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XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos - Os Desafios do Sistema Internacional Contemporâneo para a Defesa

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Geopolitical Reasoning na política externa dos Estados Unidos da América - da guerra ao terror à contenção da China

Publicado: Terça, 11 de Julho de 2023, 01h01 | Última atualização em Terça, 11 de Julho de 2023, 08h50 | Acessos: 7267

 

Mario A. Santos
 Doutorando em Ciências Militares na ECEME e
Doutorando em Relações Internacionais na PUC-Rio
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Tuathail e Agnew (1992) enfatizam a geopolítica como uma ciência que nasce e floresce sob a égide dos interesses dos homens de Estado. Em outras palavras, a geopolítica seria a geografia a serviço do Estado. Neste sentido, apontam os autores que a prática de se produzir teoria geopolítica se embasa na produção de conhecimentos visando auxiliar o corpo estatal e impulsionar o poder estatal.

Partindo da concepção que a “Geopolítica é definida como uma prática discursiva na qual intelectuais do corpo estatal espacializam a política internacional e a representam como um mundo caracterizado por tipos particulares de lugares, pessoas e dramas” (TUATHAIL; AGNEW, 1992, p. 190, tradução nossa)[1], os autores identificam como o discurso se mostra um perfeito definidor e legitimador de conceitos e práticas que irão balizar as estratégias a serem adotadas pelos Estados Unidos no cenário internacional.

Neste sentido, a importância do discurso na análise é ressaltada, dado que este possui a capacidade de elaborar uma série de representações e práticas por meio das quais verdades são produzidas, assim como identidades são deliberadamente atribuídas e uma gama de relações sociais entre os mais diversos atores são estabelecidas, de sorte que determinados objetivos políticos possam vir a ser mais facilmente atingidos e legitimados (BIALASIEWICZ et al, 2007).

Ao se interpretar a geopolítica tendo o discurso como elemento primordial, pode-se identificar como o poder de agência do corpo estatal produz teses que são aceitas e legitimadas, tornando-se objetivos a serem abarcados pela política externa dos países, a exemplo dos Estados Unidos, que tem na guerra ao terror e na contenção da China seus maiores objetivos. Entretanto, cumpre registrar que tal instrumento, aqui conceituado como Geopolitical Reasoning, não se caracteriza como um mero ato discursivo, mas se reveste de ações práticas na política externa norte-americana, sobretudo no que tange à guerra ao terror e às crescentes preocupações com a ascensão chinesa no cenário global.

Pode-se vislumbrar na política internacional dos Estados Unidos o constante recurso à criação de narrativas que fazem parte de um processo político por meio do qual uma visão de mundo é modelada, de sorte que os dramas, dilemas e histórias nela contidos indicam os cenários de ação norte-americanos. Assim é que se processa a Geopolitical Reasoning estadunidense na política externa a ser aplicada no cenário internacional, difundindo uma visão norte-americana de mundo na qual os Estados Unidos devem desempenhar um papel importante (TUATHAIL; AGNEW, 1992).

Neste contexto, os ataques de 11/9/2001 inauguram um discurso estadunidense aclamado e legitimado pela opinião pública do país e, sobretudo, propagandeado mundo afora pela indústria cinematográfica norte-americana calcado na guerra ao terror, devendo os imperativos de política externa, segurança internacional e defesa serem direcionados para esta cruzada, ou seja, um exemplo concreto e real da geopolitical reasoning pelos Estados Unidos (BIALASIEWICZ et al, 2007; TUATHAIL; AGNEW, 1992).

Ao longo dos anos a guerra ao terror foi, paulatinamente, deixando de ser a preocupação máxima presente nas diretrizes da política externa norte-americana, o que demonstra que discursos não são de forma alguma estáticos, mas sim, se encontram em constante mutação e são continuamente modificados pela prática humana (TUATHAIL; AGNEW, 1992). Isto ocorre na medida em que as preocupações com a ascensão chinesa no cenário global se tornam cada vez mais crescentes, sendo a China vislumbrada pelos Estados Unidos como uma ameaça em potencial, devendo, assim, ser contida (DEGUI, 2021).

