As opiniões, conclusões e recomendações expressas ou implícitas, nas produções literárias baixadas ou publicadas pelos autores são de responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem necessariamente a política oficial nem a posição do Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM), da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), por conseguinte, do Exército Brasileiro (EB).
Geopolítica das cadeias globais de suprimento: chokepoints marítimos e vulnerabilidades logísticas no comércio internacional
Gustavo Godoy Ribeiro da Silva Major do Exército Brasileiro. Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. 1. Introdução A intensificação da globalização econômica nas últimas décadas ampliou significativamente o volume do comércio internacional e promoveu crescente interdependência entre as economias nacionais. Nesse cenário, as cadeias globais de suprimento passaram a desempenhar papel central na organização da produção e na circulação de mercadorias em escala mundial, integrando fluxos de bens, informações e recursos financeiros entre diferentes regiões do globo. A gestão da cadeia de suprimentos consolidou-se como elemento estratégico para a competitividade organizacional, sendo responsável por coordenar atividades desde o fornecimento de insumos até a entrega ao consumidor final (Tanaka, 2025). Além disso, a fragmentação produtiva, característica da globalização, levou à dispersão geográfica das atividades industriais, fazendo com que diferentes etapas da produção fossem realizadas em múltiplos países, o que reforça a importância da logística como elo fundamental entre mercados e sistemas produtivos (Matsuyama; Chaves, 2025). Sob a perspectiva da geografia dos transportes, o deslocamento de mercadorias configura-se como uma demanda derivada das atividades econômicas, sendo essencial para a efetivação das trocas comerciais e para o funcionamento dos mercados globais (Rodrigue, 2024). Nesse contexto, a infraestrutura logística, composta por portos, rotas marítimas e sistemas de transporte, constitui a base física que sustenta as cadeias globais de suprimento. Contudo, essa estrutura revela-se vulnerável às disrupções, uma vez que as crises geopolíticas, os conflitos internacionais e as restrições comerciais podem comprometer a continuidade dos fluxos logísticos, gerando aumento de custos, atrasos e escassez de produtos estratégicos (Gregate; Silva; Tozi, 2025). Dentro dessa infraestrutura global, determinados pontos geográficos assumem relevância estratégica por concentrarem elevado volume de tráfego marítimo. Localizados em estreitos, canais e passagens naturais, esses pontos são conhecidos como chokepoints e representam gargalos críticos do sistema logístico internacional. Conforme destaca Peele (1997), o transporte marítimo responde por parcela significativa do comércio global, o que torna essas passagens essenciais para a fluidez das trocas econômicas. De forma complementar, Delgado (2020) observa que sua interrupção pode gerar impactos imediatos nos fluxos energéticos e comerciais, afetando preços e cadeias produtivas em escala global. Além de sua relevância logística, os chokepoints refletem dinâmicas de poder no sistema internacional contemporâneo. As cadeias globais de suprimento não operam apenas sob lógica técnica, mas também sob influências políticas e estratégicas, sendo impactadas por disputas entre Estados e interesses econômicos (Alimahomed-Wilson; Ness, 2018). Nesse contexto, a recorrência de crises globais, como pandemias e conflitos regionais, evidencia a necessidade de fortalecimento da resiliência das cadeias de suprimento, entendida como a capacidade de antecipar, absorver e recuperar-se de disrupções, por meio de estratégias voltadas à redução de riscos e ao aumento da segurança operacional (Netto, 2025; Matsuyama; Chaves, 2025). Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar como os chokepoints marítimos influenciam a segurança e a resiliência das cadeias globais de suprimento no comércio internacional contemporâneo. Busca-se compreender de que forma a concentração de fluxos logísticos em pontos estratégicos gera vulnerabilidades estruturais, especialmente em contextos de instabilidade geopolítica. Nesse sentido, a pesquisa orienta-se pela seguinte questão central: como a vulnerabilidade e o controle geopolítico dos chokepoints marítimos afetam o funcionamento das cadeias globais de suprimento e o fluxo do comércio internacional? Para responder a essa questão, adota-se a abordagem qualitativa, baseada em revisão bibliográfica da literatura especializada em logística, transporte marítimo e geopolítica. O artigo está estruturado em três seções principais: inicialmente, apresentam-se os fundamentos das cadeias globais de suprimento; em seguida, analisam-se os impactos das crises geopolíticas sobre as redes logísticas; por fim, examinam-se os chokepoints marítimos e suas implicações para o comércio internacional. 2. Cadeias globais de suprimento e logística internacional As cadeias globais de suprimento constituem a base operacional que sustenta a circulação de bens, insumos e informações no comércio internacional contemporâneo. Seu funcionamento depende da articulação coordenada entre fornecedores, produtores, operadores logísticos e mercados consumidores, distribuídos em diferentes escalas geográficas. Nesse contexto, a logística deixa de ser compreendida apenas como atividade de transporte ou armazenagem e passa a assumir função estratégica na coordenação dos fluxos que conectam produção, circulação e consumo. Assim, sua relevância não se limita à eficiência operacional, mas se estende à própria capacidade de integração entre mercados e sistemas produtivos em escala global, influenciando diretamente a competitividade e a continuidade das operações econômicas (Tanaka, 2025; Matsuyama; Chaves, 2025). A consolidação desse modelo está diretamente associada à intensificação da globalização econômica e à fragmentação produtiva observada nas últimas décadas. A dispersão geográfica das atividades industriais permitiu que diferentes etapas da produção fossem distribuídas entre múltiplos países, conforme vantagens comparativas relacionadas aos custos, tecnologia e disponibilidade de recursos. Esse arranjo ampliou a eficiência produtiva, mas também elevou o grau de interdependência entre os diversos elos da cadeia. Como consequência, a fluidez logística passou a exercer papel central não apenas no deslocamento físico de mercadorias, mas na manutenção da continuidade produtiva em redes globais cada vez mais sensíveis às interrupções e às oscilações externas (Matsuyama; Chaves, 2025). Essa interdependência evidencia que a eficiência das cadeias globais não decorre exclusivamente da capacidade produtiva dos agentes econômicos, mas da existência de uma infraestrutura logística capaz de sustentar fluxos contínuos e previsíveis entre regiões produtoras e mercados consumidores. Portos, corredores de transporte, centros de distribuição e sistemas de informação compõem a base material que permite a integração espacial dessas cadeias. Nessa perspectiva, o transporte não constitui atividade acessória, mas elemento estruturante da dinâmica econômica, pois viabiliza a circulação necessária ao funcionamento dos mercados e à coordenação das atividades produtivas em escala internacional (Rodrigue, 2024). Entre os diferentes modais que compõem essa infraestrutura, o transporte marítimo ocupa posição central por concentrar a maior parte da circulação física de mercadorias no comércio internacional. Sua relevância decorre não apenas da elevada capacidade de carga, mas da eficiência econômica no transporte de grandes volumes a longas distâncias, característica que o torna indispensável para a sustentação das cadeias globais de suprimento. Mais do que um simples modal logístico, o transporte marítimo constitui a espinha dorsal do comércio internacional, conectando regiões industriais, mercados consumidores e zonas estratégicas de abastecimento. Por essa razão, a estabilidade das rotas marítimas e da infraestrutura portuária representa condição essencial para a previsibilidade logística, para a segurança do abastecimento e para o funcionamento regular da economia global (Peele, 1997). 3. Crises geopolíticas e vulnerabilidades logísticas A crescente integração entre mercados e sistemas produtivos ampliou a eficiência das cadeias globais de suprimento, mas também elevou sua exposição aos fatores externos capazes de comprometer a continuidade dos fluxos logísticos. Em estruturas altamente interdependentes, a vulnerabilidade não decorre apenas de falhas operacionais ou limitações de infraestrutura, mas da sensibilidade sistêmica das cadeias a eventos políticos, econômicos e estratégicos que afetam simultaneamente múltiplos elos da rede. Nesse contexto, crises geopolíticas passaram a exercer influência direta sobre o funcionamento da logística internacional, tornando o ambiente global mais suscetível às interrupções, a atrasos e à elevação de custos operacionais (Gregate; Silva; Tozi, 2025). Essa vulnerabilidade torna-se mais evidente quando se observa que a eficiência das cadeias globais depende da previsibilidade dos fluxos internacionais. Em condições de estabilidade, a coordenação logística opera com base em prazos, custos e rotas relativamente previsíveis. No entanto, crises diplomáticas, disputas estratégicas e conflitos regionais alteram esse equilíbrio ao introduzir incertezas regulatórias, restrições comerciais e riscos operacionais que afetam diretamente a circulação de mercadorias. Assim, a vulnerabilidade logística contemporânea não se limita à infraestrutura física do transporte, mas resulta da dependência de um ambiente internacional estável para assegurar a fluidez das cadeias de suprimento (Netto, 2025). Entre os principais fatores de crise geopolítica, destacam-se as sanções econômicas, as restrições comerciais e os conflitos armados, que frequentemente produzem efeitos imediatos sobre a logística internacional. Essas medidas podem restringir mercados, interromper fluxos de abastecimento e elevar custos operacionais ao impor barreiras ao transporte, ao financiamento e à circulação de insumos estratégicos. Mais do que instrumentos de pressão política, tais mecanismos funcionam como vetores de reorganização logística, forçando empresas e Estados a reconfigurar fornecedores, rotas e estratégias de abastecimento. Como demonstram Gregate, Silva e Tozi (2025), crises dessa natureza afetam simultaneamente custos, previsibilidade e segurança operacional, ampliando a instabilidade das cadeias globais. Além das restrições comerciais, eventos de grande escala também intensificam fragilidades já existentes nas cadeias globais de suprimento. A pandemia de COVID-19 evidenciou que sistemas logísticos altamente otimizados tendem a operar com baixa margem de absorção de choques, o que amplia sua exposição a disrupções sistêmicas. Congestionamentos portuários, escassez de contêineres, atrasos no transporte e desabastecimento de insumos demonstraram que a eficiência logística global frequentemente se apoia em estruturas operacionais pouco resilientes diante de crises prolongadas. Como observa Netto (2025), eventos dessa natureza expõem não apenas falhas conjunturais, mas também limitações estruturais da coordenação logística internacional. Esse padrão de vulnerabilidade também se manifesta em conflitos regionais que afetam áreas estratégicas do comércio internacional. Tensões no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico e em outras zonas críticas de circulação marítima evidenciam que a instabilidade política regional pode gerar efeitos logísticos de alcance global. Nessas circunstâncias, o impacto não se restringe ao espaço do conflito, mas se propaga por meio da elevação do frete, da ampliação do risco operacional e da necessidade de redirecionamento de fluxos comerciais. Como argumentam Alimahomed-Wilson e Ness (2018), cadeias globais altamente integradas tendem a amplificar localmente os efeitos de crises regionais, convertendo perturbações geopolíticas em disrupções logísticas sistêmicas. Diante desse cenário, a vulnerabilidade logística contemporânea deve ser compreendida como resultado da interação entre infraestrutura física, dependência sistêmica e instabilidade geopolítica. A resiliência das cadeias globais de suprimento depende não apenas de capacidade operacional, mas também da aptidão de empresas e governos para antecipar riscos, diversificar fornecedores e reorganizar fluxos diante de choques externos. Nesse sentido, crises geopolíticas não constituem eventos periféricos ao comércio internacional, mas fatores estruturais que condicionam a segurança, a previsibilidade e a estabilidade da logística global. Quadro 1 — Impactos geopolíticos nas cadeias de suprimento Evento Impacto logístico Conflitos armados Interrupção de fluxos logísticos Sanções econômicas Aumento de custos operacionais Crises globais Reorganização de cadeias e rotas Fonte: elaborado pelo autor com base em Gregate; Silva; Tozi (2025), Netto (2025) e Alimahomed-Wilson; Ness (2018). 4. Chokepoints marítimos e impactos no comércio global Os chokepoints marítimos correspondem a pontos geográficos estratégicos situados ao longo das principais rotas de transporte internacional, nos quais o fluxo de embarcações se concentra em passagens estreitas ou canais artificiais. Esses locais constituem gargalos estruturais do sistema logístico global, pois concentram fluxos essenciais à circulação de mercadorias e recursos energéticos. Sob a perspectiva da geografia dos transportes, representam restrições espaciais que condicionam o fluxo de cargas e a eficiência das cadeias globais de suprimento, tornando a continuidade dessas rotas condição essencial para a estabilidade do comércio internacional (Rodrigue, 2024). Entre os principais chokepoints, destacam-se o Canal de Suez, o Estreito de Malaca, o Canal do Panamá, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab el Mandeb - passagens que conectam grandes regiões econômicas e energéticas. Como ilustra a Figura 1, esses pontos concentram fluxos estratégicos do comércio marítimo global, evidenciando sua relevância logística e geopolítica. Em razão dessa centralidade, qualquer interrupção nessas rotas tende a produzir impactos imediatos sobre custos, prazos e previsibilidade dos fluxos internacionais (Peele, 1997; Delgado, 2020). Figura 1 – Principais chokepoints marítimos globais Fonte: EIA (2020), apud Delgado (2020). A relevância desses pontos decorre da elevada concentração de fluxos marítimos em corredores específicos, nos quais restrições geográficas produzem alta densidade de tráfego e baixa margem de redundância operacional. Isso transforma os chokepoints em pontos críticos da infraestrutura logística global, particularmente sensíveis a choques externos. Episódios como o bloqueio do Canal de Suez, em 2021, e as tensões recentes no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico evidenciam que interrupções localizadas podem gerar efeitos em cadeia sobre o sistema econômico internacional, afetando simultaneamente abastecimento, frete e segurança energética (Rodrigue, 2024; Delgado, 2020). Mais do que gargalos logísticos, os chokepoints constituem espaços de disputa estratégica no sistema internacional. Sua relevância decorre não apenas da função operacional que exercem sobre o transporte marítimo, mas também da capacidade de projetar influência sobre fluxos comerciais e energéticos. Nesse sentido, as cadeias globais não operam sob uma lógica exclusivamente técnica, sendo condicionadas por fatores políticos, estratégicos e securitários que ampliam a importância geopolítica dessas passagens (Alimahomed-Wilson; Ness, 2018). Essa centralidade pode ser compreendida à luz da teoria do poder marítimo de Mahan, segundo a qual o domínio das rotas marítimas constitui elemento essencial para a projeção de poder econômico e político. Assim, o controle, a influência ou a instabilidade nesses pontos afetam diretamente a segurança das cadeias globais de suprimento. Bloqueios, restrições ou tensões nessas passagens podem gerar atrasos logísticos, elevação dos custos de transporte e reconfiguração de fluxos comerciais, evidenciando que os chokepoints não representam apenas limitações geográficas do transporte marítimo, mas são elementos centrais da vulnerabilidade e da resiliência do comércio global (Peele, 1997; Netto, 2025). 5. Conclusão A análise desenvolvida ao longo deste estudo demonstrou que as cadeias globais de suprimento constituem um dos principais pilares do funcionamento da economia internacional contemporânea, sendo estruturadas a partir de fluxos logísticos altamente integrados e interdependentes. A intensificação da globalização e a fragmentação produtiva ampliaram a dependência de sistemas de transporte eficientes, especialmente do modal marítimo, que se consolidou como elemento central na conexão entre centros produtivos e mercados consumidores. Nesse contexto, a estabilidade das rotas marítimas não representa apenas uma condição operacional, mas um fator determinante para a continuidade e para a previsibilidade das atividades econômicas em escala global. Os resultados evidenciam que os chokepoints marítimos configuram pontos críticos dessa estrutura, pois concentram fluxos estratégicos de mercadorias e recursos energéticos em corredores logísticos com baixa margem de redundância. Essa característica transforma essas passagens em elementos sensíveis a choques externos, nos quais eventos localizados podem gerar impactos sistêmicos sobre o comércio internacional. Mais do que gargalos físicos, os chokepoints revelam a dependência estrutural das cadeias globais em relação a espaços geográficos específicos, nos quais fatores políticos, estratégicos e operacionais se sobrepõem. Dessa forma, crises geopolíticas, conflitos regionais e disrupções logísticas não apenas afetam o fluxo de mercadorias, mas também expõem fragilidades inerentes ao modelo de organização das cadeias globais de suprimento. Diante desse cenário, conclui-se que a vulnerabilidade e o controle geopolítico dos chokepoints marítimos exercem influência direta sobre a segurança e a resiliência das cadeias globais de suprimento. A estabilidade dessas passagens constitui condição essencial para a fluidez do comércio internacional, enquanto sua instabilidade amplia riscos, eleva custos e exige adaptações constantes por parte de empresas e Estados. Assim, a interação entre geopolítica e logística não apenas condiciona o funcionamento das cadeias de suprimento, mas redefine padrões de risco, segurança e competitividade no sistema internacional contemporâneo. Em resposta à questão de pesquisa proposta, verifica-se que os chokepoints não são apenas pontos de passagem, mas sim estruturas estratégicas cuja vulnerabilidade e cujo controle influenciam diretamente a organização, a estabilidade e a resiliência do comércio global. REFERÊNCIAS ALIMAHOMED-WILSON, Jake; NESS, Immanuel (ed.). Chokepoints: logistics workers disrupting the global supply chain. London: Pluto Press, 2018. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/332444063_Choke_Points_Logistics_Workers_Disrupting_the_Global_Supply_Chain. Acesso em: 7 abr. 2026. DELGADO, Fernanda. Fundamentos de petropolítica 3: conflitos e chokepoints: tensões, protecionismo e o vácuo de cooperação internacional. Rio de Janeiro: FGV Energia, 2020. Disponível em: https://fgvenergia.fgv.br/sites/fgvenergia.fgv.br/files/coluna_opiniao_especial_-_fundamentos_de_petropolitica_3_8_0.pdf. Acesso em: 7 abr. 2026. GREGATE, Ana Julia; SILVA, Joyce Sena da; TOZI, Luiz Antonio. Impacto das crises geopolíticas na cadeia de suprimentos. Revista Ciências Exatas, [S.l.], v. 31, n. 2, 2025. DOI: https://doi.org/10.69609/1516-2893.2025.v31.n2.a4067. Disponível em: https://periodicos.unitau.br/exatas/article/view/4067. Acesso em: 7 abr. 2026. MATSUYAMA, Suzana; CHAVES, Gisele de Lorena Diniz. O reshoring como estratégia para fortalecer a resiliência nas cadeias de suprimentos. Ágora: Revista de Divulgação Científica, v. 30, p. 110–133, 2025. Disponível em: https://www.periodicos.unc.br/index.php/agora/article/view/5739. Acesso em: 7 abr. 2026. https://doi.org/10.24302/agora.v30.5739. NETTO, Julia Avila Faria. Resiliência na cadeia de suprimentos: como empresas lidam com crises globais como pandemias e conflitos geopolíticos. 2025. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Administração) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/266351. Acesso em: 7 abr. 2026. PEELE, Reynolds B. The importance of maritime chokepoints. Parameters, Carlisle, v. 27, n. 2, p. 61–74, 1997. DOI: https://doi.org/10.55540/0031-1723.1828. Disponível em: https://press.armywarcollege.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1828&context=parameters. Acesso em: 7 abr. 2026. RODRIGUE, Jean-Paul. The geography of transport systems. 6. ed. Abingdon: Routledge, 2024. https://doi.org/10.4324/9781003343196. TANAKA, Ricardo Aparecido. Gestão da cadeia de suprimentos: competitividade e desafios. Revista Tópicos, [S.l.], 2025. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.17872997. Disponível em: https://revistatopicos.com.br/artigos/gestao-da-cadeia-de-suprimentos-competitividade-e-desafios. Acesso em: 7 abr. 2026. Rio de Janeiro - RJ, 06 de agosto de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Geopolítica das cadeias globais de suprimento: chokepoints marítimos e vulnerabilidades logísticas no comércio internacional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/geopolitica-das-cadeias-globais-de-suprimento-chokepoints-maritimos-e-vulnerabilidades-logisticas-no-comercio-internacional.
