Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional

Por André Luis Novaes Miranda
General-de-Exército da reserva. 
Assessor especial da Diretoria Internacional 
da Fundação Getulio Vargas.

 

Apresentação

O cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã anunciaram em 14 de junho de 2026 — após a assinatura do Memorando de Entendimento, cujas negociações técnicas previstas para 19 de junho, na Suíça, foram adiadas em razão da nova escalada de combates entre Israel e o Hezbollah no Líbano — encerra quase quatro meses de uma guerra escalada no final de fevereiro, mas que havia começado com as respostas israelenses aos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, ou até antes, dependendo do referencial. Seria, porém, um erro analítico tratá-lo apenas como o fim de um conflito. O que pode se encerrar, na prática, é o ciclo de décadas em que a segurança do Golfo repousava sobre uma garantia americana tida como crível e previsível. Os termos divulgados — cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano; reabertura do Estreito de Ormuz e suspensão do bloqueio naval norte-americano; compromisso iraniano de jamais buscar a arma nuclear; algum tipo de compensação financeira a Teerã; e sessenta dias de negociações rumo a um acordo final — desenham menos uma vitória do que um empate caro.[1]

A leitura que organiza este texto é a de Ian Bremmer, em artigo desta semana e no ensaio que assina com Firas Maksad na Foreign Affairs: a guerra não apenas terminou mal para Washington — ela acelerou o colapso da ordem ancorada nos Estados Unidos, no Oriente Médio, que manteve o petróleo fluindo, as potências rivais afastadas e Washington como árbitro de tudo o que importava. Confronto essa tese com fontes britânicas, do Golfo, chinesas e norte-americanas, para separar o que é fato documentado do que é interpretação, e arrisco uma análise sobre a redistribuição de poder no Golfo Pérsico (expandido).

 

1. O choque de Doha e a fissura da garantia americana

O ponto de inflexão é anterior à guerra. Em 9 de setembro de 2025, caças israelenses dispararam cerca de dez mísseis contra um complexo residencial em Doha, mirando a cúpula política do Hamas que negociava um cessar-fogo em Gaza. Foi a primeira ação militar israelense em solo catariano — e o primeiro ataque a um membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Morreram seis pessoas, entre elas um agente de segurança catariano.[2] Mais relevante do que o alvo foi a reação imediata de Washington: nenhuma medida para impedir o ataque ou impor qualquer custo a Israel. A lição absorvida nas capitais do Golfo foi direta — a garantia de segurança americana passou a vir com um ponto de interrogação.

As respostas vieram em dois movimentos. De um lado, a cúpula árabe-islâmica de emergência reunida em Doha em 15 de setembro; de outro, oito dias depois, a Arábia Saudita assinou com o Paquistão, potência nuclear, um Acordo Estratégico de Defesa Mútua que trata uma agressão a qualquer dos dois como agressão a ambos — estendendo, na interpretação corrente, um guarda-chuva nuclear paquistanês sobre o reino. Washington, por sua vez, agiu menos para dissuadir o agressor do que para conter os danos: em 29 de setembro, Trump intermediou — com o texto redigido pela própria Casa Branca — um telefonema trilateral em que Netanyahu pediu desculpas ao primeiro-ministro catariano, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, admitiu a violação da soberania e prometeu não repetir o ataque, condição que Doha impusera para seguir mediando as negociações entre Israel e o Hamas; no mesmo dia, uma ordem executiva ofereceu ao Catar uma garantia de segurança americana sem precedentes no Golfo. O recado regional, porém, já estava dado: um aliado podia ser atingido em seu próprio território sem que o fiador o impedisse ou impusesse custos ao autor — as desculpas foram arrancadas em benefício da vítima, não como sanção a quem agrediu. Doha foi o aviso; a guerra de 2026 foi a confirmação.

