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Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU
Milena Fonseca Santos de Oliveira1º Tenente do Exército, Mestre em Estudos de Linguagem pelo Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense comespecialização em estudos de tradução em língua francesa. 1 Introdução As missões de paz das Nações Unidas constituem um dos principais instrumentos internacionais voltados para a estabilização de regiões afetadas por conflitos armados, crises humanitárias e fragilidade institucional. Entre os diversos mandatos atribuídos a estas operações, destaca-se a Proteção de Civis (Protection of Civilians – PoC), considerada atualmente uma das dimensões mais complexas e essenciais da atuação da ONU. Em cenários marcados por violência intercomunitária, deslocamentos forçados, presença de grupos armados e violações sistemáticas de direitos humanos, proteger civis exige muito mais do que presença militar ou policiamento; exige coordenação eficiente, legitimidade institucional e comunicação eficaz. Neste contexto, a língua assume um papel estratégico. A comunicação é parte central do êxito operacional em missões de paz, pois condiciona o acesso às informações sensíveis, ao entendimento das necessidades locais e à construção de confiança entre os capacetes azuis e as comunidades. Em várias missões contemporâneas, especialmente em países africanos, o francês é a língua oficial ou uma língua de administração pública e comunicação regional. Desta forma, o domínio do francês pode representar um fator decisivo para o sucesso de ações de proteção e para a redução de riscos no terreno. Este artigo analisa o papel do idioma francês como ferramenta operacional para o cumprimento do mandato das missões de paz das Nações Unidas em países francófonos, defendendo que a competência linguística deve ser reconhecida como elemento fundamental do treinamento pré-desdobramento. A língua francesa, neste sentido, ultrapassa sua função comunicativa e passa a ser compreendida como instrumento de segurança humana, mediação cultural e eficácia tática. 2 Desenvolvimento Desde o final do século XX, a ONU passou a integrar a proteção de civis como prioridade explícita de várias operações de paz. Conflitos internos, guerras civis e crises prolongadas evidenciaram que a população civil se tornou alvo direto de violência, seja por ataques deliberados, seja por consequências indiretas do colapso institucional. Assim, a PoC tornou-se um conceito multidimensional, articulando dimensões militares, policiais e civis. Neste sentido, para que os capacetes azuis possam executar de forma adequada esta tarefa por intermédio de ações como patrulhas preventivas, presença dissuasória em zonas de risco, escolta de comboios humanitários, apoio à reconstrução do Estado, monitoramento de direitos humanos, mediação de conflitos e planejamento logístico e administrativo, a comunicação em francês torna-se fundamental para garantir a interoperabilidade entre contingentes multinacionais que compõem as missões de paz da ONU. Em muitas operações, o francês funciona como língua de trabalho ao lado do inglês, sendo utilizado em briefings, reuniões de coordenação, treinamentos conjuntos e interação com organizações internacionais e ONG’s presentes no terreno. Dessa forma, militares que dominam o francês conseguem integrar-se mais rapidamente às equipes, compreender ordens operacionais com maior clareza e atuar com mais autonomia em patrulhas e atividades de ligação com a comunidade local, como nos mostra o relato a seguir: “Durante a missão, mantive contato com a população civil local e com o componente civil da ONU, com o apoio pontual de intérpretes para dialetos locais. As interações com a população ocorreram predominantemente em francês, com uso inicial de cumprimentos em sango para favorecer a aproximação, tendo como finalidade a coleta de informações sobre segurança, condições humanitárias e circulação de grupos armados, sendo, em áreas mais remotas, frequentemente restritas aos líderes locais. Já com o componente civil, composto por profissionais de diversas nacionalidades, incluindo nacionais da República Centro-Africana, a comunicação ocorreu em francês e, em menor escala, em inglês, com finalidades que abrangeram desde apoio administrativo e logístico até ações de desarmamento e temas relacionados à proteção de mulheres e crianças. Esse contato foi essencial para o fortalecimento da confiança mútua e para a efetividade das ações desenvolvidas.” Maj (EB) RENATA SIMÕES, Observadora Militar, MINUSCA. 2.1 A comunicação em língua francesa como estratégia de cooperação e confiança em contextos de missão de paz da ONU Grande parte das missões recentes ou historicamente relevantes da ONU ocorreu em territórios francófonos, como a República Democrática do Congo (MONUSCO), o Mali (MINUSMA), a República Centro-Africana (MINUSCA), a Costa do Marfim (UNOCI) e o Haiti (MINUSTAH), onde o idioma francês possui forte presença institucional. Além disso, mesmo em regiões multilíngues, frequentemente atua como língua de administração estatal e de comunicação formal. Neste cenário, o francês é utilizado em reuniões com autoridade locais, coordenação com ONG’s, interação com líderes comunitários e a elaboração de documentos operacionais. A língua torna-se também um meio de acesso às informações públicas, relatórios administrativos e orientações governamentais, conforme referenciado no relato a seguir: “Como oficial de ligação estratégica da MONUSCO, represento o Comandante da Força da missão na capital da República Democrática do Congo (RDC), atuando como elo estratégico da Força de Paz com a liderança da MONUSCO, Forças Armadas da RDC, Adidos Militares, atores diplomáticos, autoridades locais e sociedade civil. Nesse contexto, mantenho contato diário com civis, utilizando os idiomas inglês e francês como meios de comunicação. Esse contato ocorre de forma contínua e abrange diferentes níveis de interação, desde conversas informais do dia a dia, passando por reuniões de agenda e coordenação, até reuniões de alto nível com a liderança da missão e demais autoridades.” Cel (EB) MARCELO REZENDE, Oficial de Ligação Estratégica da Força de Paz da MONUSCO. “Na missão em Beni, na República Democrática do Congo, comunico-me diariamente em francês com os funcionários da base das Nações Unidas e do escritório onde desempenho minhas atividades. Os colaboradores locais utilizam, de forma recorrente, tanto o francês quanto o inglês em suas interações profissionais. Ao chegar à missão, foi necessário passar por diversas seções administrativas para a emissão de documentos pessoais, como a identificação da ONU e a carteira de motorista. Em diversas ocasiões, observei que o uso do francês no primeiro contato contribuiu para uma recepção mais cordial e facilitou o andamento dos procedimentos.” 1º Sgt (EB) DEUSDETH, Instrutor da JWMTT 7, MONUSCO. Assim, podemos verificar que o francês representa um recurso estratégico para diversas ações, sejam elas de cunho pessoal, administrativo ou profissional, de forma relevante e funcional. Missões eficazes dependem de sistemas de alerta precoce, coleta de informações e interpretação de sinais de risco. Estes elementos são profundamente linguísticos. A população civil frequentemente busca as forças de paz para relatar ameaças, denunciar abusos ou solicitar intervenção. Se os militares ou policiais não compreendem o idioma utilizado, há risco de subestimar a gravidade da denúncia ou de não identificar detalhes essenciais, como a localização, o número de agressores ou o tempo estimado do ataque. Portanto, a competência em língua francesa facilita a escuta ativa e o acolhimento de relatos com maior fidelidade. Além disso, permite que os capacetes azuis formulem perguntas com clareza e precisão, evitando ambiguidades que podem gerar falhas de interpretação. Em muitas situações, um simples erro de compreensão pode significar uma patrulha enviada ao local errado ou uma evacuação mal coordenada. Desse modo, o francês pode ser compreendido como instrumento de prevenção e de antecipação, pois amplia a capacidade de resposta antes que a violência se concretize. Quando os capacetes azuis não dominam a língua francesa, tornam-se dependentes de intérpretes ou de intermediários locais, o que pode gerar distorções, atrasos e perda de precisão. Em situações de crise, como ataques iminentes ou evacuações emergenciais, a dependência linguística pode comprometer vidas humanas. 2.2 O enfoque da comunicação em língua francesa para as missões de paz da ONU A comunicação é um elemento essencial em missões de paz da ONU, pois garante a coordenação entre as equipes multinacionais, as autoridades locais e a população civil, contribuindo diretamente para a segurança e a eficácia das operações. Por meio de uma comunicação clara, objetiva e culturalmente adequada, é possível evitar ambiguidades, facilitar negociações e fortalecer a confiança entre os capacetes azuis e as comunidades atendidas. Por isso, comunicar-se bem não significa apenas transmitir informações, mas também construir diálogo, cooperação e legitimidade no cumprimento do mandato da missão. Desse modo, a comunicação em língua francesa nas missões de paz das Nações Unidas deve ser compreendida como um enfoque estratégico e operacional, pois ela ultrapassa a simples função de transmitir mensagens e se torna um instrumento essencial de mediação, confiança e cooperação com as populações locais. Em contextos africanos francófonos, o domínio do francês permite aos militares e agentes de paz estabelecer diálogo direto com os civis, autoridades administrativas, líderes comunitários e organizações humanitárias, reduzindo ruídos culturais e prevenindo mal-entendidos que podem gerar tensões. Além disso, a capacidade de comunicar-se em francês facilita a coleta de informações, a negociação de acordos locais, a condução de patrulhas e a execução de ações de proteção de civis, reforçando a legitimidade e a credibilidade da força internacional. Assim, o enfoque da comunicação em língua francesa contribui para a eficácia das operações, fortalecendo a diplomacia preventiva e a construção de relações pacíficas em ambientes marcados por instabilidade. As missões da ONU atuam em articulação com múltiplos atores: agências humanitárias, organizações não governamentais, autoridades locais, forças de segurança nacionais, grupos comunitários, serviços administrativos, tal como o relato abaixo: “A comunicação com os locais no ambiente de missão de paz, ocorreu principalmente na utilização dos serviços locais na vida quotidiana, como celebrar contratos de alugueis, empresas de segurança privada, serviços de água e luz, cozinha e etc; como exemplo posso citar as tratativas para organizar o serviço de vigilância privado na nossa moradia, do qual tomei parte. O contato sempre foi realizado em francês. Seja por telefone ou pessoalmente e tinha o escopo de ajustar os problemas do dia a dia: atraso de funcionários, erros nos pagamentos, dispensas do serviço, a fim de garantir a correta execução dos serviços contratados." Cap (FAB) GERMANO, Instrutor da JWMTT 6, MONUSCO. Neste sentido, a língua francesa favorece a padronização de procedimentos, melhora a troca de informações e aumenta a eficiência no comando e controle das operações. Também observamos que o enfoque comunicacional em francês é essencial para a construção de confiança e para a cooperação entre instituições. Essa troca permite identificar ameaças, planejar ações preventivas e responder com agilidade às crises emergenciais, caracterizando assim a comunicação como recurso estratégico para garantir não apenas o cumprimento das tarefas operacionais, mas também a proteção de civis e a manutenção da estabilidade nas áreas sob responsabilidade da ONU. 2.3 Ensino de francês no pré-desdobramento: uma necessidade operacional O cotidiano operacional das missões de paz envolve inúmeras situações em que a comunicação clara é vital. Em patrulhas preventivas, por exemplo, os capacetes azuis precisam orientar civis sobre rotas seguras, explicar medidas de segurança e coletar informações sobre movimentações suspeitas. Em checkpoints, a linguagem adequada evita tensões e contribui para o controle não violento. Durante evacuações emergenciais, a clareza linguística é ainda mais crítica. É necessário dar instruções rápidas e diretas, evitar pânico coletivo e assegurar que as pessoas compreendam para onde devem ir. A incapacidade de se comunicar pode gerar confusão e colocar civis em maior perigo. O francês, nesse sentido, constitui uma ferramenta operacional indispensável, pois permite que o capacete azul atue com mais autonomia e eficácia, facilitando a mediação constante. Assim, a língua funciona como recurso de proteção direta, influenciando a segurança imediata das populações. “Durante minha participação na MINURSO, a comunicação com civis variou conforme a área de atuação. Na região controlada pela Frente Polisário, a comunicação ocorria principalmente em espanhol. Como não possuo fluência no idioma, utilizava “portunhol”. Nos casos em que o interlocutor falava apenas árabe, recorria a gestos e desenhos na areia. O contato com civis era, em geral, limitado àqueles que prestavam apoio à manutenção do Team Site. Na área controlada por Marrocos, atuei no Quartel-General em Laayoune, onde a comunicação com civis da ONU era realizada em inglês, com interação frequente. No cotidiano, fora do ambiente de trabalho, utilizei o francês para comunicação com a população local, o que se mostrou suficiente para as necessidades básicas.” CF (MB) DANILO, Observador Militar, MINURSO. A proteção de civis exige também atenção específica aos grupos vulneráveis, como mulheres, crianças e deslocados internos. Muitas vezes, essas populações têm medo de denunciar abusos ou não confiam em autoridades armadas. A linguagem utilizada no contato com essas vítimas precisa ser acolhedora, respeitosa e culturalmente apropriada. O domínio do francês permite que os capacetes azuis adotem um discurso mais adequado e menos intimidante, criando um ambiente propício para denúncias. Além disso, facilita o acompanhamento de casos de violência sexual, exploração e abusos, temas recorrentes em cenários de conflito. Quando a comunicação é falha, vítimas podem permanecer em silêncio, perpetuando ciclos de violência. Sendo assim, considerando os elementos apresentados, torna-se evidente que o ensino de francês deve ser integrado de forma estratégica aos treinamentos de pré-desdobramento. O ensino tradicional, centrado em gramática normativa e conteúdos abstratos, não atende plenamente às necessidades de missões de paz. É necessário um francês orientado às tarefas operacionais e cenários reais. O chamado francês para objetivos específicos (FOS) pode oferecer ferramentas concretas para atuação no terreno. O treinamento linguístico deve priorizar vocabulário funcional e competências comunicativas ligadas às patrulhas, às entrevistas, à mediação comunitária, à assistência humanitária e à redação de relatórios simples. Além disso, metodologias baseadas em simulações, jogos de papéis e situações-problema podem contribuir para desenvolver não apenas competência linguística, mas também intercultural e pragmática. Ensinar o aluno a dizer algo não basta, é preciso ensiná-lo a dizer de forma adequada, respeitando hierarquias culturais, níveis de formalidade e códigos sociais locais. 3 Conclusão O conceito de segurança humana amplia a noção tradicional de segurança, incluindo dimensões como dignidade, bem-estar e proteção contra violência estrutural. Dentro dessa perspectiva, a língua desempenha um papel central, pois permite que indivíduos tenham acesso à informação, expressem necessidades e participem de processos de decisão. O francês em missões de paz não é apenas uma ferramenta linguística, é um meio de inclusão e de reconhecimento do outro. Ao falar a língua local ou institucional, o capacete azul demonstra disposição para compreender e respeitar a população. Isso fortalece a legitimidade da missão e reduz a percepção de ocupação estrangeira. Além disso, o domínio do francês pode ser interpretado como ferramenta de diplomacia operacional. A comunicação eficaz com autoridades e líderes comunitários facilita negociações, mediações e acordos locais, funcionando, assim, como um recurso de pacificação, essencial para a estabilização e proteção. A proteção de civis em missões de paz da ONU é um desafio multifacetado, que exige capacidades militares, policiais, humanitárias e diplomáticas, tendo o domínio da língua francesa como ferramenta operacional e estratégica. Ela influencia diretamente a capacidade de prevenir violência, de coletar informações, de coordenar ações humanitárias e de construir legitimidade junto às comunidades locais. Com isso, a língua francesa permite que os capacetes azuis respondam com maior rapidez a alertas e denúncias, transmitam instruções claras em situações críticas e atuem de forma mais eficaz na proteção de grupos vulneráveis. Ademais, fortalece a articulação interinstitucional e contribui para uma relação mais humanizada entre missão e população civil. Portanto, é necessário reconhecer que o ensino do idioma francês no pré-desdobramento não deve ser tratado como mera competência técnica, mas como componente fundamental da preparação operacional. Investir em programas linguísticos orientados às tarefas reais e adaptados às exigências do terreno é uma medida estratégica para aumentar a eficácia das missões e cumprir o compromisso internacional de proteção de civis. Dessa forma, a língua francesa pode ser compreendida como um instrumento de segurança humana, capaz de salvar vidas, não apenas pela comunicação, mas pelo fortalecimento da confiança, da cooperação e da capacidade de resposta. Em um mundo em que os conflitos se tornam cada vez mais complexos, a dimensão linguística emerge como fator decisivo na construção da paz e da garantia de dignidade às populações afetadas pela guerra. Como disse o ex-Comandante da MONUSCO, General Carlos Alberto dos Santos Cruz: “A comunicação é tão importante quanto a estratégia. Sem entender, não se comanda.” Rio de Janeiro - RJ, 09 de julho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/missao-de-paz/artigos/lingua-confianca-e-cooperacao-o-idioma-frances-na-comunicacao-em-missoes-de-paz-entre-os-capacetes-azuis-civis-e-colaboradores-da-onu.
