Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU

Milena Fonseca Santos de Oliveira
1º Tenente do Exército, Mestre em Estudos de Linguagem pelo 
Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense com
especialização em estudos de tradução em língua francesa.

 

1 Introdução

As missões de paz das Nações Unidas constituem um dos principais instrumentos internacionais voltados para a estabilização de regiões afetadas por conflitos armados, crises humanitárias e fragilidade institucional. Entre os diversos mandatos atribuídos a estas operações, destaca-se a Proteção de Civis (Protection of Civilians – PoC), considerada atualmente uma das dimensões mais complexas e essenciais da atuação da ONU. Em cenários marcados por violência intercomunitária, deslocamentos forçados, presença de grupos armados e violações sistemáticas de direitos humanos, proteger civis exige muito mais do que presença militar ou policiamento; exige coordenação eficiente, legitimidade institucional e comunicação eficaz.

Neste contexto, a língua assume um papel estratégico. A comunicação é parte central do êxito operacional em missões de paz, pois condiciona o acesso às informações sensíveis, ao entendimento das necessidades locais e à construção de confiança entre os capacetes azuis e as comunidades. Em várias missões contemporâneas, especialmente em países africanos, o francês é a língua oficial ou uma língua de administração pública e comunicação regional. Desta forma, o domínio do francês pode representar um fator decisivo para o sucesso de ações de proteção e para a redução de riscos no terreno.

Este artigo analisa o papel do idioma francês como ferramenta operacional para o cumprimento do mandato das missões de paz das Nações Unidas em países francófonos, defendendo que a competência linguística deve ser reconhecida como elemento fundamental do treinamento pré-desdobramento. A língua francesa, neste sentido, ultrapassa sua função comunicativa e passa a ser compreendida como instrumento de segurança humana, mediação cultural e eficácia tática.

2 Desenvolvimento

Desde o final do século XX, a ONU passou a integrar a proteção de civis como prioridade explícita de várias operações de paz. Conflitos internos, guerras civis e crises prolongadas evidenciaram que a população civil se tornou alvo direto de violência, seja por ataques deliberados, seja por consequências indiretas do colapso institucional. Assim, a PoC tornou-se um conceito multidimensional, articulando dimensões militares, policiais e civis.

Neste sentido, para que os capacetes azuis possam executar de forma adequada esta tarefa por intermédio de ações como patrulhas preventivas, presença dissuasória em zonas de risco, escolta de comboios humanitários, apoio à reconstrução do Estado, monitoramento de direitos humanos, mediação de conflitos e planejamento logístico e administrativo, a comunicação em francês torna-se fundamental para garantir a interoperabilidade entre contingentes multinacionais que compõem as missões de paz da ONU.

Em muitas operações, o francês funciona como língua de trabalho ao lado do inglês, sendo utilizado em briefings, reuniões de coordenação, treinamentos conjuntos e interação com organizações internacionais e ONG’s presentes no terreno. Dessa forma, militares que dominam o francês conseguem integrar-se mais rapidamente às equipes, compreender ordens operacionais com maior clareza e atuar com mais autonomia em patrulhas e atividades de ligação com a comunidade local, como nos mostra o relato a seguir:

“Durante a missão, mantive contato com a população civil local e com o componente civil da ONU, com o apoio pontual de intérpretes para dialetos locais. As interações com a população ocorreram predominantemente em francês, com uso inicial de cumprimentos em sango para favorecer a aproximação, tendo como finalidade a coleta de informações sobre segurança, condições humanitárias e circulação de grupos armados, sendo, em áreas mais remotas, frequentemente restritas aos líderes locais. Já com o componente civil, composto por profissionais de diversas nacionalidades, incluindo nacionais da República Centro-Africana, a comunicação ocorreu em francês e, em menor escala, em inglês, com finalidades que abrangeram desde apoio administrativo e logístico até ações de desarmamento e temas relacionados à proteção de mulheres e crianças. Esse contato foi essencial para o fortalecimento da confiança mútua e para a efetividade das ações desenvolvidas.” Maj (EB) RENATA SIMÕES, Observadora Militar, MINUSCA.

