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Facções criminosas, terrorismo e soberania na Amazônia: possibilidades e tensões para a segurança pública e para a defesa nacional
Sidney Pedro Ferreira da Silva Moraes Major do Exército Brasileiro. Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior.Mestrando em Ciências Militares pelo PPGCM/ECEME. 1. Introdução A Amazônia brasileira ocupa uma posição central no debate contemporâneo sobre segurança e soberania. Sua extensão territorial, a baixa presença estatal em determinadas áreas e a existência de rotas estratégicas de ilícitos tornam a região particularmente sensível à atuação de redes criminosas com alcance transnacional. Nos últimos anos, facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) ampliaram sua presença na região, explorando rotas de tráfico e estabelecendo formas de controle local. Esse processo intensifica os desafios para a segurança pública e evidencia as dificuldades do Estado em manter o controle efetivo sobre partes do território. No Brasil, permanece em debate a possibilidade de enquadrar essas facções como organizações terroristas. A questão ganhou uma nova dimensão em 2026, quando os Estados Unidos da América passaram a designar o PCC e o CV segundo seu regime de contraterrorismo. Embora relacionadas, essas situações não se confundem, pois uma eventual classificação adotada pelo Estado brasileiro e uma designação realizada por outro país produzem efeitos jurídicos e políticos distintos. Para fins deste artigo, examina-se prioritariamente a possibilidade de adoção, pelo Estado brasileiro, do enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas. Busca-se analisar as possibilidades e as tensões que essa eventual mudança produziria nos campos da segurança pública e da defesa nacional na Amazônia, considerando-se a designação norte-americana como um fator externo relevante. Argumenta-se que uma eventual adoção desse enquadramento produziria efeitos condicionados e distintos nos campos da segurança pública e da defesa, sem assegurar, por si só, maior capacidade de combate estatal. Esses efeitos dependeriam da forma como a classificação seria incorporada ao ordenamento jurídico, às instituições e às políticas públicas. Portanto, o principal ponto dessa análise não é definir se essas organizações são ou não terroristas, mas sim compreender os efeitos dessa classificação. 2. Enquadramento conceitual: terrorismo, crime organizado e a lógica da reclassificação A distinção entre terrorismo e crime organizado é fundamental para compreender os efeitos de uma eventual reclassificação. Hoffman (2017) associa o terrorismo ao emprego calculado da violência com finalidade política. No plano jurídico brasileiro, a Lei nº 13.260/2016 define o terrorismo pela prática de atos determinados, motivados por “xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado (Brasil, 2016, art. 2º). Já a Lei nº 12.850/2013 caracteriza a organização criminosa pela associação estruturada de quatro ou mais pessoas, com divisão de tarefas e objetivo de obter vantagem mediante infrações penais (Brasil, 2013, art. 1º, § 1º). Facções como o PCC e o CV inserem-se predominantemente nessa segunda lógica, ainda que empreguem formas de violência que possam se aproximar operacionalmente de práticas terroristas. Apesar dessa distinção, na prática, esses fenômenos podem apresentar pontos de contato. Em contextos de presença estatal descontínua, grupos criminosos podem utilizar rotas, recursos e métodos de atuação semelhantes aos observados em organizações terroristas e grupos insurgentes. Shelley (2014) observa que redes criminosas e terroristas operam de maneira conectada e adaptável, dificultando separações rígidas entre essas categorias analíticas. Na Amazônia, essa dinâmica se expressa na capacidade de as facções exercerem controle territorial, empregarem sistematicamente a força e imporem formas locais de coerção, aproximando-se, quanto aos meios utilizados, de atores armados não estatais, como grupos insurgentes e organizações terroristas. Algumas dessas ações podem, inclusive, apresentar semelhança material com atos previstos na Lei nº 13.260/2016, como atentados contra a vida ou a integridade física e ataques violentos a infraestruturas e serviços essenciais (Brasil, 2016, art. 2º, § 1º, incisos IV e V). Essa semelhança, contudo, não permite, por si só, equiparar as facções às organizações terroristas. No plano conceitual, a finalidade política indicada por Hoffman (2017) precisaria ser demonstrada, e não presumida, a partir da violência ou dos meios empregados. No plano jurídico brasileiro, seria igualmente necessário comprovar que os atos foram praticados pelas motivações e finalidades previstas no art. 2º da Lei nº 13.260/2016 (Brasil, 2016, art. 2º). Desse modo, o medo coletivo e a intimidação podem constituir efeitos concretos da atuação das facções, inclusive em disputas pelo controle de mercados ilícitos, rotas e territórios. A existência desses efeitos, entretanto, não dispensa a demonstração dos demais elementos conceituais e jurídicos necessários à caracterização do terrorismo. Ressalta-se que essa análise não visa definir se essas organizações são ou não terroristas, mas compreender os efeitos dessa classificação, pois a forma como o Estado enquadra uma ameaça influencia diretamente suas respostas. Tal classificação pode alterar prioridades institucionais e a forma de atuar das agências, com efeitos que vão além do campo jurídico. Ao classificar um grupo como terrorista, o Estado também sinaliza como interpreta o problema e quais respostas considera legítimas. Esse argumento pode ser aproximado da literatura sobre securitização. Para Buzan, Wæver e Wilde (1998, p. 24), securitizar um problema significa elevá-lo discursivamente à condição de ameaça que justifica respostas excepcionais, fora do registro ordinário da política. No caso analisado, a classificação das facções como organizações terroristas pode constituir um movimento securitizador, na medida em que eleva o problema à condição de ameaça excepcional. Sua consolidação, contudo, dependeria da aceitação desse enquadramento e de sua tradução em medidas institucionais que ultrapassassem o tratamento ordinário do crime organizado. Esse debate ganha relevância particular no contexto amazônico. O enquadramento de facções criminosas como ameaça terrorista produz efeitos em dois níveis distintos. No campo da segurança pública, a reclassificação poderia modificar principalmente a prioridade institucional e a distribuição de competências, uma vez que a Lei Antiterrorismo (Lei nº 13.260/2016) considera esses crimes praticados contra o interesse da União, atribuindo sua investigação à Polícia Federal e seu processamento e julgamento à Justiça Federal. Isso não significa, contudo, a criação automática de instrumentos investigativos inteiramente novos, pois a própria norma determina a aplicação dos mecanismos previstos na lei que disciplina as organizações criminosas e seus meios de investigação (Lei nº 12.850/2013). No campo da defesa, a reclassificação pode gerar tensões na medida em que influencia percepções externas sobre a capacidade do Estado brasileiro de exercer autoridade na Amazônia. 3. Possibilidades e limites para a segurança pública na Amazônia O enquadramento de facções criminosas pode colocar o tema no centro da agenda de segurança, permitindo a adoção de medidas mais amplas no campo da atuação estatal. De acordo com Buzan, Wæver e Wilde (1998, p. 24), esse tipo de movimento desloca determinados problemas para uma esfera de exceção, na qual o Estado passa a mobilizar recursos e instrumentos que não estariam disponíveis em situações normais. Na Amazônia, esse efeito pode favorecer ações mais intensas para ampliar a presença estatal e recuperar o controle de áreas sob influência de grupos criminosos. Essa centralidade é reforçada em fontes oficiais do governo brasileiro. O Ministério da Justiça e Segurança Pública destaca a Amazônia Legal como um corredor estratégico para a circulação de drogas, articulado a hidrovias, a estradas clandestinas e a pistas de pouso improvisadas, o que reforça a relevância da região para as cadeias ilícitas transnacionais.[1] Na Amazônia, a atuação de facções como o PCC e o CV não se limita ao narcotráfico. Essas organizações articulam rotas transnacionais de drogas, contrabando de armas e outras ações ilícitas, em um ambiente no qual atividades como a mineração ilegal também alimentam circuitos de violência, lavagem de ativos e degradação ambiental (Franchi, 2023). Em áreas de fronteira marcadas por presença estatal descontínua, esse processo favorece formas de governança híbrida, nas quais grupos criminosos passam a exercer influência social e territorial paralela à autoridade formal do Estado (Ferreira, 2025). O grau de enfrentamento desse fenômeno depende, sobretudo, da mobilização que compete ao Estado, e não decorre automaticamente da mudança de denominação jurídica aplicada às facções. O enfrentamento ao crime organizado já exige atuação interagências e dispõe de mecanismos próprios de investigação, inteligência e constrição patrimonial. A diferença potencial da reclassificação residiria, portanto, menos na existência de ferramentas e mais na redistribuição de competências, na especialização das estruturas envolvidas e no enquadramento do problema como ameaça de maior relevância para a União. A existência de um regime jurídico próprio para o crime organizado foi reforçada pela Lei nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado e tipificou os crimes de domínio social estruturado e de favorecimento ao domínio social estruturado. Ao tratar especificamente de organizações criminosas ultraviolentas e de formas estruturadas de controle social, a nova legislação amplia os instrumentos de enfrentamento dessas condutas sem equipará-las automaticamente ao terrorismo (Brasil, 2026). Shelley (2014) destaca que redes criminosas transnacionais operam de forma conectada, articulando mercados, rotas e atores em diferentes países, o que torna ineficazes respostas fragmentadas. Nesse sentido, o enquadramento como ameaça terrorista pode favorecer a superação de obstáculos históricos à integração entre instituições brasileiras, especialmente na Amazônia, onde a sobreposição de competências frequentemente gera lacunas operacionais. Em termos concretos, operações integradas demonstram que ganhos operacionais relevantes já podem ser alcançados no regime jurídico vigente. No estado do Amazonas, a Operação Fronteira Mais Segura/Protetor das Fronteiras, coordenada pela Secretaria de Segurança Pública com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, registrou, entre janeiro e novembro de 2024, prejuízo superior a R$ 1 bilhão ao crime, apreensão de mais de 27 toneladas de entorpecentes e 473 prisões em 30 municípios do estado (Amazonas, 2024). A cooperação internacional no enfrentamento às facções não depende necessariamente de sua classificação como organizações terroristas. Em 2024, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou um operador financeiro do PCC sob o regime de combate ao narcotráfico e destacou a cooperação das autoridades brasileiras (Estados Unidos, 2024). Esse precedente demonstra que mecanismos de rastreamento financeiro, bloqueio de ativos e intercâmbio de informações já podiam ser empregados contra o cri-me organizado transnacional antes de qualquer designação vinculada ao contraterrorismo. A necessidade dessa articulação decorre do próprio caráter transnacional e adaptável das redes criminosas, que dificulta respostas exclusivamente nacionais (Werner, 2009). Em 2026, a resposta norte-americana ao PCC e ao CV passou a incorporar também instrumentos próprios do regime de contraterrorismo. Em maio do ano citado, os Estados Unidos designaram as duas facções como Specially Designated Global Terrorists e anunciaram sua inclusão como Foreign Terrorist Organizations, efetivada em 5 de junho (Estados Unidos, 2026a; 2026b). A dupla designação ampliou, no âmbito do ordenamento norte-americano, as possibilidades de bloqueio patrimonial, restrição de transações e responsabilização de pessoas que lhes prestem apoio material. Desse modo, a medida acrescentou uma nova base jurídica à atuação dos Estados Unidos contra as facções, somando-se aos mecanismos de cooperação e repressão já empregados no combate ao narcotráfico. Isso não significa, contudo, que o Brasil tenha recebido automaticamente novos instrumentos de cooperação, pois se trata de uma classificação adotada segundo o direito dos Estados Unidos, sem alteração imediata do enquadramento jurídico brasileiro. Seus efeitos sobre a segurança pública nacional tendem a ocorrer de maneira indireta, sobretudo por meio da intensificação do controle financeiro, das exigências de conformidade aplicáveis às instituições vinculadas ao sistema norte-americano e do intercâmbio de informações entre autoridades. Nesse contexto, a articulação internacional permanece necessária para enfrentar organizações estruturadas em rede, cuja atuação transnacional e descentralizada limita a eficácia de respostas exclusivamente nacionais (Arquilla; Ronfeldt, 2001). Apesar dessas possibilidades, os efeitos da designação norte-americana sobre a segurança pública brasileira tendem a ser limitados. Por decorrer de ato unilateral dos Estados Unidos e produzir consequências primariamente naquele ordenamento jurídico, a medida não altera a classificação do PCC e do CV no Brasil, não redistribui competências entre os órgãos nacionais nem amplia automaticamente seus poderes de investigação e atuação. Eventuais repercussões podem ocorrer de forma indireta, por meio do compartilhamento de informações, da cooperação jurídica e financeira e do rastreamento internacional de ativos, mecanismos que, em grande medida, já estavam disponíveis no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Assim, sem alterações normativas internas ou novos arranjos institucionais, a designação tende a produzir, no Brasil, efeitos mais políticos e diplomáticos do que jurídicos ou operacionais. A capacidade estatal de enfrentar essas facções na Amazônia permanece condicionada à presença territorial, à coordenação interagências, à inteligência, aos recursos disponíveis e à continuidade das políticas públicas nacionais. 4. Repercussões político-estratégicas para a defesa e a soberania na Amazônia As repercussões da designação norte-americana ultrapassam o campo operacional da cooperação e alcançam o ambiente político-estratégico no qual o Brasil formula suas políticas de segurança e defesa. Ao incorporar o PCC e o CV ao regime de contraterrorismo, os Estados Unidos podem gerar expectativas de maior convergência entre as respostas dos dois países e elevar o custo político-diplomático da manutenção de enquadramentos distintos. Essas possíveis pressões por alinhamento não alteram juridicamente a soberania brasileira nem modificam o enquadramento das facções no Brasil, mas constituem uma variável externa relevante para a autonomia decisória nacional. A distinção proposta por Jackson (1990) entre soberania formal e soberania efetiva ajuda a esclarecer esse problema. Para o autor, o reconhecimento jurídico internacional não garante, por si só, a capacidade de governar e controlar o território. No caso brasileiro, a soberania formal sobre a Amazônia não está em questão. O desafio está na consistência da presença estatal em determinadas áreas de fronteira, nas quais o controle é mais limitado. Medeiros Filho (2020) mostra que as fronteiras amazônicas são marcadas por descontinuidades na atuação do Estado, o que pode favorecer a atuação de grupos ilegais e dificultar o exercício continuado da autoridade estatal. Nesse contexto, a incorporação de facções de origem brasileira à agenda internacional de contraterrorismo pode influenciar a forma como atores externos interpretam a capacidade do Estado de exercer autoridade nas áreas afetadas pela criminalidade. A designação não demonstra, por si só, perda de controle territorial ou fragilidade da soberania, mas pode fornecer um novo repertório para discursos que associem a violência criminosa à insuficiência da presença estatal. Sua repercussão para a defesa situa-se principalmente nas percepções e pressões que podem surgir no ambiente internacional político e diplomático. Essa possibilidade adquire relevância particular na Amazônia porque narrativas sobre baixa presença estatal, fragilidade institucional e responsabilidade internacional sobre a região já circulam no debate externo. Merino (2025) identifica interpretações que associam a Amazônia às ideias de patrimônio comum, de responsabilidade global e de formas compartilhadas de governança. A partir desse contexto, é possível inferir que a vinculação entre criminalidade amazônica e terrorismo possa reforçar a circulação de interpretações que relativizem a capacidade brasileira de governar a região. A noção de “áreas marrons”, proposta por O’Donnell (1993, p. 1359), também deve ser analisada de maneira criteriosa. Ela permite compreender espaços nos quais a autoridade estatal, embora formalmente existente, apresenta dificuldades de materialização. Sua aplicação, porém, deve restringir-se a determinadas áreas de presença estatal descontínua, evitando generalizar a Amazônia como território desgovernado. Nesse sentido, o risco associado à designação externa não está em produzir diretamente essas fragilidades, mas em favorecer interpretações generalizantes sobre a capacidade brasileira de governar a região. A autonomia decisória brasileira também não é juridicamente reduzida pela designação norte-americana. O Brasil permanece soberano para definir seu enquadramento legal e suas políticas de segurança e defesa. A diferença entre as classificações pode, entretanto, elevar o custo político-diplomático da manutenção de estratégias distintas, sobretudo quando mecanismos de cooperação, sanções financeiras e intercâmbio de inteligência passam a ser conduzidos, pelos Estados Unidos, sob o regime de contraterrorismo. Trata-se, portanto, de uma possível pressão por alinhamento, e não de uma redução de soberania. Dessa forma, os efeitos mais relevantes da designação norte-americana para a defesa brasileira são indiretos no campo político-estratégico. A medida não altera, por si só, o ordenamento nacional, as competências das autoridades brasileiras ou o exercício da soberania na Amazônia. Ela pode, contudo, modificar o ambiente internacional no qual o Brasil enfrenta as facções, ampliar expectativas externas sobre sua atuação e reforçar narrativas acerca de sua capacidade de exercer autoridade na região. O desafio para o Estado brasileiro consiste em preservar sua autonomia decisória, sem renunciar à cooperação necessária ao enfrentamento de redes criminosas transnacionais. 5. Considerações finais A análise evidencia que a possibilidade de o Brasil enquadrar o PCC e o CV como organizações terroristas não se confunde com a designação já realizada pelos Estados Unidos. A hipótese brasileira diz respeito à forma como o ordenamento e as instituições nacionais passariam a tratar essas facções. A decisão norte-americana, por sua vez, produz efeitos diretos nos Estados Unidos e repercussões predominantemente indiretas no Brasil. Essa distinção orienta a compreensão dos efeitos examinados nos campos da segurança pública e da defesa nacional. No campo da segurança pública, um eventual enquadramento de atos praticados pelas facções na Lei Antiterrorismo poderia elevar a prioridade política do problema e produzir alterações na distribuição de competências, uma vez que os crimes previstos na Lei nº 13.260/2016 são praticados contra a União. Isso não asseguraria, contudo, maior capacidade estatal nem criaria automaticamente instrumentos investigativos inéditos, pois a própria Lei Antiterrorismo determina a aplicação dos mecanismos previstos na Lei nº 12.850/2013. A existência de instrumentos próprios para o enfrentamento ao crime organizado também foi reforçada pela Lei nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado e passou a tratar especificamente de organizações criminosas ultraviolentas e de formas estruturadas de controle social. Somam-se a isso os resultados da Operação Fronteira Mais Segura/Protetor das Fronteiras, alcançados sem reclassificação formal. Esses elementos demonstram que respostas operacionais relevantes podem ser construídas dentro do regime jurídico vigente, embora permaneçam condicionadas à presença territorial, à coordenação interagências, à inteligência, aos recursos e à continuidade das políticas públicas. No campo da defesa, as repercussões da designação norte-americana são predominantemente indiretas e político-estratégicas. A incorporação do PCC e do CV à agenda externa de contraterrorismo não altera a soberania jurídica brasileira nem demonstra, por si só, perda de controle territorial. Pode, contudo, influenciar percepções externas sobre a capacidade do Estado de exercer autoridade na Amazônia e gerar expectativas de maior convergência entre as respostas dos dois países. Trata-se, portanto, de uma possível fonte de pressão político-diplomática, e não de uma redução automática da soberania ou da autonomia decisória brasileira. Portanto, uma eventual classificação das facções como organizações terroristas pelo Brasil não constitui uma condição necessária ou suficiente para ampliar a capacidade de resposta do Estado brasileiro. Sua eventual adoção exigiria uma demonstração clara do valor adicional produzido em relação aos instrumentos já disponíveis, bem como uma avaliação de seus efeitos jurídicos, institucionais e político-diplomáticos. O desafio consiste em fortalecer a presença estatal e a cooperação internacional sem confundir a intensidade da violência criminosa com o preenchimento automático dos requisitos do terrorismo nem comprometer a autonomia brasileira para definir as respostas mais adequadas à realidade amazônica. Referências bibliográficas AMAZONAS (Estado). Secretaria de Estado de Segurança Pública. Protetor das Fronteiras: fortalecimento operacional resultou em danos de R$ 1 bilhão ao crime no Amazonas. Manaus, 10 dez. 2024. 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O Escudo Forense: visão computacional e autenticação de imagem como capacidade dual de defesa cognitiva
