As opiniões, conclusões e recomendações expressas ou implícitas, nas produções literárias baixadas ou publicadas pelos autores são de responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem necessariamente a política oficial nem a posição do Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM), da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), por conseguinte, do Exército Brasileiro (EB).
A relação dialógica da logística com as Operações de Paz da Organização das Nações Unidas
Israel Alves de Souza JúniorTenente-Coronel do Exército Brasileiro, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares com ênfase em Defesa, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1. Introdução A logística já era um tema considerado por Clausewitz em sua obra “Da Guerra”, escrita e originalmente publicada no século XIX. O general prussiano observou que a capacidade de um exército dependia substancialmente de seu reabastecimento de suprimentos, combustíveis, munição e recursos humanos, e o posterior transporte às áreas de combate (Clausewitz, 2023). Além das manobras e operações de guerra, a logística também tem uma forte influência sobre as operações de paz. O estabelecimento de operações dessa natureza constitui um dos principais mecanismos da Organização das Nações Unidas para mitigar a violência e coibir violações aos direitos humanos, sempre com base nos pressupostos de sua Carta fundadora. De acordo com a United Nations (2004), a luta pela paz é uma atividade constante, de longo prazo e de enormes desafios, dentre os quais se pode destacar a questão orçamentária. Ao longo dos anos, a organização evoluiu muito na tentativa de acompanhar um mundo em constante mudança, o que, também, coloca a paz e a segurança internacionais diante de desafios logísticos. Todavia, estabelecer e manter operações de paz tem um alto custo, demandando, assim, aportes financeiros dos países contribuintes, os chamados TCCs . Em certa medida, por razões monetárias domésticas, nem todos os países têm condições de realizar tal contribuição. No que tange à capacidade logística de um determinado Estado-membro, a situação também não é diferente, uma vez que depende de recursos, aprovação de orçamento, dentre outros; ou seja, de uma economia estruturada. Assim, o presente artigo tem como tema central destacar a importância da logística para as operações militares, com foco na observância de uma relação dialógica da logística com as operações de paz da ONU. A partir desse recorte, pretende-se mostrar como as operações de paz, enquanto instrumentos de projeção nacional, se articulam com a logística, a estratégia e a estrutura dos países membros e anfitriões. As metodologias utilizadas para a execução deste estudo foram a análise documental e a revisão bibliográfica. A justificativa para esta pesquisa se apoia na crescente necessidade de compreender a logística como base para a realização das mais diversas operações, incluindo as operações de paz da ONU. De acordo com Migon e Ferreira (2017, p. 47), “a logística acompanha os conflitos armados desde a Antiguidade até a atualidade”. Sua relevância foi percebida e valorizada muito antes de haver um tratamento sistemático do tema; há séculos, já se entendia que a condução das campanhas dependia diretamente da capacidade de organizar e sustentar meios, deslocamentos e suprimentos, sendo, destacadamente, um tema relevante para os Estudos da Paz e da Guerra, bem como para as Ciências Militares. 2. Dialogismo nas operações de paz, logística, estratégia e estrutura Por dialogismo, nesta investigação, compreende-se, a partir de uma visão bakhtiniana, como todo e qualquer fenômeno próprio do discurso. São todos os caminhos percorridos até que se chegue ao objeto desejado, indo em todas as direções possíveis e encontrando-se com o discurso de outros, realizando uma interação viva e intensa (Bakhtin, 1988). É nesse caminho de interações abundantes e complexas que esta pesquisa está baseada, tomando por base as interações entre agentes logísticos, governamentais, Estados, instituições, conceitos, procedimentos, dentre outros. Fiorin (2022) nos explica que toda e qualquer enunciação se constitui a partir de outras, podendo ser ouvidas, pelo menos, duas vozes; ou seja, as interações entre a logística, as operações de paz, a estratégia e a estrutura reverberam entre si e moldam novas ações, procedimentos e resultados. Apoiados, então, nesses fundamentos das relações dialógicas bakhtinianas, como as operações de paz, enquanto instrumentos de projeção nacional, se articulam com a logística, a estratégia e a estrutura? Aguilar (2005) nos explica que a conjuntura internacional contemporânea atribui aos países a necessidade de um relacionamento multilateral aproximado em diversas áreas. Sendo, portanto, esse esforço comum primordial para manter a estabilidade em áreas de potencial conflito. A política externa brasileira vem buscando, outrossim, formas para uma maior inserção do país no sistema internacional, sendo um dos vários mecanismos utilizados a participação brasileira em operações de paz da ONU. O Brasil, membro fundador da ONU, tem envidado esforços para promover a paz e a segurança internacionais (Andrade; Hamann; Soares, 2019). Dias e Duarte (2022, p. 193) observam que o país mantém longa tradição nesse campo, sendo o único Estado da América do Sul a participar das duas Grandes Guerras. Em um cenário de transformações e variações nas dinâmicas de poder, o Brasil e outros países do Cone Sul passaram a atuar de forma mais propositiva no debate sobre como e quando a comunidade internacional deve intervir na proteção dos direitos humanos (Abdenur, 2017; Hunt, 2016; Job, 2016; Stefan, 2016 apud Dias; Duarte, 2022, p. 193), premissa associada ao estabelecimento das operações de paz da ONU. Essa orientação também reforça a necessidade de pensar a logística das operações de paz à luz da natureza socioistórica brasileira, de privilegiar a paz e defender o diálogo e a negociação como meios de solução de controvérsias entre Estados (PND; END, 2024). A participação brasileira em operações de paz sob a égide de organismos internacionais é, igualmente, prevista como elemento integrante do Objetivo Nacional de Defesa (OND) VII, da Estratégia Nacional de Defesa, que visa fomentar a contribuição do Brasil para a estabilização regional e a promoção da paz e da segurança internacionais (PND; END, 2024). A Estratégia de Defesa (ED) 17, da Estratégia Nacional de Defesa, trata da atuação brasileira em organismos internacionais e afirma que o Brasil deve: participar ativamente nos foros e organizações internacionais e incentivar a presença das Forças Armadas e de contingentes policiais em missões humanitárias e de operações de paz sob o mandato de organismos multilaterais, especialmente da ONU. Por sua vez, as Ações Estratégicas de Defesa (AED) 69 e 70, componentes do OND VII, corroboram a ideia e afirmam que o Brasil precisa intensificar “a realização de operações internacionais e de iniciativas de cooperação em áreas de interesse de Defesa”, bem como “a atuação em foros multilaterais e em mecanismos inter-regionais”. A partir da ED 17 e das AED 69 e 70, é possível observar que as operações de paz se tornam, em grande medida, instrumentos de projeção de poder nacional, mas que dependem de políticas e estratégias de Estado e, invariavelmente, da logística, para propiciar as condições necessárias para o desenvolvimento do país, a fim de que se possa evoluir para responder rapidamente às demandas em situações de paz ou de crise. Segundo o manual de operações de paz (MD34-M-02), é preciso compreender que, em operações de paz: [...] as forças participantes, ao invés de estarem direcionadas para ações de combate, estarão empenhadas em outro tipo de tarefa, para a qual se exige uma postura imparcial para o sucesso da missão, não reconhecendo as partes envolvidas como inimigas, mas sim como entidades interessadas na busca da paz. Entretanto, não pode ser descartada a hipótese de a situação vir a sofrer uma escalada, obrigando essa força a entrar em combate. Assim, o planejador da participação em uma operação de paz deve levar sempre em consideração os princípios orientadores das operações militares em uma situação de conflito (BRASIL, 2013, p. 20, grifo nosso) A partir do trecho acima grifado, é possível inferir que, dentre os princípios das operações militares, está o planejamento logístico, que, portanto, pertence, também, ao escopo das operações de paz. Keegan (2006) destaca que, se há um problema que afete a logística ou os suprimentos, a eficácia das operações militares é prejudicada, e igualmente a das operações de paz. Não há como dissociar o sucesso das operações militares, em tempos de paz ou de guerra, da capacidade logística das Forças Armadas de um país. Trazendo para este diálogo o binômio “estratégia e estrutura”, de Owens (2015), podemos observar que a oferta das Forças Armadas brasileiras e seus meios, para participação nas operações de paz da ONU, é um exemplo de estratégia bottom-up, partindo de uma política e estratégia revisionistas para uma possível ocupação, pelo Brasil, de um assento no Conselho de Segurança da ONU. No entanto, não há como perseguir esse objetivo desconsiderando a relevância do sistema logístico. E, quando se pensa em logística, é mister pensar em liberação de recursos orçamentários para que se atinja o estado final desejado, que aqui se traduz na participação brasileira em operações de paz para a projeção do Brasil no cenário internacional. Esses recursos governamentais em apoio às operações de paz são geridos pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), por meio de uma Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA). Como as operações de paz são executadas no exterior, fora dos limites do território nacional, a ONU compartilha as responsabilidades logísticas das operações com os países membros contribuintes. É uma maneira de incentivar a participação dos países, uma vez que é oferecido um processo de reembolso e de provimento de algumas classes de suprimento. Para tal, existe um Memorando de Entendimento que deve ser acordado e assinado pelo país contribuinte e pela ONU (BRASIL, 2013). Uma peculiaridade das operações de paz reside no fato de que os países contribuintes com contingentes, por exemplo, são provenientes de diversas regiões do mundo, carregando consigo hábitos próprios e material diversificado, o que, em certa medida, pode gerar fricções, emperrando a execução de ações no terreno. Isso faz com que a ONU restrinja o apoio logístico aos aspectos comuns aos participantes (BRASIL, 2013), o que exige coordenação e esforços para viabilizar toda a logística necessária. Nesse escopo, Stadler et al, (2015) explicam que, para toda essa cadeia logística funcionar adequadamente, a gestão de todas as unidades logísticas e de suprimento é imperativa. Essa gestão da cadeia de suprimentos nada mais é do que uma integração organizacional entre as estruturas dos países contribuintes de tropas e o país-sede da operação (anfitrião), coordenando diferentes aspectos como material, informação e fluxo financeiro, a fim de bem atender às demandas. Dessa forma, para satisfazer todas as necessidades logísticas, a ONU elencou sete áreas prioritárias como funções logísticas, conforme o quadro a seguir. Quadro 1. Funções. Funções Logísticas da ONU Suprimento - Transporte – Manutenção – Comunicações - Apoio Aéreo – Engenharia - Saúde Fonte: O AUTOR, 2026. No contexto das operações de paz, cresce em importância atender a princípios como a flexibilidade e a coordenação, uma vez que, em países nos quais as operações de paz estão em andamento, existe uma situação de crise que afeta não só a população, mas também os mercados internos produtores e abastecedores. Muitas vezes, fica inviável depender de instrumentos legais nos países anfitriões das operações, pois suas reservas ficam desabastecidas e as infraestruturas estão inadequadas ou arruinadas, demonstrando a incapacidade do país de resolver a situação. A organização logística e a capacidade estatal estão muito próximas, havendo, inclusive, uma dificuldade em separar a esfera privada da pública. Obstáculos em uma esfera afetam diretamente a outra. O sistema logístico e toda sua cadeia de suprimentos, via de regra, encontram-se colapsados. Há, outrossim, casos em que os países têm orçamento, mas não conseguem alocar seus recursos de forma apropriada para alavancar seu próprio sistema logístico. Se o sistema está bem estruturado e desenvolvido, ele poderá ser utilizado em prol da segurança e defesa do Estado, da sociedade ou mesmo para atender às demandas da comunidade internacional, por meio de uma consulta da ONU sobre as reais capacidades logísticas do Estado a serem empenhadas em operações de paz. Levando-se em consideração o apoio logístico em operações de paz, Baig (2010) explica que as fontes de apoio podem ser diversas e advir dos países contribuintes/participantes, de organizações internacionais, de doadores, de empresas cadastradas e catalogadas no United Nations Global Marketplace, sistema de compras da ONU (setor privado) e do próprio país anfitrião, quando este ainda reúne condições. Quadro 2. Fontes de apoio logístico em operações de paz. Apoio logístico Países parrticipantes Organizações internacionais Doadores Empresas País Anfitrião Tropas, material de transporte, engenharia Geradores, veículos, administração. Bens de capital, materiais diversos. Bens logísticos Estruturas existentes, instalações, aeroportos, portos. Fonte: O AUTOR, 2026. Ao retomarmos, então, a ideia do binômio de Owens (2015), quando se fala de operações de paz, diante de uma variedade de cenários possíveis, definir uma estrutura logística de apoio com certa antecedência se torna uma atividade de alta complexidade [1] e dificuldade, impossibilitando, assim, uma definição estática dos elementos de uma cadeia logística e suas características; dado que, a cada nova operação de paz, haverá demandas específicas e próprias, requerendo, assim, planejamento e execução direcionados pelas demandas locais e situacionais (BRASIL, 2013). Fato é que “a logística de uma operação de paz assume características únicas, diretamente relacionadas ao ambiente no qual se desenvolve e aos atores que a operam”, de acordo com Ferreira e Migon (2017, p. 47-48). Diante de tudo o que foi apresentado até este ponto, subentende-se que o sistema de apoio logístico das operações de paz deve ser minucioso e bem-organizado; no entanto, as fricções logísticas também se interpõem, gerando lições aprendidas para que se evitem as duplicações de esforços, bem como de recursos humanos. O mau uso das capacidades e especialidades afeta a missão como um todo. Uma dificuldade logística significativa que pode ser mencionada ocorre no apoio à saúde – por exemplo – pela falta de padronização e pela consequente incompatibilidade dos materiais médicos e outros artigos de consumo da saúde; pela desigualdade de métodos e protocolos de tratamentos; e pela inexistência de um sistema padronizado de aquisição e controle de suprimentos e contabilidade, dentre outros (BRASIL, 2013), dificultando, sobremaneira, a execução do processo. Nesse contexto, o Manual de Operações de Paz explica que: “Um sistema logístico de apoio de saúde em missões de paz fica diretamente dependente dos recursos fornecidos pela missão, quando o contingente nacional não apresenta estrutura em todos os níveis. [...]