 

2. A Guerra do Irã de 2026 e a paz de junho

O conflito aberto começou no final de fevereiro de 2026, com a campanha israelo-americana contra o Irã e, em retaliação, com mísseis e drones iranianos caindo sobre Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados — Estados que pagaram o preço de decisões nas quais não tiveram voz. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz que não rendeu as concessões esperadas. Uma primeira trégua de duas semanas, mediada pelo Paquistão (com proposta de cinco pontos e intervenção de última hora da China), entrou em vigor entre os dias 7 e 8 de abril; em 21 de abril, Trump a prorrogou por tempo indeterminado, até o acordo de junho.[4]

O saldo estratégico é desconfortável para quem deflagrou a guerra. O programa nuclear iraniano sobreviveu, assim como seus mísseis balísticos, seus drones e suas redes de proxies interpostas no Iraque, no Líbano e no Iêmen. O regime que Washington se propôs a quebrar segue de pé — abalado, mas íntegro — e ainda será, pelos termos do acordo, compensado para permitir a passagem por uma via marítima que estava aberta antes do primeiro tiro. Na avaliação de Bremmer, trata-se do maior erro de política externa dos Estados Unidos desde a Guerra do Iraque; o legado mais duradouro, porém, tem menos a ver com o Irã do que com a posição americana na região.[5]

 

3. Duas coalizões: contenção versus confronto

Quando o fiador vacila, os Estados fazem o que sempre fazem: organizam-se em blocos. O Golfo pós-guerra divide-se em dois eixos que divergem em quase tudo. De um lado, uma coalizão “abraâmica” ancorada nos Emirados e em Israel, estreitamente atada a Washington; de outro, uma coalizão “islâmica” sunita em torno de Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e, crescentemente, Egito — que ainda depende dos EUA para segurança, mas passou a tratar essa dependência como passivo. Ambos veem Teerã como ameaça, mas discordam sobre como lidar com ela. Riad quer conter, dissuadir e manter aberta a hipótese de acomodação; Israel e Abu Dhabi enxergam um inimigo permanente, a ser confrontado. Contenção contra confronto — e sem árbitro em quem ambos confiem.

Tabela 1 – A dinâmica das relações entre Estados

Dimensão

Eixo “abraâmico” (Israel–EAU–EUA)

Eixo “islâmico” (Turquia–Arábia–Paquistão–Egito)

Núcleo

Israel e Emirados, fortemente atados a Washington; atração ocasional de Grécia e Índia em defesa, energia e comércio.

Pesos-pesados sunitas: Turquia, Arábia Saudita, Paquistão e, cada vez mais, Egito.

Postura quanto ao Irã

Confronto: o regime é inimigo permanente a ser enfrentado, não administrado.

Contenção: equilibrar e dissuadir o Irã, preservando a porta de uma acomodação futura.

Relação com os EUA

Aprofundamento dos laços de defesa e inteligência; aposta na confiabilidade americana.

Dependência securitária ainda real, mas tratada como passivo a ser coberto por hedging.

Lógica energética

EAU fora da OPEP: bombear ao máximo e monetizar enquanto há demanda.

Arábia precisa de preço alto e sustentado para financiar a Visão 2030.[6]

Hedge externo

Tecnologia e mercados; cooperação seletiva com a China, sem irritar Washington.

Guarda-chuva nuclear paquistanês; abertura à mediação chinesa e à diplomacia regional.

Fonte: autor

A clivagem não se esgota no Irã. A coalizão islâmica une-se também contra o que percebe como poder israelense sem freios — de Gaza e Cisjordânia à Síria e ao Líbano. E as instituições que antes produziam consenso travaram pela mesma linha: dentro do CCG, Kuwait e Catar gravitam para Riad, Bahrein inclina-se a Abu Dhabi e Omã mantém canal próprio com Teerã.

Figura 1 – Mapa de alinhamentos do Oriente Médio expandido

Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA

 

4. A fratura saudita-emiradense: o eixo mais profundo

Sob a clivagem entre os dois eixos corre uma fratura mais antiga e mais estrutural: a rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados. O Golfo árabe nunca foi um bloco monolítico, e Riad e Abu Dhabi vinham divergindo havia anos sobre o Iêmen, o Sudão, o Chifre da África, a Líbia e o petróleo. À disputa por teatros somou-se, mais recentemente, a competição por recursos minerais, energia e tecnologias de fronteira, como a inteligência artificial.[7] O que era divergência tática converteu-se em rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do Golfo.

