Thiago Carneiro da Matta
Aluno de MBA em Política, Estratégia, Defesa
e Segurança Pública - ADESG /Instituto Venturo /2025.
1. Introdução
A evolução da Inteligência Artificial (IA) e a crescente interdependência das infraestruturas digitais ampliaram a complexidade das relações internacionais no ciberespaço. Mais do que questões ligadas ao equilíbrio de poder, preocupação recorrente que pode, inclusive, afetar a soberania de uma nação, a política cibernética e sua interação com a IA tornaram-se temas centrais das estratégias de poder e da política externa na atualidade.
Se tradicionalmente a relação entre os Estados no Sistema Internacional é anárquica, a imprevisibilidade do comportamento, no âmbito do espaço cibernético, dificulta, sobremaneira, o relacionamento interestatal, com reflexos para o estabelecimento de parâmetros claros para o acompanhamento do desenvolvimento tecnológico.
Esse cenário reforça a incerteza para se definir estratégias, especialmente diante da velocidade das inovações, da distribuição assimétrica de capacidades e da dificuldade de antecipar os efeitos sistêmicos do avanço tecnológico da IA.
A Diplomacia Cibernética - entendida como o conjunto de práticas, mecanismos e negociações voltados à regulação do comportamento dos Estados no ciberespaço, bem como à construção de suas normas e à cooperação em um ambiente altamente interdependente - depende diretamente do impacto da IA e das tecnologias emergentes que venham a moldar o equilíbrio de poder. A relação entre tecnologia e diplomacia, portanto, passa a ser determinante sobre como os Estados formularão respostas e projetarão sua influência em um ambiente cada vez mais volátil. (DEVANNY, 2024)
Nesse contexto, compreender o papel da diplomacia cibernética torna-se essencial. A visão futura desse quadro é que o acelerado ritmo das inovações e a constante produção de novos instrumentos informacionais tendem a manter essa agenda aberta, especialmente porque os arranjos de governança nacional dificilmente acompanham a velocidade dos avanços tecnológicos.
A elaboração de respostas que façam frente a esse novo cenário internacional e ao movimento incerto dos diversos atores, dependerá não apenas das capacidades internas de cada Estado, mas também de sua cultura estratégica, de sua habilidade de cooperação e de sua capacidade de influenciar outros atores. Assim, a incerteza torna-se um elemento condicionador de decisões estratégicas, definindo limites e possibilidades de ação no domínio cibernético. (DEVANNY, 2024)
2. Diplomacia Cibernética e Incerteza Tecnológica
A combinação entre inovação acelerada e baixa previsibilidade de cenários moldará decisivamente a agenda diplomática cibernética nos próximos anos. Entre esses fatores, destaca-se a crescente sofisticação dos ataques cibernéticos possibilitados por IA. Sistemas inteligentes ampliam a habilidade de realizar intrusões complexas, persistentes e de difícil detecção, afetando tanto a formulação de políticas estatais quanto a atuação de atores não estatais, cada vez mais capacitados e motivados por objetivos diversos, uma vez que os Estados não são, nem serão, os únicos atores interessados em cibersegurança. Como destacam Malatji e Tolah (2024), a IA automatiza ataques, explora vulnerabilidades e manipula dados, produzindo um ambiente em que benefícios e riscos evoluem simultaneamente.