Rogério Rodrigues de Oliveira Executivo e mentor em transformação digital, IA e dados.Aluno da VIII Turma do Curso de Liderança Estratégicada Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1. Introdução Durante séculos, uma imagem foi sinônimo de prova. Ver era crer. Essa equação ruiu. A inteligência artificial generativa tornou trivial fabricar fotos, vídeos e documentos indistinguíveis dos verdadeiros. O que era garantia de verdade virou vetor de vulnerabilidade. Na guerra cognitiva, quem controla o que parece verdadeiro controla a decisão. O cenário aponta para Estados soterrados por mídias não verificáveis. Documentos forjados, provas adulteradas, vídeos sintéticos. Cada um corrói uma engrenagem diferente: a decisão de comando ou a confiança pública. O adversário sequer precisa vencer o argumento. Basta envenenar o ambiente probatório, semeando a dúvida sobre o que é real. Essa é a face material da guerra cognitiva. Se a mente é o campo de batalha, a evidência é o terreno. Uma força que não consegue distinguir o autêntico do fabricado, com rapidez, perde a iniciativa antes do primeiro tiro. E a defesa por narrativa chega sempre tarde, correndo atrás de uma mentira que já circulou. A dissimulação sempre existiu na guerra, e o ardil é tão antigo quanto o combate, entretanto, a escalabilidade desse fenômeno da produção fraudulenta de dados aumenta exponencialmente os danos. O que a inteligência artificial generativa introduziu não foi a mentira, mas a sua industrialização: qualquer pessoa com um smartphone produz e difunde uma falsificação que antes exigia um estúdio com muitos recursos. Quando o engano deixa de ser obra artesanal e se torna industrial, a defesa também precisa se industrializar. Imagine uma fotografia adulterada acusando uma tropa de um ato que jamais cometeu, ou um vídeo sintético de um comandante emitindo uma ordem falsa, disparado nas primeiras horas de uma crise. O risco deixa de ser abstrato e o dano se consuma no intervalo entre a publicação e o desmentido. Reduzir esse tempo a quase zero é, hoje, um desafio para a Defesa. O problema transborda o campo de batalha. A mesma falsificação que engana um comando pode contaminar um inquérito, incriminar um inocente ou inocentar um culpado. Em operações de garantia da lei e da ordem, uma imagem forjada de abuso pode incendiar uma cidade antes que qualquer apuração comece. Na defesa civil, um vídeo falso de rompimento de barragem pode disparar um pânico com vítimas reais. Autenticar mídia, portanto, não é um luxo técnico: é infraestrutura de confiança pública. Portanto, o desafio deixou de ser produzir imagens e passou a ser autenticá-las, em escala e em velocidade, e aqui reside uma capacidade de Defesa que o Brasil ainda não constituiu de forma soberana, e proponho chamá-la de Escudo Forense. Este trabalho pretende contextualizar o ambiente de fabricação de fraudes em imagens e apontar caminhos para a sua solução pelo Estado, no contexto da defesa cognitiva. 2. Uma oportunidade para a Defesa No setor de seguros, a visão computacional forense já é usada para flagrar fraudes: detectar fotos adulteradas, geometrias inconsistentes, metadados violados, cenas remontadas. No fundo, esse motor não caça a fraude — ele autentica a verdade de uma imagem. O que esse motor examina é a coerência interna da imagem. Sombras que não batem com a fonte de luz. Bordas com marcas de recorte. Ruído de sensor ausente ou artificial. Metadados que contam uma história diferente da dos pixels. Nenhuma dessas pistas, isoladas, prova a fraude; juntas, formam um veredito probabilístico que um perito humano então referenda. É o mesmo método que, no seguro, separa o sinistro legítimo do encenado. Vale, aqui, um princípio central: a tecnologia não deve definir o problema; é o problema que deve convocar a tecnologia. No Escudo Forense, o problema real é a verdade — a visão computacional é apenas o instrumento adequado para protegê-la. Produzir uma falsificação convincente custa hoje centavos e minutos; verificá-la à mão custa horas de um profissional especialista de difícil formação. A assimetria é cruel. Enquanto a detecção depender de trabalho artesanal, o falsário vencerá pela quantidade. Só uma capacidade automatizada, soberana e em escala reequilibrará essa conta. Não é coincidência que a linha de frente dessa tecnologia esteja no setor de seguro, e não no quartel. É ali que o incentivo para fraudar encontra, todos os dias, o incentivo para detectar. Cada apólice é um pequeno campo de provas onde o motor forense é testado, corrigido e endurecido contra adversários reais. Essa maturidade operacional, adquirida na prática, é precisamente o que costuma faltar a uma solução nascida apenas em laboratório. Essa mesma tecnologia que protege o patrimônio privado pode proteger a decisão pública. E o talento que a desenvolve já existe, disperso na indústria, nas seguradoras, nas fintechs. Um ecossistema de Defesa inteligente não o ignora: o mobiliza. É o uso dual em estado puro. Se a falsificação foi democratizada, a detecção precisa ser democratizada na mesma medida — e soberana. Depender de ferramentas estrangeiras para autenticar a nossa própria verdade é abrir mão de uma prerrogativa do Estado. Quem controla o veredito sobre o que é real controla um ponto de apoio decisivo do poder. O Brasil tem, nesse ponto, uma vantagem pouco explorada. Seu setor financeiro e securitário está entre os mais sofisticados do mundo em análise de fraude, justamente porque a fraude aqui é abundante e criativa. Essa competência, forjada na necessidade privada, é um ativo estratégico latente. Um ecossistema de Defesa que a reconheça e a convoque converte um problema nacional em uma capacidade nacional, pois essa é a proposta do Escudo Forense. 3. Linhas de esforço para o ecossistema do Escudo Forense Constituir esse ambiente exige quatro linhas de esforço do Estado brasileiro, envolvendo diversas políticas públicas integradas. A primeira é a capacidade soberana de perícia de imagem por inteligência artificial — modelos, dados e infraestrutura, de tecnologias nacionais, capazes de operar em escala e em tempo útil. A segunda são os padrões de autenticação e cadeia de custódia. Toda imagem de interesse operacional ou judicial deveria carregar a sua procedência assinada, do sensor à decisão. A autenticidade deixa de ser presumida e passa a ser demonstrável. Vale detalhar essa linha, porque nela está a visão estratégica. Assinar a procedência na origem — vinculando a imagem ao dispositivo, ao instante e ao local de captura, por meio de credenciais de conteúdo — inverte o ônus da prova. Em vez de tentar demonstrar que algo é falso, passa-se a exigir a prova de que é verdadeiro. O que não traz procedência assinada torna-se, por padrão, suspeito. É a diferença entre correr atrás da mentira e blindar a verdade — e é a resposta durável à corrida sem fim entre falsificar e detectar. A terceira é a integração com a comunicação estratégica. A autenticação técnica é a espinha dorsal da resiliência cognitiva. Ela habilita o prebunking, ou seja, inocular a verdade antes que a mentira se espalhe, em vez do desmentido tardio. Verificar de forma rápida é mais eficaz do que corrigir depois. A quarta é o uso dual pela tríplice hélice. Estado, academia e o inesperado reservatório de talento forense do setor privado, todos articulados. É a lógica de whole-of-society[1]: a Defesa como empreendimento de toda a sociedade, e não apenas das Forças Armadas. A mesma capacidade serve à defesa civil, ao Judiciário e às operações de garantia da lei e da ordem, ampliando o retorno de cada real investido pela população. O caminho para essa proposta é incremental, e merece ser testado antes de qualquer ambição de produção em escala. Um projeto piloto atendendo a um fluxo real: a triagem de imagens que chegam a um centro de operações, por exemplo, medindo acurácia, tempo de veredito e taxa de falso alarme. A credibilidade do Escudo Forense depende de números honestos, não de promessas. 4. A liderança estratégica no centro do processo Como toda ferramenta poderosa, o Escudo Forense só faz sentido a serviço do julgamento humano. Clausewitz (2017) descreveu a névoa e a fricção da guerra. A era sintética acrescentou uma névoa nova, fabricada de propósito. O líder estratégico precisa de instrumentos para dissipá-la — mas a decisão sobre o que fazer com a verdade autenticada continua sendo dele. Kissinger (2023) mostra que a grande liderança governa a percepção e a realidade ao mesmo tempo. Num ambiente saturado de falsificações, defender a realidade compartilhada é função de comando. Zanini (2014) recorda que a confiança é o ativo mais frágil e mais valioso de uma organização. Uma força capaz de provar o que é real preserva a confiança interna e a confiança pública — o capital sobre o qual repousa toda autoridade legítima. Aqui também vale nomear a virtude. Liderar estrategicamente, num ambiente saturado de falsificações, é recusar tanto a ingenuidade quanto a paranoia. Não crer em tudo; não duvidar de tudo. O Escudo oferece ao líder o terceiro caminho: um critério verificável para separar o real do fabricado, devolvendo à decisão a base factual que a guerra cognitiva tenta destruir. Sem esse alicerce, a melhor das lideranças decide no escuro. Esse poder, porém, precisa ser ele próprio auditável. Autenticar imagens toca em dados sensíveis e em direitos individuais. O sistema deve operar sob controle, com transparência e respeito à legislação de proteção de dados. A capacidade de dizer o que é verdadeiro não pode se tornar a capacidade de decretar a verdade. A governança é parte do instrumento, não um apêndice. 5. Impactos na Defesa Nacional A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL, 2020) colocam a ciência e a tecnologia no coração do Poder Nacional. Autenticar a realidade é, hoje, uma dessas tecnologias críticas. Um país que não consegue distinguir o verdadeiro do falso, em escala, é vulnerável na dimensão informacional, onde as guerras contemporâneas começam. A recomendação é constituir o Escudo Forense como capacidade nacional, aliando a necessidade militar com o talento civil já existente. Ao lado de uma inteligência artificial doutrinária, ele compõe o par que protege a dimensão cognitiva da Defesa: um amplia o discernimento de quem decide; o outro garante que a realidade sobre a qual se decide seja, de fato, real. Referências bibliográficas BRASIL. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa. Brasília: Ministério da Defesa, 2020. Disponível em: www.gov.br/defesa. Acesso em: 22 ago. 2026. CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017. KISSINGER, Henry. Liderança: seis estudos sobre estratégia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2023. ZANINI, Marco Tulio. A ponta da lança: o papel da confiança na gestão de equipes de alto desempenho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. [1] Traduzido livremente como "abordagem de toda a sociedade", o conceito designa a mobilização conjunta do governo, do setor privado e da sociedade civil organizada para enfrentar desafios complexos. Rio de Janeiro - RJ, 02 de setembro de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O Escudo Forense: visão computacional e autenticação de imagem como capacidade dual de defesa cognitiva. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/o-escudo-forense-visao-computacional-e-autenticacao-de-imagem-como-capacidade-dual-de-defesa-cognitiva.
A aquisição da VBC Cav Centauro II e a teoria da inovação militar: um estudo sobre o amadurecimento da arte operacional
Marcelo Eduardo Deotti JúniorMajor do Exército Brasileiro. Aluno do Curso de Comando e Estado-Maior.Mestrando em Ciências Militares pelo PPGCM/ECEME. 1. Introdução O Exército Brasileiro (EB) encontra-se em um ponto de inflexão histórico, caracterizado pela transição de um modelo de força estruturado na Era Industrial para a Era do Conhecimento. O verdadeiro salto qualitativo de uma força armada está na capacidade intelectual dos membros da instituição de forjar uma “nova teoria da guerra”, capaz de envelopar a tecnologia recém-adquirida (ADAMSKY, 2010). A literatura estabelece uma distinção entre processos de modernização, focados em melhorias incrementais para missões já existentes e uma Revolução nos Assuntos Militares (RAM). Conforme Krepinevich, uma RAM se consolida quando a inovação tecnológica é combinada à criação de novos conceitos operacionais e às profundas adaptações organizacionais. No âmago deste processo, o Programa Estratégico Forças Blindadas desenvolve o projeto de aquisição da Viatura Blindada de Combate de Cavalaria (VBC Cav) 8x8 Centauro II e este artigo tem por objetivo responder de que maneira a incorporação do Centauro II pode atuar como o catalisador para o amadurecimento da Arte Operacional Brasileira, transformando essa vantagem tecnológica em uma Inovação Militar autóctone. Dessa forma, o objetivo desse trabalho é mostrar que o Centauro II representa um marco na história da Cavalaria Mecanizada, com potencial para alterar significativamente a doutrina, o modo de organizar, adestrar e pensar em suas organizações militares, indicando que esse fato representa o início de uma Revolução dos Assuntos Militares, impulsionada pelo Programa Forças Blindadas. Essa possibilidade será verificada por meio de uma revisão de conceitos e estudo da Teoria da Inovação e Arte Operacional, atreladas às capacidades da viatura. Outrossim, este estudo emprega abordagem metodológica qualitativa, focada na análise de documentos doutrinários e estudos sobre as características da VBC Cav. A Teoria da Inovação Militar é a lente analítica desta pesquisa que, além disso, delimitará o que é a Arte Operacional. 2. Teoria da Inovação Militar e RAM Ambos os conceitos são amplamente discutidos nas Ciências Militares. Segundo Horowitz e Pindyck (2022) define-se a Inovação Militar como as “mudanças na conduta da guerra, projetadas para aumentar a habilidade das forças militares em gerar poder”[1] (HOROWITZ; PINDYCK, 2022, p. 15, tradução nossa). O processo de inovação passa por três fases: invenção, incubação e implementação. A invenção de um sistema é o momento em que equipamentos modificados ou novos são incorporados e proporcionam novas táticas, como exemplo, a produção do Mark I, primeiro blindado produzido no mundo. Depois, ocorre a incubação, quando a invenção ganha influência e passa a ser experimentada, como o emprego de centenas de unidades de Mark IV na Batalha de Cambrai, na Primeira Guerra Mundial. Por fim, a implementação, que seria a adoção em larga escala pela comunidade de interesse, nesse caso, a incorporação e o desenvolvimento de diferentes modelos no mundo, como o Renault FT-17, que teve milhares de unidades produzidas durante a guerra. A Inovação Militar pode ser tão impactante a ponto de representar uma Revolução nos Assuntos Militares (RAM), que seria “a combinação de novos objetivos e estruturas organizacionais com novas práticas operacionais no campo de batalha, que às vezes, mas nem sempre, são impulsionadas por novas tecnologias”[2] (DANIELS, 2022, p.7, tradução nossa). Há necessidade de que quatro elementos estejam presentes para a efetiva revolução militar: “mudança tecnológica, desenvolvimento de sistemas, inovações operacionais e adaptações organizacionais. ” (KREPINEVICH, 1994, p. 30). Em outra abordagem, Dima Adamsky (2010) fundamenta a premissa de que a tecnologia atua como uma variável independente e ponto de partida. A inovação que consolida a RAM é uma construção cultural e cognitiva ditada pela adaptação doutrinária. 3. Arte operacional O manual de Doutrina de Operações Conjuntas conceitua a Arte Operacional como o “conjunto de conceitos que contribuem para uma melhor concepção do emprego de meios militares e não militares em um Teatro ou Área de Operações, para a realização de uma campanha ou, simplesmente, uma operação militar. ” (BRASIL, 2020, p. 49). A Arte Operacional é o componente do pensamento militar que organiza táticas para alcançar objetivos estratégicos. Ela surgiu da necessidade de gerir as vastas frentes de batalha da era moderna, onde um único combate raramente era decisivo. Com a Revolução Industrial, o aumento dos exércitos, a introdução de inovações tecnológicas e a dispersão geográfica dos conflitos, vitórias isoladas em campos de batalha deixaram de garantir o sucesso estratégico. Assim, o conceito emergiu da necessidade de orquestrar uma série de batalhas simultâneas e sucessivas, conectando-as por uma intenção unificada (WADOVSK; OLIVEIRA, 2018). Neste contexto, a máxima de Clausewitz (1996) ganha relevância: “A guerra pode ter a sua própria gramática, mas não a sua própria lógica”. Enquanto a VBC Centauro II revoluciona a “gramática” do combate terrestre, a “lógica” da guerra permanece sendo um instrumento da política e da estratégia nacional. A Arte Operacional atua, portanto, como a tradutora que garante que a nova gramática seja lida e aplicada segundo a lógica soberana do Estado. Assim, a Arte Operacional é a responsável por interpretar as potencialidades das inovações militares e moldar a doutrina e organização para a sua utilização eficaz, transformando inovações tecnológicas em vantagens operacionais (HOROWITZ; PINDYCK, 2022). Integra avanços tecnológicos com a evolução doutrinária, resultando em uma transformação fundamental na forma de conduzir operações militares. No caso do EB, as capacidades são desenvolvidas por meio do DOAMEPI. Esta estrutura multifacetada abrange Doutrina, Organização, Adestramento, Material, Educação, Pessoal e Infraestrutura, indicando que a aquisição de um sistema, como a VBC Cav, é insuficiente sem a concomitante adaptação dos demais fatores para gerar uma capacidade operacional efetiva (TEIXEIRA JÚNIOR; GAMA NETO, 2022). 