Josias Marcos de Resende Silva
Doutorando do PPGCM da ECEME
De uma forma geral, nos diversos cenários resultantes do ambiente operacional contemporâneo, a resposta militar de um Estado tende a ocorrer de forma muito dinâmica. Por essa razão, o tempo para a mobilização de um país em um esforço de guerra tornase muito reduzido ou mesmo inexistente, obrigando suas Forças Armadas a utilizarem as capacidades que já tenham sido desenvolvidas em tempos de paz (MARKOWSKI; HALL; WYLIE, 2010, p. 164). Essa situação reflete-se também na resposta militar a crises humanitárias, sejam essas causadas por desastres naturais ou por ambientes conflituosos e instáveis.
Nesse sentido, desde eventos históricos como as Guerras Napoleônicas, as Guerras Mundiais e o Bloqueio de Berlim (1948-1949), a situações de crises mais recentes como na Iugoslávia, em Ruanda, no Sudão ou na República Democrática do Congo, governos nacionais normalmente solicitam o auxílio das Forças Armadas para distribuir, de forma imediata, recursos como comida, remédios, combustível, transporte e comunicações (HEASLIP; SHARIF; ALTHONAYAN, 2012, p. 377).
Dessa maneira, o emprego de Forças Armadas em operações de ajuda humanitária não constitui um fenômeno recente. De fato, forças militares nacionais e internacionais constantemente desempenham um papel de protagonismo no que diz respeito a crises humanitárias, utilizando para isso sua capacidade logística e sua estrutura organizacional. Por essa razão, diversos países têm desenvolvido uma doutrina própria de ajuda humanitária nas últimas décadas (HEASLIP; BARBER, 2014, p. 61).
Nesse tipo de operação, torna-se evidente a capacidade das Forças Armadas em resolver problemas gerados por situações de emergência. Isso ocorre devido a uma série de fatores inerentes às essas instituições. Entre os mais importantes, cabe salientar que os militares possuem uma ideia bastante clara sobre os níveis de planejamento estratégico, operacional e tático, o que possibilita uma resposta ampla com efeitos no longo, médio e curto-prazo. Essa não é a realidade entre a grande parcela da comunidade humanitária civil. Além disso, as Forças Armadas normalmente possuem acesso a fundos discricionários de seus Estados-nacionais, o que facilita a distribuição da ajuda humanitária de forma oportuna e eficiente (HEASLIP; BARBER, 2014, p. 71).
Na América do Sul, a instabilidade política da Venezuela nos últimos anos resultou em uma crise humanitária e migratória de grandes proporções, afetando todo o subcontinente. Somente entre os meses de fevereiro a agosto de 2018, mais de 70.000 venezuelanos cruzaram a fronteira brasileira em Pacaraima, perfazendo um fluxo médio de cerca de 400 migrantes por dia (OLIVEIRA, 2019, p. 106). Nesse mesmo ano, o número de venezuelanos atingiu cerca de 10% do total da população do estado brasileiro de Roraima (DOMINGUES, 2018, p. 18), sobrecarregando os sistemas públicos de saúde, educação e segurança pública.
Franchi (2019, p. 6) explica que a concentração de venezuelanos no estado de Roraima ocorre em virtude de sua proximidade com o país vizinho. Após ultrapassar a fronteira brasileira, o fluxo de migrantes estende-se ao longo do eixo rodoviário PacaraimaManaus (BR-174), tendo como principal destino a cidade de Boa Vista. Com cerca de apenas 330 mil habitantes, a capital roraimense mostrou-se incapaz de absorver e integrar a população de origem venezuelana, resultando em uma situação social caótica.