. Atenção especial deverá ser dada ao suprimento de sangue e seus derivados, por se tratar de um assunto sensível e complexo, indo desde a larga disparidade de padrões entre as nações até os constrangimentos naturais relacionados a costumes e religiões.” (BRASIL, 2013, p. 48). Para a logística, a soma das partes é muito maior do que a junção de todas elas. Essa assertiva está dialogicamente relacionada ao conceito logístico das operações de paz, cujo sistema complexo — formado, muitas vezes, por elementos e organizações oriundos de diversos países contribuintes/participantes, com variadas formações socioculturais e com diversas formas de fazer gestão — impacta, em grande medida, a tentativa de sistematização de toda a cadeia de suprimentos gerada a partir da decisão de criação e estabelecimento de uma operação de paz. Van Wassenhove (2006) apud Balcik (2010) explica que as diferenças entre as políticas geográficas, culturais e organizacionais podem gerar barreiras adicionais, atravancando a coordenação entre os elementos logísticos nas operações de paz. É um caldeirão socio-organizacional, socioistórico e socioeconômico, conforme nos explica Balcik (2010, p. 22): as organizações de apoio emergencial, o governo do país anfitrião, o componente militar, as organizações locais e regionais e o setor privado (empresas), cada qual com diferentes interesses, mandatos, capacidades e expertise logística. Nas operações de paz, o sistema logístico é complexo e exige muita coordenação e ajustes finos o tempo todo. O monitoramento é constante e demanda uma capacitação dos países contribuintes e das entidades envolvidas, a fim de que se mantenha e acompanhe o dialogismo logístico. Nenhum elemento funciona isoladamente, e todos os esforços logísticos e diplomáticos (governamentais) convergem para o sucesso da operação de paz (Figura 1). Figura 1. Relações dialógicas Fonte: O AUTOR, 2026. 3. Considerações Finais Sustentados em uma tradição pacifista do Brasil e em uma ausência de ameaça externa direta, muito se discute, no seio da sociedade, sobre a atribuição de prioridades maiores aos aspectos ligados à segurança e defesa nacional (BRASIL, 2006), fato que afeta diretamente o desenvolvimento da logística operacional e militar do país e, por conseguinte, a participação em operações de paz. Ainda que haja um questionamento do valor social da logística de defesa, ou da logística e da defesa per se, é no contexto da logística das operações de paz, com o emprego das Forças Armadas brasileiras no cenário internacional e, eventualmente, com algum caráter humanitário, que o valor social da logística assume um novo papel, evidenciando “o fator dual salvar vidas versus o uso eficiente de recursos limitados” (BALCIK, 2010, p. 33). Ao analisarmos, então, a logística como fator de impacto do emprego internacional das Forças Armadas brasileiras em operações de paz da ONU, e respondendo à pergunta que norteou esta investigação, podemos dizer que a logística impacta significativamente o emprego das Forças Armadas brasileiras em operações de paz, uma vez que o planejamento logístico está diretamente atrelado a aspectos econômicos, políticos e estratégicos que visam à projeção do Brasil no cenário internacional, conforme o descrito nas END e PND (2024). Da mesma forma que a logística se liga à estratégia, é possível notar sua dependência de uma estrutura econômica, organizacional e social desenvolvida, que por sua vez está ramificada e interligada a diversos atores — TCCs, ONU, país anfitrião — para mencionar alguns. Fato é que uma logística doméstica estruturada, apesar de não ser uma condição sine qua non, aumenta as chances de participação e de sucesso do país e suas Forças Armadas em operações de paz, quando este for requisitado pela ONU. No caso brasileiro, as políticas externas das duas últimas décadas têm apontado para o objetivo de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, bem como de exercer um papel mais relevante no cenário internacional. As operações de paz servem como instrumentos para atingir tais metas, sendo determinante o estabelecimento de um forte diálogo com a logística que, embora nem sempre valorizada, se faz necessária para a gestão de fluxos de produtos, modernização, serviços e informação, no ambiente das operações nacionais e internacionais, como as operações de paz. O diálogo constante da logística com as operações de paz sustenta os objetivos propostos pela própria operação, pela instituição que a estabeleceu e pelo país contribuinte. A logística reafirma, mais uma vez, sua importância; sem a qual nem se faz guerra, nem se constrói a paz. REFERÊNCIAS AGUILAR, S. A participação do Brasil em missões de paz. In: AGUILAR, S. (Org.). Brasil em missões de paz. São Paulo: Usina do Livro, p. 19-50, 2005. ANDRADE, I.; HAMANN, E.; SOARES, M. A participação do Brasil nas operações de paz das Nações Unidas: evolução, desafios e oportunidades. Texto para Discussão, n. 2442. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2019. BAIG, K. Logistical Support to United Nations Peacekeeping Operations: an Introduction. Series Editor: Harvey J. Langholtz, Ph. D. Peace Operations Training Institute. 2010. BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini et al. São Paulo: Hucitec, 1988. BALCIK, B.; BEAMON, B.; KREJCI, C.; MURAMATSU, K.; RAMIREZ, M. Coordination in humanitarian relief chains: practices, challenges and opportunities. Int. J. Production Economics, n. 126, p. 22-34, 2010. BRASIL. Ministério da Defesa. Política de Logística de Defesa. Brasília, 2006. ________. Ministério da Defesa. Manual de Operações de Paz. Brasília, 2013. ________. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa. Brasília, 2016. ________. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, 2016. CLAUSEWITZ, C. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2023. DIAS, G.; DUARTE, R. A Brazilian way of peacekeeping? A normative and empirical analysis of Brazil’s contributions, challenges and contradictions. In: TOMIC, N.; TONRA, B. (Eds.). Conflict Resolution and Global Justice: The European Union in the global context. New York: Routledge, p. 193-208, 2022. FERREIRA, S.; MIGON, E. A logística de uma missão de paz: um estudo de caso do Saara Ocidental. In: Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais. e-ISSN 2238-6912 | ISSN 2238-6262| v.6, n.11, Jan./Jun. 2017, p.39-52. FIORIN, J. Introdução ao pensamento de Bakhtin. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2022. KEEGAN, J. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006. OWENS, M. Force planning: the crossroads of strategy and the political process. Orbis, v. 59, n. 3, p. 411-437, 2015. STADLER, H. et al. Supply chain management and advanced planning: concepts, models, software, and case studies. Springer, 2015. UNITED NATIONS. Basic facts about the United Nations. New York: UN Department of Public Information, 2004. Rio de Janeiro - RJ, 15 de abril de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A relação dialógica da logística com as Operações de Paz da Organização das Nações Unidas. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/missao-de-paz/artigos/a-relacao-dialogica-da-logistica-com-as-operacoes-de-paz-da-organizacao-das-nacoes-unidas. .
Especial Irã: O “paradoxo da vitória” na guerra dos EUA/Israel contra o Irã: objetivos políticos x campanha militar
Ricardo Luiz da Cunha RabeloGeneral de Brigada da Reserva do Exército Brasileiro, pós-graduado pelo Command and General Staff College(US Army) e pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército/Fundação Getúlio Vargas. Ao refletir sobre a guerra, deve-se estabelecer a sua inequívoca relação com a política. Para Sun Tzu, a arte da guerra era um assunto de importância vital para o Estado, envolvendo vida ou morte, e a sobrevivência ou ruína de um povo. Na mesma direção, Clausewitz afirmou que a guerra constitui um verdadeiro instrumento político, a continuação da política por outros meios. Admitindo-se o monopólio do uso da força na mão do Estado, a guerra pode, assim, ser entendida como uma opção política de um país ao fazer uso da força para submeter o oponente à sua vontade, dentro do contexto de uma disputa relativa aos interesses nacionais de ambos. Não se deve esquecer que o exercício do poder de um Estado concentra-se em sua capacidade de aplicar o poder diplomático (político), informacional (cognitivo e psicossocial), militar e econômico, dentro de um espectro que se estende desde a paz absoluta até a guerra, sendo esta a opção em que prevalece o emprego do poder militar, sem, contudo, excluir a aplicação de outras fontes de poder. É nesse contexto que o objetivo político de uma guerra ganha importância, pois, a depender de sua satisfação, poder-se-á analisar se houve vitória na guerra. Exatamente por isso, é possível afirmar que um país teve sucesso na campanha planejada, venceu o inimigo no campo de batalha, mas perdeu a guerra. Talvez esse seja o fundamento mais importante ao recorrer à guerra, pois só se pode vencer uma guerra cujo critério de vitória esteja bem traduzido em um objetivo político que seja alcançável e que resolva a disputa que levou ao confronto, sob o preço de o término das hostilidades significar apenas um período de cessar-fogo ou uma “saída honrosa” para um dos lados contendores. Especial cuidado deve-se ter ao lidar com alianças, uma vez que é fundamental assegurar o alinhamento entre os objetivos políticos estabelecidos pelos países que as integram, sob risco de provocar consequências estratégicas e geopolíticas graves e indesejadas. Um bom exemplo é a crise provocada pela nacionalização do Canal de Suez pelo Egito, em 1956.[1] Nesse contexto, certamente a definição dos objetivos políticos dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel, de um lado, bem como do Irã, por outro lado, permitirá concluir sobre quem leva vantagem momentânea, ou mesmo quem está mais perto da vitória. Israel tem declarado que o seu objetivo político é, primordialmente, eliminar o que considera uma ameaça existencial representada pelo Irã, interrompendo ou destruindo a capacidade nuclear iraniana e degradando a capacidade do país em matéria de mísseis, drones e guerra por procuração. Os líderes israelenses também sinalizam objetivos mais amplos, incluindo o enfraquecimento do poder de decisão do regime e, para alguns, a longo prazo, a busca por uma mudança de regime. Os EUA, por sua vez, logo após o início das ações em 28 de fevereiro, em uma declaração do presidente Trump, informaram que os ataques ao Irã tinham como objetivo proteger o povo americano contra as ameaças representadas pelo programa nuclear daquele país. Assim, enunciaram três objetivos: a eliminação da capacidade nuclear iraniana (programa que haviam afirmado ter obliterado na chamada Guerra dos 12 Dias, em 2025), a eliminação da capacidade de lançar mísseis balísticos e drones, bem como o impedimento de o Irã continuar patrocinando grupos rebeldes em outros países. Além disso, Trump disse, em tradução livre, diretamente ao povo iraniano: "Quando terminarmos, assumam o governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a única chance que vocês terão por gerações." Com isso, verifica-se que os EUA ao menos nutriam a esperança de promover a mudança do regime iraniano. Convém ressaltar que os objetivos listados estão conectados diretamente à decisão de recorrer à guerra para a resolução de controvérsias não resolvidas por meio da imposição de sanções econômicas, de ações cognitivas que estimularam o povo a se insurgir contra o regime vigente, ou ainda por intermédio da recente tentativa de negociação diplomática. Em outras palavras, estão ligados às causas que deram origem à guerra, de forma mais imediata. Em consequência, eles podem diferir dos objetivos nacionais ligados à Grande Estratégia dos países envolvidos, a qual estaria mais alinhada aos objetivos geopolíticos[2] de cada Estado. Ao analisar os objetivos políticos dos EUA e de Israel para o conflito, verifica-se que eles podem ser considerados convergentes, porém audaciosos e com elevado risco de não se concretizarem. Entretanto, o estado final desejado (EFD) político para os EUA, ao eliminar a ameaça nuclear àquele país, pode diferir significativamente das condições que definem o EFD político para Israel. Além disso, a indefinição ou a falta de clareza de ambos os países quanto à perseguição da mudança de regime iraniano com a guerra iniciada em 28 de fevereiro dificulta o estabelecimento da estratégia a ser aplicada, uma vez que esta é completamente dependente do firme e transparente estabelecimento dos objetivos políticos. Em consequência, a estratégia militar concebida pode assegurar a conquista dos objetivos militares, mas não garantir o cumprimento do EFD político, o que representaria um problema sério ao término do conflito. Pelo lado do Irã, o objetivo político perseguido é a manutenção do regime vigente, o qual já poderia ser definido e exercitado desde o término da Guerra dos 12 Dias, ainda em 2025. A antecipação da identificação e a clareza na definição do objetivo político asseguraram ao Irã a oportunidade de desenvolver uma estratégia que permitisse o sucesso na guerra, principalmente ao prever que não teria força militar capaz de se contrapor à coalizão israelo-americana. Estando definidos os objetivos políticos, há necessidade de conceber as ações necessárias, por meio de uma estratégia, que permitam as suas consecuções. A concepção da estratégia nasce, pois, como sendo a arte de desenvolver métodos de emprego dos meios disponíveis ao Estado, ao longo de um determinado tempo, para se atingir o objetivo estabelecido. Com isso, o estrategista traz o objetivo político para o nível estratégico, integrando, de forma equilibrada e deliberada, os conhecimentos disponíveis (inteligência) e as estimativas formuladas sobre o inimigo, mesmo diante da incerteza que reina durante a guerra. O corpo da estratégia deve apresentar coerência entre os métodos a serem utilizados (forma), os meios disponíveis e os objetivos estratégicos estabelecidos, sendo validada se for adequada (permitir a consecução dos objetivos políticos), praticável ou exequível (possibilidade de executar as ações previstas com os meios disponíveis e capacidade de executá-las) e, por fim, aceitável quanto aos métodos empregados e aos efeitos produzidos. Além de ser válida, a análise de riscos da estratégia formulada vai indicar as consequências da sua aplicação (inclusive de sua falha) e da reação do oponente, tudo sob o prisma da probabilidade de cada fato se concretizar, bem como do seu impacto. Assim, os EUA e Israel, do que se pode verificar, optaram por uma estratégia direta, com ações coordenadas nos diversos domínios para conquistarem a superioridade aérea, garantindo liberdade de ação para que o vetor aéreo atingisse os alvos, degradando a capacidade de liderança do regime, bem como impedindo ou dificultando sobremaneira o exercício do comando e controle por parte das forças iranianas. Com isso, pretendiam abrir espaço para uma possível revolta interna da população, seguida de um maior enfraquecimento do regime e sua consequente deposição. Esse efeito seria o caminho mais rápido e de menor custo para assegurar a conquista dos objetivos políticos estabelecidos, uma vez que o governo que assumisse seria pró-coalizão ou estaria em uma situação que o obrigasse a se submeter aos interesses dos atacantes. Para isso, neutralizaram a temida artilharia antiaérea iraniana, atacaram centros de comando do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica - considerado o centro de gravidade da manutenção do regime - e destruíram os locais de produção e armazenamento de mísseis balísticos, do programa nuclear e de drones. Em poucos dias, a liderança iraniana estava morta, incluindo o líder religioso, o aiatolá Ali