4. O salto tecnológico A incorporação do Centauro II representa uma ruptura técnica para o EB, marcando a transição concreta de um modelo de força da Era Industrial para as exigências da Era do Conhecimento. Historicamente, a Força Terrestre estruturou sua Cavalaria Mecanizada em torno da VBR EE-9 Cascavel, uma plataforma cuja concepção reflete as características de seu tempo: eficácia baseada no choque puramente mecânico, comunicações analógicas por voz e o emprego de um canhão de 90 mm voltado, primordialmente, para o engajamento tático e apoio pelo fogo. O Centauro II é uma viatura sobre rodas pioneira na América do Sul, por conjugar alta mobilidade e poder de fogo em uma plataforma 8x8. Consiste em um complexo sistema que conjuga características fundamentais para a Cavalaria, como ação de choque, modernos meios de busca e detecção de alvos, e comunicações amplas e flexíveis, o que amplia o poder dissuasório da tropa brasileira. Equipado com um canhão de 120 mm, estabilizado, isto é, que atira em movimento, o novo blindado oferece um poder de fogo comparável aos principais carros de combate contemporâneos. Do ponto de vista da balística, a passagem do calibre 90 mm para o 120 mm representa um salto exponencial nos efeitos impostos. Além disso, agrega novas possibilidades, como o uso de munição APFSDS[3] e multipropósito, ampliando o rol de possibilidades de seu emprego. Aliado a isso, seu conjunto de força e a tração 8x8 garantem uma mobilidade superior. Essa característica, associada ao fato de ser sobre rodas, viabiliza o rápido deslocamento por extensas malhas viárias, uma necessidade premente na defesa de um país continental, contribuindo para o seu emprego em operações de ampla envergadura e em diversos teatros. Ademais, a arquitetura digital do Centauro consolida a transição para o conceito de Guerra Centrada em Redes. Dotado de optrônicos panorâmicos com visão termal e Sistema de Gerenciamento do Campo de Batalha (GCB), a plataforma amplia a consciência situacional e as possibilidades operacionais. É capaz de processar e compartilhar dados de alvos em tempo real com outras viaturas, escalões superiores e sistemas de artilharia. Pode, por meio do sistema nacional PROTEUS, interagir com Veículos Aéreos Não Tripulados (VANT). Sua letalidade é, portanto, multiplicada pela capacidade de receber coordenadas e engajar ameaças a distâncias maiores, melhorando a eficácia do tiro e reduzindo severamente o tempo do ciclo de decisão. A consolidação desses dados evidencia que a nova VBC Cav modifica a antiga métrica de combate. Ao unificar maior mobilidade, capacidade de fogo e de observação no estado da arte, e integração total a redes de dados, o equipamento possibilita ampliar a capacidade de ação no campo de batalha. Portanto, o emprego dessa inovação tecnológica sob as antigas premissas de emprego tático limitaria o seu verdadeiro potencial. 5. O hiato entre as novas capacidades e as estruturas vigentes O avanço tecnológico da VBC Cav demonstra que não se trata apenas da modernização de um material de emprego militar. O Centauro II incorpora diversas funcionalidades modernas e inovadoras. A diferença central está na proposta de sua concepção em relação ao material anterior. Assim, é necessário considerar uma nova forma de atuação, evitando o risco de utilizar uma abordagem doutrinária superada. Conforme destacado por Adamsky (2010) ao analisar o contexto norte-americano, existe o perigo da "tecnofilia", que consiste na crença equivocada de que equipamentos superiores solucionam dilemas estratégicos. No entanto, a tecnologia sem um desenvolvimento correspondente do pensamento militar representa apenas um multiplicador de força para uma doutrina desatualizada. 6. Análise de discurso Ao analisar o discurso de Trabalhos de Conclusão de Curso relativos ao Centauro II, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), percebe-se que é construída uma narrativa de salto tecnológico. O novo blindado é exaltado por suas características técnicas e efeitos, inserindo a Força Terrestre na “Era do Conhecimento” (CHIBIAQUI, 2025; COGO, 2024; COSTA, 2025; COUTO DA ROSA, 2025; DA SILVEIRA, 2025; DALLA POZZA, 2024; SAVIAN, 2024). Outra característica do discurso foca no impacto doutrinário dessa tecnologia, utilizando a metodologia do Planejamento Baseado em Capacidades e os fatores do acrônimo DOAMEPI. Reforça-se que a vantagem técnica do Centauro II atuará como estímulo à adoção de uma nova Doutrina Militar Terrestre. Os pesquisadores utilizam dados técnicos para provar que as novas capacidades de mobilidade, letalidade e proteção blindada devem modificar os atuais Dados Médios de Planejamento (DAMEPLAN), comprovando que as frações de Cavalaria Mecanizada possuem a possibilidade técnica de ampliar suas frentes e profundidades de atuação, seja em ações ofensivas ou defensivas. Entretanto, apesar de reconhecerem a importância da atualização doutrinária, a maioria das sugestões limita-se ao aumento de frentes e distâncias de combate. A análise de discurso revela uma lacuna: é preciso investigar quais outras mudanças doutrinárias o novo meio proporcionaria. Nesse contexto, o Centro de Instrução de Blindados possui protagonismo, ao passo que está encarregado de realizar a experimentação doutrinária do Centauro, sendo vital que extrapole o pensamento para direcionar a doutrina nos termos da Inovação Militar. 7. A armadilha do determinismo tecnológico e o risco da tecnofilia A introdução da VBC Cav Centauro II impõe o desafio de não sucumbir ao determinismo tecnológico. Diversos autores advertem contra a falácia da crença de que a aquisição de uma tecnologia superior causa, de forma automática e isolada, um melhor arranjo de defesa. Em uma perspectiva histórica, o desenvolvimento tecnológico não é sinônimo imediato de inovação em combate, uma vez que as inovações exigem condições culturais e organizacionais favoráveis para surtir os efeitos desejados no campo de batalha (OLIVEIRA; PEDONE, 2015). Conforme Adamsky (2010), o principal desafio de uma RAM é a assimilação intelectual do novo componente tecnológico. Se a Força Terrestre limitar-se a empregar as novas viaturas sob as mesmas premissas táticas e organizacionais da Era Industrial, incorrerá na armadilha da “tecnofilia” ou “tecnoforia”, a ilusão de que as especificações técnicas solucionam dilemas estratégicos complexos. Uma RAM genuína exige que a inovação material seja combinada a novos conceitos operacionais e às profundas adaptações organizacionais que alterem a natureza da conduta do conflito. 8. RAM autóctone brasileira A superação da dissonância entre o potencial do novo material e as estruturas doutrinárias e organizacionais vigentes é o que definirá a consolidação de uma RAM autóctone no Brasil. As inovações militares são construções condicionadas pela cultura estratégica de cada Estado. Para que a incorporação do Centauro II ultrapasse a modernização tecnológica e promova uma verdadeira RAM, torna-se importante que seja estabelecido um diagnóstico realista do seu emprego, reavaliando o conceito de transformação para além do reducionismo tecnológico. (TEIXEIRA JÚNIOR; GAMA NETO, 2022). A defesa de um país de dimensões continentais, englobando o desafio do arco amazônico e a extensão de suas fronteiras secas, exige que a força adote os princípios FAMESI: Flexibilidade, Adaptabilidade, Modularidade, Elasticidade, Sustentabilidade e Interoperabilidade (BRASIL, 2022). A descentralização das ações, intrínseca aos elementos de Cavalaria, demanda a adoção dessas características, encorajando a flexibilidade mental e a iniciativa nos escalões táticos subordinados para que lidem com a fricção e o caos do ambiente operacional. A Inovação Militar, portanto, consolida-se como um processo que modifica o preparo, o emprego, as mentes e as organizações. A VBC Cav atua como o propulsor dessa evolução. Essa viatura lidera o Programa Forças Blindadas, que possui outros processos em curso, como o Guarani, o Guaicurus, a Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado e a nova Força-Tarefa Blindada. Os novos blindados tensionam as antigas estruturas e impulsionam o Exército a institucionalizar uma nova Arte Operacional, convertendo, assim, a inovação de plataformas em uma Revolução nos Assuntos Militares genuinamente brasileira nas tropas blindadas. 9. Conclusão O Centauro II e os demais projetos do Programa Forças Blindadas possibilitam que o EB realize a modernização da Arte Operacional. As plataformas não devem ser vistas como um substituto para as anteriores, mas como uma Revolução nos Assuntos Militares. O amadurecimento dessa cognição permitiria renovar sua capacidade de projetar poder de forma assimétrica e dissuasória no cenário geopolítico regional. Em síntese, a transição paradigmática engloba uma revolução organizacional que acompanhe o salto tecnológico. Assim, a incorporação da VBC Cav deve atuar como incentivadora para a revisão dos Quadros de Organização, DAMEPLAN e, principalmente, das Táticas, Técnicas e Procedimentos, com maior integração orgânica de sensores e capacidade de operar de forma descentralizada em ambientes saturados e complexos. Conclui-se que, em última análise, a construção de uma Revolução nos Assuntos Militares autóctone depende da simbiose entre o material incorporado e o pensamento militar. Ao abraçar o Centauro II como o motor de uma mudança cultural e intelectual, o Exército Brasileiro tem a oportunidade de converter o investimento em defesa em um salto de dissuasão. Conclui-se, ainda, que a inovação militar, para ser qualificada como uma revolução nos assuntos militares, necessita ir além da atualização tecnológica, incorporando o desenvolvimento de novos sistemas, inovações operacionais e adaptações organizacionais para ser efetiva. Sem essas adequações estruturais e doutrinárias, o processo poderia se limitar a uma modernização tecnológica, sem gerar a vantagem estratégica almejada. Por fim, a RAM brasileira será o resultado do esforço da Arte Operacional em transformar o aço e a eletrônica dos novos meios no pilar da garantia da vitória na Era do Conhecimento. A capacidade de converter essa vantagem tecnológica em uma Revolução nos Assuntos Militares autóctone dependerá da agilidade em incorporar os ensinamentos dos conflitos contemporâneos e da aptidão para adaptar continuamente a doutrina e as estruturas militares. REFERÊNCIAS ADAMSKY, Dima. The culture of military innovation: the impact of cultural factors on the revolution in military affairs in Russia, the US, and Israel. Stanford: Stanford University Press, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1515/9780804773805. Acesso em: abr. 2026. BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. MD30-M-10.01: doutrina de operações conjuntas / Volume 2. 2. ed. Brasília: EME, 2020. BRASIL. Ministério da Defesa. Estado-Maior do Exército. EB20-MF-10.102: doutrina militar terrestre. 2. ed. Brasília: EME, 2022. CHIBIAQUI, Gustavo da Cunha. As implicações da aquisição da VBC Cav Centauro II na capacidade de reconhecimento do regimento de cavalaria mecanizado. Rio de Janeiro: ESAO, 2025. CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra. Tradução de Maria Teresa Ramos. São Paulo: Martins Fontes, 1996. COGO, Igor Rafael Flores. A geração de capacidades nas operações defensivas para o regimento de cavalaria mecanizado com a adoção do Centauro II. Rio de Janeiro: ESAO, 2024. COSTA, Gabriel Gonçalves. Eficiência balística terminal das munições Armour-Piercing Fin-Stabilized Discarding Sabot de emprego da Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Centauro 2 contra a blindagem dos carros de combate da América do Sul. Resende: AMAN, 2025. COUTO DA ROSA, Guilherme. Atualização da frente de reconhecimento de eixo com a aquisição da VBC-CC Centauro II. Rio de Janeiro: ESAO, 2025. DA SILVEIRA, Luiz Henrique. Uma análise sobre o aumento da frente defensiva do esquadrão de cavalaria mecanizado em uma ação retardadora com a inserção da VBC Cav Centauro II. Rio de Janeiro: ESAO, 2025. DALLA POZZA, Bruno Cezar. A geração de capacidades no regimento de cavalaria mecanizado com a incorporação do Centauro II nas operações defensivas. Rio de Janeiro: ESAO, 2024. DANIELS, Owen J. The “AI RMA”: the revolution has not arrived (yet). Washington, DC: Center for a New American Security, 2023. (The Andrew W. Marshall Papers). Disponível em: https://www.andrewwmarshallfoundation.org/library/the-ai-rma-the-revolution-has-not-arrived-yet-2. Acesso em: 22 abr. 2026. HOROWITZ, Michael C.; PINDYCK, Shira. What is a military innovation and why it matters. Journal of Strategic Studies, v. 46, n. 1, p. 85-114, 22 mar. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1080/01402390.2022.2038572. Acesso em: 18 abr. 2026. KREPINEVICH, Andrew F. Cavalry to Computer: the pattern of military revolutions. The National Interest, n. 37, p. 30-42, 1 set. 1994. Disponível em: https://nationalinterest.org/legacy/cavalry-to-computer-the-pattern-of-military-revolutions-848. Acesso em: 17 abr. 2026. OLIVEIRA, Guilherme Tadeu Berriel da Silva; PEDONE, Luiz. A importância política e estratégica da área de Ciência e Tecnologia e Inovação (CT&I) para defesa: uma breve exposição teórica e conceitual. Niterói: UFF, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.47240/revistadaesg.v30i61.153. Acesso em: abr. 2026. SAVIAN, Émerson dos Santos et al. A geração de capacidades no regimento de cavalaria mecanizado com a incorporação do Centauro II nas operações ofensivas. Rio de Janeiro: ESAO, 2024. TEIXEIRA JÚNIOR, Augusto W. M.; GAMA NETO, Ricardo Borges. The Brazilian army’s concept of transformation: technology and military change. Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 9, n. 1, p. 43-68, jan./jun. 2022. Disponível em: http://dx.doi.org/10.26792/rbed.v9n1.2022.75209. Acesso em: abr. 2026. WADOVSK, Rodolfo Castelo Branco; OLIVEIRA, José Cláudio da Costa. A evolução histórica da arte operacional de Frederico o Grande ao “Goldwater-Nichols Act”. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 668-702, set./dez. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.21544/1809-3191.v24n3.p668-702. Acesso em: abr. 2026. [1] We define military innovations as changes in the conduct of warfare designed to increase the ability of a military community to generate power. [2] An RMA “is a combination of new military organizational goals and structures with new operational practices on the battlefield that are sometimes but not always driven by new Technologies”. [3] Armor-Piercing, Fin-Stabilized, Discarding Sabot. Em português, significa munição perfuradora de blindagem, estabilizada por aletas e com casulo descartável. Rio de Janeiro - RJ, 27 de agosto de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A aquisição da VBC Cav Centauro II e a teoria da inovação militar: um estudo sobre o amadurecimento da arte operacional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/doutrina-e-operacoes-militares/artigos-dout-opmil/a-aquisicao-da-vbc-cav-centauro-ii-e-a-teoria-da-inovacao-militar.
A mobilização de reservistas e seu efeito na sustentabilidade operacional das Forças Armadas do Equador durante o conflito armado interno
César Parra MolinaMajor do Exército do Equador, afiliado à Universidade das Forças Armadas ESPE do Equador e doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos/ECEME. Marco GranjaMajor do Exército do Equador, afiliado à Universidade das Forças Armadas ESPE do Equador e doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos/ECEME. 1. Introdução A mobilização militar é uma capacidade estratégica definida pelo conjunto de eventos planejados e dirigidos pelo Estado, a partir de uma situação de normalidade. Já a a logística, na arte militar tradicional, é definida não apenas como o deslocamento, o abastecimento e a manutenção das tropas, mas como o esforço da economia de guerra que abrange a mobilização industrial, o recrutamento, o treinamento e a substituição de pessoal, com exceção da estratégia e da tática (THORPE, 1986, p. 11-12). Sob essa perspectiva, a capacidade de um país de realizar a transformação de uma estrutura de paz para uma de guerra, diante de uma situação de crise, determina sua capacidade de resistência durante o conflito, condição importante para alcançar o sucesso estratégico (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2022, p. 118). O conflito armado interno no Equador, declarado em 2024, levou as Forças Armadas a se envolverem em operações dinâmicas, reativas e complexas, de alta intensidade e com efeitos temporários. Esse ambiente de “atrito” constante, caracterizado por riscos, esforço físico e incerteza, desgasta os recursos humanos, os materiais e os equipamentos (CLAUSEWITZ, 2022, p. 111, 131). Diante da exigência constante de cobertura em todo o território nacional e do plano de rodízio de recursos humanos, a sustentação operacional, entendida como o fornecimento de logística e serviços de pessoal para a manutenção das operações militares no âmbito interno (BRADLEY et al., 2023, p. 9), torna-se vulnerável se depender exclusivamente das forças permanentes (KÄIHKÖ; HONIG, 2025, p. 1). Historicamente, o emprego de reservistas tem sido a solução doutrinária para reforçar o efetivo e dar continuidade às ações nas linhas de operação. Jomini (1862) afirmou que um governo estrategicamente visionário deve sempre disponibilizar reservas para suas Forças Armadas, com o objetivo de não enfraquecê-las. No entanto, a experiência adquirida em conflitos prolongados, como o da Rússia com a Ucrânia, indica que a eficácia da mobilização não depende do deslocamento em massa de recursos humanos, mas do funcionamento adequado da infraestrutura administrativa e técnica para a adaptação e a integração dos novos efetivos (KAZDOBINA; HEDENSKOG,2024, p. 2, 3). As lições aprendidas em teatros de operações contemporâneos mostram que os “gargalos” nos registros, na falta de capacidade de treinamento e na obsolescência dos sistemas de convocação podem colapsar o ímpeto ofensivo e defensivo de uma força armada (WATLING; REYNOLDS, 2022, p. 14). No Equador, a mobilização de reservistas foi um fator de relevância no Conflito do Cenepa, em 1995, no qual patrulhas de reservistas executaram tarefas de apoio logístico em condições geográficas extremas. No entanto, o problema científico atual reside no fato de não se saber até que ponto a capacidade institucional contemporânea de registrar, convocar, retreinar e equipar a reserva contribuiu efetivamente para a sustentabilidade operacional durante o conflito armado interno. Existe uma lacuna de conhecimento entre o planejamento normativo e a execução prática, o que levanta questões sobre a resiliência do sistema equatoriano. Esta pesquisa justifica-se pela necessidade estratégica de avaliar o grau de prontidão da força militar (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2022, p. 118). Se a integração entre o pessoal da ativa e os reservistas falhar, devido às limitações de financiamento, de logística ou de interoperabilidade, o Estado corre o risco de sofrer um desequilíbrio entre sua estratégia e sua força disponível (OWENS, 2015, p. 411- 412). Da mesma forma, a literatura sobre as relações entre os militares e a sociedade alerta que a mobilização moderna deve administrar a tensão entre as exigências de lealdade e dedicação total que as Forças Armadas impõem e as demandas sociais e das famílias dos reservistas, fatores que incidem diretamente sobre o moral da tropa (EDMUNDS et al., 2016, p. 128-130). O objetivo geral deste estudo é analisar a influência da capacidade de mobilização de reservistas no recompletamento operacional das unidades das Forças Armadas do Equador empregadas em operações no âmbito interno. De forma analítica, examina-se o sistema institucional de mobilização e as técnicas de integração adotadas nas unidades de combate. A principal contribuição consistirá em identificar as lacunas existentes entre o planejamento e a condução. O que busca-se é estimular a discussão sobre a formulação de diretrizes voltadas para o fortalecimento da continuidade, da disponibilidade e da resiliência operacional da força militar diante de ameaças futuras. 