 

 2.1 A comunicação em língua francesa como estratégia de cooperação e confiança em contextos de missão de paz da ONU

Grande parte das missões recentes ou historicamente relevantes da ONU ocorreu em territórios francófonos, como a República Democrática do Congo (MONUSCO), o Mali (MINUSMA), a República Centro-Africana (MINUSCA), a Costa do Marfim (UNOCI) e o Haiti (MINUSTAH), onde o idioma francês possui forte presença institucional. Além disso, mesmo em regiões multilíngues, frequentemente atua como língua de administração estatal e de comunicação formal. Neste cenário, o francês é utilizado em reuniões com autoridade locais, coordenação com ONG’s, interação com líderes comunitários e a elaboração de documentos operacionais. A língua torna-se também um meio de acesso às informações públicas, relatórios administrativos e orientações governamentais, conforme referenciado no relato a seguir:

 “Como oficial de ligação estratégica da MONUSCO, represento o Comandante da Força da missão na capital da República Democrática do Congo (RDC), atuando como elo estratégico da Força de Paz com a liderança da MONUSCO, Forças Armadas da RDC, Adidos Militares, atores diplomáticos, autoridades locais e sociedade civil. Nesse contexto, mantenho contato diário com civis, utilizando os idiomas inglês e francês como meios de comunicação. Esse contato ocorre de forma contínua e abrange diferentes níveis de interação, desde conversas informais do dia a dia, passando por reuniões de agenda e coordenação, até reuniões de alto nível com a liderança da missão e demais autoridades.” Cel (EB) MARCELO REZENDE, Oficial de Ligação Estratégica da Força de Paz da MONUSCO.

 

“Na missão em Beni, na República Democrática do Congo, comunico-me diariamente em francês com os funcionários da base das Nações Unidas e do escritório onde desempenho minhas atividades. Os colaboradores locais utilizam, de forma recorrente, tanto o francês quanto o inglês em suas interações profissionais. Ao chegar à missão, foi necessário passar por diversas seções administrativas para a emissão de documentos pessoais, como a identificação da ONU e a carteira de motorista. Em diversas ocasiões, observei que o uso do francês no primeiro contato contribuiu para uma recepção mais cordial e facilitou o andamento dos procedimentos.” 1º Sgt (EB) DEUSDETH, Instrutor da JWMTT 7, MONUSCO.

Assim, podemos verificar que o francês representa um recurso estratégico para diversas ações, sejam elas de cunho pessoal, administrativo ou profissional, de forma relevante e funcional. Missões eficazes dependem de sistemas de alerta precoce, coleta de informações e interpretação de sinais de risco. Estes elementos são profundamente linguísticos. A população civil frequentemente busca as forças de paz para relatar ameaças, denunciar abusos ou solicitar intervenção. Se os militares ou policiais não compreendem o idioma utilizado, há risco de subestimar a gravidade da denúncia ou de não identificar detalhes essenciais, como a localização, o número de agressores ou o tempo estimado do ataque.

Portanto, a competência em língua francesa facilita a escuta ativa e o acolhimento de relatos com maior fidelidade. Além disso, permite que os capacetes azuis formulem perguntas com clareza e precisão, evitando ambiguidades que podem gerar falhas de interpretação. Em muitas situações, um simples erro de compreensão pode significar uma patrulha enviada ao local errado ou uma evacuação mal coordenada. Desse modo, o francês pode ser compreendido como instrumento de prevenção e de antecipação, pois amplia a capacidade de resposta antes que a violência se concretize. Quando os capacetes azuis não dominam a língua francesa, tornam-se dependentes de intérpretes ou de intermediários locais, o que pode gerar distorções, atrasos e perda de precisão. Em situações de crise, como ataques iminentes ou evacuações emergenciais, a dependência linguística pode comprometer vidas humanas.

 

2.2          O enfoque da comunicação em língua francesa para as missões de paz da ONU

A comunicação é um elemento essencial em missões de paz da ONU, pois garante a coordenação entre as equipes multinacionais, as autoridades locais e a população civil, contribuindo diretamente para a segurança e a eficácia das operações. Por meio de uma comunicação clara, objetiva e culturalmente adequada, é possível evitar ambiguidades, facilitar negociações e fortalecer a confiança entre os capacetes azuis e as comunidades atendidas. Por isso, comunicar-se bem não significa apenas transmitir informações, mas também construir diálogo, cooperação e legitimidade no cumprimento do mandato da missão.

