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Instituições inclusivas, defesa e autonomia tecnológica: o papel do Exército Brasileiro no contexto das tecnologias quânticas
Magda Gomes da SilvaMestre em História Comparada (PPGHC/UFRJ).Pesquisadora do Laboratório de Ciências Militares (LCM/ECEME). Eduardo Xavier Ferreira Glaser MigonDoutor em Administração e em Ciências Militares.Pesquisador/Coordenador do Laboratório de Ciências Militares (LCM/ECEME). 1. Introdução: instituições, inovação e o poder tecnológico. A emergência das tecnologias quânticas no século XXI tem sido interpretada como um dos principais vetores de reconfiguração do poder global, com implicações diretas para a soberania tecnológica dos Estados. Nesse contexto, o desenvolvimento dessas capacidades não depende exclusivamente de avanços científicos, mas da forma como os países estruturam seus ecossistemas de inovação e organizam arranjos institucionais capazes de converter conhecimento em ativos estratégicos. Assim como em revoluções tecnológicas anteriores, o caráter dual dessas tecnologias reforça a centralidade da articulação entre ciência, Estado e defesa. Este artigo examina o caso brasileiro a partir do referencial de instituições inclusivas, conforme desenvolvido por Acemoglu, Johnson e Robinson[1], com o objetivo de discutir o papel do Exército Brasileiro na conformação do ecossistema nacional de pesquisa em tecnologias quânticas. Argumenta-se que, historicamente, a instituição tem desempenhado funções relevantes na indução de capacidades científicas e tecnológicas, ainda que condicionadas por fatores estruturais do sistema nacional de inovação. Ao mobilizar esse enquadramento teórico, o trabalho busca analisar em que medida a atuação do Exército pode ser compreendida como parte de um arranjo institucional voltado à promoção da autonomia tecnológica, bem como quais são os limites dessa atuação diante das exigências contemporâneas de coordenação, escala e governança. Dessa forma, pretende-se contribuir para o debate sobre o papel das instituições de defesa na construção de capacidades estratégicas em tecnologias emergentes. Assim sendo, esta breve reflexão parte da seguinte questão orientadora: como as instituições de defesa podem contribuir para a construção de autonomia tecnológica em tecnologias emergentes, à luz do caso brasileiro. 2. Tecnologias quânticas e a reconfiguração do poder global De forma análoga às transformações observadas com o advento da computação e da internet no século XX, as tecnologias quânticas emergem como um novo vetor estruturante da ordem internacional. Seu desenvolvimento não apenas amplia capacidades científicas e industriais, mas também redefine os parâmetros de poder entre os Estados, ao impactar diretamente áreas críticas como defesa, energia, comunicações e infraestrutura estratégica. Nesse contexto, o domínio dessas tecnologias tende a gerar assimetrias relevantes. Países capazes de internalizar capacidades quânticas poderão obter vantagens estratégicas significativas, tanto no campo militar quanto na economia digital, enquanto aqueles que não o fizerem correm o risco de aprofundar sua dependência tecnológica. Trata-se, portanto, de um processo que transcende a dimensão técnica, configurando um dinâmica de competição internacional por autonomia e posicionamento estratégico. A incorporação de tecnologias quânticas em sistemas produtivos e de segurança representa, assim, um elemento central para evitar o que pode ser caracterizado como determinismo tecnológico, no qual a inserção internacional de um país passa a ser condicionada por sua capacidade de acesso e domínio de tecnologias críticas. Nesse cenário, observa-se a formação de uma “corrida quântica”, na qual Estados buscam não apenas avanços científicos, mas a capacidade de transformar esses avanços em aplicações práticas com impacto sistêmico. Dessa forma, o salto quântico não deve ser compreendido apenas como uma inovação incremental, mas como uma inflexão potencial na distribuição de poder global. Tal transformação impõe desafios institucionais relevantes, especialmente para países em desenvolvimento, que precisam estruturar mecanismos capazes de articular ciência, inovação e estratégia nacional. 3. Instituições inclusivas e inovação em defesa: enquadramento analítico O debate sobre o desenvolvimento tecnológico contemporâneo tem ressaltado o papel das instituições na capacidade dos Estados de transformar conhecimento científico em poder econômico e estratégico. Nesse contexto, o conceito de instituições inclusivas, conforme desenvolvido por Acemoglu, Johnson e Robinson, oferece um referencial útil para compreender como arranjos institucionais podem favorecer a inovação, ao promover coordenação, previsibilidade e ampliação do acesso a oportunidades produtivas. Instituições inclusivas caracterizam-se, em termos gerais, por sua capacidade de estruturar ambientes que incentivam a participação de múltiplos atores, a circulação de conhecimento e a proteção de ativos estratégicos, em oposição a arranjos extrativistas que concentram recursos e limitam o desenvolvimento. No campo da inovação tecnológica, essa distinção torna-se particularmente relevante, uma vez que a geração e a difusão de conhecimento dependem de interações contínuas entre Estado, academia e setor produtivo. No domínio da defesa, essa discussão assume contornos específicos. Diferentemente de outros setores, a inovação militar frequentemente envolve elevados custos, riscos tecnológicos e longos horizontes de maturação, o que tende a demandar maior protagonismo estatal. Nesse sentido, instituições de defesa podem desempenhar funções estruturantes, não apenas como usuárias finais de tecnologia, mas como indutoras de ecossistemas de pesquisa, de formação de recursos humanos e de articulação entre diferentes esferas institucionais. Essa função é particularmente relevante em contextos nos quais a coordenação entre atores é limitada, sendo a atuação institucional capaz de reduzir assimetrias de informação, alinhar incentivos e viabilizar trajetórias tecnológicas que, de outra forma, tenderiam a não se materializar. Essa atuação pode ser compreendida, sob uma perspectiva econômica mais tradicional, como resposta a falhas