Khamenei, e os ataques continuavam a fim de provocar a destruição e inoperabilidade do aparato de defesa iraniano. Os EUA e Israel devem ter considerado a possibilidade de o regime iraniano não cair, o que possuía alta probabilidade de ocorrência, uma vez que a mudança de regime exigiria a presença de força militar no terreno que pudesse apoiar os revoltosos e oferecer-lhes segurança, garantindo a ordem inicial para o estabelecimento de um novo governo (caso contrário, seria alta a probabilidade de os revoltosos serem massacrados pela força leal ao regime no poder). Não havendo a mudança de regime iraniano, os ataques deveriam prosseguir, em princípio, até que: 1) o programa nuclear estivesse destruído, não sendo possível reconstruí-lo, e os 440 Kg de urânio enriquecido a um percentual aproximado de 60% estivessem seguros em poder da aliança (eliminar a ameaça nuclear); 2) o Irã tivesse perdido a capacidade de lançar mísseis balísticos e drones, seja pela incapacidade de fabricá-los, seja pela impossibilidade de lançá-los sem ser alvejado (eliminar a principal fonte de instabilidade regional no Oriente Médio); e 3) a liderança do regime, enfraquecida politicamente, diante do caos econômico e da necessidade de reconstrução das áreas devastadas, estivesse impossibilitada (ou com capacidade bastante reduzida) de patrocinar ações de grupos rebeldes que atuam em outros países e, então, submetesse-se aos termos de paz da coalizão (incluiria a livre navegação no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no Estreito de Ormuz). Entretanto, o Irã concebeu uma estratégia defensiva, designada “defesa em mosaico”, buscando dispersar e homiziar meios nobres de ataque para, por meio de diretrizes emitidas antes do conflito e assegurando o máximo de iniciativa a todos os escalões da força militar, pretendiam manter os ataques, por período considerável, contra alvos localizados em países regionais considerados colaboradores da coalizão, em uma tentativa de tornar o conflito mais complexo e até de expandir a guerra, sabendo ser este um efeito indesejado da aliança israelo-americana. Ao mesmo tempo, buscou prolongar ao máximo o conflito, expandindo os efeitos econômicos da guerra à comunidade internacional, valendo-se, principalmente, do mercado de energia, uma vez que cerca de 20% desse comércio tem origem no Golfo Pérsico, passando pelo Estreito de Ormuz. Torna-se a frisar que as ações diplomáticas e cognitivas continuaram sendo executadas em apoio ao esforço de guerra, como se constata com a aprovação da Resolução nº 2817, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 16 de março, que condenou os ataques iranianos aos países vizinhos, contando com a abstenção da China e da Rússia. Da mesma forma, no campo econômico, houve a injeção norte-americana de recursos para o aumento da capacidade de produção dos meios utilizados na guerra, bem como as reações mundiais à diminuição da oferta de petróleo e gás, tendo em vista a redução significativa da passagem de navios pelo Estreito de Ormuz. Atualmente, a estratégia iraniana tem se mostrado efetiva por ter sido capaz de manter o regime vivo, ameaçar alastrar o conflito a outros países, e estimular a oposição mundial ao conflito, em função, principalmente, das fortes consequências econômicas, fazendo com que o barril de petróleo saísse do patamar de US$71 e fosse negociado a US$120 em momento de pico. Além disso, o chamado dos EUA para que outros países cooperassem com o esforço de estabelecer escoltas navais aos petroleiros que se deslocassem pelo Estreito de Ormuz foi mal recebido pelo Reino Unido (um dos principais aliados dos EUA) e pela Alemanha, criando fragilidades e desconfianças dentro da OTAN. A estratégia dos EUA e de Israel, por sua vez, assegurou a redução drástica da capacidade militar iraniana, sobretudo aérea e naval; diminuiu a atividade de lançamento de mísseis em 90%, estimando a existência de apenas 50% de meios ativos nessa capacidade; e, por fim, limitou a capacidade de ação da liderança política e militar. Entretanto, além de ainda persistir a capacidade de lançar mísseis balísticos, a coalizão não pôde, até então, afirmar que o programa nuclear iraniano está completamente destruído, como também não obteve sucesso em garantir a livre utilização do Estreito de Ormuz. Outros dois fatos representaram um certo revés à implementação da estratégia israelo-americana. O primeiro foram as ações do Hezbollah contra Israel, obrigando-o a realizar ações militares, inclusive terrestres, contra o Líbano, o que aumentou o seu desgaste e dividiu o foco de suas ações. O segundo, fruto da névoa da guerra e da fricção[3], foi o erro norte-americano ao atacar uma escola iraniana, vindo a vitimar cerca de 165 pessoas, a maioria meninas de 7 a 12 anos, que estavam ali reunidas. No contexto geopolítico, o isolamento da China e da Rússia, atingido logo no início das ações, foi bastante enfraquecido quando os EUA suspenderam a sanção contra a comercialização de petróleo russo, o que gerou 160 milhões de dólares diários de receita para aquele país, atenuando, em consequência, o problema chinês de dependência do petróleo iraniano e concedendo fôlego à Rússia na guerra contra a Ucrânia. Diante do que foi apresentado, caso não mudem as tendências atuais, os EUA e Israel estarão diante de um dilema. Deveriam permanecer na guerra para a total consecução de seus objetivos políticos, resistindo à pressão econômica e, por conseguinte, à diplomática e à cognitiva por insistirem em um conflito tido como “infrutífero”? Ou deveriam encerrar as hostilidades, clamando vitória por terem degradado as capacidades do Irã de tal forma que levariam alguns anos até que ele representasse uma ameaça novamente, bem como resistir à pressão por não terem alcançado os objetivos políticos propostos e, internamente, absorverem as consequências de possíveis perdas de importante capital político neste ano? O Irã, por outro lado, apesar de enfraquecido, estaria mais próximo de assegurar a manutenção do regime. Com isso, poderia declarar-se vencedor frente ao país de maior poder militar do planeta e ao seu rival regional. Diante do que foi estudado, pode-se inferir que uma forma justa e precisa para se estabelecer o “critério de vitória” em uma guerra é baseá-lo no cumprimento dos objetivos políticos estabelecidos. Atingir os objetivos estabelecidos no nível político passa, necessariamente, por conceber a estratégia adequada, tendo-a como algo dinâmico, que deve ser acompanhada e atualizada, permitindo assim antever possíveis resultados indesejados e corrigir rumos tempestivamente. Entretanto, dificilmente uma ação tática pode corrigir um erro estratégico. Nesse contexto, deve-se reconhecer, entretanto, que a guerra é caracterizada pelo embate de forças e de vontades, não configurando um fenômeno estático. Nesse sentido, a aliança EUA-Israel, detendo a iniciativa das ações neste momento, age para alterar as tendências atuais. Em meio às ações em curso, os EUA enviaram o USS Tripoli, uma embarcação de assalto anfíbio, com 2.500 fuzileiros navais embarcados. O controle da navegação no Estreito de Ormuz passou a ser um importante objetivo do nível operacional, mas com reflexos estratégicos, a ser perseguido pelos dois lados. Por fim, convém relembrar que grandes estrategistas sempre apontaram os efeitos da sorte (fortuna) e da fricção durante a guerra como fatores que podem alterar a lógica do resultado. Além disso, Clausewitz alertou que nem sempre o desfecho de uma guerra deve ser tomado como ato final em uma disputa. (texto escrito em 23 de março de 2026). [1] Israel, França e UK aliaram-se contra o Egito para reganharem o controle da passagem pelo canal. Após os ataques israelenses, a URSS ameaçou entrar no conflito e os ataques aéreos da França e Inglaterra, inicialmente exitosos, galvanizaram a apoio da população egípcia ao presidente Nasser. A falta de alinhamento político fez com que UK se retirasse do conflito prematuramente, frustrando a França e Israel. Em consequência, a animosidade franco-britânica enfraqueceu a OTAN momentaneamente, a URSS ganhou poder de influência no mundo árabe, a França enfrentou instabilidades internas que levaram à eleição de De Gaulle e à perda da Argélia. [2] São apontados como objetivos geopolíticos dos EUA a contenção ao avanço da China no Oriente Médio e Ásia, bem como a redução da influência russa, países que têm no Irã o principal hub de suas atuações naquela região. Além disso, a estabilização da região permite maior concentração de meios na área do indo-pacífico, onde a China exerce sua influência em maior grau. Do ponto de vista israelense, trazer o Irã para o nível de relacionamento existente antes da Revolução Iraniana de 1979 promoveria maior estabilidade regional, torná-lo-ia uma potência mais relevante no Oriente Médio, permitindo que estendesse o Acordo de Abrahão a outros países. [3] Conceitos defendidos por Clausewitz. A névoa da guerra caracteriza o ambiente de incerteza onde são conduzidas as ações. A fricção é a característica da guerra, segundo a qual até as coisas fáceis, ao serem executadas em guerra, carregam a probabilidade de não terem o desfecho esperado. O erro norteamericano foi, supostamente, utilizar dados de inteligência antigos, quando aquela escola era utilizada como centro de operações do IRGC. Rio de Janeiro - RJ, 08 de abril de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O “paradoxo da vitória” na guerra dos EUA/Israel contra o Irã: objetivos políticos x campanha militar. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/especial-ira-o-paradoxo-da-vitoria-na-guerra-dos-eua-israel-contra-o-ira-objetivos-politicos-x-campanha-militar. .
Especial Irã: O Golfo Pérsico como espaço geoestratégico crítico: implicações políticas, econômicas e militares para o Brasil
Eduardo Xavier Ferreira Glaser MigonDoutor em Administração (EBAPE/FGV). Doutor em Ciências Militares (ECEME).Pesquisador e Coordenador do Laboratório de Ciências Militares (ECEME). 1. Introdução O Golfo Pérsico ocupa uma posição central na geopolítica internacional contemporânea. Localizada na interseção entre grandes reservas energéticas, rotas marítimas críticas e países com rivalidades políticas persistentes, a região constitui um dos espaços geoestratégicos mais sensíveis do sistema internacional. Episódios de instabilidade nesse entorno frequentemente produzem efeitos que extrapolam o plano regional, repercutindo sobre mercados energéticos, cadeias logísticas globais e cálculos estratégicos de diversas potências. Nesse contexto, o Estreito de Ormuz, corredor por onde transita uma parcela significativa do petróleo comercializado mundialmente, permanece como um ponto particularmente sensível, capaz de amplificar rapidamente os impactos econômicos e estratégicos de crises regionais. Embora distante geograficamente desse teatro de tensões, o Brasil não se encontra isolado de suas consequências. A economia brasileira integra-se profundamente ao comércio internacional e depende de cadeias logísticas e energéticas que atravessam regiões de instabilidade potencial. Além disso, os países no entorno do Golfo Pérsico constituem parceiros comerciais relevantes para o país, tanto como fornecedores de insumos estratégicos quanto como mercados para produtos agroindustriais brasileiros. Nesse contexto, o presente artigo examina o significado geopolítico da crise no Golfo Pérsico a partir de uma perspectiva brasileira, discutindo a configuração estratégica da região, a atuação dos principais atores envolvidos e as implicações políticas, econômicas e militares decorrentes do conflito. 2. O Golfo Pérsico como espaço geoestratégico O Golfo Pérsico constitui um dos espaços geoestratégicos mais sensíveis do sistema internacional contemporâneo. A região concentra algumas das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo e abriga rotas marítimas fundamentais para o funcionamento da economia global. Essa combinação de abundância energética, relevância logística e rivalidades políticas persistentes transforma o Golfo em uma área de interesse permanente para potências regionais e extrarregionais, cujos cálculos estratégicos frequentemente convergem para a preservação do fluxo energético e da estabilidade das rotas marítimas. Nesse contexto, o Estreito de Ormuz assume um papel particularmente crítico. Esse corredor marítimo conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e funciona como a principal via de escoamento da produção energética de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e Catar. A elevada concentração de fluxos energéticos em um espaço geográfico relativamente restrito cria uma condição estrutural de vulnerabilidade estratégica, na qual episódios de tensão política ou militar — ou mesmo ações disruptivas limitadas — podem gerar repercussões significativas sobre os mercados internacionais de energia. Além da dimensão energética, o Golfo Pérsico também se consolidou como um importante eixo de articulação logística e financeira do comércio internacional. Grandes centros urbanos e portuários da região passaram a desempenhar funções relevantes como hubs de transporte, comércio e serviços, conectando mercados asiáticos, europeus e africanos. Essa inserção amplia a importância sistêmica do Golfo e faz com que crises regionais tenham potencial para produzir efeitos econômicos e estratégicos que vão muito além do espaço imediato do conflito. 3. Antecedentes do conflito e configuração dos atores (1979–2025) A configuração estratégica atual do Golfo Pérsico resulta de uma sequência de transformações políticas e militares iniciadas na segunda metade do século XX. Um dos marcos decisivos desse processo foi a Revolução Islâmica de 1979, no Irã, evento que alterou profundamente o equilíbrio regional ao substituir um aliado ocidental por um regime político de orientação revolucionária e antiocidental. A partir desse momento, as relações entre o Irã e diversos países da região passaram a ser marcadas por desconfianças estratégicas, rivalidades ideológicas e disputas de influência. Nos anos seguintes, a Guerra Irã-Iraque (1980–1988) consolidou o Golfo Pérsico como um espaço de competição militar direta. O conflito envolveu ataques a instalações energéticas, operações navais e ações contra o transporte marítimo de petróleo — fenômeno que ficou conhecido como “guerra dos petroleiros”. Esse período reforçou a percepção internacional de que a estabilidade da região era decisiva para a segurança energética global e estimulou o aumento da presença militar de potências externas, sobretudo a dos Estados Unidos. Nas décadas seguintes, a região permaneceu marcada por sucessivas crises. A competição entre o Irã e a Arábia Saudita tornou-se um dos principais eixos estruturantes da política regional, manifestando-se em disputas por influência política, religiosa e geopolítica em diferentes teatros do Oriente Médio. Paralelamente, a questão nuclear iraniana passou a ocupar uma posição central na agenda internacional, intensificando tensões diplomáticas, sanções econômicas e episódios recorrentes de instabilidade regional. Mais recentemente, o ambiente estratégico do Golfo passou a refletir também transformações mais amplas do sistema internacional. A crescente presença econômica e política da China no Oriente Médio, associada ao aumento da cooperação estratégica entre Moscou e Teerã, contribuiu para tornar a região um espaço de competição geopolítica mais complexo, no qual interesses energéticos, rivalidades regionais e disputas entre grandes potências se entrelaçam. Nesse contexto, o Golfo Pérsico permanece como um dos principais focos de instabilidade potencial do sistema internacional contemporâneo. 