Entre a interdependência global e a reconfiguração estratégica: rumos para a Base Industrial de Defesa Brasileira em tempos de incerteza
Guilherme R. Garcia MarquesDoutor pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Professor da Fundação Getúlio Vargas. Introdução O mundo entrou definitivamente em uma fase em que a geopolítica voltou a exercer papel preponderante nos rumos da economia global. Um mundo no qual governos e empresas reavaliam decisões tomadas com base em critérios de custo e eficiência e passam a incorporar, com o mesmo parâmetro de importância, elementos de resiliência e segurança econômica. Feito esse diagnóstico, é necessário reconhecer que, o que estamos presenciando, não é um desmantelamento do comércio internacional, mas uma reconfiguração estratégica das cadeias globais de valor. Se, por um lado, essa reconfiguração adquire contornos absolutamente sensíveis para o setor de defesa e segurança, por outro, cabe reconhecer que esse setor não se encontra apartado do restante da economia. Nesse sentido, o processo de reconfiguração estratégica em curso se articula com uma dinâmica global prévia e de difícil reversão, caracterizada pela crescente integração e interdependência produtiva e tecnológica, baseada na lógica de que a autossuficiência completa não só é cara e improdutiva, mas, frequentemente, impraticável. Reconhecendo que a evolução dessa interdependência global – sobretudo a partir do pós-Guerra Fria – e a atual reconfiguração estratégica em curso são forças confluentes, que desembocam em um cenário de complexos desafios, mas também de raras oportunidades, o presente artigo propõe um conjunto de diretrizes para ajudar o Brasil a se orientar nessa nova conjuntura, assumindo como foco prioritário o desenvolvimento de sua Base Industrial de Defesa. Da consolidação da interdependência global no setor de defesa As transformações geopolíticas e econômicas associadas ao fim da Guerra Fria representaram um profundo choque sobre as Bases Industriais de Defesa, com a dissipação da percepção mais iminente de ameaças, redefinindo simultaneamente o ambiente estratégico, as capacidades nacionais de investimento e a própria organização produtiva do setor (NEUMAN, 2006). Diante do flagrante declínio observado nos orçamentos militares – com recuo médio global de 3,6% ao ano entre 1990 e 1998 – e nos níveis de comércio internacional de armas, todo o fluxo de investimentos e encomendas que sustentava um próspero ciclo de desenvolvimento, produção e difusão tecnológica em torno do complexo industrial-científico-militar foi desestabilizado. A consequência foi um amplo processo de reestruturação empresarial que repercutiu diretamente sobre os níveis de concentração econômica desse setor em escala global (SILVA FILHO; MORAES, 2012). Assim, das 100 maiores empresas americanas de defesa atuantes em 1990, 24 abandonaram o mercado até 1998 (PRICEWATERHOUSECOOPERS, 2005), com o número de integradores de aeronaves de caças e de bombardeio caindo de sete para dois, o de fabricantes de mísseis caindo de quatorze para quatro e o de fabricantes de veículos de lançamento espacial caindo de seis para dois, enquanto apenas um desenvolvedor especializado de mísseis ar-ar permaneceu ativo. Consolidação semelhante aconteceu também em países da Europa. A este cenário, somam-se os impactos do acelerado progresso tecnológico observado na indústria civil, abrindo caminho para o que Dagnino (2008, p. 52) denominou como uma “nova configuração de interfaces tecnológico-produtiva e militar-civil”. As Bases Industriais de Defesa passavam a transitar, portanto, de um arranjo relativamente fechado – sustentado por compras nacionais previsíveis e por uma base tecnológica predominantemente militar – para um sistema mais flexível, integrado e dinâmico, “com as atividades de P&D militar beneficiando-se diretamente da adaptação e incorporação de tecnologias civis, em vista de sua expressiva capacidade de inovação, reduzido ciclo de produtos e maior acessibilidade” (MARQUES, 2024, p. 88). Dentre os principais precursores dessa nova configuração produtiva, destaca-se Jacques Gansler, subsecretário de Defesa para Aquisição, Tecnologia e Logística dos Estados Unidos de 1997 a 2001. Engenheiro com sólida carreira acadêmica na área de políticas públicas de defesa, Gansler denunciava as dificuldades por parte da Base Industrial de Defesa americana em alcançar um “comportamento economicamente eficiente e estrategicamente responsivo” (GANSLER, 1978, p. 4) – crítica que encontra respaldo na expressão “arsenal barroco”, cunhada por Kaldor (1982) para se referir aos complexos processos de desenvolvimento de sistemas de armas que, na tentativa de justificar custos crescentes, apresentavam funcionalidades e características pouco efetivas ou até mesmo contraproducentes. Gansler (1995) advoga, então, a necessidade de a Base Industrial de Defesa americana converter-se em uma operação civil-militar integrada e próspera. Para isso, tornava-se necessário ao governo: i) flexibilizar seu processo de aquisição, reduzindo barreiras regulatórias e especificações técnicas que afastavam fornecedores civis e tecnologias comerciais equivalentes ou superiores; e ii) alterar propostas de contratos baseados em custo pelos orientados por preço, incentivando ganhos de eficiência e maior competição. Com isso, haveria melhores incentivos para as empresas desenvolverem, fabricarem e incorporarem tecnologias duais, gerando fontes de receita para si, ganhos de economia para o governo e oportunidades de acesso a tecnologias de ponta pelas Forças Armadas. Outro traço dessa reestruturação produtiva se deu a partir da consolidação de uma política de capacidade habilitada em rede, visando transformar “seletiva e incrementalmente as capacidades de seus militares nas áreas com maior probabilidade de melhorar sua eficácia [...] em um contexto de guerra de coalizão” (NEUMAN, 2006, p. 438, tradução nossa). Com isso, uma “comunidade de segurança internacional mais colaborativa parecia finalmente estar surgindo para responder ao que eram, em grande parte, surtos de guerra regionais” (PRICEWATERHOUSECOOPERS, 2005, p. 2, tradução nossa), favorecendo o estabelecimento de acordos de cooperação em torno de alianças estratégicas como forma de mitigar riscos inerentes aos complexos programas de desenvolvimento e aquisições militares. Consequentemente, medidas de relaxamento das barreiras de entrada ao investimento estrangeiro e a promoção de redes transnacionais de relações intrafirmas, baseadas em parcerias de coprodução, desenvolvimento e subcontratação, passaram a ganhar cada vez mais força, resultando em uma maior fragmentação produtiva dentro da lógica de cadeias globais de valor (MARQUES, 2024). A própria Base Industrial de Defesa americana não escapou desse fenômeno, tornando-se “cada vez mais dependente de fontes internacionais para seu desenvolvimento, produção e provisão” (GANSLER; LUCYSHYN; RIGILANO 2013, p. ix, tradução nossa), em benefício dos ganhos de: i) economia de escala, eficiência e capacidade produtiva, pela via da redução de custos fixos na aquisição de insumos, tecnologias e serviços com melhor custo-benefício; e ii) interoperabilidade, uma vez que a conformação de operações militares associadas às coalizões internacionais levava os países aliados a projetarem seus sistemas de armas para a atuação conjunta, mirando ganhos complementares de vantagem estratégica. Assim, “[...] a autarquia autossuficiente – ou seja, a não dependência de fontes externas – pode parecer uma política desejável; no entanto, dado o ambiente atual – isto é, as realidades orçamentárias domésticas e o ritmo da inovação tecnológica estrangeira – as políticas protecionistas não são apenas inacessíveis, mas levariam rapidamente a uma redução na superioridade militar dos Estados Unidos. Na verdade, hoje, todo sistema de armas dos Estados Unidos contém peças estrangeiras – porque são melhores, não porque são mais baratas [..]” Para que o Departamento de Defesa americano molde e tome vantagem das tecnologias do amanhã, ele deve abraçar a globalização da indústria, confiando nas melhores tecnologias disponíveis, permitindo o acesso estrangeiro a certas tecnologias americanas e construindo parcerias dentro da comunidade global de C&T. [...] Negar sua realidade, ou insistir que os Estados Unidos poderiam facilmente adotar uma política protecionista é contraproducente, especialmente à luz dos desafios de segurança, orçamentários e outros emergentes (GANSLER; LUCYSHYN; RIGILANO, 2013, p. vii-x, tradução nossa) Uma iniciativa que ilustra esse esforço de colaboração produtiva é o programa de desenvolvimento do caça F-35, que se converteu em um importante pilar tecnológico, operacional e político da OTAN. Por meio de uma rede de suprimentos integrada e centros de manutenção globais, o programa, liderado pelos Estados Unidos, agrega esforços de países como Reino Unido, Itália, Holanda, Canadá, Dinamarca, Noruega e Austrália, com suas respectivas empresas concorrendo aos trabalhos de fabricação, pesquisa e logística com base em critérios de especialização técnica e ‘melhor valor’ (PRICEWATERHOUSECOOPERS, 2005). Outros exemplos – mais restritos quanto ao número de parceiros envolvidos – incluem, ainda, o consórcio firmado entre França, Alemanha e Espanha, voltado para o desenvolvimento de um ecossistema tecnológico integrado que inclui um caça de sexta geração, drones e nuvem de combate até 2040, e o programa firmado entre Reino Unido, Japão e Itália objetivando o desenvolvimento de um caça de sexta geração até 2035. E, embora não se configurem formalmente como parcerias, o fato de sistemas de armas russos utilizados na Ucrânia terem se mostrado altamente dependentes de semicondutores e circuitos integrados produzidos majoritariamente nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e em Taiwan (RUSI, 2022) – muitos dos quais sujeitos a rigorosos controles de exportação, o que indica uma relativa margem de manobra por parte da Rússia em evadir restrições internacionais, bem como a própria dependência dos Estados Unidos em relação ao fornecimento estrangeiro de minerais críticos, denominados “terras-raras”, evidencia como as cadeias globais de valor se converteram em um condicionante estrutural de difícil reversão para o acesso a insumos fundamentais à ciência e à economia do século XXI. Da reconfiguração estratégica em tempos de incerteza: rumos para a Base Industrial de Defesa brasileira Se a interdependência produtiva no setor de defesa se consolidou como uma resposta racional à conjuntura do pós-Guerra Fria, o atual cenário de instabilidade geopolítica – caracterizado pelo enfraquecimento de estruturas multilaterais, pela intensificação de disputas hegemônicas e pela elevada concentração geográfica de insumos críticos – impõe às nações a necessidade de recalibrar, com urgência, suas inserções produtivas e tecnológicas. Neste novo ambiente de “neoliberalismo militarizado” (WIJAYA; JAYASURIYA, 2024), a lógica da eficiência cede lugar aos critérios complementares de segurança, resiliência logística e governança de dependências críticas. Não se trata, por certo, de uma subversão das cadeias globais de valor, mas de sua reconfiguração sistêmica diante de novas restrições político-estratégicas. Do ponto de vista do Brasil, e em especial de sua Base Industrial de Defesa, esse ambiente de instabilidade redefine simultaneamente os seus desafios de vulnerabilidade externa e suas oportunidades de reposicionamento competitivo, demandando uma estratégia lúcida e pragmática que ajude o país a se orientar nesta nova conjuntura. Assim, sugerem-se como diretrizes para ajudar a consubstanciar esta estratégia: - Aprofundar estrategicamente sua inserção junto às cadeias globais de valor: esta integração desponta como vetor fundamental para os ganhos de produtividade e competitividade internacional de nossa indústria aeronáutica, em sua vertente civil e militar, atingindo níveis de importação de bens intermediários e serviços equivalentes a 60% do total de exportações realizadas pelo setor (OECD, 2022) – convergindo, assim, com robustas evidências identificadas na literatura de comércio internacional acerca dos efeitos indutores proporcionados pelo maior acesso a bens, serviços e tecnologias de melhor qualidade (KRUGMAN, 1995; FERREIRA; ROSSI, 2003; LISBOA; MENEZES; SCHOR, 2010)[1]. Para uma análise econométrica focada nos impactos positivos de uma maior integração junto às cadeias globais de valor sobre as exportações brasileiras de sistemas de armas, ver Marques (2023; 2024); § Reconhecer que o fornecimento local não garante segurança: segundo Hall, Markowski e Wylie (2010, p. 164-166, tradução nossa), produtores locais podem encontrar severas dificuldades em ofertar “produtos de última geração com os quais possuem pouca experiência anterior e que são produzidos apenas em pequenas quantidades”. Paralelamente, em contextos de escalada de conflitos, capacidades industriais locais tornam-se “tão (se não mais) expostas aos danos da batalha quanto as capacidades militares da nação”, de maneira que “não há razão óbvia para supor que as importações são inerentemente menos confiáveis do que a produção local”. - Administrar riscos: em 2021, a Austrália estruturou um Escritório de Resiliência de Cadeias de Valor, visando “monitorar as vulnerabilidades e coordenar as respostas do governo para garantir acesso aos bens essenciais”, e uma Comissão de Produtividade, responsável por “examinar a natureza e a fonte dos riscos para o funcionamento efetivo da economia e o bem-estar [...] associados às interrupções nas cadeias de suprimentos globais” (VEIGA; RIOS, 2022, p. 59-61). Esse monitoramento e avaliação se tornam imprescindíveis para o gerenciamento eficiente de riscos, permitindo apoiar “aqueles que possuem incentivos diretos para mitigá-los, ou seja, geralmente as próprias empresas” (VEIGA; RIOS, 2022, p. 62). Urge ao Brasil avançar no desenvolvimento de capacidades estatais e institucionais congêneres. - Dar importância aos acordos comerciais: o Brasil detém ativos que o posicionam de forma privilegiada em negociações comerciais, como a sua expressiva capacidade de produção de alimentos, a geração de energia limpa e as grandes reservas de terras-raras. Cabe utilizá-los estrategicamente para costurar acordos que aprofundem sua participação nas cadeias globais de valor, sobretudo em setores nos quais o país possui competências consolidadas e vantagens competitivas. Paralelamente, cabe ressaltar que acordos comerciais ganham relevância não somente pelos seus tradicionais benefícios de liberalização tarifária, mas principalmente por seus mecanismos institucionais de cooperação técnica e harmonização regulatória. Isso proporciona ganhos de transparência, segurança jurídica e previsibilidade – o que, por sua vez, fortalece a atratividade de investimentos estrangeiros diretos e a formação de joint ventures, especialmente nos setores onde a cooperação entre empresas locais e estrangeiras reduz riscos, custos e barreiras de entrada; - Aproveitar a Europa como janela de oportunidade: impulsionada pela necessidade de mitigar dependências sensíveis, a União Europeia lançou, em 2025, um plano de € 800 bilhões para reestruturar suas capacidades militares até 2030. Também em 2025, o gasto militar europeu totalizou € 392 bilhões – um crescimento real de 63% desde 2020 e que permitiu que todos os membros da OTAN cumprissem a meta mínima de investimento de 2% do PIB em defesa (EDA, 2025). Esse contexto traz valiosas oportunidades de mercado para a Base Industrial de Defesa brasileira, que dispõe de produtos e competências reconhecidos internacionalmente – com destaque para a aeronave de transporte multimissão KC-390, já encomendada por países como Portugal, Áustria, Hungria, Holanda, República Tcheca e Suécia e o A-29 Super Tucano, que desponta como uma solução eficaz e de baixo custo frente ao uso massivo de drones em conflitos modernos. De modo a melhor aproveitar o potencial dessas oportunidades, o Brasil deve seguir encarando o Tratado de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia como prioridade. - Promover capacidades tecnológicas por meio da competição: o Brasil deve migrar de uma economia baseada em imitação e adaptação de tecnologias importadas para uma baseada em inovação e capacidades de design próprio. Essa mudança exige que as políticas de inovação deixem de focar em subsídios e passem a fomentar demanda real por inovação. A experiência demonstra que a proteção sem contrapartidas de desempenho blinda produtores locais da concorrência externa, desestimulando o P&D empresarial. O sucesso do setor aeronáutico evidencia que a exposição ao mercado global e a coordenação de parcerias internacionais induzem o acúmulo de capacidades essenciais à competitividade. Nesse sentido, instrumentos de fomento devem estar condicionados não à mera proteção setorial, mas ao alcance de metas de competitividade e integração efetiva em novas fronteiras tecnológicas, atestadas por rigorosos mecanismos de monitoramento e avaliação de resultados (QUEIROZ; VONORTAS; CANUTO, 2025). - Reformar as estruturas e o ambiente de negócios: o Brasil precisa avançar imediatamente em reformas estruturais que lhe permitam reequilibrar as contas públicas; reduzir incertezas macroeconômicas; promover maior segurança jurídica; fortalecer seu arcabouço institucional; modernizar seu ambiente de negócios; e desenvolver competências críticas à economia do século XXI. Trata-se de uma agenda tão abrangente quanto complexa, mas que se configura como condição sine qua non para o país atrair e mobilizar investimentos e para as empresas brasileiras ampliarem a sua produtividade e competitividade. - Considerar o peso da geopolítica: em junho de 2025, foi anunciado que a Embraer perdeu a oportunidade de firmar contratos bilionários tanto no setor civil quanto no militar com a Polônia, sendo preterida, na ocasião, pela Airbus. Em comunicado feito após a decisão, a direção da Embraer mencionou que se vivia em um momento excepcional, em que a geopolítica desempenhava um papel importante (KAMMEL; PHILIP, 2025), eclipsando até mesmo critérios como superioridade técnica e economia de custos. Sob a perspectiva da Embraer, a aproximação diplomática entre o Brasil e a Rússia, naquele contexto, teria pesado e influenciado de forma direta a decisão polonesa, comprometendo a sua estratégia de expansão comercial no Leste Europeu. Nesse sentido, é importante que a política externa seja compreendida e calibrada como um vetor de fomento econômico da mais absoluta importância, de modo a não comprometer a imagem do país como um parceiro confiável e previsível. Por fim, a conjuntura atual, marcada pela reconfiguração estratégica das cadeias globais de valor, impõe ao Brasil desafios relevantes, mas também abre uma janela única de oportunidades a serem exploradas. Aproveitá-la dependerá de o país saber combinar pragmatismo com critérios de eficiência e segurança, sem perder de vista a necessidade de aprofundar sua integração junto às cadeias globais de valor, em benefício do desenvolvimento de sua Base Industrial de Defesa. Espera-se que as diretrizes aqui apontadas possam contribuir para esse esforço. Referências bibliográficas DAGNINO, R. A revitalização da indústria de defesa brasileira: uma contribuição ao processo decisório. Carta Internacional, v. 3, n. 2, p. 45-57, 2008. EUROPEAN DEFENCE AGENCY. Defence Data 2024-2025. Bruxelas: EDA, 2025. FERREIRA, P. C.; ROSSI, J. L. New evidence from Brazil on trade liberalization and productivity growth. International Economic Review, v. 44, n. 4, p. 1383-1405, 2003. GANSLER, J. S. The diminishing economic and strategic viability of the U.S. defense industrial base. Washington, D.C.: American University, 1978. GANSLER, J. S. Defense conversion: Transforming the arsenal of democracy. Cambridge, MA: MIT Press, 1995. GANSLER, J. S.; LUCYSHYN, W.; RIGILANO, J. The Impact of Globalization on the U.S. Defense Industrial Base. Washington, D.C.: University of Maryland, School of Public Policy, Center for Public Policy and Private Enterprise, 2013. HALL, P.; MARKOWSKI, S.; WYLIE, R. Government policy: defence procurement and defence industry. In: MARKOWSKI, S.; HALL, P.; WYLIE, R. (ed.). Defence Procurement and Industry Policy: A small country perspective. London: Routledge, 2010. KALDOR, M. The Baroque Arsenal. Londres: Deutsch, 1982. KAMMEL, B.; PHILIP, S. Embraer perde contrato bilionário para Airbus: ‘geopolítica tem papel importante’. Bloomberg Línea, 16 jun. 2025. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com.br/negocios/embraer-perde-contrato-para-a-airbus-geopolitica-desempenha-um-papel-importante/. Acesso em: 29 jan. 2026. KRUGMAN, P. Development, Geography, and Economic Theory. Cambridge, MA: MIT Press, 1995. LISBOA, M. B.; MENEZES FILHO, N. A.; SCHOR, A. The effects of trade liberalization on productivity growth in Brazil: competition or technology?. Revista Brasileira de Economia, v. 64, n. 3, p. 277-289, 2010. MARQUES, G. R. G. Cadeias Globais de Valor e Base Industrial de Defesa: Evidências para uma agenda de produtividade e competitividade. Revista da Escola de Guerra Naval, v. 28, n. 2, p. 436-463, 2023. MARQUES, G. R. G. Desenvolvimento da Base Industrial de Defesa brasileira pela ótica das Cadeias Globais de Valor: insumos para uma agenda de produtividade e competitividade. 2024. 237 f. Tese (Doutorado em Ciências Militares) – Instituto Meira Mattos, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2024. NEUMAN, S. G. Defense Industries and Global Dependency. Orbis, v. 50, n. 3, p. 429-451, 2006. ORGANIZATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. Trade in value added: Brazil. Paris: OECD, 2022. PRICEWATERHOUSECOOPERS. The Defence Industry in the 21st Century. London: PriceWaterhouseCoopers, 2005. QUEIROZ, S.; VONORTAS, N.; CANUTO, O. Global changes and effectiveness of innovation policy in Brazil. The Journal of Technology Transfer, v. 38, n. 5, p. 1-20, 2025. SILVA FILHO, E. B.; MORAES, R. F. Defesa Nacional para o século XXI: Política internacional, estratégia e tecnologia militar. Brasília: Ipea, 2012. VEIGA, P. M.; RIOS, S. P. Integrar para crescer: Uma proposta de liberalização comercial. Rio de Janeiro: CINDES, 2022. WIJAYA, T.; JAYASURIYA, K. Militarised neoliberalism and the reconstruction of the global political economy. New Political Economy, v. 29, n. 4, p. 546-559, 2024. [1] Ver Marques (2023; 2024) para uma análise econométrica focada nos impactos positivos de uma maior integração junto às cadeias globais de valor sobre as exportações brasileiras de sistemas de armas. Rio de Janeiro - RJ, 01 de julho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Entre a interdependência global e a reconfiguração estratégica: rumos para a Base Industrial de Defesa Brasileira em tempos de incerteza. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/entre-a-interdependencia-global-e-a-reconfiguracao-estrategica-rumos-para-a-base-industrial-de-defesa-brasileira-em-tempos-de-incerteza.