2. Princípios doutrinários da mobilização e do sustento A sustentabilidade operacional durante o desenrolar de um conflito armado interno está relacionada à capacidade do país de converter seu potencial nacional em força militar efetiva. Esse processo se concretiza por meio do sistema de mobilização, que atua como mecanismo de transição entre a estrutura de paz e a de guerra (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2022, p. 29). No contexto do conflito armado interno no Equador, a resposta institucional diante das novas ameaças exige uma revisão dos fundamentos doutrinários e das evidências empíricas sobre o emprego da reserva. A mobilização militar se concretizou nas atividades planejadas e executadas pelo Estado para preparar o instrumento militar diante do conflito armado interno, permitindo a incorporação dos meios necessários por um período limitado. Essa capacidade tem permitido manter as operações militares no âmbito interno durante o conflito, condição importante para alcançar os objetivos definidos pelo Estado (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2022, p. 118). Do ponto de vista da ciência militar clássica, sustenta-se que um exército eficiente requer um sistema bem-organizado de reservas nacionais, que permita duplicar a força permanente, caso seja necessário. Nessa perspectiva, a logística passa a ser a arte, na prática, muito além da organização administrativa, na qual o deslocamento das Forças Armadas, a posição inicial dos suprimentos e a mobilização dos recursos humanos constituem um cálculo estratégico fundamental (JOMINI, 1862, p. 68, 94). No entanto, essa execução em circunstâncias reais enfrenta o que Clausewitz (2022) denomina de “atrito”: o risco e a incerteza fazem com que o que é simples, na teoria, se torne complicado na prática. O autor distingue o contexto da condução da guerra (nos níveis tático e estratégico) do apoio operacional (abastecimento, serviços médicos e reforços), afirmando que, embora sejam funções distintas, exigem interação constante e recíproca. Na doutrina atual, o conceito de sustentação operacional transcende o termo “abastecimento”. Ele é definido como os recursos financeiros, o componente humano e a assistência médica necessários para manter as operações até o sucesso da missão (BRADLEY et al., 2023, p. 4). Esse modelo integra a coordenação, a sincronização e a distribuição de recursos, desde o nível estratégico até o tático, reconhecendo que o ponto mais vulnerável de qualquer força está localizado em sua área administrativa e em suas linhas de comunicação (MIZAEL et al., 2024, p. 12). A segurança nacional contemporânea evoluiu do conceito de defesa total para o de defesa abrangente. Essa estrutura propõe uma sinergia com a sociedade, enfatizando que o setor público representa apenas uma parte da capacidade de resposta da nação (OTAN, 2020a, p. 1,6). Nessa perspectiva, a reserva militar figura como a ponte estratégica entre o Estado e a sua população, fornecendo pessoal capacitado e especializado para garantir serviços essenciais e apoiar as operações militares no âmbito interno (OTAN, 2020b, p. 5). Por outro lado, a incorporação de reservistas gera tensões na sociedade. A literatura descreve as Forças Armadas como uma instituição de serviço e vocação que exige compromisso, lealdade e dedicação total, o que gera conflitos com a adaptação dos reservistas (EDMUNDS et al., 2016b, p. 130-131). Esse atrito, com diferentes facetas, como o equilíbrio entre as exigências do comando militar, a família e o ambiente de trabalho real, afeta diretamente o moral e a participação do pessoal. Evidências empíricas mostram tensões institucionais entre o pessoal profissional na ativa e os reservistas, e qualquer reforma proposta nesse setor fica comprometida quando estas são interpretadas como estratégias de austeridade e redução de custos pelo Estado, e não como melhoria nas capacidades operacionais desejáveis (BURY; CATIGNANI, 2019, p. 697-698). 3. Evidências Empíricas das Guerras do Cenepa e da Ucrânia As referências históricas do Equador mostram que a logística e a mobilização têm sido indispensáveis para o sucesso das operações militares. Durante a Guerra do Alto Cenepa, em 1995, a mobilização de reservistas foi fundamental para o apoio logístico às unidades de combate isoladas; entretanto, foram identificadas falhas críticas. A falta de uma organização logística específica nos agrupamentos táticos formados para o conflito obrigou ao emprego de procedimentos e métodos de entrega improvisados. Os reservistas empregados enfrentaram diversos perigos decorrentes dos combates, devido ao pouco treinamento em leitura de mapas e procedimentos de reação às emboscadas sob fogo inimigo (ORTIZ et al., 2012, p. 25-27) . Sob outra perspectiva, o conflito na Ucrânia oferece lições importantes sobre a modernização dos sistemas de mobilização. A Rússia enfrentou problemas no início da invasão devido aos registros imprecisos de reservistas e a uma infraestrutura administrativa dependente de processos manuais (SCHWARTZ; GORENBURG, 2024, p. 34,39). Em contrapartida, a Ucrânia implementou inovações tecnológicas e competências digitais, como o aplicativo “Reserve+”, que permitiu o cadastro de pessoal em grande escala, bem como uma atualização eficiente dos dados, superando as dificuldades dos escritórios de recrutamento tradicionais (DANYLYUK, 2024, p. 4). Apesar dos avanços digitais, a eficácia operacional continua dependendo da qualidade do treinamento e da liderança. O pessoal mobilizado, sem o treinamento adequado, torna-se vulnerável no campo de batalha, principalmente diante de fogos de precisão (HEDENSKOG; UMLAND, 2025, p. 5). 4. Considerações finais A mobilização de reservistas não diz respeito apenas ao processo administrativo que proporciona o aumento numérico da força, mas a um sistema multidimensional que contribui para a economia de guerra, funcionando como ponte entre o potencial nacional e o poder de combate efetivo. No contexto do conflito armado interno (entre 2024 e 2025), a sustentabilidade operacional dependeu da capacidade institucional de gerenciar a transição de uma estrutura de paz para uma de crise, na qual a mobilização atua como um dos fatores determinantes na manutenção das operações militares no âmbito interno. Os resultados evidenciam uma tensão entre o planejamento doutrinário e as condições reais da operação. Embora a teoria tradicional de Jomini defenda a necessidade de dispor de reservas organizadas capazes de reforçar o exército ativo, a experiência contemporânea do Equador e as lições extraídas de conflitos como o da Ucrânia mostram que a execução logística está sujeita a um “atrito” inevitável. As evidências documentais apontam que essa é uma das principais vulnerabilidades das Forças Armadas no âmbito administrativo e em suas linhas de comunicação. Como consequência, os problemas no registro e no alistamento dos reservistas afetam significativamente a capacidade de resposta e a resiliência das unidades empregadas em operações militares no âmbito interno. Observa-se uma dissonância entre a necessidade de convocar militares profissionais e a qualidade de sua formação. O emprego de reservistas com treinamento básico, como ocorreu durante as fases iniciais da mobilização russa, pode refletir negativamente na capacidade operacional, ao aumentar a vulnerabilidade do pessoal diante de cenários operacionais de alta complexidade. Dessa forma, a sustentabilidade operacional não depende apenas da presença física dos reservistas, mas da implementação de um modelo contínuo de reciclagem especializada, que fortaleça suas capacidades em cenários internos e reduza sua vulnerabilidade na área de defesa designada. Por fim, a capacidade de mobilização de reservistas no Equador deve transcender a abordagem reativa de contingência atual e se consolidar como uma capacidade estratégica, proativa, tecnologicamente fortalecida e articulada com a sociedade. Para garantir a soberania nacional diante das novas ameaças previstas no Plano Nacional de Segurança Integral, a gestão do talento humano destinado à defesa deve atingir um nível de resiliência equivalente ao da logística de materiais. REFERÊNCIA BURY, Patrick; CATIGNANI, Sergio. Future Reserves 2020, o Exército Britânico e a política de inovação militar durante a era Cameron. International Affairs, v. 95, n. 3, p. 681–701, 2019. CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra. Tradução de Michael Howard e Peter Paret. Tradução para o português de Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle. [S. l.: s. n.], 2022. Edição original: 1832. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (BRASIL). Fundamentos do Poder Nacional. Rio de Janeiro: Departamento de Estudos, 2022. HEDENSKOG, Jakob; UMLAND, Andreas. O desafio da mobilização ucraniana: forças armadas e sociedade durante uma guerra em grande escala. Estocolmo: SCEEUS, 2025. (Relatório SCEEUS n.º 13). JOMINI, Antoine-Henri de. A Arte da Guerra. Tradução do Major Napoleão Nobre. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, [s. d.]. Edição original :1838. KÄIHKÖ, Ilmari; HONIG, Jan Willem. “A sociedade ucraniana não tão unida em tempos de guerra: a formação de forças em sociedades modernas desenvolvidas”. The US Army War College Quarterly: Parameters, Carlisle, PA, v. 55, n. 1, 20 de março de 2025. Disponível em: https://press.armywarcollege.edu/parameters/vol55/iss1/4. Acessado em: 17 de julho de 2026. KAZDOBINA, Julia; HEDENSKOG, Jakob. Desafios da mobilização ucraniana. Estocolmo: SCEEUS, 8 de março de 2024. (Relatório SCEEUS, n. 5). ORTIZ, Xavier et al. A Logística na Guerra do Cenepa. Sangolquí: Academia de Guerra do Exército, 2012. (Curso do Estado-Maior LXV). OWENS, Mackubin Thomas. Planejamento de Forças: A Encruzilhada entre a Estratégia e o Processo Político. Orbis, v. 59, n. 3, p. 411–437, 2015. SCHWARTZ, Paul; GORENBURG, Dmitry. Mobilização Militar Russa Durante a Guerra na Ucrânia: Evolução, Métodos e Impacto Líquido. Arlington, VA: CNA, out. 2024. THORPE, George C. Pure Logistics: the science of war preparation. Washington, DC: National Defense University Press, 1986. WATLING, Jack; DANYLYUK, Oleksandr V.; REYNOLDS, Nick. Lições preliminares das operações ofensivas da Ucrânia, 2022–23. Londres: Royal United Services Institute (RUSI), julho de 2024. Rio de Janeiro - RJ, 21 de agosto de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A mobilização de reservistas e seu efeito na sustentabilidade operacional das Forças Armadas do Equador durante o conflito armado interno. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/doutrina-e-operacoes-militares/artigos-dout-opmil/a-mobilizacao-de-reservistas-e-seu-efeito-na-sustentabilidade-operacional-das-forcas-armadas-do-equador-durante-o-conflito-armado-interno.
Webinar: Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil
OMPV Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil O Webinar Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil, foi realizado no dia 24/06/2026, quarta-feira, e contou com a participação dos seguintes expositores: Coronel Edson da Silva, da Secretaria de Estado de Defesa Civil e Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro; Coronel Marcos Antônio, do Exército Brasileiro e especialista DQBRN. Uma conversa especial com profissionais que participaram da resposta ao desastre com o Césio-137, em Goiânia (1987), compartilhando suas experiências, aprendizados e a aplicação desses conhecimentos na gestão e resposta a emergências. O evento foi organizado pelo Núcleo de Pesquisa sobre Defesa QBRN e Desastres (NuPeDD-QBRN) em parceria com Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Webinar: Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil do dia 24 de junho de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 04 de setembro de 2026 . .
Seminário A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos
OMPV O Seminário: A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos, foi realizado no dia 25/06/2026, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 25/06/2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de junho 2026.
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos - O Exército Brasileiro nas Operações no Multidomínio
OMPV O ambiente operacional contemporâneo é marcado pela rápida evolução tecnológica, pela complexidade dos conflitos e pela ampliação dos espaços de disputa. Nesse cenário, as Operações no Multidomínio representam uma forma contemporânea de planejar e conduzir operações militares, integrando capacidades nos domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial, cibernético e informacional para produzir efeitos coordenados e potencializar os resulta dos operacionais. Para o Exército Brasileiro, esse conceito orienta a transformação da Força Terrestre, impulsionando a evolução da doutrina, o desenvolvimento de capacidades, a incorporação de novas tecnologias e o fortalecimento da integração com as demais Forças Armadas e instituições nacionais. As Operações no Multidomínio ampliam a consciência situacional, aceleram o processo decisório e fortalecem a capacidade de atuação do Exército Brasileiro, contribuindo para a defesa da soberania nacional e para o enfrentamento dos desafios do ambiente operacional do presente e do futuro. Nos dias 11 e 12 de agosto, a ECEME realizou o XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos (CEE), com o tema "O Exército Brasileiro nas Operações no Multidomínio". O evento reuniu especialistas nacionais e estrangeiros para discutir os desafios de um ambiente operacional marcado pela rápida evolução tecnológica e pela complexidade dos conflitos, com foco na integração de capacidades nos diferentes domínios: espacial, aéreo, terrestre, marítimo e eletromagnético, cibernético e cognitivo. Ao longo de dois dias, palestras e debates abordaram o futuro da guerra, o ambiente estratégico global, tecnologias disruptivas, sistemas antidrone, logística e a atuação das Divisões de Exército nas Operações no Multidomínio. O XXXIV CEE reafirma o compromisso da Escola com o avanço da Doutrina Militar Terrestre e a qualificação das competências exigidas pelos cenários de conflito presentes e futuros, consolidando seu papel como referência em pensamento e produção de conhecimento estratégico. Para assistir o XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 11 e 12 de agosto de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 01 de setembro de 2026 . .
XXXIII Ciclo de Estudos Estratégicos - O Brasil e a transformação das Operações de Paz: Multilateralismo entre a crise e a afirmação da resiliência
OMPV O contexto atual é marcado por graves fragmentações políticas, crises de legitimidade e desafios operacionais. Hoje, é urgente a reflexão sobre como o multilateralismo institucionalizado pode se reinventar a fim de manter-se eficiente e relevante. As operações de paz da ONU são uma ferramenta multilateral que, há 80 anos, são desdobra das para lidar com conflitos armados e também têm sido afetadas pelo atual momento de inflexão, no qual a crise do multilateralismo se entrelaça com a necessidade de afirmar a sua relevância e de reforçar a sua resiliência. O Brasil está em uma posição privilegiada neste debate. Além de contribuir para a construção de consensos nos principais órgãos da ONU (Conselho de Segurança e Assembleia Geral), o país, desde 1956, também desdobra militares em operações de paz de diferentes naturezas, inclusive em cargos de liderança. Ademais, tem sido convidado para colaborar com a evolução doutrinária e operacional e para a construção da “resiliência institucional”. Nos dias 12 e 13 de maio de 2026, foi realizada a 33ª edição do Ciclo de Estudos Estratégicos (CEE), reunindo especialistas civis e militares, nacionais e estrangeiros, em discussões acadêmicas sobre os desafios contemporâneos das operações de paz e as transformações da ordem internacional. A ECEME reuniu militares, diplomatas, acadêmicos e pesquisadores nacionais e internacionais para dois dias de reflexão de alto nível sobre: "O Brasil e a transformação das operações de paz: multilateralismo entre a crise e a afirmação da resiliência". O evento contou com a participação do Embaixador Marcelo Viegas (Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores), do Professor Doutor Cedric de Conning (Norwegian Institute of International Affairs - NUPI), dos Generais de Exército Novaes e Costa Neves, dos Generais de Divisão Fernandes e Affonso da Costa, além de professores e pesquisadores do King's College London, South African Institute of International Affairs (SAIIA), Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Fundação Getúlio Vargas (FGV), Escola Superior de Guerra (ESG) e Rede Brasileira sobre Operações de Paz (REBRAPAZ). Os painéis do CEE, e a Mesa Redonda que antecedeu o evento, abordaram o atual cenário internacional, marcado por fragmentações políticas, crises de legitimidade e ascensão do papel de organizações regionais na gestão de conflitos, que impõe ao multilateralismo a necessidade de se reinventar para permanecer relevante e eficaz. Nesse contexto, as operações de paz da ONU, empregadas há oito décadas na gestão de conflitos armados, enfrentam o desafio de fortalecer sua resiliência institucional diante da crise do sistema multilateral. Organizado pelo Instituto Meira Mattos (PPGCM/IMM), o CEE consolida a ECEME como centro de referência nacional e internacional em pensamento estratégico - um espaço onde Academia, Defesa e Diplomacia convergem para antecipar os desafios da segurança internacional e fortalecer a projeção do Brasil no cenário global. Para assistir o XXXIII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 12 e 13 de maio de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de maio de 2026 . .
XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos - II Seminário sobre as Estratégias Globais e Nacionais para a Mitigação de Ameaças QBRN: Cooperação, Desenvolvimento e Projeção de Poder
OMPV Com o objetivo de promover um amplo fórum de debates sobre os desafios impostos pelas ameaças QBRN no Brasil e no mundo, o evento teve como foco a cooperação interagências, o desenvolvimento de capacidades nacionais e a projeção de poder. Esses temas foram discutidos a partir de cenários estratégicos: a rápida evolução tecnológica, a complexidade crescente do crime organizado, o legado de grandes eventos e a necessidade de antecipar situações críticas colocam as ameaças QBRN no centro das discussões de segurança contemporânea. Nesse contexto, torna-se essencial integrar esforços das Forças Armadas, dos órgãos de segurança pública, da defesa civil, da comunidade científica, da indústria e dos organismos internacionais. É nesse cenário que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) dedica-se ao estudo das implicações QBRN para a Defesa Nacional. O evento visou fomentar o conhecimento estratégico, fortalecer a cooperação institucional e preparar o país para responder de forma eficaz aos desafios de um ambiente global em constante transformação. Para assistir o XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 05 e 06 de agosto 2025, Clique aqui. Para mais informações: https://ppgcm.eceme.eb.mil.br/index.php/pt/quem-somos/grupos-de-pesquisa/655-nucleo-de-pesquisa-sobre-defesa-qbrn-e-desastres-nupedd-qbrn Rio de Janeiro - RJ, 02 de fevereiro 2026 . .
XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos - Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa
OMPV Nos dias 16 e 17 de junho de 2025, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) promoveu o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos (XXXI CEE), reunindo autoridades civis e militares, pesquisadores, docentes e especialistas nacionais e estrangeiros em torno do tema “IA e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa”. A conferência de abertura contou com exposições do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Richard, que abordou as diretrizes da Força Terrestre para a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA), e do Comandante do Instituto Militar de Engenharia, General Galdino, que apresentou os novos paradigmas tecnológicos, destacando oportunidades e desafios relacionados à temática. Ao longo das duas jornadas, a programação incluiu conferências, painéis e mesas temáticas que trataram da integração de IA e Tecnologias Quânticas (TQ) no campo da Defesa, destacando os avanços científicos, os impactos estratégicos, as implicações éticas e legais, bem como os desafios de implementação dessas tecnologias em um contexto operacional. As discussões abrangeram tópicos como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o emprego de IA nos conflitos contemporâneos, disputas geopolíticas em torno das tecnologias emergentes, ciberdefesa, implicações quânticas para a criptografia e segurança, além de temas voltados à governança, educação, energia e inovação. Especial atenção foi dedicada à preparação do Brasil e de suas Forças Armadas frente às exigências de um ambiente internacional cada vez mais tecnológico e complexo. O XXXI CEE também evidenciou a importância da sinergia entre a academia, os centros de pesquisa e as instituições militares no desenvolvimento de capacidades autônomas e na formulação de estratégias que assegurem a soberania nacional. Nesse sentido, a ECEME reafirma seu compromisso com a modernização e o fortalecimento do pensamento estratégico no âmbito do Exército Brasileiro, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e a construção de soluções inovadoras para os desafios da Defesa no século XXI. Para assistir o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 16 e 17 de junho 2025, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://sites.google.com/ime.eb.br/iatq/sobre-o-projeto/ciclo-de-estudos-estrat%C3%A9gicos?authuser=0 Rio de Janeiro - RJ, 19 de setembro 2025 . .