A construção dessa Geopolitical Reasoning norte-americana no que tange à necessidade de contenção do avanço chinês na atual conjuntura mundial se mostra presente na percepção de que “o mais percuciente e sério desafio para segurança nacional dos Estados Unidos são os coercitivos e cada vez mais agressivos esforços da China visando redesenhar a região do Indo-Pacífico e o sistema internacional em prol de seus respectivos interesses e preferências autoritárias” (CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2023, p. 4, tradução nossa)[2], a qual embasa a Biden Administration October 2022 National Defense Strategy. Observa-se que o discurso que nasce e se fortalece durante a administração Trump vem se tornando mais forte na administração Biden, tendo em vista a escalada chinesa no cenário global.

Aponta Degui (2021) que, independentemente de a presidência norte-americana ser ocupada por democratas ou republicanos a contenção do desenvolvimento chinês não se mostra um mero expediente de uma política ou marketing eleitoral previamente elaborado, mas sim um inevitável expediente da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos no intuito de manter a hegemonia global norte-americana, estratégia essa que, à medida que a China expande sua atuação, se torna mais evidente.

Ademais, a construção da ideia do crescimento de uma disputa entre grandes potências, o que vem intensificando a competição entre Estados Unidos e China, vem alterando profundamente as questões de defesa norte-americanas - anteriormente voltadas exclusivamente para o desenho de operações contraterroristas e intensificação de operações militares no Oriente Médio, devido aos episódios do 11/09/2001 - agora tem como base, a geopolítica no debate sobre as questões de defesa norte-americanas frente à alegada da China (CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2023).

Cumpre registrar, no tocante à elaboração de todo um discurso norte-americano reforçando uma Geopolitical Reasoning que tem na contenção chinesa seu elemento essencial, o pronunciamento de Christopher Ashley Ford - Secretário Assistente do Bureau de Segurança Internacional e Não-Proliferação dos Estados Unidos, ou seja, elemento importante do corpo estatal norte-americano - perante a Comissão Econômica e de Revisão Securitária EUA-China em Washington, em 20 de Junho de 2019 (US DEPARTMENT OF STATE, 2019). Nas palavras do Secretário:

“Nossa Estratégia de Segurança Nacional descreve a China como uma das ‘potências revisionistas’ que ameaçam os interesses de segurança dos EUA [...] Apesar da propaganda retórica de relações ‘win-win’, isto não significa uma pacífica e benevolente viva e deixe viver perspectiva de um modelo corrente de engajamento internacional [...] A autoproclamada missão nacional chinesa é tornar a si própria mais poderosa com relação aos demais países – e particularmente com relação aos EUA [...] Hoje em dia a China está trabalhando para exportar seu modelo de autoritarismo por meio de sua ‘Comunidade de Destino Comum’ a fim de redesenhar a governança global, utilizando-se do poder de sua economia para coagir e corromper governos ao redor do mundo que já padecem por conta de um subdesenvolvimento ou de democracias instáveis, bem como procurando levar vantagem sobre países que sofrem por conta de instabilidades financeiras [...] A China parece pensar ser realmente capaz de reordenar o mundo” (US DEPARTMENT OF STATE, 2019, n.p., tradução nossa)[3].

De forma análoga, o que denota uma homogeneidade no discurso norte-americano que embasa a atual Geopolitical Reasoning do país, o Congressional Research Service (2023) aponta a China, inserida no âmbito da competição entre grandes potências, como a única a ser capaz de remodelar a ordem internacional para atingir seus respectivos objetivos econômicos, diplomáticos e militares, constituindo-se em uma crescente ameaça para os Estados Unidos, o que enseja uma política externa norte-americana cada vez mais direcionada para a contenção da ascensão chinesa.

No que diz respeito especificamente à América Latina, anteriormente vista como uma zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, as preocupações com relação à ascensão chinesa se mostram presentes em diversos aspectos, sobretudo econômico, militar, tecnológico e energético. O fluxo de investimentos e empréstimos chineses aos países da região (BAUMANN et al, 2022), a corrida chinesa por minerais estratégicos para transição energética, a exemplo do que ocorre no chamado Triângulo do Lítio[4], os cabos submarinos chineses que cortam o Atlântico Sul e que fazem parte da inciativa Digital Silk Road, bem como a celebração de acordos de cooperação em termos de defesa com países latino-americanos (a exemplo do Brasil), são fatores que vem contribuindo para que a Geopolitical Reasoning norte-americana guie a intensificação de esforços visando a contenção chinesa no continente.