A resposta do Estado frente às ameaças complexas
Stella Maris Neves Norões Graduada em Direito pela Universidade Estácio de Sá. Pós-graduanda em Direito Público pela Universidade Candido Mendes.Mestranda em Ciências Militares pelo PPGCM/ECEME. 1. Introdução Nos estudos de defesa e segurança, as ameaças complexas são compreendidas como fenômenos que ultrapassam a lógica tradicional do conflito interestatal. Elas envolvem a interação simultânea entre atores estatais e não estatais, redes ilícitas transnacionais, tecnologias disruptivas, disputas informacionais e assimetrias econômicas e sociais. Por sua natureza dinâmica e interdependente, essas ameaças produzem efeitos em cascata e exigem respostas institucionais articuladas, flexíveis e preventivas. No caso brasileiro, a resposta estatal a esse tipo de desafio ainda apresenta limitações relevantes. Embora existam avanços normativos, institucionais e operacionais, observa-se uma atuação frequentemente reativa, com baixa integração entre políticas de defesa, segurança pública, ciência e tecnologia e cooperação internacional. Isso reduz a capacidade do Estado de antecipar riscos, fortalecer sua resiliência e produzir respostas consistentes em cenários de alta complexidade. Este trabalho tem por objetivo examinar três ameaças complexas especialmente relevantes para o Brasil: a criminalidade organizada, as ameaças cibernéticas e a dependência tecnológica. A proposta é identificar suas principais características, avaliar as respostas estatais existentes e indicar caminhos para o aprimoramento da governança pública. O argumento central é que o enfrentamento dessas ameaças depende menos de ações isoladas e mais da construção de uma estratégia nacional integrada, capaz de articular capacidades institucionais, conhecimento científico e coordenação entre Estado e setor produtivo. 2. Ameaças complexas As ameaças complexas se distinguem das ameaças convencionais por sua natureza híbrida, transnacional e adaptativa. Elas não se manifestam de modo uniforme nem obedecem a uma única lógica de ação e reação. Ao contrário, combinam violência física, pressão econômica, disputa informacional, dependência tecnológica e erosão institucional. Por isso, o seu enfrentamento exige diagnósticos amplos e políticas públicas capazes de atuar em múltiplas dimensões ao mesmo tempo. No contexto brasileiro, três ameaças se destacam pelas características do ambiente nacional e pela capacidade de impactar a soberania, a segurança e o desenvolvimento: a criminalidade organizada, as ameaças cibernéticas e a dependência tecnológica. Embora distintas entre si, todas compartilham uma característica comum: a necessidade de respostas estatais permanentes, articuladas e baseadas em evidências. 3. Criminalidade organizada A criminalidade organizada constitui uma das ameaças mais graves à segurança do Estado e da sociedade. No Brasil, ela se expressa por meio de organizações transnacionais envolvidas no tráfico de drogas, no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro e na ocupação de territórios vulneráveis. A porosidade das fronteiras e a capilaridade das redes ilícitas favorecem a circulação de mercadorias ilegais e dificultam o controle estatal sobre áreas estratégicas. Além de sua dimensão transnacional, o crime organizado também afeta a soberania interna ao impor formas paralelas de poder em determinados espaços urbanos. Em enclaves sob domínio criminoso, o Estado perde capacidade de coerção, tributação, mediação de conflitos e oferta de serviços públicos. Isso produz um cenário de erosão institucional que ultrapassa a lógica da violência visível e atinge diretamente a governabilidade. As respostas estatais têm avançado por meio de operações integradas em áreas de fronteira, fortalecimento de estruturas de inteligência e atuação coordenada entre forças federais, estaduais e militares. Ainda assim, o principal desafio continua sendo a transição de ações repressivas pontuais para estratégias sustentadas de presença estatal, inclusão social e coordenação interagências. Quando o enfrentamento se limita à repressão, o efeito tende a ser temporário. Já abordagens integradas, com investimento social e territorial, mostram melhores resultados no médio prazo. No enfrentamento ao crime organizado, o Estado brasileiro intensificou ações em fronteiras e territórios críticos, com operações interagências, reforço de inteligência e integração entre órgãos de segurança. Iniciativas coordenadas por instâncias federais e estaduais buscaram reduzir fluxos ilícitos e enfraquecer a capacidade operacional das organizações criminosas. Todavia, a experiência demonstra que resultados consistentes dependem de permanência institucional, inteligência territorial e articulação com políticas sociais. A repressão isolada tende a produzir efeitos limitados e temporários. Por isso, a resposta mais efetiva combina segurança, prevenção, urbanização, serviços públicos e reconstrução da presença estatal. 4. Ameaças cibernéticas As ameaças cibernéticas assumiram papel central nas discussões contemporâneas sobre segurança nacional. Seu potencial de impacto decorre de características como baixa barreira de entrada, dificuldade de atribuição, velocidade de propagação e capacidade de atingir infraestruturas críticas em setores como energia, transporte, saúde, telecomunicações, finanças e governo. No Brasil, a resposta institucional vem se consolidando, especialmente com a criação de estruturas específicas de ciberdefesa, a incorporação do tema aos documentos estratégicos de defesa e a ampliação da cooperação entre órgãos públicos, setor privado e comunidade técnica. Exercícios de simulação, capacitação de pessoal e articulação com atores nacionais e internacionais são passos relevantes nesse processo. Apesar disso, persistem vulnerabilidades importantes. A dependência de tecnologias estrangeiras, a escassez de investimentos contínuos e a dificuldade de retenção de especialistas limitam a autonomia nacional nesse campo. Além disso, a assimetria entre a velocidade de evolução das ameaças e o ritmo de adaptação estatal revela a necessidade de uma postura menos reativa e mais prospectiva. O fortalecimento da resiliência cibernética depende de coordenação institucional, investimento permanente e proteção de infraestruturas críticas como prioridade do Estado. O Brasil avançou ao estruturar centros especializados, incorporar o tema à defesa nacional e ampliar a cooperação com setores estratégicos. Ainda assim, a resposta continua insuficiente diante da sofisticação dos ataques e da velocidade de evolução tecnológica. A consolidação de uma política cibernética robusta exige investimento contínuo, formação especializada, proteção de infraestruturas críticas, desenvolvimento de capacidades nacionais e maior integração entre governo, empresas e comunidade científica. Mais do que reação a incidentes, a ciberdefesa deve ser entendida como um campo permanente de preparo, coordenação e dissuasão. 5. Dependência tecnológica A dependência tecnológica representa um desafio estrutural para a soberania nacional. Em um mundo marcado pela centralidade de tecnologias críticas — como inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, biotecnologia, nanotecnologia e sistemas avançados de comunicação — a capacidade de dominar, adaptar e produzir tecnologia deixou de ser apenas uma vantagem competitiva e passou a ser requisito de autonomia estratégica. Países que dependem excessivamente de fornecedores externos ficam mais expostos a restrições comerciais, embargos, assimetrias geopolíticas e vulnerabilidades de segurança. No caso brasileiro, embora existam capacidades tecnológicas relevantes em áreas como aeronáutica, agricultura, imunobiológicos e pesquisa biomédica, ainda há uma desconexão entre a produção científica e sua transformação em capacidade industrial soberana. O problema não está apenas na escassez de pesquisas, mas na dificuldade de converter conhecimento em inovação aplicada. Em muitos casos, universidades, institutos, agências de fomento e setor produtivo operam de forma pouco articulada. Isso compromete a criação de um ecossistema tecnológico capaz de reduzir dependências e gerar soluções estratégicas para o país. O desafio, portanto, não é somente financiar pesquisas, mas orientar o sistema nacional de inovação para as prioridades tecnológicas de interesse público e de segurança nacional. O enfrentamento da dependência tecnológica exige uma governança nacional mais robusta. Isso implica articular ministérios, agências de fomento, universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo em torno de prioridades tecnológicas definidas estrategicamente. Não basta produzir conhecimento em abstrato; é necessário transformar pesquisa em inovação, inovação em produto e produto em capacidade nacional. Uma política tecnológica consistente deve priorizar áreas críticas, estimular a retenção de talentos no setor produtivo e reduzir o hiato entre produção científica e aplicação econômica. Nesse sentido, o Estado deve atuar como indutor, coordenador e financiador de um sistema de inovação voltado à autonomia estratégica do país. 6. Considerações finais O presente trabalho analisou a resposta do Estado brasileiro diante de ameaças complexas, entendidas como fenômenos multidimensionais que combinam fatores estatais e não estatais, tecnologias disruptivas, assimetrias de poder e impactos cumulativos sobre a segurança nacional. A partir de pesquisa bibliográfica e documental, o estudo examinou três vetores centrais de vulnerabilidade e buscou identificar as principais iniciativas estatais, suas limitações e os desafios para uma atuação mais coordenada, preventiva e estratégica. As respostas do Estado às ameaças complexas variam conforme o tipo de risco enfrentado, mas apresentam um traço comum: a necessidade de integração entre instituições, conhecimento e planejamento. Em geral, os avanços são reais, porém ainda fragmentados. O Brasil já dispõe de respostas importantes diante das ameaças complexas, mas ainda enfrenta desafios significativos para transformar iniciativas isoladas em uma estratégia integrada de segurança e desenvolvimento. A criminalidade organizada, as ameaças cibernéticas e a dependência tecnológica demonstram que a proteção do Estado depende de capacidade institucional, coordenação entre órgãos e visão de longo prazo. A superação desses desafios exige uma abordagem que una defesa, inteligência, segurança pública, ciência, tecnologia e inovação. Em um cenário internacional marcado por competição estratégica e assimetrias crescentes, a resiliência nacional dependerá da capacidade do Estado de antecipar riscos, integrar políticas e consolidar autonomia em áreas críticas. O enfrentamento das ameaças complexas, portanto, não pode se limitar à reação a eventos consumados. Ele precisa ser planejado, contínuo e articulado com um projeto de autonomia estratégica e desenvolvimento nacional. REFERÊNCIAS BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Boulder: Lynne Rienner, 1998. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Uma avaliação de impacto de política de segurança pública: o programa Estado Presente do Espírito Santo. Brasília: IPEA, 2023. KALDOR, Mary. New and old wars: organized violence in a global era. 3.ed. Stanford: Stanford University Press, 2012. KRASNER, Stephen D. Problematic sovereignty. West Sussex: Columbia University Press, 2001. MENDONÇA, Henrique. Soberania estatal nos black spots urbanos: efetividade das operações militares ante os regimes criminais no Rio de Janeiro. 2025. Tese (Doutorado em Ciências Militares) - Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2025. Rio de Janeiro - RJ, 29 de julho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A resposta do Estado frente às ameaças complexas. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/seguranca-publica-e-crime-organizado-internacional/artigos/a-resposta-do-estado-frente-as-ameacas-complexas.
Base Industrial de Defesa brasileira: pilar de soberania e inovação
Antonio João de Oliveira Vianna JuniorMajor do Exército Brasileiro, doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos da ECEME e mestre em Administração pela UFF. 1. Um marco para a Soberania Nacional O lançamento do Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil, uma iniciativa estratégica do Ministério da Defesa em colaboração com entidades setoriais como a ABIMDE (Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança) e a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), transcende a mera apresentação de produtos. Ele se configura como um verdadeiro manifesto da capacidade tecnológica, da resiliência econômica e da visão estratégica do Brasil em um dos setores mais críticos para a segurança e o desenvolvimento de uma nação. Em um cenário global marcado por complexas dinâmicas geopolíticas, a autonomia em defesa não é apenas uma questão militar, mas um imperativo para a manutenção da soberania, a proteção de interesses nacionais e a projeção de influência regional e internacional. Este documento não só celebra os avanços alcançados, mas também pavimenta o caminho para um futuro no qual a BID brasileira se consolida como um pilar inabalável de nossa independência e inovação. A iniciativa do Ministério da Defesa em compilar e divulgar de forma tão abrangente as capacidades da nossa indústria de defesa é digna de aplausos. Ela reflete um entendimento profundo de que a defesa nacional não se restringe às Forças Armadas, mas se estende a um ecossistema industrial robusto, capaz de gerar conhecimento, empregos de alta qualificação e valor agregado. Ao destacar a diversidade e a excelência dos produtos e serviços oferecidos, o catálogo não apenas facilita o acesso de potenciais compradores, internos e externos, mas também eleva a percepção sobre o Brasil como um player tecnológico relevante no cenário global de defesa. É um convite à valorização de um setor que, muitas vezes, opera nos bastidores, mas que é fundamental para a proteção de nosso território, recursos e valores democráticos. 2. Trajetória histórica da BID: da fragmentação à consolidação estratégica A história da Base Industrial de Defesa brasileira é um testemunho da capacidade do país de superar desafios e construir capacidades estratégicas ao longo do tempo. Seus primórdios, no início do século XX, foram marcados por iniciativas fragmentadas, com a criação de arsenais militares e pequenas oficinas dedicadas à manutenção e produção limitada de equipamentos. A dependência externa era a regra, e a capacidade de autossuficiência, um sonho distante. Um ponto de inflexão significativo ocorreu na Era Vargas, com a implementação de um projeto de industrialização nacional que, embora não focado exclusivamente na defesa, lançou as bases para o desenvolvimento de setores estratégicos. A criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e da Fábrica Nacional de Motores (FNM) foram exemplos de investimentos em indústrias de base que, indiretamente, fortaleceram a capacidade produtiva do país para atender às necessidades militares. Essa fase inicial, de substituição de importações e fomento à indústria nacional, foi crucial para o amadurecimento de uma mentalidade de autonomia produtiva. A verdadeira "era de ouro" da BID brasileira floresceu entre as décadas de 1960 e 1980. Impulsionado por um contexto geopolítico de Guerra Fria, pela necessidade de modernização das Forças Armadas e por políticas governamentais de fomento à indústria nacional, o Brasil se tornou um exportador notável de equipamentos de defesa. Empresas como a Engesa, com seus blindados Cascavel (carro de reconhecimento) e Urutu (transporte de pessoal), e a Embraer, com o avião de transporte Bandeirante e o treinador militar Tucano, conquistaram mercados internacionais, demonstrando a excelência da engenharia brasileira. A Avibras, por sua vez, desenvolveu o renomado sistema de foguetes de artilharia ASTROS (Artillery Saturation Rocket System), um dos mais eficazes de sua categoria no mundo, consolidando a reputação do Brasil como um produtor de tecnologia de ponta em defesa. No entanto, a década de 1990 trouxe consigo um período de desafios. O fim da Guerra Fria, a redução global dos orçamentos de defesa e as crises econômicas internas impactaram severamente a BID, levando ao declínio de algumas das empresas mais emblemáticas. A falta de investimentos contínuos e de uma política de defesa de longo prazo resultou em uma desestruturação parcial do setor, com a perda de capacidade tecnológica e de mercados. A retomada e a reestruturação da BID ganharam novo fôlego a partir dos anos 2000, impulsionadas por uma nova visão estratégica de defesa e pela criação de marcos legais e institucionais. A promulgação da Estratégia Nacional de Defesa (END) em 2008 foi fundamental, ao reconhecer a BID como um setor estratégico para a soberania nacional e ao propor políticas de fomento e proteção. A criação do conceito de Empresas Estratégicas de Defesa (EED) e a implementação do Regime Especial Tributário para a Indústria de Defesa (RETID) ofereceram incentivos fiscais e regulatórios cruciais para a revitalização do setor, atraindo investimentos e estimulando a inovação. Nesse período, projetos de grande envergadura foram lançados, demonstrando a capacidade de recuperação e modernização da BID. O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), com a construção de submarinos convencionais e o desenvolvimento de um submarino com propulsão nuclear, representa um salto tecnológico sem precedentes para a Marinha do Brasil e para a indústria naval. O cargueiro multimissão KC-390 Millennium, desenvolvido pela Embraer, consolidou a empresa como uma das líderes mundiais na aviação militar. A viatura blindada de transporte de pessoal Guarani, produzida pela IVECO em parceria com o Exército Brasileiro, modernizou a frota terrestre e gerou um importante ciclo de desenvolvimento e produção nacional. Esses projetos não apenas equipam as Forças Armadas com tecnologia de ponta, mas também geram um vasto conhecimento técnico, empregos e um efeito multiplicador em toda a cadeia produtiva. 3. Diversidade e excelência tecnológica: o catálogo como espelho da inovação O Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa do Brasil é uma demonstração palpável da vasta gama de capacidades e da excelência tecnológica alcançada pelas empresas brasileiras. Ele organiza a produção em categorias estratégicas, revelando a profundidade e a amplitude da inovação que permeia o setor, com um forte enfoque na dualidade tecnológica, ou seja, na aplicação de soluções de defesa para o uso civil e vice-versa. 3.1. Plataformas aéreas e espaciais Nesta categoria, o Brasil se destaca globalmente. A Embraer Defesa & Segurança é a joia da coroa, com o KC-390 Millennium, um cargueiro tático multimissão que estabelece novos padrões em sua classe, e o Super Tucano, um turboélice de ataque leve e treinamento avançado, amplamente utilizado por diversas forças aéreas ao redor do mundo. Além disso, a indústria brasileira tem avançado significativamente no desenvolvimento de drones (VANTs) para missões de reconhecimento, vigilância e até mesmo ataque, como o Harpia e o Nauru 1000C, que oferecem soluções flexíveis e de baixo custo para diversas aplicações. O setor espacial, embora ainda em desenvolvimento, já apresenta capacidades em satélites e sistemas de lançamento, essenciais para a comunicação e a atividade de inteligência. 3.2. Plataformas terrestres A modernização do Exército Brasileiro tem sido impulsionada por plataformas terrestres de fabricação nacional. A IVECO Defence Vehicles, em parceria com o Exército, produz a viatura blindada de transporte de pessoal Guarani, um veículo modular e versátil que representa um avanço significativo na capacidade de mobilidade e proteção das tropas. A herança da Engesa, com os blindados Cascavel e Urutu, ainda ressoa na capacidade de manutenção e modernização desses sistemas. A Avibras continua a ser uma referência com o sistema ASTROS, que oferece poder de fogo e precisão inigualáveis, sendo constantemente atualizado para incorporar novas tecnologias e mísseis de maior alcance. 