de mercado associadas ao desenvolvimento de tecnologias de alta complexidade. Em setores caracterizados por elevados custos iniciais, incerteza tecnológica e externalidades significativas, como ocorre no campo quântico, o investimento exclusivamente privado tende a ser insuficiente para sustentar trajetórias de inovação de longo prazo. Nesses casos, o papel do Estado não se configura como substituto da dinâmica de mercado, mas como elemento de coordenação e viabilização, responsável por reduzir incertezas, fomentar a pesquisa básica e articular os atores do sistema nacional de inovação. Essa atuação pode ser observada especialmente em contextos nos quais o sistema nacional de inovação apresenta lacunas estruturais, exigindo mecanismos de coordenação capazes de integrar esforços dispersos. Nesses casos, organizações militares podem atuar como catalisadoras de iniciativas científicas e tecnológicas, contribuindo para a construção de capacidades de uso dual e para a redução de dependências externas. Entretanto, a caracterização de tais instituições como inclusivas não decorre automaticamente de sua atuação como indutoras de inovação. Essa classificação depende de sua capacidade efetiva de promover uma articulação ampla entre atores, garantir continuidade institucional e converter investimentos em resultados sistêmicos. Assim, a análise do papel das instituições de defesa na promoção da autonomia tecnológica requer considerar não apenas seus potenciais, mas também os limites e condicionantes de sua atuação. 4. O caso brasileiro: o papel do Exército na construção de capacidades em tecnologias quânticas No contexto brasileiro, o desenvolvimento de tecnologias quânticas tem se estruturado por meio de um conjunto de iniciativas que envolvem universidades, centros de pesquisa e agências de fomento. Nesse arranjo, o Exército Brasileiro emerge como um ator relevante, não apenas como usuário potencial dessas tecnologias, mas como elemento de coordenação e indução de capacidades estratégicas. Esse posicionamento sugere que a atuação institucional não se limita à participação em iniciativas existentes, mas contribui para a própria estruturação do ambiente de inovação, especialmente em áreas nas quais a coordenação entre atores é crítica. Uma primeira dimensão dessa atuação refere-se à formação de capital humano altamente qualificado, especialmente por meio de instituições como o Instituto Militar de Engenharia (IME). Ao longo de sua trajetória, o IME tem desempenhado papel central na formação de quadros técnicos e científicos em áreas críticas, contribuindo para a consolidação de competências nacionais em domínios de alta complexidade tecnológica. No campo das tecnologias quânticas, essa função se torna ainda mais relevante, dada a escassez global de especialistas e a necessidade de capacitação contínua de recursos humanos. Essa dimensão contribui para reduzir uma das principais restrições ao desenvolvimento tecnológico em áreas emergentes: a carência de pessoal técnico altamente especializado. Uma segunda dimensão diz respeito à coordenação institucional e articulação de redes de pesquisa. A participação do Exército em iniciativas como a Rede Rio Quântica e a condução da Rede Hermes Quântica evidenciam um esforço de integração entre diferentes atores do sistema nacional de ciência e tecnologia. Essas redes conectam universidades, centros de pesquisa e instituições militares, criando um ambiente propício à circulação de conhecimento e ao desenvolvimento de aplicações em comunicação quântica e proteção de dados estratégicos. Essa articulação tende a ampliar a eficiência do sistema de inovação ao reduzir fragmentações institucionais e estimular o compartilhamento de saberes. Além disso, destaca-se o papel da instituição na articulação entre pesquisa científica e aplicação estratégica, especialmente por meio de programas como o PRÓ-DEFESA. Tais iniciativas contribuem para aproximar o meio acadêmico das demandas da defesa, favorecendo o desenvolvimento de tecnologias de uso dual e ampliando a capacidade de absorção de inovações pelo Estado. Esse tipo de interação é fundamental em áreas emergentes, nas quais o tempo de transição entre pesquisa básica e aplicação prática tende a ser um fator crítico. Esse mecanismo reduz a distância entre produção científica e aplicação prática, um dos principais desafios em tecnologias de alta complexidade. Por fim, observa-se que a atuação do Exército ocorre em um ambiente mais amplo de políticas públicas voltadas à promoção da ciência e da tecnologia, que envolve instituições como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e fundações estaduais de amparo à pesquisa. Nesse sentido, a contribuição da instituição deve ser compreendida como parte de um arranjo mais amplo, no qual diferentes atores desempenham papéis complementares na construção de um ecossistema nacional de inovação. Apesar desses avanços, a consolidação de capacidades em tecnologias quânticas no Brasil ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles, destacam-se a necessidade de continuidade de investimentos, a ampliação da escala dos projetos e o fortalecimento de mecanismos de governança capazes de integrar, de forma mais eficiente, os diversos atores envolvidos. Assim, embora o Exército desempenhe funções importantes na indução e coordenação de iniciativas, sua atuação deve ser analisada como parte de um processo em desenvolvimento, sujeito a condicionantes estruturais e institucionais mais amplos. 