Nesse cenário competitivo, a vantagem será dos Estados e organizações capazes de alinhar de modo eficiente seus propósitos estratégicos, seus recursos e seus investimentos em pesquisas de ponta. Apenas dessa forma poderão manter a competitividade frente a atores corporativos ou não governamentais, que também disputam espaço e influência no domínio cibernético. (DEVANNY, 2024)
A IA, ao mesmo tempo em que se mostra uma aliada no que tange à segurança cibernética, representa um perigo crescente para a Defesa. Sua capacidade de aprimorar ataques cria novas vulnerabilidades, e, por isso, a manutenção das medidas tradicionais de detecção torna crítica a segurança cibernética, já permeada por armadilhas tecnológicas e demandas constantes de atualização. A manipulação e envenenamento de dados, assim como o uso indevido de sistemas avançados, revelam que até mesmo modelos sofisticados permanecem vulneráveis. (MALATJI; TOLAH, 2024)
3. Impactos Sociais, Corporativos e a Convergência Estado - Setor Privado
O avanço e a diversificação de ataques cibernéticos preocupam as agendas de segurança em escala global. Na sociedade, seus efeitos vão muito além do campo militar: prejuízos financeiros, interrupção de serviços essenciais, crises econômicas, falhas sistêmicas, vulnerabilidades em cadeias de suprimentos, manipulação de informações e impactos sobre direitos fundamentais. Por isso, estratégias de mitigação, de contenção de danos, de identificação de uso indevido e de mecanismos de proteção interna tornam-se imprescindíveis. (MALATJI; TOLAH, 2024)
Nesse contexto, é improdutivo pensar em uma competição direta entre Estados e grandes empresas de tecnologia. Observa-se, pelo contrário, um alinhamento crescente entre governos e grandes corporações, como mostram os casos EUA-Microsoft-OpenAl[1] e China-DeepSeeker[2]. A construção de capacidades avançadas de IA depende cada vez mais da cooperação entre os setores público e privado, o que gera um ambiente híbrido de poder. Segundo Nye (2020) e DeNardis (2020), o poder cibernético global está distribuído entre Estados e grandes empresas de tecnologia, o que exige modelos de cooperação estrutural capazes de equilibrar interesses e responsabilidades.
Essa perspectiva reforça que o desenvolvimento de capacidades avançadas de IA e do poder cibernético tende a ocorrer por meio de arranjos colaborativos e não por competição direta, demandando novas formas de governança e de coordenação entre interesses públicos e privados.
Além disso, a diversidade de motivações dos ataques cibernéticos, sejam elas política, ideológica, econômica, pessoal ou psicológica, evidencia a necessidade da integração de teorias diversas, como Ciências Políticas, Economia, Tecnologia, além de levar em consideração abordagens éticas e de princípios morais no desenvolvimento e na implantação de IA em segurança cibernética. (MALATJI; TOLAH, 2024)
4. IA, Autonomia e Desafios à Segurança Internacional
A adoção de IA nas operações cibernéticas e no ambiente militar tem transformado profundamente a dinâmica dos conflitos. Os sistemas automatizados aumentam a velocidade de resposta, melhoram a precisão e reforçam a capacidade de detectar ameaças. Por outro lado, esses novos sistemas automatizados podem agir de forma independente, apresentando altos riscos para as organizações nacionais e internacionais. A possibilidade desses sistemas agirem sem intervenção humana amplia a margem de imprevisibilidade, tornando mais complexa a gestão de crises e aumentando o risco de escaladas involuntárias em ambientes hostis. (WILLIE, 2025)
Essas transformações reforçam a necessidade de estruturas regulatórias e mecanismos de controle que assegurem responsabilidade, transparência e confiabilidade ao emprego de IA. Futuras pesquisas devem abordar vulnerabilidades como o envenenamento de dados em manipulação de modelos, garantindo que sua evolução ocorra de maneira ética e segura. (WILLIE, 2025)
Além disso, observa-se que diferentes regiões têm avançado em ritmos distintos na institucionalização de políticas voltadas à diplomacia cibernética. A União Europeia, por exemplo, tem buscado padronizar regulamentações e estabelecer princípios mínimos para o uso de IA, enquanto organizações como a ONU tentam mediar disputas sobre normas globais e responsabilidade estatal no ambiente digital. Já países da Ásia e do Oriente Médio têm criado centros especializados em segurança cibernética com forte integração entre governo e setor privado, refletindo dinâmicas próprias de seus sistemas políticos. Paralelamente, cresce a disputa por padrões técnicos - como os referentes a redes 5G, criptografia avançada e sistemas de vigilância baseados em IA - que acabam funcionando como instrumentos de influência geopolítica. Nesse contexto, empresas de tecnologia assumem papel quase estatal, mediando conflitos, impondo regras técnicas de fato e moldando debates sobre soberania digital.
5. Estudos de Caso: Quando a IA altera o tabuleiro da Diplomacia Cibernética
A compreensão de como a IA redefine a diplomacia cibernética exige observar episódios concretos em que capacidades algorítmicas alteraram o comportamento estatal, ampliaram as incertezas estratégicas ou provocaram ajustes na governança internacional, além de como Estados, corporações e instituições multilaterais têm respondido ao avanço da autonomia tecnológica.
