Organizado por Rodolfo Tristão Pina
Assessor do Observatório Militar da Praia Vermelha.
Apresentação
Quando o presidente chinês Xi Jinping, ao explicar o Segundo Objetivo Centenário do país até 2049, diz que a democracia é um princípio inabalavelmente defendido pelo Partido Comunista Chinês (PCC), ele referenda a expressão: a China é uma democracia com características chinesas. Entender o que isso realmente significa com as lentes do Ocidente é um exercício importante para posicioná-la no cenário internacional. O país continua buscando espaço e reconhecimento, incrementando suas relações bilaterias com antigos aliados e abrindo portas para novas parcerias, a exemplo dos financiamentos chineses aos projetos ligados à produção e distribuição de energia na América Latina.
A influência do Governo Chinês nas empresas multinacionais do país é notória, e os métodos utilizados para baratear custos são controversos e, em alguma medida, até desconhecidos, o que gera desconfiança nos principais adversários econômicos, principalmente aos Estados Unidos da América.
O fato é que os interesses estratégicos chineses estão acima das ideologias políticas e culturais dos seus parceiros e o que realmente importa são os benefícios e as oportunidades criadas para o país. Em razão das características peculiares de sua política externa, a China ocupa um espaço considerável em análises de muitos think tanks no mundo e o OMPV selecionou alguns artigos que explicitam a participação geopolítica chinesa, os quais ajudarão a entender um pouco mais os interesses do país, principalmente no que tange à Defesa e Segurança.
1 . United States Departament of Defense

Military and Security Developments Involving the People’s Republic of China 2024 – Annual Report to Congress – 18 de dezembro de 2024
US Departament of Defense
Disponível em: https://media.defense.gov/2024/Dec/18/2003615520/-1/-1/0/MILITARY-AND-SECURITY-DEVELOPMENTS-INVOLVING-THE-PEOPLES-REPUBLIC-OF-CHINA-2024.PDF. Acesso em: 19 de abril de 2025.
Resumo: O relatório abrange as estratégias nacional, econômica e militar da China, bem como as capacidades, atividades e objetivos de modernização do Exército de Libertação Popular (PLA). O documento traça o curso da estratégia chinesa, detalhando as capacidades atuais e futuras do PLA, com destaque para a modernização militar acelerada, os avanços tecnológicos, a expansão naval, as parcerias estratégicas e a fusão entre os setores militar e civil (MCF). Avalia o impacto da modernização militar da China na segurança regional e global. Destaca a “grande revitalização da nação chinesa” até 2049, aumentando o poder nacional e revisando a ordem internacional. O relatório estima que Pequim gaste entre 40% a 90% a mais do que anuncia em seu orçamento de defesa público, o que equivale a aproximadamente US$ 330 bilhões a US$ 450 bilhões em gastos totais com defesa para 2024.
2. Center for Strategic and International Studies (CSIS)

Could Allies Decide the Future of the Indo-Pacific? - 1º de abril de 2025
Phillips O´Brien
Disponível em: https://www.csis.org/analysis/could-allies-decide-future-indo-pacific. Acesso em: 21 de abril de 2025.
Resumo: O texto argumenta que as alianças desempenharão um papel crucial na determinação do futuro da região do Indo-Pacífico. O autor questiona a visão tradicional que foca apenas nas capacidades individuais dos EUA e da China, enfatizando que a força e a coesão das alianças serão fatores decisivos. O relatório destaca que, historicamente, as guerras são frequentemente vencidas por alianças mais fortes, e não por potências individuais. Os EUA possuem aliados poderosos no Indo-Pacífico, como o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e Taiwan. No entanto, questiona-se o compromisso desses aliados em defender os interesses uns dos outros e a capacidade dos EUA de coordenar suas ações de forma eficaz. Embora os aliados da China (Rússia e Coreia do Norte) sejam economicamente mais fracos, eles demonstraram maior disposição em fornecer apoio militar e político uns aos outros, sem muitas restrições.
3. International Institute for Strategic Studies (IISS)