4. A posição brasileira diante das tensões no Golfo Pérsico Embora o Brasil não seja ator direto nas disputas estratégicas do Golfo Pérsico, as dinâmicas da região não lhe são indiferentes. Como observado nas seções anteriores, a importância sistêmica do Golfo decorre da combinação entre a concentração de recursos energéticos, a relevância logística global e persistência de rivalidades geopolíticas. Nesse contexto, episódios de instabilidade regional tendem a produzir repercussões econômicas e políticas que alcançam países geograficamente distantes, mas integrados às cadeias globais de comércio. Tradicionalmente, a política externa brasileira tem buscado manter uma postura equilibrada em relação aos conflitos do Oriente Médio. O país preserva relações diplomáticas e comerciais com diferentes atores da região e, em diversos momentos, procurou sustentar princípios como a solução pacífica de controvérsias, o respeito ao direito internacional e a defesa do multilateralismo. Essa orientação contribuiu para preservar margem de manobra diplomática em um ambiente regional caracterizado por rivalidades profundas. Ao mesmo tempo, a crescente inserção do Brasil nos fluxos comerciais internacionais amplia sua exposição indireta às oscilações provocadas por crises geopolíticas. Alterações nos preços internacionais da energia, interrupções em rotas marítimas ou a instabilidade em mercados estratégicos podem repercutir sobre as cadeias produtivas e sobre o ambiente econômico global no qual o país está inserido. Assim, ainda que não participe diretamente das disputas regionais, o Brasil permanece sensível às consequências econômicas e estratégicas associadas à estabilidade do Golfo Pérsico. Essa realidade reforça a necessidade de observar o conflito regional não apenas como um fenômeno distante, mas também como um fator potencialmente relevante para a economia e para a inserção internacional do país. A compreensão desses impactos torna-se particularmente importante quando se consideram as relações comerciais entre o Brasil e os países do Golfo, bem como a importância da região para determinados fluxos energéticos e logísticos que integram o comércio global. É nesse contexto que se torna pertinente examinar, com maior detalhe, os possíveis efeitos econômicos de instabilidades no Golfo Pérsico para o Brasil. 5. Impactos econômicos potenciais para o Brasil A instabilidade no Golfo Pérsico possui implicações econômicas que transcendem o plano regional. A região concentra uma parcela significativa da produção e da exportação mundial de petróleo e gás natural, de modo que tensões militares ou interrupções no fluxo energético tendem a produzir efeitos imediatos sobre os preços internacionais de energia. Para economias dependentes do comércio internacional, como a brasileira, oscilações abruptas nesses mercados repercutem diretamente sobre custos logísticos, inflação e condições de crescimento econômico. Além da dimensão energética, a região também exerce papel relevante no fornecimento de insumos estratégicos para a agricultura global, especialmente fertilizantes e derivados petroquímicos. Alterações nas rotas comerciais ou na disponibilidade desses produtos podem afetar cadeias produtivas em diversos países, inclusive no Brasil, cuja produção agroindustrial depende de fluxos regulares de insumos provenientes do mercado internacional. A instabilidade regional também pode gerar efeitos sobre as cadeias logísticas e os fluxos comerciais globais. Elevações nos custos de transporte marítimo, prêmios de risco em seguros de navegação e eventuais restrições de circulação em áreas estratégicas tendem a repercutir em mercados internacionais. Esses impactos não se limitam ao setor energético, alcançando diferentes segmentos da economia global e ampliando a sensibilidade dos mercados a episódios de tensão geopolítica. Nesse contexto, os países do Golfo consolidaram-se como importantes centros logísticos e comerciais que conectam mercados asiáticos, europeus e africanos. Além do comércio de energia, a região abriga plataformas financeiras, industriais e tecnológicas que participam de cadeias globais de valor. Para o Brasil, essa interação envolve não apenas exportações agroindustriais, mas também trocas industriais, tecnológicas e oportunidades de cooperação econômica mais amplas. 6. Implicações estratégicas para a defesa brasileira As dinâmicas de instabilidade no Golfo Pérsico evidenciam como conflitos regionais podem produzir efeitos em escala global. Como discutido nas seções anteriores, mesmo países geograficamente distantes do teatro de tensões permanecem expostos às repercussões dessas crises, seja por meio da volatilidade dos mercados internacionais, seja pela vulnerabilidade de fluxos comerciais e tecnológicos. Para o Brasil, a observação dessas dinâmicas oferece não apenas um diagnóstico sobre possíveis impactos econômicos, mas também um conjunto de elementos úteis para a reflexão estratégica no campo da Defesa. Conflitos que envolvem competição tecnológica, emprego intensivo de sistemas não tripulados, ataques de precisão e disputas pela segurança de rotas marítimas oferecem exemplos concretos de tendências contemporâneas da guerra e de desafios associados à proteção de interesses nacionais em um ambiente internacional marcado por uma crescente interdependência. Nesse contexto, o exame das tensões no Golfo Pérsico permite extrair algumas implicações para o pensamento estratégico brasileiro. Essas implicações podem ser observadas em diferentes planos, incluindo a formulação de diretrizes de política de defesa, a evolução da doutrina militar e os desafios associados ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID). 6.1 Implicações para a Política Nacional de Defesa e para a Estratégia Nacional de Defesa A observação de crises geopolíticas em regiões como o Golfo Pérsico oferece elementos relevantes para a reflexão sobre a Política Nacional de Defesa (PND) brasileira. Embora o Brasil não participe diretamente das disputas estratégicas do Oriente Médio, a dinâmica desses conflitos evidencia como tensões regionais podem produzir impactos globais capazes de afetar interesses nacionais em áreas como comércio, energia e segurança de rotas marítimas. Nesse sentido, a Política Nacional de Defesa enfatiza a importância de acompanhar o ambiente estratégico internacional e de preparar o país para lidar com cenários caracterizados por incerteza, instabilidade e competição entre atores estatais e não estatais. A evolução das crises no Golfo Pérsico ilustra precisamente esse tipo de contexto, no qual rivalidades regionais, disputas tecnológicas e interesses energéticos convergem para produzir situações de elevada complexidade estratégica. Além disso, a análise de conflitos contemporâneos permite identificar tendências relevantes para o planejamento de defesa, como a crescente integração entre as dimensões militares, econômicas e tecnológicas da competição internacional. Os episódios recentes no Oriente Médio evidenciam a importância da proteção de rotas marítimas, da segurança de cadeias logísticas e da resiliência de infraestruturas críticas — temas que também figuram entre as preocupações presentes nos documentos estratégicos brasileiros. Assim, ainda que o Brasil não esteja diretamente envolvido nas disputas do Golfo Pérsico, o seu acompanhamento contribui para ampliar a compreensão sobre os desafios estratégicos que caracterizam o ambiente internacional contemporâneo. Esse tipo de análise oferece subsídios úteis para o aperfeiçoamento das políticas de defesa e para o fortalecimento da capacidade do país de antecipar riscos e proteger seus interesses nacionais. 6.2 Implicações para a para a Doutrina Militar Os conflitos recentes no Oriente Médio oferecem um conjunto de evidências empíricas relevantes para a reflexão doutrinária sobre a condução da guerra contemporânea. Episódios de confronto envolvendo atores estatais e não estatais na região têm demonstrado a crescente importância de sistemas de precisão, do emprego de plataformas não tripuladas e da integração entre diferentes domínios operacionais, incluindo os ambientes aéreo, marítimo, terrestre, cibernético e espacial. Uma das características mais marcantes desses conflitos tem sido o uso intensivo de sistemas não tripulados, particularmente os veículos aéreos remotamente pilotados (VARP) e drones de ataque. Esses sistemas ampliam a capacidade de vigilância, reconhecimento e ataque de precisão, ao mesmo tempo em que reduzem custos operacionais e riscos diretos para os combatentes. Em diversos episódios recentes no Golfo e em seu entorno estratégico, tais plataformas foram utilizadas tanto para reconhecimento quanto para ataques contra infraestruturas críticas e alvos militares. Outra tendência relevante refere-se à combinação entre ataques de precisão e a saturação de defesas. O emprego coordenado de mísseis, foguetes e drones tem demonstrado capacidade de pressionar sistemas de defesa aérea e de gerar efeitos desproporcionais em relação ao custo dos meios empregados. Essa dinâmica evidencia a importância crescente de sistemas de alerta antecipado, defesa antiaérea integrada e da capacidade de proteção de infraestruturas estratégicas. Além disso, os conflitos na região também reforçam a centralidade da informação no ambiente operacional contemporâneo. A coleta, o processamento e a disseminação rápida de dados provenientes de sensores diversos passaram a desempenhar um papel decisivo na identificação de alvos, na coordenação de ataques e na avaliação de resultados. Nesse contexto, a superioridade informacional torna-se um elemento cada vez mais relevante para a eficácia das operações militares. Embora essas tendências não sejam exclusivas do Golfo Pérsico, os episódios recentes observados na região ilustram de forma concreta como transformações tecnológicas e operacionais estão moldando o caráter da guerra contemporânea. Para o pensamento estratégico brasileiro, o acompanhamento dessas experiências pode oferecer referências úteis para o aperfeiçoamento doutrinário e para a adaptação das Forças Armadas a um ambiente operacional cada vez mais complexo e tecnologicamente intensivo. 6.3 Implicações para a Base Industrial de Defesa Além dos aspectos políticos e doutrinários, as tensões no Golfo Pérsico também oferecem elementos relevantes para a reflexão sobre a Base Industrial de Defesa brasileira. Conflitos contemporâneos evidenciam a importância de cadeias produtivas complexas, nas quais sistemas militares dependem de componentes tecnológicos, fornecedores especializados e parcerias internacionais que se estendem por diferentes países. Em um ambiente internacional marcado por disputas geopolíticas e por eventuais restrições tecnológicas, essa interdependência pode gerar vulnerabilidades. Interrupções em cadeias de suprimento, limitações à transferência de tecnologia ou restrições à exportação de determinados componentes podem afetar a disponibilidade ou a manutenção de sistemas militares, sobretudo quando esses sistemas dependem de redes produtivas globalizadas. No caso brasileiro, essa realidade pode ser observada em programas estratégicos que envolvem cooperação internacional e a integração de tecnologias provenientes de diferentes origens. Sistemas embarcados, sensores, aviônicos e outros subsistemas críticos frequentemente resultam de parcerias industriais e de acordos tecnológicos estabelecidos com empresas estrangeiras. Em determinados casos, esses arranjos envolvem fornecedores localizados em regiões sujeitas a tensões geopolíticas recorrentes. A presença de tecnologias associadas a empresas estrangeiras em plataformas militares brasileiras ilustra a complexidade dessas relações industriais. Sistemas desenvolvidos ou integrados em cooperação internacional — como ocorre em programas aeronáuticos e em projetos que utilizam componentes de diferentes origens tecnológicas — dependem da estabilidade de cadeias produtivas globais e da continuidade de acordos de cooperação industrial. Nesse contexto, a observação de crises internacionais reforça a importância de políticas voltadas ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa e à ampliação da autonomia tecnológica nacional. O desenvolvimento de capacidades industriais próprias, aliado à diversificação de parcerias e à proteção de cadeias críticas de suprimento, constitui um elemento central para reduzir vulnerabilidades e ampliar a resiliência estratégica do país. 7. Considerações finais A análise do Golfo Pérsico evidencia como determinados espaços geográficos mantêm uma relevância estrutural na configuração do sistema internacional. A combinação de recursos energéticos, rotas marítimas estratégicas e rivalidades políticas persistentes transforma a região em um dos principais pontos de sensibilidade geopolítica do mundo contemporâneo. Episódios de instabilidade nesse espaço tendem a produzir repercussões que ultrapassam o plano regional, alcançando mercados energéticos, cadeias logísticas e decisões estratégicas de diversos Estados. Embora distante geograficamente desse teatro de tensões, o Brasil não permanece imune aos seus efeitos. A inserção do país na economia internacional e sua dependência de fluxos comerciais globais tornam a estabilidade das rotas marítimas e dos mercados energéticos um fator relevante para o desempenho econômico nacional. Além disso, o Golfo Pérsico constitui um parceiro comercial significativo para o Brasil, tanto como mercado para produtos agroindustriais quanto como fonte de insumos estratégicos. Nesse contexto, a análise das tensões na região também suscita reflexões sobre a importância de capacidades nacionais voltadas à proteção de interesses econômicos e estratégicos em um ambiente internacional caracterizado por uma competição crescente e por uma elevada volatilidade. Políticas públicas nas áreas de defesa, tecnologia e inserção internacional tornam-se elementos centrais para ampliar a capacidade do país de lidar com cenários de instabilidade global. A lição estratégica é que, em um ambiente internacional marcado por competição crescente e incerteza estrutural, a capacidade de defesa de um país depende da articulação consistente entre a prontidão militar, a autonomia tecnológica e a vontade institucional do Estado. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025. Aprova a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 2025. CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010. CASTRO, Tiago de Castro de. Espaços geográficos: sistemáticas de estudo. 2. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1994. ESCOLA DE GUERRA NAVAL. Boletim Geocorrente: edição especial – Golfo Pérsico. Rio de Janeiro: Núcleo de Avaliação da Conjuntura, 2025. FREEDMAN, Lawrence. Strategy: a history. Oxford: Oxford University Press, 2013. GRAY, Colin S. Modern strategy. Oxford: Oxford University Press, 1999. MIGON, Eduardo Xavier Ferreira Glaser. A inserção dos assuntos de defesa na agenda das políticas públicas. Tese (Doutorado em Ciências Militares). ECEME: Rio de Janeiro, 2011. ______. Segurança, defesa e relações civis-militares: (re)leituras em apoio à construção de uma nova agenda brasileira. Revista de Ciências Militares, Lisboa, v. 1, n. 1, p. 101-121, 2013. Rio de Janeiro - RJ, 01 de abril de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O Golfo Pérsico como espaço geoestratégico crítico: implicações políticas, econômicas e militares para o Brasil. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/o-golfo-persico-como-espaco-geoestrategico-critico-implicacoes-politicas-economicas-e-militares-para-o-brasil. .