Os estudos de caso que seguem têm a função de ilustrar como esses debates teóricos se materializam em situações concretas, envolvendo Estados, empresas e atores transnacionais. A escolha dos casos não busca esgotar o tema, mas evidenciar diferentes dimensões da diplomacia cibernética: a vulnerabilidade de cadeias de suprimentos digitais, o uso de IA em contextos de guerra e propaganda, a instrumentalização de plataformas globais para influenciar públicos estrangeiros e o crescente peso das negociações tecnológicas entre grandes potências. Ao examinar episódios distintos, torna-se possível observar como mecanismos diplomáticos são acionados - ou tensionados - diante de incidentes que ultrapassam fronteiras e exigem respostas rápidas e coordenadas.
5.1 SolarWinds (2020): a convergência entre IA, cadeia de suprimentos e assimetria estratégica
Em fevereiro de 2021, o site Tecmundo noticiou, no Brasil, a repercussão de um ataque hacker, ocorrido ao longo de alguns meses de 2020, distribuído por meio de um software da SolarWinds (empresa de tecnologia americana, que oferece soluções de TI), que já vinha sendo amplamente repercutido pela imprensa internacional. A matéria apresentava a declaração do presidente da Microsoft, Brad Smith, que classificou a ação como “a mais sofisticada e extensa que o mundo já havia testemunhado”. Estimou-se que cerca de 18 mil instituições governamentais e diversas companhias privadas foram afetadas pelo ataque, posteriormente batizado de SUNBURST.
Sua complexidade rendeu-lhe a alcunha de “construção complexa”, uma vez que a sua finalidade não era destrutiva, mas dirigida à coleta silenciosa e persistente de informações sigilosas. Entre os dados comprometidos estavam e-mails de departamentos americanos como o Tesouro, o Ministério da Justiça e o Departamento de Comércio (ZARUVNI, 2021). Também foram afetadas as Forças Armadas dos Estados Unidos, o Pentágono, a NASA, a NSA, o Serviço Secreto, o Gabinete Presidencial, diversas universidades e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). (ISTARI, 2020)
A invasão explorou ferramentas de automação e análise avançada de vulnerabilidades para comprometer redes governamentais e privadas de alto valor, utilizando atualizações adulteradas da plataforma Orion (SolarWinds). Em alguns casos, sistemas ficaram inoperantes por até duas semanas. Entre as ações identificadas estavam transferência e execução remota de arquivos, mapeamento interno de sistemas, desabilitação de servidores e persistência oculta por longos períodos. (ISTARI, 2020)
No campo diplomático, o episódio desencadeou respostas coordenadas entre os Estados Unidos, a União Europeia e o Reino Unido, incluindo imposição de sanções e mecanismos públicos de responsabilização. Embora não haja confirmação oficial definitiva sobre a autoria, relatórios técnicos da Microsoft, da SolarWinds e de órgãos de cibersegurança americanos apontaram forte evidência de envolvimento estatal.
O Washington Post atribuiu o ataque ao grupo russo Cozy Bear, ligado ao Serviço de Inteligência Estrangeira (SVR), acusação refutada pela Embaixada da Rússia nos Estados Unidos (ISTARI, 2020). A Casa Branca, por sua vez, tratou publicamente o caso por meio de declarações de seu corpo de assessoramento em segurança cibernética, enfatizando a gravidade e o alcance estratégico do incidente (WHITE HOUSE, 2021).
Esse episódio demonstrou que ataques automatizados não apenas ameaçam a segurança nacional, mas também moldam agendas de política externa, reforçando a necessidade de normas internacionais específicas para operações cibernéticas envolvendo cadeias de suprimentos.
5.2 Rússia–Ucrânia: IA em operações de informação e guerra eletrônica
A Guerra Rússia-Ucrânia, que teve seu início em 2022, tem se consolidado como o primeiro conflito de larga escala em que sistemas de IA foram empregados de forma integrada em campanhas de desinformação, análise de alvos e guerra eletrônica. Relatórios recentes indicam que ambos os lados utilizaram modelos para automatizar a produção de conteúdo, realizar reconhecimento de padrões em comunicações e aumentar a velocidade de tomada de decisão. Segundo Riaz (2025), a inteligência artificial (IA) está transformando tanto a guerra híbrida quanto a tradicional no conflito entre Rússia e Ucrânia, com reflexos para a defesa e a segurança da Europa.