5. Tecnologias quânticas, competição internacional e condicionantes estruturais O avanço das tecnologias quânticas tem sido acompanhado por uma intensificação da competição internacional por capacidades científicas e tecnológicas, configurando o que parte da literatura denomina uma nova corrida tecnológica. Nesse contexto, os Estados buscam assegurar vantagens estratégicas em áreas como comunicação segura, computação avançada e sensoriamento, com impactos diretos sobre a soberania digital, a segurança nacional e a inserção internacional. Para países em desenvolvimento, essa dinâmica impõe um desafio adicional: a necessidade de construir capacidades tecnológicas em um ambiente caracterizado por assimetrias estruturais. A concentração de investimentos, infraestrutura e capital humano em um número restrito de países tende a dificultar a consolidação de ecossistemas nacionais de inovação capazes de competir em escala global. Nesse cenário, o risco de dependência tecnológica permanece elevado, especialmente em setores intensivos em conhecimento e de rápida evolução. Em comparação com as nações que lideram o desenvolvimento dessas tecnologias, como Estados Unidos, China e membros da União Europeia, observa-se que o Brasil ainda opera em escala inferior de investimento, capacidade industrial e integração entre pesquisa e aplicação, o que reforça a necessidade de estratégias institucionais mais coordenadas. No caso brasileiro, iniciativas voltadas ao desenvolvimento de tecnologias quânticas indicam a existência de uma base institucional em construção, com potencial de expansão. No entanto, a consolidação dessa trajetória depende de fatores que extrapolam a atuação de uma única instituição. Entre esses fatores, destacam-se a continuidade de políticas públicas de ciência e tecnologia, a estabilidade de mecanismos de financiamento e a capacidade de integração entre os diferentes atores do sistema nacional de inovação. Adicionalmente, a inserção internacional do Brasil nesse campo dependerá não apenas da geração de conhecimento, mas da capacidade de transformá-lo em aplicações em escala, o que envolve desafios industriais, regulatórios e estratégicos. Nesse sentido, embora a atuação de instituições de defesa contribua para a estruturação de capacidades iniciais, sua efetividade está condicionada à articulação com políticas mais amplas de desenvolvimento tecnológico. Assim, o cenário geopolítico contemporâneo sugere que a construção de autonomia tecnológica em tecnologias quânticas não é um processo linear, mas depende de múltiplos fatores institucionais e estruturais. A capacidade de coordenar esses elementos será determinante para definir o posicionamento do Brasil na emergente ordem tecnológica do século XXI. 6. Conclusão: instituições de defesa e autonomia tecnológica no contexto das tecnologias quânticas A análise desenvolvida ao longo do artigo indica que a emergência das tecnologias quânticas coloca novos desafios para a construção da autonomia tecnológica dos Estados, especialmente em países em desenvolvimento. Nesse contexto, a capacidade de articular conhecimento científico, coordenação institucional e aplicação estratégica torna-se elemento central para a consolidação de capacidades nacionais em áreas críticas. À luz do referencial de instituições inclusivas, argumentou-se que as organizações de defesa podem desempenhar funções relevantes na indução de ecossistemas de inovação, particularmente em cenários marcados por lacunas estruturais no sistema nacional de ciência e tecnologia. No caso brasileiro, o Exército tem contribuído historicamente para a formação de recursos humanos, para a articulação de redes de pesquisa e para a aproximação entre demandas estratégicas e produção científica, configurando um papel relevante na construção de capacidades tecnológicas de uso dual. Entretanto, a análise também sugere que essa atuação, embora significativa, não é suficiente, por si só, para assegurar a autonomia tecnológica em tecnologias emergentes. Sua efetividade depende de fatores mais amplos, como a continuidade de políticas públicas, a integração entre diferentes instituições e a capacidade de transformar conhecimento em aplicações em escala. Dessa forma, o papel das instituições de defesa deve ser compreendido como parte de um arranjo mais amplo de governança tecnológica. A consolidação de uma posição mais relevante no cenário internacional dependerá da capacidade do país de coordenar esses diferentes elementos de forma sustentada, reduzindo vulnerabilidades e ampliando suas possibilidades de inserção na nova dinâmica de poder associada às tecnologias quânticas. Referências bibliográficas ACEMOGLU, Daron; JOHNSON, Simon; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. AGHION, Philippe; HOWITT, Peter. The economics of growth. Cambridge: MIT Press, 2009. ARAÚJO-MOREIRA, Fernando M.; CARNEIRO, Vítor Gouvêa Andrezo; GALDINO, Juraci Ferreira. Tecnologias quânticas: uma questão de soberania nacional. Revista da EGN, v. 30, n. 3, p. 643–686, 2025. BRASIL. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, 2024. BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2023–2030. Brasília, 2023. 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Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Instituições inclusivas, defesa e autonomia tecnológica: o papel do Exército Brasileiro no contexto das tecnologias quânticas. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/instituicoes-inclusivas-defesa-e-autonomia-tecnologica-o-papel-do-exercito-brasileiro-no-contexto-das-tecnologias-quanticas.
Da lacuna de conhecimento à integração estratégica: competências em defesa QBRN no currículo de medicina veterinária como ferramenta de governança de defesa
Daiane Oldiges HeckMestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Médicos-veterinários ocupam uma posição estratégica na defesa contra ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares (QBRN), especialmente no componente biológico, em razão de sua atuação na interseção entre saúde animal, segurança alimentar, saúde pública e segurança nacional (Pappaioanou, 2004; Hamilton, 2025). Enquanto a medicina humana costuma atuar somente após a exposição de pessoas em um incidente, a medicina veterinária intervém em um momento anterior, na fase de prevenção, quando apenas populações animais estão sendo afetadas, ou seja, antes de um possível evento de transbordamento (spillover) zoonótico (Ubgoma, 2025). Nesse estágio prévio, o médico-veterinário torna-se elemento-chave para a detecção de novas ameaças biológicas, naturais ou deliberadas, cumprindo, na prática, o princípio de Saúde Única de intervir na interface humano–animal–ambiente (Adisasmito et al., 2022). Animais de companhia, de produção e silvestres funcionam, nesse contexto, como sentinelas biológicas precoces e passivas. Compartilham o mesmo ambiente que os humanos, respondem de forma semelhante a diversos agentes infecciosos e tóxicos e, em muitos cenários, manifestam sinais