Emergência de Saúde Pública de importância Internacional por Ebola em 2026
Carolina Raffagnato Doutoranda do Programa de Pós-Graduação daEscola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Mariana Carpes Professora-doutora do Programa de Pós-Graduação da ECEME. 1. Considerações iniciais e o cenário da crise Em 17 de maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, mais uma vez, Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). Desta vez, a declaração decorre do avanço do surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. O surto atual é causado pelo vírus Bundibugyo que despertou alerta das autoridades de saúde pela elevada mortalidade e pelo potencial de propagação transfronteiriça (OPAS, 2026). Até o dia 08 de junho, o número de casos confirmados no Congo era de 515 doentes e 91 óbitos, enquanto em Uganda somavam 19 casos e 2 óbitos (OMS, 2026). Além disso, dois médicos norte-americanos testaram positivo para a doença, enquanto trabalhavam no combate ao surto na RDC. Os números demonstram risco concreto de disseminação internacional da doença. De acordo com o informe técnico da Organização Pan-Americana da Saúde/OMS, o surto foi inicialmente detectado em 5 de maio de 2026 na zona de saúde de Mongbwalu, província de Ituri, região congolesa historicamente marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e fragilidade institucional (OPAS, 2026). Além da instabilidade local, a resposta ao surto tem sido comprometida pela resistência de parte da população, que exige o acesso aos corpos das vítimas para a realização dos sepultamentos de acordo com os ritos funerários tradicionais (O Globo, 2026). Como a contaminação por ebola se dá pelo contato com fluidos corporais, os corpos das vítimas precisam ser enterrados observando-se os protocolos sanitários de segurança, o que tem gerado revolta e ataques às equipes de sepultamento no Congo (O Globo, 2026). Para além das dificuldades políticas que prejudicam o manejo da crise, a circulação do ebolavírus de Bundibugyo representa ainda uma preocupação adicional devido à inexistência de vacinas ou tratamentos amplamente aprovados para essa variante, cuja letalidade histórica varia entre 30% e 50% (OPAS, 2026). A ESPII foi declarada pelo diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom, tendo sido esta a primeira vez em que um diretor-geral declarou ESPII sem consulta prévia ao Comitê de Emergência, como previsto pelo Regulamento Sanitário Internacional (RSI) (2005). A medida, segundo o Dr. Adhanom, mostrou-se necessária dada a velocidade com que a epidemia avança na RDC e em Uganda e teve como base o artigo 12 do RSI, segundo o qual “o diretor-geral determinará, com base nas informações recebidas, em especial nas enviadas pelo Estado Parte em cujo território está ocorrendo o evento, se o evento constitui uma emergência de saúde pública de importância internacional” (OMS, 2005, p. 23. Ver também artigos 48 e 49). 2. O RSI e a Declaração de ESPII de 2026 O RSI é o principal instrumento regulador internacional voltado à coordenação de respostas globais a ameaças sanitárias. Segundo o regulamento, uma ESPII consiste em “um evento extraordinário” que constitui “um risco para a saúde pública para outros Estados, devido à propagação internacional de uma doença” e que “potencialmente exige uma resposta internacional coordenada” (OMS, 2005, p. 14). A partir dessa definição, compreende-se que a ESPII não se limita a uma classificação epidemiológica, mas representa um mecanismo de governança internacional acionado diante de ameaças sanitárias com potencial de impacto global. A atualização do RSI em 2005 ocorreu em um contexto de crescente preocupação internacional com a rápida disseminação de doenças em um cenário de intensificação dos fluxos globais de pessoas, mercadorias e alimentos. A revisão do Regulamento foi motivada pela percepção de que o aumento do tráfego internacional e das vulnerabilidades globais ampliava significativamente os riscos de propagação de epidemias em escala mundial. O RSI passou a estabelecer uma “cascata de eventos” voltada à notificação, ao monitoramento e à coordenação de respostas internacionais, atribuindo à OMS competência para declarar uma ESPII e mobilizar mecanismos de cooperação internacional. Assim, a declaração de ESPII possui implicações diretas sobre os sistemas nacionais de preparação e resposta, exigindo o fortalecimento de capacidades institucionais, da vigilância epidemiológica e de articulação interagências (Raffagnato, 2022). A atual declaração evidencia justamente a operacionalização prática dos mecanismos previstos no RSI. De acordo com o regulamento, a determinação de uma ESPII baseia-se em um conjunto de critérios estabelecidos em seu Anexo 2, que orienta os Estados e a OMS na avaliação de eventos sanitários. Entre os principais critérios, estão: (i) a gravidade do impacto do evento na saúde pública; (ii) seu caráter incomum ou inesperado; (iii) o risco significativo de propagação internacional; e (iv) o potencial de gerar restrições ao comércio ou às viagens internacionais (OMS, 2005). Esses elementos funcionam como um instrumento decisório que permite identificar eventos que extrapolam a capacidade de resposta nacional e demandam coordenação internacional. O RSI introduz um mecanismo estruturado de avaliação que transforma eventos sanitários regionais em questões de segurança internacional, ao articular a vigilância epidemiológica, a notificação obrigatória e a cooperação entre Estados (Raffagnato, 2022). No caso do atual surto, a declaração de ESPII pode ser compreendida à luz desses critérios. Em primeiro lugar, trata-se de um evento de elevada gravidade, com um número significativo de casos e óbitos em um curto intervalo de tempo, incluindo infecções entre profissionais de saúde (OPAS, 2026). Em segundo lugar, o surto apresenta caráter incomum, tanto pela identificação de uma variante específica do ebolavírus para a qual não há vacinas disponíveis, quanto pela ocorrência simultânea em múltiplas zonas de saúde. Em terceiro lugar, há evidências concretas de risco de propagação internacional, com a confirmação de casos importados em Uganda e a localização do surto em uma região de intensa mobilidade populacional e fronteiras porosas, como o leste da RDC (OPAS, 2026). Por fim, o potencial impacto sobre os fluxos internacionais, ainda que o RSI não recomende restrições indiscriminadas, reforça a necessidade de coordenação global para evitar medidas unilaterais desproporcionais. Além dos aspectos epidemiológicos, o atual cenário evidencia a influência da vulnerabilidade na dinâmica do surto. As províncias de Ituri e Kivu do Norte situam-se na região dos Grandes Lagos africanos, caracterizada por fronteiras porosas, intensa mobilidade populacional e circulação informal entre países vizinhos, elementos que dificultam a vigilância epidemiológica e favorecem a propagação regional da doença (UNEP, 2006; International Crisis Group, 2012; OPAS, 2026). Paralelamente, conflitos armados persistentes, baixa capacidade estatal, limitações estruturais dos sistemas de saúde e desconfiança da população em relação às autoridades sanitárias comprometem medidas essenciais como rastreamento de contatos, o isolamento de casos e a comunicação de risco (Titeca & Herdt, 2011; UNEP, 2006; Gostin et al, 2019). Nesse sentido, o atual episódio reforça o entendimento de que emergências sanitárias internacionais devem ser analisadas não apenas como eventos biológicos, mas como desastres complexos influenciados por vulnerabilidades sociais, institucionais e territoriais, exigindo respostas coordenadas entre a saúde pública, a segurança internacional e a gestão de desastres (Rodrigues, Carpes & Raffagnato, 2020; Raffagnato, 2022). 3. Implicações para o Brasil A declaração de uma ESPII possui implicações diretas para o Brasil, sobretudo no âmbito da preparação, da vigilância e da resposta a emergências sanitárias. Nos termos do RSI (2005), os Estados-Partes devem fortalecer suas capacidades básicas de detecção, notificação e resposta a eventos que possam representar um risco à saúde pública, o que implica a intensificação da vigilância epidemiológica em pontos de entrada, como aeroportos e portos, bem como a adoção de protocolos para a identificação precoce de casos suspeitos (OMS, 2005). No contexto brasileiro, isso se traduz na necessidade de articulação entre o Ministério da Saúde (MS), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e demais órgãos responsáveis pelo controle sanitário de fronteiras, além do fortalecimento das redes laboratoriais e da capacidade hospitalar para manejo de doenças de alta letalidade. Conforme ressaltado pela OPAS, países não afetados, como os das Américas, devem priorizar a comunicação de risco, a capacitação de profissionais de saúde e a preparação para eventual identificação de casos importados, evitando medidas desproporcionais como o fechamento de fronteiras, que não encontram respaldo científico (OPAS, 2026). Nesse sentido, a ESPII atua como um mecanismo de alerta e mobilização institucional, exigindo do Brasil não apenas respostas técnicas no campo da saúde, mas também coordenação intersetorial e alinhamento com diretrizes internacionais de segurança sanitária. A resposta a desastres biológicos no Brasil dialoga diretamente com o emprego subsidiário das Forças Armadas (FA). Isso porque a especialização das FA em Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (DQBRN) pressupõe, também, seu emprego em apoio às estruturas civis de manejo de risco e de desastres com agentes QBRN em território nacional. Especificamente, no caso do ebolavírus, o Brasil registrou seu primeiro caso de suspeita da doença em outubro de 2014. Tratou-se de um homem de 47 anos, vindo da Guiné, que chegou ao país apresentando sintomas de febre. À época, a Guiné era um dos epicentros de um surto de ebola no continente africano. O paciente foi transferido para o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, referência para o manejo de suspeitos da doença (INI, 2014). O traslado do doente foi realizado pela Força Aérea Brasileira (FAB), especializada na evacuação aeromédica de contaminados ou suspeitos de contaminação por agentes QBRN (FAB, 2015). O caso evidenciou, por um lado, o preparo brasileiro para o manejo de casos suspeitos de doenças infectocontagiosas graves e, por outro, a coordenação civil-militar necessária à resposta. 4. Considerações Finais A possibilidade de o atual surto de ebola evoluir para uma pandemia é considerada limitada, mas não desprezível, devendo ser analisada à luz de fatores epidemiológicos como virulência, taxa de mortalidade e dinâmica de transmissão. Diferentemente de patógenos respiratórios, como o SARS-CoV-2, o ebolavírus apresenta transmissão predominantemente por contato direto com fluidos corporais, o que reduz seu potencial de disseminação em larga escala. Ainda assim, a variante de Bundibugyo possui elevada letalidade e alta virulência, o que significa que, embora seja menos transmissível, causa quadros graves e elevada mortalidade entre os infectados (CBN, 2026; OPAS, 2026). Esse perfil epidemiológico tende a limitar a propagação sustentada em nível global, mas aumenta significativamente o impacto local e regional do surto, sobretudo em contextos de fragilidade sanitária. A experiência da ESPII de ebola na RDC entre 2018 e 2020 reforça essa avaliação. Naquele episódio, apesar da elevada letalidade e da persistência da transmissão em áreas de conflito armado, o surto não evoluiu para uma pandemia, em grande medida devido à natureza do contágio e às estratégias de contenção, como o isolamento de casos, rastreamento de contatos e a vacinação em anel (OMS, 2020). No entanto, o atual cenário apresenta elementos adicionais de preocupação, como a ausência de vacinas amplamente disponíveis para a variante de Bundibugyo e a ocorrência de casos em áreas urbanas e com conexões internacionais, o que pode ampliar o risco de disseminação regional. Assim, embora o risco de uma pandemia permaneça relativamente baixo quando comparado ao de doenças de transmissão aérea, a combinação entre alta letalidade, fragilidades estruturais nos sistemas de saúde e mobilidade transfronteiriça mantém o evento como uma ameaça significativa à segurança sanitária internacional, justificando a declaração de ESPII e a necessidade de vigilância contínua (OMS, 2005; OPAS, 2026). Referências bibliográficas BRASIL. Força Aérea Brasileira. FAB transporta paciente com suspeita de ebola. YouTube, 11 nov. 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cxNZ45rZCho. Acesso em: 22 maio 2026. EQUIPE funerária da Ebola é atacada no Congo, e 11 pacientes fogem de unidades de tratamento. O Globo, Rio de Janeiro, 4 jun. 2026. Saúde. Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/06/04/equipe-funeraria-da-ebola-e-atacada-no-congo-e-11-pacientes-fogem-de-unidades-de-tratamento.ghtml. Acesso em: 9 jun. 2026. FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. 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ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Ebola disease caused by Bundibugyo virus, Democratic Republic of the Congo & Uganda. Disease Outbreak News, [s. l.], 8 jun. 2026. Disponível em: Acesso em: 9 jun. 2026 ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Emergência de saúde pública de importância internacional relacionada à doença causada pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo e em Uganda: implicações para as Américas – 17 de maio de 2026. Washington, D.C.: OPAS/OMS, 2026 RAFFAGNATO, Carolina Gomes. Preparação e resposta a desastres do Brasil: uma análise dos casos da H1N1 e da COVID-19. 2022. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2022. RODRIGUES, Karina Furtado; CARPES, Mariana Montez; RAFFAGNATO, Carolina Gomes. Preparação e resposta a desastres do Brasil na pandemia da COVID-19. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 54, n. 4, p. 614–634, 2020. TITECA, Kristof; DE HERDT, Tom. 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Superioridade decisória 4.0: o emprego estratégico de Redes Neurais de Grafos (GNNs)
Luis Felipe Comodo Seelig Capitão do Exército Brasileiro.Pesquisador do Laboratório de Ciências Militares (ECEME). Eduardo Xavier Ferreira Glaser MigonDoutor em Administração (EBAPE/FGV) e em Ciências Militares (ECEME).Pesquisador e Coordenador do Laboratório de Ciências Militares (ECEME). 1. Introdução A prontidão operacional de uma força militar no século XXI exige mais do que poder de combate ou volume de efetivos — exige superioridade informacional. Neste momento histórico, marcado por uma aceleração sem precedentes no ciclo de transformação tecnológica, o planejamento de longo prazo do Exército Brasileiro, consubstanciado no conceito de Força 40, impõe uma reflexão crítica e urgente: como as tecnologias emergentes, especialmente a inteligência artificial (IA), podem fortalecer as capacidades de comando e controle, com ênfase no assessoramento prestado pelos oficiais de estado-maior? A resposta a essa questão define a capacidade de antecipação estratégica da Força Terrestre. Pensar a prontidão de 2040 é, antes de tudo, antecipar hoje os marcos operacionais, logísticos e tecnológicos que serão exigidos amanhã. Estamos no alvorecer de uma nova era no campo da arte da guerra, e não se trata apenas do emprego de IA em armamentos ou robótica. O diferencial reside no emprego ampliado da IA como apoio ao processo decisório nos escalões superiores, reforçando a capacidade de análise, previsão e orientação por parte dos estados-maiores. A IA não é um luxo tecnológico, mas um imperativo estratégico. Este artigo é, portanto, uma provocação e um convite dirigido aos líderes da Força Terrestre — em especial aos oficiais de estado-maior e oficiais generais — para que compreendam os potenciais da IA, não apenas como ferramenta, mas como elemento transformador da cultura organizacional e vetor crítico da superioridade decisória em ambientes operacionais complexos. A inteligência artificial vem demonstrando seu valor na ampliação da capacidade de coleta, processamento e fusão de dados em tempo quase real[1], com aplicações diretas em Comando e Controle, Inteligência, Vigilância, Reconhecimento e Aquisição de Alvos — ou, conforme a doutrina, em Sistemas de Comando e Controle, Inteligência, Vigilância, Aquisição de Alvos e Reconhecimento (C4ISTAR). Nesse contexto, a função de combate Inteligência adquire centralidade, e os oficiais responsáveis pelo seu emprego precisam, cada vez mais, operar em ciclos de decisão acelerados e com elevado grau de incerteza, nos quais a qualidade e a integração dos dados são decisivas para o sucesso das operações. A capacidade de processar dados não euclidianos, que modelam as relações complexas do campo de batalha, torna-se o novo divisor de águas. Entre as tecnologias emergentes que se destacam neste cenário está o uso das Redes Neurais de Grafos (Graph Neural Networks – GNNs). Diferentes das arquiteturas tradicionais de IA, as GNNs são especialmente adequadas para modelar dados com estruturas relacionais complexas — como redes logísticas, topografias irregulares, fluxos de tropas e redes sociais — oferecendo novas possibilidades para análise geoespacial, apoio à decisão e antecipação de padrões operacionais em múltiplos domínios. 2. Fundamentação Conceitual A evolução dos conflitos contemporâneos tem imposto desafios inéditos às forças armadas. O cenário geopolítico atual é marcado por incerteza estratégica, volatilidade informacional e dinâmicas operacionais em múltiplos domínios — terrestre, aéreo, cibernético, espacial e cognitivo. Nesse ambiente, o conceito de Operações Multidomínio (OMD) destaca-se como resposta doutrinária às exigências da guerra moderna. Tais operações demandam integração sinérgica entre vetores operacionais e informacionais, exigindo que as decisões sejam tomadas em ciclos cada vez mais curtos e com alto grau de coordenação entre os diversos níveis de comando. A complexidade do ambiente operacional moderno exige ferramentas analíticas que consigam modelar não apenas os elementos isolados, mas as relações dinâmicas entre eles. Nas chamadas Operações Militares Complexas, o volume de dados gerados por sensores, sistemas de comunicações e plataformas diversas cresce exponencialmente. A simples coleta não é mais suficiente: é necessário transformar dados em conhecimento relevante, em tempo hábil. Isso impõe uma nova lógica à construção da consciência situacional, que passa a exigir integração contínua, filtragem inteligente e inferência preditiva. O oficial de estado-maior precisa ser capaz de compreender essa nova lógica e operar com ferramentas que otimizem a tomada de decisão em ambientes saturados de informação. Neste novo paradigma, a função de combate Inteligência ganha ainda mais centralidade. Ela não apenas subsidia o ciclo de decisão, mas estrutura o ciclo, abrindo novas possibilidades úteis à consciência situacional. A condução do processo PITCIC — que integra variáveis de terreno, condições meteorológicas, inimigo e população civil — requer níveis de acurácia, atualização e projeção crescentes. A operacionalização da função Inteligência, especialmente nos escalões superiores da Força Terrestre, depende da capacidade dos estados-maiores em processar dados dinâmicos e apresentar alternativas ao comandante com base em inferências robustas, em ritmos cada vez mais acelerados. É nesse contexto que se insere a proposta de adoção de Redes Neurais de Grafos (GNNs) como ferramenta de apoio ao trabalho do oficial de inteligência. As GNNs permitem modelar sistemas nos quais os dados apresentam relações complexas, como redes logísticas, ambientes urbanos ou fluxos de deslocamento tático. Em vez de tratar os dados como unidades isoladas ou dispostos em matrizes fixas (como nas redes convolucionais), as GNNs capturam e exploram a conectividade entre nós, tornando-as ideais para representar estruturas operacionais reais do campo de batalha. Introduzidas como uma evolução dos modelos de aprendizado profundo, as GNNs foram projetadas para processar dados em grafos — estruturas compostas por vértices (nós) e arestas (relações). Isso possibilita a aplicação de IA a domínios nos quais o relacionamento entre elementos é mais relevante do que seus atributos isolados. Para o oficial de estado-maior, isso significa a capacidade de visualizar e analisar o campo de batalha como uma rede de interdependências. Por exemplo, a movimentação simultânea de diversas subunidades em ambiente urbano pode ser representada como um grafo, permitindo inferir rotas prováveis, gargalos logísticos e vulnerabilidades táticas em tempo quase real. Essa característica faz das GNNs uma das áreas mais promissoras da inteligência artificial aplicada à Defesa. Segundo Wu et al. (2020), elas têm se destacado por sua capacidade de generalização, escalabilidade e integração com dados heterogêneos. Sua aplicabilidade vai desde redes elétricas e sistemas de tráfego até estruturas militares complexas, como redes de comando e controle ou topografias operacionais. Ao adotar GNNs, o Exército pode alavancar sua capacidade de antecipação estratégica e tática. Além disso, as GNNs se encaixam perfeitamente nas exigências de Sistemas de Apoio à Decisão Militar (SADM). Esses sistemas requerem modelagem dinâmica, capacidade de aprendizado com base em dados históricos e habilidade para incorporar novas fontes de informação continuamente. As GNNs oferecem esse suporte de forma nativa, permitindo a construção de sistemas que evoluem com o ambiente operacional, ajustando suas inferências conforme os dados se atualizam. Por fim, é possível afirmar que a incorporação de ferramentas de IA — e das GNNs em particular — pode revolucionar o assessoramento de inteligência nos escalões mais elevados da Força Terrestre. Nos níveis de Comando de Área ou Comando Militar de Área, onde o espaço de atuação abrange áreas de operações de grande complexidade tridimensional, a capacidade de representar, simular e antecipar cenários por meio de grafos inteligentes pode ser decisiva para garantir superioridade situacional e proatividade decisória. 3. Redes Neurais de Grafos: Uma Oportunidade de Inovação para a Superioridade Informacional A emergência das Redes Neurais de Grafos (GNNs) configura uma oportunidade de inovação disruptiva para a Força Terrestre, ao oferecer um novo paradigma para a análise geoespacial militar e o assessoramento de inteligência nos escalões superiores. Em vez de uma mera proposta técnica, trata-se de uma opção estratégica que permite superar as limitações dos métodos analíticos tradicionais, como o Processo de Integração Terreno, Condições Meteorológicas, Inimigo e Considerações Civis (PITCIC), que se baseiam predominantemente no processamento sequencial de camadas informacionais isoladas. As GNNs, por sua natureza, viabilizam a modelagem de interdependências complexas, dando um novo dinamismo ao PITCIC e permitindo análises contínuas, preditivas e escaláveis em múltiplos níveis de comando. As GNNs distinguem-se de outras arquiteturas de inteligência artificial por sua habilidade em operar sobre estruturas de dados que não se organizam em grades regulares, como imagens, mas sim em grafos irregulares — representações que expressam relações entre elementos diversos como pontos de interesse, rotas, obstáculos e alvos. Essa característica torna as GNNs particularmente adequadas ao domínio militar, onde o terreno, as unidades, a população e a infraestrutura formam redes complexas de interação espacial, temporal e funcional. A arquitetura proposta prevê a construção de uma camada de pré-processamento dos dados geoespaciais, capaz de transformar fontes brutas — como bases cartográficas, imagens de satélite, dados meteorológicos, sensores táticos e bancos de dados demográficos — em grafos estruturados. Cada nó pode representar um ponto com atributos (ex: densidade populacional, elevação, presença de forças adversas), enquanto as arestas modelam relações funcionais, como conectividade viária, linha de visada ou raio de influência. Este processo de estruturação é o cerne da superioridade informacional, pois transforma dados brutos em um modelo relacional pronto para inferência. A camada subsequente envolve a aplicação dos modelos de GNN para gerar embeddings vetoriais de cada nó ou região, condensando as características locais e contextuais de forma a viabilizar inferências táticas e estratégicas. Essa representação permite classificar regiões segundo seu valor militar, risco associado, acessibilidade logística ou outros critérios operacionais definidos por doutrina ou pela situação tática. É uma forma de apoiar o estado-maior com sugestões baseadas em aprendizado contínuo e dados reais. Em sua essência, o sistema proposto viabiliza o desenvolvimento de um mecanismo de inferência dinâmica sobre o espaço operacional, permitindo, por exemplo, identificar as prováveis rotas de infiltração inimiga, as zonas de bloqueio mais eficazes, áreas de provável apoio da população civil, ou ainda estimar o tempo de deslocamento em condições variáveis. O modelo não apenas fornece respostas automatizadas, mas permite incorporar conhecimento tácito dos oficiais, ajustando suas inferências por meio de retreinamento supervisionado. Para assegurar aderência à realidade nacional e promover soberania tecnológica, a arquitetura de GNNs deve ser construída sobre o Ecossistema Nacional de Dados Geoespaciais de Defesa. Isso implica a integração sistemática de fontes civis e militares, transformando-as em um grafo estruturado. As fontes civis, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), fornecem camadas essenciais de infraestrutura, demografia, cobertura do solo e espectro eletromagnético. A integração com dados orgânicos do Exército (SIGAEB, SISFRON) permite a criação de um grafo geoespacial militar unificado. Essa arquitetura deve respeitar protocolos de segurança, interoperabilidade e atualização contínua, além de contemplar os princípios de dualidade de uso (civil e militar). A proposta também considera uma interface amigável ao usuário militar, com dashboards operacionais, visualizações cartográficas dinâmicas e relatórios automatizados. Essa camada de apresentação permitirá que os resultados técnicos gerados pela IA sejam inteligíveis ao oficial de Estado-Maior, promovendo um ciclo contínuo de aprendizado entre a máquina e o operador. O objetivo é que o sistema funcione como assessor digital, e não como substituto da decisão humana. Em termos doutrinários, a proposta representa uma inovação incremental com potencial disruptivo. Trata-se de iniciar com aplicações táticas — como planejamento de patrulhas, reconhecimento e posicionamento de sensores — e gradualmente avançar para aplicações operacionais e estratégicas, como planejamento de campanhas ou análise de teatros. A implantação poderá ser conduzida por meio de projetos-piloto em ambientes controlados, criando uma trilha de amadurecimento tecnológico e doutrinário integrada à Força 40. 