A ruptura ganhou expressão institucional em 2026. Em 28 de abril, os Emirados anunciaram a saída da OPEP, efetiva em 1º de maio — deixando o cartel sem seu terceiro maior produtor e privando Riad de seu parceiro mais relevante. A lógica é temporal e divergente: com ponto de equilíbrio fiscal estimado em torno de US$ 49 por barril, contra cerca de US$ 90 da Arábia, Abu Dhabi aposta em bombear e monetizar o quanto antes, enquanto houver demanda; Riad depende de preços altos e sustentados para pagar a Visão 2030.[8] A saída emiradense, lida por analistas como manifestação do distanciamento geopolítico, enfraquece o pilar que fazia da Arábia a potência organizadora do Golfo e ameaça o ambiente de investimento sobre o qual a Visão 2030 foi erguida.

Analistas descrevem a ruptura, agora aberta e pública, como a fratura mais séria no Golfo desde o bloqueio ao Catar de 2017.[9][10] E ela não é abstrata: materializa-se em três teatros interligados — o Iêmen, o Sudão e o Mar Vermelho —, onde a rivalidade deixou de ser apenas econômica e ganhou contornos militares.

 

5. Os teatros da fratura: Iêmen, Sudão e o Mar Vermelho

O primeiro teatro, e o mais agudo, foi o Iêmen — onde a rivalidade deixou de ser por procuração. Ao longo de dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado por Abu Dhabi, lançou a ofensiva “Operation Promising Future” e tomou a maior parte de Hadramout e Mahra — províncias ricas em petróleo, fronteiriças com a Arábia e que somam quase metade do território iemenita —, renovando o chamado pela secessão do Sul. Em 30 de dezembro, a Real Força Aérea Saudita bombardeou o porto de Mukalla, controlado pelo STC, alegando atingir um carregamento de armas vindo dos Emirados (alegação negada por Abu Dhabi). O governo iemenita reconhecido ordenou a saída das forças emiradenses em 24 horas, decretou bloqueio e estado de emergência; os Emirados anunciaram a retirada. Em janeiro de 2026, a contraofensiva saudita retomou Seiyun, Mukalla e Aden, e o líder do STC, Aidarus al-Zubaidi, foi destituído do Conselho Presidencial, acusado de traição e refugiou-se nos Emirados. Analistas tratam o episódio como o primeiro choque armado direto entre Riad e Abu Dhabi.[11]

O segundo teatro, mais sangrento, é o Sudão. Desde 2023, a guerra civil opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), de Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), de Mohamed Hamdan Dagalo, o “Hemedti”. A Arábia respalda as SAF e o Estado central — em nome da estabilidade, da Visão 2030 e do acesso ao Mar Vermelho; os Emirados são acusados de armar a RSF, movidos por ouro (extraído de minas sob controle da milícia), portos e rotas de comércio — peça do que se descreve como o “eixo de secessionistas” emiradense, que abrange ainda Líbia, Somália e Iêmen. A queda de El Fasher, em outubro de 2025, consolidou o domínio da RSF sobre Darfur. Em novembro, o príncipe-herdeiro saudita teria pressionado Washington a endurecer com Abu Dhabi; Riad ampliou o apoio às SAF — que retomaram Cartum em janeiro de 2026 — e, com Egito e Somália, passou a negar sobrevoo a cargas emiradenses suspeitas de abastecer a RSF, além de intermediar a transferência de caças paquistaneses às SAF. Em 10 de fevereiro de 2026, uma investigação da Reuters confirmou uma base financiada pelos Emirados na Etiópia, treinando cerca de 4.300 combatentes da RSF.[12]