China´s head –of-state and defence diplomacy – 17 de abril de 2025
Erik Green, Meia Nouwens
Disponível em: https://www.iiss.org/online-analysis/charting-china/2025/04/chinas-head-of-state-and-defence-diplomacy/. Acesso em: 24 de abril de 2025.
Resumo: Utilizando uma combinação de diplomacia de chefia de Estado e diplomacia de defesa, lideradas pelo próprio Xi Jinping e figuras estabelecidas pela Comissão Militar Central (CMC), a China intensificou esforços para construir influência geopolítica, especialmente em nações vizinhas e do Sul Global. Essas práticas se tornaram ferramentas para consolidar o status chinês no cenário global e desafiar o modelo ocidental de governança internacional. O fortalecimento da postura diplomática funciona como um vetor para viabilizar o intercâmbio tecnológico e alavancar cadeias industriais autônomas. Entre 2023 e 2024, Xi Jinping realizou 13 visitas internacionais (quatro em 2023, nove em 2024). Em contrapartida, a China recebeu 84 chefes de Estado em 2024, sendo 74% deles originários do Sul Global. O Ministro da Defesa Dong Jun e figuras da CMC realizaram 58 reuniões bilaterais com autoridades estrangeiras em 2024. O foco recai fortemente sobre países da Ásia, África Subsaariana e América Latina.

The Global Security Initiative: China’s International Policing Activities – 24 de outubro de 2024
Erik Green, Meia Nouwens e Veerle Nouwens
Disponível em : https://www.iiss.org/research-paper/2024/10/the-global-security-initiative-chinas-international-policing-activities/. Acesso em: 29 de abril de 2025
Resumo: O governo chinês adota uma estratégia de Iniciativa de Segurança Global (GSI) e vem promovendo parcerias policiais e treinamento, exportando ou doando tecnologias e equipamentos. Da perspectiva da China, tais acordos e atividades visam ajudar a promover a imagem do país como ator legítimo de segurança global, a popularizar as normas e padrões de policiamento e segurança chineses no exterior, a criar condições seguras para investimentos e outros interesses chineses no exterior, e a provar à população chinesa que o governo pode garantir a segurança dos cidadãos fora da China. Há também elementos políticos adicionais nessas iniciativas: a exportação de tecnologia e a integração de técnicos chineses em agências de segurança de países estrangeiros. Isso proporciona à China oportunidades de inteligência, capacidade de conduzir vigilância de cidadãos chineses no exterior, proporcionando a garantir da legitimidade e da segurança contínuas das ações do Partido.
4. Atlantic Council

China´s explotation of overseas ports and bases – 21 de março de 2025
Thomas X. Hammes
Dísponível em: https://www.atlanticcouncil.org/in-depth-research-reports/issue-brief/chinas-exploitation-of-overseas-ports-and-bases/. Acesso em 28 de abril de 2025.
Resumo: Este artigo examina o potencial do Exército de Libertação Popular (ELP) chinês, explora sua crescente rede de portos e bases no exterior e o desafio do controle dos mares em uma possível guerra convencional contra os Estados Unidos. As preocupações de segurança com a propriedade chinesa de portos no exterior se enquadram em três categorias principais. Primeiro, a China coleta vasta quantidade de dados de inteligência por meio de sua rede portuária. Segundo, ela poderia usar essa inteligência e seu controle de portos e píeres importantes para interromper as remessas dos EUA durante a guerra. Finalmente, a China poderia alavancar esses portos para pré-posicionar armas, munições e equipamentos a fim de reabastecer seus navios de guerra e mercantes armados ou estabelecer rapidamente nós de antiacesso/negação de área (A2/AD) perto dos principais pontos de estrangulamento marítimo. Em suma, a China poderia explorar essa rede para disputar o controle dos mares em um conflito armado.
5. Council on Foreign Relations