4. Implicações Doutrinárias e Tecnológicas A introdução de uma arquitetura baseada em Redes Neurais de Grafos (GNNs) no contexto da Força Terrestre não representa apenas um salto tecnológico, mas uma inflexão estratégica sobre como concebemos e conduzimos o processo decisório militar. Essa transformação exige o desenvolvimento de um ecossistema nacional de dados geoespaciais de defesa, fundamentado em governança integrada, padronização de metadados e políticas robustas de segurança da informação. Trata-se de um ativo estratégico de Estado, que transcende a aplicação militar e dialoga com os princípios de soberania e autonomia tecnológica nacional. A proposta articula um novo paradigma de produção e exploração de conhecimento em apoio à tomada de decisão militar. Ao empregar GNNs sobre dados estruturados em grafos georreferenciados, torna-se possível modelar o ambiente operacional em sua dimensão relacional — capturando conexões entre terreno, infraestrutura, população e forças atuantes. Isso projeta impactos diretos sobre a função de combate Inteligência, elevando o patamar de assessoramento prestado ao Comando, com inferências automatizadas, projeção de cenários e análises multicritério com base em dados em tempo quase real. A operacionalização dessa proposta afeta os três níveis de decisão militar. No nível estratégico, permite antecipar transformações territoriais e riscos difusos, orientando políticas de defesa, planejamento de forças e posicionamento de capacidades. No nível operacional, fornece aos Grandes Comandos elementos integrados para a manobra de meios, coordenação interagências e avaliação de cenários dinâmicos. No nível tático, amplia o poder de iniciativa das unidades, oferecendo produtos analíticos voltados à execução precisa e contextualizada das ordens. A consolidação de uma plataforma de apoio baseada em GNNs impõe, porém, a superação de barreiras doutrinárias e culturais. O ciclo de planejamento militar ainda se apoia fortemente em procedimentos manuais, mapas estáticos e modelos determinísticos. A adoção de IA, especialmente em estruturas sensíveis como o estado-maior, exige confiança operacional, treinamento especializado e atualização das diretrizes de emprego da função Inteligência. É necessário incorporar, nos cursos de formação e aperfeiçoamento, conteúdos sobre ciência de dados, inferência automatizada e ética no uso de IA militar. A governança de dados, nesse sentido, torna-se um pilar estratégico, exigindo a criação de ontologias comuns e políticas de segurança que garantam a integridade, a rastreabilidade e a soberania do conhecimento gerado. A ausência de uma estrutura de governança robusta pode comprometer a confiança no sistema e, consequentemente, a sua adoção nos níveis de decisão mais críticos. A mudança cultural é tão crítica quanto a tecnológica. Outro vetor crítico é a interoperabilidade entre fontes de dados. O sistema proposto demanda a integração de bases civis (IBGE, INPE, CENSIPAM, CPRM) e militares (SIGAEB, SISFRON, sensores táticos), articuladas por meio de padrões abertos e ontologias comuns. O objetivo é viabilizar uma base contínua de conhecimento espacial para uso dual (civil e militar), reduzindo a assimetria de informação entre os escalões de comando e promovendo a atualização constante do ambiente operacional comum (Common Operational Picture). A interoperabilidade não é apenas técnica, mas semântica, exigindo que os dados de diferentes origens "falem a mesma língua" para que as GNNs possam extrair relações contextuais de forma precisa e confiável. Ao mesmo tempo, a estruturação de um centro de excelência em inferência geoespacial para a Defesa pode ser um vetor institucional dessa transformação. Tal centro, sob liderança do Exército Brasileiro, teria a missão de desenvolver algoritmos, treinar modelos, validar inferências e propor casos de uso adaptados à realidade nacional. Essa iniciativa reforçaria a autonomia científica e permitiria que as aplicações de GNNs evoluíssem conforme as necessidades operacionais e doutrinárias da Força. O potencial de disrupção da proposta também impõe que ela seja incorporada com responsabilidade. A introdução de IA no processo decisório militar deve respeitar os princípios da legalidade, da proporcionalidade e do comando humano. As GNNs não substituem a análise do oficial de Estado-Maior, mas ampliam sua capacidade de perceber padrões, antecipar eventos e recomendar cursos de ação com base em grandes volumes de dados, antes inalcançáveis. É o binômio “homens capazes apoiados por IA” que representa a vantagem assimétrica a ser perseguida. A dimensão ética e legal do emprego da IA, especialmente em sistemas de apoio à decisão, deve ser tratada com rigor doutrinário, garantindo que a responsabilidade final e o julgamento permaneçam inequivocamente sob o comando humano. Em suma, a proposta aqui apresentada alinha-se à visão estratégica da Força 40, que prevê uma Força Terrestre tecnologicamente robusta, doutrinariamente adaptável e operativamente integrada. A prontidão operacional, logística e tecnológica, pilares dessa visão, só serão alcançadas se o Exército abraçar com ousadia as possibilidades da inteligência artificial — em particular, das GNNs — como catalisadoras de um novo patamar de consciência situacional e agilidade decisória. 5. Considerações Finais O presente artigo propôs uma análise sobre a oportunidade estratégica da adoção de Redes Neurais de Grafos (GNNs) para apoiar a função de combate Inteligência no âmbito da Força Terrestre, em alinhamento com os objetivos estratégicos da Força 40. Partimos da constatação de que os ambientes operacionais futuros exigirão maior agilidade, integração e profundidade analítica por parte dos estados-maiores, em todos os níveis de comando. Ao longo do desenvolvimento, apresentamos os fundamentos conceituais da tecnologia, suas bases técnico-operacionais, o modelo arquitetônico sugerido e as implicações doutrinárias decorrentes de sua adoção, com foco na superação das limitações do Processo de Integração Terreno, Condições Meteorológicas, Inimigo e Considerações Civis (PITCIC) tradicional. A inteligência artificial, nesse contexto, emerge não como substituta, mas como ampliadora da capacidade de trabalho do oficial de estado-maior. As GNNs representam uma solução particularmente promissora, ao viabilizar a modelagem e inferência em ambientes geoespaciais complexos — apoiando o comandante na formação de sua consciência situacional, na antecipação de padrões e na análise de múltiplos cenários operacionais. A tecnologia amplia a acurácia, a profundidade e a responsividade do processo decisório, elevando o patamar do assessoramento estratégico e tático. O diferencial decisivo, no entanto, não reside apenas na excelência dos algoritmos, mas na simbiose entre capacidades humanas e digitais. A equação “homens capazes apoiados por IA” sintetiza o espírito desta abordagem: líderes militares preparados, instruídos e conscientes do potencial da tecnologia farão a diferença nos futuros campos de batalha. O desafio, portanto, transcende a dimensão técnica e se concentra na formação de líderes visionários, capazes de integrar inovação, doutrina e comando com clareza estratégica, e na governança de um ecossistema de dados que suporte essa transformação, conforme discutido na Seção 4. A prontidão projetada para 2040 precisa começar a ser construída hoje. Em se tratando de tecnologias disruptivas como a IA, o senso de urgência é imperativo. O ciclo de maturação, validação e incorporação tecnológica exige tempo, esforço coordenado e vontade institucional. A inação representa um risco estratégico, pois a superioridade informacional é um ativo perecível. Quanto antes iniciarmos a jornada, maior será a chance de moldar a tecnologia às nossas necessidades, e não o contrário. Entre as múltiplas vertentes da IA, as GNNs trazem um diferencial qualitativo ainda pouco explorado no contexto da Defesa. Ao contrário de modelos de linguagem ou buscadores, as GNNs operam sobre estruturas relacionais de alto valor estratégico, como malhas logísticas, redes de sensores, terrenos de operações e fluxos populacionais. Essa capacidade de modelar a complexidade do ambiente operacional em sua dimensão relacional, conforme detalhado na Seção 3, representa uma fronteira a ser desbravada pela Doutrina Militar Terrestre, oferecendo uma ferramenta robusta para a superioridade informacional no cenário da Guerra Multidomínio. Precisamos, urgentemente, superar a superficialidade e evitar soluções que apenas repetem o status quo com outra roupagem. A integração profunda entre oficiais de estado-maior, especialistas em inteligência e profissionais de CT&I será condição necessária para o sucesso. A distância entre a inovação científica e a aplicação doutrinária precisa ser encurtada — e rápido. A criação de um Centro de Excelência em Inferência Geoespacial, conforme sugerido na Seção 4, é um passo concreto para institucionalizar essa integração e acelerar o amadurecimento tecnológico e doutrinário. Por fim, é preciso reconhecer que esta abordagem vai além da tecnologia, da inteligência e da análise de dados. Trata-se, sobretudo, de cultura organizacional, de liderança e de visão de futuro. Preparar a Força Terrestre para 2040 exige um salto cognitivo e institucional, pensando à frente do nosso tempo e não com as lentes do passado. É esse o desafio que se impõe às lideranças militares brasileiras, garantindo que a Força Terrestre não apenas adote a tecnologia, mas a incorpore em sua essência doutrinária e decisória. Referência bibliográfica WU, Zonghan et al. A comprehensive survey on graph neural networks. IEEE Transactions on Neural Networks and Learning Systems, v. 32, n. 1, p. 4–24, 2021. DOI: 10.1109/TNNLS.2020.2978386. [1] A expressão “tempo quase-real” é entendida aqui com o sentido de lapso temporal compatível com os ciclos de atualização decisório do escalão analisado. Rio de Janeiro - RJ, 17 de junho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Superioridade decisória 4.0: o emprego estratégico de Redes Neurais de Grafos (GNNs). Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/superioridade-decisoria-4-0-o-emprego-estrategico-de-redes-neurais-de-grafos-gnns.
Seminário A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos
OMPV O Seminário: A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos, foi realizado no dia 25/06/2026, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 25/06/2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de junho 2026.
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas | 10/03/2025 - Conflito Israel x Hamas
OMPV O Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas, foi realizado no dia 10/03/2025, segunda-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército; - Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 10/03/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 10 de março 2025.
XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos - II Seminário sobre as Estratégias Globais e Nacionais para a Mitigação de Ameaças QBRN: Cooperação, Desenvolvimento e Projeção de Poder
OMPV Com o objetivo de promover um amplo fórum de debates sobre os desafios impostos pelas ameaças QBRN no Brasil e no mundo, o evento teve como foco a cooperação interagências, o desenvolvimento de capacidades nacionais e a projeção de poder. Esses temas foram discutidos a partir de cenários estratégicos: a rápida evolução tecnológica, a complexidade crescente do crime organizado, o legado de grandes eventos e a necessidade de antecipar situações críticas colocam as ameaças QBRN no centro das discussões de segurança contemporânea. Nesse contexto, torna-se essencial integrar esforços das Forças Armadas, dos órgãos de segurança pública, da defesa civil, da comunidade científica, da indústria e dos organismos internacionais. É nesse cenário que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) dedica-se ao estudo das implicações QBRN para a Defesa Nacional. O evento visou fomentar o conhecimento estratégico, fortalecer a cooperação institucional e preparar o país para responder de forma eficaz aos desafios de um ambiente global em constante transformação. Para assistir o XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 05 e 06 de agosto 2025, Clique aqui. Para mais informações: https://ppgcm.eceme.eb.mil.br/index.php/pt/quem-somos/grupos-de-pesquisa/655-nucleo-de-pesquisa-sobre-defesa-qbrn-e-desastres-nupedd-qbrn Rio de Janeiro - RJ, 02 de fevereiro 2026 . .
XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos - Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa
OMPV Nos dias 16 e 17 de junho de 2025, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) promoveu o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos (XXXI CEE), reunindo autoridades civis e militares, pesquisadores, docentes e especialistas nacionais e estrangeiros em torno do tema “IA e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa”. A conferência de abertura contou com exposições do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Richard, que abordou as diretrizes da Força Terrestre para a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA), e do Comandante do Instituto Militar de Engenharia, General Galdino, que apresentou os novos paradigmas tecnológicos, destacando oportunidades e desafios relacionados à temática. Ao longo das duas jornadas, a programação incluiu conferências, painéis e mesas temáticas que trataram da integração de IA e Tecnologias Quânticas (TQ) no campo da Defesa, destacando os avanços científicos, os impactos estratégicos, as implicações éticas e legais, bem como os desafios de implementação dessas tecnologias em um contexto operacional. As discussões abrangeram tópicos como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o emprego de IA nos conflitos contemporâneos, disputas geopolíticas em torno das tecnologias emergentes, ciberdefesa, implicações quânticas para a criptografia e segurança, além de temas voltados à governança, educação, energia e inovação. Especial atenção foi dedicada à preparação do Brasil e de suas Forças Armadas frente às exigências de um ambiente internacional cada vez mais tecnológico e complexo. O XXXI CEE também evidenciou a importância da sinergia entre a academia, os centros de pesquisa e as instituições militares no desenvolvimento de capacidades autônomas e na formulação de estratégias que assegurem a soberania nacional. Nesse sentido, a ECEME reafirma seu compromisso com a modernização e o fortalecimento do pensamento estratégico no âmbito do Exército Brasileiro, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e a construção de soluções inovadoras para os desafios da Defesa no século XXI. Para assistir o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 16 e 17 de junho 2025, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://sites.google.com/ime.eb.br/iatq/sobre-o-projeto/ciclo-de-estudos-estrat%C3%A9gicos?authuser=0 Rio de Janeiro - RJ, 19 de setembro 2025 . .
XXX Ciclo de Estudos Estratégicos - V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações
OMPV Nos dias 7 e 8 de agosto de 2025, a ECEME conduziu o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações e o V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações. O Ciclo de Estudos foi promovido pelo Instituto Meira Mattos da ECEME, em parceria com o Instituto para o Desenvolvimento Social e Econômico de Fronteiras (IDESF) e Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD). O evento incluiu mesas temáticas que promoveram discussões sobre segurança integrada das fronteiras e crimes transnacionais. As apresentações destacaram a necessidade de cooperação interagências e o uso de tecnologias avançadas para combater crimes transnacionais e garantir a segurança nacional. Para assistir o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 07 e 08 de agosto 2024, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 24 de março 2026 . .
XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos - Os desafios do sistema internacional contemporâneo para a defesa
OMPV Os Ciclos de Estudos Estratégicos visam promover um amplo fórum de debates sobre temas relacionados aos atuais desafios existentes no sistema internacional para a Defesa. Tendo em vista a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede para a realização da reunião da cúpula do G20 em 2024, momento em que os Chefes de Estado das 19 maiores economias do mundo e que o Presidente da União Europeia estarão discutindo temas relevantes para a sociedade, como o futuro da governança global e o desenvolvimento sustentável, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) procura dar a sua contribuição à sociedade e tem a satisfação de informar que realizará nos dias 28 e 29 de maio de 2024, o XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos (XXIX CEE), cujo tema será o seguinte: OS DESAFIOS DO SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO PARA A DEFESA. Este Ciclo de Estudos Estratégicos contará com a participação de professores nacionais, professores estrangeiros, pesquisadores, diplomatas, militares, acadêmicos e demais personalidades analisando temas como o multilateralismo, as mudanças climáticas, o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a defesa. O evento foi organizado pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Evento integrante do calendário do G20 2024. Para assistir o XXIX Ciclo do dia 28 e 29 de maio 2024, Clique aqui. Para mais informações sobre o XXIX CEE: https://www.eceme.eb.mil.br/instituto-meira-mattos-imm/cee/172-xxix-ciclo-de-estudos-estrategicos-os-desafios-do-sistema-internacional-contemporaneo-para-a-defesa Rio de Janeiro - RJ, 29 de maio 2024. . .
Evolução do sistema DQBRN do Exército Brasileiro - 25 junho 2026 |
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A ação dos EUA e de Israel no conflito no Oriente Médio - 19 março 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
A questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano
A questão Essequibo é um litígio fronteiriço histórico. A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deveria ser a fronteira natural, conforme um mapa de 1777 que remonta aos tempos coloniais espanhóis. A Guiana, por sua vez, baseia sua soberania nas fronteiras estabelecidas por um laudo arbitral de Paris de 1899, que concedeu a maior parte da terra à então Guiana Britânica. Em 2015, a descoberta de reservas de petróleo e gás em águas profundas na costa do Essequibo, por empresas internacionais, intensificou a disputa, elevando o valor estratégico da região e suas águas adjacentes. No final de 2023, a antiga disputa pela região voltou ao cenário geopolítico sul-americano depois que o governo venezuelano realizou um referendo para legitimar a anexação do território. A crise expõe as limitações de organismos regionais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em mediar e prevenir conflitos entre seus membros, exigindo uma atuação mais forte de instâncias multilaterais e de atores internacionais. Até que ponto a questão Essequibo está envolvida nas atuais ações militares na região do Caribe e quais são os seus reflexos para o Brasil? Para abordar o tema “A Questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Ricardo De Toma, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ricardo Salvador De Toma-GarcíaPesquisador pós-doutoral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Professor, o senhor pode explicar resumidamente o que vem a ser a Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Essequibo, região rica em recursos minerais, é uma reivindicação antiga da Venezuela, que cobiça os 159.500 km² do território para acrecer aos seus 916.500 km². Já a Guiana, detentora da área cobiçada, possui 215.000 km². O que isso representa? Mais do que 70% do território que ocupa e administra a Guiana, país que nasceu como uma república em 1966, quando se tornou independente do Reino Unido. A Venezuela foi o segundo país a reconhecer a independência da Guiana, mas fez uma ressalva: o reconhecimento estabelecia uma reclamação sobre os 159.500 km² de Essequibo, que, para os venezuelanos, não deveria fazer parte do território guianense. A questão ganha eco basicamente pelos potenciais de hidrocarbonetos e petróleo em áreas marinhas não delimitadas. A exploração desses recursos por parte de corporações estadunidenses e chinesas é o que tem gerado o interesse sobre a região. Cabe destacar que o grande desenvolvimento econômico da Guiana, que vem sendo reconhecido como uma “Dubai sul-americana”, gerou atritos políticos, que acabaram por se transformar em grandes tensões entre a Venezuela e a Guiana. 2) OMPV: Como ocorreu o crescimento da economia da Guiana? Prof. Ricardo: A Guiana era um dos países com uma das menores economias da região. Ela dependia basicamente da exploração de manganês e de ouro. A partir de 2019, o país começou a produzir petróleo. Veja a situação, vamos falar de números: a Guiana tem hoje menos de 700 mil habitantes, com um crescimento demográfico negativo e um dos maiores índices de suicídio do mundo, justamente por essa situação econômica complicada. Hoje a Guiana está produzindo cerca de 700 mil barris diários de petróleo. Isso é quase um barril por habitante. Essa é a verdadeira transformação da economia da Guiana, repercutindo em um acentuado crescimento econômico e um significativo aumento da qualidade de vida da sua população. 3) OMPV: Como essa disputa por Essequibo afeta o Brasil? Prof. Ricardo: Essa resposta traz à tona a crise ocorrida em 1969, envolvendo a Venezuela e a Guiana, motivada por duas questões: a tomada militar da ilha de Anacoco, no rio Cuyuní, pela Venezuela, e a revolta do Rupununi, promovida por separatistas na Guiana, perto da localidade de Lethem, que faz fronteira com a cidade de Bonfim, na divisa com o Estado de Roraima. Esses incidentes aumentaram a tensão na fronteira com o Brasil e criaram um movimento de deslocados para o território brasileiro à época. Com o desenvolvimento econômico da Guiana, em decorrência da exploração petrolífera, a Venezuela resolveu retomar a sua cobiça por Essequibo. O governo venezuelano, afetado por uma série crise política, aproveitou-se desse tema para incrementar a sua popularidade. Todos esses movimentos geraram uma preocupação para o Brasil, Estado que tem uma grande responsabilidade em manter a inviolabilidade de suas fronteiras, garantindo que a região amazônica não seja alvo de cobiças internacionais. Há relatos da presença, no sul do rio Orinoco, de agentes da Rússia, inclusive com a presença de bombardeiros estratégicos russos na Venezuela. Os Estados Unidos também têm interesses na região e a China, apesar de manter certa neutralidade, possui fortes investimentos na área contestada. 4) OMPV: O atual território da Venezuela faz fronteira com a região contestada, ou há necessidade de passar pelo Brasil para chegar até essa área? Prof. Ricardo: Oficialmente, a Venezuela não reconhece a fronteira que foi estabelecida pelo laudo arbitral de Paris de 1899 e é por conta dessa situação que o caso está atualmente na Corte Internacional de Justiça, onde se discutirá justamente a delimitação da fronteira. Com relação à pergunta, a resposta é não, porque a região do Essequibo tem um limite com o estado de Delta Amacuro, no norte da Venezuela, e com o estado de Bolívar, permitindo o trânsito para o território contestado. Aliás, essa é uma zona transitada pelos indígenas Warao. 5) OMPV: Quais são os principais atores internacionais envolvidos na Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Já houve o envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há investimentos britânicos por meio de petroleiras, com concessões autorizadas unilateralmente pela Guiana sobre áreas marinhas não delimitadas. Também observa-se a aplicação de recursos na região por parte da Empresa Nacional de Petróleos da China, que opera conjuntamente com a ExxonMobil, dos Estados Unidos, sobre o Bloco Stabroek, campo petrolífero offshore na costa da Guiana. E ainda podemos citar a influência russa, que vê na Venezuela uma forma de projetar seu poder na região. Na Guiana, os franceses participaram de leilões de blocos para a exploração de petróleo, com a empresa Total. A existência desses interesses econômicos aumenta o potencial geoestratégico do território Essequibo. Você vê hoje, por exemplo, que a China investe pesado na modernização do aeroporto internacional de Georgetown, que possui projetos para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas, de um porto de águas profundas e interesse no desenvolvimento da rede 5G. A Guiana foi o primeiro país do Caribe Ocidental que estabeleceu relações com a China e que a reconheceu como “uma única China”. Essa lealdade é retribuída pela China com esses investimentos. 6) OMPV: Recentemente, o Brasil realizou a Operação Atlas, desdobrando tropas na região próxima a Essequibo, sob coordenação do seu Ministério da Defesa. Como é que o senhor vê a repercussão desse exercício para a região? Prof. Ricardo: O interessante é que, recentemente, na Venezuela, também foram realizados exercícios. Esses exercícios foram, de certo modo, uma resposta a um patrulheiro britânico que estava no porto de Georgetown, e eu lembro que, na época, houve uma manifestação do antigo chanceler do Brasil, que indicou que uma grande autoridade, de uma grande potência, havia manifestado que, caso a Venezuela tomasse a decisão de tomar Essequibo pela força, essa grande potência iria intervir. Entendo que a Operação Atlas repercute positivamente para o Brasil, demonstrando a capacidade logística das suas Forças Armadas e a determinação nacional de manter a estabilidade da região amazônica, deixando-a de fora de possíveis conflitos. Nove países tem parte na Amazônia e a presença de forças extra-regionais em um eventual cenário desagregado ou caótico pode ser lesiva para a soberania individual de cada um dos Estados pan-amazônicos. Assim, qualquer medida mais radical ou não consensual por partes de algum país pode gerar consequências incertas. Portanto, esse tipo de exercício é necessário para manter a segurança local, a cooperação e a paz. 7) OMPV: Recentemente os Estados Unidos têm aproximado tropas do litoral da Guiana. O que essas manobras têm a ver com a região de Essequibo? Prof. Ricardo: Os Estados Unidos assinaram um convênio com a Guiana. No ano de 2020, durante a pandemia, foi a primeira vez na história que um secretário de Estado americano visitou Georgetown. A partir desse ano, durante o primeiro governo Trump, foi assinado um convênio de patrulhamento entre o Serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos e a Guiana, que não possui uma força armada capaz de desenvolver essas operações. Esse acordo ficou centrado em neutralizar aparentes ou supostas operações de narcotráfico. Já se fala hoje da existência de um suposto Cartel de los Soles, com indícios que vinculam autoridades venezuelanas a atividades ilícitas. Então, o que temos que destacar é que os Estados Unidos, diante dessas suspeitas, podem atuar na defesa de seus interesses e no combate ao narcotráfico, trazendo mais tensão para a questão Essequibo. 8) OMPV: Qual é a relação comercial do Brasil com a Guiana? Prof Ricardo: O Brasil, por meio da Petrobras, tem interesse em participar da exploração dessas áreas marinhas não delimitadas. Existe também um interesse em pequenas exportações. O estado de Roraima é o principal interessado em que seja construída uma rodovia que passe por Bonfim, Lethem, Mahdia, Mabaruma Hills e depois Linden, até Georgetown, para escoar a sua produção. Ter acesso ao Caribe é uma situação que para o Brasil é importante do ponto de vista estratégico. 9) OMPV: Como o senhor vislumbra o desenvolvimento da Questão Essequibo no cenário internacional? Prof. Ricardo: É um tema que está atualmente na Corte Internacional de Justiça. Espera-se que nos próximos meses, sejam emitidas algumas considerações jurídicas sobre os documentos apresentados pelo Estado venezuelano, e a eventual decisão dessa questão por parte da Corte resultará em um fato julgado, que passará a ter um efeito imediato, sobre o processo de delimitação internacional entre a Venezuela e a Guiana, repercutindo nas atividades econômicas na região. Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2025. .
Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa
A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa. Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado. Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros, são alguns dos crimes da região. Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Tássio FranchiProfessor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia? Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões. Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional. Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais. Esses países veem a Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países. Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica. 2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números? Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo. As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária. O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras. Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas. Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais. 3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas? Prof. Tássio: Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles. O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos. Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas. OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países? Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor. Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica. Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia. 4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado? Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime. Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado. 5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região? Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas. Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação. O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico. A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável. As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras. 6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas? Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica. A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações. Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas. Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental. 7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia? Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano. Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais. Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera. Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos. Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto. 8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica? Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso. Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região. Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região. Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado. A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia. 9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa? Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas. Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína. Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África. Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga. O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas. Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu. A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa. 10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região? Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos. 11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso? Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas. Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil. E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas. Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção. Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink. Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil. Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados. 12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia? Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada. Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas. Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para. Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025. .
O acordo de paz entre Israel e o Hamas - Conflito Israel x Hamas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra. Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sandro Teixeira MoitaDoutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz? Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm. Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense. Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas. Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países. Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região. Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz. 2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito? Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha. O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani. E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos. Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área. Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. 3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz? Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas. Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio. 4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah? Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza. Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica. O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã. 5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz? Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro. Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro. Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região. Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra. Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz. 6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido? Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo. Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico. Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel. Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração. Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região. 7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz? Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo. 8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza? Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã. A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas. Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil. O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967. Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025. .
Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional
Por André Luis Novaes MirandaGeneral-de-Exército da reserva. Assessor especial da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas. Apresentação O cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã anunciaram em 14 de junho de 2026 — após a assinatura do Memorando de Entendimento, cujas negociações técnicas previstas para 19 de junho, na Suíça, foram adiadas em razão da nova escalada de combates entre Israel e o Hezbollah no Líbano — encerra quase quatro meses de uma guerra escalada no final de fevereiro, mas que havia começado com as respostas israelenses aos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, ou até antes, dependendo do referencial. Seria, porém, um erro analítico tratá-lo apenas como o fim de um conflito. O que pode se encerrar, na prática, é o ciclo de décadas em que a segurança do Golfo repousava sobre uma garantia americana tida como crível e previsível. Os termos divulgados — cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano; reabertura do Estreito de Ormuz e suspensão do bloqueio naval norte-americano; compromisso iraniano de jamais buscar a arma nuclear; algum tipo de compensação financeira a Teerã; e sessenta dias de negociações rumo a um acordo final — desenham menos uma vitória do que um empate caro.[1] A leitura que organiza este texto é a de Ian Bremmer, em artigo desta semana e no ensaio que assina com Firas Maksad na Foreign Affairs: a guerra não apenas terminou mal para Washington — ela acelerou o colapso da ordem ancorada nos Estados Unidos, no Oriente Médio, que manteve o petróleo fluindo, as potências rivais afastadas e Washington como árbitro de tudo o que importava. Confronto essa tese com fontes britânicas, do Golfo, chinesas e norte-americanas, para separar o que é fato documentado do que é interpretação, e arrisco uma análise sobre a redistribuição de poder no Golfo Pérsico (expandido). 1. O choque de Doha e a fissura da garantia americana O ponto de inflexão é anterior à guerra. Em 9 de setembro de 2025, caças israelenses dispararam cerca de dez mísseis contra um complexo residencial em Doha, mirando a cúpula política do Hamas que negociava um cessar-fogo em Gaza. Foi a primeira ação militar israelense em solo catariano — e o primeiro ataque a um membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Morreram seis pessoas, entre elas um agente de segurança catariano.[2] Mais relevante do que o alvo foi a reação imediata de Washington: nenhuma medida para impedir o ataque ou impor qualquer custo a Israel. A lição absorvida nas capitais do Golfo foi direta — a garantia de segurança americana passou a vir com um ponto de interrogação. As respostas vieram em dois movimentos. De um lado, a cúpula árabe-islâmica de emergência reunida em Doha em 15 de setembro; de outro, oito dias depois, a Arábia Saudita assinou com o Paquistão, potência nuclear, um Acordo Estratégico de Defesa Mútua que trata uma agressão a qualquer dos dois como agressão a ambos — estendendo, na interpretação corrente, um guarda-chuva nuclear paquistanês sobre o reino. Washington, por sua vez, agiu menos para dissuadir o agressor do que para conter os danos: em 29 de setembro, Trump intermediou — com o texto redigido pela própria Casa Branca — um telefonema trilateral em que Netanyahu pediu desculpas ao primeiro-ministro catariano, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, admitiu a violação da soberania e prometeu não repetir o ataque, condição que Doha impusera para seguir mediando as negociações entre Israel e o Hamas; no mesmo dia, uma ordem executiva ofereceu ao Catar uma garantia de segurança americana sem precedentes no Golfo. O recado regional, porém, já estava dado: um aliado podia ser atingido em seu próprio território sem que o fiador o impedisse ou impusesse custos ao autor — as desculpas foram arrancadas em benefício da vítima, não como sanção a quem agrediu. Doha foi o aviso; a guerra de 2026 foi a confirmação. 2. A Guerra do Irã de 2026 e a paz de junho O conflito aberto começou no final de fevereiro de 2026, com a campanha israelo-americana contra o Irã e, em retaliação, com mísseis e drones iranianos caindo sobre Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados — Estados que pagaram o preço de decisões nas quais não tiveram voz. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz que não rendeu as concessões esperadas. Uma primeira trégua de duas semanas, mediada pelo Paquistão (com proposta de cinco pontos e intervenção de última hora da China), entrou em vigor entre os dias 7 e 8 de abril; em 21 de abril, Trump a prorrogou por tempo indeterminado, até o acordo de junho.[4] O saldo estratégico é desconfortável para quem deflagrou a guerra. O programa nuclear iraniano sobreviveu, assim como seus mísseis balísticos, seus drones e suas redes de proxies interpostas no Iraque, no Líbano e no Iêmen. O regime que Washington se propôs a quebrar segue de pé — abalado, mas íntegro — e ainda será, pelos termos do acordo, compensado para permitir a passagem por uma via marítima que estava aberta antes do primeiro tiro. Na avaliação de Bremmer, trata-se do maior erro de política externa dos Estados Unidos desde a Guerra do Iraque; o legado mais duradouro, porém, tem menos a ver com o Irã do que com a posição americana na região.[5] 3. Duas coalizões: contenção versus confronto Quando o fiador vacila, os Estados fazem o que sempre fazem: organizam-se em blocos. O Golfo pós-guerra divide-se em dois eixos que divergem em quase tudo. De um lado, uma coalizão “abraâmica” ancorada nos Emirados e em Israel, estreitamente atada a Washington; de outro, uma coalizão “islâmica” sunita em torno de Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e, crescentemente, Egito — que ainda depende dos EUA para segurança, mas passou a tratar essa dependência como passivo. Ambos veem Teerã como ameaça, mas discordam sobre como lidar com ela. Riad quer conter, dissuadir e manter aberta a hipótese de acomodação; Israel e Abu Dhabi enxergam um inimigo permanente, a ser confrontado. Contenção contra confronto — e sem árbitro em quem ambos confiem. Tabela 1 – A dinâmica das relações entre Estados Dimensão Eixo “abraâmico” (Israel–EAU–EUA) Eixo “islâmico” (Turquia–Arábia–Paquistão–Egito) Núcleo Israel e Emirados, fortemente atados a Washington; atração ocasional de Grécia e Índia em defesa, energia e comércio. Pesos-pesados sunitas: Turquia, Arábia Saudita, Paquistão e, cada vez mais, Egito. Postura quanto ao Irã Confronto: o regime é inimigo permanente a ser enfrentado, não administrado. Contenção: equilibrar e dissuadir o Irã, preservando a porta de uma acomodação futura. Relação com os EUA Aprofundamento dos laços de defesa e inteligência; aposta na confiabilidade americana. Dependência securitária ainda real, mas tratada como passivo a ser coberto por hedging. Lógica energética EAU fora da OPEP: bombear ao máximo e monetizar enquanto há demanda. Arábia precisa de preço alto e sustentado para financiar a Visão 2030.[6] Hedge externo Tecnologia e mercados; cooperação seletiva com a China, sem irritar Washington. Guarda-chuva nuclear paquistanês; abertura à mediação chinesa e à diplomacia regional. Fonte: autor A clivagem não se esgota no Irã. A coalizão islâmica une-se também contra o que percebe como poder israelense sem freios — de Gaza e Cisjordânia à Síria e ao Líbano. E as instituições que antes produziam consenso travaram pela mesma linha: dentro do CCG, Kuwait e Catar gravitam para Riad, Bahrein inclina-se a Abu Dhabi e Omã mantém canal próprio com Teerã. Figura 1 – Mapa de alinhamentos do Oriente Médio expandido Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA 4. A fratura saudita-emiradense: o eixo mais profundo Sob a clivagem entre os dois eixos corre uma fratura mais antiga e mais estrutural: a rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados. O Golfo árabe nunca foi um bloco monolítico, e Riad e Abu Dhabi vinham divergindo havia anos sobre o Iêmen, o Sudão, o Chifre da África, a Líbia e o petróleo. À disputa por teatros somou-se, mais recentemente, a competição por recursos minerais, energia e tecnologias de fronteira, como a inteligência artificial.[7] O que era divergência tática converteu-se em rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do Golfo. A ruptura ganhou expressão institucional em 2026. Em 28 de abril, os Emirados anunciaram a saída da OPEP, efetiva em 1º de maio — deixando o cartel sem seu terceiro maior produtor e privando Riad de seu parceiro mais relevante. A lógica é temporal e divergente: com ponto de equilíbrio fiscal estimado em torno de US$ 49 por barril, contra cerca de US$ 90 da Arábia, Abu Dhabi aposta em bombear e monetizar o quanto antes, enquanto houver demanda; Riad depende de preços altos e sustentados para pagar a Visão 2030.[8] A saída emiradense, lida por analistas como manifestação do distanciamento geopolítico, enfraquece o pilar que fazia da Arábia a potência organizadora do Golfo e ameaça o ambiente de investimento sobre o qual a Visão 2030 foi erguida. Analistas descrevem a ruptura, agora aberta e pública, como a fratura mais séria no Golfo desde o bloqueio ao Catar de 2017.[9][10] E ela não é abstrata: materializa-se em três teatros interligados — o Iêmen, o Sudão e o Mar Vermelho —, onde a rivalidade deixou de ser apenas econômica e ganhou contornos militares. 5. Os teatros da fratura: Iêmen, Sudão e o Mar Vermelho O primeiro teatro, e o mais agudo, foi o Iêmen — onde a rivalidade deixou de ser por procuração. Ao longo de dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado por Abu Dhabi, lançou a ofensiva “Operation Promising Future” e tomou a maior parte de Hadramout e Mahra — províncias ricas em petróleo, fronteiriças com a Arábia e que somam quase metade do território iemenita —, renovando o chamado pela secessão do Sul. Em 30 de dezembro, a Real Força Aérea Saudita bombardeou o porto de Mukalla, controlado pelo STC, alegando atingir um carregamento de armas vindo dos Emirados (alegação negada por Abu Dhabi). O governo iemenita reconhecido ordenou a saída das forças emiradenses em 24 horas, decretou bloqueio e estado de emergência; os Emirados anunciaram a retirada. Em janeiro de 2026, a contraofensiva saudita retomou Seiyun, Mukalla e Aden, e o líder do STC, Aidarus al-Zubaidi, foi destituído do Conselho Presidencial, acusado de traição e refugiou-se nos Emirados. Analistas tratam o episódio como o primeiro choque armado direto entre Riad e Abu Dhabi.[11] O segundo teatro, mais sangrento, é o Sudão. Desde 2023, a guerra civil opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), de Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), de Mohamed Hamdan Dagalo, o “Hemedti”. A Arábia respalda as SAF e o Estado central — em nome da estabilidade, da Visão 2030 e do acesso ao Mar Vermelho; os Emirados são acusados de armar a RSF, movidos por ouro (extraído de minas sob controle da milícia), portos e rotas de comércio — peça do que se descreve como o “eixo de secessionistas” emiradense, que abrange ainda Líbia, Somália e Iêmen. A queda de El Fasher, em outubro de 2025, consolidou o domínio da RSF sobre Darfur. Em novembro, o príncipe-herdeiro saudita teria pressionado Washington a endurecer com Abu Dhabi; Riad ampliou o apoio às SAF — que retomaram Cartum em janeiro de 2026 — e, com Egito e Somália, passou a negar sobrevoo a cargas emiradenses suspeitas de abastecer a RSF, além de intermediar a transferência de caças paquistaneses às SAF. Em 10 de fevereiro de 2026, uma investigação da Reuters confirmou uma base financiada pelos Emirados na Etiópia, treinando cerca de 4.300 combatentes da RSF.[12] O terceiro teatro projeta a fratura sobre o Mar Vermelho — por onde passam cerca de 12% do comércio global — e a organiza em dois eixos nítidos. Em 26 de dezembro de 2025, Israel tornou-se o primeiro membro da ONU a reconhecer a Somalilândia, em declaração conjunta apresentada como extensão dos Acordos de Abraão. A lógica é geográfica e de chokepoint (ponto de estrangulamento): a Somalilândia situa-se no Golfo de Áden, ao sul de Bab-el-Mandeb e em frente ao Iêmen — precisamente de onde os Houthis atacam a navegação. O reconhecimento abre caminho a uma base ou posto de escuta israelense em Berbera, voltado a monitorar ameaças houthis e iranianas e a assegurar o acesso ao Mar Vermelho, vital para o porto de Eilat. O gesto, porém, também mira a Turquia: para Israel, a Somália tornou-se zona de influência turca, e a Somalilândia, estável e não alinhada, serve para diluí-la. Os Estados Unidos não acompanharam de imediato; Somália, União Europeia e os Houthis rejeitaram o reconhecimento, estes últimos ameaçando tratar qualquer presença israelense como alvo legítimo.[13] É aqui que a Turquia se torna peça decisiva. Ancara — que invoca laços otomanos, mantém em Mogadíscio sua maior base militar no exterior (Camp TURKSOM) e intermediou a reaproximação entre Etiópia e Somália em 2024 — alinhou-se a Riad. Em fevereiro de 2026, Erdogan visitou Mohammed bin Salman e ambos firmaram uma declaração defendendo a unidade da Somália, repudiando a divisão do Iêmen e o governo paralelo da RSF e cobrando a saída israelense da Síria. Essa ocupação remonta à queda de Assad, em dezembro de 2024: Israel avançou além da linha de armistício de 1974, tomou o cume do Monte Hermon e cerca de 350 km² no sudoeste sírio, sob a justificativa de criar uma zona-tampão que impeça forças hostis junto ao Golã — a proteção da minoria drusa, invocada a partir dos confrontos de Suwayda (julho de 2025), é lida por analistas mais como alavanca de influência do que como motivação central. Consolidou-se assim uma “Coalizão do Status Quo” — Arábia, Egito e Turquia, somadas a Eritreia, Djibuti, Somália e Sudão —, voltada a conter o triângulo “revisionista” Emirados–Etiópia–Israel. A rivalidade do Golfo, em suma, transbordou para as duas margens do Mar Vermelho, e a Turquia migrou de competidora regional a âncora setentrional do campo saudita.