clínicos antes da ocorrência de casos humanos, criando uma janela temporal crítica para detecção e intervenção (Rabinowitz et al., 2006). Essa função sentinela é particularmente relevante diante de ameaças intencionais ou emergentes, porque: (1) permite identificar rapidamente alterações anormais na circulação de patógenos em um ecossistema; (2) torna possível acompanhar exposições contínuas, delineando a distribuição geográfica do agente; e (3) no caso de espécies com grande mobilidade, auxilia a rastrear a propagação de possíveis epidemias. Ao incorporar esses dados de vigilância animal em plataformas integradas com bases de vigilância em saúde humana, ou seja, com foco em Saúde Única, o médico-veterinário permite que sinais provenientes de rebanhos, fauna silvestre e animais de companhia sejam analisados em conjunto com informações de saúde humana e ambiental, fortalecendo a detecção precoce de eventos QBRN e de zoonoses emergentes (Neo; Tan, 2017; Hamilton, 2025). A vigilância integrada de animais exige um conjunto de capacidades veterinárias específicas – como o reconhecimento de síndromes clínicas incomuns, a condução rápida de investigações epidemiológicas, a notificação em prazos curtos e a coordenação com autoridades de saúde humana e de defesa (Gubernot; Boyer; Moses, 2008). Isso evidencia que as competências necessárias para a atuação como um agente ativo em defesa QBRN configuram um desdobramento direto da prática veterinária, o qual certamente é aprimorado por meio de especializações na área, mas que não precisaria estar restrito a elas. A partir dessa constatação, é possível argumentar que, mais do que formar apenas um grupo restrito de especialistas, é estratégico capacitar todos os médicos-veterinários para reconhecer situações de risco e acionar fluxos de resposta, ampliando a capilaridade da vigilância e tornando-a mais compatível com o contexto contemporâneo de defesa integrada. Preparar médicos-veterinários para compreender e reportar essa dinâmica constitui, assim, um investimento em capacidade defensiva nacional, justificando a integração formal desses conteúdos no currículo, de modo a garantir que os graduandos sejam capazes de identificar padrões epidemiológicos sugestivos de eventos QBRN, empregar protocolos de investigação apropriados a ameaças deliberadas e conhecer os canais de coordenação civil‑militar para resposta em cenários de defesa. O conhecimento em ameaças e defesa QBRN não deveria estar desvinculado da formação base do médico-veterinário, pois, sem competência para reconhecer padrões epidemiológicos incompatíveis com o comportamento esperado de doenças naturais, o egresso de Medicina Veterinária tenderá a interpretar eventos suspeitos como surtos usuais, perdendo a oportunidade de sinalizar introduções deliberadas ou emergentes. De forma semelhante, sem familiaridade com os mecanismos de governança que articulam saúde animal, defesa, gestão de emergências e compromissos internacionais de biossegurança, esses profissionais permanecerão à margem de estruturas decisórias e de coordenação intersetorial que, na prática, já dependem de informações e análises oriundas do campo veterinário. Inserir defesa QBRN na formação não significa militarizar a profissão, mas reconhecer um papel que ela já desempenha, tornando-o explícito, tecnicamente sustentado e articulado à agenda de Saúde Única. O contexto brasileiro torna essa discussão ainda mais urgente, já que o país combina ampla produção pecuária, papel central do agronegócio na economia, elevada biodiversidade e histórico de vulnerabilidade a zoonoses e doenças emergentes, em um cenário de crescente interdependência entre saúde humana, animal e ambiental (Oliveira et al., 2022). Nessa convergência entre riscos agrícolas, ambientais e epidemiológicos, um agente que comprometa plantações, rebanhos ou cadeias de processamento poderia desencadear crises simultâneas de segurança alimentar, saúde pública e estabilidade econômica, colocando os médicos-veterinários no centro da resposta (Donachie; Ewann; Poudevigne, 2023). Nesse contexto, articular segurança da cadeia de suprimentos, biossegurança, Saúde Única e preparação para cenários QBRN deixa de ser teoria opcional e passa a constituir uma dimensão real da prática veterinária em um país cuja economia se sustenta, em larga medida, na sanidade animal. Ao mesmo tempo, é evidente que o currículo da Medicina Veterinária no Brasil já é extenso e sofre pressão constante por adição de novas temáticas (D’Eon, 2023; Paula et al., 2024). A criação de uma disciplina isolada de “Defesa QBRN” é, em muitos casos, pouco viável. Uma alternativa mais realista, e pedagogicamente mais consistente, é fragmentar o conteúdo QBRN em blocos conceituais e práticos e inseri-los de forma transversal em disciplinas já existentes. Essa estratégia aproveita a base já consolidada do curso, evita inflar a carga horária e reforça a percepção de que defesa QBRN não é um tema alheio à prática veterinária, mas um desdobramento natural de competências que o aluno já precisa desenvolver para sua futura atividade profissional. No eixo das ameaças químicas, a toxicologia veterinária já aborda a exposição a pesticidas, resíduos químicos em alimentos, contaminação de água e ração e outros poluentes ambientais. A ampliação desse conteúdo para incluir princípios e exemplos ligados a agentes neurotóxicos organofosforados, vesicantes e gases irritantes em cenários de acidentes, uso criminoso ou conflitos armados exige, sobretudo, uma aplicação mais focada de estruturas toxicológicas que o estudante já domina. No eixo das ameaças biológicas, as disciplinas de microbiologia, imunologia e doenças infecciosas trabalham rotineiramente com patógenos que também figuram em listas de interesse em biodefesa, como Bacillus anthracis, Clostridium botulinum e Yersinia pestis. O desafio não é introduzir novos agentes, mas explicitar como essas mesmas doenças podem manifestar-se em contextos naturais, acidentais ou deliberados, e treinar competências epidemiológicas que permitam distinguir padrões esperados de sinais que apontem para eventos atípicos. Com relação às ameaças radiológicas e nucleares, embora esse componente seja tradicionalmente menos explorado em Medicina