3.3. Plataformas navais A indústria naval de defesa brasileira tem demonstrado grande vitalidade, especialmente com o PROSUB, que não só envolve a construção de submarinos convencionais e o desenvolvimento do primeiro submarino nuclear brasileiro, mas também a transferência de tecnologia e a formação de mão de obra altamente especializada. Empresas como a Emgepron e a AMAZUL desempenham papéis cruciais neste programa. Além dos submarinos, o catálogo apresenta uma gama de embarcações menores, mas igualmente estratégicas, como as lanchas de patrulha e interceptação Aruanã e BM900T, produzidas pela Indústria Naval do Ceará, essenciais para a vigilância costeira e fluvial, e para operações especiais. 3.4. Armas e munições A IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil) é a principal protagonista nesta área, fornecendo uma vasta gama de produtos que incluem fuzis, pistolas, metralhadoras e, crucialmente, explosivos de alta performance como RDX, TNT e HMX. A capacidade de produzir esses materiais de forma autônoma é vital para a soberania nacional, garantindo o suprimento de componentes essenciais para munições e artefatos explosivos. A CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) também se destaca na produção de munições para diversos calibres, atendendo tanto às forças de segurança quanto ao mercado civil. 3.5. Sensores e sistemas eletrônicos A área de sensores e eletrônicos é um campo de intensa inovação. A AEL Sistemas, por exemplo, é líder em aviônicos, displays e sistemas embarcados para aeronaves, contribuindo para a modernização da frota aérea brasileira. A IACIT Soluções Tecnológicas se destaca com seus radares de vigilância e, notavelmente, com o sistema DroneBlocker, uma solução avançada para a detecção e neutralização de drones não autorizados, uma ameaça crescente em ambientes civis e militares. A capacidade de desenvolver e produzir esses sistemas internamente é fundamental para a inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) das Forças Armadas. 3.6. Cibernética e comunicações Em um mundo cada vez mais digital, a segurança cibernética e as comunicações seguras são pilares da defesa. A BID brasileira tem investido no desenvolvimento de rádios definidos por software (SDR), que oferecem flexibilidade e segurança nas comunicações militares, e em soluções de criptografia e proteção de dados. Empresas como a Kryptus são referências em cibersegurança, desenvolvendo produtos e serviços que protegem infraestruturas críticas e informações sensíveis. A colaboração com centros de pesquisa, como o da EMBRAPII de cibersegurança, garante que o Brasil esteja na vanguarda da proteção contra ameaças digitais. 3.7. Desempenho do combatente Esta categoria abrange uma vasta gama de produtos e soluções que visam otimizar a capacidade e a segurança do militar em campo. Inclui desde equipamentos táticos avançados, como coletes balísticos, capacetes e óculos de visão noturna, até fardamentos com tecnologias de ponta (resistência a fogo, camuflagem avançada) e sistemas de apoio logístico e médico. A inovação aqui se traduz em maior proteção, eficiência e bem-estar para os combatentes, elementos cruciais para o sucesso das operações. A dualidade tecnológica é uma característica marcante da BID brasileira. Muitas das inovações desenvolvidas para a defesa encontram aplicações em setores civis, como saúde, energia, meio ambiente, segurança pública e transporte. Essa sinergia não só diversifica as fontes de receita das empresas, mas também impulsiona o desenvolvimento tecnológico geral do país, criando um ciclo virtuoso de inovação e crescimento. 4. Impacto econômico e projeção internacional: um motor de desenvolvimento O impacto da Base Industrial de Defesa brasileira vai muito além da segurança nacional; ela é um motor econômico robusto e um vetor de projeção internacional para o país. Os números falam por si: a BID é responsável por uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, contribuindo com aproximadamente 4,29% do PIB, o que se traduz em mais de R$ 350 bilhões anuais. Essa contribuição não é apenas quantitativa, mas qualitativa, pois envolve setores de alta tecnologia e valor agregado. O ecossistema da BID é vasto, englobando mais de 1.200 empresas associadas a entidades como a ABIMDE, SIMDE (Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança), ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) e PIT SJC (Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos). Essas empresas, muitas delas pequenas e médias, formam uma complexa cadeia de valor que gera um número expressivo de empregos diretos e indiretos, muitos deles altamente qualificados, em áreas como engenharia, pesquisa e desenvolvimento, e manufatura avançada. Esse capital humano é um ativo inestimável para o desenvolvimento tecnológico do país. A projeção internacional da BID é outro ponto de destaque. Entre 2018 e 2025, as exportações autorizadas de produtos de defesa brasileiros somaram impressionantes US$ 11,7 bilhões. Os anos de 2024 e 2025 foram particularmente notáveis, com recordes de exportação de US$ 3,3 bilhões e US$ 4 bilhões, respectivamente, demonstrando uma crescente demanda global por soluções brasileiras. Essa performance exportadora não apenas contribui para a balança comercial do país, mas também fortalece a imagem do Brasil como um fornecedor confiável e inovador de tecnologia de defesa para mais de 140 países. A capacidade de produzir tecnologia dual, com aplicações tanto militares quanto civis, é um diferencial competitivo da BID brasileira. Essa flexibilidade permite que as empresas diversifiquem seus mercados e mitiguem os riscos associados à volatilidade dos orçamentos de defesa. A inovação gerada para atender às rigorosas demandas militares frequentemente encontra soluções para desafios em setores como saúde (equipamentos médicos), energia (sistemas de controle), meio ambiente (monitoramento) e segurança pública (sistemas de vigilância e comunicação). Essa transferência de tecnologia e conhecimento beneficia toda a economia nacional. Além dos números, a BID desempenha um papel crucial na redução da dependência externa em equipamentos estratégicos. Ao desenvolver e produzir internamente, o Brasil garante o acesso a tecnologias sensíveis, protege sua propriedade intelectual e assegura a capacidade de manutenção e modernização de seus sistemas de defesa, sem estar sujeito a embargos ou restrições de fornecedores estrangeiros. Essa autonomia tecnológica é um pilar fundamental da soberania nacional e da capacidade de o Brasil defender seus interesses em um cenário global complexo. 5. Papel estratégico do Ministério da Defesa: fomento e coordenação O sucesso e a resiliência da Base Industrial de Defesa brasileira não seriam possíveis sem o papel proativo e estratégico do Ministério da Defesa. A pasta tem atuado como um verdadeiro orquestrador desse ecossistema complexo, implementando políticas, criando marcos regulatórios e promovendo a integração entre o Estado, a indústria e a academia. Essa liderança é fundamental para transformar a visão de uma BID robusta em realidade. A Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD), vinculada ao Ministério da Defesa, é o braço executivo responsável por coordenar e fomentar o desenvolvimento da BID. Suas atribuições incluem a identificação de demandas das Forças Armadas, a articulação com a indústria para o desenvolvimento de soluções, a promoção de exportações e a gestão de programas estratégicos. A SEPROD tem sido instrumental na implementação de políticas que visam fortalecer a cadeia produtiva, estimular a inovação e garantir a sustentabilidade do setor. Um dos pilares dessa atuação é a criação de um ambiente regulatório favorável. O reconhecimento de empresas como Empresas Estratégicas de Defesa (EED) e a implementação do Regime Especial Tributário para a Indústria de Defesa (RETID) são exemplos claros de como o Ministério da Defesa tem trabalhado para reduzir a carga tributária e burocrática sobre as empresas, tornando-as mais competitivas e estimulando investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Esses incentivos são cruciais para um setor que exige altos investimentos e longos ciclos de desenvolvimento. No âmbito da projeção internacional, o Ministério da Defesa, em parceria com a ApexBrasil e a ABIMDE, tem liderado esforços para promover os produtos da BID em mercados estrangeiros. Isso inclui a organização de missões comerciais, a participação em feiras e exposições internacionais de defesa, e a facilitação de contatos entre empresas brasileiras e potenciais compradores. A futura modalidade de vendas Governo a Governo (G2G), que está sendo desenvolvida, promete simplificar e agilizar as transações de exportação, conferindo maior credibilidade e segurança aos negócios e abrindo novas portas para a indústria brasileira no cenário global. Além disso, o Ministério da Defesa desempenha um papel vital no apoio a projetos estratégicos de grande porte, como o PROSUB e o KC-390 Millennium. Esses programas, que envolvem bilhões de reais em investimentos e anos de desenvolvimento, seriam inviáveis sem o suporte e o compromisso governamental. Eles não apenas fornecem equipamentos de ponta para as Forças Armadas, mas também atuam como catalisadores de inovação, gerando conhecimento, formando mão de obra especializada e desenvolvendo tecnologias que beneficiam todo o país. A integração com a academia e os centros de pesquisa é outro aspecto fundamental da estratégia do Ministério. A colaboração com universidades e institutos tecnológicos, como o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e o IME (Instituto Militar de Engenharia), e o apoio às iniciativas como as do centro de pesquisa da EMBRAPII (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) em cibersegurança, garantem que a BID esteja sempre na vanguarda da inovação, desenvolvendo soluções para os desafios tecnológicos do futuro. 6. Perspectivas futuras: rumo à liderança regional e autonomia plena As perspectivas futuras para a Base Industrial de Defesa brasileira são promissoras, mas exigem um compromisso contínuo e investimentos estratégicos. A consolidação da BID como um pilar de soberania nacional é um objetivo de longo prazo que transcende governos e ideologias, sendo um imperativo de Estado. O Brasil, com sua vasta extensão territorial, riquezas naturais e posição geopolítica estratégica, necessita de uma capacidade de defesa robusta e autônoma para proteger seus interesses e projetar sua influência. A BID tem o potencial de transformar o Brasil em um líder regional em tecnologia de defesa, não apenas como fornecedor de equipamentos, mas como um polo de inovação e conhecimento. Para isso, é fundamental manter e expandir os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), garantindo que as empresas brasileiras possam competir em igualdade com os grandes players globais. O fomento à criação de startups de defesa e a atração de talentos para o setor são igualmente cruciais. Os desafios, contudo, são reais. A necessidade de financiamento estável e de longo prazo, a superação de barreiras burocráticas e a garantia de um ambiente de negócios previsível são elementos essenciais para a sustentabilidade do setor. A cooperação internacional, tanto para o desenvolvimento conjunto de tecnologias quanto para a abertura de novos mercados, também desempenhará um papel vital. A experiência adquirida em grandes projetos, como o PROSUB e o KC-390, deve ser capitalizada e replicada em outras áreas estratégicas, como sistemas espaciais, cibersegurança e inteligência artificial aplicada à defesa. A dualidade tecnológica continuará sendo uma força motriz, permitindo que as empresas da BID contribuam para o desenvolvimento de soluções inovadoras em diversos setores da economia, gerando um impacto positivo em proveito da sociedade. A capacidade de adaptar tecnologias militares para uso civil e vice-versa é uma vantagem competitiva que deve ser explorada ao máximo, criando um ciclo virtuoso de inovação e crescimento. 7. Conclusão: um chamado à valorização e ao apoio contínuo O Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa do Brasil, lançado pelo Ministério da Defesa, é mais do que uma simples lista de produtos; é um documento que celebra a engenhosidade, a capacidade e a visão estratégica de uma nação. Ele demonstra, de forma inequívoca, que o Brasil possui uma indústria de defesa madura, diversificada e tecnologicamente avançada, capaz de atender às necessidades de suas Forças Armadas e de competir no mercado global. As palavras da Secretária-Geral do Ministério da Defesa, Cinara Wagner Fredo, e do Tenente-Brigadeiro do Ar Heraldo Luiz Rodrigues, Secretário de Produtos de Defesa, ressoam com clareza: a BID é, de fato, o futuro do Brasil. É um futuro que exige o engajamento de todos – governo, setor privado, academia e sociedade civil – para que o potencial pleno da Base Industrial de Defesa brasileira seja alcançado, garantindo um Brasil mais seguro, autônomo e próspero. Rio de Janeiro - RJ, 15 de julho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Base Industrial de Defesa brasileira: pilar de soberania e inovação. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/base-industrial-de-defesa-brasileira-pilar-de-soberania-e-inovacao.
Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU
Milena Fonseca Santos de Oliveira1º Tenente do Exército, Mestre em Estudos de Linguagem pelo Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense comespecialização em estudos de tradução em língua francesa. 1 Introdução As missões de paz das Nações Unidas constituem um dos principais instrumentos internacionais voltados para a estabilização de regiões afetadas por conflitos armados, crises humanitárias e fragilidade institucional. Entre os diversos mandatos atribuídos a estas operações, destaca-se a Proteção de Civis (Protection of Civilians – PoC), considerada atualmente uma das dimensões mais complexas e essenciais da atuação da ONU. Em cenários marcados por violência intercomunitária, deslocamentos forçados, presença de grupos armados e violações sistemáticas de direitos humanos, proteger civis exige muito mais do que presença militar ou policiamento; exige coordenação eficiente, legitimidade institucional e comunicação eficaz. Neste contexto, a língua assume um papel estratégico. A comunicação é parte central do êxito operacional em missões de paz, pois condiciona o acesso às informações sensíveis, ao entendimento das necessidades locais e à construção de confiança entre os capacetes azuis e as comunidades. Em várias missões contemporâneas, especialmente em países africanos, o francês é a língua oficial ou uma língua de administração pública e comunicação regional. Desta forma, o domínio do francês pode representar um fator decisivo para o sucesso de ações de proteção e para a redução de riscos no terreno. Este artigo analisa o papel do idioma francês como ferramenta operacional para o cumprimento do mandato das missões de paz das Nações Unidas em países francófonos, defendendo que a competência linguística deve ser reconhecida como elemento fundamental do treinamento pré-desdobramento. A língua francesa, neste sentido, ultrapassa sua função comunicativa e passa a ser compreendida como instrumento de segurança humana, mediação cultural e eficácia tática. 2 Desenvolvimento Desde o final do século XX, a ONU passou a integrar a proteção de civis como prioridade explícita de várias operações de paz. Conflitos internos, guerras civis e crises prolongadas evidenciaram que a população civil se tornou alvo direto de violência, seja por ataques deliberados, seja por consequências indiretas do colapso institucional. Assim, a PoC tornou-se um conceito multidimensional, articulando dimensões militares, policiais e civis. Neste sentido, para que os capacetes azuis possam executar de forma adequada esta tarefa por intermédio de ações como patrulhas preventivas, presença dissuasória em zonas de risco, escolta de comboios humanitários, apoio à reconstrução do Estado, monitoramento de direitos humanos, mediação de conflitos e planejamento logístico e administrativo, a comunicação em francês torna-se fundamental para garantir a interoperabilidade entre contingentes multinacionais que compõem as missões de paz da ONU. Em muitas operações, o francês funciona como língua de trabalho ao lado do inglês, sendo utilizado em briefings, reuniões de coordenação, treinamentos conjuntos e interação com organizações internacionais e ONG’s presentes no terreno. Dessa forma, militares que dominam o francês conseguem integrar-se mais rapidamente às equipes, compreender ordens operacionais com maior clareza e atuar com mais autonomia em patrulhas e atividades de ligação com a comunidade local, como nos mostra o relato a seguir: “Durante a missão, mantive contato com a população civil local e com o componente civil da ONU, com o apoio pontual de intérpretes para dialetos locais. As interações com a população ocorreram predominantemente em francês, com uso inicial de cumprimentos em sango para favorecer a aproximação, tendo como finalidade a coleta de informações sobre segurança, condições humanitárias e circulação de grupos armados, sendo, em áreas mais remotas, frequentemente restritas aos líderes locais. Já com o componente civil, composto por profissionais de diversas nacionalidades, incluindo nacionais da República Centro-Africana, a comunicação ocorreu em francês e, em menor escala, em inglês, com finalidades que abrangeram desde apoio administrativo e logístico até ações de desarmamento e temas relacionados à proteção de mulheres e crianças. Esse contato foi essencial para o fortalecimento da confiança mútua e para a efetividade das ações desenvolvidas.” Maj (EB) RENATA SIMÕES, Observadora Militar, MINUSCA. 2.1 A comunicação em língua francesa como estratégia de cooperação e confiança em contextos de missão de paz da ONU Grande parte das missões recentes ou historicamente relevantes da ONU ocorreu em territórios francófonos, como a República Democrática do Congo (MONUSCO), o Mali (MINUSMA), a República Centro-Africana (MINUSCA), a Costa do Marfim (UNOCI) e o Haiti (MINUSTAH), onde o idioma francês possui forte presença institucional. Além disso, mesmo em regiões multilíngues, frequentemente atua como língua de administração estatal e de comunicação formal. Neste cenário, o francês é utilizado em reuniões com autoridade locais, coordenação com ONG’s, interação com líderes comunitários e a elaboração de documentos operacionais. A língua torna-se também um meio de acesso às informações públicas, relatórios administrativos e orientações governamentais, conforme referenciado no relato a seguir: “Como oficial de ligação estratégica da MONUSCO, represento o Comandante da Força da missão na capital da República Democrática do Congo (RDC), atuando como elo estratégico da Força de Paz com a liderança da MONUSCO, Forças Armadas da RDC, Adidos Militares, atores diplomáticos, autoridades locais e sociedade civil. Nesse contexto, mantenho contato diário com civis, utilizando os idiomas inglês e francês como meios de comunicação. Esse contato ocorre de forma contínua e abrange diferentes níveis de interação, desde conversas informais do dia a dia, passando por reuniões de agenda e coordenação, até reuniões de alto nível com a liderança da missão e demais autoridades.” Cel (EB) MARCELO REZENDE, Oficial de Ligação Estratégica da Força de Paz da MONUSCO. “Na missão em Beni, na República Democrática do Congo, comunico-me diariamente em francês com os funcionários da base das Nações Unidas e do escritório onde desempenho minhas atividades. Os colaboradores locais utilizam, de forma recorrente, tanto o francês quanto o inglês em suas interações profissionais. Ao chegar à missão, foi necessário passar por diversas seções administrativas para a emissão de documentos pessoais, como a identificação da ONU e a carteira de motorista. Em diversas ocasiões, observei que o uso do francês no primeiro contato contribuiu para uma recepção mais cordial e facilitou o andamento dos procedimentos.” 