dilemas de estabilidade; no Atlântico Sul, a ausência de rivalidades diretas coloca a ênfase na proteção de recursos e na legitimidade internacional. Essa diferença é reforçada quando se observa que, enquanto a Índia e o Paquistão recorrem a submarinos para compensar vulnerabilidades imediatas (Clary; Panda, 2017, p. 15), o Brasil associa seu programa à ideia de status tecnológico e legitimidade normativa, distanciando-se das lógicas de competição aberta. Dessa forma, a literatura indica que o SN-BR brasileiro não replica as dinâmicas asiáticas, mas produz uma lógica própria, na qual defesa marítima, prestígio tecnológico e compromisso com regimes internacionais se entrelaçam.
Considerações Finais
Constata-se que submarinos nucleares e convencionais desempenham funções distintas conforme o ambiente estratégico em que são inseridos. No Sul da Ásia, sua presença se vincula a uma rivalidade marcada por ciclos de ação e reação, em que cada incremento tecnológico reforça dilemas de instabilidade regional. Índia, China e Paquistão recorrem a seus programas navais para garantir a sobrevivência de arsenais nucleares, mas igualmente para ampliar prestígio e consolidar margens de dissuasão. Em contraste, a experiência brasileira estrutura-se em outra lógica: o SN-BR e o PROSUB associam-se à defesa da Amazônia Azul, à busca por autonomia tecnológica e ao fortalecimento da legitimidade internacional. A vivência sul-asiática contribui para realçar submarinos como instrumentos de soberania e prestígio e, paralelamente, alerta para riscos de corridas armamentistas que o Brasil procura mitigar. Diante disso, a trajetória indiana, chinesa e paquistanesa fornece lições relevantes, embora não constitua modelo a ser seguido: no Atlântico Sul, a função estratégica do submarino nuclear brasileiro se ancora menos na rivalidade interestatal imediata e mais na salvaguarda de um espaço marítimo essencial ao projeto nacional.
Referências
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IMAM, Syed Muhammad Irteza; ULLAH, Sufian. Anti-Access/Area Denial Capabilities: Implications for Strategic Stability. Journal of Security and Strategic Analyses (JSSA), v. VI, n. 1, 2020.
JOSHI, Yogesh. India’s Nuclear Submarine Programme and the Credibility of No First Use. Stimson Center, South Asian Voices, 2019.
KHAN, Feroz Hassan. Sea-Based Deterrent and Pakistan’s Strategic Stability. Islamabad: Strategic Vision Institute, 2021.
MEDCALF, Rory; et al. Defending the Indo-Pacific: balancing presence and prestige in maritime strategy. Sydney: Lowy Institute, 2020.
MOURA, José Augusto Abreu de. O Brasil e a proliferação de submarinos de propulsão nuclear. Rio de Janeiro: Rev. Esc. Guerra Nav., Rio de Janeiro, v. 30, n. 3, p. 512-545, setembro/dezembro 2024, 2024.
NTI – Nuclear Threat Initiative. Country profile: Brazil. Washington, D.C.: NTI, 2024. Disponível em: https://www.nti.org/. Acesso em: 23 set. 2025.
POLMAR, Norman; MOORE, Kenneth J. Cold War Submarines: The Design and Construction of U.S. and Soviet Submarines. Washington, D.C.: Brassey’s, 2004.
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ZIA MIAN; RAMANA, M. V.; NAYYAR, A. H. Under the sea: Nuclearization of the Indian Ocean. Journal of Peace Research, v. 56, n. 5, p. 646-659, 2019.
[1] O conceito de second-strike refere-se à capacidade de um Estado responder a um ataque nuclear inicial com represália devastadora, mantendo assim a credibilidade da dissuasão. Ball (1985, p. 22) identifica essa resiliência como um dos pilares da estabilidade estratégica, já que a incerteza quanto à localização de submarinos nucleares garante a sobrevivência da força de retaliação.
[2] O conceito de A2/AD articula duas dimensões complementares: “anti-access” refere-se a ações e capacidades, geralmente de longo alcance, destinadas a impedir que uma força adversária penetre em uma área operacional; “area denial” implica medidas, muitas vezes de alcance mais limitado, que restringem a liberdade de ação dentro dessa área (Krepinevich et al., 2003). A doutrina contemporânea amplia esse escopo ao incluir sensores, ciberataques e redes integradas de comando e controle como camadas de negação (Lawrence, 2021). Em cenários navais, submarinos e mísseis antinavio são elementos centrais nessa arquitetura, por projetarem risco a forças que tentem aproximar-se ou operar na zona negada (Imam; Ullah, 2020).
[3] A tríade nuclear compreende a combinação de mísseis balísticos intercontinentais em terra (ICBMs), bombardeiros estratégicos e submarinos lançadores de mísseis balísticos (SSBNs). Esse arranjo garante redundância, já que um ataque preventivo dificilmente neutralizaria todas as forças. Ball (1985) e Joshi (2019) observam que a resiliência proporcionada pelos SSBNs assegura a capacidade de second-strike, elemento central para a credibilidade da dissuasão.