Em agosto de 2024, autoridades da Ucrânia informaram à agência Reuters que a população ucraniana vinha sendo alvo de campanhas de desinformação produzidas pela Rússia com o uso de inteligência artificial generativa. A denúncia partiu de um alto funcionário ucraniano, que classificou tais operações como um risco global, sobretudo pela dificuldade de detecção desses conteúdos. Por outro lado, Moscou qualificou a acusação como parte de uma sofisticada guerra de informação conduzida pela Ucrânia e seus aliados ocidentais contra a Rússia (REUTERS, 2024).
Segundo análise de Ünver (2024) para o Parlamento Europeu, documentos recentes da própria instituição detalham o emprego de IA em manipulação de narrativas, geração de deep fakes[3], uso massivo de bots[4] e amplificação de campanhas de influência, com destaque para operações conduzidas por Rússia, China e Irã. Essas fontes reforçam que o uso da IA em guerras informacionais não é apenas uma tendência, mas uma realidade consolidada que afeta diretamente a diplomacia e a segurança internacional.
A relevância diplomática deste caso reside na multiplicação de incidentes transnacionais decorrentes do conflito, demonstrando como a autonomia crescente de sistemas algorítmicos eleva o risco de escaladas não intencionais de conflitos e exige que Estados aprimorem seus mecanismos diplomáticos de contenção e coordenação.
5.3 China e as campanhas de influência algorítmica
Nos últimos anos, investigações independentes têm mostrado que a República Popular da China expandiu o uso de inteligência artificial em campanhas de influência digital, especialmente por meio de redes como a Spamouflage, identificada como responsável por disseminar conteúdos em prol do Partido Comunista Chinês (PCC) em múltiplas plataformas e idiomas. A rede tem aumentado sua produção de conteúdo por IA e contas falsas em redes sociais, para promover seus objetivos em todo o mundo, promovendo divisões políticas em seu favor nos EUA e em outros países, segundo análise do Centro de Ameaças da Microsoft, divulgado em 04 de abril de 2024. Esse mesmo relatório aponta a Coreia do Norte se utilizando de IA para roubar criptomoedas e perturbar cadeias de suprimentos. (UOL, 2024)
Relatórios adicionais mostram que a IA generativa vem sendo usada para traduzir, resumir e reapresentar conteúdos oriundos da mídia estatal chinesa, mascarando sua origem e ampliando seu alcance internacional. Essa estratégia inclui a disseminação de narrativas pró-China e antiocidentais em inglês, espanhol, francês e vietnamita, visando principalmente públicos jovens na África, nas Américas, na Europa e no próprio continente asiático. Apenas no YouTube, mais de 7.700 canais associados a essa operação foram removidos, além de contas vinculadas a outras plataformas. (KAUFMAN, 2025)
Em agosto de 2025, o The New York Times, em parceria com a Universidade Vanderbilt, divulgou uma investigação indicando que o governo chinês tem colaborado diretamente com empresas de IA no monitoramento e manipulação da opinião pública, tanto dentro da China quanto no exterior. Em setembro de 2025, o jornal voltou ao tema ao reportar que o Consulado Chinês havia influenciado a última eleição municipal de Nova York por meio de campanhas de influência digital direcionadas. (KAUFMAN, 2025)
5.4 União Europeia–EUA e o Conselho de Comércio e Tecnologia (TTC): uma diplomacia cibernética institucionalizada
Outro exemplo relevante é a criação, em 2021, do EU–US Trade and Technology Council (TTC), plataforma destinada a alinhar padrões internacionais de IA, segurança cibernética e governança digital. Relatórios do TTC (2023–2024) enfatizam cooperação em áreas como: detecção de ataques automatizados; padronização de auditorias de IA; governança de sistemas de alto risco; resposta conjunta a incidentes.