[14] O Golfo deixou de ter um centro de gravidade único — e a fratura ganhou profundidade continental. Quadro 1 — Os “neutros” do reordenamento: Síria, Iraque, Omã e Jordânia Rotular de “neutros” os Estados que não se alinham a nenhum dos eixos achata quatro situações distintas. A Síria desertou: com a queda de Assad (dezembro de 2024) e a ascensão de al-Sharaa, expulsou a influência iraniana e gravita hoje para o campo saudita-turco-americano, ainda que travada pela ocupação israelense do sudoeste. O Iraque é um Estado penetrado: governo e milícias pró-Irã — as Forças de Mobilização Popular, dentro do próprio aparato estatal — fazem dele arena e alvo da guerra entre EUA e Irã. Omã é o mediador interessado: o canal indispensável com Teerã, hoje sob tensão no próprio CCG. A Jordânia é a aliada constrangida: abate mísseis iranianos rumo a Israel e hospeda forças americanas, mas precisa minimizar o gesto diante da própria opinião pública. Nenhum é, a rigor, neutro: cada um é um modo distinto de fazer hedging sob coação — e é nos Estados-tampão que a multipolaridade do G-Zero deixa de ser conceito e vira geografia. Fontes: The Soufan Center; INSS; Arab Center DC; Political Geography Now; Security Council Report (2025–2026). 6. A China entra — e seus limites É nesse vácuo que a China avança. Sua principal vantagem é o contraste: para uma região cansada da volatilidade americana, a ausência de sobressaltos já vale muito. Pequim chega com credenciais — intermediou em 2023 a normalização entre Arábia e Irã — e com peso econômico: desde 2024, o comércio entre o Golfo e a China superou o comércio entre o Golfo e o Ocidente.[15] Na crise de 2026, a China coassinou com o Paquistão a proposta de paz e deu o empurrão final para a trégua de abril; tanto o príncipe-herdeiro de Abu Dhabi quanto o chanceler saudita procuraram Xi Jinping pedindo um papel maior na desescalada. Riad já sonda um pacto de não agressão entre CCG e o Irã, inspirado no processo de Helsinque — e nenhuma potência externa está mais bem posicionada do que a China para mediá-lo. Aqui, porém, convém disciplina analítica e fugir do determinismo. Três qualificações importam. Primeiro, a China não substituirá os Estados Unidos como fiador de segurança: não tem bases nem pactos de defesa na região e prefere influência por comércio e mediação a porta-aviões.[16] Segundo, o que se observa não é uma virada de Washington para Pequim, mas a busca de autonomia estratégica por potências médias que enxergam a China como hedge necessário, não como uma nova América.[17] Terceiro, a guerra também feriu interesses chineses: as importações chinesas de petróleo do Golfo caíram cerca de 25% em março de 2026, na comparação anual.[18] Pequim ganha por estar presente quando os EUA faltam — mas não precisa, nem quer, assumir o ônus de policiar a região. 7. O elo EUA–Israel sob tensão Há um corolário do acordo de junho que merece registro à parte: a relação entre Washington e Israel. O memorando de entendimento que encerrou a guerra foi negociado por cima de Israel — um funcionário do governo israelense afirmou que o país sequer teve acesso ao texto, e o próprio Netanyahu admitiu, em 15 de junho, desconhecer os detalhes do documento, ainda que tenha exaltado a operação conjunta. O acordo, ademais, impõe o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano, onde as forças israelenses controlam cerca de 20% do território e juram não se retirar; e Trump, num gesto raro, repreendeu publicamente Israel pelas baixas civis e voltou a alfinetar Netanyahu. Israel, em suma, foi, em boa medida, contornado.[19] O atrito reverbera na política interna israelense. Críticos acusam Netanyahu de ter arrastado Trump para uma guerra prometendo mais do que ela poderia entregar, para agora ver-se dela retirado antes de Israel se sentir seguro; uma pesquisa do Israel Democracy Institute registrou que 57,5% dos israelenses consideram o quadro do acordo incompatível com a segurança do país. Bremmer chega a sugerir que o acordo pode selar o fim político de Netanyahu, com Lapid e Bennett rondando a sucessão. Aqui é possível arriscar uma direção: Netanyahu sai enfraquecido, a coalizão é frágil e uma eleição antecipada é risco concreto.[20] Quadro 2 — As rupturas internas no BRICS+ A guerra de 2026 expôs uma fratura no próprio campo que se imagina alternativo ao Ocidente. Irã e Emirados Árabes Unidos são, ambos, membros plenos do BRICS+ desde janeiro de 2024 — e, durante o conflito, o Irã atacou os EAU, o país do Golfo mais visado por seus mísseis e drones, levando Abu Dhabi a exigir reparações e a contenção dos programas iranianos. Não foi um caso isolado: no Sudão, dois membros do bloco patrocinam lados opostos da guerra civil (Egito ao lado da SAF; EAU ao lado da RSF), enquanto a fratura Arábia–EAU corre por dentro do mesmo agrupamento. O episódio confirma que o BRICS+ é um fórum de diversificação econômica, não um polo geopolítico coeso: a própria desordem do Golfo é, em parte, intramuros ao bloco. Para o Brasil, a leitura é direta — o BRICS é um instrumento de hedging, distante de objetivos estratégicos, não um contrapeso estratégico que se possa acionar contra Washington. Fontes: House of Commons Library; Council on Foreign Relations; Britannica (2026). Convém, porém, distinguir os planos. No nível pessoal (Trump–Netanyahu) e no tático (Irã, Líbano, Gaza), o atrito é real e pode produzir mudança no curto prazo — inclusive o descumprimento, por Israel, de partes do acordo. No nível estrutural, a cautela se impõe: a história sugere que desavenças entre presidentes e premiers não rompem a aliança — mesmo após o confronto amargo de 2015 sobre o acordo nuclear de Obama, Washington assinou o maior pacote de ajuda militar da história a Israel, de US$ 38 bilhões. O que muda é a textura da relação, que se torna mais transacional e menos automática. E há uma simetria reveladora: assim como os Estados do Golfo aprenderam, após Doha, que a garantia americana traz um ponto de interrogação, Israel aprendeu, com este acordo, que pode ser contornado quando os interesses divergem — a mesma lógica do G-Zero vista de ângulos opostos, o fiador que passa a agir por conta própria.[21] Figura 2: Diagrama de Relações do Oriente Médio Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA. 8. Síntese: o Golfo no “G-Zero”, mas, e o Brasil? O quadro que emerge é o de uma região deslizando para o que Bremmer chama de “G-Zero” — uma ordem em que nenhuma potência, ou grupo de potências, é ao mesmo tempo capaz e disposta a manter a ordem. Os Estados Unidos seguem como o ator militar mais forte do Golfo, mas seus parceiros já não confiam que usem essa força de modo previsível e em benefício deles. O resultado é a fragmentação: dois eixos rivais, a fratura saudita-emiradense corroendo o CCG e transbordando para o Mar Vermelho e o Chifre da África, o fim funcional da disciplina da OPEP e a multiplicação de hedges — nucleares (Paquistão), diplomáticos (China) e econômicos (diversificação acelerada). Vale antecipar como dois expoentes do realismo contemporâneo leriam este quadro. John Mearsheimer e Hal Brands concordariam com o diagnóstico de fundo — alianças transacionais, garantias em dúvida, Estados em hedge — e endossariam, em especial, a tese de que os Estados Unidos não cederiam o Hemisfério Ocidental a rival algum. Divergiriam, porém, na prescrição. Mearsheimer reduziria o Oriente Médio a um teatro secundário e descreveria o “G-Zero” regional menos como vácuo do que como retração racional: os Estados Unidos, sobreinvestidos no Golfo, fariam bem em transferir o ônus aos atores locais e voltar-se à Ásia, o que vem ao encontro da Estratégia Nacional de Segurança americana. Brands, ao contrário, leria a derrota iraniana como vitória da ordem liderada por Washington e recusaria o rótulo “G-Zero” como declinista — para ele, os Estados Unidos conservariam vantagens singulares e deveriam contestar o “eixo da desordem” (China, Rússia e Irã) em todos os tabuleiros, advertindo que a incoerência do BRICS+ não deveria ocultar a coordenação real entre Pequim, Moscou e Teerã. Ambos, contudo, convergiriam num ponto caro a esta análise: nenhum agrupamento alternativo constitui, hoje, um polo coeso.<[22] Para o Brasil e para as potências médias, a leitura estrutural é a que mais interessa — mas com uma ressalva decisiva. Na Europa, o diagnóstico do Golfo se repete: a confiabilidade americana deixou de ser presumível, e reduzir a dependência de Washington migrou de luxo a necessidade. Vale, nessas áreas, a racionalidade do hedging e da barganha autonomista — a mesma gramática que, guardadas as proporções, organizou historicamente o posicionamento brasileiro, do modelo de barganha varguista à autonomia pela diversificação. O Golfo não está escolhendo a China contra os Estados Unidos; está diversificando apostas num mundo sem fiador. No Hemisfério Ocidental, porém, o tabuleiro é outro — e aqui todo cuidado é pouco. O risco do Golfo é a ausência de um fiador; o do Brasil é a sua presença. Os Estados Unidos não tratam a América Latina como periferia negligenciável, mas como prioridade explícita e esfera de primazia inegociável — uma reatualização da Doutrina Monroe que o atual governo americano levou ao limite —, e não cederão essa hegemonia à China. A diferença não é retórica: traduz-se em coerção direta. Desde 2025, Washington impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, sancionou ministros do Supremo Tribunal Federal, designou facções como organizações terroristas estrangeiras e, às vésperas da eleição de outubro de 2026, foi advertido por Lula a não interferir no pleito — enquanto a participação americana nas exportações brasileiras caía ao menor nível histórico, 9,4% no primeiro trimestre. Neste hemisfério, inclinar-se ostensivamente para Pequim não diversifica risco: pode atrair retaliação.[23] A conclusão, para o Brasil, é dupla. A multipolaridade que se anuncia é real, e o hedge segue sendo a estratégia racional — mas, no quintal do hegemon, ele precisa ser ao mesmo tempo mais robusto e mais calibrado: profundo o bastante para preservar autonomia e margem de barganha, prudente o bastante para não provocar a única potência ainda capaz de impor custos diretos e imediatos ao país. O Golfo diversifica apostas num mundo sem fiador; o Brasil precisa diversificá-las sob o olhar atento de um fiador que se recusa a sair de cena. É essa assimetria — e não a simples troca de um hegemon por outro — a forma concreta que a multipolaridade assume na América do Sul. Fontes consultadas African Arguments. “The Horn and the Gulf: How a New Geopolitical Confluence is Emerging”. jan. 2026. https://africanarguments.org/2026/01/the-horn-and-the-gulf-how-a-new-geopolitical-confluence-is-emerging/ Al Jazeera. “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/features/2026/6/18/trump-netanyahu-tensions-have-israeli-and-us-leaders-clashed-before Al Jazeera. “‘Don’t meddle’: Lula calls on Trump to stay out of Brazil’s elections”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/6/17/dont-meddle-lula-calls-on-trump-to-stay-out-of-brazils-elections Al Jazeera. “Saudi-backed forces move on Aden as Yemen secessionist leader vanishes”. jan. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/1/7/saudi-led-coalition-strikes-yemen-says-stc-leader-al-zubaidi-has-fled Americas Society/Council of the Americas (AS/COA). “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”. jun. 2026. https://www.as-coa.org/articles/trump-latin-america-brazil-hit-tariffs-and-terrorist-designations American Enterprise Institute (AEI). “Fault Lines in the Horn of Africa”. fev. 2026. https://www.aei.org/research-products/report/fault-lines-in-the-horn-of-africa/ Arab Reform Initiative. “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”. mai. 2026. https://www.arab-reform.net/publication/paused-not-resolved-the-saudi-uae-rivalry-and-the-war-in-sudan/ Arab Center Washington DC. “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”. out. 2025. https://arabcenterdc.org/resource/israels-attack-on-qatar-and-the-failure-of-gcc-defense-cooperation/ Asia Times. “Gulf poised to move closer to China after the war”. abr. 2026. https://asiatimes.com/2026/04/gulf-poised-to-move-closer-to-china-after-the-war/ BISI. “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”. jun. 2026. https://bisi.org.uk/reports/saudi-arabia-at-a-crossroads-the-strategic-fallout-of-the-uaes-opec-exit Bremmer, I. “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”. 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[2]Arab Center Washington DC, “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”, out. 2025; The Times of Israel, set. 2025. [3]Sobre o telefonema e o pedido de desculpas (29 set. 2025): comunicado oficial da Casa Branca; The Times of Israel e The Jerusalem Post; o site Politico noticiou que o texto foi redigido pela Casa Branca, com aliado catariano presente no Salão Oval para manter Netanyahu “no roteiro”. Sobre a ordem executiva de garantia de segurança ao Catar: Arab Center Washington DC, out. 2025. Sobre o pacto saudita-paquistanês: The Times of Israel, 18 set. 2025, e Geopolitical Monitor, “From Doha to Riyadh”, out. 2025. [4]Brookings Institution, “Beijing’s approach to the conflict in Iran and its implications for China”, mai. 2026; verbete “2026 Iran war ceasefire”, Wikipedia (consultado em jun. 2026). [5]Bremmer, op. cit. (GZERO/Foreign Affairs, jun. 2026). A expressão “maior erro de política externa dos EUA desde a Guerra do Iraque” é juízo interpretativo do autor. [6] Visão 2030 (Vision 2030): programa estratégico lançado pela Arábia Saudita, em 2016, pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman, para diversificar a economia do reino para além do petróleo — ampliando turismo, tecnologia, entretenimento e indústria — ancorado no fundo soberano PIF e em megaprojetos como NEOM. Sua execução depende de receitas petrolíferas elevadas e de estabilidade regional. [7]House of Commons Library, “The UAE exits OPEC and Saudi-UAE tensions in 2026”, jun. 2026; European Council on Foreign Relations (ECFR), “From partners to rivals: what the Saudi-UAE rupture means for Europeans”, jan. 2026. [8]Bloomsbury Intelligence and Security Institute (BISI), “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”, jun. 2026; Horn Review, mai. 2026. [9] Bloqueio ao Catar (2017): em junho de 2017, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito romperam relações e impuseram bloqueio diplomático, comercial e de transporte ao Catar, acusando-o de apoiar grupos islamistas e de proximidade excessiva com o Irã. A crise só foi encerrada em janeiro de 2021, pelo Acordo de Al-Ula, sem que Doha atendesse às principais exigências. [10]Impact Policy Group, “What’s Behind the Saudi-UAE Rift and How Far Will It Go?”, jan. 2026; ECFR, op. cit. [11]“2025 Southern Yemen offensive” (Wikipedia, consultado em jun. 2026); Al Jazeera, CNN e The Times of Israel (dez. 2025–jan. 2026); Impact Policy Group, jan. 2026, que qualifica o episódio como o primeiro confronto armado direto entre os dois. [12]Arab Reform Initiative, “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”, mai. 2026; ECFR, “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea”, fev. 2026; International Crisis Group, mar. 2026; American Enterprise Institute (AEI), “Fault Lines in the Horn of Africa”, fev. 2026. A investigação da Reuters sobre a base na Etiópia é de 10 fev. 2026. [13]War on the Rocks, “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”, jun. 2026; The Washington Institute, “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”; Orion Policy Institute, jan. 2026; Ynetnews e Responsible Statecraft (dez. 2025–jan. 2026). [14]Horn Review, “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”, jan. 2026, e “Shaping the Horn: Turkey’s Strategic Role”, mar. 2026; AEI, op. cit.; African Arguments, jan. 2026. [15]Atlantic Council e Arab Gulf States Institute (AGSI) sobre o acordo Arábia–Irã intermediado por Pequim em março de 2023; Middle East Council on Global Affairs (sobre a ultrapassagem do comércio Golfo–Ocidente pelo comércio Golfo–China em 2024). [16]Chatham House, “China will benefit from the Iran war, regardless of any deal between Trump and Tehran”, mai. 2026. [17]Asia Times, “Gulf poised to move closer to China after the war”, abr. 2026. [18]Brookings, op. cit. (mai. 2026): queda de cerca de 25% nas importações chinesas de petróleo do Golfo em março de 2026, na comparação anual. [19]NBC News, “Israel cut out of Iran deal as Trump keeps deriding Netanyahu in public”, jun. 2026; Fox News, “Netanyahu’s Israel grapples with Trump-Iran deal”, 15 jun. 2026; Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions”, 18 jun. 2026. [20]PBS NewsHour, “Israelis angry over U.S.-Iran peace deal lash out at Netanyahu”, jun. 2026; pesquisa do Israel Democracy Institute citada pela NBC News; Ian Bremmer, “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”, GZERO Media, 27 mai. 2026. [21]Sobre o precedente de 2015 e o pacote de US$ 38 bilhões: Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”, 18 jun. 2026. A leitura da simetria G-Zero é de Bremmer e Maksad (Foreign Affairs, jun. 2026), op. cit. [22] Para as formulações de referência, ver John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001; ed. ampliada, 2014); e Hal Brands, The Twilight Struggle (2022) e, com Michael Beckley, Danger Zone: The Coming Conflict with China (2022). [23]Sobre a escalada EUA–Brasil (2025–2026): Reuters (tarifas de 50% vinculadas ao caso Bolsonaro); Americas Society/Council of the Americas (AS/COA), “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”, jun. 2026; Al Jazeera; ABC News e The Washington Times (advertência de Lula sobre interferência eleitoral, 17 jun. 2026). O dado de 9,4% — menor participação histórica dos EUA nas exportações brasileiras no 1º trimestre — é citado por Lula via AS/COA. Rio de Janeiro - RJ, 25 de junho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/outros-produtos/analise-da-redistribuicao-do-poder-no-golfo-persico-pos-guerra-do-ira-do-cessar-fogo-a-era-do-g-zero-regional.
The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces
Autor: Edward N. Luttwak e Eitan Shamir Resenhado por Maj Cav Marcelo Eduardo Deotti JúniorAluno do Curso de Comando e Estado-Maior, mestrando do PPGCMe pesquisador do Laboratório de Ciências Militares. O presente texto constitui um convite à leitura do livro The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces, escrito pelo estrategista Edward N. Luttwak e por Eitan Shamir. A obra foi publicada pela Harvard University Press em 2023, e sua versão em português foi lançada pela BIBLIEX, em 2025. A obra investiga os motivos pelos quais as Forças de Defesa de Israel (IDF), pertencentes a um país historicamente modesto em recursos e demografia, tornaram-se uma das instituições militares mais inovadoras do mundo. “The Art of Military Innovation” é uma leitura recomendada para militares, pesquisadores de defesa e de gestão do conhecimento, e para formuladores de políticas públicas voltadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O argumento central da obra postula que a estrutura institucional e o assessoramento de baixo para cima, combinados às escassas condições materiais e demográficas, funcionam como os motores da “macroinovação” nas IDF. A necessidade imperativa de lutar em desvantagem numérica induziu à quebra de paradigmas para garantir a sobrevivência e, por meio da cultura da inovação, buscou o desenvolvimento de medidas disruptivas que forçaram seus inimigos a criar contramedidas inéditas, colocando a IDF em vantagem nesse processo. A obra apresenta diversas inovações das IDF. Trata-se da apresentação de muitas soluções próprias das tropas israelenses para resolver problemas militares complexos, a exemplo de modificações doutrinárias, do desenvolvimento do Carro de Combate Merkava, do Sistema de Defesa Iron Dome, do Sistema de Proteção Ativa Trophy, entre outras. Para apresentá-las, o livro é dividido em dezesseis capítulos que as detalham. A resenha a seguir levanta os principais exemplos práticos e organizacionais de inovação abordados: O Capítulo 1 descreve a formação das FDI sob fogo cruzado, destacando sua inovação estrutural primordial: a criação de uma força integrada (sem divisão de comando entre Exército, Marinha e Aeronáutica) estruturada em torno de reservistas e com conscrição feminina. Dessa forma, a integração interforças eliminou a rivalidade e permitiu que as inovações fluíssem sem o boicote de interesses corporativistas, viabilizando o pioneirismo no desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados (VANT). Salienta-se que Azevedo et al. (2021) reforçam essa perspectiva no contexto brasileiro, destacando que a integração em Ciência e Tecnologia (C&T) entre o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não é uma realidade devido à escassez de recursos que leva a uma disputa entre as Forças Singulares. No Capítulo 2, os autores mostram como a escassez forçou inovações conceituais. Impossibilitada de adquirir uma frota diversificada, a Força Aérea Israelense demandou à fabricante francesa Dassault que transformasse o Mirage IIICJ em uma plataforma capaz de lançar bombas, inventando assim o conceito moderno do caça multitarefa. Naquele período, a prática comum era a utilização de caças e bombardeiros, cada um com sua missão tática. Ao perceber que haveria a possibilidade de integrar essas funções, os israelenses foram os pioneiros a utilizar uma mesma aeronave para missões distintas, reduzindo custos com aquisições e com o ciclo de vida desses produtos de defesa. Nesse sentido, a Defesa brasileira poderia estimular o desenvolvimento de equipamentos de uso dual e multitarefa, a exemplo da Viatura Blindada Multitarefa 4x4 Guaicurus e da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal 6x6 Guarani, ambas com aplicação