Em suma, buscou-se aqui propor uma análise, tendo como elemento conceitual essencial a geopolítica crítica, acerca da forma pela qual a prática Geopolitical Reasoning norte-americana vem sendo construída e operando ao longo dessas duas primeiras décadas do século XXI. Da Guerra ao Terror, muitíssimo bem encampada pela indústria cinematográfica norte-americana e suas diversas produções enfatizando a cruzada norte-americana[5], à contenção da China, atualmente encarada como a maior ameaça existente aos Estados Unidos. Vale ressaltar, neste sentido, a importância do discurso para a geopolítica crítica, como bem atestam Ó Tuathail e Agnew (1992) e Bialasiewicz et al (2007)

 

[1] Geopolitics is defined as a discursive practice by which intellectuals of statecraft ‘spatialize’ international politics and represent it as a ‘world characterized by particular types of places, peoples and dramas (Tuathail; Agnew, 1992, p. 190).

[2] ”The most comprehensive and serious challenge to U.S. national security is the PRC’s coercive and increasingly aggressive endeavor to refashion the Indo-Pacific region and the international system to suit its interests and authoritarian preferences” (CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE, 2023, p. 4).

[3] Our National Security Strategy describes China as one of “the revisionist powers” threatening U.S. security interests […] Despite the “win-win” propaganda rhetoric, then, this is no peaceable, benevolent live-and-let-live vision of 21st-Century international engagement […] Its self-conceived national mission is to make itself ever more powerful vis-à-vis everyone else – and particularly vis-à-vis the United States […] Today, China is working to export its model of authoritarianism through its “Community of Common Destiny” to reshape global governance, utilizing the power of the Chinese economy to coerce and to corrupt governments around the world that are already suffering from underdeveloped or unstable democracies and taking advantage of countries suffering from financial instability […] China seems to think that it really can reorder the world (US DEPARTMENT OF STATE, 2019, n.p.).

[4] Espaço geográfico formado por Argentina, Bolívia e Chile, e que concentra cerca de 68% das reservas de lítio de todo o mundo.

[5] Em 2010 o filme The Hurt Locker, que no Brasil teve o título traduzido para Guerra ao Terror, foi o grande vencedor do Oscar, tendo conquistado seis estatuetas, entre elas a de melhor diretora e de melhor filme.

 

 Referências Bibliográficas: 

  1. BAUMANN, R.; LIBANIO, G.; SANTOS, M. A.; IASCO, H. Research for Investment Cooperation Between Brazil and China. Technical Note (IPEA), nº 8, 2022. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/publicacao-item?id=9b29af8a-2b7 1-4f21-b924-e739828d8326. Acesso em: 22 de Junho de 2023.

  2. BIALASIEWICZ, L.; CAMPBELL, D.; ELDEN, S.; GRAHAM, S.; JEFFREY, A.; WILLIAMS, A. J. Performing Security: The Imaginative Geographies of Current US Strategy. Political Geography, Vol. 26, nº 4, p. 405-422, 2007.

  3. CONGRESSIONAL RESEARCH SERVICE. Great Power Competition: Implications for Defense - Issues for Congress. CRS Report, 2023. Disponível em: htt ps://sgp.fas.org/crs/natsec/R43838.pdf. Acesso em: 22 de Junho de 2023.

  4. DEGUI, l. Geopolitical Thinking behind the US Policy-Making toward China and the Diplomatic Choice of Japan. East Asian Affairs, Vol. 1, nº 2, p. 2150010-1 - 2150010-24, 2021.

  5. Ó TUATHAIL, G.; AGNEW, J. Geopolitics and discourse: Practical Geopolitical Reasoning in American Foreign Policy. Political Geography, Vol. 11, nº 2, p. 190-204, 1992.

  6. US DEPARTMENT OF STATE. Technology and Power in China’s Geopolitical Ambitions. US Department of State, 2019. Disponível em: https://2017-2021.state.gov/ technology-and-power-in-chinas-geopolitical-ambitions/index.html. Acesso em: 23 de Junho de 2023.

 

Rio de Janeiro - RJ, 11 de julho de 2023.


Como citar este documento:
Santos, Mario A. Geopolitical Reasoning na política externa dos Estados Unidos da América - da guerra ao terror à contenção da China. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2023.  

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