O avanço do terrorismo no Níger: desafios à estabilidade no Sahel e implicações para o Brasil
Frederico Pimentel Soares de AlmeidaMajor de Infantaria do Exército Brasileiro.Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior emestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos. 1. Introdução Na atual configuração do tabuleiro global, desenhada por ameaças assimétricas, híbridas e voláteis, o Níger retorna ao epicentro da crise no Sahel. O país, que tradicionalmente ocupou papel central nas redes de influências das potências ocidentais, como a França, a Rússia e os Estados Unidos, enfrenta atualmente uma escalada de violência, cujos efeitos colaboram para a desestabilização do equilíbrio de poder no continente africano. Desde os eventos ocorridos na Primavera Árabe (2011), a expansão do terrorismo na região do Sahel vem se alastrando de forma vertiginosa. Uma das causas desse fenômeno reside na queda do regime do ditador Muammar al-Gaddafi, primeiro-ministro da Líbia, em outubro de 2011. Esse fato gerou uma onda de dissidentes das Forças Armadas líbias, que, sem remuneração, se filiaram a grupos jihadistas, além da facilidade de acesso desses grupos ao arsenal bélico líbio, por meio do comércio ilegal de armas. Questões identitárias também desempenham um papel central na mobilização de novos combatentes. Grupos extremistas adaptam narrativas globais para abordar ressentimentos locais, apresentando-se como protetores de etnias contra injustiças governamentais ou milícias rivais. A presença de forças militares estrangeiras e o legado colonial também são explorados pela propaganda jihadista para deslegitimar governos nacionais que mantêm parcerias com potências ocidentais. Nesse ínterim, o ataque ao Aeroporto Internacional Diori Hamani, na capital Niamey, em 29 de janeiro de 2026, é um evento que se inscreve como uma tendência de expansão do terrorismo transnacional. Nesse contexto, ao longo dos anos, grupos insurgentes exploram a baixa capacidade dos países africanos de prover segurança em seus territórios. A porosidade fronteiriça, herdada dos processos de descolonização traumáticos do século XX e agravada pelas sucessivas crises políticas e alternâncias de poder no continente, eleva a tensão nos países da costa ocidental africana e, consequentemente, a insegurança do Atlântico Sul. 2. Desenvolvimento Como ponto de partida para a análise dessa temática, colocam-se as contribuições de Enders e Sandler (1999), Kissinger (2015) e Hoffman (2017) que tratam dessa grave crise institucional pela visão das teorias de Relações Internacionais aplicadas ao terrorismo. Esses autores elucidam a evolução desse fenômeno transnacional que, sob a ótica econômica e política, pode ser entendido como um bem público negativo, no qual atores não estatais utilizam a violência para alcançar objetivos políticos, explorando vulnerabilidades em Estados fracos. Essas abordagens salientam que o terrorismo não é um mero ato de violência aleatória, mas uma estratégia racional que visa maximizar seu impacto com o mínimo de recursos, influenciando dinâmicas globais de segurança e criando ciclos de retaliação que perpetuam instabilidade (Enders; Sandler 1999, p. 148). Dentre as obras que abordam questões geopolíticas ligadas ao terrorismo, a lição analítica de Rapoport (1984) é relevante para a análise do terrorismo religioso atual, destacando como as doutrinas sagradas podem sustentar uma violência prolongada, em oposição à racionalidade instrumental do terrorismo secular, e como as crenças se traduzem em rotinas organizacionais e táticas (Rapoport, 1984, p. 674-675), a exemplo dos casos africanos contemporâneos. Inicialmente, é possível fazer essa conexão com as "ondas" de terrorismo religioso, nas quais as ideologias, como o salafismo (doutrina sunita que exige adesão literal ao Alcorão e à Sunnah) militante, se espalham por regiões instáveis, inflamando conflitos locais. Nesse contexto, fatores estruturais e conjunturais, bem como a imposição ideológica do jihadismo islâmico, têm influenciado o avanço das redes terroristas no Níger. A fragilidade das instituições governamentais e a incapacidade de prover segurança em zonas rurais têm gerado vazios de poder, que estão sendo ocupados por atores não estatais violentos. Fatores socioeconômicos, incluindo o desemprego juvenil, a pobreza endêmica e a disputa por recursos naturais, como minas de ouro artesanais, têm servido de combustível para a radicalização e o financiamento das katibas (unidades militares). A incursão conduzida pelo Estado Islâmico na Província do Sahel (IS-Sahel, em inglês) contra a Base Aérea 101, que divide as instalações com o terminal de passageiros do aeroporto de Niamey, no Níger, evidencia uma mudança profunda na estratégia das insurgências regionais. Nota-se a transição de ações armadas esporádicas em áreas remotas para ataques coordenados em grandes centros urbanos, com alvos de alta relevância estratégica. A operação, que durou cerca de uma hora, envolveu um elevado nível de inteligência e de coordenação de fogos, bem como armamento pesado e uso de drones, causando severos danos a infraestruturas críticas, como hangares e aeronaves de transporte. (Syft, 2026). Além disso, essa mudança de modus operandi revela vulnerabilidades na doutrina de defesa da junta militar que governa o país. Salienta-se que o Aeroporto Diori Hamani constitui um centro nevrálgico da logística das Forças Armadas nigerianas e o ponto de entrada de suprimentos vitais para aquele país sem litoral. A capacidade dos insurgentes de penetrar no perímetro de segurança do centro político da nação refuta o compromisso da junta militar de restaurar a ordem pública, razão invocada pelo golpe de Estado liderado pelo General Abdourahamane Tiani (International Crisis Group, 2026). A incursão demonstrou o elevado nível do serviço de inteligência insurgente e contou com uma coordenação precisa de esforços que sobrepujou a capacidade das forças de segurança nigerinas de reagir oportunamente, indicando a infiltração da célula terrorista nas estruturas do Estado e nas comunidades periféricas (BBC, 2026). O ataque do IS-Sahel, em Niamey, transmite a mensagem de que o grupo possui capacidade de interdição de estruturas críticas, além de sinalizar o avanço das táticas terroristas, cujo objetivo não é a ocupação territorial imediata, mas a paralisia do poder de decisão e de manobra do oponente. Ademais, as potencialidades da África Ocidental, somadas ao avanço do terrorismo e do narcotráfico, atraem novos atores extrarregionais e modificam a dinâmica das forças no país. A confirmação da atuação do Africa Corps, sucessor do Grupo Wagner, na defesa do aeroporto, corrobora a transferência do eixo de influência geopolítica na região. Moscou confirmou oficialmente a participação de seus instrutores e combatentes na repulsão do ataque do IS-Sahel, validando a hipótese de que a junta militar depende do suporte do Kremlin (Al Jazeera, 2026). Essa atuação eslava preenche o vácuo deixado pela ruptura unilateral do Níger com a França e pela retirada das forças de segurança norte-americanas e europeias, que buscavam preservar a presença na região sob o pretexto de contenção do terrorismo, mascarando seus reais interesses econômicos. A militarização, orientada pela Rússia, gera diversas variáveis de incerteza para a diplomacia regional, que substituiu os antigos “parceiros ocidentais” por agentes estatais russos, no intuito de aumentar a autonomia do país. Essa situação criou um cenário de turbulência, e a longevidade do regime nigerino fica atrelada aos interesses estratégicos do Kremlin na África. Essas inclinações priorizam o acesso aos recursos minerais em detrimento da estabilidade institucional de longo prazo. Além disso, a conjuntura securitária se deteriora por meio do aprofundamento das tensões diplomáticas entre a Aliança dos Estados do Sahel e os países da costa ocidental. Isso é verificado por intermédio das acusações, efetuadas pela junta militar, de patrocínio do terrorismo por parte de Benin e da Costa do Marfim, enfraquecendo a cooperação na área de inteligência, vital para conter ameaças transnacionais. O International Crisis Group alerta que essa estratégia de culpar atores externos visa desviar a atenção do público doméstico sobre a incapacidade do governo local de conter a violência (International Crisis Group, 2026). A solução do Estado do Níger para a crise de legitimidade tem sido caracterizada pelo aumento do autoritarismo. A Lei de Mobilização Geral, de dezembro de 2025, que exemplifica essa tendência, permite a requisição discricionária de propriedades e a conscrição de civis para a guerra. A chamada para uma mobilização patriótica sinaliza a quebra dos direitos civis e a crescente instabilidade psicossocial. O governo, ao armar milícias civis e militarizar a sociedade, aumenta o risco de fomentar conflitos intercomunitários, cujas consequências residem na elevação do recrutamento jihadista, criando um ciclo vicioso de violência no país. Nesse sentido, dados estatísticos indicam que o número de mortes no Níger dobrou desde o golpe de 2023 (Fundação Pontifícia ACN, 2025). Essa métrica fúnebre é o indicador mais preciso da falência da abordagem puramente militar, na qual a população se encontra coagida entre a brutalidade dos insurgentes e a repressão estatal, impactando negativamente a base social necessária para a estratégia de contrainsurgência. Cabe enfatizar que a proteção do equilíbrio de poder no Sahel é primordial para a segurança internacional e afeta diretamente o entorno estratégico brasileiro. A teoria geopolítica clássica do Rimland (Spykman, 2020) coloca o controle das orlas continentais como determinante para a projeção de poder global. O colapso da segurança no Níger atua como um rompimento de barragem, cujos insumos de insegurança fluem em direção ao sul, para os países costeiros do Golfo da Guiné. Abdenur e Souza Neto (2014a) analisam a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) como um arcabouço político para consolidar a identidade regional brasileira, mitigando ameaças assimétricas, como o terrorismo. O fortalecimento do fórum contribui para a consolidação do Brasil como ator regional relevante, aumentando sua influência no entorno estratégico e minimizando a possibilidade de interferência militar de potências extrarregionais no Atlântico Sul (Abdenur; Souza Neto, 2014a, p. 14). Já Pereira (2013) enfatiza o papel do Atlântico Sul como ligação vital entre a América do Sul e a África, destacando seus recursos como petróleo, gás e minerais, que impulsionam o desenvolvimento econômico e atraem potências extrarregionais. Corroborando esses prismas, Visentini (2022) sublinha o "flanco leste" do entorno estratégico brasileiro, apontando o litoral africano como uma área de crescente relevância securitária, suscetível a ameaças transatlânticas, como a pirataria (Visentini, 2022, p. 94). O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2023) reforça a agenda da Amazônia Azul, destacando o Atlântico Sul como vetor de riqueza, incluindo petróleo, gás natural offshore e cabos submarinos de internet, bem como a necessidade de vigilância para garantir a resiliência econômica (IPEA, 2023, p. 254). Assim, a expansão do IS-Sahel e do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) na direção de Benin, Togo, Gana, Costa do Marfim e Nigéria ameaça a integridade das rotas logísticas que conectam o interior do continente aos portos do Atlântico. A Nigéria, gigante econômico regional e parceiro comercial do Brasil, sofre com a permeabilidade de sua fronteira norte, região de entrada de combatentes radicais e de equipamento militar oriundo dos arsenais líbios e sahelianos. A contaminação extremista do Porto de Lagos e das zonas de extração petrolífera no Delta do Níger possui a capacidade de afetar negativamente o comércio marítimo no Atlântico Sul. Este cenário se forma com elevada sensibilidade para o Brasil, uma vez que a Política Nacional de Defesa define o Atlântico Sul e a costa ocidental da África como áreas de interesse vital (Brasil, 2025c). A insegurança nessas águas, proveniente da pirataria e da interrupção de fluxos comerciais, influencia diretamente a economia brasileira. Isso decorre do aumento dos custos de seguro marítimo, da ameaça ao tráfego de navios mercantes, da possível necessidade de operações de evacuação de brasileiros e da proteção de rotas comerciais, exigindo que a Marinha do Brasil e o Itamaraty reavaliem a postura estratégica na ZOPACAS. A presença militar russa e a atividade terrorista transformam o Atlântico Sul, historicamente uma zona de paz (Brasil, 2026b), em um teatro de complexidade securitária crescente. O Brasil, de acordo com a recente Política Nacional de Defesa (Brasil, 2025c) não observa passivamente a "fronteira oriental" de seu entorno estratégico. A diplomacia brasileira lidera esforços para revitalizar a cooperação em segurança marítima e inteligência com os países da costa africana, buscando blindar o Atlântico das turbulências internacionais (Brasil, 2026). Verifica-se que o reflexo geopolítico mais sensível para o Brasil reside no risco crescente de militarização do seu entorno estratégico por potências extrarregionais. A expansão desses grupos extremistas no Níger e no Sahel oferece justificativa política para que potências como os Estados Unidos, por intermédio do AFRICOM, a França, a Rússia e a OTAN reforcem sua presença militar na África Ocidental sob o pretexto da “Guerra ao Terror”. Desse modo, o que se apresenta como solução contra o terrorismo pode se converter, para a diplomacia e a defesa brasileiras, em uma ameaça indireta de elevada magnitude, ao atrair para a região alianças militares indesejadas. Cabe destacar que o ex-ministro da Defesa, Celso Amorim, alertou para esse horizonte de instabilidade, no qual forças como a OTAN, podem se instalar de forma consolidada no Mali e no Níger, e a sua projeção de influência poderá se estender até o Atlântico Sul, ferindo de maneira direta os interesses, a independência e a soberania do Brasil sobre seus recursos e espaços marítimos jurisdicionais. (Amorim, 2016, p.146, Amorim, 2013) Observa-se que a instabilidade securitária gerada pelo terrorismo no Níger e em países vizinhos produz reflexos tangíveis sobre a economia e a sociedade brasileiras. Nesse contexto, verifica-se o aumento do fluxo de refugiados, uma vez que a crise humanitária e securitária impulsiona a migração de populações africanas em direção ao Brasil, gerando, a médio e longo prazo, uma significativa pressão demográfica e desafios de integração social. Constata-se, ainda, que os prejuízos econômicos são evidentes, já que a insegurança generalizada afeta as relações comerciais bilaterais, ocasionando perdas substanciais aos investimentos e ao comércio de empresas brasileiras atuantes no continente africano. Além disso, a segurança energética também se vê comprometida, pois a turbulência na África Ocidental e no Golfo da Guiné produz reflexos negativos para a importação de petróleo e para a proteção das rotas marítimas, locais de trânsito relevante do comércio internacional brasileiro. 3. Conclusão Do exposto, infere-se que há um vínculo entre as redes terroristas do Sahel e o crime organizado transnacional, particularmente no âmbito do tráfico de drogas e de armas (Ortmann, 2017). O Brasil sofre os efeitos da porosidade das fronteiras africanas e da interação entre as economias ilícitas que financiam o terrorismo no Níger e no Mali, e as organizações criminosas de alcance global, pois o país se configura como uma rota de trânsito de entorpecentes com destino à Europa via África Ocidental. Em síntese, embora o Níger não faça fronteira direta com o Brasil, o terrorismo na região atua como um catalisador de instabilidade que ameaça a configuração de paz e de segurança no Atlântico Sul, prejudicando interesses econômicos nacionais e atraindo forças militares extrarregionais para as proximidades das águas jurisdicionais brasileiras. O cenário de 2026 instiga a revisão das doutrinas de defesa e das estratégias de inteligência, pois a instabilidade em Niamey não é um fenômeno isolado, mas um componente vital de uma crise sistêmica de governança regional africana, que ameaça transbordar para o sul do Atlântico. A confirmação da participação russa nos combates (Al Jazeera, 2026) e a sofisticação do ataque ao aeroporto (BBC, 2026) demonstram que o conflito atingiu um novo patamar de letalidade e internacionalização. Por fim, as evidências apontam para o aprofundamento da dependência extrarregional e da repressão interna nos países do Sahel. Nesse quadro, a política externa brasileira opera com pragmatismo, reconhecendo que a defesa da Amazônia Azul começa na estabilidade da costa oposta (Brasil, 2026a), cuja falência configura uma ameaça aos objetivos nacionais. Referências ABDENUR, Adriana Erthal; SOUZA NETO, Danilo Marcondes de. O Brasil e a cooperação em defesa: a construção de uma identidade regional no Atlântico Sul. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 57, n. 1, p. 5–21, 2014a. DOI: 10.1590/0034-7329201400101. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbpi/a/m3W3TxbXMFpLTRYYdGXXHhG/abstract/?lang=pt>. Acesso em: 30 ago.2025. ABDENUR, Adriana Erthal; SOUZA NETO, Danilo Marcondes de. O Atlântico Sul e a Cooperação em Defesa entre o Brasil e a África. In NASSER, Reginaldo Mattar; MORAES, Rodrigo Fracalossi. O Brasil e a segurança no seu entorno estratégico: América do Sul e Atlântico Sul. Brasília: IPEA, 2014b. AL JAZEERA. Moscow confirms Russian forces helped repel ISIL attack on Niger airport. 3 fev. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/2/3/moscow-confirms-russian-forces-helped-repel-isil-attack-on-niger-airport. Acesso em: 4 fev. 2026. AMORIM, Celso. A grande estratégia do Brasil: discursos, artigos e entrevistas da gestão no Ministério da Defesa (2011-2014). Organização de Antonio Jorge Ramalho da Rocha, Ibrahim Abdul-Hak Neto, Luiz Feldman e Pérola Abreu Pereira. Brasília: FUNAG; São Paulo: Editora Unesp, 2016. AMORIM, Celso. Celso Amorim: “Presença da Otan no Atlântico Sul é preocupação para o Brasil”. Entrevista concedida à BBC Brasil. Londres, 2 maio 2013. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/05/130502_amorim_entrevista_pai_jf. Acesso em: 23 mar. 2026. BBC. Niger airport attack details emerge. 2026. Disponível em: https://www.bbc. com/news/articles/cvgp47neze4o. Acesso em: 4 fev. 2026. BRASIL. Marinha do Brasil. Plano Estratégico da Marinha (PEM 2040). Brasília, DF: Marinha do Brasil, 2020. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/pub_pem_2040/book.html. Acesso em: 8 fev. 2026a. BRASIL. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2025a. BRASIL. Ministério da Defesa. Livro Branco de Defesa Nacional. Brasília: Ministério da Defesa, 2025b. BRASIL. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2025c. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS). Brasília, [202-?]. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/relacoes-internacionais/temas-da-agenda-internacional/paz-e-seguranca-internacionais/zopacas. Acesso em: 08 fev. 2026b. ENDERS, Walter; SANDLER, Todd. Transnational terrorism in the post-cold war era. Ames: Iowa State University, Department of Economics, 1999. (Staff General Research Papers Archive, 1532). Acesso em: 28 ago. 2025. HOFFMAN, Bruce. Inside terrorism. 3. ed. New York: Columbia University Press, 2017. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Amazônia Azul e Atlântico Sul: desafios e perspectivas para o Brasil. Brasília: IPEA, 2023. INTERNATIONAL CRISIS GROUP. Islamic State assault on Niger airport tests military rulers. 2026. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/anb/africa/niger/islamic-state-assault-niger-airport-tests-military-rulers. Acesso em: 4 fev. 2026. KISSINGER, H. Ordem Mundial. Tradução de Cláudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. ORTMANN, Georges. Deconstructing the business of terrorism: a case study of JNIM in Mali. 2017. Dissertação (Mestrado em Política Internacional) - Centre Européen de Recherches Internationales et Stratégiques (CERIS), Bruxelas, 2017. PEREIRA, Analúcia Danilevicz. O Atlântico Sul, a África Austral e o Brasil: cooperação e desenvolvimento. Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais, Porto Alegre, v. 2, n. 4, p. 33-47, jul./dez. 2013. RAPOPORT, David C. Fear and trembling: terrorism in three religious traditions. American Political Science Review, Cambridge, v. 78, n. 3, p. 658-677, set. 1984. Disponível em: https://www.international.ucla.edu/media/files/fear-trembling.pdf. Acesso em: 21 set. 2025. SPYKMAN, Nicholas John. A geografia da paz. Tradução de Filipe Giuseppe Dal Bo Ribeiro. São Paulo: Hucitec, 2020. SYFT. Ataque do Estado Islâmico ao aeroporto de Niamey testa líderes militares do Níger. 2026. Disponível em: https://syft.ai/story/kd44flq1ckfSi/112551014187517048?si=h2qxtnr31l dckkj0ngx8bp4c. Acesso em: 4 fev. 2026. VISENTINI, Paulo Fagundes. O flanco leste do entorno estratégico do Brasil: o desafio securitário do Atlântico Sul e do litoral da África. Revista da Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro, v. 37, n. 115, p. 94-108, 2022. Rio de Janeiro - RJ, 26 de março de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O avanço do terrorismo no Níger: desafios à estabilidade no Sahel e implicações para o Brasil. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/o-avanco-do-terrorismo-no-niger-desafios-a-estabilidade-no-sahel-e-implicacoes-para-o-brasil.