China in the Indo-Pacific: March 2025 – 9 de abril de 2025
Abi Mc Gowan, Aanika Veedon
Disponível em: https://www.cfr.org/article/china-indo-pacific-march-2025. Acesso em 29 de abril de 2025.
Resumo: Índia e China caminham para a estabilidade das relações, com Modi e Xi Jinping retomando o diálogo direto na cúpula do BRICS. Bangladesh fortalece laços com a China (US$230 milhões em investimentos recentes), enquanto sua relação com a Índia se deteriora, com Pequim assumindo, até mesmo, o setor de saúde, antes dominado pelos indianos. O Paquistão consolida sua parceria estratégica com a China ao ter o primeiro astronauta estrangeiro na Estação Espacial Tiangong e ao receber submarinos avançados. A China expande sua influência no Oceano Índico por meio das Maldivas, preocupando a Índia pela posição estratégica do arquipélago. Após o terremoto em Mianmar, a ajuda humanitária chinesa de US$14 milhões destacou-se, enquanto os EUA estiveram ausentes. Tensões continuam no Mar da China Meridional com demonstrações militares chinesas próximas às Filipinas. A Malásia, sob pressão americana, tenta restringir o fluxo de semicondutores avançados para a China, enquanto o Vietnã aprova a compra de aeronaves chinesas, apesar das controvérsias populares com símbolos territoriais chineses.
6. Rand Corporation

Factors Shaping the Future of China's Military – 30 de janeiro de 2025
Mark Cozad, Jennie W. Wenger
Disponível em: https://www.rand.org/pubs/research_reports/RRA2618-1.html. Acesso em 25 de abril de 2025.
Resumo: O relatório examina como as mudanças demográficas na China, particularmente o declínio da taxa de fertilidade e o envelhecimento da população, impactarão o Exército de Libertação Popular (PLA). Apesar do envelhecimento da população, a China ainda possui uma grande população jovem, embora menor do que no passado. O relatório considera fatores adicionais que influenciam a elegibilidade militar, como nível de educação, saúde e aptidão física. O estudo também aborda o crescimento econômico da China e como ele pode ser afetado pelo envelhecimento da população. O relatório destaca que o PLA enfrenta desafios para atrair talentos com as habilidades necessárias à modernização de suas forças. A cultura do PLA e sua posição na sociedade podem dificultar o recrutamento de indivíduos com os níveis de educação e de aptidão desejados.
7. Chatam House (Royal Institute of International Affairs)

Competing visions of international order – 27 de março de 2025
M. Taylor Fravel
Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2025/03/competing-visions-international-order/02-china-balancing-us-increasing-global-influence. Acesso em: 30 de abril de 2025.
Resumo: O texto explora a visão chinesa da ordem internacional, focando na diminuição da influência dos EUA e na maximização da própria influência global. A China busca o modelo westphaliano baseado em soberania, integridade territorial e não-intervenção, com influência proporcional às capacidades de cada estado. A redução do poder dos EUA é central para a estratégia chinesa, minimizando restrições à sua atuação internacional. A percepção chinesa do poder dos EUA é negativa, intensificada pela crescente competição e enquadramento ideológico de democracia versus autocracia. A China se opõe à imposição de valores ocidentais e considera as alianças dos EUA como ferramentas de poder. A China busca ativamente equilibrar o poder dos EUA por meio da modernização militar, da autossuficiência econômica e do aprofundamento das relações diplomáticas. A iniciativa "Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade" visa promover a visão chinesa de ordem, buscando ativamente a liderança e a influência global.
8. The Japan Institute of International Affairs (JIIA)