Veterinária, já existe contato com informações acerca de radiação ionizante por meio de disciplinas de diagnóstico por imagem. A partir desse ponto, é possível expandir e introduzir noções sobre exposição de animais a materiais radioativos em acidentes, contaminação da cadeia produtiva, efeitos de diferentes doses em distintas espécies e bases de protocolos de proteção e resposta em emergências radiológicas envolvendo animais, profissionais e alimentos de origem animal. Dessa forma, o conhecimento envolvendo a defesa QBRN integra-se de maneira orgânica a conteúdos já presentes, ao mesmo tempo em que reforça a dimensão de Saúde Única ao considerar riscos compartilhados entre animais, humanos e ambiente. Ao organizar esse conteúdo de forma integrada, a defesa QBRN deixa de ser “mais um assunto” e passa a operar como um eixo transversal que conecta toxicologia, microbiologia, saúde pública, clínica médica, inspeção de alimentos e gestão de riscos. Esse eixo dialoga diretamente com a abordagem de Saúde Única, na medida em que utiliza os mesmos princípios de integração de diferentes setores e vigilância compartilhada, mas enfatiza explicitamente os componentes de prevenção, preparação e resposta a ameaças de alta consequência. Em termos de competências a serem desenvolvidas, destacam-se: capacidade diagnóstica e compreensão da fisiopatologia de exposições QBRN; comunicação de risco com diferentes públicos em situações de crise; colaboração em estruturas de resposta multiagência e civil-militar; tomada de decisão ética em cenários complexos; e entendimento do papel da profissão veterinária na defesa, na biossegurança e na conformidade com acordos internacionais. O componente que provavelmente apresenta maior dificuldade de ser trabalhado e efetivamente incorporado ao arcabouço de conhecimentos dos estudantes diz respeito aos mecanismos de coordenação civil‑militar, às estruturas de resposta interagências e às obrigações internacionais de notificação (Janse et al., 2022; WHO, 2021). Trata‑se de um conteúdo que extrapola o domínio técnico-biológico tradicional da Medicina Veterinária e exige compreensão de arranjos institucionais, marcos legais e fluxos decisórios em Defesa e Saúde Pública. Por isso, o desenvolvimento docente torna‑se um elemento crítico da implementação: é necessário apoiar professores na apropriação desses temas e na sua tradução didática para a realidade da graduação. Neste contexto, parcerias com centros acadêmicos que já possuem currículos maduros em defesa QBRN – como o Instituto Meira Mattos (Santos, 2019)– se mostram uma maneira acessível de qualificar tanto a formação de docentes quanto a aprendizagem dos alunos. O Instituto Meira Mattos também pode funcionar como ponte institucional entre universidades civis, as Forças Armadas e órgãos de Defesa Civil, facilitando a construção de protocolos de cooperação, estágios curriculares em ambientes de Defesa e participação de docentes e estudantes em exercícios conjuntos. Ao produzir pesquisa aplicada em Defesa QBRN e Saúde Única, sistematizar boas práticas internacionais e traduzi-las em propostas didáticas adaptadas à realidade brasileira, o Instituto contribui para que a integração da DQBRN na formação veterinária não dependa de iniciativas isoladas de indivíduos, mas seja sustentada por uma infraestrutura acadêmica estável, alinhada aos marcos de governança de Defesa do país. Sob a ótica da governança, a incorporação de competências em QBRN na graduação em Medicina Veterinária alinha-se diretamente com os compromissos nacionais e internacionais em Saúde Única, colaboração civil-militar e prevenção de ameaças biológicas. Documentos recentes no contexto brasileiro enfatizam que a integração entre saúde humana, animal e ambiental exige profissionais capazes de transitar entre esses domínios (Soeiro-Barbosa et al., 2025), inclusive em cenários de emergência e defesa. Formar médicos-veterinários com compreensão simultânea de defesa QBRN e Saúde Única significa dotar o país de quadros que entendem tanto a biologia das ameaças quanto os arranjos institucionais que coordenam vigilância, resposta e recuperação. Ao aproveitar conteúdos já existentes no currículo, ajustar enfoques e criar pontos de contato com a agenda de defesa, é possível qualificar a participação dos médicos-veterinários em redes de vigilância, resposta a emergências e formulação de políticas, sem demandar uma reforma curricular disruptiva. Em síntese, integrar competências em defesa QBRN à formação de médicos-veterinários é uma medida estrategicamente justificada, profissionalmente necessária e pedagogicamente viável. A profissão já ocupa, na prática, o ponto de interseção entre saúde animal, segurança alimentar e saúde pública; o que se propõe é tornar essa centralidade visível, reconhecida e tecnicamente suportada pela formação de base. Ao transformar a lacuna atual em integração estratégica, amplia-se a capacidade do Brasil de: detectar precocemente ameaças; proteger sua população, sua economia e seu patrimônio biológico; e cumprir, de forma mais robusta, seu papel em um sistema internacional que depende, cada vez mais, de respostas coordenadas a riscos de natureza biológica, química, radiológica e nuclear. Referências bibliográficas ADISASMITO, Wiku B. et al. One Health: A new definition for a sustainable and healthy future. PLoS Pathogens, [s. l.], v. 18, n. 6, p. e1010537, 2022. DE OLIVEIRA, Renata Carvalho et al. Out of the shadows, into the spotlight: Invisible zoonotic diseases in Brazil. Lancet Regional Health - Americas, [s. l.], v. 8, p. 100202, 2022. D’EON, Marcel F. 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Rio de Janeiro - RJ, 13 de maio de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Da lacuna de conhecimento à integração estratégica: competências em defesa QBRN no currículo de medicina veterinária como ferramenta de governança de defesa. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/dqbrn/artigos/da-lacuna-de-conhecimento-a-integracao-estrategica-competencias-em-defesa-qbrn-no-curriculo-de-medicina-veterinaria-como-ferramenta-de-governanca-de-defesa.
Ciência, Tecnologia e Inovação na defesa: base industrial de defesa, autonomia estratégica e a geração de capacidades militares