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas | 10/03/2025
OMPV O Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas, foi realizado no dia 10/03/2025, segunda-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército; - Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 10/03/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 10 de março 2025.
Seminário: Atualizações sobre a Guerra Rússia x Ucrânia | 09/07/2024
OMPV O Seminário: Atualizações sobre a Guerra Rússia x Ucrânia, foi realizado no dia 09/07/2024, terça-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Cel Bochi, Instrutor ECEME, com o tema "Dimensão informacional da Guerra na Ucrânia"; e - Prof Sandro, Docente do PPGCM ECEME, com o tema: "Perspectiva Estratégica da Guerra na Ucrânia". O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/07/2024, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 24 de outubro 2024. . .
A ação dos EUA e de Israel no conflito no Oriente Médio - 19 março 2026 |
A visão iraniana do conflito no Oriente Médio - 10 março 2026 |
Análise estratégica militar da ação dos Estados Unidos na Venezuela - 06 janeiro 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
Análise sobre a tomada de decisão em ambiente de incertezas
Apresentação O ano letivo teve início na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e nossos alunos, civis e militares, assistiram, no dia 5 de fevereiro do corrente, à aula magna do Gen Ex R/1 Richard Fernandes Nunes, atualmente Diretor-Geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Na sua conferência, o antigo comandante da ECEME reforçou as ideias-força que são a tônica para o decisor na arte da guerra, traduzidas nos verbos: pensar, criar, decidir e agir, que há mais de 100 anos vêm sendo norteadores dos estudos nos cursos regulares da Escola. O desafio para as atuais gerações de discentes passa a ser como direcionar a tomada de decisão em uma conjuntura complexa como a atual, na qual a dimensão informacional ganhou protagonismo, e muitos dos problemas estão no campo do incognoscível. O ambiente empresarial, que também enfrenta as mesmas dificuldades, tem criado novas formas de gestão para atuar no campo das incertezas. Como exemplo, pode ser citada a metodologia Lean Startup, que une o design, a prototipação e a experiência do cliente, inverte a ordem do conhecido ciclo PDCA, entendendo que a fase do planejamento só deve iniciar quando se conhece realmente o problema a ser enfrentado. No campo das Ciências Militares, o processo de tomada de decisão tem sido objeto de estudos, muitos deles destacando o papel das tecnologias disruptivas e as competências próprias que devem acompanhar o decisor. A pergunta que fica é se as Instituições podem ter mecanismos próprios que viabilizem esse processo em alguma medida, criando seus ecossistemas que favoreçam a atuação dos decisores. O OMPV selecionou três artigos do General Richard que analisam e propõem ferramentas institucionais para criar o ambiente favorável à tomada de decisão, os quais nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o tema. 1. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito Os preceitos da comunicação estratégica passaram a ser efetivamente adotados pelo Exército Brasileiro a partir da constatação da conveniência de se expandir os ramos da tradicional comunicação social praticada – relações públicas, assessoria de imprensa e divulgação institucional – por meio da sincronização, da integração e do alinhamento das mídias sociais operadas no âmbito da Força, bem como da sistematização das relações institucionais estabelecidas em todos os níveis. Tudo de acordo com os objetivos constantes no Planejamento Estratégico do Exército.[1] As discussões levadas a cabo para a implementação dessa visão foram abrangentes e inéditas, devido à dificuldade de obtenção de literatura capaz de considerar as condicionantes específicas da expressão militar de um país com a trajetória histórica e as dimensões geográfica, política e estratégica do Brasil. Tentativas de adaptação de doutrinas estrangeiras, particularmente praticadas em blocos e alianças multinacionais, definitivamente não fornecem soluções aplicáveis à nossa realidade sui generis. Os projetos interdisciplinares conduzidos pelo Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), na ECEME, em consonância com as diretrizes do Comandante e as orientações do Estado-Maior do Exército (EME), foram fundamentais para o aprofundamento do tema. O órgão de direção operacional e os de direção setorial e de assistência direta e imediata aportaram contribuições. Naturalmente, coube ao CCOMSEx, órgão central do Sistema de Comunicação Social do Exército, papel de relevo na consolidação dos trabalhos. Como resultado de todo esse esforço, vários documentos foram elaborados. Algumas portarias do Comandante do Exército e do EME, como a que instituiu as regras para o emprego das mídias sociais, começaram a ser publicadas em 2019. Mas foi no ano seguinte que o arcabouço normativo se completou. A Portaria nº 1.237-C Ex, de 23 de novembro de 2020, que aprova a Diretriz Geral de Comunicação Estratégica no Âmbito do Exército, consolida e integra conceitos, responsabilidades e ações a realizar. Vencida a etapa da sistematização, o momento seguinte é o da concretização das ideias em objetivos, ações, metas e indicadores. Para isso, há necessidade de acurada análise do ambiente informacional. E essa tarefa, diante dos desafios vivenciados neste início de terceiro milênio, requer maturidade estratégica. A dificuldade de interpretação da conjuntura demanda permanente consciência situacional para o entendimento do nível adequado de posicionamento à tomada de decisão. Uma força, que transita dos níveis tático e operacional do campo de batalha aos político e estratégico da definição de objetivos organizacionais e da obtenção dos meios correspondentes, impõe aos seus agentes da comunicação estratégica a realização de constante ESAON[2]. A propósito do uso deste acrônimo tão peculiar ao Exército, cabe ressaltar que o recurso a esse expediente para simplificar o entendimento e a memorização de conceitos vem de longa data, mas tem-se intensificado com o volume extraordinário de informações disponibilizado na Era do Conhecimento. Por serem úteis ao tema deste artigo, serão discutidos o VUCA e o BANI. O chamado Mundo VUCA (volátil, “uncertain”/incerto, complexo e ambíguo) popularizou-se na virada do milênio, sintetizando a imprecisão de cenários gradativamente aprofundada no pós-guerra. Esse conceito tem sido empregado em trabalhos acadêmicos, no meio corporativo e pelos mais variados órgãos e agências, incluindo-se as forças militares. Lidar com as ideias de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para se estruturar a comunicação estratégica do Exército é como realizar o ESAON em terreno movediço. O importante agora pode tornar-se rapidamente irrelevante, o que é neste momento pode não ser daqui a pouco, as conexões são múltiplas, o inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo, aliás, quem é amigo de quem? E daí? Como sair desse atoleiro? O estudo do lanço[3], neste caso, perde qualquer noção de simplicidade. Analisar essas características pode ser útil, se não para a obtenção de balizamento mais claro ao planejamento, pelo menos para se evitar certas armadilhas capazes de turvar o pensamento e as atitudes. Se é lícito supor que estamos diante de ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, é indispensável que os diversos sistemas que compõem a Instituição sejam integrados, alinhados e sincronizados. Se entendermos a comunicação estratégica como um sistema de sistemas, podemos reduzir significativamente as ameaças e potencializar o aproveitamento das oportunidades, com vistas à consecução dos objetivos estratégicos do Exército. Mas o que parecia complicado ficou ainda mais instigante. Em 2018, o norte-americano Jamais Cascio, a partir da premissa de que o Mundo VUCA não favorecia mais o entendimento acerca da conjuntura atual, cunhou o acrônimo BANI (“brittle”/frágil, ansioso, não linear e incompreensível), que também logrou se popularizar, impulsionado pela perplexidade causada pela pandemia da COVID-19. Em sua visão, o Mundo VUCA admite a ideia de planejamento, desde que considerada a interligação de múltiplos sistemas; quando isso não funciona, surge o Mundo BANI, para expressar o caos resultante e nos fazer refletir sobre a necessidade de esboçar cenários capazes de nos proporcionar caminhos plausíveis a seguir. Ainda assim, cabe a pergunta: e daí? Como lidar com isso? Longe de cair em desânimo, é necessário aprimorar nosso ESAON, nossa capacidade de interpretação da realidade, a fim de se evitar a mera aceitação dessas características globais como condicionantes incontornáveis. Se o mundo é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, enfim, caótico, é necessário desenvolver resiliência e flexibilidade compatíveis para o enfrentamento de múltiplos cenários com um mínimo de orientação quanto à melhor trajetória a adotar. E a comunicação estratégica se impõe como absolutamente necessária a uma Força que não pode se fragilizar, que deve reagir com sereno rigor, sem dar vez à ansiedade, que deve lidar com um amplo espectro de atuação, e que precisa fazer-se compreender pelos diversos públicos de interesse. Se os mundos VUCA e BANI ainda não tiverem despertado suficiente inquietação, que tal uma provocação ao pensamento crítico? No que diz respeito ao entendimento da dimensão informacional, sugiro cunharmos outro acrônimo: PSIC! Não, talvez não seja o que sugere. Não se trata de rotular o ambiente como psicótico, desconectado da realidade. Para muitos pode ser isso mesmo, mas o que tenho observado é que estamos diante de um mundo precipitado, superficial, imediatista e conturbado. A precipitação é um mal recorrente na comunicação. Se antes, a volúpia de certos órgãos de mídia e jornalistas pelos furos de reportagem, muitas vezes sem a devida checagem, produzia danos de difícil reparação à veracidade dos fatos; hoje, com a disseminação das mídias sociais, essa mazela aumenta de modo exponencial, com inúmeros conteúdos sendo disparados sem o menor cuidado. Demonstrar estar bem informado é um dos traços de vaidade mais comumente observados. Para o Exército, alvo contumaz de matérias precipitadas, outra faceta dessa característica é que ela também afeta seu próprio público interno. E disciplinar essa questão é tarefa imperiosa para a comunicação estratégica. Assim como se adota a Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) como etapa indispensável à utilização do armamento, tem-se que atribuir a mesma prioridade à instrução com vistas ao emprego das ferramentas de comunicação digital[4]. Enviar ou encaminhar uma mensagem com um simples toque na tela de um smartphone pode ser tão crítico quanto acionar o gatilho de uma arma. Já a superficialidade é o reino da “água na canela”. A mídia recorre sistematicamente a especialistas. Alguns não passam de embusteiros que se autointitulam como tal e mal sabem do que estão falando. Não raro, influenciam opiniões a partir de platitudes acacianas. Pior, ainda, é quando por trás desses pseudoespecialistas se encontra a má-fé, com o objetivo de manchar reputações pessoais e institucionais, tratando-se temas complexos e sensíveis sem nenhuma profundidade de análise. No caso dos assuntos militares, esse problema se agrava, pois não são muitos os autênticos especialistas capazes de discuti-los com isenção e propriedade. O imediatismo grassa no meio informacional. O que importa é a obtenção de resultados no curto prazo. Sacrifica-se a construção de bases sólidas de relacionamentos institucionais e de relações de confiança. Parece não haver mais paciência para, de modo continuado, colher-se no futuro o que se semeia no presente. Para a comunicação estratégica do Exército, instituição cujo caráter permanente é constitucional, esse fenômeno tem-se caracterizado como de mão dupla, e precisa ser enfrentado sistematicamente. Pessoas e percepções são passageiras; o Exército, segue adiante. A conturbação tem encontrado terreno fértil na polarização exacerbada que tem caracterizado as relações sociais por todo o mundo. O que se observa é a preferência pelo dissenso em detrimento do consenso, a primazia das controvérsias e o desprezo pelo diálogo. Esse comportamento chama a atenção em certas plataformas de mídias sociais, onde o que mais se encontra são ofensas e demonstrações de intolerância. Na chamada mídia tradicional não é diferente. Certas matérias mais se assemelham a provocações irresponsáveis, alimentadas por atípicos bombeiros, que apagam incêndio com gasolina. É preciso reagir com lucidez a esse desafio. Se considerarmos como premissa que “quem me irrita me domina”, responder a certos provocadores pode ser exatamente a resposta por eles esperada. A maturidade proporcionada pela comunicação estratégica – alinhada, integrada e sincronizada – pode indicar a melhor linha de ação a adotar. Em síntese, ao combinarmos as características da realidade atual, plasmadas nos acrônimos discutidos neste artigo – VUCA, BANI e PSIC –, percebemos o quão desafiador é obter a consciência situacional necessária à tomada de decisões com base na dimensão informacional. As atividades de inteligência e de comunicação social, integradas a outras capacidades e aos centros de estudo e pesquisa, valendo-se de ferramentas adequadas e em permanente conexão, são imprescindíveis. Os trabalhos realizados no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), do EME, bem como no Instituto Meira Mattos (IMM) e no Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), da ECEME, são exemplos de subsídios relevantes para a concretização da comunicação estratégica do Exército. Por fim, é de se destacar que, ante a carência de referências típica desta época em que vivemos, há que se fortalecer o ethos militar, única garantia de preservação da autenticidade e da relevância da Instituição. Além do desenvolvimento de competências pessoais e de capacidades organizacionais, o que é fundamental para se fazer um adequado ESAON, com vistas à melhor condução da comunicação estratégica, nos ambientes VUCA, BANI, ou até mesmo PSIC, é a permanente observância dos princípios éticos e dos valores morais que têm notabilizado o Exército Brasileiro ao longo de sua extraordinária trajetória histórica. 