Evolução do sistema DQBRN do Exército Brasileiro - 25 junho 2026 |
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A ação dos EUA e de Israel no conflito no Oriente Médio - 19 março 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
A questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano
A questão Essequibo é um litígio fronteiriço histórico. A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deveria ser a fronteira natural, conforme um mapa de 1777 que remonta aos tempos coloniais espanhóis. A Guiana, por sua vez, baseia sua soberania nas fronteiras estabelecidas por um laudo arbitral de Paris de 1899, que concedeu a maior parte da terra à então Guiana Britânica. Em 2015, a descoberta de reservas de petróleo e gás em águas profundas na costa do Essequibo, por empresas internacionais, intensificou a disputa, elevando o valor estratégico da região e suas águas adjacentes. No final de 2023, a antiga disputa pela região voltou ao cenário geopolítico sul-americano depois que o governo venezuelano realizou um referendo para legitimar a anexação do território. A crise expõe as limitações de organismos regionais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em mediar e prevenir conflitos entre seus membros, exigindo uma atuação mais forte de instâncias multilaterais e de atores internacionais. Até que ponto a questão Essequibo está envolvida nas atuais ações militares na região do Caribe e quais são os seus reflexos para o Brasil? Para abordar o tema “A Questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Ricardo De Toma, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ricardo Salvador De Toma-GarcíaPesquisador pós-doutoral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Professor, o senhor pode explicar resumidamente o que vem a ser a Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Essequibo, região rica em recursos minerais, é uma reivindicação antiga da Venezuela, que cobiça os 159.500 km² do território para acrecer aos seus 916.500 km². Já a Guiana, detentora da área cobiçada, possui 215.000 km². O que isso representa? Mais do que 70% do território que ocupa e administra a Guiana, país que nasceu como uma república em 1966, quando se tornou independente do Reino Unido. A Venezuela foi o segundo país a reconhecer a independência da Guiana, mas fez uma ressalva: o reconhecimento estabelecia uma reclamação sobre os 159.500 km² de Essequibo, que, para os venezuelanos, não deveria fazer parte do território guianense. A questão ganha eco basicamente pelos potenciais de hidrocarbonetos e petróleo em áreas marinhas não delimitadas. A exploração desses recursos por parte de corporações estadunidenses e chinesas é o que tem gerado o interesse sobre a região. Cabe destacar que o grande desenvolvimento econômico da Guiana, que vem sendo reconhecido como uma “Dubai sul-americana”, gerou atritos políticos, que acabaram por se transformar em grandes tensões entre a Venezuela e a Guiana. 2) OMPV: Como ocorreu o crescimento da economia da Guiana? Prof. Ricardo: A Guiana era um dos países com uma das menores economias da região. Ela dependia basicamente da exploração de manganês e de ouro. A partir de 2019, o país começou a produzir petróleo. Veja a situação, vamos falar de números: a Guiana tem hoje menos de 700 mil habitantes, com um crescimento demográfico negativo e um dos maiores índices de suicídio do mundo, justamente por essa situação econômica complicada. Hoje a Guiana está produzindo cerca de 700 mil barris diários de petróleo. Isso é quase um barril por habitante. Essa é a verdadeira transformação da economia da Guiana, repercutindo em um acentuado crescimento econômico e um significativo aumento da qualidade de vida da sua população. 3) OMPV: Como essa disputa por Essequibo afeta o Brasil? Prof. Ricardo: Essa resposta traz à tona a crise ocorrida em 1969, envolvendo a Venezuela e a Guiana, motivada por duas questões: a tomada militar da ilha de Anacoco, no rio Cuyuní, pela Venezuela, e a revolta do Rupununi, promovida por separatistas na Guiana, perto da localidade de Lethem, que faz fronteira com a cidade de Bonfim, na divisa com o Estado de Roraima. Esses incidentes aumentaram a tensão na fronteira com o Brasil e criaram um movimento de deslocados para o território brasileiro à época. Com o desenvolvimento econômico da Guiana, em decorrência da exploração petrolífera, a Venezuela resolveu retomar a sua cobiça por Essequibo. O governo venezuelano, afetado por uma série crise política, aproveitou-se desse tema para incrementar a sua popularidade. Todos esses movimentos geraram uma preocupação para o Brasil, Estado que tem uma grande responsabilidade em manter a inviolabilidade de suas fronteiras, garantindo que a região amazônica não seja alvo de cobiças internacionais. Há relatos da presença, no sul do rio Orinoco, de agentes da Rússia, inclusive com a presença de bombardeiros estratégicos russos na Venezuela. Os Estados Unidos também têm interesses na região e a China, apesar de manter certa neutralidade, possui fortes investimentos na área contestada. 4) OMPV: O atual território da Venezuela faz fronteira com a região contestada, ou há necessidade de passar pelo Brasil para chegar até essa área? Prof. Ricardo: Oficialmente, a Venezuela não reconhece a fronteira que foi estabelecida pelo laudo arbitral de Paris de 1899 e é por conta dessa situação que o caso está atualmente na Corte Internacional de Justiça, onde se discutirá justamente a delimitação da fronteira. Com relação à pergunta, a resposta é não, porque a região do Essequibo tem um limite com o estado de Delta Amacuro, no norte da Venezuela, e com o estado de Bolívar, permitindo o trânsito para o território contestado. Aliás, essa é uma zona transitada pelos indígenas Warao. 5) OMPV: Quais são os principais atores internacionais envolvidos na Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Já houve o envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há investimentos britânicos por meio de petroleiras, com concessões autorizadas unilateralmente pela Guiana sobre áreas marinhas não delimitadas. Também observa-se a aplicação de recursos na região por parte da Empresa Nacional de Petróleos da China, que opera conjuntamente com a ExxonMobil, dos Estados Unidos, sobre o Bloco Stabroek, campo petrolífero offshore na costa da Guiana. E ainda podemos citar a influência russa, que vê na Venezuela uma forma de projetar seu poder na região. Na Guiana, os franceses participaram de leilões de blocos para a exploração de petróleo, com a empresa Total. A existência desses interesses econômicos aumenta o potencial geoestratégico do território Essequibo. Você vê hoje, por exemplo, que a China investe pesado na modernização do aeroporto internacional de Georgetown, que possui projetos para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas, de um porto de águas profundas e interesse no desenvolvimento da rede 5G. A Guiana foi o primeiro país do Caribe Ocidental que estabeleceu relações com a China e que a reconheceu como “uma única China”. Essa lealdade é retribuída pela China com esses investimentos. 6) OMPV: Recentemente, o Brasil realizou a Operação Atlas, desdobrando tropas na região próxima a Essequibo, sob coordenação do seu Ministério da Defesa. Como é que o senhor vê a repercussão desse exercício para a região? Prof. Ricardo: O interessante é que, recentemente, na Venezuela, também foram realizados exercícios. Esses exercícios foram, de certo modo, uma resposta a um patrulheiro britânico que estava no porto de Georgetown, e eu lembro que, na época, houve uma manifestação do antigo chanceler do Brasil, que indicou que uma grande autoridade, de uma grande potência, havia manifestado que, caso a Venezuela tomasse a decisão de tomar Essequibo pela força, essa grande potência iria intervir. Entendo que a Operação Atlas repercute positivamente para o Brasil, demonstrando a capacidade logística das suas Forças Armadas e a determinação nacional de manter a estabilidade da região amazônica, deixando-a de fora de possíveis conflitos. Nove países tem parte na Amazônia e a presença de forças extra-regionais em um eventual cenário desagregado ou caótico pode ser lesiva para a soberania individual de cada um dos Estados pan-amazônicos. Assim, qualquer medida mais radical ou não consensual por partes de algum país pode gerar consequências incertas. Portanto, esse tipo de exercício é necessário para manter a segurança local, a cooperação e a paz. 7) OMPV: Recentemente os Estados Unidos têm aproximado tropas do litoral da Guiana. O que essas manobras têm a ver com a região de Essequibo? Prof. Ricardo: Os Estados Unidos assinaram um convênio com a Guiana. No ano de 2020, durante a pandemia, foi a primeira vez na história que um secretário de Estado americano visitou Georgetown. A partir desse ano, durante o primeiro governo Trump, foi assinado um convênio de patrulhamento entre o Serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos e a Guiana, que não possui uma força armada capaz de desenvolver essas operações. Esse acordo ficou centrado em neutralizar aparentes ou supostas operações de narcotráfico. Já se fala hoje da existência de um suposto Cartel de los Soles, com indícios que vinculam autoridades venezuelanas a atividades ilícitas. Então, o que temos que destacar é que os Estados Unidos, diante dessas suspeitas, podem atuar na defesa de seus interesses e no combate ao narcotráfico, trazendo mais tensão para a questão Essequibo. 8) OMPV: Qual é a relação comercial do Brasil com a Guiana? Prof Ricardo: O Brasil, por meio da Petrobras, tem interesse em participar da exploração dessas áreas marinhas não delimitadas. Existe também um interesse em pequenas exportações. O estado de Roraima é o principal interessado em que seja construída uma rodovia que passe por Bonfim, Lethem, Mahdia, Mabaruma Hills e depois Linden, até Georgetown, para escoar a sua produção. Ter acesso ao Caribe é uma situação que para o Brasil é importante do ponto de vista estratégico. 9) OMPV: Como o senhor vislumbra o desenvolvimento da Questão Essequibo no cenário internacional? Prof. Ricardo: É um tema que está atualmente na Corte Internacional de Justiça. Espera-se que nos próximos meses, sejam emitidas algumas considerações jurídicas sobre os documentos apresentados pelo Estado venezuelano, e a eventual decisão dessa questão por parte da Corte resultará em um fato julgado, que passará a ter um efeito imediato, sobre o processo de delimitação internacional entre a Venezuela e a Guiana, repercutindo nas atividades econômicas na região. Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2025. .
Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa
A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa. Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado. Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros, são alguns dos crimes da região. Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Tássio FranchiProfessor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia? Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões. Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional. Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais. Esses países veem a Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países. Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica. 2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números? Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo. As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária. O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras. Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas. Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais. 3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas? Prof. Tássio: Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles. O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos. Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas. OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países? Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor. Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica. Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia. 4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado? Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime. Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado. 5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região? Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas. Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação. O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico. A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável. As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras. 6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas? Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica. A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações. Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas. Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental. 7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia? Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano. Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais. Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera. Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos. Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto. 8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica? Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso. Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região. Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região. Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado. A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia. 9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa? Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas. Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína. Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África. Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga. O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas. Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu. A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa. 10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região? Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos. 11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso? Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas. Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil. E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas. Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção. Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink. Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil. Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados. 12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia? Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada. Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas. Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para. Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025. .
O acordo de paz entre Israel e o Hamas - Conflito Israel x Hamas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra. Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sandro Teixeira MoitaDoutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz? Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm. Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense. Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas. Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países. Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região. Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz. 2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito? Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha. O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani. E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos. Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área. Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. 3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz? Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas. Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio. 4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah? Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza. Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica. O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã. 5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz? Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro. Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro. Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região. Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra. Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz. 6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido? Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo. Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico. Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel. Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração. Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região. 7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz? Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo. 8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza? Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã. A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas. Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil. O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967. Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025. .
War and Power: Who Wins Wars - and Why
Autor: Phillips Payson O'Brien Por Tiago Marques dos Santos Filho Major de Infantaria do Exército Brasileiro,aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME edoutorando do PPGCM do Instituto Meira Mattos. A compreensão do fenômeno da guerra e a calibração do poder dissuasório das nações enfrentam uma crise metodológica severa na presente década, com analistas e planejadores falhando sistematicamente em prever o desempenho real de forças militares em cenários de alta intensidade. Em War and Power: Who Wins Wars - and Why, lançado em 2025 pela editora PublicAffairs, o historiador Phillips Payson O'Brien utiliza o erro de diagnóstico ocidental na invasão da Ucrânia em 2022, sintetizado na recusa do presidente Volodymyr Zelensky à proposta norte-americana de ajuda para a evacuação do território ucraniano ("Eu preciso de munição, não de uma carona"), para desestruturar o secular "paradigma das grandes potências". O autor argumenta que a tradição realista, ao focar exclusivamente em inventários materiais, balanços de forças estáticos e métricas puras de armamentos, negligencia as dinâmicas institucionais, operacionais e o peso da liderança política, gerando um modelo analítico cego à realidade do combate contemporâneo. A obra divide-se em duas grandes seções ("Power" e "War"), desdobrando-se em dez capítulos que dissecam metodicamente as condicionantes que de fato governam a vitória e a derrota no século XXI, estruturando um instrumental teórico que desafia os dogmas tradicionais das Ciências Militares. Iniciando o primeiro bloco focado na anatomia do poder em tempo de paz, o Capítulo 1 estabelece que a fundação da proeminência militar reside estritamente na força econômica e tecnológica, especificamente na capacidade nacional de projetar, manufaturar e regenerar insumos complexos em alta escala. O'Brien desconstrói o determinismo demográfico ou geográfico bruto ao demonstrar que nações de vasta extensão territorial, como a Rússia ou o Canadá, ou de grandes massas populacionais isoladas, não se convertem automaticamente em potências de espectro completo. O verdadeiro diferencial reside no domínio da produção industrial de alta tecnologia e na capacidade financeira de sustentar os custos crescentes do desenvolvimento científico. Analisando a evolução histórica do Produto Interno Bruto (PIB) e do Produto Nacional Bruto (PNB) desde o século XIX, o autor evidencia que a capacidade de converter riqueza material em força militar real é o que separa as potências autênticas dos "pretendentes" ao topo da pirâmide global. No Capítulo 2, O'Brien demonstra que essa base material e industrial é ativada e direcionada pela liderança política do Estado. O autor rejeita a premissa de que existe um "interesse nacional" abstrato e imutável ao qual todos os líderes aspiram; em vez disso, o interesse nacional é determinado pelas escolhas políticas, preconceitos, ideologias e idiossincrasias dos governantes. Essa análise do processo decisório e da centralidade do Executivo dialoga diretamente com as contribuições teóricas do professor Octávio Amorim Neto na literatura nacional, que há muito sublinha o modo como o arranjo institucional doméstico e a governança do Poder Executivo moldam a formulação das políticas de defesa e a projeção externa do Estado. O'Brien detalha como decisões de indivíduos, como a recusa de Kaiser Wilhelm II em renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia ou a obsessão de Adolf Hitler por plataformas superpesadas e pelo controle político rígido que asfixiava a produção nos primeiros anos da guerra, alteraram o destino de nações poderosas, provando que a liderança pode mitigar ou sabotar o potencial econômico do país. O Capítulo 3 estende essa análise à sociedade e à sua estrutura política, argumentando que a solidez do poder nacional depende da harmonia entre as instituições governamentais e do compromisso da população. O autor examina os impactos da corrupção e da falta de integridade institucional na eficiência das forças armadas, demonstrando que desvios orçamentários sociais e burocracias corruptas funcionam como parasitas que corroem o poder militar por dentro, mesmo em Estados que ostentam vultosos orçamentos de defesa. Em contrapartida, sociedades democráticas ou coesas, apesar de lidarem com pressões populistas ou debates internos sobre o isolacionismo, tendem a demonstrar maior flexibilidade, resiliência e capacidade de inovação disruptiva quando submetidas a crises existenciais, servindo como uma barreira contra o colapso estrutural que frequentemente acomete regimes autocráticos e centralizados. No Capítulo 4, o autor analisa o processo de construção de um instrumento militar, evidenciando que as forças armadas são subprodutos diretos das interações políticas, econômicas e sociais prévias, e não dados físicos isolados. O'Brien detalha como os requisitos doutrinários e a seleção de sistemas de armas refletem a visão de guerra de suas lideranças, apontando o fracasso histórico do programa do bombardeiro quadrimotor alemão Heinkel He 177 (Grief) como um exemplo contundente de desperdício de recursos gerado por exigências operacionais contraditórias e pressões políticas. A incapacidade da Luftwaffe em consolidar uma força de bombardeio estratégico e a posterior dependência alemã de defesas antiaéreas pesadas (flak) ilustram como falhas na concepção do instrumento militar limitam as opções estratégicas do Estado, dinâmica que se repetiu nas severas restrições tecnológicas que a União Soviética enfrentou ao tentar replicar a revolução computacional ocidental. Encerrando a primeira parte da obra, o Capítulo 5 aborda a arquitetura de alianças internacionais, apontando que o isolacionismo estratégico é um catalisador de vulnerabilidades históricas e que as coalizões integradas amplificam o poder nacional de forma orgânica. O'Brien resgata a diplomacia britânica anterior a 1914 para demonstrar como o Reino Unido utilizou acordos e ententes com a França e a Rússia para compensar sua liderança industrial declinante e conter a ameaça naval alemã. Essa perspectiva foca na cooperação de longo prazo e se choca frontalmente com o realismo ofensivo do teórico das relações internacionais John Mearsheimer, que tende a conceber as alianças como arranjos temporários, frágeis e estritamente instrumentais, nos quais o dilema de segurança e o cálculo egoísta de sobrevivência dos Estados impedem uma integração profunda e duradoura no sistema anárquico internacional. É imperativo ponderar, contudo, que a linearidade estrutural proposta por O'Brien entre a higidez econômica e tecnológica e a projeção do poder nacional sofre severas contestações quando submetida ao crivo do Realismo Estrutural e das teorias de defesa contemporâneas. Ao reduzir a dinâmica internacional a um fluxo quase determinístico de capacidade manufatureira e governança institucional, o autor arrisca-se em um tecnicismo que subestima a perenidade da anarquia sistêmica. No segundo bloco da obra, voltado à manifestação prática do poder no ambiente do conflito armado, o Capítulo 6 introduz a distinção conceitual central entre a "lógica da batalha" (compromissos táticos efêmeros e limitados geograficamente) e a "lógica da guerra" (competição sistêmica, atricional e de longo prazo). O autor critica duramente a fixação clássica da historiografia e das academias militares por choques decisivos na linha de frente, argumentando que o resultado de combates individuais raramente decide o destino de uma campanha de alta intensidade. Mediante uma revisão documental rigorosa do teatro de operações europeu na Segunda Guerra Mundial, O'Brien demonstra que o desfecho de batalhas tidas como "pontos de inflexão" não alterou o balanço macroeconômico de forças, uma vez que as perdas materiais eram absorvidas pelas linhas de montagem dos beligerantes, reposicionando o combate como um mero revelador do estado do poder das nações, e não como sua causa primária. O Capítulo 7 aprofunda a crítica ao “fetiche” tecnológico ao provar que a eficácia operativa depende do domínio e da coordenação de operações complexas interconectadas, como as missões de supressão de defesas aéreas inimigas (SEAD) e o gerenciamento de cadeias logísticas globais, e não do desempenho isolado de armas consideradas revolucionárias. O autor utiliza o exemplo histórico dos grupos de batalha de porta-aviões norte-americanos e a infraestrutura do "fleet train" para demonstrar que o suporte logístico móvel foi o verdadeiro multiplicador de força no Pacífico. No Capítulo 8, O'Brien confronta o fator humano com as métricas quantitativas estáticas, demonstrando que o adestramento, o moral e a flexibilidade tática das tropas no terreno são as verdadeiras engrenagens que traduzem massa material em resultados operativos. Revisando os dados reais das batalhas de Stalingrado e Kursk em 1943, o autor desconstrói as narrativas hiperbólicas de destruição de forças criadas pela propaganda soviética, evidenciando que as perdas alemãs em blindados e aeronaves nesses confrontos foram estatisticamente modestas face à produção anual da Alemanha. O que determinou a derrota das forças do Eixo foi a incapacidade humana e sistêmica de coordenar o suporte combinado de armas sob fogo e manter o moral das tropas diante de um oponente que demonstrava superioridade na inteligência de sinais e na capacidade de absorver e responder aos choques táticos. O Capítulo 9 foca na dialética entre iniciar e sustentar o esforço de guerra, destruindo o mito da "guerra curta e clínica" que frequentemente seduz os planejadores estratégicos. O'Brien adverte que os estoques materiais com os quais as nações iniciam um conflito convencional moderno são consumidos em ritmo alarmante nas primeiras semanas de hostilidades, convertendo a campanha em um teste desesperado de regeneração, reparo e substituição contínua de forças. O autor demonstra que o colapso da ilusão da guerra rápida força o Estado a reconfigurar toda a sua economia doméstica para o esforço bélico, punindo severamente as nações que falharam em estruturar linhas de suprimento resilientes ou que se tornaram dependentes do comércio externo de insumos críticos e componentes de difícil reposição. O Capítulo 10 consolida o argumento bélico da obra ao analisar o embate histórico entre Estados isolados e alianças integradas, demonstrando a superioridade incontestável das coalizões que operam de maneira cooperativa em termos logísticos, financeiros e militares. O autor aponta que potências que tentaram agir de forma autárquica ou que encararam seus parceiros como meros objetos de exploração imperial, como a Alemanha nazista e o Japão imperial, foram esmagadas pela sinergia de blocos que souberam compartilhar tecnologia, coordenar rotas comerciais e dividir o fardo do combate de forma integrada. Essa inclinação de War and Power ao tecnicismo e à primazia do atrito industrial clássico torna-se ainda mais problemática quando confrontada com a velocidade de obsolescência das táticas e plataformas no campo de batalha do século XXI. Enquanto O'Brien argumenta que a vitória pertence ao ator capaz de sustentar linhas de montagem e fluxos logísticos de massa em longo prazo, analistas voltados à inovação disruptiva, como Christian Brose, alertam que a digitalização radical e a consolidação da "cadeia de destruição" (kill chain) redefiniram o tempo operacional da guerra moderna. Sob a perspectiva de Brose (2020), a capacidade de processamento de dados e o encurtamento dos laços entre sensores e combatentes (sensor-to-shooter loops) conferem uma assimetria letal que pode paralisar as plataformas pesadas e tradicionais — como os grupos de porta-aviões idealizados pelo autor — antes que qualquer engrenagem de reposição industrial consiga reagir. Complementando esse argumento, o analista militar Michael Kofman observa que, embora o conflito contemporâneo retenha um caráter atricional inegável, a introdução de sistemas de armas autônomos (LAWS) e de inteligência artificial cria uma dialética de adaptação tecnológica em tempo real que desafia a métrica puramente quantitativa de O'Brien, demonstrando que o domínio do espectro eletromagnético e a agilidade algorítmica podem suplantar a mera capacidade de substituição material em massa no teatro de operações. Na conclusão do livro, O'Brien direciona seu modelo analítico para o Indo-Pacífico, avaliando as condicionantes de um eventual choque de alta intensidade entre os Estados Unidos e a China. O autor sublinha que a dissuasão e a estabilidade na região não serão medidas pela contagem de mísseis ou navios prontos na linha de partida, mas sim pela resiliência das cadeias de suprimento globais, pela capacidade de inovação e pela firmeza do processo decisório político frente ao atrito industrializado de longo prazo. Para o leitor, War and Power consolida-se como uma ferramenta de utilidade pragmática inestimável, servindo como um freio conceitual necessário contra soluções simplistas e reposicionando a integridade das instituições, a robustez da logística e a clareza da liderança como os verdadeiros pilares da vitória militar. REFERÊNCIAS BROSE, Christian. The kill chain: defending America in the future of high-tech warfare. New York: Hachette Books, 2020. Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.