O terceiro teatro projeta a fratura sobre o Mar Vermelho — por onde passam cerca de 12% do comércio global — e a organiza em dois eixos nítidos. Em 26 de dezembro de 2025, Israel tornou-se o primeiro membro da ONU a reconhecer a Somalilândia, em declaração conjunta apresentada como extensão dos Acordos de Abraão. A lógica é geográfica e de chokepoint (ponto de estrangulamento): a Somalilândia situa-se no Golfo de Áden, ao sul de Bab-el-Mandeb e em frente ao Iêmen — precisamente de onde os Houthis atacam a navegação. O reconhecimento abre caminho a uma base ou posto de escuta israelense em Berbera, voltado a monitorar ameaças houthis e iranianas e a assegurar o acesso ao Mar Vermelho, vital para o porto de Eilat. O gesto, porém, também mira a Turquia: para Israel, a Somália tornou-se zona de influência turca, e a Somalilândia, estável e não alinhada, serve para diluí-la. Os Estados Unidos não acompanharam de imediato; Somália, União Europeia e os Houthis rejeitaram o reconhecimento, estes últimos ameaçando tratar qualquer presença israelense como alvo legítimo.[13]

É aqui que a Turquia se torna peça decisiva. Ancara — que invoca laços otomanos, mantém em Mogadíscio sua maior base militar no exterior (Camp TURKSOM) e intermediou a reaproximação entre Etiópia e Somália em 2024 — alinhou-se a Riad. Em fevereiro de 2026, Erdogan visitou Mohammed bin Salman e ambos firmaram uma declaração defendendo a unidade da Somália, repudiando a divisão do Iêmen e o governo paralelo da RSF e cobrando a saída israelense da Síria. Essa ocupação remonta à queda de Assad, em dezembro de 2024: Israel avançou além da linha de armistício de 1974, tomou o cume do Monte Hermon e cerca de 350 km² no sudoeste sírio, sob a justificativa de criar uma zona-tampão que impeça forças hostis junto ao Golã — a proteção da minoria drusa, invocada a partir dos confrontos de Suwayda (julho de 2025), é lida por analistas mais como alavanca de influência do que como motivação central. Consolidou-se assim uma “Coalizão do Status Quo” — Arábia, Egito e Turquia, somadas a Eritreia, Djibuti, Somália e Sudão —, voltada a conter o triângulo “revisionista” Emirados–Etiópia–Israel. A rivalidade do Golfo, em suma, transbordou para as duas margens do Mar Vermelho, e a Turquia migrou de competidora regional a âncora setentrional do campo saudita.[14] O Golfo deixou de ter um centro de gravidade único — e a fratura ganhou profundidade continental.

Quadro 1 — Os “neutros” do reordenamento: Síria, Iraque, Omã e Jordânia

Rotular de “neutros” os Estados que não se alinham a nenhum dos eixos achata quatro situações distintas. A Síria desertou: com a queda de Assad (dezembro de 2024) e a ascensão de al-Sharaa, expulsou a influência iraniana e gravita hoje para o campo saudita-turco-americano, ainda que travada pela ocupação israelense do sudoeste. O Iraque é um Estado penetrado: governo e milícias pró-Irã — as Forças de Mobilização Popular, dentro do próprio aparato estatal — fazem dele arena e alvo da guerra entre EUA e Irã. Omã é o mediador interessado: o canal indispensável com Teerã, hoje sob tensão no próprio CCG. A Jordânia é a aliada constrangida: abate mísseis iranianos rumo a Israel e hospeda forças americanas, mas precisa minimizar o gesto diante da própria opinião pública. Nenhum é, a rigor, neutro: cada um é um modo distinto de fazer hedging sob coação — e é nos Estados-tampão que a multipolaridade do G-Zero deixa de ser conceito e vira geografia.

Fontes: The Soufan Center; INSS; Arab Center DC; Political Geography Now; Security Council Report (2025–2026).