1º Sgt (EB) DEUSDETH, Instrutor da JWMTT 7, MONUSCO. Assim, podemos verificar que o francês representa um recurso estratégico para diversas ações, sejam elas de cunho pessoal, administrativo ou profissional, de forma relevante e funcional. Missões eficazes dependem de sistemas de alerta precoce, coleta de informações e interpretação de sinais de risco. Estes elementos são profundamente linguísticos. A população civil frequentemente busca as forças de paz para relatar ameaças, denunciar abusos ou solicitar intervenção. Se os militares ou policiais não compreendem o idioma utilizado, há risco de subestimar a gravidade da denúncia ou de não identificar detalhes essenciais, como a localização, o número de agressores ou o tempo estimado do ataque. Portanto, a competência em língua francesa facilita a escuta ativa e o acolhimento de relatos com maior fidelidade. Além disso, permite que os capacetes azuis formulem perguntas com clareza e precisão, evitando ambiguidades que podem gerar falhas de interpretação. Em muitas situações, um simples erro de compreensão pode significar uma patrulha enviada ao local errado ou uma evacuação mal coordenada. Desse modo, o francês pode ser compreendido como instrumento de prevenção e de antecipação, pois amplia a capacidade de resposta antes que a violência se concretize. Quando os capacetes azuis não dominam a língua francesa, tornam-se dependentes de intérpretes ou de intermediários locais, o que pode gerar distorções, atrasos e perda de precisão. Em situações de crise, como ataques iminentes ou evacuações emergenciais, a dependência linguística pode comprometer vidas humanas. 2.2 O enfoque da comunicação em língua francesa para as missões de paz da ONU A comunicação é um elemento essencial em missões de paz da ONU, pois garante a coordenação entre as equipes multinacionais, as autoridades locais e a população civil, contribuindo diretamente para a segurança e a eficácia das operações. Por meio de uma comunicação clara, objetiva e culturalmente adequada, é possível evitar ambiguidades, facilitar negociações e fortalecer a confiança entre os capacetes azuis e as comunidades atendidas. Por isso, comunicar-se bem não significa apenas transmitir informações, mas também construir diálogo, cooperação e legitimidade no cumprimento do mandato da missão. Desse modo, a comunicação em língua francesa nas missões de paz das Nações Unidas deve ser compreendida como um enfoque estratégico e operacional, pois ela ultrapassa a simples função de transmitir mensagens e se torna um instrumento essencial de mediação, confiança e cooperação com as populações locais. Em contextos africanos francófonos, o domínio do francês permite aos militares e agentes de paz estabelecer diálogo direto com os civis, autoridades administrativas, líderes comunitários e organizações humanitárias, reduzindo ruídos culturais e prevenindo mal-entendidos que podem gerar tensões. Além disso, a capacidade de comunicar-se em francês facilita a coleta de informações, a negociação de acordos locais, a condução de patrulhas e a execução de ações de proteção de civis, reforçando a legitimidade e a credibilidade da força internacional. Assim, o enfoque da comunicação em língua francesa contribui para a eficácia das operações, fortalecendo a diplomacia preventiva e a construção de relações pacíficas em ambientes marcados por instabilidade. As missões da ONU atuam em articulação com múltiplos atores: agências humanitárias, organizações não governamentais, autoridades locais, forças de segurança nacionais, grupos comunitários, serviços administrativos, tal como o relato abaixo: “A comunicação com os locais no ambiente de missão de paz, ocorreu principalmente na utilização dos serviços locais na vida quotidiana, como celebrar contratos de alugueis, empresas de segurança privada, serviços de água e luz, cozinha e etc; como exemplo posso citar as tratativas para organizar o serviço de vigilância privado na nossa moradia, do qual tomei parte. O contato sempre foi realizado em francês. Seja por telefone ou pessoalmente e tinha o escopo de ajustar os problemas do dia a dia: atraso de funcionários, erros nos pagamentos, dispensas do serviço, a fim de garantir a correta execução dos serviços contratados." Cap (FAB) GERMANO, Instrutor da JWMTT 6, MONUSCO. Neste sentido, a língua francesa favorece a padronização de procedimentos, melhora a troca de informações e aumenta a eficiência no comando e controle das operações. Também observamos que o enfoque comunicacional em francês é essencial para a construção de confiança e para a cooperação entre instituições. Essa troca permite identificar ameaças, planejar ações preventivas e responder com agilidade às crises emergenciais, caracterizando assim a comunicação como recurso estratégico para garantir não apenas o cumprimento das tarefas operacionais, mas também a proteção de civis e a manutenção da estabilidade nas áreas sob responsabilidade da ONU. 2.3 Ensino de francês no pré-desdobramento: uma necessidade operacional O cotidiano operacional das missões de paz envolve inúmeras situações em que a comunicação clara é vital. Em patrulhas preventivas, por exemplo, os capacetes azuis precisam orientar civis sobre rotas seguras, explicar medidas de segurança e coletar informações sobre movimentações suspeitas. Em checkpoints, a linguagem adequada evita tensões e contribui para o controle não violento. Durante evacuações emergenciais, a clareza linguística é ainda mais crítica. É necessário dar instruções rápidas e diretas, evitar pânico coletivo e assegurar que as pessoas compreendam para onde devem ir. A incapacidade de se comunicar pode gerar confusão e colocar civis em maior perigo. O francês, nesse sentido, constitui uma ferramenta operacional indispensável, pois permite que o capacete azul atue com mais autonomia e eficácia, facilitando a mediação constante. Assim, a língua funciona como recurso de proteção direta, influenciando a segurança imediata das populações. “Durante minha participação na MINURSO, a comunicação com civis variou conforme a área de atuação. Na região controlada pela Frente Polisário, a comunicação ocorria principalmente em espanhol. Como não possuo fluência no idioma, utilizava “portunhol”. Nos casos em que o interlocutor falava apenas árabe, recorria a gestos e desenhos na areia. O contato com civis era, em geral, limitado àqueles que prestavam apoio à manutenção do Team Site. Na área controlada por Marrocos, atuei no Quartel-General em Laayoune, onde a comunicação com civis da ONU era realizada em inglês, com interação frequente. No cotidiano, fora do ambiente de trabalho, utilizei o francês para comunicação com a população local, o que se mostrou suficiente para as necessidades básicas.” CF (MB) DANILO, Observador Militar, MINURSO. A proteção de civis exige também atenção específica aos grupos vulneráveis, como mulheres, crianças e deslocados internos. Muitas vezes, essas populações têm medo de denunciar abusos ou não confiam em autoridades armadas. A linguagem utilizada no contato com essas vítimas precisa ser acolhedora, respeitosa e culturalmente apropriada. O domínio do francês permite que os capacetes azuis adotem um discurso mais adequado e menos intimidante, criando um ambiente propício para denúncias. Além disso, facilita o acompanhamento de casos de violência sexual, exploração e abusos, temas recorrentes em cenários de conflito. Quando a comunicação é falha, vítimas podem permanecer em silêncio, perpetuando ciclos de violência. Sendo assim, considerando os elementos apresentados, torna-se evidente que o ensino de francês deve ser integrado de forma estratégica aos treinamentos de pré-desdobramento. O ensino tradicional, centrado em gramática normativa e conteúdos abstratos, não atende plenamente às necessidades de missões de paz. É necessário um francês orientado às tarefas operacionais e cenários reais. O chamado francês para objetivos específicos (FOS) pode oferecer ferramentas concretas para atuação no terreno. O treinamento linguístico deve priorizar vocabulário funcional e competências comunicativas ligadas às patrulhas, às entrevistas, à mediação comunitária, à assistência humanitária e à redação de relatórios simples. Além disso, metodologias baseadas em simulações, jogos de papéis e situações-problema podem contribuir para desenvolver não apenas competência linguística, mas também intercultural e pragmática. Ensinar o aluno a dizer algo não basta, é preciso ensiná-lo a dizer de forma adequada, respeitando hierarquias culturais, níveis de formalidade e códigos sociais locais. 3 Conclusão O conceito de segurança humana amplia a noção tradicional de segurança, incluindo dimensões como dignidade, bem-estar e proteção contra violência estrutural. Dentro dessa perspectiva, a língua desempenha um papel central, pois permite que indivíduos tenham acesso à informação, expressem necessidades e participem de processos de decisão. O francês em missões de paz não é apenas uma ferramenta linguística, é um meio de inclusão e de reconhecimento do outro. Ao falar a língua local ou institucional, o capacete azul demonstra disposição para compreender e respeitar a população. Isso fortalece a legitimidade da missão e reduz a percepção de ocupação estrangeira. Além disso, o domínio do francês pode ser interpretado como ferramenta de diplomacia operacional. A comunicação eficaz com autoridades e líderes comunitários facilita negociações, mediações e acordos locais, funcionando, assim, como um recurso de pacificação, essencial para a estabilização e proteção. A proteção de civis em missões de paz da ONU é um desafio multifacetado, que exige capacidades militares, policiais, humanitárias e diplomáticas, tendo o domínio da língua francesa como ferramenta operacional e estratégica. Ela influencia diretamente a capacidade de prevenir violência, de coletar informações, de coordenar ações humanitárias e de construir legitimidade junto às comunidades locais. Com isso, a língua francesa permite que os capacetes azuis respondam com maior rapidez a alertas e denúncias, transmitam instruções claras em situações críticas e atuem de forma mais eficaz na proteção de grupos vulneráveis. Ademais, fortalece a articulação interinstitucional e contribui para uma relação mais humanizada entre missão e população civil. Portanto, é necessário reconhecer que o ensino do idioma francês no pré-desdobramento não deve ser tratado como mera competência técnica, mas como componente fundamental da preparação operacional. Investir em programas linguísticos orientados às tarefas reais e adaptados às exigências do terreno é uma medida estratégica para aumentar a eficácia das missões e cumprir o compromisso internacional de proteção de civis. Dessa forma, a língua francesa pode ser compreendida como um instrumento de segurança humana, capaz de salvar vidas, não apenas pela comunicação, mas pelo fortalecimento da confiança, da cooperação e da capacidade de resposta. Em um mundo em que os conflitos se tornam cada vez mais complexos, a dimensão linguística emerge como fator decisivo na construção da paz e da garantia de dignidade às populações afetadas pela guerra. Como disse o ex-Comandante da MONUSCO, General Carlos Alberto dos Santos Cruz: “A comunicação é tão importante quanto a estratégia. Sem entender, não se comanda.” Rio de Janeiro - RJ, 09 de julho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Língua, confiança e cooperação: o idioma francês na comunicação em missões de paz entre os capacetes azuis, civis e colaboradores da ONU. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/missao-de-paz/artigos/lingua-confianca-e-cooperacao-o-idioma-frances-na-comunicacao-em-missoes-de-paz-entre-os-capacetes-azuis-civis-e-colaboradores-da-onu.
Seminário A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos
OMPV O Seminário: A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos, foi realizado no dia 25/06/2026, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 25/06/2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de junho 2026.
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas | 10/03/2025 - Conflito Israel x Hamas
OMPV O Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas, foi realizado no dia 10/03/2025, segunda-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército; - Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 10/03/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 10 de março 2025.
XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos - II Seminário sobre as Estratégias Globais e Nacionais para a Mitigação de Ameaças QBRN: Cooperação, Desenvolvimento e Projeção de Poder
OMPV Com o objetivo de promover um amplo fórum de debates sobre os desafios impostos pelas ameaças QBRN no Brasil e no mundo, o evento teve como foco a cooperação interagências, o desenvolvimento de capacidades nacionais e a projeção de poder. Esses temas foram discutidos a partir de cenários estratégicos: a rápida evolução tecnológica, a complexidade crescente do crime organizado, o legado de grandes eventos e a necessidade de antecipar situações críticas colocam as ameaças QBRN no centro das discussões de segurança contemporânea. Nesse contexto, torna-se essencial integrar esforços das Forças Armadas, dos órgãos de segurança pública, da defesa civil, da comunidade científica, da indústria e dos organismos internacionais. É nesse cenário que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) dedica-se ao estudo das implicações QBRN para a Defesa Nacional. O evento visou fomentar o conhecimento estratégico, fortalecer a cooperação institucional e preparar o país para responder de forma eficaz aos desafios de um ambiente global em constante transformação. Para assistir o XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 05 e 06 de agosto 2025, Clique aqui. Para mais informações: https://ppgcm.eceme.eb.mil.br/index.php/pt/quem-somos/grupos-de-pesquisa/655-nucleo-de-pesquisa-sobre-defesa-qbrn-e-desastres-nupedd-qbrn Rio de Janeiro - RJ, 02 de fevereiro 2026 . .
XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos - Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa
OMPV Nos dias 16 e 17 de junho de 2025, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) promoveu o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos (XXXI CEE), reunindo autoridades civis e militares, pesquisadores, docentes e especialistas nacionais e estrangeiros em torno do tema “IA e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa”. A conferência de abertura contou com exposições do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Richard, que abordou as diretrizes da Força Terrestre para a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA), e do Comandante do Instituto Militar de Engenharia, General Galdino, que apresentou os novos paradigmas tecnológicos, destacando oportunidades e desafios relacionados à temática. Ao longo das duas jornadas, a programação incluiu conferências, painéis e mesas temáticas que trataram da integração de IA e Tecnologias Quânticas (TQ) no campo da Defesa, destacando os avanços científicos, os impactos estratégicos, as implicações éticas e legais, bem como os desafios de implementação dessas tecnologias em um contexto operacional. As discussões abrangeram tópicos como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o emprego de IA nos conflitos contemporâneos, disputas geopolíticas em torno das tecnologias emergentes, ciberdefesa, implicações quânticas para a criptografia e segurança, além de temas voltados à governança, educação, energia e inovação. Especial atenção foi dedicada à preparação do Brasil e de suas Forças Armadas frente às exigências de um ambiente internacional cada vez mais tecnológico e complexo. O XXXI CEE também evidenciou a importância da sinergia entre a academia, os centros de pesquisa e as instituições militares no desenvolvimento de capacidades autônomas e na formulação de estratégias que assegurem a soberania nacional. Nesse sentido, a ECEME reafirma seu compromisso com a modernização e o fortalecimento do pensamento estratégico no âmbito do Exército Brasileiro, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e a construção de soluções inovadoras para os desafios da Defesa no século XXI. Para assistir o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 16 e 17 de junho 2025, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://sites.google.com/ime.eb.br/iatq/sobre-o-projeto/ciclo-de-estudos-estrat%C3%A9gicos?authuser=0 Rio de Janeiro - RJ, 19 de setembro 2025 . .
XXX Ciclo de Estudos Estratégicos - V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações
OMPV Nos dias 7 e 8 de agosto de 2025, a ECEME conduziu o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações e o V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações. O Ciclo de Estudos foi promovido pelo Instituto Meira Mattos da ECEME, em parceria com o Instituto para o Desenvolvimento Social e Econômico de Fronteiras (IDESF) e Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD). O evento incluiu mesas temáticas que promoveram discussões sobre segurança integrada das fronteiras e crimes transnacionais. As apresentações destacaram a necessidade de cooperação interagências e o uso de tecnologias avançadas para combater crimes transnacionais e garantir a segurança nacional. Para assistir o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 07 e 08 de agosto 2024, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 24 de março 2026 . .
XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos - Os desafios do sistema internacional contemporâneo para a defesa
OMPV Os Ciclos de Estudos Estratégicos visam promover um amplo fórum de debates sobre temas relacionados aos atuais desafios existentes no sistema internacional para a Defesa. Tendo em vista a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede para a realização da reunião da cúpula do G20 em 2024, momento em que os Chefes de Estado das 19 maiores economias do mundo e que o Presidente da União Europeia estarão discutindo temas relevantes para a sociedade, como o futuro da governança global e o desenvolvimento sustentável, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) procura dar a sua contribuição à sociedade e tem a satisfação de informar que realizará nos dias 28 e 29 de maio de 2024, o XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos (XXIX CEE), cujo tema será o seguinte: OS DESAFIOS DO SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO PARA A DEFESA. Este Ciclo de Estudos Estratégicos contará com a participação de professores nacionais, professores estrangeiros, pesquisadores, diplomatas, militares, acadêmicos e demais personalidades analisando temas como o multilateralismo, as mudanças climáticas, o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a defesa. O evento foi organizado pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Evento integrante do calendário do G20 2024. Para assistir o XXIX Ciclo do dia 28 e 29 de maio 2024, Clique aqui. Para mais informações sobre o XXIX CEE: https://www.eceme.eb.mil.br/instituto-meira-mattos-imm/cee/172-xxix-ciclo-de-estudos-estrategicos-os-desafios-do-sistema-internacional-contemporaneo-para-a-defesa Rio de Janeiro - RJ, 29 de maio 2024. . .