2. O Mundo PSIC e a Ética Militar https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar Em abril do ano passado, em artigo publicado neste blogi, provoquei o pensamento crítico dos leitores com a cunhagem do acrônimo PSIC, para caracterizar o ambiente informacional da atualidade. Decorridos dez meses, retorno ao tema, por constatar que a precipitação, a superficialidade, o imediatismo e a conturbação atingiram patamares consideráveis, devido ao comportamento de muitos civis e militares, quando o assunto abordado é o papel desempenhado pelas forças armadas no cenário nacional. Tratando especificamente do Exército Brasileiro, cabe relembrar que sua História, cuja gênese remonta às Batalhas dos Guararapes, confunde-se com a própria evolução histórica do País. A atuação da Força Terrestre é ampla e abrangente, cobrindo nosso território de dimensões continentais com o braço forte e a mão amiga, o que exige tomada de decisões desde os níveis político e estratégico aos ambientes operacional e tático. A cada um desses níveis correspondem especificidades no que tange ao estudo de situação e à liderança. É bem sabido que não há solução tática capaz de corrigir uma formulação estratégica inadequada. E é indispensável destacar que só se chega aos mais altos postos percorrendo-se todos os graus hierárquicos, após décadas de dedicação à carreira das armas. Ninguém ingressa no Exército como general! Essa óbvia constatação é importante para que se compreenda o contexto ético-profissional que distingue a carreira militar. Hierarquia e disciplina, bases institucionais constantes em nossa Lei Magna, representam a própria essência da força armada. São conceitos que traduzem o exato cumprimento do dever e o respeito à cadeia de comando, composta por autoridades, em todos os escalões da estrutura da Força, que alcançam determinada posição, tendo experimentado as vicissitudes de seus subordinados. Esse arcabouço ético também é composto pelos valores indispensáveis a quem se dispõe a seguir a vida militar: patriotismo, coragem, lealdade, camaradagem, espírito de corpo, fé na missão, entre outros. Esses valores, ainda que universais, podem manifestar-se de modo distinto, conforme o nível de atuação considerado. A coragem esperada de um comandante tático, por exemplo, não se expressa da mesma forma que a de um líder no nível estratégico. Semelhante na essência, distingue-se na demonstração. Se do primeiro se requer o acatamento imediato da ordem recebida para conduzir seus subordinados ao cumprimento da missão; do outro se espera firmeza na defesa de princípios e valores, de tal forma que, por vezes, dizer "não" pressupõe muito mais coragem do que alinhar-se a eventuais pressões de caráter político. E o que o Mundo PSIC tem a ver com isso? Tudo! Pois é exatamente na dimensão informacional que temos assistido a condutas em desacordo com a ética militar por parte daqueles que, por indignação, ingenuidade, desconhecimento e, até mesmo, má-fé, têm contribuído para disseminar a desinformação, a relativização de valores e, consequentemente, a desunião que enfraquece o espírito de corpo. Fica a pergunta: a que interesses servem tais pessoas? Analisando-se o que têm expressado, via de regra em mídias sociais e aplicativos de mensagens, que adicionaram a comodidade do anonimato a esse tipo de atitude, facilmente se identificam as componentes PSIC. A precipitação é marca típica desse ambiente repleto de meias-verdades e fake news, onde se disparam e replicam mensagens sem a menor preocupação com a veracidade dos fatos e a idoneidade das fontes. Toma-se como verdade, de modo absolutamente irresponsável, conteúdos com juízos de valor destinados ao ataque a reputações e à crítica a decisões dos escalões superiores. Iniciado o processo, que é realimentado por “gatilhadas” digitais, o que se produz é uma verdadeira marcha da insensatez. A um militar que se preza não se permite essa falta de cuidado e de lealdade para com a instituição a que serve. A superficialidade é outro aspecto dissonante do comportamento ético. A atividade militar é, por natureza, grave e complexa. Em tempos de paz ou de conflito armado, lida-se com o poder dissuasório da Nação. Soluções simples para problemas complexos não são a regra. Tratar o emprego do Exército com base em análises simplórias de “especialistas” de ocasião, é o caminho mais seguro para se chegar a concepções inoportunas, parciais e ineficazes, o que é inadmissível por quem quer que tenha um mínimo de seriedade no processo de tomada de decisão. Quando um militar extrapola a esfera de suas atribuições, e passa a opinar publicamente sobre o que não é de sua competência, contribui para o descrédito na cadeia de comando e no cumprimento da missão. O imediatismo, por princípio, não se coaduna com o caráter permanente atribuído às forças armadas no texto constitucional. A relação custo-benefício de se trocar ganhos imediatos por duradouros resultados positivos costuma caracterizar vitória de Pirro. Os preceitos da ética militar indicam claramente que não se pode prejudicar a reputação e a credibilidade do Exército, conquistadas em séculos de História, por conta do oportunismo de uns e do jogo de interesses de outros, algo que tem sido observado em inúmeras postagens veiculadas em tempos recentes. A conturbação talvez seja o aspecto mais danoso do Mundo PSIC. A excessiva polarização da sociedade e a atuação dos extremos do espectro ideológico no ambiente informacional têm gerado visões radicais, resultando num círculo vicioso de intolerância e de absoluta ausência de diálogo. Essa situação é inaceitável aos membros de uma instituição apartidária, que se orgulha de oferecer oportunidades a todos os brasileiros, sem distinção de classe social, raça, gênero e credo. O inconformismo com a tradicional postura legalista e de neutralidade do Exército tem dado ensejo a insultos a camaradas de longa data, ataques a reputações típicos de regimes totalitários, “vazamentos” de supostas informações, divulgação de memes difamatórios, tudo para tentar atingir a coesão da Força, em flagrante traição ao sacrossanto respeito à hierarquia e à disciplina. Sendo os recursos humanos a força da nossa Força, é imperioso reafirmar diuturnamente a essencialidade da prática e do culto aos princípios e valores característicos da profissão militar para o aprimoramento da capacidade operacional necessária ao cumprimento de suas diversas missões. 3. A Liderança Estratégica ante os Desafios do Mundo PSIC https://eblog.eb.mil.br/w/a-lideranca-estrategica-ante-os-desafios-do-mundo-psic Em artigos anteriores, procurei caracterizar o ambiente informacional da atualidade por meio do acrônimo PSIC (precipitado, superficial, imediatista, conturbado), apreciando seus reflexos para a comunicação estratégica do Exército[5] e para a ética militar[6]. Neste trabalho, volto a abordar esse tema do Mundo PSIC, agora, sob o enfoque da liderança estratégica. Com efeito, se essas características PSIC devem merecer atenção no planejamento e na execução da comunicação do Exército, bem como suscitar reflexões de caráter ético-profissional, é natural que o exercício da liderança militar também possa sofrer consequências desse fenômeno. Comunicação, ética e liderança são abordagens indissociáveis, ainda mais nestes tempos de profundas mudanças nas relações sociais, provocadas pelos avanços que temos observado na tecnologia da informação. O exercício da liderança militar, em qualquer nível, pressupõe coragem e integridade de caráter plenamente reconhecidas. Quando se emprega a liderança direta, é possível mais facilmente superar óbices à percepção desses pressupostos, uma vez que a comunicação é menos suscetível a ruídos e manipulações. A força do exemplo se faz mais presente. Entretanto, quando lidamos com o nível estratégico, há variáveis mais difíceis de se controlar, o ambiente é mais complexo, e o distanciamento físico amplia o desafio de se influenciar comportamentos e direcionar esforços para a conquista de objetivos institucionais. O caráter digital e virtual do ambiente informacional PSIC potencializa as limitações da liderança indireta. Historicamente, os meios de comunicação de massa vinham se consolidando segundo uma lógica socioeconômica top-down. Foi assim com a mídia impressa, com o rádio, com a televisão – aberta e por assinatura –, e com a rede mundial de computadores. Entretanto, quando a telefonia celular e a internet se combinaram em smartphones, de aquisição amplamente disseminada, essa lógica deixou de prevalecer, uma vez que pessoas dos mais diversos estratos sociais passaram a desfrutar simultaneamente dessa ferramenta de produção e de difusão instantânea de conteúdos e mensagens. Esse fenômeno é de extrema relevância para a compreensão dos desafios enfrentados pela liderança estratégica, particularmente em uma Instituição de Estado, que tem na hierarquia um de seus alicerces. Qualquer que seja a abordagem adotada acerca da temática da liderança, é inquestionável que o conhecimento exerce papel primordial. O exercício da liderança, de modo geral, requer competências que proporcionem correta análise do ambiente considerado e adequada visão dos caminhos a seguir. No nível estratégico, mais incerto e complexo, a obtenção de razoável consciência situacional constitui requisito ainda mais crítico para o êxito. Em meio a um acúmulo exponencial de informações, veiculadas por intermédio de uma incontrolável massa de mídias, a questão que se impõe é separar o essencial do supérfluo, o significativo do irrelevante e o autêntico do falso ou distorcido. E essa tarefa é extremamente desafiadora, pois ao líder não é mais proporcionado tempo suficiente para a necessária reflexão, para ser proativo em vez de reativo, para elaborar a estratégia de comunicação adequada. A instantaneidade, a rapidez e o volume de dados disponibilizados no ambiente informacional escapam à lógica hierárquica e acarretam para a liderança um ciclo frenético de interpretação de dados e de tomada de decisões, de modo a que seja exercida com acerto e oportunidade. Para isso, é necessário identificar e contornar as armadilhas do Mundo PSIC. A precipitação conspira contra o senso de oportunidade. Sendo o tempo um dos fatores da decisão, há que se resistir a conclusões antecipadas, devido à disseminação indiscriminada da informação a níveis que não tenham competência funcional para realizar adequada análise da situação. O impulso de rapidamente se livrar de um problema ou atender ao clamor de bolhas midiáticas pode acarretar sérios prejuízos ao processo decisório. O líder estratégico precisa enfrentar com serenidade a tendência atual de agir apressadamente e preservar a capacidade de controlar os anseios daqueles a quem deve conduzir. Deve sempre se valer do ESAON3[7]. Navegar, ou seja, percorrer o caminho selecionado não pode ser um ato impensado. Deve ser o coroamento de todo um processo consciente, pautado pela ponderação e pelo equilíbrio. A superficialidade impede a obtenção do grau de conhecimento requerido para se analisar uma situação e se chegar à melhor decisão. A consciência situacional plena requer estudo abalizado. Não há como equacionar problemas complexos, como costumam ser os de nível estratégico, com informações insuficientes ou incompletas. Simplicidade é princípio de guerra. Permite descomplicar a solução, particularmente devido ao modo de se comunicar o que precisa ser feito. Simplismo, ao contrário, revela carência de fundamentos, sem levar em consideração aspectos essenciais à compreensão do ambiente. O líder precisa conhecer em profundidade a realidade a enfrentar, cercando-se de assessores zelosos, e não de meros repetidores de ideias e opiniões de “especialistas” e influencers, encontradas em profusão nas plataformas digitais. O imediatismo obscurece a visão de futuro, uma das componentes primordiais da liderança estratégica. As decisões de caráter estratégico exigem mais persistência no tempo e mais abrangência no espaço. Vantagens momentâneas raramente são sustentáveis, tampouco atendem a todos os aspectos envolvidos na análise da questão. Tendências de longo prazo devem sobrepujar percepções passageiras. É necessário semear para que se possa colher. E isso requer desprendimento, paciência e compreensão histórica. O líder estratégico precisa fazer escolhas que nem sempre lhe permitirão desfrutar dos resultados em curto prazo, mas a responsabilidade e o compromisso com as gerações vindouras impõem a humildade de preparar o terreno para que outros eventualmente colham os louros. A conturbação afeta a capacidade que se requer de um líder de conciliar múltiplos e diversos interesses na busca de um propósito comum. A polarização da sociedade, os posicionamentos radicais, o desprezo pelo diálogo e a cultura do cancelamento e linchamento nas redes virtuais têm causado sérias restrições ao exercício da liderança. No meio militar, esse tipo de comportamento atenta contra a hierarquia e a disciplina e compromete a coesão. Ambientes conturbados geram círculos viciosos de preconceitos, ofensas e retaliações, que subtraem energia e desviam o foco dos legítimos anseios coletivos e dos objetivos estratégicos a serem alcançados. A liderança estratégica demanda resiliência para sobrepujar essas questões limitadas e dispersivas. Como se pode observar, o exercício da liderança estratégica tem sido confrontado por características próprias do ambiente informacional altamente digitalizado da atualidade, que tenho identificado como Mundo PSIC. Assim como sugerido nos trabalhos anteriores, é necessário compreender essa questão a fim de se encontrar as respostas mais adequadas ao desafio que representa. De modo conclusivo, identifico na trilogia liderança estratégica – ética militar – comunicação estratégica o arcabouço mais indicado para se analisar o ambiente informacional de nossos dias e melhor compreender a realidade em que estamos inseridos, a fim de que se possam encontrar soluções integradas, alinhadas e sincronizadas para o amplo espectro de atuação do Exército, em face da relevância, da complexidade e da variedade das missões que lhe são atribuídas pela Nação Brasileira. [1] Definição proposta em artigo publicado após apresentação sobre o tema no XXI Ciclo de Estudos Estratégicos da ECEME, em julho de 2019 (Nunes, R. F. A Comunicação Estratégica do Exército e a Dimensão Informacional. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 13, n. 48, p. v-xi, 8 nov. 2019.) [2] Significa estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se e navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. [3] Em situação de combate, para progredir no terreno, o militar deve condicionar-se a responder aos seguintes questionamentos: Para onde vou? Por onde vou? Como vou? Quando vou? [4] Em 2020, por proposta do CCOMSEx, o COTER aprovou o Caderno de Instrução de Comunicação Social – Formação Básica, que orienta a instrução a ser ministrada a todos os militares incorporados ao Exército acerca deste e de outros assuntos correlatos. [5] O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito. [6] O Mundo PSIC e a Ética Militar, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar. [7] Acrônimo usual no Exército para Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se e Navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.