 

6. A China entra — e seus limites

É nesse vácuo que a China avança. Sua principal vantagem é o contraste: para uma região cansada da volatilidade americana, a ausência de sobressaltos já vale muito. Pequim chega com credenciais — intermediou em 2023 a normalização entre Arábia e Irã — e com peso econômico: desde 2024, o comércio entre o Golfo e a China superou o comércio entre o Golfo e o Ocidente.[15] Na crise de 2026, a China coassinou com o Paquistão a proposta de paz e deu o empurrão final para a trégua de abril; tanto o príncipe-herdeiro de Abu Dhabi quanto o chanceler saudita procuraram Xi Jinping pedindo um papel maior na desescalada. Riad já sonda um pacto de não agressão entre CCG e o Irã, inspirado no processo de Helsinque — e nenhuma potência externa está mais bem posicionada do que a China para mediá-lo.

Aqui, porém, convém disciplina analítica e fugir do determinismo. Três qualificações importam. Primeiro, a China não substituirá os Estados Unidos como fiador de segurança: não tem bases nem pactos de defesa na região e prefere influência por comércio e mediação a porta-aviões.[16] Segundo, o que se observa não é uma virada de Washington para Pequim, mas a busca de autonomia estratégica por potências médias que enxergam a China como hedge necessário, não como uma nova América.[17] Terceiro, a guerra também feriu interesses chineses: as importações chinesas de petróleo do Golfo caíram cerca de 25% em março de 2026, na comparação anual.[18] Pequim ganha por estar presente quando os EUA faltam — mas não precisa, nem quer, assumir o ônus de policiar a região.

 

7. O elo EUA–Israel sob tensão

Há um corolário do acordo de junho que merece registro à parte: a relação entre Washington e Israel. O memorando de entendimento que encerrou a guerra foi negociado por cima de Israel — um funcionário do governo israelense afirmou que o país sequer teve acesso ao texto, e o próprio Netanyahu admitiu, em 15 de junho, desconhecer os detalhes do documento, ainda que tenha exaltado a operação conjunta. O acordo, ademais, impõe o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano, onde as forças israelenses controlam cerca de 20% do território e juram não se retirar; e Trump, num gesto raro, repreendeu publicamente Israel pelas baixas civis e voltou a alfinetar Netanyahu. Israel, em suma, foi, em boa medida, contornado.[19]

O atrito reverbera na política interna israelense. Críticos acusam Netanyahu de ter arrastado Trump para uma guerra prometendo mais do que ela poderia entregar, para agora ver-se dela retirado antes de Israel se sentir seguro; uma pesquisa do Israel Democracy Institute registrou que 57,5% dos israelenses consideram o quadro do acordo incompatível com a segurança do país. Bremmer chega a sugerir que o acordo pode selar o fim político de Netanyahu, com Lapid e Bennett rondando a sucessão. Aqui é possível arriscar uma direção: Netanyahu sai enfraquecido, a coalizão é frágil e uma eleição antecipada é risco concreto.[20]

Quadro 2 — As rupturas internas no BRICS+

A guerra de 2026 expôs uma fratura no próprio campo que se imagina alternativo ao Ocidente. Irã e Emirados Árabes Unidos são, ambos, membros plenos do BRICS+ desde janeiro de 2024 — e, durante o conflito, o Irã atacou os EAU, o país do Golfo mais visado por seus mísseis e drones, levando Abu Dhabi a exigir reparações e a contenção dos programas iranianos. Não foi um caso isolado: no Sudão, dois membros do bloco patrocinam lados opostos da guerra civil (Egito ao lado da SAF; EAU ao lado da RSF), enquanto a fratura Arábia–EAU corre por dentro do mesmo agrupamento. O episódio confirma que o BRICS+ é um fórum de diversificação econômica, não um polo geopolítico coeso: a própria desordem do Golfo é, em parte, intramuros ao bloco. Para o Brasil, a leitura é direta — o BRICS é um instrumento de hedging, distante de objetivos estratégicos, não um contrapeso estratégico que se possa acionar contra Washington.

Fontes: House of Commons Library; Council on Foreign Relations; Britannica (2026).