para tropas de naturezas distintas e com possibilidade de adaptação para diferentes versões, contribuindo para a redução de custos de aquisição e melhorando a logística de Defesa. O Capítulo 3 analisa o corpo de oficiais jovens de Israel. O princípio de carreiras curtas achata a hierarquia e aloca responsabilidades a oficiais na casa dos vinte e trinta anos. Jovens comandantes mitigaram o que os autores chamam de “dissonância temporal”, que consiste no apego aos sistemas obsoletos do passado, facilitando a aceitação orgânica de novas tecnologias. Destaca-se que diversos autores que estudam as teorias da inovação, como Adamsky (2010), Lee (2016) e Azevedo et al. (2021), indicam que as gerações mais recentes têm mais propensão à busca de inovações. A descentralização é o foco do Capítulo 4, que aborda a “inovação vinda de baixo”. A doutrina das ordens por missão incentiva a iniciativa de soldados comuns. Como exemplo, o livro cita o rigoroso programa Talpiot (conhecido como o “comando de cérebros”), no qual jovens recrutas operam, simultaneamente, como combatentes e desenvolvedores de novas tecnologias. Nesse contexto, os planejadores brasileiros também poderiam buscar, na inspiração dos subordinados, a iniciativa para as atualizações doutrinárias e até mesmo de equipamentos, contribuindo para a evolução das Forças Armadas. Salienta-se que o Programa Forças Blindadas, junto ao Sistema de Ciência e Tecnologia do EB, desenvolveu adaptações para o blindado Guarani, na versão Morteiro Médio, que foram inspiradas em soluções de usuários do corpo de tropa, o que serve de boa prática para as Forças Armadas. Adicionalmente, o Capítulo 5 explora o “exército de reservistas inovadores”. Devido às peculiaridades do contexto geopolítico de Israel, há a necessidade de manter um efetivo pronto maior do que o Exército Permanente seria capaz de fornecer. Nesse contexto, a conscrição e a mobilização possuem características próprias. Diferente de forças puramente ativas, as FDI absorvem as habilidades da economia civil as quais contribuem para a inovação. O grande exemplo foi a introdução visionária do primeiro computador israelense (o Weizac) e do Philco TRANSAC S-2000 na logística militar, já em 1959, trazidos por reservistas que eram matemáticos no Instituto Weizmann. No caso brasileiro, o sistema de mobilização tem potencial para identificar a expertise de oficiais e sargentos temporários, alunos de CPOR e NPOR, atiradores e reservistas espalhados pelo país que se destaquem em suas carreiras, principalmente na área de Ciência, Tecnologia e Inovação. A sobreposição entre a Defesa e a base industrial é detalhada no Capítulo 6. Comitês que alongam o processo de aquisição são substituídos por uma comunicação direta entre clientes militares e provedores da indústria, acelerando os projetos de inovações disruptivas, gerenciadas por órgãos como a MaFat e a Rafael Advanced Defense Systems, responsável pela criação de mísseis como o Spike, o Popeye e o Python. O Capítulo 7 ilustra o desenvolvimento acelerado. O primeiro grande exemplo foi a rápida criação do míssil antinavio Gabriel e sua integração em barcos de ataque rápido (classe Sa'ar), aprimorando o poder naval tradicional. Posteriormente, os autores detalham o peculiar desenvolvimento do Domo de Ferro (Iron Dome), criado em apenas quatro anos, por meio de ousadia administrativa e de atalhos em processos convencionais. O Iron Dome é um sistema de Defesa que surgiu da necessidade de proteção contra o lançamento de mísseis e foguetes inimigos. Sua criação teve início pela iniciativa de Danny Gold, chefe da unidade de pesquisa e desenvolvimento da MaFat (Administração para o Desenvolvimento de Armas e Infraestrutura Tecnológica), um órgão conjunto do Ministério da Defesa e das FDI. Diante da urgência de proteger os civis de bombardeios constantes, enfrentando a resistência burocrática e a falta de financiamento por parte dos escalões superiores, Gold decidiu iniciar o desenvolvimento do sistema em agosto de 2005. Para contornar a falta de recursos e a ausência de aprovação oficial, ele persuadiu os executivos das empresas de defesa estatais Rafael e Elta a adiantarem fundos próprios para o projeto. Além disso, implementou um método de desenvolvimento, no qual as fases de pesquisa, engenharia e produção foram realizadas simultaneamente, ao invés de sequencialmente, comprimindo de forma considerável o tempo de concepção da arma e permitindo que o equipamento entrasse em operação, com eficiência comprovada em combate, em menos de seis anos de projeto. A disrupção do paradigma de gênero é o tema do Capítulo 8. Devido à restrição demográfica, as FDI transformaram mulheres nas principais instrutoras de combate, inclusive de veículos blindados, e criaram unidades mistas de fronteira de alta eficácia, como o Batalhão Caracal, maximizando todo o capital humano disponível. Da mesma forma, as Forças Armadas do Brasil estão ampliando o ingresso feminino, com destaque para o recente Serviço Militar Inicial Feminino (SMIF), que passou a incorporar recrutas mulheres e pode potencializar o emprego dos recursos humanos em atividades ligadas à Defesa. O Capítulo 9 lida com a inovação doutrinária. Ao descartar a burocrática doutrina de desgaste britânica em favor da veloz guerra de manobra e do estilo furtivo da força Palmach, Israel adaptou técnicas operacionais para prevalecer contra massas inimigas. Isso fomentou inovações como os comandos navais da Shayetet 13, que adaptaram táticas dos homens-rã italianos da Segunda Guerra Mundial. Do triunfo ao fracasso aéreo, o Capítulo 10 disseca a Operação Moked de 1967. Nela, o brilhantismo tático foi coroado por uma inovação técnica modesta, mas vital: a bomba penetradora de pistas de voo (PaPaM), que aniquilou a força aérea árabe no solo. Contudo, a vitória mascarou falhas frente aos mísseis antiaéreos (SAM) soviéticos, resultando em pesadas perdas na Guerra de 1973. A resposta a esse trauma é relatada no Capítulo 11, com a Operação Artzav 19, em 1982. Através de um salto tecnológico colossal, as FDI utilizaram pioneiramente drones para vigilância em tempo real (Scout/Mastif), mísseis antirradiação e, como inovação máxima, o “Periscope”, o primeiro sistema computadorizado do mundo empregado no comando e controle de uma batalha aérea. O Capítulo 12 analisa a “produção em massa de excelência” por meio das unidades de elite. Desde a criação da Unidade 101, nos anos 1950, Israel usou táticas de operações especiais para elevar o padrão de todo o exército convencional. A inovação mais recente citada é a “Ghost Unit”, projetada para mitigar a burocracia e integrar instantaneamente inteligência, poder aéreo, cibernético e terrestre. Esta cultura é apresentada no Capítulo 13 pelos “empreendedores militares”: oficiais de baixa patente que persistiram de forma obstinada para fundar unidades disruptivas, tais como Avraham Arnan, com a Unidade 269 (Sayeret Matkal, inteligência profunda e resgate de reféns) e Muki Betzer, fundador da Unidade 5101 (Shaldag, comandos operando designadores a laser para a Força Aérea). Na tropa blindada (Capítulo 14), a inovação tomou a forma de improviso e rigor disciplinar sob o comando do general Israel Tal, atualizando e integrando antigos chassis dos carros de combate Sherman e Centurion. Foi nesse ambiente ágil que as FDI introduziram a pioneira blindagem reativa explosiva (ERA), desenvolvida após 1973 com o físico alemão Manfred Held, reconfigurando a proteção blindada mundial. O ápice dessa jornada é o Capítulo 15, focado na viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) autóctone Merkava. Concebida do zero, a plataforma inverteu dogmas ocidentais ao alocar o motor na parte frontal para blindar a tripulação. Esse pensamento gerou inovações de sobrevivência inigualáveis, como o sistema de defesa ativa antimíssil Trophy (Me'il Rooakh) e os inteligentes projéteis multifunção Kalanit e Hatzav, otimizados para guerra urbana moderna. Por fim, o Capítulo 16 aborda as unidades de Inteligência e Cyber: a Unidade 8200 (SIGINT/Cyber) e a Unidade 81 (P&D sob demanda). Aqui surgiram as armas cibernéticas Stuxnet e Flame, além de tecnologias de defesa civil para o combate à COVID-19. O capítulo relata até a inovação em recursos humanos no programa Roim Rachok, que aloca soldados com Transtorno do Espectro Autista na Unidade 9900 para análises de inteligência geoespacial. No contexto brasileiro, pode-se depreender uma miríade de ensinamentos colhidos pelas experiências relatadas no estudo de caso de Israel. Há exemplos de diversos setores como o desenvolvimento de produtos de defesa, a criação de organizações militares e as inovações doutrinárias. Acadêmicos como Azevedo et al. (2021) e Borba (2020, p. 21) afirmam que “a cultura de inovação é identificada como um dos principais determinantes para a performance inovativa de uma organização”. Ao longo do livro, pode-se verificar que esse aspecto é amplamente incentivado nas FDI. Dessa forma, seria viável incentivar um ambiente inovador no Exército Brasileiro, contribuindo para o aprimoramento da cultura organizacional no que concerne ao desenvolvimento científico e tecnológico militar. Em suma, ao apresentar as evidências em sua conclusão, The Art of Military Innovation converge de forma clara com o campo acadêmico das Ciências Militares e da tecnologia de defesa. Luttwak e Shamir ensinam que a constante vulnerabilidade e o desapego aos rígidos regulamentos garantem que as Forças de Defesa Israelenses continuem a assimilar e a antecipar o futuro da guerra. REFERÊNCIAS ADAMSKY, Dima. The culture of military innovation: the impact of cultural factors on the revolution in military affairs in Russia, the US, and Israel. Stanford: Stanford University Press, 2010. AZEVEDO, Carlos Eduardo Franco; BORBA, Gabriela Alves de; ARAÚJO, Laércio Eduardo de. Desafios para a política de inovação no setor de defesa brasileiro: óbices e barreiras culturais e estruturais. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 121-160, jan./abr. 2021. BORBA, Gabriela Alves de. A influência da cultura de inovação no programa rádio definido por software de defesa (RDS-DEFESA). 2020. 116 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2020. Rio de Janeiro - RJ, 09 de junho de 2026.
Políticas de inovação: Porque alguns países são melhores que outros em Ciência e Tecnologia
Autor: Mark Zachary Taylor Resenhado por Carlos Wellington Leite de AlmeidaPós-Doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (IMM-ECEME).Doutor em Administração (UDE-Uruguai), Doutor em Estudos Marítimos (EGN) e Mestre em Ciência Política (UnB).Auditor Federal do Tribunal de Contas da União (TCU). O presente texto constitui um convite à leitura do livro “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor[1]. Publicado, originalmente, pela Oxford University Press, “The Politics of Innovation” recebeu tradução de Adeliz de Siqueira Ferreira e foi editado em português pela Biblioteca do Exército Editora (Bibliex), em 2023. Desde então, passou a ser ofertada ao público brasileiro a ideia do autor acerca dos motivos pelos quais alguns países se destacam em suas políticas de inovação tecnológica, assumindo a liderança de complexos processos globais de gestão do conhecimento, enquanto outros permanecem à margem desse poderoso movimento. “Políticas de inovação” é leitura indicada para todos aqueles que se dedicam ao estudo das políticas públicas voltadas à ciência, à tecnologia e à inovação (CT&I). A obra destaca a conexão entre os incentivos à inovação, os modelos econômicos, as estratégias de desenvolvimento e as políticas de segurança e defesa. Para pesquisadores das áreas de economia, ciência política e defesa, a recomendação de leitura se transforma quase em uma convocação. O argumento central defendido por Mark Zachary Taylor é que o êxito de determinados países em inovação tecnológica está relacionado ao conceito de “insegurança criativa”. Segundo o autor, esse fator é o verdadeiro motor dos altos índices de inovação nacional observados em nações que lideram os processos globais de desenvolvimento em CT&I, definindo “insegurança criativa” como: “A condição de sentir mais as ameaças advindas de perigos externos do que a que é propiciada por rivais domésticos [...] diferença positiva entre as ameaças advindas da competição econômica ou militar originada no exterior em comparação aos perigos fomentados pelas rivalidades político-econômicas internas” (Taylor, 2023, p. 37). A teoria da “insegurança criativa” descreve a interação entre duas forças opostas — rivalidades internas e ameaças externas — ambas pautadas pela competição e determinantes para os índices de inovação nacional. Entretanto, enquanto os conflitos domésticos alimentam a resistência política à inovação, os riscos externos tendem a ampliar o apoio às políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Nesse contexto, a inovação seria vista pelas partes domésticas em conflito como a principal forma de defesa contra ameaças econômicas vindas do exterior, bem como contra ameaças militares externas (Taylor, 2023, p. 370-373). A “insegurança criativa” é apresentada como o núcleo oculto da chamada “caixa-preta” da inovação, funcionando como o elemento invisível a distinguir os países que alcançam êxito daqueles que não obtêm resultados expressivos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Isso porque, mesmo quando um país dispõe de instituições sólidas, economias competitivas e recursos financeiros para sustentar políticas científicas de grande escala, pode não avançar significativamente na inovação se carecer desse motor essencial. A “caixa-preta” que conecta insumos — como investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e universidades — aos resultados, exemplificados pelo crescimento econômico e pela produtividade, seria, justamente, a “insegurança criativa” (Figura 1). Figura 1 - A caixa-preta da inovação Fonte: Taylor, 2023, p. 71 Nos estudos relacionados à defesa, destaca-se a ligação entre inovação tecnológica, avanço científico e políticas de segurança e defesa. Para Taylor, as estratégias de segurança nacional atuam como parceiras fundamentais da ciência e da tecnologia, na busca por inovação. O impacto das políticas de segurança e defesa seria ampliar a capacidade de um país em garantir sua própria proteção, por meio de investimentos intensivos em CT&I. Embora reconheça que a tecnologia, por si só, não assegura a supremacia militar, o autor argumenta que o desenvolvimento de tecnologias avançadas, ainda que não garanta a vitória em um conflito, aumenta significativamente as chances de êxito (Taylor, 2023, p. 376-377). “Políticas de Inovação” oferece uma análise realista sobre o que está por trás dos grandes resultados nacionais em inovação tecnológica. A “teoria da insegurança criativa” não nega a relevância de modelos econômicos adequados, de políticas públicas eficazes ou da construção de instituições sólidas para o avanço em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Contudo, o autor enfatiza que o diferencial decisivo está na experiência da “insegurança criativa” vivida pelos países que alcançam os maiores índices de inovação. Nesse sentido, sua visão se aproxima de outros estudiosos que defendem a competição como elemento essencial para o progresso científico e tecnológico das nações (Porter, 1998; Chesbrough, 2006; Christensen, 2011). A ênfase nas ameaças econômicas e militares evidencia o tipo de competição que sustenta a “insegurança criativa” e a teoria que a acompanha. Trata-se de riscos de caráter internacional, que se diferenciam das disputas internas vivenciadas dentro dos países. Nesse contexto, ao afirmar que a “insegurança criativa” contribui para reduzir ou neutralizar os conflitos domésticos e, assim, favorecer a inovação, o livro transmite a ideia de que superar rivalidades internas é condição indispensável para o avanço científico e tecnológico. Essa perspectiva se aproxima de autores que defendem a pacificação nacional como requisito essencial para o desenvolvimento econômico e social de uma nação (Chatterjee; Gassier; Myint, 2023; Miranda, 2025). A relação entre políticas de segurança e defesa e a inovação tecnológica possui especial relevância para pesquisadores de áreas como ciência política, relações internacionais e estudos de defesa. “Políticas de Inovação” ressalta de maneira clara os efeitos positivos decorrentes da pesquisa e do desenvolvimento voltados à defesa, que beneficiam diversos setores da economia, em especial o industrial. Essa perspectiva se insere na corrente de pensamento que considera os investimentos em defesa como uma política pública altamente favorável à CT&I, já que as novas tecnologias podem ser transferidas do setor de defesa para outros segmentos e vice-versa, em um processo de troca bilateral de informações que impulsiona o progresso nacional. Essa associação está em consonância com estudos amplos que relacionam diretamente as políticas de segurança e defesa ao avanço tecnológico (Kaldor, 2001; Krause, 2009; Bitzinger, 2022). No que se refere ao Brasil, as considerações acerca dessa associação entre políticas de defesa e políticas de inovação se mostram extremamente relevantes e muito atuais. Os esforços pelo desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID), em especial, têm sido muitas vezes frustrados pelo entendimento insuficiente (ou inexistente) de que os investimentos na área de defesa têm um grande potencial de transbordamento de conhecimentos e tecnologias para outros setores da atividade econômica nacional, sobretudo os setores industriais. Esse (des)entendimento da relação entre defesa, ciência, tecnologia e inovação pode trazer prejuízos irremediáveis ao Brasil ao consolidar uma tendência de dependência tecnológica do exterior, bem como à cristalização da falta de soberania tecnológica, assim comprometendo boa parte da expectativa brasileira de se posicionar entre os países tecnologicamente mais inovadores. Ao adotar como argumento central a ideia de que os países mais bens sucedidos em CT&I tiveram na “insegurança criativa” o verdadeiro impulso para seus elevados índices de inovação, o autor alerta, na verdade, para a incapacidade perceptiva de muitos policy-makers. Isso porque, como se destaca em diversas passagens da obra, as ameaças geradoras estão por todo lado, seja nas questões ambientais, seja na área da saúde, por exemplo. O fato de a obra destacar as ameaças de natureza econômica e militar não reduz a análise realizada a esses dois tipos de ameaça. A verdade é que países que se sentiram ameaçados dos pontos de vista econômico e militar dispararam na busca de soluções tecnológicas inovadoras para compensar suas desvantagens, de forma a permitir a continuidade de sua atuação no cenário internacional e, em alguns casos, a continuidade de sua própria existência. Assim, o convite à leitura de “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor se põe ao lado de um apelo por que se queira, realmente, entender a lógica da relação entre defesa e tecnologia. Um apelo a que sejam postos de lado os preconceitos de natureza política, filosófica ou de outra ordem, para que se possa absorver deste importante livro, disponibilizado ao público brasileiro pela Bibliex, a noção de que a “insegurança criativa” faz parte do caminho evolutivo do desenvolvimento tecnológico nacional. A “teoria da insegurança criativa”, nesse sentido, coloca-se como uma nova forma de se raciocinar sobre a inovação tecnológica que pode ser obtida em um contexto de união nacional e superação de disputas políticas, econômicas e sociais danosas ao crescimento científico e tecnológico do Brasil. Referências bibliográficas BITZINGER, Richard A. The 4th industrial revolution, military-civil fusion, and the next RMA. Insight, v. 24, n. 3, p. 11-22, Turkey, Summer, 2022. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/48733373. Acesso em: 11 abr. 2026. CHATTERJEE, Sherya; GASSIER, Marine; MYINT, Nykolas. Leveraging social cohesion for development outcomes. Policy research working paper, n. 10417, World Bank, 2023. Disponível em: https://www.socialcohesion.info/fileadmin/user_upload/Library/PDF/Leveraging_Social_Cohesion_for_Development_Outcomes.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026. CHESBROUGH, Henry. Open business models: how to thrive in the new innovation landscape. Brighton: Harvard Business Review Press, 2006. 256p. CHRISTENSEN, Clayton Magleby. O dilema da inovação: quando as novas tecnologias levam empresas ao fracasso. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2011. KALDOR, Mary Henrietta. New and old wars: organized violence in a global era. Stanford: Stanford University Press, 2001. Reprinted. KRAUSE, Keith. Arms and the state: patterns of military production and trade. 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[1] Mark Zachary Taylor é professor do Georgia Institute of Technology, Doutor em Ciência Política pelo Massachussets Institute of Technology, Mestre em Relações Internacionais pela Yale University e graduado em Física pela Berkeley University. Em 2024, recebeu os prêmios Distinguished Teaching Award e Innovation in Co-Curricular Education Award, por sua excelência acadêmica. Foi titular da Seção de Políticas para a Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da APSA. Rio de Janeiro - RJ, 21 de maio de 2026.