O Soldado e o Estado
Autor: Samuel P. Huntington Por Alberto Gressler dos Santos Major do Exército Brasileiro e aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME. Um corpo de oficiais político, dividido em facções, subordinado a fins ocultos, ressentindo-se de prestígio, mas sensível aos apelos da popularidade, colocaria em perigo a segurança do Estado. Por outro lado, um corpo de oficiais profissionais forte e altamente integrado, imune à política e respeitado por seu caráter militar, seria um imperturbável fator de equilíbrio na conduta da política (HUNTINGTON, 2016, p. 527). Samuel P. Huntington foi um cientista político norte-americano, nascido em 1927 e falecido em 2008. Formou-se na Universidade de Yale e doutorou-se em Harvard, onde lecionou até 2007. É autor, coautor e editor de 17 livros e de mais de 90 artigos acadêmicos. Dedicou-se ao estudo das relações cívico-militares e à geopolítica. Sua tese de maior impacto foi a que ficou conhecida como a teoria do “Choque das Civilizações”. O livro “O Soldado e o Estado” analisa as relações entre civis e militares desde o surgimento do oficialato como profissão, que remonta ao século XIX, com a reforma do exército prussiano por Scharnhost, Gneisenau e Grolmann, e chega ao período da Guerra Fria. Huntington utiliza-se de apontamentos filosóficos sobre a profissão militar e a percepção desta pelas sociedades humanas ao longo da história, exemplificando as diferentes relações entre civis e militares na política de Estados com formação bastante distinta da norte-americana, como a Alemanha e o Japão, cujas sociedades viveram a “tragédia do militarismo”, o que permite observar os comportamentos e apreender algumas conclusões importantes para a realidade brasileira. A partir de uma base teórica bem explicada, temperada com uma análise empírica detalhada, o autor contribui para a compreensão da participação militar nas decisões políticas nacionais, permitindo clareza na diferenciação de quando se fala em Política Nacional e quando se trata de política partidária. Segundo Luiz de Alencar Araripe, na apresentação da 1ª edição, o autor soube utilizar recursos adequados para tornar agradável um livro sobre um tema tão árido. Samuel Huntington inicia sua análise pela definição de profissão, fazendo dessa primeira parte uma verdadeira lição para civis e militares na compreensão da finalidade e da motivação da profissão das armas. Salienta-se que o foco do autor está na oficialidade, na medida em que esse corpo é responsável por dirigir a estrutura militar e, em consequência, pela segurança do Estado e, por isso, ele inicia a obra definindo a natureza do corpo de oficiais e discorrendo sobre sua mentalidade. Para o autor, a especialização, a responsabilidade e a corporatividade distinguem uma determinada profissão como um tipo especial de vocação. A responsabilidade é caracterizada pelo serviço essencial que o profissional presta ao funcionamento da sociedade. As motivações do oficial residem no amor técnico por sua habilidade e no senso de obrigação social de utilizar essa qualidade em benefício da sociedade (...) A sociedade, por outro lado, só pode garantir essa motivação se oferecer pagamento continuado e condigno a seus oficiais, tanto no serviço ativo quanto na inatividade (HUNTINGTON, 2016, p.33).Huntington elabora o conceito de ideal militar, segundo o qual “O oficialato é mais forte e mais eficiente quanto mais perto se encontra do ideal profissional; mais débil e mais imperfeito quando lhe falta esse ideal”, o que exige uma verdadeira reflexão do leitor militar a respeito de si próprio. Para esse exercício profissional, “cumpre (ao oficial) possuir destreza intelectual, cujo domínio exige estudo intenso”, delineando, assim, a especialidade do profissional. Nessa toada, Huntington define a especialização do oficial como uma esfera distinta de competência militar, comum a todos os oficiais e somente a eles, que os distingue de todos os civis, dada pela capacidade de, segundo Harold Laswell, “administrar a violência”. Para seu pleno domínio, a qualificação militar requer uma vasta base de cultura geral – história, política, economia, sociologia e psicologia. Não lhe é possível desenvolver plenamente suas habilidades analíticas, de percepção, julgamento e imaginação se apenas for treinado para tarefas vocacionais. (HUNTINGTON, 2016, p.32) Após tamanha abordagem inicial, Samuel Huntington parte do suposto problema da participação do grupo militar na política dos Estados e das implicações positivas e/ou negativas para um país. Para isso, utiliza-se dos exemplos da Alemanha e do Japão como referências para fazer uma comparação com o estudo dos EUA. É nessa parte que ele elabora um questionamento relevante: “A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares. Mas quais os limites da obediência?”. Para o autor, “as instituições militares de qualquer sociedade são moldadas por duas forças: um imperativo funcional, originado das ameaças à segurança da sociedade; e um imperativo societário, proveniente das forças sociais, das ideologias e das instituições dominantes dessa sociedade”. Ele alerta que as instituições militares que só refletem valores sociais podem ser incapazes de desempenhar com eficiência sua função específica, mas, por outro lado, é impossível conter dentro da sociedade instituições militares moldadas exclusivamente por imperativos funcionais. É nesse ponto que está o nó do problema abordado pelo autor. Huntington destacou a necessidade que os militares têm do direcionamento político para o estabelecimento da estratégia de defesa. Desse modo, o conceito de Controle Civil Objetivo é explicado pela relação segundo a qual a política estabelece os fins e aloca os recursos, ao passo que os militares utilizam e empregam esses recursos para atingir tais objetivos - ou seja, elaboram a estratégia. Inevitavelmente existe uma sequência a ser seguida: a política vem antes da estratégia. Se o governo do Estado não estabelece os fins ou se não há uma direção, contínua, constante, progressiva, previsível, o meio militar atua perdido, sem rumo. “Sem ele [um Conselho de Segurança Nacional que definisse a Política Nacional de Defesa ou Militar], não havia rumo para nada (…) Os pensadores militares reconheciam que um Conselho de Defesa era mais necessário na paz do que na guerra” (HUNTINGTON, 2016, p. 300). Além desse exemplo, o livro traz à baila vários aspectos do militarismo norte-americano que geram reflexão sobre o estado das relações cívico-militares no Brasil. Note-se que a tradição militar dos EUA foi desenhada a partir de três princípios, quais sejam o tecnicismo, a popularização e o profissionalismo. Huntington deixa claras, ao longo da obra, as dificuldades da sociedade americana em aceitar um agrupamento militar permanente. Ora gerado pela mentalidade liberal que o acusava de dispêndio desnecessário e prejudicial ao progresso econômico e ao bem-estar do povo; ora pela ausência de ameaças devido ao isolamento geográfico. Um tema de tangência entre os exércitos norte-americano e brasileiro, e de verdadeira relevância atual, é a perda de oficiais para o mercado civil de trabalho. Isso é citado por Huntington, no período pós Segunda Guerra Mundial, quando a aproximação entre os militares e os empresários se consolidou. Tal proximidade permitiu o desenvolvimento da indústria de defesa dos EUA. Dessa forma, aproveitando o prestígio obtido pelos oficiais durante a guerra, o empresariado seduziu jovens oficiais, com maiores capacidades intelectuais e de direção, que enxergaram melhores oportunidades financeiras se trabalhassem nas empresas e nas indústrias. Embora Samuel Huntington se centre na história dos EUA, é fácil perceber a universalidade das suas teses. Como a obra foi escrita na década de 1950, talvez haja uma possível lacuna na obra - por limitação temporal - sobre como evoluiu o sentimento favorável aos heróis militares na sociedade americana, assim como é percebido na cultura por meio dos filmes, dos esportes e dos ambientes públicos. Como afirma Filho (2020), embora escrito há mais de sessenta anos, O Soldado e o Estado é leitura obrigatória para militares e civis profissionais, por aprofundar a relação entre as expressões política e militar do Poder Nacional. Dois questionamentos elaborados pelo autor devem ser deixados para reflexão. Inicialmente, que modelo de relação entre civis e militares é mais compatível com os valores liberais-democráticos? Por fim, essa pergunta fomenta outra mais importante: que modelo de relação entre civis e militares será melhor para manter a segurança da nação ? Referência bibliográfica FILHO, Paulo Roberto da Silva Gomes. Samuel Huntington e a ética militar profissional. Paulo Filho – Liderança e Geopolítica, 27 jul. 2020. Disponível em: https://paulofilho.net.br/2020/07/27/samuel-huntington-e-a-etica-militar-profissional/. Acesso em: 31 de maio de 2026. Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.
Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional
Por André Luis Novaes MirandaGeneral-de-Exército da reserva. Assessor especial da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas. Apresentação O cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã anunciaram em 14 de junho de 2026 — após a assinatura do Memorando de Entendimento, cujas negociações técnicas previstas para 19 de junho, na Suíça, foram adiadas em razão da nova escalada de combates entre Israel e o Hezbollah no Líbano — encerra quase quatro meses de uma guerra escalada no final de fevereiro, mas que havia começado com as respostas israelenses aos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, ou até antes, dependendo do referencial. Seria, porém, um erro analítico tratá-lo apenas como o fim de um conflito. O que pode se encerrar, na prática, é o ciclo de décadas em que a segurança do Golfo repousava sobre uma garantia americana tida como crível e previsível. Os termos divulgados — cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano; reabertura do Estreito de Ormuz e suspensão do bloqueio naval norte-americano; compromisso iraniano de jamais buscar a arma nuclear; algum tipo de compensação financeira a Teerã; e sessenta dias de negociações rumo a um acordo final — desenham menos uma vitória do que um empate caro.[1] A leitura que organiza este texto é a de Ian Bremmer, em artigo desta semana e no ensaio que assina com Firas Maksad na Foreign Affairs: a guerra não apenas terminou mal para Washington — ela acelerou o colapso da ordem ancorada nos Estados Unidos, no Oriente Médio, que manteve o petróleo fluindo, as potências rivais afastadas e Washington como árbitro de tudo o que importava. Confronto essa tese com fontes britânicas, do Golfo, chinesas e norte-americanas, para separar o que é fato documentado do que é interpretação, e arrisco uma análise sobre a redistribuição de poder no Golfo Pérsico (expandido). 1. O choque de Doha e a fissura da garantia americana O ponto de inflexão é anterior à guerra. Em 9 de setembro de 2025, caças israelenses dispararam cerca de dez mísseis contra um complexo residencial em Doha, mirando a cúpula política do Hamas que negociava um cessar-fogo em Gaza. Foi a primeira ação militar israelense em solo catariano — e o primeiro ataque a um membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Morreram seis pessoas, entre elas um agente de segurança catariano.[2] Mais relevante do que o alvo foi a reação imediata de Washington: nenhuma medida para impedir o ataque ou impor qualquer custo a Israel. A lição absorvida nas capitais do Golfo foi direta — a garantia de segurança americana passou a vir com um ponto de interrogação. As respostas vieram em dois movimentos. De um lado, a cúpula árabe-islâmica de emergência reunida em Doha em 15 de setembro; de outro, oito dias depois, a Arábia Saudita assinou com o Paquistão, potência nuclear, um Acordo Estratégico de Defesa Mútua que trata uma agressão a qualquer dos dois como agressão a ambos — estendendo, na interpretação corrente, um guarda-chuva nuclear paquistanês sobre o reino. Washington, por sua vez, agiu menos para dissuadir o agressor do que para conter os danos: em 29 de setembro, Trump intermediou — com o texto redigido pela própria Casa Branca — um telefonema trilateral em que Netanyahu pediu desculpas ao primeiro-ministro catariano, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, admitiu a violação da soberania e prometeu não repetir o ataque, condição que Doha impusera para seguir mediando as negociações entre Israel e o Hamas; no mesmo dia, uma ordem executiva ofereceu ao Catar uma garantia de segurança americana sem precedentes no Golfo. O recado regional, porém, já estava dado: um aliado podia ser atingido em seu próprio território sem que o fiador o impedisse ou impusesse custos ao autor — as desculpas foram arrancadas em benefício da vítima, não como sanção a quem agrediu. Doha foi o aviso; a guerra de 2026 foi a confirmação. 2. A Guerra do Irã de 2026 e a paz de junho O conflito aberto começou no final de fevereiro de 2026, com a campanha israelo-americana contra o Irã e, em retaliação, com mísseis e drones iranianos caindo sobre Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados — Estados que pagaram o preço de decisões nas quais não tiveram voz. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz que não rendeu as concessões esperadas. Uma primeira trégua de duas semanas, mediada pelo Paquistão (com proposta de cinco pontos e intervenção de última hora da China), entrou em vigor entre os dias 7 e 8 de abril; em 21 de abril, Trump a prorrogou por tempo indeterminado, até o acordo de junho.[4] O saldo estratégico é desconfortável para quem deflagrou a guerra. O programa nuclear iraniano sobreviveu, assim como seus mísseis balísticos, seus drones e suas redes de proxies interpostas no Iraque, no Líbano e no Iêmen. O regime que Washington se propôs a quebrar segue de pé — abalado, mas íntegro — e ainda será, pelos termos do acordo, compensado para permitir a passagem por uma via marítima que estava aberta antes do primeiro tiro. Na avaliação de Bremmer, trata-se do maior erro de política externa dos Estados Unidos desde a Guerra do Iraque; o legado mais duradouro, porém, tem menos a ver com o Irã do que com a posição americana na região.[5] 3. Duas coalizões: contenção versus confronto Quando o fiador vacila, os Estados fazem o que sempre fazem: organizam-se em blocos. O Golfo pós-guerra divide-se em dois eixos que divergem em quase tudo. De um lado, uma coalizão “abraâmica” ancorada nos Emirados e em Israel, estreitamente atada a Washington; de outro, uma coalizão “islâmica” sunita em torno de Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e, crescentemente, Egito — que ainda depende dos EUA para segurança, mas passou a tratar essa dependência como passivo. Ambos veem Teerã como ameaça, mas discordam sobre como lidar com ela. Riad quer conter, dissuadir e manter aberta a hipótese de acomodação; Israel e Abu Dhabi enxergam um inimigo permanente, a ser confrontado. Contenção contra confronto — e sem árbitro em quem ambos confiem. Tabela 1 – A dinâmica das relações entre Estados Dimensão Eixo “abraâmico” (Israel–EAU–EUA) Eixo “islâmico” (Turquia–Arábia–Paquistão–Egito) Núcleo Israel e Emirados, fortemente atados a Washington; atração ocasional de Grécia e Índia em defesa, energia e comércio. Pesos-pesados sunitas: Turquia, Arábia Saudita, Paquistão e, cada vez mais, Egito. Postura quanto ao Irã Confronto: o regime é inimigo permanente a ser enfrentado, não administrado. Contenção: equilibrar e dissuadir o Irã, preservando a porta de uma acomodação futura. Relação com os EUA Aprofundamento dos laços de defesa e inteligência; aposta na confiabilidade americana. Dependência securitária ainda real, mas tratada como passivo a ser coberto por hedging. Lógica energética EAU fora da OPEP: bombear ao máximo e monetizar enquanto há demanda. Arábia precisa de preço alto e sustentado para financiar a Visão 2030.[6] Hedge externo Tecnologia e mercados; cooperação seletiva com a China, sem irritar Washington. Guarda-chuva nuclear paquistanês; abertura à mediação chinesa e à diplomacia regional. Fonte: autor A clivagem não se esgota no Irã. A coalizão islâmica une-se também contra o que percebe como poder israelense sem freios — de Gaza e Cisjordânia à Síria e ao Líbano. E as instituições que antes produziam consenso travaram pela mesma linha: dentro do CCG, Kuwait e Catar gravitam para Riad, Bahrein inclina-se a Abu Dhabi e Omã mantém canal próprio com Teerã. Figura 1 – Mapa de alinhamentos do Oriente Médio expandido Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA 4. A fratura saudita-emiradense: o eixo mais profundo Sob a clivagem entre os dois eixos corre uma fratura mais antiga e mais estrutural: a rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados. O Golfo árabe nunca foi um bloco monolítico, e Riad e Abu Dhabi vinham divergindo havia anos sobre o Iêmen, o Sudão, o Chifre da África, a Líbia e o petróleo. À disputa por teatros somou-se, mais recentemente, a competição por recursos minerais, energia e tecnologias de fronteira, como a inteligência artificial.[7] O que era divergência tática converteu-se em rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do Golfo. A ruptura ganhou expressão institucional em 2026. Em 28 de abril, os Emirados anunciaram a saída da OPEP, efetiva em 1º de maio — deixando o cartel sem seu terceiro maior produtor e privando Riad de seu parceiro mais relevante. A lógica é temporal e divergente: com ponto de equilíbrio fiscal estimado em torno de US$ 49 por barril, contra cerca de US$ 90 da Arábia, Abu Dhabi aposta em bombear e monetizar o quanto antes, enquanto houver demanda; Riad depende de preços altos e sustentados para pagar a Visão 2030.[8] A saída emiradense, lida por analistas como manifestação do distanciamento geopolítico, enfraquece o pilar que fazia da Arábia a potência organizadora do Golfo e ameaça o ambiente de investimento sobre o qual a Visão 2030 foi erguida. Analistas descrevem a ruptura, agora aberta e pública, como a fratura mais séria no Golfo desde o bloqueio ao Catar de 2017.[9][10] E ela não é abstrata: materializa-se em três teatros interligados — o Iêmen, o Sudão e o Mar Vermelho —, onde a rivalidade deixou de ser apenas econômica e ganhou contornos militares. 5. Os teatros da fratura: Iêmen, Sudão e o Mar Vermelho O primeiro teatro, e o mais agudo, foi o Iêmen — onde a rivalidade deixou de ser por procuração. Ao longo de dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado por Abu Dhabi, lançou a ofensiva “Operation Promising Future” e tomou a maior parte de Hadramout e Mahra — províncias ricas em petróleo, fronteiriças com a Arábia e que somam quase metade do território iemenita —, renovando o chamado pela secessão do Sul. Em 30 de dezembro, a Real Força Aérea Saudita bombardeou o porto de Mukalla, controlado pelo STC, alegando atingir um carregamento de armas vindo dos Emirados (alegação negada por Abu Dhabi). O governo iemenita reconhecido ordenou a saída das forças emiradenses em 24 horas, decretou bloqueio e estado de emergência; os Emirados anunciaram a retirada. Em janeiro de 2026, a contraofensiva saudita retomou Seiyun, Mukalla e Aden, e o líder do STC, Aidarus al-Zubaidi, foi destituído do Conselho Presidencial, acusado de traição e refugiou-se nos Emirados. Analistas tratam o episódio como o primeiro choque armado direto entre Riad e Abu Dhabi.[11] O segundo teatro, mais sangrento, é o Sudão. Desde 2023, a guerra civil opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), de Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), de Mohamed Hamdan Dagalo, o “Hemedti”. A Arábia respalda as SAF e o Estado central — em nome da estabilidade, da Visão 2030 e do acesso ao Mar Vermelho; os Emirados são acusados de armar a RSF, movidos por ouro (extraído de minas sob controle da milícia), portos e rotas de comércio — peça do que se descreve como o “eixo de secessionistas” emiradense, que abrange ainda Líbia, Somália e Iêmen. A queda de El Fasher, em outubro de 2025, consolidou o domínio da RSF sobre Darfur. Em novembro, o príncipe-herdeiro saudita teria pressionado Washington a endurecer com Abu Dhabi; Riad ampliou o apoio às SAF — que retomaram Cartum em janeiro de 2026 — e, com Egito e Somália, passou a negar sobrevoo a cargas emiradenses suspeitas de abastecer a RSF, além de intermediar a transferência de caças paquistaneses às SAF. Em 10 de fevereiro de 2026, uma investigação da Reuters confirmou uma base financiada pelos Emirados na Etiópia, treinando cerca de 4.300 combatentes da RSF.