 

Convém, porém, distinguir os planos. No nível pessoal (Trump–Netanyahu) e no tático (Irã, Líbano, Gaza), o atrito é real e pode produzir mudança no curto prazo — inclusive o descumprimento, por Israel, de partes do acordo. No nível estrutural, a cautela se impõe: a história sugere que desavenças entre presidentes e premiers não rompem a aliança — mesmo após o confronto amargo de 2015 sobre o acordo nuclear de Obama, Washington assinou o maior pacote de ajuda militar da história a Israel, de US$ 38 bilhões. O que muda é a textura da relação, que se torna mais transacional e menos automática. E há uma simetria reveladora: assim como os Estados do Golfo aprenderam, após Doha, que a garantia americana traz um ponto de interrogação, Israel aprendeu, com este acordo, que pode ser contornado quando os interesses divergem — a mesma lógica do G-Zero vista de ângulos opostos, o fiador que passa a agir por conta própria.[21]

Figura 2: Diagrama de Relações do Oriente Médio

Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA.

 

8. Síntese: o Golfo no “G-Zero”, mas, e o Brasil?

O quadro que emerge é o de uma região deslizando para o que Bremmer chama de “G-Zero” — uma ordem em que nenhuma potência, ou grupo de potências, é ao mesmo tempo capaz e disposta a manter a ordem. Os Estados Unidos seguem como o ator militar mais forte do Golfo, mas seus parceiros já não confiam que usem essa força de modo previsível e em benefício deles. O resultado é a fragmentação: dois eixos rivais, a fratura saudita-emiradense corroendo o CCG e transbordando para o Mar Vermelho e o Chifre da África, o fim funcional da disciplina da OPEP e a multiplicação de hedges — nucleares (Paquistão), diplomáticos (China) e econômicos (diversificação acelerada).

Vale antecipar como dois expoentes do realismo contemporâneo leriam este quadro. John Mearsheimer e Hal Brands concordariam com o diagnóstico de fundo — alianças transacionais, garantias em dúvida, Estados em hedge — e endossariam, em especial, a tese de que os Estados Unidos não cederiam o Hemisfério Ocidental a rival algum. Divergiriam, porém, na prescrição. Mearsheimer reduziria o Oriente Médio a um teatro secundário e descreveria o “G-Zero” regional menos como vácuo do que como retração racional: os Estados Unidos, sobreinvestidos no Golfo, fariam bem em transferir o ônus aos atores locais e voltar-se à Ásia, o que vem ao encontro da Estratégia Nacional de Segurança americana. Brands, ao contrário, leria a derrota iraniana como vitória da ordem liderada por Washington e recusaria o rótulo “G-Zero” como declinista — para ele, os Estados Unidos conservariam vantagens singulares e deveriam contestar o “eixo da desordem” (China, Rússia e Irã) em todos os tabuleiros, advertindo que a incoerência do BRICS+ não deveria ocultar a coordenação real entre Pequim, Moscou e Teerã. Ambos, contudo, convergiriam num ponto caro a esta análise: nenhum agrupamento alternativo constitui, hoje, um polo coeso.<[22]

Para o Brasil e para as potências médias, a leitura estrutural é a que mais interessa — mas com uma ressalva decisiva. Na Europa, o diagnóstico do Golfo se repete: a confiabilidade americana deixou de ser presumível, e reduzir a dependência de Washington migrou de luxo a necessidade. Vale, nessas áreas, a racionalidade do hedging e da barganha autonomista — a mesma gramática que, guardadas as proporções, organizou historicamente o posicionamento brasileiro, do modelo de barganha varguista à autonomia pela diversificação. O Golfo não está escolhendo a China contra os Estados Unidos; está diversificando apostas num mundo sem fiador.

No Hemisfério Ocidental, porém, o tabuleiro é outro — e aqui todo cuidado é pouco. O risco do Golfo é a ausência de um fiador; o do Brasil é a sua presença. Os Estados Unidos não tratam a América Latina como periferia negligenciável, mas como prioridade explícita e esfera de primazia inegociável — uma reatualização da Doutrina Monroe que o atual governo americano levou ao limite —, e não cederão essa hegemonia à China. A diferença não é retórica: traduz-se em coerção direta. Desde 2025, Washington impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, sancionou ministros do Supremo Tribunal Federal, designou facções como organizações terroristas estrangeiras e, às vésperas da eleição de outubro de 2026, foi advertido por Lula a não interferir no pleito — enquanto a participação americana nas exportações brasileiras caía ao menor nível histórico, 9,4% no primeiro trimestre. Neste hemisfério, inclinar-se ostensivamente para Pequim não diversifica risco: pode atrair retaliação.[23]