China's Strategic Integration of Port Development and Military-Civil Fusion: Building Dual-Use Infrastructure to Support China's Goals of Becoming a "Transportation Power" and a "Maritime Power" – 18 de abril de 2025
Takahiro Tsuchiya
Disponível em: https://www.jiia.or.jp/en/column/2025/04/prc-maritime-fy2024-01.html. Acesso em: 30 de abril de 2025.
Resumo: O relatório analisa a estratégia da China de se tornar uma "potência de transporte" e "potência marítima" através da modernização de seus portos costeiros, simultaneamente implementando a estratégia de "Fusão Civil-Militar" (MCF). Esta abordagem integrada visa maximizar benefícios econômicos em tempos de paz, mantendo a capacidade de conversão rápida para uso militar quando necessário. A MCF incorpora requisitos militares já na fase de design da infraestrutura portuária, enfatizando maior resistência estrutural, capacidade de armazenamento e sistemas de comunicação robustos. Casos exemplares incluem o porto de Tianjin (totalmente automatizado), os portos estratégicos em Hainan (cruciais para operações no Mar do Sul da China) e o desenvolvimento do porto de Qingdao, como zona modelo de inovação em MCF. Através da Iniciativa Cinturão e Rota, a China expandiu investimentos portuários globalmente, incluindo o porto de Gwadar (Paquistão), o porto de Hambantota (Sri Lanka) e a base militar em Djibuti. Estes investimentos, embora apresentados como comerciais, possuem potencial para uso militar dual.
Chinese Diplomacy in the Trump 2.0 Era (1): China's Narrative and New Keywords Amid Global Uncertainty – 21 de abril de 2025
Yumi Iijima
Disponível em: https://www.jiia.or.jp/en/strategic_comment/2025/04/2025-03.html. Acesso em 30 de abril de 2025
Resumo: O artigo analisa a diplomacia chinesa nos primeiros dois meses da segunda administração Trump, destacando a narrativa da China como força estabilizadora global. Enquanto os EUA geram incertezas com mudanças abruptas de políticas, a China posiciona-se como fonte de "estabilidade" e "certeza", evidenciado nos discursos do Ministro Wang Yi na Conferência de Segurança de Munique e nas coletivas de imprensa. Um novo termo: "grande potência capacitadora" surge no discurso diplomático chinês, sugerindo que o desenvolvimento chinês contribui para o crescimento global, diferente das potências "extrativas" anteriores. A China busca se retratar como construtora da paz, defensora do multilateralismo e do livre comércio. A eficácia dessa narrativa chinesa enfrenta ceticismo no Ocidente devido ao comportamento coercitivo da China com vizinhos. Contudo, a retórica radical de Trump e os cortes em programas como USAID abrem oportunidades para a China fortalecer seu Soft power. Eventos diplomáticos significativos, em 2025, incluem a visita de Xi à Rússia, possível cúpula EUA-China, e conferências sobre igualdade de gênero.
Síntese dos artigos
É lícito supor que a China não se apresenta como um modelo a ser seguido, mas difunde a necessidade de um revisionismo na ordem internacional, dominada pela narrativa ocidental, ordem essa que, na visão chinesa, é mais utilizada como ferramenta de poder do que propriamente como fonte de estabilidade e desenvolvimento.
A China tem uma forma peculiar de empregar seu Soft power pois grande parte dos acordos internacionais ainda são de natureza bilateral, embora o país tenha tentado, nos últimos anos, estabelecer a cooperação multilateral, a exemplo das ações na área policial.
O país possui um planejamento estratégico de Estado e, no que tange à Defesa, a China não almeja um confronto global. A cooperação civil-militar tem se mostrado a tônica do propósito de não intervenção internacional, muito embora o aumento do orçamento rivaliza com as dificuldades de recompletamento de quadros técnicos no Exército de Libertação Popular (PLA), em razão da atratividade para talentos em outros setores da sociedade. A China busca sua autossuficiência tecnológica como um componente crítico de sua estratégia nacional.
Por outro lado, o país entende a importância das parcerias estratégicas e das alianças para o setor de Defesa e para angariar peso nos fóruns internacionais. A sua política externa tem priorizado criar um entorno regional militarmente fortalecido, sobretudo alinhado aos interesses chineses e de seus aliados. Nesse mister, o desenvolvimento de portos e da indústria marítima ganha fôlego como política de expansão da influência chinesa pelo mundo, com vistas a reforçar alternativas de comércio exterior por mar e diminuir a influência americana. O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade chinesa em gerenciar divergências internas, preservar sua imagem entre parceiros e adaptar suas iniciativas diante de um ambiente geopolítico dinâmico e competitivo.
Por fim, a China tem exportado não somente tecnologia, mas também metodologias, processos, normas e procedimentos, o que tem colaborado para divulgar sua cultura organizacional no Ocidente. O Departamento de Defesa americano cita como desafios à estratégia chinesa o equilíbrio entre eficiência econômica e requisitos militares, o aprimoramento da transparência legal e a mitigação dos impactos ambientais e sociais. Resta saber se os chineses também pensam dessa forma.
Rio de Janeiro - RJ, 14 de maio 2025.
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