[4] O Air Independent Propulsion (AIP) compreende tecnologias que permitem aos submarinos convencionais permanecer submersos por mais tempo sem necessidade de captar oxigênio atmosférico via snorkel. Polmar e Moore (2004, p. 221) acrescentam que, embora o AIP não equipare os convencionais aos submarinos nucleares em alcance e velocidade, sua incorporação amplia a relevância estratégica dos convencionais em operações de negação de área.
[5]Primeiro SSBN desenvolvido pela Índia, incorporado em 2016. Pode carregar mísseis balísticos K-15 e K-4, constituindo a base da tríade nuclear indiana (Sethi, 2021, p. 6).
[6] Submarinos convencionais de origem francesa, projetados pela Naval Group. Incorporados por marinhas como a indiana e a brasileira (versão S-BR), destacam-se pela furtividade, autonomia ampliada com sistemas AIP e capacidade de lançar mísseis de cruzeiro (Cote, 2019, p. 221).
[7] Submarinos convencionais de origem francesa, operados pelo Paquistão. Modernizados com AIP e adaptados para o lançamento do míssil de cruzeiro Babur-3, integram a estratégia de dissuasão mínima de Islamabad (Feroz Hassan Khan, 2021, p. 13).
[8] Míssil de cruzeiro lançado do mar, com alcance estimado em 450 km, adaptado pelo Paquistão para plataformas convencionais da classe Agosta-90B. É parte da estratégia de compensação assimétrica de Islamabad (Clary; Panda, 2017, p. 15).
[9] Autores como Rehman (2015) descrevem o Índico como “águas turvas”, ressaltando que a expansão submarina tende a intensificar dilemas de instabilidade naval.
[10] Autores como Zia Mian, Ramana e Nayyar (2019) chamam atenção para os riscos da proliferação de submarinos nucleares no Sul da Ásia, incluindo implicações ambientais e de opacidade nos arsenais.
[11] Programa de Desenvolvimento de Submarinos firmado pelo Brasil em 2008 com a França. Inclui quatro S-BR (versão da classe Scorpène) e o primeiro Submarino Nuclear Brasileiro (SN-BR), além da infraestrutura em Itaguaí (Andrade et al., 2020, p. 31).
[12] Amorim (2025, p. 14) sublinha que a operação de um reator nuclear embarcado envolve desafios de engenharia e, sobretudo, a formação de quadros altamente qualificados. O Complexo de Aramar, segundo o autor, não somente viabiliza a produção do combustível e do protótipo em terra, mas constitui um polo de capacitação científica de longo prazo, sem o qual a autonomia operacional do SN-BR seria inviável.
[13] Expressão cunhada pela Marinha do Brasil para designar sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE), rica em recursos energéticos e minerais, considerada vital para a segurança nacional (Moura, 2024, p. 3).
[14] O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), em São Paulo, participa do ciclo de combustível nuclear, apoiando o Programa Nuclear da Marinha com pesquisas e desenvolvimento tecnológico (Andrade; Platiau; Hillebrand, 2020, p. 626).
[15] O Nuclear Threat Initiative (NTI, 2024, n.p.) enfatiza que o Brasil é o único país fora do grupo dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (P5) a desenvolver um submarino nuclear sem romper com os regimes de não-proliferação. Essa singularidade evidencia tanto a compatibilidade do programa com a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) quanto o esforço em demonstrar transparência institucional, algo inexistente nos casos de Índia e Paquistão.
[16] O Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica (LABGENE), instalado em Aramar, é o protótipo em terra do reator nuclear que equipará o SN-BR, servindo para testes de segurança e treinamento operacional (Andrade; Platiau; Hillebrand, 2020, p. 627).
[17] No arranjo societário da Itaguaí Construções Navais (ICN), empresa criada para gerir o PROSUB, a Marinha do Brasil detém uma golden share. Esse instrumento garante poder de veto em decisões estratégicas, preservando a capacidade de controle sobre tecnologias sensíveis (Andrade et al., 2020, p. 32).
[18] Medcalf et al. (2020, p. 52) argumentam que os submarinos, nucleares ou convencionais, funcionam como instrumentos de prestígio internacional, não apenas por sua utilidade militar imediata, mas porque permitem aos Estados demonstrar presença em linhas de comunicação marítima estratégicas. Ao inserir o SN-BR nesse debate, o Brasil aproxima-se de uma lógica global na qual a posse de submarinos nucleares sinaliza competência tecnológica e capacidade de inserção em fóruns de segurança marítima, ainda que seu entorno geopolítico não reproduza as tensões do Indo-Pacífico.
Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.
Como citar este documento:
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Submarinos Nucleares e Convencionais: lógicas estratégicas no Sul da Ásia e lições para o Brasil no Atlântico Sul. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/submarinos-nucleares-e-convencionais-logicas-estrategicas-no-sul-da-asia-e-licoes-para-o-brasil-no-atlantico-sul.
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