A conclusão, para o Brasil, é dupla. A multipolaridade que se anuncia é real, e o hedge segue sendo a estratégia racional — mas, no quintal do hegemon, ele precisa ser ao mesmo tempo mais robusto e mais calibrado: profundo o bastante para preservar autonomia e margem de barganha, prudente o bastante para não provocar a única potência ainda capaz de impor custos diretos e imediatos ao país. O Golfo diversifica apostas num mundo sem fiador; o Brasil precisa diversificá-las sob o olhar atento de um fiador que se recusa a sair de cena. É essa assimetria — e não a simples troca de um hegemon por outro — a forma concreta que a multipolaridade assume na América do Sul.

 

Fontes consultadas

 

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Al Jazeera. “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/features/2026/6/18/trump-netanyahu-tensions-have-israeli-and-us-leaders-clashed-before

 

Al Jazeera. “‘Don’t meddle’: Lula calls on Trump to stay out of Brazil’s elections”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/6/17/dont-meddle-lula-calls-on-trump-to-stay-out-of-brazils-elections

 

Al Jazeera. “Saudi-backed forces move on Aden as Yemen secessionist leader vanishes”. jan. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/1/7/saudi-led-coalition-strikes-yemen-says-stc-leader-al-zubaidi-has-fled

 

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The Times of Israel. “Netanyahu apologizes to Qatar for strike on Hamas leaders in call with Trump”. set. 2025. https://www.timesofisrael.com/netanyahu-apologizes-to-qatar-for-strike-on-hamas-leaders-in-call-with-trump/

 

The Washington Institute. “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”. dez. 2025. https://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/recognizing-somaliland-israels-return-red-sea

 

War on the Rocks. “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”. jun. 2026. https://warontherocks.com/the-recognition-question-somaliland-israeli-security-geometry-and-the-red-sea-power-struggle/

 

 



[1]Ian Bremmer, “The Middle East enters the G-Zero”, GZERO Media, 17 jun. 2026; e Ian Bremmer e Firas Maksad, “The Long Shadow of the Iran War”, Foreign Affairs, jun. 2026.

[2]Arab Center Washington DC, “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”, out. 2025; The Times of Israel, set. 2025.

[3]Sobre o telefonema e o pedido de desculpas (29 set. 2025): comunicado oficial da Casa Branca; The Times of Israel e The Jerusalem Post; o site Politico noticiou que o texto foi redigido pela Casa Branca, com aliado catariano presente no Salão Oval para manter Netanyahu “no roteiro”. Sobre a ordem executiva de garantia de segurança ao Catar: Arab Center Washington DC, out. 2025. Sobre o pacto saudita-paquistanês: The Times of Israel, 18 set. 2025, e Geopolitical Monitor, “From Doha to Riyadh”, out. 2025.

[4]Brookings Institution, “Beijing’s approach to the conflict in Iran and its implications for China”, mai. 2026; verbete “2026 Iran war ceasefire”, Wikipedia (consultado em jun. 2026).

[5]Bremmer, op. cit. (GZERO/Foreign Affairs, jun. 2026). A expressão “maior erro de política externa dos EUA desde a Guerra do Iraque” é juízo interpretativo do autor.

[6] Visão 2030 (Vision 2030): programa estratégico lançado pela Arábia Saudita, em 2016, pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman, para diversificar a economia do reino para além do petróleo — ampliando turismo, tecnologia, entretenimento e indústria — ancorado no fundo soberano PIF e em megaprojetos como NEOM. Sua execução depende de receitas petrolíferas elevadas e de estabilidade regional.

[7]House of Commons Library, “The UAE exits OPEC and Saudi-UAE tensions in 2026”, jun. 2026; European Council on Foreign Relations (ECFR), “From partners to rivals: what the Saudi-UAE rupture means for Europeans”, jan. 2026.

