Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa

A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa.

Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado.

Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros,  são alguns dos crimes da região.

Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

 

Tássio Franchi
Professor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia?

Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões.  Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional.

Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais.

Esses países veem a  Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países.

Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica.

2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números?

Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo.

As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses  países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária.

O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras.

Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas.

Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais.

3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas?

Prof. Tássio:  Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles.

O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos.

Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas.

OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países?

Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor.

Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica.

Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia.

4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado?

Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime.

Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado.

5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região?

Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas.

Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação.

O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico.

A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável.

As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras.

6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas?

Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica.

A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações.

Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas.

Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental.

7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia?

Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano.

Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais.

Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira.

Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera.

Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos.

Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto.

8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica?

Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso.

Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região.

Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região.

Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado.

A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia.

9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa?

Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas.

Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína.

Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a  rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África.

Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga.

O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas.

Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu.

A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.
E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa.

10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região?

Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos.

11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso?

Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas.

Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil.

E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas.

Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.
Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. 

Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção.

Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink.

Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil.

Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados.

12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia?

Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada.

Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas.

Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para.

Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. 

 

 

 

Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025.


 

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