Evolução do sistema DQBRN do Exército Brasileiro - 25 junho 2026 |
| |
A ação dos EUA e de Israel no conflito no Oriente Médio - 19 março 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
A questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano
A questão Essequibo é um litígio fronteiriço histórico. A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deveria ser a fronteira natural, conforme um mapa de 1777 que remonta aos tempos coloniais espanhóis. A Guiana, por sua vez, baseia sua soberania nas fronteiras estabelecidas por um laudo arbitral de Paris de 1899, que concedeu a maior parte da terra à então Guiana Britânica. Em 2015, a descoberta de reservas de petróleo e gás em águas profundas na costa do Essequibo, por empresas internacionais, intensificou a disputa, elevando o valor estratégico da região e suas águas adjacentes. No final de 2023, a antiga disputa pela região voltou ao cenário geopolítico sul-americano depois que o governo venezuelano realizou um referendo para legitimar a anexação do território. A crise expõe as limitações de organismos regionais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em mediar e prevenir conflitos entre seus membros, exigindo uma atuação mais forte de instâncias multilaterais e de atores internacionais. Até que ponto a questão Essequibo está envolvida nas atuais ações militares na região do Caribe e quais são os seus reflexos para o Brasil? Para abordar o tema “A Questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Ricardo De Toma, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ricardo Salvador De Toma-GarcíaPesquisador pós-doutoral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Professor, o senhor pode explicar resumidamente o que vem a ser a Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Essequibo, região rica em recursos minerais, é uma reivindicação antiga da Venezuela, que cobiça os 159.500 km² do território para acrecer aos seus 916.500 km². Já a Guiana, detentora da área cobiçada, possui 215.000 km². O que isso representa? Mais do que 70% do território que ocupa e administra a Guiana, país que nasceu como uma república em 1966, quando se tornou independente do Reino Unido. A Venezuela foi o segundo país a reconhecer a independência da Guiana, mas fez uma ressalva: o reconhecimento estabelecia uma reclamação sobre os 159.500 km² de Essequibo, que, para os venezuelanos, não deveria fazer parte do território guianense. A questão ganha eco basicamente pelos potenciais de hidrocarbonetos e petróleo em áreas marinhas não delimitadas. A exploração desses recursos por parte de corporações estadunidenses e chinesas é o que tem gerado o interesse sobre a região. Cabe destacar que o grande desenvolvimento econômico da Guiana, que vem sendo reconhecido como uma “Dubai sul-americana”, gerou atritos políticos, que acabaram por se transformar em grandes tensões entre a Venezuela e a Guiana. 2) OMPV: Como ocorreu o crescimento da economia da Guiana? Prof. Ricardo: A Guiana era um dos países com uma das menores economias da região. Ela dependia basicamente da exploração de manganês e de ouro. A partir de 2019, o país começou a produzir petróleo. Veja a situação, vamos falar de números: a Guiana tem hoje menos de 700 mil habitantes, com um crescimento demográfico negativo e um dos maiores índices de suicídio do mundo, justamente por essa situação econômica complicada. Hoje a Guiana está produzindo cerca de 700 mil barris diários de petróleo. Isso é quase um barril por habitante. Essa é a verdadeira transformação da economia da Guiana, repercutindo em um acentuado crescimento econômico e um significativo aumento da qualidade de vida da sua população. 3) OMPV: Como essa disputa por Essequibo afeta o Brasil? Prof. Ricardo: Essa resposta traz à tona a crise ocorrida em 1969, envolvendo a Venezuela e a Guiana, motivada por duas questões: a tomada militar da ilha de Anacoco, no rio Cuyuní, pela Venezuela, e a revolta do Rupununi, promovida por separatistas na Guiana, perto da localidade de Lethem, que faz fronteira com a cidade de Bonfim, na divisa com o Estado de Roraima. Esses incidentes aumentaram a tensão na fronteira com o Brasil e criaram um movimento de deslocados para o território brasileiro à época. Com o desenvolvimento econômico da Guiana, em decorrência da exploração petrolífera, a Venezuela resolveu retomar a sua cobiça por Essequibo. O governo venezuelano, afetado por uma série crise política, aproveitou-se desse tema para incrementar a sua popularidade. Todos esses movimentos geraram uma preocupação para o Brasil, Estado que tem uma grande responsabilidade em manter a inviolabilidade de suas fronteiras, garantindo que a região amazônica não seja alvo de cobiças internacionais. Há relatos da presença, no sul do rio Orinoco, de agentes da Rússia, inclusive com a presença de bombardeiros estratégicos russos na Venezuela. Os Estados Unidos também têm interesses na região e a China, apesar de manter certa neutralidade, possui fortes investimentos na área contestada. 4) OMPV: O atual território da Venezuela faz fronteira com a região contestada, ou há necessidade de passar pelo Brasil para chegar até essa área? Prof. Ricardo: Oficialmente, a Venezuela não reconhece a fronteira que foi estabelecida pelo laudo arbitral de Paris de 1899 e é por conta dessa situação que o caso está atualmente na Corte Internacional de Justiça, onde se discutirá justamente a delimitação da fronteira. Com relação à pergunta, a resposta é não, porque a região do Essequibo tem um limite com o estado de Delta Amacuro, no norte da Venezuela, e com o estado de Bolívar, permitindo o trânsito para o território contestado. Aliás, essa é uma zona transitada pelos indígenas Warao. 5) OMPV: Quais são os principais atores internacionais envolvidos na Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Já houve o envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há investimentos britânicos por meio de petroleiras, com concessões autorizadas unilateralmente pela Guiana sobre áreas marinhas não delimitadas. Também observa-se a aplicação de recursos na região por parte da Empresa Nacional de Petróleos da China, que opera conjuntamente com a ExxonMobil, dos Estados Unidos, sobre o Bloco Stabroek, campo petrolífero offshore na costa da Guiana. E ainda podemos citar a influência russa, que vê na Venezuela uma forma de projetar seu poder na região. Na Guiana, os franceses participaram de leilões de blocos para a exploração de petróleo, com a empresa Total. A existência desses interesses econômicos aumenta o potencial geoestratégico do território Essequibo. Você vê hoje, por exemplo, que a China investe pesado na modernização do aeroporto internacional de Georgetown, que possui projetos para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas, de um porto de águas profundas e interesse no desenvolvimento da rede 5G. A Guiana foi o primeiro país do Caribe Ocidental que estabeleceu relações com a China e que a reconheceu como “uma única China”. Essa lealdade é retribuída pela China com esses investimentos. 6) OMPV: Recentemente, o Brasil realizou a Operação Atlas, desdobrando tropas na região próxima a Essequibo, sob coordenação do seu Ministério da Defesa. Como é que o senhor vê a repercussão desse exercício para a região? Prof. Ricardo: O interessante é que, recentemente, na Venezuela, também foram realizados exercícios. Esses exercícios foram, de certo modo, uma resposta a um patrulheiro britânico que estava no porto de Georgetown, e eu lembro que, na época, houve uma manifestação do antigo chanceler do Brasil, que indicou que uma grande autoridade, de uma grande potência, havia manifestado que, caso a Venezuela tomasse a decisão de tomar Essequibo pela força, essa grande potência iria intervir. Entendo que a Operação Atlas repercute positivamente para o Brasil, demonstrando a capacidade logística das suas Forças Armadas e a determinação nacional de manter a estabilidade da região amazônica, deixando-a de fora de possíveis conflitos. Nove países tem parte na Amazônia e a presença de forças extra-regionais em um eventual cenário desagregado ou caótico pode ser lesiva para a soberania individual de cada um dos Estados pan-amazônicos. Assim, qualquer medida mais radical ou não consensual por partes de algum país pode gerar consequências incertas. Portanto, esse tipo de exercício é necessário para manter a segurança local, a cooperação e a paz. 7) OMPV: Recentemente os Estados Unidos têm aproximado tropas do litoral da Guiana. O que essas manobras têm a ver com a região de Essequibo? Prof. Ricardo: Os Estados Unidos assinaram um convênio com a Guiana. No ano de 2020, durante a pandemia, foi a primeira vez na história que um secretário de Estado americano visitou Georgetown. A partir desse ano, durante o primeiro governo Trump, foi assinado um convênio de patrulhamento entre o Serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos e a Guiana, que não possui uma força armada capaz de desenvolver essas operações. Esse acordo ficou centrado em neutralizar aparentes ou supostas operações de narcotráfico. Já se fala hoje da existência de um suposto Cartel de los Soles, com indícios que vinculam autoridades venezuelanas a atividades ilícitas. Então, o que temos que destacar é que os Estados Unidos, diante dessas suspeitas, podem atuar na defesa de seus interesses e no combate ao narcotráfico, trazendo mais tensão para a questão Essequibo. 8) OMPV: Qual é a relação comercial do Brasil com a Guiana? Prof Ricardo: O Brasil, por meio da Petrobras, tem interesse em participar da exploração dessas áreas marinhas não delimitadas. Existe também um interesse em pequenas exportações. O estado de Roraima é o principal interessado em que seja construída uma rodovia que passe por Bonfim, Lethem, Mahdia, Mabaruma Hills e depois Linden, até Georgetown, para escoar a sua produção. Ter acesso ao Caribe é uma situação que para o Brasil é importante do ponto de vista estratégico. 9) OMPV: Como o senhor vislumbra o desenvolvimento da Questão Essequibo no cenário internacional? Prof. Ricardo: É um tema que está atualmente na Corte Internacional de Justiça. Espera-se que nos próximos meses, sejam emitidas algumas considerações jurídicas sobre os documentos apresentados pelo Estado venezuelano, e a eventual decisão dessa questão por parte da Corte resultará em um fato julgado, que passará a ter um efeito imediato, sobre o processo de delimitação internacional entre a Venezuela e a Guiana, repercutindo nas atividades econômicas na região. Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2025. .
Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa
A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa. Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado. Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros, são alguns dos crimes da região. Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Tássio FranchiProfessor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia? Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões. Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional. Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais. Esses países veem a Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países. Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica. 2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números? Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo. As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária. O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras. Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas. Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais. 3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas? Prof. Tássio: Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles. O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos. Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas. OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países? Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor. Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica. Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia. 4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado? Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime. Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado. 5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região? Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas. Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação. O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico. A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável. As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras. 6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas? Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica. A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações. Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas. Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental. 7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia? Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano. Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais. Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera. Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos. Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto. 8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica? Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso. Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região. Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região. Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado. A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia. 9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa? Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas. Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína. Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África. Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga. O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas. Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu. A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa. 10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região? Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos. 11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso? Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas. Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil. E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas. Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção. Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink. Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil. Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados. 12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia? Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada. Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas. Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para. Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025. .
O acordo de paz entre Israel e o Hamas - Conflito Israel x Hamas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra. Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sandro Teixeira MoitaDoutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz? Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm. Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense. Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas. Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países. Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região. Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz. 2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito? Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha. O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani. E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos. Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área. Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. 3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz? Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas. Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio. 4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah? Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza. Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica. O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã. 5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz? Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro. Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro. Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região. Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra. Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz. 6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido? Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo. Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico. Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel. Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração. Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região. 7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz? Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo. 8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza? Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã. A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas. Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil. O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967. Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025. .
O Soldado e o Estado
Por Alberto Gressler dos Santos Major do Exército Brasileiro e aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME. Um corpo de oficiais político, dividido em facções, subordinado a fins ocultos, ressentindo-se de prestígio, mas sensível aos apelos da popularidade, colocaria em perigo a segurança do Estado. Por outro lado, um corpo de oficiais profissionais forte e altamente integrado, imune à política e respeitado por seu caráter militar, seria um imperturbável fator de equilíbrio na conduta da política (HUNTINGTON, 2016, p. 527). Samuel P. Huntington foi um cientista político norte-americano, nascido em 1927 e falecido em 2008. Formou-se na Universidade de Yale e doutorou-se em Harvard, onde lecionou até 2007. É autor, coautor e editor de 17 livros e de mais de 90 artigos acadêmicos. Dedicou-se ao estudo das relações cívico-militares e à geopolítica. Sua tese de maior impacto foi a que ficou conhecida como a teoria do “Choque das Civilizações”. O livro “O Soldado e o Estado” analisa as relações entre civis e militares desde o surgimento do oficialato como profissão, que remonta ao século XIX, com a reforma do exército prussiano por Scharnhost, Gneisenau e Grolmann, e chega ao período da Guerra Fria. Huntington utiliza-se de apontamentos filosóficos sobre a profissão militar e a percepção desta pelas sociedades humanas ao longo da história, exemplificando as diferentes relações entre civis e militares na política de Estados com formação bastante distinta da norte-americana, como a Alemanha e o Japão, cujas sociedades viveram a “tragédia do militarismo”, o que permite observar os comportamentos e apreender algumas conclusões importantes para a realidade brasileira. A partir de uma base teórica bem explicada, temperada com uma análise empírica detalhada, o autor contribui para a compreensão da participação militar nas decisões políticas nacionais, permitindo clareza na diferenciação de quando se fala em Política Nacional e quando se trata de política partidária. Segundo Luiz de Alencar Araripe, na apresentação da 1ª edição, o autor soube utilizar recursos adequados para tornar agradável um livro sobre um tema tão árido. Samuel Huntington inicia sua análise pela definição de profissão, fazendo dessa primeira parte uma verdadeira lição para civis e militares na compreensão da finalidade e da motivação da profissão das armas. Salienta-se que o foco do autor está na oficialidade, na medida em que esse corpo é responsável por dirigir a estrutura militar e, em consequência, pela segurança do Estado e, por isso, ele inicia a obra definindo a natureza do corpo de oficiais e discorrendo sobre sua mentalidade. Para o autor, a especialização, a responsabilidade e a corporatividade distinguem uma determinada profissão como um tipo especial de vocação. A responsabilidade é caracterizada pelo serviço essencial que o profissional presta ao funcionamento da sociedade. As motivações do oficial residem no amor técnico por sua habilidade e no senso de obrigação social de utilizar essa qualidade em benefício da sociedade (...) A sociedade, por outro lado, só pode garantir essa motivação se oferecer pagamento continuado e condigno a seus oficiais, tanto no serviço ativo quanto na inatividade (HUNTINGTON, 2016, p.33).Huntington elabora o conceito de ideal militar, segundo o qual “O oficialato é mais forte e mais eficiente quanto mais perto se encontra do ideal profissional; mais débil e mais imperfeito quando lhe falta esse ideal”, o que exige uma verdadeira reflexão do leitor militar a respeito de si próprio. Para esse exercício profissional, “cumpre (ao oficial) possuir destreza intelectual, cujo domínio exige estudo intenso”, delineando, assim, a especialidade do profissional. Nessa toada, Huntington define a especialização do oficial como uma esfera distinta de competência militar, comum a todos os oficiais e somente a eles, que os distingue de todos os civis, dada pela capacidade de, segundo Harold Laswell, “administrar a violência”. Para seu pleno domínio, a qualificação militar requer uma vasta base de cultura geral – história, política, economia, sociologia e psicologia. Não lhe é possível desenvolver plenamente suas habilidades analíticas, de percepção, julgamento e imaginação se apenas for treinado para tarefas vocacionais. (HUNTINGTON, 2016, p.32) Após tamanha abordagem inicial, Samuel Huntington parte do suposto problema da participação do grupo militar na política dos Estados e das implicações positivas e/ou negativas para um país. Para isso, utiliza-se dos exemplos da Alemanha e do Japão como referências para fazer uma comparação com o estudo dos EUA. É nessa parte que ele elabora um questionamento relevante: “A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares. Mas quais os limites da obediência?”. Para o autor, “as instituições militares de qualquer sociedade são moldadas por duas forças: um imperativo funcional, originado das ameaças à segurança da sociedade; e um imperativo societário, proveniente das forças sociais, das ideologias e das instituições dominantes dessa sociedade”. Ele alerta que as instituições militares que só refletem valores sociais podem ser incapazes de desempenhar com eficiência sua função específica, mas, por outro lado, é impossível conter dentro da sociedade instituições militares moldadas exclusivamente por imperativos funcionais. É nesse ponto que está o nó do problema abordado pelo autor. Huntington destacou a necessidade que os militares têm do direcionamento político para o estabelecimento da estratégia de defesa. Desse modo, o conceito de Controle Civil Objetivo é explicado pela relação segundo a qual a política estabelece os fins e aloca os recursos, ao passo que os militares utilizam e empregam esses recursos para atingir tais objetivos - ou seja, elaboram a estratégia. Inevitavelmente existe uma sequência a ser seguida: a política vem antes da estratégia. Se o governo do Estado não estabelece os fins ou se não há uma direção, contínua, constante, progressiva, previsível, o meio militar atua perdido, sem rumo. “Sem ele [um Conselho de Segurança Nacional que definisse a Política Nacional de Defesa ou Militar], não havia rumo para nada (…) Os pensadores militares reconheciam que um Conselho de Defesa era mais necessário na paz do que na guerra” (HUNTINGTON, 2016, p. 300). Além desse exemplo, o livro traz à baila vários aspectos do militarismo norte-americano que geram reflexão sobre o estado das relações cívico-militares no Brasil. Note-se que a tradição militar dos EUA foi desenhada a partir de três princípios, quais sejam o tecnicismo, a popularização e o profissionalismo. Huntington deixa claras, ao longo da obra, as dificuldades da sociedade americana em aceitar um agrupamento militar permanente. Ora gerado pela mentalidade liberal que o acusava de dispêndio desnecessário e prejudicial ao progresso econômico e ao bem-estar do povo; ora pela ausência de ameaças devido ao isolamento geográfico. Um tema de tangência entre os exércitos norte-americano e brasileiro, e de verdadeira relevância atual, é a perda de oficiais para o mercado civil de trabalho. Isso é citado por Huntington, no período pós Segunda Guerra Mundial, quando a aproximação entre os militares e os empresários se consolidou. Tal proximidade permitiu o desenvolvimento da indústria de defesa dos EUA. Dessa forma, aproveitando o prestígio obtido pelos oficiais durante a guerra, o empresariado seduziu jovens oficiais, com maiores capacidades intelectuais e de direção, que enxergaram melhores oportunidades financeiras se trabalhassem nas empresas e nas indústrias. Embora Samuel Huntington se centre na história dos EUA, é fácil perceber a universalidade das suas teses. Como a obra foi escrita na década de 1950, talvez haja uma possível lacuna na obra - por limitação temporal - sobre como evoluiu o sentimento favorável aos heróis militares na sociedade americana, assim como é percebido na cultura por meio dos filmes, dos esportes e dos ambientes públicos. Como afirma Filho (2020), embora escrito há mais de sessenta anos, O Soldado e o Estado é leitura obrigatória para militares e civis profissionais, por aprofundar a relação entre as expressões política e militar do Poder Nacional. Dois questionamentos elaborados pelo autor devem ser deixados para reflexão. Inicialmente, que modelo de relação entre civis e militares é mais compatível com os valores liberais-democráticos? Por fim, essa pergunta fomenta outra mais importante: que modelo de relação entre civis e militares será melhor para manter a segurança da nação ? Referência bibliográfica FILHO, Paulo Roberto da Silva Gomes. Samuel Huntington e a ética militar profissional. Paulo Filho – Liderança e Geopolítica, 27 jul. 2020. Disponível em: https://paulofilho.net.br/2020/07/27/samuel-huntington-e-a-etica-militar-profissional/. Acesso em: 31 de maio de 2026. Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.
Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional
Por André Luis Novaes MirandaGeneral-de-Exército da reserva. Assessor especial da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas. Apresentação O cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã anunciaram em 14 de junho de 2026 — após a assinatura do Memorando de Entendimento, cujas negociações técnicas previstas para 19 de junho, na Suíça, foram adiadas em razão da nova escalada de combates entre Israel e o Hezbollah no Líbano — encerra quase quatro meses de uma guerra escalada no final de fevereiro, mas que havia começado com as respostas israelenses aos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, ou até antes, dependendo do referencial. Seria, porém, um erro analítico tratá-lo apenas como o fim de um conflito. O que pode se encerrar, na prática, é o ciclo de décadas em que a segurança do Golfo repousava sobre uma garantia americana tida como crível e previsível. Os termos divulgados — cessar-fogo em todas as frentes, inclusive no Líbano; reabertura do Estreito de Ormuz e suspensão do bloqueio naval norte-americano; compromisso iraniano de jamais buscar a arma nuclear; algum tipo de compensação financeira a Teerã; e sessenta dias de negociações rumo a um acordo final — desenham menos uma vitória do que um empate caro.[1] A leitura que organiza este texto é a de Ian Bremmer, em artigo desta semana e no ensaio que assina com Firas Maksad na Foreign Affairs: a guerra não apenas terminou mal para Washington — ela acelerou o colapso da ordem ancorada nos Estados Unidos, no Oriente Médio, que manteve o petróleo fluindo, as potências rivais afastadas e Washington como árbitro de tudo o que importava. Confronto essa tese com fontes britânicas, do Golfo, chinesas e norte-americanas, para separar o que é fato documentado do que é interpretação, e arrisco uma análise sobre a redistribuição de poder no Golfo Pérsico (expandido). 1. O choque de Doha e a fissura da garantia americana O ponto de inflexão é anterior à guerra. Em 9 de setembro de 2025, caças israelenses dispararam cerca de dez mísseis contra um complexo residencial em Doha, mirando a cúpula política do Hamas que negociava um cessar-fogo em Gaza. Foi a primeira ação militar israelense em solo catariano — e o primeiro ataque a um membro do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Morreram seis pessoas, entre elas um agente de segurança catariano.[2] Mais relevante do que o alvo foi a reação imediata de Washington: nenhuma medida para impedir o ataque ou impor qualquer custo a Israel. A lição absorvida nas capitais do Golfo foi direta — a garantia de segurança americana passou a vir com um ponto de interrogação. As respostas vieram em dois movimentos. De um lado, a cúpula árabe-islâmica de emergência reunida em Doha em 15 de setembro; de outro, oito dias depois, a Arábia Saudita assinou com o Paquistão, potência nuclear, um Acordo Estratégico de Defesa Mútua que trata uma agressão a qualquer dos dois como agressão a ambos — estendendo, na interpretação corrente, um guarda-chuva nuclear paquistanês sobre o reino. Washington, por sua vez, agiu menos para dissuadir o agressor do que para conter os danos: em 29 de setembro, Trump intermediou — com o texto redigido pela própria Casa Branca — um telefonema trilateral em que Netanyahu pediu desculpas ao primeiro-ministro catariano, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, admitiu a violação da soberania e prometeu não repetir o ataque, condição que Doha impusera para seguir mediando as negociações entre Israel e o Hamas; no mesmo dia, uma ordem executiva ofereceu ao Catar uma garantia de segurança americana sem precedentes no Golfo. O recado regional, porém, já estava dado: um aliado podia ser atingido em seu próprio território sem que o fiador o impedisse ou impusesse custos ao autor — as desculpas foram arrancadas em benefício da vítima, não como sanção a quem agrediu. Doha foi o aviso; a guerra de 2026 foi a confirmação. 2. A Guerra do Irã de 2026 e a paz de junho O conflito aberto começou no final de fevereiro de 2026, com a campanha israelo-americana contra o Irã e, em retaliação, com mísseis e drones iranianos caindo sobre Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados — Estados que pagaram o preço de decisões nas quais não tiveram voz. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval ao Estreito de Ormuz que não rendeu as concessões esperadas. Uma primeira trégua de duas semanas, mediada pelo Paquistão (com proposta de cinco pontos e intervenção de última hora da China), entrou em vigor entre os dias 7 e 8 de abril; em 21 de abril, Trump a prorrogou por tempo indeterminado, até o acordo de junho.[4] O saldo estratégico é desconfortável para quem deflagrou a guerra. O programa nuclear iraniano sobreviveu, assim como seus mísseis balísticos, seus drones e suas redes de proxies interpostas no Iraque, no Líbano e no Iêmen. O regime que Washington se propôs a quebrar segue de pé — abalado, mas íntegro — e ainda será, pelos termos do acordo, compensado para permitir a passagem por uma via marítima que estava aberta antes do primeiro tiro. Na avaliação de Bremmer, trata-se do maior erro de política externa dos Estados Unidos desde a Guerra do Iraque; o legado mais duradouro, porém, tem menos a ver com o Irã do que com a posição americana na região.[5] 3. Duas coalizões: contenção versus confronto Quando o fiador vacila, os Estados fazem o que sempre fazem: organizam-se em blocos. O Golfo pós-guerra divide-se em dois eixos que divergem em quase tudo. De um lado, uma coalizão “abraâmica” ancorada nos Emirados e em Israel, estreitamente atada a Washington; de outro, uma coalizão “islâmica” sunita em torno de Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e, crescentemente, Egito — que ainda depende dos EUA para segurança, mas passou a tratar essa dependência como passivo. Ambos veem Teerã como ameaça, mas discordam sobre como lidar com ela. Riad quer conter, dissuadir e manter aberta a hipótese de acomodação; Israel e Abu Dhabi enxergam um inimigo permanente, a ser confrontado. Contenção contra confronto — e sem árbitro em quem ambos confiem. Tabela 1 – A dinâmica das relações entre Estados Dimensão Eixo “abraâmico” (Israel–EAU–EUA) Eixo “islâmico” (Turquia–Arábia–Paquistão–Egito) Núcleo Israel e Emirados, fortemente atados a Washington; atração ocasional de Grécia e Índia em defesa, energia e comércio. Pesos-pesados sunitas: Turquia, Arábia Saudita, Paquistão e, cada vez mais, Egito. Postura quanto ao Irã Confronto: o regime é inimigo permanente a ser enfrentado, não administrado. Contenção: equilibrar e dissuadir o Irã, preservando a porta de uma acomodação futura. Relação com os EUA Aprofundamento dos laços de defesa e inteligência; aposta na confiabilidade americana. Dependência securitária ainda real, mas tratada como passivo a ser coberto por hedging. Lógica energética EAU fora da OPEP: bombear ao máximo e monetizar enquanto há demanda. Arábia precisa de preço alto e sustentado para financiar a Visão 2030.[6] Hedge externo Tecnologia e mercados; cooperação seletiva com a China, sem irritar Washington. Guarda-chuva nuclear paquistanês; abertura à mediação chinesa e à diplomacia regional. Fonte: autor A clivagem não se esgota no Irã. A coalizão islâmica une-se também contra o que percebe como poder israelense sem freios — de Gaza e Cisjordânia à Síria e ao Líbano. E as instituições que antes produziam consenso travaram pela mesma linha: dentro do CCG, Kuwait e Catar gravitam para Riad, Bahrein inclina-se a Abu Dhabi e Omã mantém canal próprio com Teerã. Figura 1 – Mapa de alinhamentos do Oriente Médio expandido Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA 4. A fratura saudita-emiradense: o eixo mais profundo Sob a clivagem entre os dois eixos corre uma fratura mais antiga e mais estrutural: a rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados. O Golfo árabe nunca foi um bloco monolítico, e Riad e Abu Dhabi vinham divergindo havia anos sobre o Iêmen, o Sudão, o Chifre da África, a Líbia e o petróleo. À disputa por teatros somou-se, mais recentemente, a competição por recursos minerais, energia e tecnologias de fronteira, como a inteligência artificial.[7] O que era divergência tática converteu-se em rivalidade estratégica entre as duas maiores economias do Golfo. A ruptura ganhou expressão institucional em 2026. Em 28 de abril, os Emirados anunciaram a saída da OPEP, efetiva em 1º de maio — deixando o cartel sem seu terceiro maior produtor e privando Riad de seu parceiro mais relevante. A lógica é temporal e divergente: com ponto de equilíbrio fiscal estimado em torno de US$ 49 por barril, contra cerca de US$ 90 da Arábia, Abu Dhabi aposta em bombear e monetizar o quanto antes, enquanto houver demanda; Riad depende de preços altos e sustentados para pagar a Visão 2030.[8] A saída emiradense, lida por analistas como manifestação do distanciamento geopolítico, enfraquece o pilar que fazia da Arábia a potência organizadora do Golfo e ameaça o ambiente de investimento sobre o qual a Visão 2030 foi erguida. Analistas descrevem a ruptura, agora aberta e pública, como a fratura mais séria no Golfo desde o bloqueio ao Catar de 2017.[9][10] E ela não é abstrata: materializa-se em três teatros interligados — o Iêmen, o Sudão e o Mar Vermelho —, onde a rivalidade deixou de ser apenas econômica e ganhou contornos militares. 5. Os teatros da fratura: Iêmen, Sudão e o Mar Vermelho O primeiro teatro, e o mais agudo, foi o Iêmen — onde a rivalidade deixou de ser por procuração. Ao longo de dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), apoiado por Abu Dhabi, lançou a ofensiva “Operation Promising Future” e tomou a maior parte de Hadramout e Mahra — províncias ricas em petróleo, fronteiriças com a Arábia e que somam quase metade do território iemenita —, renovando o chamado pela secessão do Sul. Em 30 de dezembro, a Real Força Aérea Saudita bombardeou o porto de Mukalla, controlado pelo STC, alegando atingir um carregamento de armas vindo dos Emirados (alegação negada por Abu Dhabi). O governo iemenita reconhecido ordenou a saída das forças emiradenses em 24 horas, decretou bloqueio e estado de emergência; os Emirados anunciaram a retirada. Em janeiro de 2026, a contraofensiva saudita retomou Seiyun, Mukalla e Aden, e o líder do STC, Aidarus al-Zubaidi, foi destituído do Conselho Presidencial, acusado de traição e refugiou-se nos Emirados. Analistas tratam o episódio como o primeiro choque armado direto entre Riad e Abu Dhabi.[11] O segundo teatro, mais sangrento, é o Sudão. Desde 2023, a guerra civil opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), de Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), de Mohamed Hamdan Dagalo, o “Hemedti”. A Arábia respalda as SAF e o Estado central — em nome da estabilidade, da Visão 2030 e do acesso ao Mar Vermelho; os Emirados são acusados de armar a RSF, movidos por ouro (extraído de minas sob controle da milícia), portos e rotas de comércio — peça do que se descreve como o “eixo de secessionistas” emiradense, que abrange ainda Líbia, Somália e Iêmen. A queda de El Fasher, em outubro de 2025, consolidou o domínio da RSF sobre Darfur. Em novembro, o príncipe-herdeiro saudita teria pressionado Washington a endurecer com Abu Dhabi; Riad ampliou o apoio às SAF — que retomaram Cartum em janeiro de 2026 — e, com Egito e Somália, passou a negar sobrevoo a cargas emiradenses suspeitas de abastecer a RSF, além de intermediar a transferência de caças paquistaneses às SAF. Em 10 de fevereiro de 2026, uma investigação da Reuters confirmou uma base financiada pelos Emirados na Etiópia, treinando cerca de 4.300 combatentes da RSF.[12] O terceiro teatro projeta a fratura sobre o Mar Vermelho — por onde passam cerca de 12% do comércio global — e a organiza em dois eixos nítidos. Em 26 de dezembro de 2025, Israel tornou-se o primeiro membro da ONU a reconhecer a Somalilândia, em declaração conjunta apresentada como extensão dos Acordos de Abraão. A lógica é geográfica e de chokepoint (ponto de estrangulamento): a Somalilândia situa-se no Golfo de Áden, ao sul de Bab-el-Mandeb e em frente ao Iêmen — precisamente de onde os Houthis atacam a navegação. O reconhecimento abre caminho a uma base ou posto de escuta israelense em Berbera, voltado a monitorar ameaças houthis e iranianas e a assegurar o acesso ao Mar Vermelho, vital para o porto de Eilat. O gesto, porém, também mira a Turquia: para Israel, a Somália tornou-se zona de influência turca, e a Somalilândia, estável e não alinhada, serve para diluí-la. Os Estados Unidos não acompanharam de imediato; Somália, União Europeia e os Houthis rejeitaram o reconhecimento, estes últimos ameaçando tratar qualquer presença israelense como alvo legítimo.[13] É aqui que a Turquia se torna peça decisiva. Ancara — que invoca laços otomanos, mantém em Mogadíscio sua maior base militar no exterior (Camp TURKSOM) e intermediou a reaproximação entre Etiópia e Somália em 2024 — alinhou-se a Riad. Em fevereiro de 2026, Erdogan visitou Mohammed bin Salman e ambos firmaram uma declaração defendendo a unidade da Somália, repudiando a divisão do Iêmen e o governo paralelo da RSF e cobrando a saída israelense da Síria. Essa ocupação remonta à queda de Assad, em dezembro de 2024: Israel avançou além da linha de armistício de 1974, tomou o cume do Monte Hermon e cerca de 350 km² no sudoeste sírio, sob a justificativa de criar uma zona-tampão que impeça forças hostis junto ao Golã — a proteção da minoria drusa, invocada a partir dos confrontos de Suwayda (julho de 2025), é lida por analistas mais como alavanca de influência do que como motivação central. Consolidou-se assim uma “Coalizão do Status Quo” — Arábia, Egito e Turquia, somadas a Eritreia, Djibuti, Somália e Sudão —, voltada a conter o triângulo “revisionista” Emirados–Etiópia–Israel. A rivalidade do Golfo, em suma, transbordou para as duas margens do Mar Vermelho, e a Turquia migrou de competidora regional a âncora setentrional do campo saudita.[14] O Golfo deixou de ter um centro de gravidade único — e a fratura ganhou profundidade continental. Quadro 1 — Os “neutros” do reordenamento: Síria, Iraque, Omã e Jordânia Rotular de “neutros” os Estados que não se alinham a nenhum dos eixos achata quatro situações distintas. A Síria desertou: com a queda de Assad (dezembro de 2024) e a ascensão de al-Sharaa, expulsou a influência iraniana e gravita hoje para o campo saudita-turco-americano, ainda que travada pela ocupação israelense do sudoeste. O Iraque é um Estado penetrado: governo e milícias pró-Irã — as Forças de Mobilização Popular, dentro do próprio aparato estatal — fazem dele arena e alvo da guerra entre EUA e Irã. Omã é o mediador interessado: o canal indispensável com Teerã, hoje sob tensão no próprio CCG. A Jordânia é a aliada constrangida: abate mísseis iranianos rumo a Israel e hospeda forças americanas, mas precisa minimizar o gesto diante da própria opinião pública. Nenhum é, a rigor, neutro: cada um é um modo distinto de fazer hedging sob coação — e é nos Estados-tampão que a multipolaridade do G-Zero deixa de ser conceito e vira geografia. Fontes: The Soufan Center; INSS; Arab Center DC; Political Geography Now; Security Council Report (2025–2026). 6. A China entra — e seus limites É nesse vácuo que a China avança. Sua principal vantagem é o contraste: para uma região cansada da volatilidade americana, a ausência de sobressaltos já vale muito. Pequim chega com credenciais — intermediou em 2023 a normalização entre Arábia e Irã — e com peso econômico: desde 2024, o comércio entre o Golfo e a China superou o comércio entre o Golfo e o Ocidente.[15] Na crise de 2026, a China coassinou com o Paquistão a proposta de paz e deu o empurrão final para a trégua de abril; tanto o príncipe-herdeiro de Abu Dhabi quanto o chanceler saudita procuraram Xi Jinping pedindo um papel maior na desescalada. Riad já sonda um pacto de não agressão entre CCG e o Irã, inspirado no processo de Helsinque — e nenhuma potência externa está mais bem posicionada do que a China para mediá-lo. Aqui, porém, convém disciplina analítica e fugir do determinismo. Três qualificações importam. Primeiro, a China não substituirá os Estados Unidos como fiador de segurança: não tem bases nem pactos de defesa na região e prefere influência por comércio e mediação a porta-aviões.[16] Segundo, o que se observa não é uma virada de Washington para Pequim, mas a busca de autonomia estratégica por potências médias que enxergam a China como hedge necessário, não como uma nova América.[17] Terceiro, a guerra também feriu interesses chineses: as importações chinesas de petróleo do Golfo caíram cerca de 25% em março de 2026, na comparação anual.[18] Pequim ganha por estar presente quando os EUA faltam — mas não precisa, nem quer, assumir o ônus de policiar a região. 7. O elo EUA–Israel sob tensão Há um corolário do acordo de junho que merece registro à parte: a relação entre Washington e Israel. O memorando de entendimento que encerrou a guerra foi negociado por cima de Israel — um funcionário do governo israelense afirmou que o país sequer teve acesso ao texto, e o próprio Netanyahu admitiu, em 15 de junho, desconhecer os detalhes do documento, ainda que tenha exaltado a operação conjunta. O acordo, ademais, impõe o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano, onde as forças israelenses controlam cerca de 20% do território e juram não se retirar; e Trump, num gesto raro, repreendeu publicamente Israel pelas baixas civis e voltou a alfinetar Netanyahu. Israel, em suma, foi, em boa medida, contornado.