[8]Bloomsbury Intelligence and Security Institute (BISI), “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”, jun. 2026; Horn Review, mai. 2026.

[9] Bloqueio ao Catar (2017): em junho de 2017, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito romperam relações e impuseram bloqueio diplomático, comercial e de transporte ao Catar, acusando-o de apoiar grupos islamistas e de proximidade excessiva com o Irã. A crise só foi encerrada em janeiro de 2021, pelo Acordo de Al-Ula, sem que Doha atendesse às principais exigências.

[10]Impact Policy Group, “What’s Behind the Saudi-UAE Rift and How Far Will It Go?”, jan. 2026; ECFR, op. cit.

[11]“2025 Southern Yemen offensive” (Wikipedia, consultado em jun. 2026); Al Jazeera, CNN e The Times of Israel (dez. 2025–jan. 2026); Impact Policy Group, jan. 2026, que qualifica o episódio como o primeiro confronto armado direto entre os dois.

[12]Arab Reform Initiative, “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”, mai. 2026; ECFR, “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea”, fev. 2026; International Crisis Group, mar. 2026; American Enterprise Institute (AEI), “Fault Lines in the Horn of Africa”, fev. 2026. A investigação da Reuters sobre a base na Etiópia é de 10 fev. 2026.

[13]War on the Rocks, “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”, jun. 2026; The Washington Institute, “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”; Orion Policy Institute, jan. 2026; Ynetnews e Responsible Statecraft (dez. 2025–jan. 2026).

[14]Horn Review, “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”, jan. 2026, e “Shaping the Horn: Turkey’s Strategic Role”, mar. 2026; AEI, op. cit.; African Arguments, jan. 2026.

[15]Atlantic Council e Arab Gulf States Institute (AGSI) sobre o acordo Arábia–Irã intermediado por Pequim em março de 2023; Middle East Council on Global Affairs (sobre a ultrapassagem do comércio Golfo–Ocidente pelo comércio Golfo–China em 2024).

[16]Chatham House, “China will benefit from the Iran war, regardless of any deal between Trump and Tehran”, mai. 2026.

[17]Asia Times, “Gulf poised to move closer to China after the war”, abr. 2026.

[18]Brookings, op. cit. (mai. 2026): queda de cerca de 25% nas importações chinesas de petróleo do Golfo em março de 2026, na comparação anual.

[19]NBC News, “Israel cut out of Iran deal as Trump keeps deriding Netanyahu in public”, jun. 2026; Fox News, “Netanyahu’s Israel grapples with Trump-Iran deal”, 15 jun. 2026; Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions”, 18 jun. 2026.

[20]PBS NewsHour, “Israelis angry over U.S.-Iran peace deal lash out at Netanyahu”, jun. 2026; pesquisa do Israel Democracy Institute citada pela NBC News; Ian Bremmer, “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”, GZERO Media, 27 mai. 2026.

[21]Sobre o precedente de 2015 e o pacote de US$ 38 bilhões: Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”, 18 jun. 2026. A leitura da simetria G-Zero é de Bremmer e Maksad (Foreign Affairs, jun. 2026), op. cit.

[22] Para as formulações de referência, ver John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001; ed. ampliada, 2014); e Hal Brands, The Twilight Struggle (2022) e, com Michael Beckley, Danger Zone: The Coming Conflict with China (2022).

[23]Sobre a escalada EUA–Brasil (2025–2026): Reuters (tarifas de 50% vinculadas ao caso Bolsonaro); Americas Society/Council of the Americas (AS/COA), “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”, jun. 2026; Al Jazeera; ABC News e The Washington Times (advertência de Lula sobre interferência eleitoral, 17 jun. 2026). O dado de 9,4% — menor participação histórica dos EUA nas exportações brasileiras no 1º trimestre — é citado por Lula via AS/COA.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 25 de junho de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/outros-produtos/analise-da-redistribuicao-do-poder-no-golfo-persico-pos-guerra-do-ira-do-cessar-fogo-a-era-do-g-zero-regional.