O Soldado e o Estado

 

Autor: Samuel P. Huntington 

Por Alberto Gressler dos Santos 
 Major do Exército Brasileiro e  
aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME.

 

Um corpo de oficiais político, dividido em facções, subordinado a fins ocultos, ressentindo-se de prestígio, mas sensível aos apelos da popularidade, colocaria em perigo a segurança do Estado. Por outro lado, um corpo de oficiais profissionais forte e altamente integrado, imune à política e respeitado por seu caráter militar, seria um imperturbável fator de equilíbrio na conduta da política (HUNTINGTON, 2016, p. 527).

Samuel P. Huntington foi um cientista político norte-americano, nascido em 1927 e falecido em 2008. Formou-se na Universidade de Yale e doutorou-se em Harvard, onde lecionou até 2007. É autor, coautor e editor de 17 livros e de mais de 90 artigos acadêmicos. Dedicou-se ao estudo das relações cívico-militares e à geopolítica. Sua tese de maior impacto foi a que ficou conhecida como a teoria do “Choque das Civilizações”.

O livro “O Soldado e o Estado” analisa as relações entre civis e militares desde o surgimento do oficialato como profissão, que remonta ao século XIX, com a reforma do exército prussiano por Scharnhost, Gneisenau e Grolmann, e chega ao período da Guerra Fria.

Huntington utiliza-se de apontamentos filosóficos sobre a profissão militar e a percepção desta pelas sociedades humanas ao longo da história, exemplificando as diferentes relações entre civis e militares na política de Estados com formação bastante distinta da norte-americana, como a Alemanha e o Japão, cujas sociedades viveram a “tragédia do militarismo”, o que permite observar os comportamentos e apreender algumas conclusões importantes para a realidade brasileira.

A partir de uma base teórica bem explicada, temperada com uma análise empírica detalhada, o autor contribui para a compreensão da participação militar nas decisões políticas nacionais, permitindo clareza na diferenciação de quando se fala em Política Nacional e quando se trata de política partidária. Segundo Luiz de Alencar Araripe, na apresentação da 1ª edição, o autor soube utilizar recursos adequados para tornar agradável um livro sobre um tema tão árido.

Samuel Huntington inicia sua análise pela definição de profissão, fazendo dessa primeira parte uma verdadeira lição para civis e militares na compreensão da finalidade e da motivação da profissão das armas.

Salienta-se que o foco do autor está na oficialidade, na medida em que esse corpo é responsável por dirigir a estrutura militar e, em consequência, pela segurança do Estado e, por isso, ele inicia a obra definindo a natureza do corpo de oficiais e discorrendo sobre sua mentalidade.

Para o autor, a especialização, a responsabilidade e a corporatividade distinguem uma determinada profissão como um tipo especial de vocação. A responsabilidade é caracterizada pelo serviço essencial que o profissional presta ao funcionamento da sociedade. As motivações do oficial residem no amor técnico por sua habilidade e no senso de obrigação social de utilizar essa qualidade em benefício da sociedade (...) A sociedade, por outro lado, só pode garantir essa motivação se oferecer pagamento continuado e condigno a seus oficiais, tanto no serviço ativo quanto na inatividade (HUNTINGTON, 2016, p.33).
Huntington elabora o conceito de ideal militar, segundo o qual “O oficialato é mais forte e mais eficiente quanto mais perto se encontra do ideal profissional; mais débil e mais imperfeito quando lhe falta esse ideal”, o que exige uma verdadeira reflexão do leitor militar a respeito de si próprio. Para esse exercício profissional, “cumpre (ao oficial) possuir destreza intelectual, cujo domínio exige estudo intenso”, delineando, assim, a especialidade do profissional.

Nessa toada, Huntington define a especialização do oficial como uma esfera distinta de competência militar, comum a todos os oficiais e somente a eles, que os distingue de todos os civis, dada pela capacidade de, segundo Harold Laswell, “administrar a violência”. Para seu pleno domínio, a qualificação militar requer uma vasta base de cultura geral – história, política, economia, sociologia e psicologia. Não lhe é possível desenvolver plenamente suas habilidades analíticas, de percepção, julgamento e imaginação se apenas for treinado para tarefas vocacionais. (HUNTINGTON, 2016, p.32)

Após tamanha abordagem inicial, Samuel Huntington parte do suposto problema da participação do grupo militar na política dos Estados e das implicações positivas e/ou negativas para um país. Para isso, utiliza-se dos exemplos da Alemanha e do Japão como referências para fazer uma comparação com o estudo dos EUA. É nessa parte que ele elabora um questionamento relevante: “A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares. Mas quais os limites da obediência?”.