Tomando por base essa conjuntura, por meio do Decreto Presidencial no 9.285, de 15 de fevereiro de 2018, o governo brasileiro reconheceu a situação de vulnerabilidade resultante do grande fluxo de venezuelanos para o estado de Roraima (BRASIL, 2018a). Em seguida, a Diretriz Ministerial no 03/2018 autorizou a criação da Força-Tarefa Logística Humanitária (Operação Acolhida), com o objetivo de prestar ajuda humanitária nesse mesmo estado da federação (BRASIL, 2018b).
De acordo com sua concepção, a Operação Acolhida realiza o trabalho de recepção, identificação e acolhimento de refugiados e migrantes venezuelanos que chegam ao Brasil pela fronteira com Roraima. Nesse contexto, as Forças Armadas brasileiras são responsáveis por prestarem o apoio logístico à operação nas áreas de infraestrutura, transporte, saúde e administração. Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e entidades da sociedade civil como as organizações não-governamentais (ONGs) também participam dos esforços humanitários no norte do Brasil (BRASIL, 2020).
Dessa forma, a Operação Acolhida pode ser vista simultaneamente como uma operação humanitária, conjunta e interagências. Ela é humanitária porque tem por objetivo principal acolher migrantes venezuelanos em situação de vulnerabilidade. Por outro lado, ela é conjunta porque envolve efetivos militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea. Por fim, a Força-Tarefa Logística Humanitária é interagências em virtude da interação das Forças Armadas com uma série de agências governamentais, internacionais, religiosas e humanitárias que participam da operação (OLIVEIRA, 2019, p. 99).
No que concerne ao seu planejamento, a Operação Acolhida é baseada em três pilares: o ordenamento da fronteira, o abrigamento e a interiorização. O ordenamento da fronteira relaciona-se à recepção, à identificação e ao controle dos migrantes venezuelanos que adentram diariamente em território brasileiro. O abrigamento corresponde ao fornecimento de abrigo temporário, bem como alimentação e assistência médica. Finalmente, a interiorização pode ser compreendida como o processo de distribuição dos migrantes venezuelanos nas diversas regiões do Brasil, visando a integração dos estrangeiros à população local (OLIVEIRA, 2019, p. 100).
De uma forma geral, os números associados à Força-Tarefa Logística Humanitária são bastante significativos. Mensalmente, cerca de 6.000 migrantes são beneficiados no que se refere à ocupação de abrigos, incluindo as três etapas de refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) e atendimento de saúde. Além disso, somente no ano de 2019, aproximadamente 21 mil venezuelanos foram interiorizados em outras regiões do Brasil, recebendo o suporte básico para integrarem-se à sociedade local (SIMÕES; FRANCHI, 2020, p. 2).
Atualmente, a Força-Tarefa Logística Humanitária enfrenta mais um importante desafio: a pandemia causada pela COVID-19. Lançado em 18 de fevereiro de 2020, o Plano Emergencial de Contingenciamento para a COVID-19 (PECCovid-19) baliza os esforços governamentais em Roraima e tem por objetivo impedir o contágio dos migrantes venezuelanos e dos próprios integrantes da Operação Acolhida (CERÁVOLO; PEREIRA; FRANCHI, 2020). Nesse sentido, o PECCovid-19 fundamenta-se na tríade monitorar, isolar e tratar, abrangendo medidas preventivas e proativas com foco em Pacaraima e Boa Vista, bem como todo o trajeto de interiorização para os diferentes destinos no Brasil (MORAES; PAIM; FRANCHI, 2020).
No âmbito das Forças Armadas brasileiras, a resposta à crise humanitária por intermédio da Operação Acolhida resultou na realização de uma série de ações e tarefas que materializam o desenvolvimento de capacidades militares ligadas à logística humanitária. Particularmente no que diz respeito ao Exército Brasileiro, o qual detém o maior efetivo empregado e possui o comando militar da operação, as principais capacidades militares terrestres desenvolvidas por meio de ações e tarefas relacionadas à Força-Tarefa Logística Humanitária podem ser resumidas conforme o quadro abaixo:
Fonte: Oliveira (2019); Brasil (2015); Brasil (2020).