Eduardo Xavier Ferreira Glaser MigonDoutor em Administração e em Ciências Militares.Pesquisador / Coordenador do Laboratório de Ciências Militares (ECEME). Jarbas Alfeu de Paula JúniorDoutorando do PPG em Ciências Militares.Pesquisador do Laboratório de Ciências Militares (ECEME). 1. Introdução Nas últimas décadas, a competição entre Estados tem sido cada vez mais influenciada pela capacidade de produzir, absorver e aplicar conhecimento científico e tecnológico. O domínio da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) deixou de ser apenas um vetor de desenvolvimento econômico para tornar-se um elemento estruturante do poder estatal. Em um ambiente internacional marcado pela rápida difusão de tecnologias emergentes — como inteligência artificial, sistemas autônomos e robótica — a capacidade de transformar conhecimento em capacidades operacionais tornou-se um fator decisivo para a autonomia estratégica das nações (BIDDLE, 2004). No campo da defesa, essa dinâmica manifesta-se de forma particularmente clara. A geração de capacidades militares modernas depende, cada vez mais, da existência de ecossistemas nacionais de inovação, capazes de integrar universidades, centros de pesquisa, instituições militares e o setor produtivo. Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel central. Mais do que um conjunto de empresas voltadas à produção de sistemas militares, a BID constitui um instrumento estratégico por meio do qual o Estado transforma investimento em CTI em capacidades militares, autonomia tecnológica e instrumentos de política externa (SILVA FILHO, 2019). Para países que não ocupam posição hegemônica no sistema internacional, a construção de capacidades tecnológicas próprias adquire relevância ainda maior. O investimento em CTI voltada à defesa pode permitir a exploração de vantagens específicas capazes de compensar limitações materiais, ampliando a capacidade de dissuasão e de proteção dos interesses nacionais. Nesse sentido, a inovação tecnológica passa a desempenhar papel central na configuração das capacidades militares contemporâneas. Diante desse contexto, o presente artigo analisa o papel da CTI na consolidação do poder estatal, destacando a Base Industrial de Defesa como mecanismo de materialização dessas capacidades. O desenvolvimento de sistemas terrestres não tripulados [Unmanned Ground Vehicles (UGVs)] é utilizado como ilustração dessa dinâmica, evidenciando como os avanços em robótica, em sensoriamento e em inteligência artificial dependem de uma base tecnológica e industrial nacional capaz de sustentá-los. 2. Tecnologia, inovação e competição estratégica A centralidade da tecnologia na competição entre Estados não decorre apenas da sofisticação crescente dos meios materiais, mas da possibilidade de alterar relações de poder por meio da geração de novas capacidades. No ambiente contemporâneo, marcado por disputas em torno da inteligência artificial, da robótica, dos sistemas autônomos e do sensoriamento avançado, a superioridade relativa depende cada vez mais de transformar conhecimento em aplicação — processo que não é linear nem automático. A mera existência de avanços científicos não produz vantagem estratégica; o que produz efeitos concretos é a capacidade institucional de selecionar prioridades, financiar trajetórias tecnológicas relevantes e converter conhecimento em capacidades de emprego militar. A inovação deve ser compreendida como parte da lógica de geração de capacidades no planejamento de defesa, processo que envolve a articulação entre objetivos estratégicos, o desenvolvimento tecnológico e a organização institucional das Forças Armadas (SILVA et al., 2019). No campo da defesa, o debate sobre planejamento baseado em capacidades mostra que o problema central não reside apenas em adquirir meios, mas em construir arranjos institucionais capazes de antecipar necessidades futuras e orientar o desenvolvimento de soluções tecnológicas coerentes com os objetivos estratégicos do Estado. A questão, portanto, não é apenas tecnológica, mas político-institucional: Estados que organizam melhor seus processos de inovação tendem a obter maior flexibilidade estratégica e melhores condições para adaptar suas forças armadas às mudanças do ambiente operacional. Esse ponto é particularmente relevante para países que não ocupam posição hegemônica no sistema internacional. Para esses Estados, a inovação pode representar uma via de compensação estratégica. Em vez de competir simetricamente em volume de meios ou massa de recursos, torna-se mais racional concentrar esforços em nichos tecnológicos capazes de produzir vantagens assimétricas ou, em termos mais precisos, de criar condições de “assimetria reversa”, mediante soluções inovadoras que ampliem a eficácia relativa de capacidades limitadas (RASKA, 2016). Sob essa perspectiva, Ciência, Tecnologia e Inovação passam a integrar não apenas a agenda de modernização do Estado, mas a própria lógica de sua inserção estratégica. 3. Sistemas de inovação, defesa e capacidade estatal Se a inovação tecnológica possui relevância estratégica, sua materialização depende da forma como o Estado organiza o ambiente institucional que a sustenta. O desenvolvimento de tecnologias sensíveis, particularmente no setor de defesa, exige a interação entre múltiplos atores: instituições de pesquisa, universidades, órgãos governamentais, Forças Armadas e setor produtivo. Não se trata apenas de reunir competências dispersas, mas de criar mecanismos de coordenação capazes de orientar tais competências para objetivos estratégicos definidos. A literatura sobre sistemas de inovação demonstra que a geração de conhecimento econômica e tecnologicamente relevante depende de arranjos cooperativos entre Estado, academia e indústria. O modelo da tríplice hélice, proposto por Etzkowitz (2008), oferece uma chave analítica útil para compreender esse processo ao destacar que a inovação não emerge de forma isolada, mas de interações contínuas entre essas esferas institucionais. No campo da defesa, porém, essa articulação ganha densidade adicional, porque envolve áreas tecnológicas de alta sensibilidade, ciclos longos de desenvolvimento, forte dependência de financiamento público e exigências operacionais que nem sempre se