O órgão foi criado em Bruxelas, na Cúpula EU-EUA de 2021, e serve como um fórum para que ambos os lados coordenem abordagens e possíveis respostas a questões globais nos setores de comércio, tecnologia e economia. O caráter institucionalizado dessa diplomacia revela como a IA tem impulsionado a criação de fóruns permanentes de coordenação internacional, reforçando a interdependência entre agendas de defesa, comércio, tecnologia e direitos digitais. (COMISSÃO EUROPEIA, 2025)
Em conjunto, esses episódios revelam tendências estruturais que devem marcar a próxima década: a automação progressiva de ataques cibernéticos, o uso estratégico de IA para moldar percepções públicas, a crescente dificuldade de atribuição em operações informacionais e a disputa intensa por influência normativa entre Estados e grandes empresas. Embora cada caso apresente particularidades, todos evidenciam que a diplomacia cibernética opera em um ambiente no qual decisões técnicas carregam implicações políticas profundas. A partir dessas dinâmicas, torna-se claro que a governança internacional precisará lidar com problemas que nenhum país consegue enfrentar isoladamente.
6. Considerações Finais
Os avanços recentes da inteligência artificial e a rapidez com que novas ferramentas digitais são incorporadas às rotinas de segurança revelam um cenário em que a incerteza se tornou parte estruturante das relações internacionais.
Os Estados lidam não apenas com ameaças tradicionais, mas também com a imprevisibilidade de sistemas autônomos, o peso político das grandes empresas de tecnologia e a dificuldade crescente de estabelecer limites claros para capacidades cada vez mais sofisticadas. Esse ambiente faz com que a diplomacia cibernética deixe de ser um campo estritamente técnico e passe a ocupar posição estratégica no debate sobre estabilidade e segurança global.
A diplomacia cumpre um papel fundamental como amortecedor político, responsável por estabelecer parâmetros de confiança, criar canais de comunicação e por reduzir o risco de escaladas não intencionais. Ao mesmo tempo, a natureza transnacional do ciberespaço exige respostas que ultrapassem fronteiras e reforcem mecanismos de governança compartilhada, capazes de lidar com ameaças que se movem entre diferentes jurisdições com velocidade e opacidade.
A participação decisiva do setor privado, que detém boa parte da infraestrutura e do conhecimento técnico, adiciona uma camada de complexidade. Cabe à diplomacia estruturar modelos que conciliem interesses estatais e corporativos, evitando que assimetrias tecnológicas ampliem as tensões ou fragilizem os mecanismos de controle.
Os estudos de caso apresentados demonstram que a diplomacia cibernética já não opera como mera ferramenta técnica, mas como espaço político moldado pela interação entre Estados, empresas de tecnologia e sistemas autônomos. A IA introduz novos dilemas que extrapolam fronteiras tradicionais: a imprevisibilidade algorítmica, a dificuldade de atribuição e o risco de escaladas involuntárias tornam a governança internacional mais complexa e exigem arranjos cooperativos mais robustos.
O futuro da diplomacia cibernética dependerá da capacidade de os Estados desenvolverem mecanismos multilaterais de transparência algorítmica, protocolos internacionais de controle de danos e gestão automatizadas de crises, normas para o uso de IA em operações militares e informacionais, e modelos de corresponsabilidade entre governos e grandes empresas de tecnologia.
Por fim, os debates sobre normas, responsabilidades e limites no emprego de IA indicam que o futuro da segurança cibernética dependerá menos de soluções isoladas e mais da capacidade coletiva de estabelecer princípios comuns. Nesse sentido, a diplomacia cibernética se reafirma como um dos principais instrumentos para preservar a previsibilidade e a estabilidade em um ambiente marcado por rápidas transformações tecnológicas e crescentes interdependências.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COMISSÃO EUROPEIA. EU-US Trade and Technology Council. [s.d.] Disponível em: <https://commission.europa.eu/topics/international-partnerships/eu-us-trade-and-technology-council_en>. Acesso em: 02 dez. 2025.
DENARDIS, Laura. The Internet in Everything: Freedom and Security in a World with No Off Switch. Cambridge: MIT Press, 2020.
DEVANNY, Joe. Artificial Intelligence and Cyber Power. [S.l.] (Research Publications), 2024. Disponível em: <https://digitalcommons.fiu.edu/jgi_research/63>. Acesso em: 04 out. 2025.
ISTARI. Sunburst: Massivo ataque utilizando Orion, da SolarWinds, coloca em risco milhares de redes nos setores público e privado.[S.l.] ISTARI Brasil, 14 dez. 2020. Disponível em: <https://istaribrasil.com/2020/12/14/sunburst-massivo-ataque-utilizando-orion-da-solarwinds-coloca-em-risco-milhares-de-redes-nos-setores-publico-e-privado/?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 01 dez. 2025.