Anuário
Edição Atual: Anuário OMPV - 2025 Edições Anuário OMPV - 2018 Anuário OMPV - 2019 Anuário OMPV - 2020 Anuário OMPV - 2021 Anuário OMPV - 2022 Anuário OMPV - 2023 Anuário OMPV - 2024 Anuário OMPV - 2025 Novo!
Panorâmico
Edição Atual: Vol. 4, nº 11, Julho/Dezembro - 2025 - (pdf completo) Apresentação O Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV) tem como missão realizar estudos políticos e estratégicos de interesse da área militar, bem como busca contribuir para o incremento e difusão da mentalidade de Defesa no Brasil. Para tanto, o OMPV está organizado atualmente em oito áreas temáticas: Conflitos Bélicos e Terrorismo; Defesa Cibernética; DQBRN; Geopolítica e Defesa; Missão de Paz; Movimentos Migratórios e Segurança na Faixa de Fronteira; Segurança Pública e Crime Organizado Internacional; e Sistemas Bélicos e Simulação. Para a produção de conhecimento, o OMPV conta com o apoio de pesquisadores civis, pesquisadores militares, professores doutores, alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da ECEME, instrutores da ECEME, alunos da ECEME e oficiais de nações amigas servindo na Escola. Além dessa equipe, o OMPV ainda recebe a colaboração de pessoas externas à ECEME. O Panorâmico é uma publicação quadrimestral deste observatório e que tem como finalidade apresentar os artigos já publicados no site do OMPV, os quais tratam de temas relevantes relacionados às oito áreas temáticas citadas anteriormente. Para mais informações, visite a página do OMPV na internet (www.ompv.eceme.eb.mil.br). Contando com produtos como palestras, relatórios, artigos de opinião, análises, entrevistas aos meios de imprensa e bibliografias em geral, o leitor poderá verificar a existência de um portfólio robusto e diversificado de contribuições dadas pelo OMPV à sociedade, em seus pouco mais quatro anos de existência. Edições Vol. 4, nº 11, Julho/Dezembro - 2025 NOVO! PDF edição completa Artigos: Tecnologias disruptivas e a transformação da arte da guerra: implicações estratégicas para o Exército BrasileiroEduardo Xavier Ferreira Glaser Migon O valor da cadeia de produção de defesa para a soberania nacionalThiago José Bandeira Santos Deskilling: o paradoxo da tomada de decisão com o uso da Inteligência ArtificialRodolfo Tristão Pina O Programa Forças Blindadas e a capacidade dissuasória brasileiraAlisson Nunes da Silva Lorenzoni Lembrai-vos da guerraPaulo Ricardo de Oliveira Dias A estratégica região do Rio Oiapoque e sua importância para o Brasil Syllas Pereira CabralRafael FariasFelipe de Castro Faustino A geopolítica do espaço exterior e seus impactos sobre a soberania brasileiraAndré Gustavo Ritter A guerra da Ucrânia e seus impactos na defesa do BálticoAnnija Kārkliniece Vol. 4, nº 10, Janeiro/Junho - 2025 PDF edição completa Artigos: Transparência, Eficácia e Confiança - O legado da Operação Taquari IIFrederico Chaves Salóes do Amor Análise comparativa do ciclo de vida de sistemas de materiais de emprego militar: curva da banheira versus desempenho por performanceJonathas da Costa Jardim O “Coup d’Oeil” do século XXI: contribuição da simulação de combate no processo de tomada de decisãoFernando Jones Machado Corrêa Júnior Considerações sobre o orçamento de defesa no BrasilAlexandre Ataíde De Lima A soberania e suas implicações no contexto modernoThiago Britto de Albuquerque Comparação do processo de planejamento da força conjunta de operações especiais: Brasil x OtanJosias Marcos de Resende Silva Defesa como vetor de desenvolvimento científico-tecnológico nacional: uma análise focada nas características do mercado de defesaJuraci Ferreira Galdino Por que desenvolver tecnologias sensíveis habilitadoras de capacidades militares é importante para países em desenvolvimento?Juraci Ferreira Galdino Vol. 3, nº 09, Setembro/Dezembro - 2024 PDF edição completa Artigos: O conflito russo-ucraniano sob a ótica da Teoria dos BlocosJuliano Dill de Almeida Cardoso Tanques na península coreana: uma avaliação das plataformas K2 e M2020André Luiz Viana Cruz de CarvalhoJoão Paulo Ribeiro Nogueira O esforço da Organização das Nações Unidas para restabelecer a paz e a segurança internacional durante o primeiro ano da Guerra Rússia-UcrâniaRafael Soares Pinheiro da CunhaAnselmo de Oliveira Rodrigues Estratégia A2AD x Estratégia baseada em operações multidomínioJosias Marcos de Resende Silva O Atlântico Sul e os desafios do Brasil para se projetar em seu entorno estratégicoLeonardo RodriguesDiogo Figueredo Nascimento Exercício Guardião Cibernético como estratégia de expansão da liderança regional brasileiraMaxli Barroso Campos A participação do Brasil e Angola na segurança e defesa do Golfo de GuinéGuilherme Aun de Barros Brasil de PaulaTiago Abrão Vilinga Inteligência artificial e defesa: uma análise teórica sobre a transformação do poder militarEduardo Xavier Ferreira Glaser Migon Vol. 3, nº 08, Maio/Agosto - 2024 PDF edição completa Artigos: A utilização de SARP no conflito Nagorno-KarabakhAdhemar Moreira de Souza Neto A geopolítica do Sahel e a resposta europeia à crise terrorista no MaliNicole Ribeiro NevesPollyanna Gonçalves Correia de Moraes Os conflitos contemporâneos e seus desdobramentos na política externa e de defesa da União EuropeiaMárcio Reis do ValeEveraldo Bastos Furtado Lawfare, a comunicação estratégica e os conflitos modernosIgor Pie de Souza Pinguelli A tecnologia e a aviação do Exército BrasileiroRodrigo Skolaude DiniBrawllwe José Carvalho da Silva O combate ao narcotráfico nas águas jurisdicionais brasileiras: perspectivas e desafios para a segurança marítimaÉrico Sant’Anna Vilela A importância do treinamento da mobilização de recursos humanosEros de Moura Gaspar Paraguai: parceiro estratégico do Brasil em segurança e defesaJéferson Flores Retori Vol. 3, nº 07, Janeiro/Abril - 2024 PDF edição completa Artigos: A utilização de mercenários em conflitos armadosPedro Martinez Os campos minados e a guerra russo-ucranianaTomás Martins Pereira Bastos A batalha de Hostomel e as lições aprendidasRicardo de Amorim Araújo PereiraFelipe Frydrych A Índia e os seus limites terrestres internacionaisFabiano Luiz de Oliveira A importância dos cenários prospectivos para o BrasilAirton José de Oliveira Soares As mídias sociais digitais como instrumento de comunicação social do Exército BrasileiroAlexandre Augusto José RossaBernardo Hoffmann Schmidt Transmissão de dados no ambiente operacional da amazônia brasileira: cenário atualWalace Paysan GomesRenan Alves dos Santos A logística do Exército Brasileiro na Região Amazônica: estrutura e desafiosMárcio Alves Louzada Vol. 2, nº 06, Setembro/Dezembro - 2023 PDF edição completa Artigos: O poder dos atores não estatais no Oriente MédioAnselmo de Oliveira Rodrigues O conflito Israel x HamasFlávio Roberto Bezerra Morgado O poder aeroespacial no conflito Israel e HamasCarlos Eduardo Valle Rosa Desinformação: o conflito Israel-HamasJoão Batista de Aguiar Filho Os desafios da função logística transporte na Amazônia OrientalAntônio Augusto Alves Ceschin O paradoxo do uso dual da tecnologia: o caso da Starlink em conflitos recentes e nas atividades ilícitas na Amazônia Legal brasileiraMarcus Vinicius Gonçalves da Silva O entorno estratégico brasileiro e a estratégia antiacesso e negação de área (A2/AD)Rodrigo Monteiro de Moraes Braz O sistema de comunicações militares por satélite do Brasil: breves consideraçõesMárcio Alves Louzada Vol. 2, nº 05, Maio/Agosto - 2023 PDF edição completa Artigos: Conflito russo-ucraniano: uma guerra em solo europeuEsley Rodrigues de Jesus Teixeira O novo raiar do Sol? A evolução na política de defesa do Japão e as transformações geopolíticas do Leste AsiáticoAlana Camoça Gonçalves de Oliveira A complexa geopolítica entre Índia, Paquistão e ChinaJonathas da Costa JardimRobson Pinheiro Dantas Geopolitical reasoning na política externa dos Estados Unidos da América - da guerra ao terror à contenção da ChinaMario Augusto Santos A Ajuda vem do alto: o Lançamento Aéreo de Suprimento em Apoio a População YanomamiRodrigo Tavares Ferreira Amazônia: o contrato social do estado brasileiroAnselmo de Oliveira Rodrigues A 17ª brigada de infantaria de selva e a operação verde brasil - oportunidade para o combate aos delitos transfronteiriçosDaniel Simões da Silva Crime organizado, ouro e migrações: aspectos da dinâmica de fronteira no escudo das GuianasLucas Barreto RodriguesEveraldo Bastos Furtado Vol. 2, nº 04, Janeiro/Abril - 2023 PDF edição completa Artigos: A Europa e os desafios decorrentes da mobilidade humana forçada no século XXIJoão Carlos de Almeida LimaFelipe Vieira MonroeChristian Alberto Becker Scarduelli Crise Rússia e Ucrânia e os impactos na saúdeThiago Britto de AlbuquerquePaulo César dos Santos Faria Considerações sobre a atual DQBRN do Exército RussoRoney Magno de SousaDanielle Morais Bourguignon Sparta A equipe móvel de treinamento em operações na selva (JWMTT) na MONUSCO: resultados e contribuições para o Exército BrasileiroHugo David AraújoLuís Fernando Tavares FerreiraRafael Henrique Rodrigues de Souza Por que o aumento das mulheres nas FFAA brasileiras é importante para a paz mundialMarco André Menezes dos SantosWilmarie Gloria Marchany A Função Logística Manutenção e a Operacionalidade da Força TerrestreMário Victor Vargas JúniorVictor Artur BaldiseraMauro Lucio Nunes dos Santos O Exército Brasileiro e a Sustentabilidade do Meio AmbienteLuciano Hickert O preparo e o emprego do vetor militar nos desastres naturais: breves consideraçõesIon de Castro Lima FernandesMário Augusto de Moraes Silva Vol. 1, nº 03, Setembro/Dezembro - 2022 PDF edição completa Artigos: Incertezas geopolíticas em 2022 e a Teoria de Pierre LelloucheBruno Lion Gomes Heck A previsibilidade de agressão nos conflitos armados: uma análise da guerra russo-ucranianaThiago Britto de AlbuquerqueLeandro Leite de Almeida A Geopolítica da Turquia de Erdoğan: entre o Ocidente e o OrienteLohanna Rodrigues Reis Da Tática a Prática: a Teoria do Poder Aéreo na Segunda Guerra MundialRodrigo Tavares Ferreira A importância estratégica dos Tiros de GuerraMarco André Menezes dos SantosMaykon Dutra Barbosa Direito Internacional dos Conflitos Armados: a (in)aplicabilidade nas Operações de Garantia da Lei e da OrdemLeandro Tafúri MattosoLeandro Leite de AlmeidaMoabe da Costa Luna As forças cibernéticas e o conceito operativo do ExércitoAugusto Espina Pazos Pensar Defesa para além da política: o papel da Economia de Defesa na consolidação da Base Industrial de DefesaAmanda Neves Leal Marini Vol. 1, nº 02, Maio/Agosto - 2022 PDF edição completa Artigos: As Big Techs e o Conflito Rússia vs Ucrânia: o Domínio InfomacionalMarlos de Mendonça Corrêa Três Cenários para um Mundo por virOscar Medeiros Filho Geopolítica e Guerra na Ucrânia: algumas consideaçõesHélio Caetano Farias Uma Nova Guerra Fria?Rômulo da Fonseca Botelho AtellaFábio Renan Azevedo de SouzaRoger Dias da Silva A Doutrina Militar Terrestre no apoio às catástrofes naturaisFlávio Roberto Bezerra Morgado O papel da República Democrática do Congo na geopolítica do BrasilDélcio de Deus Gulart A Atividade de Inteligência Nacional e o Amparo ConstitucionalWilliam Pereira Laport Logísticade Defesa e Capacidade Expedicionária da Marinha do BrasilEsley Rodrigues de Jesus Teixeira Vol. 1, nº 01, Janeiro/Abril - 2022 PDF edição completa Artigos: Análise de situação - crise na UcrâniaSandro Teixeira Moita A decisiva importância da Bielorúusia na crise da UcrâniaHermes Menna Barreto Laranja Gonçalves Ciberofensas e a crise da UcrâniaMarcelo Antônio Osller Malagutti As relações entre o Brasil e a Índia: muito além da AztrazenecaJonathas da Costa Jardim Preparação do contingente para a Operação AcolhidaAndré Vicente Scafutto de Menezes Sobre a relação entre organizações criminosas narcotraficantes e o garimpo no Estado de RoraimaLucas Barreto Rodrigues A importância do Atlântico Sul como entorno estratégicoAlexandre da Fonseca Nepomuceno de SouzaMarcus Vinícius Cardoso Monteiro O Programa Partners Across the Globe e as relações OTAN-Colômbia: possibilidades para o Estado brasileiroRodrigo Bezerra de Azevedo Normas para publicação (download) Expediente Conselho Editorial-General de Brigada Mario Eduardo Moura Sassone Comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército-Coronel QEMA Alexandre Santana Moreira Chefe do Instituto Meira Mattos Equipe Editorial -Coronel QEMA Luiz Vinícius de Miranda Reis Coordenador do Observatório Militar da Praia Vermelha -Coronel Veterano QEMA Alexandre Mega Alves Analista do Observatório Militar da Praia Vermelha -Coronel Veterano QEMA Rodolfo Tristão Pina Analista do Observatório Militar da Praia Vermelha Revisores de Linguagem -Coronel Veterano QEMA Alexandre Mega Alves Analista do Observatório Militar da Praia Vermelha -Coronel Veterano QEMA Rodolfo Tristão Pina Analista do Observatório Militar da Praia Vermelha Diagramação e Design Gráfico da capa -Nadhine Hentzy Stellet da Silva Responsável pela diagramação -Gabriel dos Santos Andrade de Oliveira Responsável pelo design gráfico da capa Periodicidade da publicação Semestral Idiomas aceitos nos artigos Português, Inglês e Espanhol Instituição responsável pela diagramação ECEME Instituição responsável pela publicação ECEME Endereço e Contato ECEME / IMM / OMPV ECEME - Escola de Comando e Estado-Maior do Exército / IMM - Instituto Meira Mattos / OMPV – Observatório Militar da Praia VermelhaPraça General Tibúrcio, 125, Praia Vermelha, CEP: 22290-270, Rio de Janeiro/RJ, Brasil.Tel: (21) 3873-3868 /Fax: (21) 2275-5895Site: www.ompv.eceme.eb.mil.br