Desse modo, a comunicação em língua francesa nas missões de paz das Nações Unidas deve ser compreendida como um enfoque estratégico e operacional, pois ela ultrapassa a simples função de transmitir mensagens e se torna um instrumento essencial de mediação, confiança e cooperação com as populações locais. Em contextos africanos francófonos, o domínio do francês permite aos militares e agentes de paz estabelecer diálogo direto com os civis, autoridades administrativas, líderes comunitários e organizações humanitárias, reduzindo ruídos culturais e prevenindo mal-entendidos que podem gerar tensões.

Além disso, a capacidade de comunicar-se em francês facilita a coleta de informações, a negociação de acordos locais, a condução de patrulhas e a execução de ações de proteção de civis, reforçando a legitimidade e a credibilidade da força internacional. Assim, o enfoque da comunicação em língua francesa contribui para a eficácia das operações, fortalecendo a diplomacia preventiva e a construção de relações pacíficas em ambientes marcados por instabilidade. As missões da ONU atuam em articulação com múltiplos atores: agências humanitárias, organizações não governamentais, autoridades locais, forças de segurança nacionais, grupos comunitários, serviços administrativos, tal como o relato abaixo:

“A comunicação com os locais no ambiente de missão de paz, ocorreu principalmente na utilização dos serviços locais na vida quotidiana, como celebrar contratos de alugueis, empresas de segurança privada, serviços de água e luz, cozinha e etc; como exemplo posso citar as tratativas para organizar o serviço de vigilância privado na nossa moradia, do qual tomei parte. O contato sempre foi realizado em francês. Seja por telefone ou pessoalmente e tinha o escopo de ajustar os problemas do dia a dia: atraso de funcionários, erros nos pagamentos, dispensas do serviço, a fim de garantir a correta execução dos serviços contratados." Cap (FAB) GERMANO, Instrutor da JWMTT 6, MONUSCO.

               Neste sentido, a língua francesa favorece a padronização de procedimentos, melhora a troca de informações e aumenta a eficiência no comando e controle das operações. Também observamos que o enfoque comunicacional em francês é essencial para a construção de confiança e para a cooperação entre instituições. Essa troca permite identificar ameaças, planejar ações preventivas e responder com agilidade às crises emergenciais, caracterizando assim a comunicação como recurso estratégico para garantir não apenas o cumprimento das tarefas operacionais, mas também a proteção de civis e a manutenção da estabilidade nas áreas sob responsabilidade da ONU.

 

2.3          Ensino de francês no pré-desdobramento: uma necessidade operacional

O cotidiano operacional das missões de paz envolve inúmeras situações em que a comunicação clara é vital. Em patrulhas preventivas, por exemplo, os capacetes azuis precisam orientar civis sobre rotas seguras, explicar medidas de segurança e coletar informações sobre movimentações suspeitas. Em checkpoints, a linguagem adequada evita tensões e contribui para o controle não violento. Durante evacuações emergenciais, a clareza linguística é ainda mais crítica. É necessário dar instruções rápidas e diretas, evitar pânico coletivo e assegurar que as pessoas compreendam para onde devem ir. A incapacidade de se comunicar pode gerar confusão e colocar civis em maior perigo. O francês, nesse sentido, constitui uma ferramenta operacional indispensável, pois permite que o capacete azul atue com mais autonomia e eficácia, facilitando a mediação constante. Assim, a língua funciona como recurso de proteção direta, influenciando a segurança imediata das populações.

“Durante minha participação na MINURSO, a comunicação com civis variou conforme a área de atuação. Na região controlada pela Frente Polisário, a comunicação ocorria principalmente em espanhol. Como não possuo fluência no idioma, utilizava “portunhol”. Nos casos em que o interlocutor falava apenas árabe, recorria a gestos e desenhos na areia. O contato com civis era, em geral, limitado àqueles que prestavam apoio à manutenção do Team Site. Na área controlada por Marrocos, atuei no Quartel-General em Laayoune, onde a comunicação com civis da ONU era realizada em inglês, com interação frequente. No cotidiano, fora do ambiente de trabalho, utilizei o francês para comunicação com a população local, o que se mostrou suficiente para as necessidades básicas.” CF (MB) DANILO, Observador Militar, MINURSO.