KAUFMAN, Arthur. AI Assists Chinese External Propaganda. China Digital Times, 08 set. 2025. Disponível em: <https://chinadigitaltimes.net/2025/09/ai-assists-chinese-external-propaganda/>. Acesso em: 02 dez. 2025.
MALATJI, Masike; TOLAH, Alaa. Artificial intelligence (AI) cybersecurity dimensions: a comprehensive framework for understanding adversarial and offensive AI.AI and Ethics, 15 fev. 2024. Disponível em: <https://cyberir.mit.edu/site/artificial-intelligence-ai-cybersecurity-dimensions-comprehensive-framework-understanding/>. Acesso em: 04 out. 2025.
NYE, Joseph S. The end of cyber anarchy? How to build a stable digital world. Foreign Affairs, v. 99, n. 4, p. 24–35, 2020. Disponível em: <https://www.foreignaffairs.com/articles/russian-federation/2021-12-14/end-cyber-anarchy>. Acesso em: 20 nov. 2025.
REUTERS. Ministro da Ucrânia afirma que a Rússia está usando inteligência artificial generativa para intensificar a desinformação. Reuters, 16 out. 2024. Disponível em: <https://www.reuters.com/technology/artificial-intelligence/russia-using-generative-ai-ramp-up-disinformation-says-ukraine-minister-2024-10-16/?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em 02 dez. 2025.
RIAZ, Hira. Role of AI in Russia Ukraine War and Its Impacts on Europe. Social Science Review Archives, v. 3, n. 1, p. 924–931, 2025; WILLIE, Alan. Future of Cyber Conflict: The Intricacies of AI vs AI Warfare. ResearchGate. Disponível em: <https://policyjournalofms.com/index.php/6/article/view/379>. Acesso em: 05 de outubro de 2025.
UOL. China usa IA para semear divisão nos EUA e em outros países, aponta Microsoft. UOL, 05 abr. 2024. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/04/05/china-usa-ia-para-semear-divisao-nos-eua-e-em-outros-paises-aponta-microsoft.htm>. Acesso em: 02 dez. 2025.
ÜNVER, H. Akin. Artificial intelligence (AI) and human rights: Using AI as a weapon of repression and its impact on human rights. [S.l.] European Parliament. Directorate-General for External Policies, 2024. Disponível em: <https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2024/754450/EXPO_IDA(2024)754450_EN.pdf>. Acesso em: 02 dez. 2025.
WHITE HOUSE. Statement by Deputy National Security Advisor for Cyber and Emerging Technology Anne Neuberger on SolarWinds and Microsoft Exchange Incidents. Washington, D.C., 2021. Disponível em:<https://bidenwhitehouse.archives.gov/briefing-room/statements-releases/2021/04/19/statement-by-deputy-national-security-advisor-for-cyber-and-emerging-technology-on-solarwinds-and-microsoft-exchange-incidents/?utm_source=c hatgpt.com>. Acesso em: 01 dez. 2025.
ARUVNI, Reinaldo Alexander Franco. 'Hack da SolarWinds' é o maior já visto, diz Microsoft. TecMundo, 14 fev. 2021. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/seguranca/211074-hack-solarwinds-maior-visto-diz-microsoft.htm?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 01 dez. 2025.
[1] Ver, por exemplo, a série de contratos e parcerias firmadas entre o governo dos Estados Unidos e grandes empresas de tecnologia no âmbito de segurança e IA, com destaque para a cooperação entre Microsoft e OpenAI em programas de inovação e proteção cibernética.
[2] A China adota um modelo de integração entre empresas de tecnologia e o Estado, no qual plataformas como a DeepSeek colaboram com órgãos estatais em pesquisa, desenvolvimento e aplicações avançadas de IA.
[3] Deep Fake é uma técnica de manipulação por IA, utilizada para forjar mídias, que consegue criar vídeos, áudios e imagens realistas, porém falsos.
[4] Bots são programas ou aplicativos de software para a realização de tarefas automatizadas na Internet.
Rio de Janeiro - RJ, 19 de fevereiro 2026.
Como citar este documento:
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Entre algoritmos e Estados: como a IA redefine a diplomacia cibernética. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/cibernetica/artigos/entre-algoritmos-e-estados-como-a-ia-redefine-a-diplomacia-cibernetica.
.