[19] O atrito reverbera na política interna israelense. Críticos acusam Netanyahu de ter arrastado Trump para uma guerra prometendo mais do que ela poderia entregar, para agora ver-se dela retirado antes de Israel se sentir seguro; uma pesquisa do Israel Democracy Institute registrou que 57,5% dos israelenses consideram o quadro do acordo incompatível com a segurança do país. Bremmer chega a sugerir que o acordo pode selar o fim político de Netanyahu, com Lapid e Bennett rondando a sucessão. Aqui é possível arriscar uma direção: Netanyahu sai enfraquecido, a coalizão é frágil e uma eleição antecipada é risco concreto.[20] Quadro 2 — As rupturas internas no BRICS+ A guerra de 2026 expôs uma fratura no próprio campo que se imagina alternativo ao Ocidente. Irã e Emirados Árabes Unidos são, ambos, membros plenos do BRICS+ desde janeiro de 2024 — e, durante o conflito, o Irã atacou os EAU, o país do Golfo mais visado por seus mísseis e drones, levando Abu Dhabi a exigir reparações e a contenção dos programas iranianos. Não foi um caso isolado: no Sudão, dois membros do bloco patrocinam lados opostos da guerra civil (Egito ao lado da SAF; EAU ao lado da RSF), enquanto a fratura Arábia–EAU corre por dentro do mesmo agrupamento. O episódio confirma que o BRICS+ é um fórum de diversificação econômica, não um polo geopolítico coeso: a própria desordem do Golfo é, em parte, intramuros ao bloco. Para o Brasil, a leitura é direta — o BRICS é um instrumento de hedging, distante de objetivos estratégicos, não um contrapeso estratégico que se possa acionar contra Washington. Fontes: House of Commons Library; Council on Foreign Relations; Britannica (2026). Convém, porém, distinguir os planos. No nível pessoal (Trump–Netanyahu) e no tático (Irã, Líbano, Gaza), o atrito é real e pode produzir mudança no curto prazo — inclusive o descumprimento, por Israel, de partes do acordo. No nível estrutural, a cautela se impõe: a história sugere que desavenças entre presidentes e premiers não rompem a aliança — mesmo após o confronto amargo de 2015 sobre o acordo nuclear de Obama, Washington assinou o maior pacote de ajuda militar da história a Israel, de US$ 38 bilhões. O que muda é a textura da relação, que se torna mais transacional e menos automática. E há uma simetria reveladora: assim como os Estados do Golfo aprenderam, após Doha, que a garantia americana traz um ponto de interrogação, Israel aprendeu, com este acordo, que pode ser contornado quando os interesses divergem — a mesma lógica do G-Zero vista de ângulos opostos, o fiador que passa a agir por conta própria.[21] Figura 2: Diagrama de Relações do Oriente Médio Fonte: elaborada pelo autor com ajuda de IA. 8. Síntese: o Golfo no “G-Zero”, mas, e o Brasil? O quadro que emerge é o de uma região deslizando para o que Bremmer chama de “G-Zero” — uma ordem em que nenhuma potência, ou grupo de potências, é ao mesmo tempo capaz e disposta a manter a ordem. Os Estados Unidos seguem como o ator militar mais forte do Golfo, mas seus parceiros já não confiam que usem essa força de modo previsível e em benefício deles. O resultado é a fragmentação: dois eixos rivais, a fratura saudita-emiradense corroendo o CCG e transbordando para o Mar Vermelho e o Chifre da África, o fim funcional da disciplina da OPEP e a multiplicação de hedges — nucleares (Paquistão), diplomáticos (China) e econômicos (diversificação acelerada). Vale antecipar como dois expoentes do realismo contemporâneo leriam este quadro. John Mearsheimer e Hal Brands concordariam com o diagnóstico de fundo — alianças transacionais, garantias em dúvida, Estados em hedge — e endossariam, em especial, a tese de que os Estados Unidos não cederiam o Hemisfério Ocidental a rival algum. Divergiriam, porém, na prescrição. Mearsheimer reduziria o Oriente Médio a um teatro secundário e descreveria o “G-Zero” regional menos como vácuo do que como retração racional: os Estados Unidos, sobreinvestidos no Golfo, fariam bem em transferir o ônus aos atores locais e voltar-se à Ásia, o que vem ao encontro da Estratégia Nacional de Segurança americana. Brands, ao contrário, leria a derrota iraniana como vitória da ordem liderada por Washington e recusaria o rótulo “G-Zero” como declinista — para ele, os Estados Unidos conservariam vantagens singulares e deveriam contestar o “eixo da desordem” (China, Rússia e Irã) em todos os tabuleiros, advertindo que a incoerência do BRICS+ não deveria ocultar a coordenação real entre Pequim, Moscou e Teerã. Ambos, contudo, convergiriam num ponto caro a esta análise: nenhum agrupamento alternativo constitui, hoje, um polo coeso.<[22] Para o Brasil e para as potências médias, a leitura estrutural é a que mais interessa — mas com uma ressalva decisiva. Na Europa, o diagnóstico do Golfo se repete: a confiabilidade americana deixou de ser presumível, e reduzir a dependência de Washington migrou de luxo a necessidade. Vale, nessas áreas, a racionalidade do hedging e da barganha autonomista — a mesma gramática que, guardadas as proporções, organizou historicamente o posicionamento brasileiro, do modelo de barganha varguista à autonomia pela diversificação. O Golfo não está escolhendo a China contra os Estados Unidos; está diversificando apostas num mundo sem fiador. No Hemisfério Ocidental, porém, o tabuleiro é outro — e aqui todo cuidado é pouco. O risco do Golfo é a ausência de um fiador; o do Brasil é a sua presença. Os Estados Unidos não tratam a América Latina como periferia negligenciável, mas como prioridade explícita e esfera de primazia inegociável — uma reatualização da Doutrina Monroe que o atual governo americano levou ao limite —, e não cederão essa hegemonia à China. A diferença não é retórica: traduz-se em coerção direta. Desde 2025, Washington impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, sancionou ministros do Supremo Tribunal Federal, designou facções como organizações terroristas estrangeiras e, às vésperas da eleição de outubro de 2026, foi advertido por Lula a não interferir no pleito — enquanto a participação americana nas exportações brasileiras caía ao menor nível histórico, 9,4% no primeiro trimestre. Neste hemisfério, inclinar-se ostensivamente para Pequim não diversifica risco: pode atrair retaliação.[23] A conclusão, para o Brasil, é dupla. A multipolaridade que se anuncia é real, e o hedge segue sendo a estratégia racional — mas, no quintal do hegemon, ele precisa ser ao mesmo tempo mais robusto e mais calibrado: profundo o bastante para preservar autonomia e margem de barganha, prudente o bastante para não provocar a única potência ainda capaz de impor custos diretos e imediatos ao país. O Golfo diversifica apostas num mundo sem fiador; o Brasil precisa diversificá-las sob o olhar atento de um fiador que se recusa a sair de cena. É essa assimetria — e não a simples troca de um hegemon por outro — a forma concreta que a multipolaridade assume na América do Sul. Fontes consultadas African Arguments. “The Horn and the Gulf: How a New Geopolitical Confluence is Emerging”. jan. 2026. https://africanarguments.org/2026/01/the-horn-and-the-gulf-how-a-new-geopolitical-confluence-is-emerging/ Al Jazeera. “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/features/2026/6/18/trump-netanyahu-tensions-have-israeli-and-us-leaders-clashed-before Al Jazeera. “‘Don’t meddle’: Lula calls on Trump to stay out of Brazil’s elections”. jun. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/6/17/dont-meddle-lula-calls-on-trump-to-stay-out-of-brazils-elections Al Jazeera. “Saudi-backed forces move on Aden as Yemen secessionist leader vanishes”. jan. 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/1/7/saudi-led-coalition-strikes-yemen-says-stc-leader-al-zubaidi-has-fled Americas Society/Council of the Americas (AS/COA). “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”. jun. 2026. https://www.as-coa.org/articles/trump-latin-america-brazil-hit-tariffs-and-terrorist-designations American Enterprise Institute (AEI). “Fault Lines in the Horn of Africa”. fev. 2026. https://www.aei.org/research-products/report/fault-lines-in-the-horn-of-africa/ Arab Reform Initiative. “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”. mai. 2026. https://www.arab-reform.net/publication/paused-not-resolved-the-saudi-uae-rivalry-and-the-war-in-sudan/ Arab Center Washington DC. “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”. out. 2025. https://arabcenterdc.org/resource/israels-attack-on-qatar-and-the-failure-of-gcc-defense-cooperation/ Asia Times. “Gulf poised to move closer to China after the war”. abr. 2026. https://asiatimes.com/2026/04/gulf-poised-to-move-closer-to-china-after-the-war/ BISI. “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”. jun. 2026. https://bisi.org.uk/reports/saudi-arabia-at-a-crossroads-the-strategic-fallout-of-the-uaes-opec-exit Bremmer, I. “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”. GZERO Media, mai. 2026. https://www.gzeromedia.com/by-ian-bremmer/why-trumps-iran-deal-could-finally-end-netanyahu Bremmer, I. “The Middle East enters the G-Zero”. GZERO Media, 17 jun. 2026. >https://www.gzeromedia.com/by-ian-bremmer/the-middle-east-enters-the-g-zero Bremmer, I.; Maksad, F. “The Long Shadow of the Iran War”. Foreign Affairs, jun. 2026. https://www.foreignaffairs.com/middle-east/long-shadow-iran-war Brookings Institution. “Beijing’s approach to the conflict in Iran…”. mai. 2026. https://www.brookings.edu/articles/beijings-approach-to-the-conflict-in-iran-and-its-implications-for-china/ Chatham House. “China will benefit from the Iran war…”. mai. 2026. https://www.chathamhouse.org/2026/05/china-will-benefit-iran-war-regardless-any-deal-between-trump-and-tehran ECFR. “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea—and Europe”. fev. 2026. https://ecfr.eu/article/power-struggle-what-the-saudi-uae-rivalry-means-for-the-red-sea-and-europe/ Horn Review. “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”. jan. 2026. House of Commons Library. “The UAE exits OPEC and Saudi-UAE tensions in 2026”. jun. 2026. https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-10833/ International Crisis Group. “Sudan’s devastating war rages on as regional rivalries deepen”. mar. 2026. https://www.crisisgroup.org/opd/africa/sudan/sudans-devastating-war-rages-regional-rivalries-deepen Middle East Council on Global Affairs. “The UAE’s Exit from OPEC: When Politics and Oil Mix”. jun. 2026. https://mecouncil.org/publication/the-uaes-exit-from-opec-when-politics-and-oil-mix/ NBC News. “Israel cut out of Iran deal as Trump keeps deriding Netanyahu in public”. jun. 2026. https://www.nbcnews.com/world/israel/israel-iran-deal-trump-criticizes-netanyahu-mou-rcna350488 PBS NewsHour. “Israelis angry over U.S.-Iran peace deal lash out at Netanyahu”. jun. 2026. https://www.pbs.org/newshour/world/israelis-argry-over-u-s-iran-peace-deal-lash-out-at-netanyahu The Times of Israel. “Saudi Arabia signs mutual defense pact with nuclear-armed Pakistan”. set. 2025. https://www.timesofisrael.com/saudi-arabia-signs-mutual-defense-packed-with-nuclear-armed-pakistan/ The Times of Israel. “Netanyahu apologizes to Qatar for strike on Hamas leaders in call with Trump”. set. 2025. https://www.timesofisrael.com/netanyahu-apologizes-to-qatar-for-strike-on-hamas-leaders-in-call-with-trump/ The Washington Institute. “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”. dez. 2025. https://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/recognizing-somaliland-israels-return-red-sea War on the Rocks. “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”. jun. 2026. https://warontherocks.com/the-recognition-question-somaliland-israeli-security-geometry-and-the-red-sea-power-struggle/ [1]Ian Bremmer, “The Middle East enters the G-Zero”, GZERO Media, 17 jun. 2026; e Ian Bremmer e Firas Maksad, “The Long Shadow of the Iran War”, Foreign Affairs, jun. 2026. [2]Arab Center Washington DC, “Israel’s Attack on Qatar and the Failure of GCC Defense Cooperation”, out. 2025; The Times of Israel, set. 2025. [3]Sobre o telefonema e o pedido de desculpas (29 set. 2025): comunicado oficial da Casa Branca; The Times of Israel e The Jerusalem Post; o site Politico noticiou que o texto foi redigido pela Casa Branca, com aliado catariano presente no Salão Oval para manter Netanyahu “no roteiro”. Sobre a ordem executiva de garantia de segurança ao Catar: Arab Center Washington DC, out. 2025. Sobre o pacto saudita-paquistanês: The Times of Israel, 18 set. 2025, e Geopolitical Monitor, “From Doha to Riyadh”, out. 2025. [4]Brookings Institution, “Beijing’s approach to the conflict in Iran and its implications for China”, mai. 2026; verbete “2026 Iran war ceasefire”, Wikipedia (consultado em jun. 2026). [5]Bremmer, op. cit. (GZERO/Foreign Affairs, jun. 2026). A expressão “maior erro de política externa dos EUA desde a Guerra do Iraque” é juízo interpretativo do autor. [6] Visão 2030 (Vision 2030): programa estratégico lançado pela Arábia Saudita, em 2016, pelo príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman, para diversificar a economia do reino para além do petróleo — ampliando turismo, tecnologia, entretenimento e indústria — ancorado no fundo soberano PIF e em megaprojetos como NEOM. Sua execução depende de receitas petrolíferas elevadas e de estabilidade regional. [7]House of Commons Library, “The UAE exits OPEC and Saudi-UAE tensions in 2026”, jun. 2026; European Council on Foreign Relations (ECFR), “From partners to rivals: what the Saudi-UAE rupture means for Europeans”, jan. 2026. [8]Bloomsbury Intelligence and Security Institute (BISI), “Saudi Arabia at a Crossroads: The Strategic Fallout of the UAE’s OPEC Exit”, jun. 2026; Horn Review, mai. 2026. [9] Bloqueio ao Catar (2017): em junho de 2017, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito romperam relações e impuseram bloqueio diplomático, comercial e de transporte ao Catar, acusando-o de apoiar grupos islamistas e de proximidade excessiva com o Irã. A crise só foi encerrada em janeiro de 2021, pelo Acordo de Al-Ula, sem que Doha atendesse às principais exigências. [10]Impact Policy Group, “What’s Behind the Saudi-UAE Rift and How Far Will It Go?”, jan. 2026; ECFR, op. cit. [11]“2025 Southern Yemen offensive” (Wikipedia, consultado em jun. 2026); Al Jazeera, CNN e The Times of Israel (dez. 2025–jan. 2026); Impact Policy Group, jan. 2026, que qualifica o episódio como o primeiro confronto armado direto entre os dois. [12]Arab Reform Initiative, “Paused, Not Resolved: The Saudi-UAE Rivalry and the War in Sudan”, mai. 2026; ECFR, “Power struggle: what the Saudi-UAE rivalry means for the Red Sea”, fev. 2026; International Crisis Group, mar. 2026; American Enterprise Institute (AEI), “Fault Lines in the Horn of Africa”, fev. 2026. A investigação da Reuters sobre a base na Etiópia é de 10 fev. 2026. [13]War on the Rocks, “The Recognition Question: Somaliland, Israeli Security Geometry, and the Red Sea Power Struggle”, jun. 2026; The Washington Institute, “Recognizing Somaliland: Israel’s Return to the Red Sea”; Orion Policy Institute, jan. 2026; Ynetnews e Responsible Statecraft (dez. 2025–jan. 2026). [14]Horn Review, “The New Red Sea Axis: With Saudi Arabia, Turkey and Egypt at the Heart”, jan. 2026, e “Shaping the Horn: Turkey’s Strategic Role”, mar. 2026; AEI, op. cit.; African Arguments, jan. 2026. [15]Atlantic Council e Arab Gulf States Institute (AGSI) sobre o acordo Arábia–Irã intermediado por Pequim em março de 2023; Middle East Council on Global Affairs (sobre a ultrapassagem do comércio Golfo–Ocidente pelo comércio Golfo–China em 2024). [16]Chatham House, “China will benefit from the Iran war, regardless of any deal between Trump and Tehran”, mai. 2026. [17]Asia Times, “Gulf poised to move closer to China after the war”, abr. 2026. [18]Brookings, op. cit. (mai. 2026): queda de cerca de 25% nas importações chinesas de petróleo do Golfo em março de 2026, na comparação anual. [19]NBC News, “Israel cut out of Iran deal as Trump keeps deriding Netanyahu in public”, jun. 2026; Fox News, “Netanyahu’s Israel grapples with Trump-Iran deal”, 15 jun. 2026; Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions”, 18 jun. 2026. [20]PBS NewsHour, “Israelis angry over U.S.-Iran peace deal lash out at Netanyahu”, jun. 2026; pesquisa do Israel Democracy Institute citada pela NBC News; Ian Bremmer, “Why Trump’s Iran deal could finally end Netanyahu”, GZERO Media, 27 mai. 2026. [21]Sobre o precedente de 2015 e o pacote de US$ 38 bilhões: Al Jazeera, “Trump-Netanyahu tensions: Have Israeli and US leaders clashed before?”, 18 jun. 2026. A leitura da simetria G-Zero é de Bremmer e Maksad (Foreign Affairs, jun. 2026), op. cit. [22] Para as formulações de referência, ver John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (2001; ed. ampliada, 2014); e Hal Brands, The Twilight Struggle (2022) e, com Michael Beckley, Danger Zone: The Coming Conflict with China (2022). [23]Sobre a escalada EUA–Brasil (2025–2026): Reuters (tarifas de 50% vinculadas ao caso Bolsonaro); Americas Society/Council of the Americas (AS/COA), “Trump in Latin America: Brazil Hit with Tariffs and Terrorist Designations”, jun. 2026; Al Jazeera; ABC News e The Washington Times (advertência de Lula sobre interferência eleitoral, 17 jun. 2026). O dado de 9,4% — menor participação histórica dos EUA nas exportações brasileiras no 1º trimestre — é citado por Lula via AS/COA. Rio de Janeiro - RJ, 25 de junho de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Análise da redistribuição do poder no Golfo Pérsico pós-guerra do Irã: do cessar-fogo à era do “G-Zero” regional. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/outros-produtos/analise-da-redistribuicao-do-poder-no-golfo-persico-pos-guerra-do-ira-do-cessar-fogo-a-era-do-g-zero-regional.