ajustam à lógica convencional do mercado. Por essa razão, a inovação em defesa depende, em larga medida, da capacidade estatal. Cabe ao Estado definir prioridades, orientar investimentos e assegurar continuidade a programas tecnológicos que, muitas vezes, não encontrariam viabilidade imediata fora de um marco estratégico mais amplo. Em termos práticos, isso significa que a política de defesa não pode ser dissociada da política de Ciência, Tecnologia e Inovação. Quando essa articulação não existe, o resultado tende a ser a fragmentação de esforços, a dependência tecnológica e a dificuldade de converter pesquisa em capacidade efetiva. No caso da defesa, essa capacidade de coordenação é ainda mais importante porque o valor estratégico da inovação não está apenas na invenção de novas tecnologias, mas na possibilidade de incorporá-las a sistemas, doutrinas e estruturas de força. A inovação só adquire significado estratégico quando consegue transitar da esfera do conhecimento para a esfera da capacidade. É precisamente nesse ponto que a Base Industrial de Defesa se torna decisiva: ela representa o espaço institucional e produtivo no qual o esforço científico e tecnológico pode ser transformado em meios concretos de emprego militar, reduzindo vulnerabilidades externas e ampliando a autonomia decisória do Estado. Por isso, compreender o papel contemporâneo da CT&I exige examinar como essa relação se materializa na estrutura da Base Industrial de Defesa. 4. Base Industrial de Defesa como instrumento estratégico Se a inovação tecnológica constitui um elemento central da competição estratégica contemporânea, sua materialização no campo da defesa depende da existência de estruturas institucionais capazes de transformar conhecimento científico em capacidades militares efetivas. Nesse processo, a Base Industrial de Defesa (BID) ocupa posição central ao funcionar como interface entre o sistema nacional de inovação, as necessidades operacionais das Forças Armadas e os objetivos estratégicos do Estado. A BID pode ser compreendida como o conjunto de empresas, organizações e instituições que participam do desenvolvimento, produção, manutenção e modernização de sistemas e equipamentos militares. Entretanto, sua relevância estratégica vai além da dimensão produtiva. Ao concentrar capacidades tecnológicas e industriais em áreas sensíveis à segurança nacional, a Base Industrial de Defesa constitui um instrumento por meio do qual o Estado preserva autonomia decisória, reduz dependências externas e sustenta a capacidade de inovação em setores críticos (SILVA FILHO, 2019). Essa função estratégica torna-se particularmente evidente em áreas tecnológicas caracterizadas por alto grau de complexidade e sensibilidade, como sistemas de armas, sensores avançados, comunicações militares, cibernética e sistemas autônomos. Nessas áreas, a dependência tecnológica pode gerar vulnerabilidades relevantes, limitando a liberdade de ação do Estado em situações de crise ou conflito. Nesse sentido, o fortalecimento da BID representa não apenas uma política industrial, mas uma dimensão essencial da política de defesa. A experiência brasileira ilustra concretamente essa dinâmica. Programas como o veículo blindado de rodas Guarani, desenvolvido em parceria entre o Exército Brasileiro e a indústria nacional, e o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) demonstram como a articulação entre demanda militar, capacidade industrial e investimento em pesquisa aplicada pode gerar soluções tecnológicas com alto grau de nacionalização. Esses programas evidenciam que a BID não se limita à substituição de importações: ela constitui um ambiente de aprendizado tecnológico acumulativo, no qual competências industriais e científicas se desenvolvem de forma integrada às necessidades operacionais das Forças Armadas, gerando efeitos que extrapolam o produto final e se difundem pelo sistema nacional de inovação (ANDRADE et al, 2016). No caso brasileiro, o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa tem sido reconhecido como componente relevante da Estratégia Nacional de Defesa e como vetor de fortalecimento da autonomia tecnológica. Além de contribuir para a geração de capacidades militares, a BID também pode produzir efeitos positivos sobre o desenvolvimento científico e tecnológico mais amplo, na medida em que estimula a formação de competências industriais, o avanço da pesquisa aplicada e a difusão de tecnologias de uso dual (AMARANTE, 2012). 5. Inovação tecnológica e capacidades militares emergentes O avanço de tecnologias emergentes — sistemas autônomos, inteligência artificial, robótica e sensoriamento avançado — amplia as possibilidades de inovação militar e reforça o papel da Base Industrial de Defesa como ambiente de geração e incorporação de novas capacidades. Mais do que produzir novos equipamentos, esse movimento implica a integração de sistemas, a automação de processos e novas formas de apoio à decisão, tornando a capacidade de coletar, processar e explorar a informação um fator central na condução das operações militares. A incorporação dessas tecnologias às Forças Armadas depende, em grande medida, da capacidade de articulação entre instituições militares, centros de pesquisa e setor industrial. A inovação em defesa raramente ocorre de forma isolada; ela resulta da interação entre diferentes áreas do conhecimento e da capacidade de integrar avanços científicos às necessidades operacionais concretas. É nesse processo que a Base Industrial de Defesa desempenha papel decisivo, ao fornecer o ambiente produtivo e tecnológico necessário para o desenvolvimento e a aplicação dessas soluções. Os UGVs podem desempenhar diversas funções no contexto militar, como o reconhecimento, a vigilância, o apoio logístico, a neutralização de artefatos explosivos e as operações em ambientes de alto risco. Ao reduzir a exposição direta de militares a situações perigosas e ampliar a capacidade de coleta de informações no campo de batalha, esses sistemas contribuem para aumentar a eficiência e a segurança das operações. Ao mesmo tempo, seu desenvolvimento evidencia a crescente convergência entre tecnologias digitais e capacidades militares (SCHARRE, 2018). O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, iniciado