Formadas desde os tempos de paz por visarem o longo-prazo, as capacidades militares são decorrentes da aquisição de ativos e conhecimento por parte das Forças Armadas, capacitando-as a responder de acordo com o cenário encontrado. Dessa forma, é possível afirmar que a participação das Forças Armadas na Operação Acolhida tem resultado no desenvolvimento de capacidades militares específicas e desejadas para respostas a crises humanitárias. Além disso, devido à complexidade da logística humanitária no estado de Roraima, foram exigidas do Exército Brasileiro capacidades militares terrestres que transcendem a área da logística, demandando esforços também nos campos de apoio a órgãos governamentais, interoperabilidade e proteção.
Por fim, esse artigo não esgota os conhecimentos sobre o desenvolvimento de capacidades militares desenvolvidas pela Força-Tarefa Logística Humanitária (Operação Acolhida), uma vez que ele se limitou a uma análise sobre as capacidades militares terrestres desenvolvidas pelo Exército Brasileiro. Portanto, novos trabalhos sobre o desenvolvimento de capacidades militares conjuntas no âmbito da Operação Acolhida poderão complementar essa pesquisa.
Rio de Janeiro - RJ, 19 de outubro de 2020.
Como citar este documento:
SILVA, Josias Marcos de Resende. Força-Tarefa Logística Humanitária: o desenvolvimento de capacidades militares, no contexto da Operação Acolhida. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: ECEME, 2020.
Referência:
- BRASIL. Decreto no 9.285, de 15 de fevereiro de 2018. Reconhece a situação de vulnerabilidade decorrente de fluxo migratório provocado por crise humanitária na República Bolivariana da Venezuela. Brasil: Presidência da República, 2018a.
- BRASIL. Diretriz Ministerial no 03/2018, de 28 de fevereiro de 2018. Brasil: Ministério da Defesa, 2018b.
- BRASIL. EB20-C-07.001 Catálogo de Capacidades do Exército 2015-2035. Brasília: Estado-Maior do Exército, 2015.
- BRASIL. Operação Acolhida. Governo do Brasil, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/acolhida/base-legal/. Acesso em: 19 junho 2020.
- CERÁVOLO, Luiz; PEREIRA, Dan; FRANCHI, Tássio. O Covid na Linha de Frente da Operação Acolhida. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro, 2020.
- DOMINGUES, Filipe. Venezuelans Flee Crisis at Home but Face Rising Tensions in Brazil. America, 22 outubro 2018. Disponível em: https://www.americamagazine.org /politicssociety/2018/10/22/venezuelans-flee-crisis-home-face-risingtensions-brazil. Acesso em: 20 junho 2020.
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- HEASLIP, G.; BARBER, E. Using the Military in Disaster Relief: systemizing challenges and opportunities. Journal of Humanitarian Logistics and Supply Chain Management. v. 4, n. 1, p. 60-81, 2014. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/262583614_Using_t he_military_in_disaster_relief_systemising_challenges_and_ opportunities. Acesso em: 12 junho 2020.
- HEASLIP, G.; SHARIF, A.; ALTHONAYAN, A. Employing a Systems-Based Perspective of Inter-Relationships within Humanitarian Logistics. International Journal of Production Economics. v. 139, p. 377-392, 2012. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S09255 27312002149. Acesso em: 12 junho 2020.
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- OLIVEIRA, G. Use of Brazilian Military Component in the Face of Venezuela’s Migration Crises. Military Review. 2019. Disponível em: https://www.armyupress.army.mil/ Journals/Military-Review/English-Edition-Archives/May-June2019/Alberto-Brazil-Venezuela-print/. Acesso em: 19 junho 2020.
- SIMÕES, Luciano Correa; FRANCHI, Tássio. Operação Acolhida: um balanço do executado até 2019. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro, 2020.
64498.010051/2020-30