The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces
Autor: Edward N. Luttwak e Eitan Shamir Resenhado por Maj Cav Marcelo Eduardo Deotti JúniorAluno do Curso de Comando e Estado-Maior, mestrando do PPGCMe pesquisador do Laboratório de Ciências Militares. O presente texto constitui um convite à leitura do livro The Art of Military Innovation: Lessons from the Israel Defense Forces, escrito pelo estrategista Edward N. Luttwak e por Eitan Shamir. A obra foi publicada pela Harvard University Press em 2023, e sua versão em português foi lançada pela BIBLIEX, em 2025. A obra investiga os motivos pelos quais as Forças de Defesa de Israel (IDF), pertencentes a um país historicamente modesto em recursos e demografia, tornaram-se uma das instituições militares mais inovadoras do mundo. “The Art of Military Innovation” é uma leitura recomendada para militares, pesquisadores de defesa e de gestão do conhecimento, e para formuladores de políticas públicas voltadas à ciência, tecnologia e inovação (CT&I). O argumento central da obra postula que a estrutura institucional e o assessoramento de baixo para cima, combinados às escassas condições materiais e demográficas, funcionam como os motores da “macroinovação” nas IDF. A necessidade imperativa de lutar em desvantagem numérica induziu à quebra de paradigmas para garantir a sobrevivência e, por meio da cultura da inovação, buscou o desenvolvimento de medidas disruptivas que forçaram seus inimigos a criar contramedidas inéditas, colocando a IDF em vantagem nesse processo. A obra apresenta diversas inovações das IDF. Trata-se da apresentação de muitas soluções próprias das tropas israelenses para resolver problemas militares complexos, a exemplo de modificações doutrinárias, do desenvolvimento do Carro de Combate Merkava, do Sistema de Defesa Iron Dome, do Sistema de Proteção Ativa Trophy, entre outras. Para apresentá-las, o livro é dividido em dezesseis capítulos que as detalham. A resenha a seguir levanta os principais exemplos práticos e organizacionais de inovação abordados: O Capítulo 1 descreve a formação das FDI sob fogo cruzado, destacando sua inovação estrutural primordial: a criação de uma força integrada (sem divisão de comando entre Exército, Marinha e Aeronáutica) estruturada em torno de reservistas e com conscrição feminina. Dessa forma, a integração interforças eliminou a rivalidade e permitiu que as inovações fluíssem sem o boicote de interesses corporativistas, viabilizando o pioneirismo no desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados (VANT). Salienta-se que Azevedo et al. (2021) reforçam essa perspectiva no contexto brasileiro, destacando que a integração em Ciência e Tecnologia (C&T) entre o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não é uma realidade devido à escassez de recursos que leva a uma disputa entre as Forças Singulares. No Capítulo 2, os autores mostram como a escassez forçou inovações conceituais. Impossibilitada de adquirir uma frota diversificada, a Força Aérea Israelense demandou à fabricante francesa Dassault que transformasse o Mirage IIICJ em uma plataforma capaz de lançar bombas, inventando assim o conceito moderno do caça multitarefa. Naquele período, a prática comum era a utilização de caças e bombardeiros, cada um com sua missão tática. Ao perceber que haveria a possibilidade de integrar essas funções, os israelenses foram os pioneiros a utilizar uma mesma aeronave para missões distintas, reduzindo custos com aquisições e com o ciclo de vida desses produtos de defesa. Nesse sentido, a Defesa brasileira poderia estimular o desenvolvimento de equipamentos de uso dual e multitarefa, a exemplo da Viatura Blindada Multitarefa 4x4 Guaicurus e da Viatura Blindada de Transporte de Pessoal 6x6 Guarani, ambas com aplicação para tropas de naturezas distintas e com possibilidade de adaptação para diferentes versões, contribuindo para a redução de custos de aquisição e melhorando a logística de Defesa. O Capítulo 3 analisa o corpo de oficiais jovens de Israel. O princípio de carreiras curtas achata a hierarquia e aloca responsabilidades a oficiais na casa dos vinte e trinta anos. Jovens comandantes mitigaram o que os autores chamam de “dissonância temporal”, que consiste no apego aos sistemas obsoletos do passado, facilitando a aceitação orgânica de novas tecnologias. Destaca-se que diversos autores que estudam as teorias da inovação, como Adamsky (2010), Lee (2016) e Azevedo et al. (2021), indicam que as gerações mais recentes têm mais propensão à busca de inovações. A descentralização é o foco do Capítulo 4, que aborda a “inovação vinda de baixo”. A doutrina das ordens por missão incentiva a iniciativa de soldados comuns. Como exemplo, o livro cita o rigoroso programa Talpiot (conhecido como o “comando de cérebros”), no qual jovens recrutas operam, simultaneamente, como combatentes e desenvolvedores de novas tecnologias. Nesse contexto, os planejadores brasileiros também poderiam buscar, na inspiração dos subordinados, a iniciativa para as atualizações doutrinárias e até mesmo de equipamentos, contribuindo para a evolução das Forças Armadas. Salienta-se que o Programa Forças Blindadas, junto ao Sistema de Ciência e Tecnologia do EB, desenvolveu adaptações para o blindado Guarani, na versão Morteiro Médio, que foram inspiradas em soluções de usuários do corpo de tropa, o que serve de boa prática para as Forças Armadas. Adicionalmente, o Capítulo 5 explora o “exército de reservistas inovadores”. Devido às peculiaridades do contexto geopolítico de Israel, há a necessidade de manter um efetivo pronto maior do que o Exército Permanente seria capaz de fornecer. Nesse contexto, a conscrição e a mobilização possuem características próprias. Diferente de forças puramente ativas, as FDI absorvem as habilidades da economia civil as quais contribuem para a inovação. O grande exemplo foi a introdução visionária do primeiro computador israelense (o Weizac) e do Philco TRANSAC S-2000 na logística militar, já em 1959, trazidos por reservistas que eram matemáticos no Instituto Weizmann. No caso brasileiro, o sistema de mobilização tem potencial para identificar a expertise de oficiais e sargentos temporários, alunos de CPOR e NPOR, atiradores e reservistas espalhados pelo país que se destaquem em suas carreiras, principalmente na área de Ciência, Tecnologia e Inovação. A sobreposição entre a Defesa e a base industrial é detalhada no Capítulo 6. Comitês que alongam o processo de aquisição são substituídos por uma comunicação direta entre clientes militares e provedores da indústria, acelerando os projetos de inovações disruptivas, gerenciadas por órgãos como a MaFat e a Rafael Advanced Defense Systems, responsável pela criação de mísseis como o Spike, o Popeye e o Python. O Capítulo 7 ilustra o desenvolvimento acelerado. O primeiro grande exemplo foi a rápida criação do míssil antinavio Gabriel e sua integração em barcos de ataque rápido (classe Sa'ar), aprimorando o poder naval tradicional. Posteriormente, os autores detalham o peculiar desenvolvimento do Domo de Ferro (Iron Dome), criado em apenas quatro anos, por meio de ousadia administrativa e de atalhos em processos convencionais. O Iron Dome é um sistema de Defesa que surgiu da necessidade de proteção contra o lançamento de mísseis e foguetes inimigos. Sua criação teve início pela iniciativa de Danny Gold, chefe da unidade de pesquisa e desenvolvimento da MaFat (Administração para o Desenvolvimento de Armas e Infraestrutura Tecnológica), um órgão conjunto do Ministério da Defesa e das FDI. Diante da urgência de proteger os civis de bombardeios constantes, enfrentando a resistência burocrática e a falta de financiamento por parte dos escalões superiores, Gold decidiu iniciar o desenvolvimento do sistema em agosto de 2005. Para contornar a falta de recursos e a ausência de aprovação oficial, ele persuadiu os executivos das empresas de defesa estatais Rafael e Elta a adiantarem fundos próprios para o projeto. Além disso, implementou um método de desenvolvimento, no qual as fases de pesquisa, engenharia e produção foram realizadas simultaneamente, ao invés de sequencialmente, comprimindo de forma considerável o tempo de concepção da arma e permitindo que o equipamento entrasse em operação, com eficiência comprovada em combate, em menos de seis anos de projeto. A disrupção do paradigma de gênero é o tema do Capítulo 8. Devido à restrição demográfica, as FDI transformaram mulheres nas principais instrutoras de combate, inclusive de veículos blindados, e criaram unidades mistas de fronteira de alta eficácia, como o Batalhão Caracal, maximizando todo o capital humano disponível. Da mesma forma, as Forças Armadas do Brasil estão ampliando o ingresso feminino, com destaque para o recente Serviço Militar Inicial Feminino (SMIF), que passou a incorporar recrutas mulheres e pode potencializar o emprego dos recursos humanos em atividades ligadas à Defesa. O Capítulo 9 lida com a inovação doutrinária. Ao descartar a burocrática doutrina de desgaste britânica em favor da veloz guerra de manobra e do estilo furtivo da força Palmach, Israel adaptou técnicas operacionais para prevalecer contra massas inimigas. Isso fomentou inovações como os comandos navais da Shayetet 13, que adaptaram táticas dos homens-rã italianos da Segunda Guerra Mundial. Do triunfo ao fracasso aéreo, o Capítulo 10 disseca a Operação Moked de 1967. Nela, o brilhantismo tático foi coroado por uma inovação técnica modesta, mas vital: a bomba penetradora de pistas de voo (PaPaM), que aniquilou a força aérea árabe no solo. Contudo, a vitória mascarou falhas frente aos mísseis antiaéreos (SAM) soviéticos, resultando em pesadas perdas na Guerra de 1973. A resposta a esse trauma é relatada no Capítulo 11, com a Operação Artzav 19, em 1982. Através de um salto tecnológico colossal, as FDI utilizaram pioneiramente drones para vigilância em tempo real (Scout/Mastif), mísseis antirradiação e, como inovação máxima, o “Periscope”, o primeiro sistema computadorizado do mundo empregado no comando e controle de uma batalha aérea. O Capítulo 12 analisa a “produção em massa de excelência” por meio das unidades de elite. Desde a criação da Unidade 101, nos anos 1950, Israel usou táticas de operações especiais para elevar o padrão de todo o exército convencional. A inovação mais recente citada é a “Ghost Unit”, projetada para mitigar a burocracia e integrar instantaneamente inteligência, poder aéreo, cibernético e terrestre. Esta cultura é apresentada no Capítulo 13 pelos “empreendedores militares”: oficiais de baixa patente que persistiram de forma obstinada para fundar unidades disruptivas, tais como Avraham Arnan, com a Unidade 269 (Sayeret Matkal, inteligência profunda e resgate de reféns) e Muki Betzer, fundador da Unidade 5101 (Shaldag, comandos operando designadores a laser para a Força Aérea). Na tropa blindada (Capítulo 14), a inovação tomou a forma de improviso e rigor disciplinar sob o comando do general Israel Tal, atualizando e integrando antigos chassis dos carros de combate Sherman e Centurion. Foi nesse ambiente ágil que as FDI introduziram a pioneira blindagem reativa explosiva (ERA), desenvolvida após 1973 com o físico alemão Manfred Held, reconfigurando a proteção blindada mundial. O ápice dessa jornada é o Capítulo 15, focado na viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) autóctone Merkava. Concebida do zero, a plataforma inverteu dogmas ocidentais ao alocar o motor na parte frontal para blindar a tripulação. Esse pensamento gerou inovações de sobrevivência inigualáveis, como o sistema de defesa ativa antimíssil Trophy (Me'il Rooakh) e os inteligentes projéteis multifunção Kalanit e Hatzav, otimizados para guerra urbana moderna. Por fim, o Capítulo 16 aborda as unidades de Inteligência e Cyber: a Unidade 8200 (SIGINT/Cyber) e a Unidade 81 (P&D sob demanda). Aqui surgiram as armas cibernéticas Stuxnet e Flame, além de tecnologias de defesa civil para o combate à COVID-19. O capítulo relata até a inovação em recursos humanos no programa Roim Rachok, que aloca soldados com Transtorno do Espectro Autista na Unidade 9900 para análises de inteligência geoespacial. No contexto brasileiro, pode-se depreender uma miríade de ensinamentos colhidos pelas experiências relatadas no estudo de caso de Israel. Há exemplos de diversos setores como o desenvolvimento de produtos de defesa, a criação de organizações militares e as inovações doutrinárias. Acadêmicos como Azevedo et al. (2021) e Borba (2020, p. 21) afirmam que “a cultura de inovação é identificada como um dos principais determinantes para a performance inovativa de uma organização”. Ao longo do livro, pode-se verificar que esse aspecto é amplamente incentivado nas FDI. Dessa forma, seria viável incentivar um ambiente inovador no Exército Brasileiro, contribuindo para o aprimoramento da cultura organizacional no que concerne ao desenvolvimento científico e tecnológico militar. Em suma, ao apresentar as evidências em sua conclusão, The Art of Military Innovation converge de forma clara com o campo acadêmico das Ciências Militares e da tecnologia de defesa. Luttwak e Shamir ensinam que a constante vulnerabilidade e o desapego aos rígidos regulamentos garantem que as Forças de Defesa Israelenses continuem a assimilar e a antecipar o futuro da guerra. REFERÊNCIAS ADAMSKY, Dima. The culture of military innovation: the impact of cultural factors on the revolution in military affairs in Russia, the US, and Israel. Stanford: Stanford University Press, 2010. AZEVEDO, Carlos Eduardo Franco; BORBA, Gabriela Alves de; ARAÚJO, Laércio Eduardo de. Desafios para a política de inovação no setor de defesa brasileiro: óbices e barreiras culturais e estruturais. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 121-160, jan./abr. 2021. BORBA, Gabriela Alves de. A influência da cultura de inovação no programa rádio definido por software de defesa (RDS-DEFESA). 2020. 116 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2020. Rio de Janeiro - RJ, 09 de junho de 2026.
Políticas de inovação: Porque alguns países são melhores que outros em Ciência e Tecnologia
Autor: Mark Zachary Taylor Resenhado por Carlos Wellington Leite de AlmeidaPós-Doutorando em Ciências Militares pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (IMM-ECEME).Doutor em Administração (UDE-Uruguai), Doutor em Estudos Marítimos (EGN) e Mestre em Ciência Política (UnB).Auditor Federal do Tribunal de Contas da União (TCU). O presente texto constitui um convite à leitura do livro “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor[1]. Publicado, originalmente, pela Oxford University Press, “The Politics of Innovation” recebeu tradução de Adeliz de Siqueira Ferreira e foi editado em português pela Biblioteca do Exército Editora (Bibliex), em 2023. Desde então, passou a ser ofertada ao público brasileiro a ideia do autor acerca dos motivos pelos quais alguns países se destacam em suas políticas de inovação tecnológica, assumindo a liderança de complexos processos globais de gestão do conhecimento, enquanto outros permanecem à margem desse poderoso movimento. “Políticas de inovação” é leitura indicada para todos aqueles que se dedicam ao estudo das políticas públicas voltadas à ciência, à tecnologia e à inovação (CT&I). A obra destaca a conexão entre os incentivos à inovação, os modelos econômicos, as estratégias de desenvolvimento e as políticas de segurança e defesa. Para pesquisadores das áreas de economia, ciência política e defesa, a recomendação de leitura se transforma quase em uma convocação. O argumento central defendido por Mark Zachary Taylor é que o êxito de determinados países em inovação tecnológica está relacionado ao conceito de “insegurança criativa”. Segundo o autor, esse fator é o verdadeiro motor dos altos índices de inovação nacional observados em nações que lideram os processos globais de desenvolvimento em CT&I, definindo “insegurança criativa” como: “A condição de sentir mais as ameaças advindas de perigos externos do que a que é propiciada por rivais domésticos [...] diferença positiva entre as ameaças advindas da competição econômica ou militar originada no exterior em comparação aos perigos fomentados pelas rivalidades político-econômicas internas” (Taylor, 2023, p. 37). A teoria da “insegurança criativa” descreve a interação entre duas forças opostas — rivalidades internas e ameaças externas — ambas pautadas pela competição e determinantes para os índices de inovação nacional. Entretanto, enquanto os conflitos domésticos alimentam a resistência política à inovação, os riscos externos tendem a ampliar o apoio às políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Nesse contexto, a inovação seria vista pelas partes domésticas em conflito como a principal forma de defesa contra ameaças econômicas vindas do exterior, bem como contra ameaças militares externas (Taylor, 2023, p. 370-373). A “insegurança criativa” é apresentada como o núcleo oculto da chamada “caixa-preta” da inovação, funcionando como o elemento invisível a distinguir os países que alcançam êxito daqueles que não obtêm resultados expressivos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Isso porque, mesmo quando um país dispõe de instituições sólidas, economias competitivas e recursos financeiros para sustentar políticas científicas de grande escala, pode não avançar significativamente na inovação se carecer desse motor essencial. A “caixa-preta” que conecta insumos — como investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e universidades — aos resultados, exemplificados pelo crescimento econômico e pela produtividade, seria, justamente, a “insegurança criativa” (Figura 1). Figura 1 - A caixa-preta da inovação Fonte: Taylor, 2023, p. 71 Nos estudos relacionados à defesa, destaca-se a ligação entre inovação tecnológica, avanço científico e políticas de segurança e defesa. Para Taylor, as estratégias de segurança nacional atuam como parceiras fundamentais da ciência e da tecnologia, na busca por inovação. O impacto das políticas de segurança e defesa seria ampliar a capacidade de um país em garantir sua própria proteção, por meio de investimentos intensivos em CT&I. Embora reconheça que a tecnologia, por si só, não assegura a supremacia militar, o autor argumenta que o desenvolvimento de tecnologias avançadas, ainda que não garanta a vitória em um conflito, aumenta significativamente as chances de êxito (Taylor, 2023, p. 376-377). “Políticas de Inovação” oferece uma análise realista sobre o que está por trás dos grandes resultados nacionais em inovação tecnológica. A “teoria da insegurança criativa” não nega a relevância de modelos econômicos adequados, de políticas públicas eficazes ou da construção de instituições sólidas para o avanço em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Contudo, o autor enfatiza que o diferencial decisivo está na experiência da “insegurança criativa” vivida pelos países que alcançam os maiores índices de inovação. Nesse sentido, sua visão se aproxima de outros estudiosos que defendem a competição como elemento essencial para o progresso científico e tecnológico das nações (Porter, 1998; Chesbrough, 2006; Christensen, 2011). A ênfase nas ameaças econômicas e militares evidencia o tipo de competição que sustenta a “insegurança criativa” e a teoria que a acompanha. Trata-se de riscos de caráter internacional, que se diferenciam das disputas internas vivenciadas dentro dos países. Nesse contexto, ao afirmar que a “insegurança criativa” contribui para reduzir ou neutralizar os conflitos domésticos e, assim, favorecer a inovação, o livro transmite a ideia de que superar rivalidades internas é condição indispensável para o avanço científico e tecnológico. Essa perspectiva se aproxima de autores que defendem a pacificação nacional como requisito essencial para o desenvolvimento econômico e social de uma nação (Chatterjee; Gassier; Myint, 2023; Miranda, 2025). A relação entre políticas de segurança e defesa e a inovação tecnológica possui especial relevância para pesquisadores de áreas como ciência política, relações internacionais e estudos de defesa. “Políticas de Inovação” ressalta de maneira clara os efeitos positivos decorrentes da pesquisa e do desenvolvimento voltados à defesa, que beneficiam diversos setores da economia, em especial o industrial. Essa perspectiva se insere na corrente de pensamento que considera os investimentos em defesa como uma política pública altamente favorável à CT&I, já que as novas tecnologias podem ser transferidas do setor de defesa para outros segmentos e vice-versa, em um processo de troca bilateral de informações que impulsiona o progresso nacional. Essa associação está em consonância com estudos amplos que relacionam diretamente as políticas de segurança e defesa ao avanço tecnológico (Kaldor, 2001; Krause, 2009; Bitzinger, 2022). No que se refere ao Brasil, as considerações acerca dessa associação entre políticas de defesa e políticas de inovação se mostram extremamente relevantes e muito atuais. Os esforços pelo desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID), em especial, têm sido muitas vezes frustrados pelo entendimento insuficiente (ou inexistente) de que os investimentos na área de defesa têm um grande potencial de transbordamento de conhecimentos e tecnologias para outros setores da atividade econômica nacional, sobretudo os setores industriais. Esse (des)entendimento da relação entre defesa, ciência, tecnologia e inovação pode trazer prejuízos irremediáveis ao Brasil ao consolidar uma tendência de dependência tecnológica do exterior, bem como à cristalização da falta de soberania tecnológica, assim comprometendo boa parte da expectativa brasileira de se posicionar entre os países tecnologicamente mais inovadores. Ao adotar como argumento central a ideia de que os países mais bens sucedidos em CT&I tiveram na “insegurança criativa” o verdadeiro impulso para seus elevados índices de inovação, o autor alerta, na verdade, para a incapacidade perceptiva de muitos policy-makers. Isso porque, como se destaca em diversas passagens da obra, as ameaças geradoras estão por todo lado, seja nas questões ambientais, seja na área da saúde, por exemplo. O fato de a obra destacar as ameaças de natureza econômica e militar não reduz a análise realizada a esses dois tipos de ameaça. A verdade é que países que se sentiram ameaçados dos pontos de vista econômico e militar dispararam na busca de soluções tecnológicas inovadoras para compensar suas desvantagens, de forma a permitir a continuidade de sua atuação no cenário internacional e, em alguns casos, a continuidade de sua própria existência. Assim, o convite à leitura de “Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia”, de Mark Zachary Taylor se põe ao lado de um apelo por que se queira, realmente, entender a lógica da relação entre defesa e tecnologia. Um apelo a que sejam postos de lado os preconceitos de natureza política, filosófica ou de outra ordem, para que se possa absorver deste importante livro, disponibilizado ao público brasileiro pela Bibliex, a noção de que a “insegurança criativa” faz parte do caminho evolutivo do desenvolvimento tecnológico nacional. A “teoria da insegurança criativa”, nesse sentido, coloca-se como uma nova forma de se raciocinar sobre a inovação tecnológica que pode ser obtida em um contexto de união nacional e superação de disputas políticas, econômicas e sociais danosas ao crescimento científico e tecnológico do Brasil. Referências bibliográficas BITZINGER, Richard A. The 4th industrial revolution, military-civil fusion, and the next RMA. Insight, v. 24, n. 3, p. 11-22, Turkey, Summer, 2022. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/48733373. Acesso em: 11 abr. 2026. CHATTERJEE, Sherya; GASSIER, Marine; MYINT, Nykolas. Leveraging social cohesion for development outcomes. Policy research working paper, n. 10417, World Bank, 2023. Disponível em: https://www.socialcohesion.info/fileadmin/user_upload/Library/PDF/Leveraging_Social_Cohesion_for_Development_Outcomes.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026. CHESBROUGH, Henry. Open business models: how to thrive in the new innovation landscape. Brighton: Harvard Business Review Press, 2006. 256p. CHRISTENSEN, Clayton Magleby. O dilema da inovação: quando as novas tecnologias levam empresas ao fracasso. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2011. KALDOR, Mary Henrietta. New and old wars: organized violence in a global era. Stanford: Stanford University Press, 2001. Reprinted. KRAUSE, Keith. Arms and the state: patterns of military production and trade. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. ISBN 978-0511521744. DOI: https://doi.org/10.1017/CBO9780511521744. MIRANDA, Rodrigo Marzano Antunes. Macrofilosofia da coesão e teleologia da paz: sobre o conceito de coesão econômica, territorial e social na União Europeia. Tese de doutorado (Filosofia). Barcelona: Universitat de Barcelona, 2025. Disponível em: https://www.tdx.cat/handle/10803/694152. Acesso em: 11 abr. 2026. PORTER, Michael Eugene. Competitive strategy: techniques for analyzing industries and competitors. New York: Free Press, 1998. TAYLOR, Mark Zachary. Políticas de inovação: porque alguns países são melhores que outros em ciência e tecnologia. Tradução Adeliz de Siqueira Ferreira. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército (Bibliex), 2023. 656p. ISBN 978-65-5757-112-2. [1] Mark Zachary Taylor é professor do Georgia Institute of Technology, Doutor em Ciência Política pelo Massachussets Institute of Technology, Mestre em Relações Internacionais pela Yale University e graduado em Física pela Berkeley University. Em 2024, recebeu os prêmios Distinguished Teaching Award e Innovation in Co-Curricular Education Award, por sua excelência acadêmica. Foi titular da Seção de Políticas para a Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da APSA. Rio de Janeiro - RJ, 21 de maio de 2026.