A proteção de civis exige também atenção específica aos grupos vulneráveis, como mulheres, crianças e deslocados internos. Muitas vezes, essas populações têm medo de denunciar abusos ou não confiam em autoridades armadas. A linguagem utilizada no contato com essas vítimas precisa ser acolhedora, respeitosa e culturalmente apropriada. O domínio do francês permite que os capacetes azuis adotem um discurso mais adequado e menos intimidante, criando um ambiente propício para denúncias. Além disso, facilita o acompanhamento de casos de violência sexual, exploração e abusos, temas recorrentes em cenários de conflito. Quando a comunicação é falha, vítimas podem permanecer em silêncio, perpetuando ciclos de violência.

Sendo assim, considerando os elementos apresentados, torna-se evidente que o ensino de francês deve ser integrado de forma estratégica aos treinamentos de pré-desdobramento. O ensino tradicional, centrado em gramática normativa e conteúdos abstratos, não atende plenamente às necessidades de missões de paz. É necessário um francês orientado às tarefas operacionais e cenários reais. O chamado francês para objetivos específicos (FOS) pode oferecer ferramentas concretas para atuação no terreno.

O treinamento linguístico deve priorizar vocabulário funcional e competências comunicativas ligadas às patrulhas, às entrevistas, à mediação comunitária, à assistência humanitária e à redação de relatórios simples. Além disso, metodologias baseadas em simulações, jogos de papéis e situações-problema podem contribuir para desenvolver não apenas competência linguística, mas também intercultural e pragmática. Ensinar o aluno a dizer algo não basta, é preciso ensiná-lo a dizer de forma adequada, respeitando hierarquias culturais, níveis de formalidade e códigos sociais locais.

 

3 Conclusão

O conceito de segurança humana amplia a noção tradicional de segurança, incluindo dimensões como dignidade, bem-estar e proteção contra violência estrutural. Dentro dessa perspectiva, a língua desempenha um papel central, pois permite que indivíduos tenham acesso à informação, expressem necessidades e participem de processos de decisão.

O francês em missões de paz não é apenas uma ferramenta linguística, é um meio de inclusão e de reconhecimento do outro. Ao falar a língua local ou institucional, o capacete azul demonstra disposição para compreender e respeitar a população. Isso fortalece a legitimidade da missão e reduz a percepção de ocupação estrangeira. Além disso, o domínio do francês pode ser interpretado como ferramenta de diplomacia operacional. A comunicação eficaz com autoridades e líderes comunitários facilita negociações, mediações e acordos locais, funcionando, assim, como um recurso de pacificação, essencial para a estabilização e proteção.

A proteção de civis em missões de paz da ONU é um desafio multifacetado, que exige capacidades militares, policiais, humanitárias e diplomáticas, tendo o domínio da língua francesa como ferramenta operacional e estratégica. Ela influencia diretamente a capacidade de prevenir violência, de coletar informações, de coordenar ações humanitárias e de construir legitimidade junto às comunidades locais. Com isso, a língua francesa permite que os capacetes azuis respondam com maior rapidez a alertas e denúncias, transmitam instruções claras em situações críticas e atuem de forma mais eficaz na proteção de grupos vulneráveis. Ademais, fortalece a articulação interinstitucional e contribui para uma relação mais humanizada entre missão e população civil.

Portanto, é necessário reconhecer que o ensino do idioma francês no pré-desdobramento não deve ser tratado como mera competência técnica, mas como componente fundamental da preparação operacional. Investir em programas linguísticos orientados às tarefas reais e adaptados às exigências do terreno é uma medida estratégica para aumentar a eficácia das missões e cumprir o compromisso internacional de proteção de civis. Dessa forma, a língua francesa pode ser compreendida como um instrumento de segurança humana, capaz de salvar vidas, não apenas pela comunicação, mas pelo fortalecimento da confiança, da cooperação e da capacidade de resposta. Em um mundo em que os conflitos se tornam cada vez mais complexos, a dimensão linguística emerge como fator decisivo na construção da paz e da garantia de dignidade às populações afetadas pela guerra. Como disse o ex-Comandante da MONUSCO, General Carlos Alberto dos Santos Cruz: “A comunicação é tão importante quanto a estratégia. Sem entender, não se comanda.”

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 09 de julho de 2026.


Como citar este documento:

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU.  Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/missao-de-paz/artigos/lingua-confianca-e-cooperacao-o-idioma-frances-na-comunicacao-em-missoes-de-paz-entre-os-capacetes-azuis-civis-e-colaboradores-da-onu.