Análise sobre a tomada de decisão em ambiente de incertezas
Apresentação O ano letivo teve início na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e nossos alunos, civis e militares, assistiram, no dia 5 de fevereiro do corrente, à aula magna do Gen Ex R/1 Richard Fernandes Nunes, atualmente Diretor-Geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Na sua conferência, o antigo comandante da ECEME reforçou as ideias-força que são a tônica para o decisor na arte da guerra, traduzidas nos verbos: pensar, criar, decidir e agir, que há mais de 100 anos vêm sendo norteadores dos estudos nos cursos regulares da Escola. O desafio para as atuais gerações de discentes passa a ser como direcionar a tomada de decisão em uma conjuntura complexa como a atual, na qual a dimensão informacional ganhou protagonismo, e muitos dos problemas estão no campo do incognoscível. O ambiente empresarial, que também enfrenta as mesmas dificuldades, tem criado novas formas de gestão para atuar no campo das incertezas. Como exemplo, pode ser citada a metodologia Lean Startup, que une o design, a prototipação e a experiência do cliente, inverte a ordem do conhecido ciclo PDCA, entendendo que a fase do planejamento só deve iniciar quando se conhece realmente o problema a ser enfrentado. No campo das Ciências Militares, o processo de tomada de decisão tem sido objeto de estudos, muitos deles destacando o papel das tecnologias disruptivas e as competências próprias que devem acompanhar o decisor. A pergunta que fica é se as Instituições podem ter mecanismos próprios que viabilizem esse processo em alguma medida, criando seus ecossistemas que favoreçam a atuação dos decisores. O OMPV selecionou três artigos do General Richard que analisam e propõem ferramentas institucionais para criar o ambiente favorável à tomada de decisão, os quais nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o tema. 1. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito Os preceitos da comunicação estratégica passaram a ser efetivamente adotados pelo Exército Brasileiro a partir da constatação da conveniência de se expandir os ramos da tradicional comunicação social praticada – relações públicas, assessoria de imprensa e divulgação institucional – por meio da sincronização, da integração e do alinhamento das mídias sociais operadas no âmbito da Força, bem como da sistematização das relações institucionais estabelecidas em todos os níveis. Tudo de acordo com os objetivos constantes no Planejamento Estratégico do Exército.[1] As discussões levadas a cabo para a implementação dessa visão foram abrangentes e inéditas, devido à dificuldade de obtenção de literatura capaz de considerar as condicionantes específicas da expressão militar de um país com a trajetória histórica e as dimensões geográfica, política e estratégica do Brasil. Tentativas de adaptação de doutrinas estrangeiras, particularmente praticadas em blocos e alianças multinacionais, definitivamente não fornecem soluções aplicáveis à nossa realidade sui generis. Os projetos interdisciplinares conduzidos pelo Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), na ECEME, em consonância com as diretrizes do Comandante e as orientações do Estado-Maior do Exército (EME), foram fundamentais para o aprofundamento do tema. O órgão de direção operacional e os de direção setorial e de assistência direta e imediata aportaram contribuições. Naturalmente, coube ao CCOMSEx, órgão central do Sistema de Comunicação Social do Exército, papel de relevo na consolidação dos trabalhos. Como resultado de todo esse esforço, vários documentos foram elaborados. Algumas portarias do Comandante do Exército e do EME, como a que instituiu as regras para o emprego das mídias sociais, começaram a ser publicadas em 2019. Mas foi no ano seguinte que o arcabouço normativo se completou. A Portaria nº 1.237-C Ex, de 23 de novembro de 2020, que aprova a Diretriz Geral de Comunicação Estratégica no Âmbito do Exército, consolida e integra conceitos, responsabilidades e ações a realizar. Vencida a etapa da sistematização, o momento seguinte é o da concretização das ideias em objetivos, ações, metas e indicadores. Para isso, há necessidade de acurada análise do ambiente informacional. E essa tarefa, diante dos desafios vivenciados neste início de terceiro milênio, requer maturidade estratégica. A dificuldade de interpretação da conjuntura demanda permanente consciência situacional para o entendimento do nível adequado de posicionamento à tomada de decisão. Uma força, que transita dos níveis tático e operacional do campo de batalha aos político e estratégico da definição de objetivos organizacionais e da obtenção dos meios correspondentes, impõe aos seus agentes da comunicação estratégica a realização de constante ESAON[2]. A propósito do uso deste acrônimo tão peculiar ao Exército, cabe ressaltar que o recurso a esse expediente para simplificar o entendimento e a memorização de conceitos vem de longa data, mas tem-se intensificado com o volume extraordinário de informações disponibilizado na Era do Conhecimento. Por serem úteis ao tema deste artigo, serão discutidos o VUCA e o BANI. O chamado Mundo VUCA (volátil, “uncertain”/incerto, complexo e ambíguo) popularizou-se na virada do milênio, sintetizando a imprecisão de cenários gradativamente aprofundada no pós-guerra. Esse conceito tem sido empregado em trabalhos acadêmicos, no meio corporativo e pelos mais variados órgãos e agências, incluindo-se as forças militares. Lidar com as ideias de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para se estruturar a comunicação estratégica do Exército é como realizar o ESAON em terreno movediço. O importante agora pode tornar-se rapidamente irrelevante, o que é neste momento pode não ser daqui a pouco, as conexões são múltiplas, o inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo, aliás, quem é amigo de quem? E daí? Como sair desse atoleiro? O estudo do lanço[3], neste caso, perde qualquer noção de simplicidade. Analisar essas características pode ser útil, se não para a obtenção de balizamento mais claro ao planejamento, pelo menos para se evitar certas armadilhas capazes de turvar o pensamento e as atitudes. Se é lícito supor que estamos diante de ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, é indispensável que os diversos sistemas que compõem a Instituição sejam integrados, alinhados e sincronizados. Se entendermos a comunicação estratégica como um sistema de sistemas, podemos reduzir significativamente as ameaças e potencializar o aproveitamento das oportunidades, com vistas à consecução dos objetivos estratégicos do Exército. Mas o que parecia complicado ficou ainda mais instigante. Em 2018, o norte-americano Jamais Cascio, a partir da premissa de que o Mundo VUCA não favorecia mais o entendimento acerca da conjuntura atual, cunhou o acrônimo BANI (“brittle”/frágil, ansioso, não linear e incompreensível), que também logrou se popularizar, impulsionado pela perplexidade causada pela pandemia da COVID-19. Em sua visão, o Mundo VUCA admite a ideia de planejamento, desde que considerada a interligação de múltiplos sistemas; quando isso não funciona, surge o Mundo BANI, para expressar o caos resultante e nos fazer refletir sobre a necessidade de esboçar cenários capazes de nos proporcionar caminhos plausíveis a seguir. Ainda assim, cabe a pergunta: e daí? Como lidar com isso? Longe de cair em desânimo, é necessário aprimorar nosso ESAON, nossa capacidade de interpretação da realidade, a fim de se evitar a mera aceitação dessas características globais como condicionantes incontornáveis. Se o mundo é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, enfim, caótico, é necessário desenvolver resiliência e flexibilidade compatíveis para o enfrentamento de múltiplos cenários com um mínimo de orientação quanto à melhor trajetória a adotar. E a comunicação estratégica se impõe como absolutamente necessária a uma Força que não pode se fragilizar, que deve reagir com sereno rigor, sem dar vez à ansiedade, que deve lidar com um amplo espectro de atuação, e que precisa fazer-se compreender pelos diversos públicos de interesse. Se os mundos VUCA e BANI ainda não tiverem despertado suficiente inquietação, que tal uma provocação ao pensamento crítico? No que diz respeito ao entendimento da dimensão informacional, sugiro cunharmos outro acrônimo: PSIC! Não, talvez não seja o que sugere. Não se trata de rotular o ambiente como psicótico, desconectado da realidade. Para muitos pode ser isso mesmo, mas o que tenho observado é que estamos diante de um mundo precipitado, superficial, imediatista e conturbado. A precipitação é um mal recorrente na comunicação. Se antes, a volúpia de certos órgãos de mídia e jornalistas pelos furos de reportagem, muitas vezes sem a devida checagem, produzia danos de difícil reparação à veracidade dos fatos; hoje, com a disseminação das mídias sociais, essa mazela aumenta de modo exponencial, com inúmeros conteúdos sendo disparados sem o menor cuidado. Demonstrar estar bem informado é um dos traços de vaidade mais comumente observados. Para o Exército, alvo contumaz de matérias precipitadas, outra faceta dessa característica é que ela também afeta seu próprio público interno. E disciplinar essa questão é tarefa imperiosa para a comunicação estratégica. Assim como se adota a Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) como etapa indispensável à utilização do armamento, tem-se que atribuir a mesma prioridade à instrução com vistas ao emprego das ferramentas de comunicação digital[4]. Enviar ou encaminhar uma mensagem com um simples toque na tela de um smartphone pode ser tão crítico quanto acionar o gatilho de uma arma. Já a superficialidade é o reino da “água na canela”. A mídia recorre sistematicamente a especialistas. Alguns não passam de embusteiros que se autointitulam como tal e mal sabem do que estão falando. Não raro, influenciam opiniões a partir de platitudes acacianas. Pior, ainda, é quando por trás desses pseudoespecialistas se encontra a má-fé, com o objetivo de manchar reputações pessoais e institucionais, tratando-se temas complexos e sensíveis sem nenhuma profundidade de análise. No caso dos assuntos militares, esse problema se agrava, pois não são muitos os autênticos especialistas capazes de discuti-los com isenção e propriedade. O imediatismo grassa no meio informacional. O que importa é a obtenção de resultados no curto prazo. Sacrifica-se a construção de bases sólidas de relacionamentos institucionais e de relações de confiança. Parece não haver mais paciência para, de modo continuado, colher-se no futuro o que se semeia no presente. Para a comunicação estratégica do Exército, instituição cujo caráter permanente é constitucional, esse fenômeno tem-se caracterizado como de mão dupla, e precisa ser enfrentado sistematicamente. Pessoas e percepções são passageiras; o Exército, segue adiante. A conturbação tem encontrado terreno fértil na polarização exacerbada que tem caracterizado as relações sociais por todo o mundo. O que se observa é a preferência pelo dissenso em detrimento do consenso, a primazia das controvérsias e o desprezo pelo diálogo. Esse comportamento chama a atenção em certas plataformas de mídias sociais, onde o que mais se encontra são ofensas e demonstrações de intolerância. Na chamada mídia tradicional não é diferente. Certas matérias mais se assemelham a provocações irresponsáveis, alimentadas por atípicos bombeiros, que apagam incêndio com gasolina. É preciso reagir com lucidez a esse desafio. Se considerarmos como premissa que “quem me irrita me domina”, responder a certos provocadores pode ser exatamente a resposta por eles esperada. A maturidade proporcionada pela comunicação estratégica – alinhada, integrada e sincronizada – pode indicar a melhor linha de ação a adotar. Em síntese, ao combinarmos as características da realidade atual, plasmadas nos acrônimos discutidos neste artigo – VUCA, BANI e PSIC –, percebemos o quão desafiador é obter a consciência situacional necessária à tomada de decisões com base na dimensão informacional. As atividades de inteligência e de comunicação social, integradas a outras capacidades e aos centros de estudo e pesquisa, valendo-se de ferramentas adequadas e em permanente conexão, são imprescindíveis. Os trabalhos realizados no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), do EME, bem como no Instituto Meira Mattos (IMM) e no Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), da ECEME, são exemplos de subsídios relevantes para a concretização da comunicação estratégica do Exército. Por fim, é de se destacar que, ante a carência de referências típica desta época em que vivemos, há que se fortalecer o ethos militar, única garantia de preservação da autenticidade e da relevância da Instituição. Além do desenvolvimento de competências pessoais e de capacidades organizacionais, o que é fundamental para se fazer um adequado ESAON, com vistas à melhor condução da comunicação estratégica, nos ambientes VUCA, BANI, ou até mesmo PSIC, é a permanente observância dos princípios éticos e dos valores morais que têm notabilizado o Exército Brasileiro ao longo de sua extraordinária trajetória histórica. 2. O Mundo PSIC e a Ética Militar https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar Em abril do ano passado, em artigo publicado neste blogi, provoquei o pensamento crítico dos leitores com a cunhagem do acrônimo PSIC, para caracterizar o ambiente informacional da atualidade. Decorridos dez meses, retorno ao tema, por constatar que a precipitação, a superficialidade, o imediatismo e a conturbação atingiram patamares consideráveis, devido ao comportamento de muitos civis e militares, quando o assunto abordado é o papel desempenhado pelas forças armadas no cenário nacional. Tratando especificamente do Exército Brasileiro, cabe relembrar que sua História, cuja gênese remonta às Batalhas dos Guararapes, confunde-se com a própria evolução histórica do País. A atuação da Força Terrestre é ampla e abrangente, cobrindo nosso território de dimensões continentais com o braço forte e a mão amiga, o que exige tomada de decisões desde os níveis político e estratégico aos ambientes operacional e tático. A cada um desses níveis correspondem especificidades no que tange ao estudo de situação e à liderança. É bem sabido que não há solução tática capaz de corrigir uma formulação estratégica inadequada. E é indispensável destacar que só se chega aos mais altos postos percorrendo-se todos os graus hierárquicos, após décadas de dedicação à carreira das armas. Ninguém ingressa no Exército como general! Essa óbvia constatação é importante para que se compreenda o contexto ético-profissional que distingue a carreira militar. Hierarquia e disciplina, bases institucionais constantes em nossa Lei Magna, representam a própria essência da força armada. São conceitos que traduzem o exato cumprimento do dever e o respeito à cadeia de comando, composta por autoridades, em todos os escalões da estrutura da Força, que alcançam determinada posição, tendo experimentado as vicissitudes de seus subordinados. Esse arcabouço ético também é composto pelos valores indispensáveis a quem se dispõe a seguir a vida militar: patriotismo, coragem, lealdade, camaradagem, espírito de corpo, fé na missão, entre outros. Esses valores, ainda que universais, podem manifestar-se de modo distinto, conforme o nível de atuação considerado. A coragem esperada de um comandante tático, por exemplo, não se expressa da mesma forma que a de um líder no nível estratégico. Semelhante na essência, distingue-se na demonstração. Se do primeiro se requer o acatamento imediato da ordem recebida para conduzir seus subordinados ao cumprimento da missão; do outro se espera firmeza na defesa de princípios e valores, de tal forma que, por vezes, dizer "não" pressupõe muito mais coragem do que alinhar-se a eventuais pressões de caráter político. E o que o Mundo PSIC tem a ver com isso? Tudo! Pois é exatamente na dimensão informacional que temos assistido a condutas em desacordo com a ética militar por parte daqueles que, por indignação, ingenuidade, desconhecimento e, até mesmo, má-fé, têm contribuído para disseminar a desinformação, a relativização de valores e, consequentemente, a desunião que enfraquece o espírito de corpo. Fica a pergunta: a que interesses servem tais pessoas? Analisando-se o que têm expressado, via de regra em mídias sociais e aplicativos de mensagens, que adicionaram a comodidade do anonimato a esse tipo de atitude, facilmente se identificam as componentes PSIC. A precipitação é marca típica desse ambiente repleto de meias-verdades e fake news, onde se disparam e replicam mensagens sem a menor preocupação com a veracidade dos fatos e a idoneidade das fontes. Toma-se como verdade, de modo absolutamente irresponsável, conteúdos com juízos de valor destinados ao ataque a reputações e à crítica a decisões dos escalões superiores. Iniciado o processo, que é realimentado por “gatilhadas” digitais, o que se produz é uma verdadeira marcha da insensatez. A um militar que se preza não se permite essa falta de cuidado e de lealdade para com a instituição a que serve. A superficialidade é outro aspecto dissonante do comportamento ético. A atividade militar é, por natureza, grave e complexa. Em tempos de paz ou de conflito armado, lida-se com o poder dissuasório da Nação. Soluções simples para problemas complexos não são a regra. Tratar o emprego do Exército com base em análises simplórias de “especialistas” de ocasião, é o caminho mais seguro para se chegar a concepções inoportunas, parciais e ineficazes, o que é inadmissível por quem quer que tenha um mínimo de seriedade no processo de tomada de decisão. Quando um militar extrapola a esfera de suas atribuições, e passa a opinar publicamente sobre o que não é de sua competência, contribui para o descrédito na cadeia de comando e no cumprimento da missão. O imediatismo, por princípio, não se coaduna com o caráter permanente atribuído às forças armadas no texto constitucional. A relação custo-benefício de se trocar ganhos imediatos por duradouros resultados positivos costuma caracterizar vitória de Pirro. Os preceitos da ética militar indicam claramente que não se pode prejudicar a reputação e a credibilidade do Exército, conquistadas em séculos de História, por conta do oportunismo de uns e do jogo de interesses de outros, algo que tem sido observado em inúmeras postagens veiculadas em tempos recentes. A conturbação talvez seja o aspecto mais danoso do Mundo PSIC. A excessiva polarização da sociedade e a atuação dos extremos do espectro ideológico no ambiente informacional têm gerado visões radicais, resultando num círculo vicioso de intolerância e de absoluta ausência de diálogo. Essa situação é inaceitável aos membros de uma instituição apartidária, que se orgulha de oferecer oportunidades a todos os brasileiros, sem distinção de classe social, raça, gênero e credo. O inconformismo com a tradicional postura legalista e de neutralidade do Exército tem dado ensejo a insultos a camaradas de longa data, ataques a reputações típicos de regimes totalitários, “vazamentos” de supostas informações, divulgação de memes difamatórios, tudo para tentar atingir a coesão da Força, em flagrante traição ao sacrossanto respeito à hierarquia e à disciplina. Sendo os recursos humanos a força da nossa Força, é imperioso reafirmar diuturnamente a essencialidade da prática e do culto aos princípios e valores característicos da profissão militar para o aprimoramento da capacidade operacional necessária ao cumprimento de suas diversas missões. 3. A Liderança Estratégica ante os Desafios do Mundo PSIC https://eblog.eb.mil.br/w/a-lideranca-estrategica-ante-os-desafios-do-mundo-psic Em artigos anteriores, procurei caracterizar o ambiente informacional da atualidade por meio do acrônimo PSIC (precipitado, superficial, imediatista, conturbado), apreciando seus reflexos para a comunicação estratégica do Exército[5] e para a ética militar[6]. Neste trabalho, volto a abordar esse tema do Mundo PSIC, agora, sob o enfoque da liderança estratégica. Com efeito, se essas características PSIC devem merecer atenção no planejamento e na execução da comunicação do Exército, bem como suscitar reflexões de caráter ético-profissional, é natural que o exercício da liderança militar também possa sofrer consequências desse fenômeno. Comunicação, ética e liderança são abordagens indissociáveis, ainda mais nestes tempos de profundas mudanças nas relações sociais, provocadas pelos avanços que temos observado na tecnologia da informação. O exercício da liderança militar, em qualquer nível, pressupõe coragem e integridade de caráter plenamente reconhecidas. Quando se emprega a liderança direta, é possível mais facilmente superar óbices à percepção desses pressupostos, uma vez que a comunicação é menos suscetível a ruídos e manipulações. A força do exemplo se faz mais presente. Entretanto, quando lidamos com o nível estratégico, há variáveis mais difíceis de se controlar, o ambiente é mais complexo, e o distanciamento físico amplia o desafio de se influenciar comportamentos e direcionar esforços para a conquista de objetivos institucionais. O caráter digital e virtual do ambiente informacional PSIC potencializa as limitações da liderança indireta. Historicamente, os meios de comunicação de massa vinham se consolidando segundo uma lógica socioeconômica top-down. Foi assim com a mídia impressa, com o rádio, com a televisão – aberta e por assinatura –, e com a rede mundial de computadores. Entretanto, quando a telefonia celular e a internet se combinaram em smartphones, de aquisição amplamente disseminada, essa lógica deixou de prevalecer, uma vez que pessoas dos mais diversos estratos sociais passaram a desfrutar simultaneamente dessa ferramenta de produção e de difusão instantânea de conteúdos e mensagens. Esse fenômeno é de extrema relevância para a compreensão dos desafios enfrentados pela liderança estratégica, particularmente em uma Instituição de Estado, que tem na hierarquia um de seus alicerces. Qualquer que seja a abordagem adotada acerca da temática da liderança, é inquestionável que o conhecimento exerce papel primordial. O exercício da liderança, de modo geral, requer competências que proporcionem correta análise do ambiente considerado e adequada visão dos caminhos a seguir. No nível estratégico, mais incerto e complexo, a obtenção de razoável consciência situacional constitui requisito ainda mais crítico para o êxito. Em meio a um acúmulo exponencial de informações, veiculadas por intermédio de uma incontrolável massa de mídias, a questão que se impõe é separar o essencial do supérfluo, o significativo do irrelevante e o autêntico do falso ou distorcido. E essa tarefa é extremamente desafiadora, pois ao líder não é mais proporcionado tempo suficiente para a necessária reflexão, para ser proativo em vez de reativo, para elaborar a estratégia de comunicação adequada. A instantaneidade, a rapidez e o volume de dados disponibilizados no ambiente informacional escapam à lógica hierárquica e acarretam para a liderança um ciclo frenético de interpretação de dados e de tomada de decisões, de modo a que seja exercida com acerto e oportunidade. Para isso, é necessário identificar e contornar as armadilhas do Mundo PSIC. A precipitação conspira contra o senso de oportunidade. Sendo o tempo um dos fatores da decisão, há que se resistir a conclusões antecipadas, devido à disseminação indiscriminada da informação a níveis que não tenham competência funcional para realizar adequada análise da situação. O impulso de rapidamente se livrar de um problema ou atender ao clamor de bolhas midiáticas pode acarretar sérios prejuízos ao processo decisório. O líder estratégico precisa enfrentar com serenidade a tendência atual de agir apressadamente e preservar a capacidade de controlar os anseios daqueles a quem deve conduzir. Deve sempre se valer do ESAON3[7]. Navegar, ou seja, percorrer o caminho selecionado não pode ser um ato impensado. Deve ser o coroamento de todo um processo consciente, pautado pela ponderação e pelo equilíbrio. A superficialidade impede a obtenção do grau de conhecimento requerido para se analisar uma situação e se chegar à melhor decisão. A consciência situacional plena requer estudo abalizado. Não há como equacionar problemas complexos, como costumam ser os de nível estratégico, com informações insuficientes ou incompletas. Simplicidade é princípio de guerra. Permite descomplicar a solução, particularmente devido ao modo de se comunicar o que precisa ser feito. Simplismo, ao contrário, revela carência de fundamentos, sem levar em consideração aspectos essenciais à compreensão do ambiente. O líder precisa conhecer em profundidade a realidade a enfrentar, cercando-se de assessores zelosos, e não de meros repetidores de ideias e opiniões de “especialistas” e influencers, encontradas em profusão nas plataformas digitais. O imediatismo obscurece a visão de futuro, uma das componentes primordiais da liderança estratégica. As decisões de caráter estratégico exigem mais persistência no tempo e mais abrangência no espaço. Vantagens momentâneas raramente são sustentáveis, tampouco atendem a todos os aspectos envolvidos na análise da questão. Tendências de longo prazo devem sobrepujar percepções passageiras. É necessário semear para que se possa colher. E isso requer desprendimento, paciência e compreensão histórica. O líder estratégico precisa fazer escolhas que nem sempre lhe permitirão desfrutar dos resultados em curto prazo, mas a responsabilidade e o compromisso com as gerações vindouras impõem a humildade de preparar o terreno para que outros eventualmente colham os louros. A conturbação afeta a capacidade que se requer de um líder de conciliar múltiplos e diversos interesses na busca de um propósito comum. A polarização da sociedade, os posicionamentos radicais, o desprezo pelo diálogo e a cultura do cancelamento e linchamento nas redes virtuais têm causado sérias restrições ao exercício da liderança. No meio militar, esse tipo de comportamento atenta contra a hierarquia e a disciplina e compromete a coesão. Ambientes conturbados geram círculos viciosos de preconceitos, ofensas e retaliações, que subtraem energia e desviam o foco dos legítimos anseios coletivos e dos objetivos estratégicos a serem alcançados. A liderança estratégica demanda resiliência para sobrepujar essas questões limitadas e dispersivas. Como se pode observar, o exercício da liderança estratégica tem sido confrontado por características próprias do ambiente informacional altamente digitalizado da atualidade, que tenho identificado como Mundo PSIC. Assim como sugerido nos trabalhos anteriores, é necessário compreender essa questão a fim de se encontrar as respostas mais adequadas ao desafio que representa. De modo conclusivo, identifico na trilogia liderança estratégica – ética militar – comunicação estratégica o arcabouço mais indicado para se analisar o ambiente informacional de nossos dias e melhor compreender a realidade em que estamos inseridos, a fim de que se possam encontrar soluções integradas, alinhadas e sincronizadas para o amplo espectro de atuação do Exército, em face da relevância, da complexidade e da variedade das missões que lhe são atribuídas pela Nação Brasileira. [1] Definição proposta em artigo publicado após apresentação sobre o tema no XXI Ciclo de Estudos Estratégicos da ECEME, em julho de 2019 (Nunes, R. F. A Comunicação Estratégica do Exército e a Dimensão Informacional. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 13, n. 48, p. v-xi, 8 nov. 2019.) [2] Significa estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se e navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. [3] Em situação de combate, para progredir no terreno, o militar deve condicionar-se a responder aos seguintes questionamentos: Para onde vou? Por onde vou? Como vou? Quando vou? [4] Em 2020, por proposta do CCOMSEx, o COTER aprovou o Caderno de Instrução de Comunicação Social – Formação Básica, que orienta a instrução a ser ministrada a todos os militares incorporados ao Exército acerca deste e de outros assuntos correlatos. [5] O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito. [6] O Mundo PSIC e a Ética Militar, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar. [7] Acrônimo usual no Exército para Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se e Navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.