[12] O terceiro teatro projeta a fratura sobre o Mar Vermelho — por onde passam cerca de 12% do comércio global — e a organiza em dois eixos nítidos. Em 26 de dezembro de 2025, Israel tornou-se o primeiro membro da ONU a reconhecer a Somalilândia, em declaração conjunta apresentada como extensão dos Acordos de Abraão. A lógica é geográfica e de chokepoint (ponto de estrangulamento): a Somalilândia situa-se no Golfo de Áden, ao sul de Bab-el-Mandeb e em frente ao Iêmen — precisamente de onde os Houthis atacam a navegação. O reconhecimento abre caminho a uma base ou posto de escuta israelense em Berbera, voltado a monitorar ameaças houthis e iranianas e a assegurar o acesso ao Mar Vermelho, vital para o porto de Eilat. O gesto, porém, também mira a Turquia: para Israel, a Somália tornou-se zona de influência turca, e a Somalilândia, estável e não alinhada, serve para diluí-la. Os Estados Unidos não acompanharam de imediato; Somália, União Europeia e os Houthis rejeitaram o reconhecimento, estes últimos ameaçando tratar qualquer presença israelense como alvo legítimo.[13] É aqui que a Turquia se torna peça decisiva. Ancara — que invoca laços otomanos, mantém em Mogadíscio sua maior base militar no exterior (Camp TURKSOM) e intermediou a reaproximação entre Etiópia e Somália em 2024 — alinhou-se a Riad. Em fevereiro de 2026, Erdogan visitou Mohammed bin Salman e ambos firmaram uma declaração defendendo a unidade da Somália, repudiando a divisão do Iêmen e o governo paralelo da RSF e cobrando a saída israelense da Síria. Essa ocupação remonta à queda de Assad, em dezembro de 2024: Israel avançou além da linha de armistício de 1974, tomou o cume do Monte Hermon e cerca de 350 km² no sudoeste sírio, sob a justificativa de criar uma zona-tampão que impeça forças hostis junto ao Golã — a proteção da minoria drusa, invocada a partir dos confrontos de Suwayda (julho de 2025), é lida por analistas mais como alavanca de influência do que como motivação central. Consolidou-se assim uma “Coalizão do Status Quo” — Arábia, Egito e Turquia, somadas a Eritreia, Djibuti, Somália e Sudão —, voltada a conter o triângulo “revisionista” Emirados–Etiópia–Israel. A rivalidade do Golfo, em suma, transbordou para as duas margens do Mar Vermelho, e a Turquia migrou de competidora regional a âncora setentrional do campo saudita.[14] O Golfo deixou de ter um centro de gravidade único — e a fratura ganhou profundidade continental. Quadro 1 — Os “neutros” do reordenamento: Síria, Iraque, Omã e Jordânia Rotular de “neutros” os Estados que não se alinham a nenhum dos eixos achata quatro situações distintas. A Síria desertou: com a queda de Assad (dezembro de 2024) e a ascensão de al-Sharaa, expulsou a influência iraniana e gravita hoje para o campo saudita-turco-americano, ainda que travada pela ocupação israelense do sudoeste. O Iraque é um Estado penetrado: governo e milícias pró-Irã — as Forças de Mobilização Popular, dentro do próprio aparato estatal — fazem dele arena e alvo da guerra entre EUA e Irã. Omã é o mediador interessado: o canal indispensável com Teerã, hoje sob tensão no próprio CCG. A Jordânia é a aliada constrangida: abate mísseis iranianos rumo a Israel e hospeda forças americanas, mas precisa minimizar o gesto diante da própria opinião pública. Nenhum é, a rigor, neutro: cada um é um modo distinto de fazer hedging sob coação — e é nos Estados-tampão que a multipolaridade do G-Zero deixa de ser conceito e vira geografia. Fontes: The Soufan Center; INSS; Arab Center DC; Political Geography Now; Security Council Report (2025–2026). 6. A China entra — e seus limites É nesse vácuo que a China avança. Sua principal vantagem é o contraste: para uma região cansada da volatilidade americana, a ausência de sobressaltos já vale muito. Pequim chega com credenciais — intermediou em 2023 a normalização entre Arábia e Irã — e com peso econômico: desde 2024, o comércio entre o Golfo e a China superou o comércio entre o Golfo e o Ocidente.[15] Na crise de 2026, a China coassinou com o Paquistão a proposta de paz e deu o empurrão final para a trégua de abril; tanto o príncipe-herdeiro de Abu Dhabi quanto o chanceler saudita procuraram Xi Jinping pedindo um papel maior na desescalada. Riad já sonda um pacto de não agressão entre CCG e o Irã, inspirado no processo de Helsinque — e nenhuma potência externa está mais bem posicionada do que a China para mediá-lo. Aqui, porém, convém disciplina analítica e fugir do determinismo. Três qualificações importam. Primeiro, a China não substituirá os Estados Unidos como fiador de segurança: não tem bases nem pactos de defesa na região e prefere influência por comércio e mediação a porta-aviões.[16] Segundo, o que se observa não é uma virada de Washington para Pequim, mas a busca de autonomia estratégica por potências médias que enxergam a China como hedge necessário, não como uma nova América.[17] Terceiro, a guerra também feriu interesses chineses: as importações chinesas de petróleo do Golfo caíram cerca de 25% em março de 2026, na comparação anual.[18] Pequim ganha por estar presente quando os EUA faltam — mas não precisa, nem quer, assumir o ônus de policiar a região. 7. O elo EUA–Israel sob tensão Há um corolário do acordo de junho que merece registro à parte: a relação entre Washington e Israel. O memorando de entendimento que encerrou a guerra foi negociado por cima de Israel — um funcionário do governo israelense afirmou que o país sequer teve acesso ao texto, e o próprio Netanyahu admitiu, em 15 de junho, desconhecer os detalhes do documento, ainda que tenha exaltado a operação conjunta. O acordo, ademais, impõe o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano, onde as forças israelenses controlam cerca de 20% do território e juram não se retirar; e Trump, num gesto raro, repreendeu publicamente Israel pelas baixas civis e voltou a alfinetar Netanyahu. Israel, em suma, foi, em boa medida, contornado.[19] O atrito reverbera na política interna israelense. Críticos acusam Netanyahu de ter arrastado Trump para uma guerra prometendo mais do que ela poderia entregar, para agora ver-se dela retirado antes de Israel se sentir seguro; uma pesquisa do Israel Democracy Institute registrou que 57,5% dos israelenses consideram o quadro do acordo incompatível com a segurança do país. Bremmer chega a sugerir que o acordo pode selar o fim político de Netanyahu, com Lapid e Bennett rondando a sucessão. Aqui é possível arriscar uma direção: Netanyahu sai enfraquecido, a coalizão é frágil e uma eleição antecipada é risco concreto.[20] Quadro 2 — As rupturas internas no BRICS+ A guerra de 2026 expôs uma fratura no próprio campo que se imagina alternativo ao Ocidente. Irã e Emirados Árabes Unidos são, ambos, membros plenos do BRICS+ desde janeiro de 2024 — e, durante o conflito, o Irã atacou os EAU, o país do Golfo mais visado por seus mísseis e drones, levando Abu Dhabi a exigir reparações e a contenção dos programas iranianos. Não foi um caso isolado: no Sudão, dois membros do bloco patrocinam lados opostos da guerra civil (Egito ao lado da SAF; EAU ao lado da RSF), enquanto a fratura Arábia–EAU corre por dentro do mesmo agrupamento. O episódio confirma que o BRICS+ é um fórum de diversificação econômica, não um polo geopolítico coeso: a própria desordem do Golfo é, em parte, intramuros ao bloco. Para o Brasil, a leitura é direta — o BRICS é um instrumento de hedging, distante de objetivos estratégicos, não um contrapeso estratégico que se possa acionar contra Washington. Fontes: House of Commons Library; Council on Foreign Relations; Britannica (2026). Convém, porém, distinguir os planos. No nível pessoal (Trump–Netanyahu) e no tático (Irã, Líbano, Gaza), o atrito é real e pode produzir mudança no curto prazo — inclusive o descumprimento, por Israel, de partes do acordo. No nível estrutural, a cautela se impõe: a história sugere que desavenças entre presidentes e premiers não rompem a aliança — mesmo após o confronto amargo de 2015 sobre o acordo nuclear de Obama, Washington assinou o maior pacote de ajuda militar da história a Israel, de US$ 38 bilhões. O que muda é a textura da relação, que se torna mais transacional e menos automática. E há uma simetria reveladora: assim como os Estados do Golfo aprenderam, após Doha, que a garantia americana traz um ponto de interrogação, Israel aprendeu, com este acordo, que pode ser contornado quando os interesses divergem — a mesma lógica do G-Zero vista de ângulos opostos, o fiador que passa a agir por conta própria.[21] Figura 2: Diagrama de Relações do Oriente Médio Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA. 8. Síntese: o Golfo no “G-Zero”, mas, e o Brasil? O quadro que emerge é o de uma região deslizando para o que Bremmer chama de “G-Zero” — uma ordem em que nenhuma potência, ou grupo de potências, é ao mesmo tempo capaz e disposta a manter a ordem. Os Estados Unidos seguem como o ator militar mais forte do Golfo, mas seus parceiros já não confiam que usem essa força de modo previsível e em benefício deles. O resultado é a fragmentação: dois eixos rivais, a fratura saudita-emiradense corroendo o CCG e transbordando para o Mar Vermelho e o Chifre da África, o fim funcional da disciplina da OPEP e a multiplicação de hedges — nucleares (Paquistão), diplomáticos (China) e econômicos (diversificação acelerada). Vale antecipar como dois expoentes do realismo contemporâneo leriam este quadro. John Mearsheimer e Hal Brands concordariam com o diagnóstico de fundo — alianças transacionais, garantias em dúvida, Estados em hedge — e endossariam, em especial, a tese de que os Estados Unidos não cederiam o Hemisfério Ocidental a rival algum. Divergiriam, porém, na prescrição. Mearsheimer reduziria o Oriente Médio a um teatro secundário e descreveria o “G-Zero” regional menos como vácuo do que como retração racional: os Estados Unidos, sobreinvestidos no Golfo, fariam bem em transferir o ônus aos atores locais e voltar-se à Ásia, o que vem ao encontro da Estratégia Nacional de Segurança americana. Brands, ao contrário, leria a derrota iraniana como vitória da ordem liderada por Washington e recusaria o rótulo “G-Zero” como declinista — para ele, os Estados Unidos conservariam vantagens singulares e deveriam contestar o “eixo da desordem” (China, Rússia e Irã) em todos os tabuleiros, advertindo que a incoerência do BRICS+ não deveria ocultar a coordenação real entre Pequim, Moscou e Teerã. Ambos, contudo, convergiriam num ponto caro a esta análise: nenhum agrupamento alternativo constitui, hoje, um polo coeso.<[22] Para o Brasil e para as potências médias, a leitura estrutural é a que mais interessa — mas com uma ressalva decisiva. Na Europa, o diagnóstico do Golfo se repete: a confiabilidade americana deixou de ser presumível, e reduzir a dependência de Washington migrou de luxo a necessidade. Vale, nessas áreas, a racionalidade do hedging e da barganha autonomista — a mesma gramática que, guardadas as proporções, organizou historicamente o posicionamento brasileiro, do modelo de barganha varguista à autonomia pela diversificação. O Golfo não está escolhendo a China contra os Estados Unidos; está diversificando apostas num mundo sem fiador. No Hemisfério Ocidental, porém, o tabuleiro é outro — e aqui todo cuidado é pouco. O risco do Golfo é a ausência de um fiador; o do Brasil é a sua presença. Os Estados Unidos não tratam a América Latina como periferia negligenciável, mas como prioridade explícita e esfera de primazia inegociável — uma reatualização da Doutrina Monroe que o atual governo americano levou ao limite —, e não cederão essa hegemonia à China. A diferença não é retórica: traduz-se em coerção direta. Desde 2025, Washington impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, sancionou ministros do Supremo Tribunal Federal, designou facções como organizações terroristas estrangeiras e, às vésperas da eleição de outubro de 2026, foi advertido por Lula a não interferir no pleito — enquanto a participação americana nas exportações brasileiras caía ao menor nível histórico, 9,4% no primeiro trimestre. Neste hemisfério, inclinar-se ostensivamente para Pequim não diversifica risco: pode atrair retaliação.[23] A conclusão, para o Brasil, é dupla. A multipolaridade que se anuncia é real, e o hedge segue sendo a estratégia racional — mas, no quintal do hegemon, ele precisa ser ao mesmo tempo mais robusto e mais calibrado: profundo o bastante para preservar autonomia e margem de barganha, prudente o bastante para não provocar a única potência ainda capaz de impor custos diretos e imediatos ao país. O Golfo diversifica apostas num mundo sem fiador; o Brasil precisa diversificá-las sob o olhar atento de um fiador que se recusa a sair de cena. É essa assimetria — e não a simples troca de um hegemon por outro — a forma concreta que a multipolaridade assume na América do Sul. Fontes consultadas African Arguments. “The Horn and the Gulf: How a New Geopolitical Confluence is Emerging”. jan. 2026. https://africanarguments.org/2026/01/the-horn-and-the-gulf-how-a-new-geopolitical-confluence-is-emerging/ Al Jazeera. “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/features/2026/6/18/trump-netanyahu-tensions-have-israeli-and-us-leaders-clashed-before Al Jazeera. “‘Don’t meddle’: Lula calls on Trump to stay out of Brazil’s elections”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/6/17/dont-meddle-lula-calls-on-trump-to-stay-out-of-brazils-elections Al Jazeera. “Saudi-backed forces move on Aden as Yemen secessionist leader vanishes”. jan. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/1/7/saudi-led-coalition-strikes-yemen-says-stc-leader-al-zubaidi-has-fled Americas Society/Council of the Americas (AS/COA). “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”. jun. 2026. https://www.as-coa.org/articles/trump-latin-america-brazil-hit-tariffs-and-terrorist-designations American Enterprise Institute (AEI). “Fault Lines in the Horn of Africa”. fev. 2026. https://www.aei.org/research-products/report/fault-lines-in-the-horn-of-africa/ Arab Reform Initiative. “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”. mai. 2026. https://www.arab-reform.net/publication/paused-not-resolved-the-saudi-uae-rivalry-and-the-war-in-sudan/ Arab Center Washington DC. “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”. out. 2025. https://arabcenterdc.org/resource/israels-attack-on-qatar-and-the-failure-of-gcc-defense-cooperation/ Asia Times. “Gulf poised to move closer to China after the war”. abr. 2026. https://asiatimes.com/2026/04/gulf-poised-to-move-closer-to-china-after-the-war/ BISI. “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”. jun. 2026. https://bisi.org.uk/reports/saudi-arabia-at-a-crossroads-the-strategic-fallout-of-the-uaes-opec-exit Bremmer, I. “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”. GZERO Media, mai. 2026. https://www.gzeromedia.com/by-ian-bremmer/why-trumps-iran-deal-could-finally-end-netanyahu Bremmer, I. “The Middle East enters the G-Zero”. GZERO Media, 17 jun. 2026. >https://www.gzeromedia.com/by-ian-bremmer/the-middle-east-enters-the-g-zero Bremmer, I.; Maksad, F. “The Long Shadow of the Iran War”. Foreign Affairs, jun. 2026. https://www.foreignaffairs.com/middle-east/long-shadow-iran-war Brookings Institution. “Beijing’s approach to the conflict in Iran…”. mai. 2026. https://www.brookings.edu/articles/beijings-approach-to-the-conflict-in-iran-and-its-implications-for-china/ Chatham House. “China will benefit from the Iran war…”. mai. 2026. https://www.chathamhouse.org/2026/05/china-will-benefit-iran-war-regardless-any-deal-between-trump-and-tehran ECFR. “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea—and Europe”. fev. 2026. https://ecfr.eu/article/power-struggle-what-the-saudi-uae-rivalry-means-for-the-red-sea-and-europe/ Horn Review. “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”. jan. 2026. 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[2]Arab Center Washington DC, “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”, out. 2025; The Times of Israel, set. 2025. [3]Sobre o telefonema e o pedido de desculpas (29 set. 2025): comunicado oficial da Casa Branca; The Times of Israel e The Jerusalem Post; o site Politico noticiou que o texto foi redigido pela Casa Branca, com aliado catariano presente no Salão Oval para manter Netanyahu “no roteiro”. Sobre a ordem executiva de garantia de segurança ao Catar: Arab Center Washington DC, out. 2025. Sobre o pacto saudita-paquistanês: The Times of Israel, 18 set. 2025, e Geopolitical Monitor, “From Doha to Riyadh”, out. 2025. [4]Brookings Institution, “Beijing’s approach to the conflict in Iran and its implications for China”, mai. 2026; verbete “2026 Iran war ceasefire”, Wikipedia (consultado em jun. 2026). [5]Bremmer, op. cit. (GZERO/Foreign Affairs, jun. 2026). A expressão “maior erro de política externa dos EUA desde a Guerra do Iraque” é juízo interpretativo do autor. [6] Visão 2030 (Vision 2030): programa estratégico lançado pela Arábia Saudita, em 2016, pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman, para diversificar a economia do reino para além do petróleo — ampliando turismo, tecnologia, entretenimento e indústria — ancorado no fundo soberano PIF e em megaprojetos como NEOM. Sua execução depende de receitas petrolíferas elevadas e de estabilidade regional. [7]House of Commons Library, “The UAE exits OPEC and Saudi-UAE tensions in 2026”, jun. 2026; European Council on Foreign Relations (ECFR), “From partners to rivals: what the Saudi-UAE rupture means for Europeans”, jan. 2026. [8]Bloomsbury Intelligence and Security Institute (BISI), “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”, jun. 2026; Horn Review, mai. 2026. [9] Bloqueio ao Catar (2017): em junho de 2017, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito romperam relações e impuseram bloqueio diplomático, comercial e de transporte ao Catar, acusando-o de apoiar grupos islamistas e de proximidade excessiva com o Irã. A crise só foi encerrada em janeiro de 2021, pelo Acordo de Al-Ula, sem que Doha atendesse às principais exigências. [10]Impact Policy Group, “What’s Behind the Saudi-UAE Rift and How Far Will It Go?”, jan. 2026; ECFR, op. cit. [11]“2025 Southern Yemen offensive” (Wikipedia, consultado em jun. 2026); Al Jazeera, CNN e The Times of Israel (dez. 2025–jan. 2026); Impact Policy Group, jan. 2026, que qualifica o episódio como o primeiro confronto armado direto entre os dois. [12]Arab Reform Initiative, “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”, mai. 2026; ECFR, “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea”, fev. 2026; International Crisis Group, mar. 2026; American Enterprise Institute (AEI), “Fault Lines in the Horn of Africa”, fev. 2026. A investigação da Reuters sobre a base na Etiópia é de 10 fev. 2026. [13]War on the Rocks, “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”, jun. 2026; The Washington Institute, “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”; Orion Policy Institute, jan. 2026; Ynetnews e Responsible Statecraft (dez. 2025–jan. 2026). [14]Horn Review, “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”, jan. 2026, e “Shaping the Horn: Turkey’s Strategic Role”, mar. 2026; AEI, op. cit.; African Arguments, jan. 2026. [15]Atlantic Council e Arab Gulf States Institute (AGSI) sobre o acordo Arábia–Irã intermediado por Pequim em março de 2023; Middle East Council on Global Affairs (sobre a ultrapassagem do comércio Golfo–Ocidente pelo comércio Golfo–China em 2024). [16]Chatham House, “China will benefit from the Iran war, regardless of any deal between Trump and Tehran”, mai. 2026. [17]Asia Times, “Gulf poised to move closer to China after the war”, abr. 2026. [18]Brookings, op. cit. (mai. 2026): queda de cerca de 25% nas importações chinesas de petróleo do Golfo em março de 2026, na comparação anual. [19]NBC News, “Israel cut out of Iran deal as Trump keeps deriding Netanyahu in public”, jun. 2026; Fox News, “Netanyahu’s Israel grapples with Trump-Iran deal”, 15 jun. 2026; Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions”, 18 jun. 2026. [20]PBS NewsHour, “Israelis angry over U.S.-Iran peace deal lash out at Netanyahu”, jun. 2026; pesquisa do Israel Democracy Institute citada pela NBC News; Ian Bremmer, “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”, GZERO Media, 27 mai. 2026. [21]Sobre o precedente de 2015 e o pacote de US$ 38 bilhões: Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”, 18 jun. 2026. A leitura da simetria G-Zero é de Bremmer e Maksad (Foreign Affairs, jun. 2026), op. cit. [22] Para as formulações de referência, ver John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001; ed. ampliada, 2014); e Hal Brands, The Twilight Struggle (2022) e, com Michael Beckley, Danger Zone: The Coming Conflict with China (2022). [23]Sobre a escalada EUA–Brasil (2025–2026): Reuters (tarifas de 50% vinculadas ao caso Bolsonaro); Americas Society/Council of the Americas (AS/COA), “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”, jun. 2026; Al Jazeera; ABC News e The Washington Times (advertência de Lula sobre interferência eleitoral, 17 jun. 2026). O dado de 9,4% — menor participação histórica dos EUA nas exportações brasileiras no 1º trimestre — é citado por Lula via AS/COA. Rio de Janeiro - RJ, 25 de junho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/outros-produtos/analise-da-redistribuicao-do-poder-no-golfo-persico-pos-guerra-do-ira-do-cessar-fogo-a-era-do-g-zero-regional.