Para o autor, “as instituições militares de qualquer sociedade são moldadas por duas forças: um imperativo funcional, originado das ameaças à segurança da sociedade; e um imperativo societário, proveniente das forças sociais, das ideologias e das instituições dominantes dessa sociedade”. Ele alerta que as instituições militares que só refletem valores sociais podem ser incapazes de desempenhar com eficiência sua função específica, mas, por outro lado, é impossível conter dentro da sociedade instituições militares moldadas exclusivamente por imperativos funcionais. É nesse ponto que está o nó do problema abordado pelo autor.

Huntington destacou a necessidade que os militares têm do direcionamento político para o estabelecimento da estratégia de defesa. Desse modo, o conceito de Controle Civil Objetivo é explicado pela relação segundo a qual a política estabelece os fins e aloca os recursos, ao passo que os militares utilizam e empregam esses recursos para atingir tais objetivos - ou seja, elaboram a estratégia. Inevitavelmente existe uma sequência a ser seguida: a política vem antes da estratégia. Se o governo do Estado não estabelece os fins ou se não há uma direção, contínua, constante, progressiva, previsível, o meio militar atua perdido, sem rumo. “Sem ele [um Conselho de Segurança Nacional que definisse a Política Nacional de Defesa ou Militar], não havia rumo para nada (…) Os pensadores militares reconheciam que um Conselho de Defesa era mais necessário na paz do que na guerra” (HUNTINGTON, 2016, p. 300).

Além desse exemplo, o livro traz à baila vários aspectos do militarismo norte-americano que geram reflexão sobre o estado das relações cívico-militares no Brasil. Note-se que a tradição militar dos EUA foi desenhada a partir de três princípios, quais sejam o tecnicismo, a popularização e o profissionalismo. Huntington deixa claras, ao longo da obra, as dificuldades da sociedade americana em aceitar um agrupamento militar permanente. Ora gerado pela mentalidade liberal que o acusava de dispêndio desnecessário e prejudicial ao progresso econômico e ao bem-estar do povo; ora pela ausência de ameaças devido ao isolamento geográfico.  

Um tema de tangência entre os exércitos norte-americano e brasileiro, e de verdadeira relevância atual, é a perda de oficiais para o mercado civil de trabalho. Isso é citado por Huntington, no período pós Segunda Guerra Mundial, quando a aproximação entre os militares e os empresários se consolidou. Tal proximidade permitiu o desenvolvimento da indústria de defesa dos EUA. Dessa forma, aproveitando o prestígio obtido pelos oficiais durante a guerra, o empresariado seduziu jovens oficiais, com maiores capacidades intelectuais e de direção, que enxergaram melhores oportunidades financeiras se trabalhassem nas empresas e nas indústrias.

Embora Samuel Huntington se centre na história dos EUA, é fácil perceber a universalidade das suas teses. Como a obra foi escrita na década de 1950, talvez haja uma possível lacuna na obra - por limitação temporal - sobre como evoluiu o sentimento favorável aos heróis militares na sociedade americana, assim como é percebido na cultura por meio dos filmes, dos esportes e dos ambientes públicos.

Como afirma Filho (2020), embora escrito há mais de sessenta anos, O Soldado e o Estado é leitura obrigatória para militares e civis profissionais, por aprofundar a relação entre as expressões política e militar do Poder Nacional.

Dois questionamentos elaborados pelo autor devem ser deixados para reflexão. Inicialmente, que modelo de relação entre civis e militares é mais compatível com os valores liberais-democráticos? Por fim, essa pergunta fomenta outra mais importante: que modelo de relação entre civis e militares será melhor para manter a segurança da nação ?

 

Referência bibliográfica

FILHO, Paulo Roberto da Silva Gomes. Samuel Huntington e a ética militar profissional. Paulo Filho – Liderança e Geopolítica, 27 jul. 2020. Disponível em: https://paulofilho.net.br/2020/07/27/samuel-huntington-e-a-etica-militar-profissional/. Acesso em: 31 de maio de 2026.

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.