The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces
Autor: Edward N. Luttwak e Eitan Shamir Resenhado por Maj Cav Marcelo Eduardo Deotti JúniorAluno do Curso de Comando e Estado-Maior, mestrando do PPGCMe pesquisador do Laboratório de Ciências Militares. O presente texto constitui um convite à leitura do livro The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces, escrito pelo estrategista Edward N. Luttwak e por Eitan Shamir. A obra foi publicada pela Harvard University Press em 2023, e sua versão em português foi lançada pela BIBLIEX, em 2025. A obra investiga os motivos pelos quais as Forças de Defesa de Israel (IDF), pertencentes a um país historicamente modesto em recursos e demografia, tornaram-se uma das instituições militares mais inovadoras do mundo. “The Art of Military Innovation” é uma leitura recomendada para militares, pesquisadores de defesa e de gestão do conhecimento, e para formuladores de políticas públicas voltadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O argumento central da obra postula que a estrutura institucional e o assessoramento de baixo para cima, combinados às escassas condições materiais e demográficas, funcionam como os motores da “macroinovação” nas IDF. A necessidade imperativa de lutar em desvantagem numérica induziu à quebra de paradigmas para garantir a sobrevivência e, por meio da cultura da inovação, buscou o desenvolvimento de medidas disruptivas que forçaram seus inimigos a criar contramedidas inéditas, colocando a IDF em vantagem nesse processo. A obra apresenta diversas inovações das IDF. Trata-se da apresentação de muitas soluções próprias das tropas israelenses para resolver problemas militares complexos, a exemplo de modificações doutrinárias, do desenvolvimento do Carro de Combate Merkava, do Sistema de Defesa Iron Dome, do Sistema de Proteção Ativa Trophy, entre outras. Para apresentá-las, o livro é dividido em dezesseis capítulos que as detalham. A resenha a seguir levanta os principais exemplos práticos e organizacionais de inovação abordados: O Capítulo 1 descreve a formação das FDI sob fogo cruzado, destacando sua inovação estrutural primordial: a criação de uma força integrada (sem divisão de comando entre Exército, Marinha e Aeronáutica) estruturada em torno de reservistas e com conscrição feminina. Dessa forma, a integração interforças eliminou a rivalidade e permitiu que as inovações fluíssem sem o boicote de interesses corporativistas, viabilizando o pioneirismo no desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados (VANT). Salienta-se que Azevedo et al. (2021) reforçam essa perspectiva no contexto brasileiro, destacando que a integração em Ciência e Tecnologia (C&T) entre o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não é uma realidade devido à escassez de recursos que leva a uma disputa entre as Forças Singulares. No Capítulo 2, os autores mostram como a escassez forçou inovações conceituais. Impossibilitada de adquirir uma frota diversificada, a Força Aérea Israelense demandou à fabricante francesa Dassault que transformasse o Mirage IIICJ em uma plataforma capaz de lançar bombas, inventando assim o conceito moderno do caça multitarefa. Naquele período, a prática comum era a utilização de caças e bombardeiros, cada um com sua missão tática. Ao perceber que haveria a possibilidade de integrar essas funções, os israelenses foram os pioneiros a utilizar uma mesma aeronave para missões distintas, reduzindo custos com aquisições e com o ciclo de vida desses produtos de defesa. Nesse sentido, a Defesa brasileira poderia estimular o desenvolvimento de equipamentos de uso dual e multitarefa, a exemplo da Viatura Blindada Multitarefa 4x4 Guaicurus e da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal 6x6 Guarani, ambas com aplicação para tropas de naturezas distintas e com possibilidade de adaptação para diferentes versões, contribuindo para a redução de custos de aquisição e melhorando a logística de Defesa. O Capítulo 3 analisa o corpo de oficiais jovens de Israel. O princípio de carreiras curtas achata a hierarquia e aloca responsabilidades a oficiais na casa dos vinte e trinta anos. Jovens comandantes mitigaram o que os autores chamam de “dissonância temporal”, que consiste no apego aos sistemas obsoletos do passado, facilitando a aceitação orgânica de novas tecnologias. Destaca-se que diversos autores que estudam as teorias da inovação, como Adamsky (2010), Lee (2016) e Azevedo et al. (2021), indicam que as gerações mais recentes têm mais propensão à busca de inovações. A descentralização é o foco do Capítulo 4, que aborda a “inovação vinda de baixo”. A doutrina das ordens por missão incentiva a iniciativa de soldados comuns. Como exemplo, o livro cita o rigoroso programa Talpiot (conhecido como o “comando de cérebros”), no qual jovens recrutas operam, simultaneamente, como combatentes e desenvolvedores de novas tecnologias. Nesse contexto, os planejadores brasileiros também poderiam buscar, na inspiração dos subordinados, a iniciativa para as atualizações doutrinárias e até mesmo de equipamentos, contribuindo para a evolução das Forças Armadas. Salienta-se que o Programa Forças Blindadas, junto ao Sistema de Ciência e Tecnologia do EB, desenvolveu adaptações para o blindado Guarani, na versão Morteiro Médio, que foram inspiradas em soluções de usuários do corpo de tropa, o que serve de boa prática para as Forças Armadas. Adicionalmente, o Capítulo 5 explora o “exército de reservistas inovadores”. Devido às peculiaridades do contexto geopolítico de Israel, há a necessidade de manter um efetivo pronto maior do que o Exército Permanente seria capaz de fornecer. Nesse contexto, a conscrição e a mobilização possuem características próprias. Diferente de forças puramente ativas, as FDI absorvem as habilidades da economia civil as quais contribuem para a inovação. O grande exemplo foi a introdução visionária do primeiro computador israelense (o Weizac) e do Philco TRANSAC S-2000 na logística militar, já em 1959, trazidos por reservistas que eram matemáticos no Instituto Weizmann. No caso brasileiro, o sistema de mobilização tem potencial para identificar a expertise de oficiais e sargentos temporários, alunos de CPOR e NPOR, atiradores e reservistas espalhados pelo país que se destaquem em suas carreiras, principalmente na área de Ciência, Tecnologia e Inovação. A sobreposição entre a Defesa e a base industrial é detalhada no Capítulo 6. Comitês que alongam o processo de aquisição são substituídos por uma comunicação direta entre clientes militares e provedores da indústria, acelerando os projetos de inovações disruptivas, gerenciadas por órgãos como a MaFat e a Rafael Advanced Defense Systems, responsável pela criação de mísseis como o Spike, o Popeye e o Python. O Capítulo 7 ilustra o desenvolvimento acelerado. O primeiro grande exemplo foi a rápida criação do míssil antinavio Gabriel e sua integração em barcos de ataque rápido (classe Sa'ar), aprimorando o poder naval tradicional. Posteriormente, os autores detalham o peculiar desenvolvimento do Domo de Ferro (Iron Dome), criado em apenas quatro anos, por meio de ousadia administrativa e de atalhos em processos convencionais. O Iron Dome é um sistema de Defesa que surgiu da necessidade de proteção contra o lançamento de mísseis e foguetes inimigos. Sua criação teve início pela iniciativa de Danny Gold, chefe da unidade de pesquisa e desenvolvimento da MaFat (Administração para o Desenvolvimento de Armas e Infraestrutura Tecnológica), um órgão conjunto do Ministério da Defesa e das FDI. Diante da urgência de proteger os civis de bombardeios constantes, enfrentando a resistência burocrática e a falta de financiamento por parte dos escalões superiores, Gold decidiu iniciar o desenvolvimento do sistema em agosto de 2005. Para contornar a falta de recursos e a ausência de aprovação oficial, ele persuadiu os executivos das empresas de defesa estatais Rafael e Elta a adiantarem fundos próprios para o projeto. Além disso, implementou um método de desenvolvimento, no qual as fases de pesquisa, engenharia e produção foram realizadas simultaneamente, ao invés de sequencialmente, comprimindo de forma considerável o tempo de concepção da arma e permitindo que o equipamento entrasse em operação, com eficiência comprovada em combate, em menos de seis anos de projeto. A disrupção do paradigma de gênero é o tema do Capítulo 8. Devido à restrição demográfica, as FDI transformaram mulheres nas principais instrutoras de combate, inclusive de veículos blindados, e criaram unidades mistas de fronteira de alta eficácia, como o Batalhão Caracal, maximizando todo o capital humano disponível. Da mesma forma, as Forças Armadas do Brasil estão ampliando o ingresso feminino, com destaque para o recente Serviço Militar Inicial Feminino (SMIF), que passou a incorporar recrutas mulheres e pode potencializar o emprego dos recursos humanos em atividades ligadas à Defesa. O Capítulo 9 lida com a inovação doutrinária. Ao descartar a burocrática doutrina de desgaste britânica em favor da veloz guerra de manobra e do estilo furtivo da força Palmach, Israel adaptou técnicas operacionais para prevalecer contra massas inimigas. Isso fomentou inovações como os comandos navais da Shayetet 13, que adaptaram táticas dos homens-rã italianos da Segunda Guerra Mundial. Do triunfo ao fracasso aéreo, o Capítulo 10 disseca a Operação Moked de 1967. Nela, o brilhantismo tático foi coroado por uma inovação técnica modesta, mas vital: a bomba penetradora de pistas de voo (PaPaM), que aniquilou a força aérea árabe no solo. Contudo, a vitória mascarou falhas frente aos mísseis antiaéreos (SAM) soviéticos, resultando em pesadas perdas na Guerra de 1973. A resposta a esse trauma é relatada no Capítulo 11, com a Operação Artzav 19, em 1982. Através de um salto tecnológico colossal, as FDI utilizaram pioneiramente drones para vigilância em tempo real (Scout/Mastif), mísseis antirradiação e, como inovação máxima, o “Periscope”, o primeiro sistema computadorizado do mundo empregado no comando e controle de uma batalha aérea. O Capítulo 12 analisa a “produção em massa de excelência” por meio das unidades de elite. Desde a criação da Unidade 101, nos anos 1950, Israel usou táticas de operações especiais para elevar o padrão de todo o exército convencional. A inovação mais recente citada é a “Ghost Unit”, projetada para mitigar a burocracia e integrar instantaneamente inteligência, poder aéreo, cibernético e terrestre. Esta cultura é apresentada no Capítulo 13 pelos “empreendedores militares”: oficiais de baixa patente que persistiram de forma obstinada para fundar unidades disruptivas, tais como Avraham Arnan, com a Unidade 269 (Sayeret Matkal, inteligência profunda e resgate de reféns) e Muki Betzer, fundador da Unidade 5101 (Shaldag, comandos operando designadores a laser para a Força Aérea). Na tropa blindada (Capítulo 14), a inovação tomou a forma de improviso e rigor disciplinar sob o comando do general Israel Tal, atualizando e integrando antigos chassis dos carros de combate Sherman e Centurion. Foi nesse ambiente ágil que as FDI introduziram a pioneira blindagem reativa explosiva (ERA), desenvolvida após 1973 com o físico alemão Manfred Held, reconfigurando a proteção blindada mundial. O ápice dessa jornada é o Capítulo 15, focado na viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) autóctone Merkava. Concebida do zero, a plataforma inverteu dogmas ocidentais ao alocar o motor na parte frontal para blindar a tripulação. Esse pensamento gerou inovações de sobrevivência inigualáveis, como o sistema de defesa ativa antimíssil Trophy (Me'il Rooakh) e os inteligentes projéteis multifunção Kalanit e Hatzav, otimizados para guerra urbana moderna. Por fim, o Capítulo 16 aborda as unidades de Inteligência e Cyber: a Unidade 8200 (SIGINT/Cyber) e a Unidade 81 (P&D sob demanda). Aqui surgiram as armas cibernéticas Stuxnet e Flame, além de tecnologias de defesa civil para o combate à COVID-19. O capítulo relata até a inovação em recursos humanos no programa Roim Rachok, que aloca soldados com Transtorno do Espectro Autista na Unidade 9900 para análises de inteligência geoespacial. No contexto brasileiro, pode-se depreender uma miríade de ensinamentos colhidos pelas experiências relatadas no estudo de caso de Israel. Há exemplos de diversos setores como o desenvolvimento de produtos de defesa, a criação de organizações militares e as inovações doutrinárias. Acadêmicos como Azevedo et al. (2021) e Borba (2020, p. 21) afirmam que “a cultura de inovação é identificada como um dos principais determinantes para a performance inovativa de uma organização”. Ao longo do livro, pode-se verificar que esse aspecto é amplamente incentivado nas FDI. Dessa forma, seria viável incentivar um ambiente inovador no Exército Brasileiro, contribuindo para o aprimoramento da cultura organizacional no que concerne ao desenvolvimento científico e tecnológico militar. Em suma, ao apresentar as evidências em sua conclusão, The Art of Military Innovation converge de forma clara com o campo acadêmico das Ciências Militares e da tecnologia de defesa. Luttwak e Shamir ensinam que a constante vulnerabilidade e o desapego aos rígidos regulamentos garantem que as Forças de Defesa Israelenses continuem a assimilar e a antecipar o futuro da guerra. REFERÊNCIAS ADAMSKY, Dima. The culture of military innovation: the impact of cultural factors on the revolution in military affairs in Russia, the US, and Israel. Stanford: Stanford University Press, 2010. AZEVEDO, Carlos Eduardo Franco; BORBA, Gabriela Alves de; ARAÚJO, Laércio Eduardo de. Desafios para a política de inovação no setor de defesa brasileiro: óbices e barreiras culturais e estruturais. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 121-160, jan./abr. 2021. BORBA, Gabriela Alves de. A influência da cultura de inovação no programa rádio definido por software de defesa (RDS-DEFESA). 2020. 116 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2020. Rio de Janeiro - RJ, 09 de junho de 2026.