em 2022, tem fornecido evidências empíricas relevantes sobre o emprego operacional de UGVs e seus condicionantes institucionais. Os equipamentos utilizados ilustram tanto o potencial quanto as limitações atuais dessas plataformas: desempenho promissor em tarefas de reconhecimento e apoio logístico em ambiente urbano, mas vulnerabilidades significativas em conectividade, autonomia de decisão e robustez operacional em condições adversas. Mais do que avaliar o desempenho dos sistemas em si, o que esse conflito evidencia é que a capacidade de desenvolver, adaptar e evoluir UGVs em ciclos curtos depende diretamente da existência de uma base tecnológica e industrial nacional — exatamente o argumento central deste artigo. Estados que dependem de fornecedores externos não apenas pagam mais: perdem a capacidade de ajustar rapidamente os sistemas às lições aprendidas no ambiente operacional real (ANDRADE et al, 2016). Mais importante do que a tecnologia em si, entretanto, é o processo institucional que permite sua incorporação às estruturas militares. O desenvolvimento e a utilização de sistemas como os UGVs dependem da existência de capacidades científicas, tecnológicas e industriais capazes de sustentar sua produção, adaptação e evolução ao longo do tempo. Esses sistemas ilustram como a articulação entre ciência, tecnologia e Base Industrial de Defesa pode contribuir para a geração de novas capacidades militares e para o fortalecimento da autonomia estratégica dos Estados. 6. Implicações estratégicas ao planejamento em Defesa Para países como o Brasil, a articulação entre CT&I, Base Industrial de Defesa e planejamento estratégico não é apenas uma orientação doutrinária genérica e sim uma necessidade operacional concreta. A Estratégia Nacional de Defesa reconhece essa interdependência ao vincular o fortalecimento da BID ao desenvolvimento de capacidades militares autônomas e à redução da dependência tecnológica externa. Nesse quadro, o Planejamento Baseado em Capacidades oferece o instrumental metodológico para traduzir essa orientação em decisões de investimento: ao estruturar o desenvolvimento de forças a partir de lacunas de capacidade identificadas, e não apenas da reposição de meios existentes, ele cria as condições para que a inovação tecnológica seja incorporada de forma sistemática ao ciclo de modernização das Forças Armadas (MIGON et SILVA, 2023). A emergência de tecnologias como sistemas autônomos, inteligência artificial e robótica intensifica esse imperativo. O desenvolvimento de sistemas terrestres não tripulados, em particular, exemplifica como a convergência tecnológica exige respostas institucionais coordenadas: sem cadeia industrial nacional capaz de produzir, adaptar e evoluir esses sistemas, a dependência de fornecedores externos tende a reproduzir, no campo das tecnologias emergentes, as mesmas vulnerabilidades que a BID foi concebida para superar. Compreender essa dinâmica e traduzi-la em políticas que integrem ciência, indústria e defesa em torno de objetivos estratégicos de longo prazo constitui, portanto, um dos desafios centrais para o planejamento de defesa brasileiro nas próximas décadas e uma agenda de pesquisa ainda em aberto. 7. Considerações finais Em um ambiente estratégico marcado pela intensificação da competição tecnológica, a capacidade de produzir, absorver e aplicar conhecimento científico tornou-se componente central do poder estatal. Nesse quadro, a Base Industrial de Defesa emerge como o elo institucional que transforma esforço científico em capacidade militar efetiva, reduzindo dependências externas, ampliando a autonomia tecnológica e sustentando o desenvolvimento de forças adaptadas às necessidades específicas do Estado. Ao longo deste artigo, buscou-se analisar a relação entre ciência, tecnologia e inovação e a geração de capacidades militares, destacando o papel da Base Industrial de Defesa como mecanismo institucional capaz de transformar conhecimento científico em meios concretos de emprego militar. Argumentou-se que a inovação em defesa não se limita ao desenvolvimento de novos equipamentos ou sistemas de armas, mas depende da existência de estruturas institucionais que articulem pesquisa científica, capacidade industrial e planejamento estratégico em torno de objetivos de longo prazo. A análise do desenvolvimento de sistemas terrestres não tripulados ilustra como avanços em áreas como robótica, inteligência artificial e sensoriamento podem gerar novas possibilidades de emprego militar. Mais do que uma inovação tecnológica isolada, esses sistemas representam um exemplo da crescente integração entre diferentes campos do conhecimento e da importância de ambientes institucionais capazes de sustentar esse processo de inovação. Avanços futuros nessa agenda de pesquisa devem aprofundar a análise empírica dos mecanismos de coordenação entre Estado, academia e indústria de defesa, no caso brasileiro, avaliando o estágio de maturidade tecnológica dos programas nacionais em curso e examinando em que medida o Planejamento Baseado em Capacidades tem efetivamente orientado decisões de investimento em CTI. Essas são perguntas abertas cuja resposta condiciona, em larga medida, a capacidade do Brasil de transformar esforço científico em autonomia estratégica real. Referências AMARANTE, José Carlos Albano do. A base industrial de defesa brasileira. Brasília,DF: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2012. ANDRADE, Israel de Oliveira; LEITE, Alixandro Werneck; MIGON, Eduardo Xavier Ferreira. Plataforma terrestre militar. In: Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (org.). Mapeamento da base industrial de defesa. Brasília,DF: ABDI:IPEA, 2016. cap. 5, p. 335-398. BIDDLE, Stephen. Military power: explaining victory and defeat in modern battle. Princeton: Princeton University Press, 2004. ETZKOWITZ, Henry. The triple helix: university–industry–government innovation in action. New York: Routledge, 2008. MIGON, Eduardo Xavier Ferreira Glaser; SILVA, Marco Aurélio Vasques. A utilização de cenários para a consolidação de uma política de defesa. Coleção Meira Mattos: Revista das Ciências Militares, Rio de Janeiro, v. 17, n. 58, p. 25-39, jan/abr. 2023. RASKA, Michael. Military innovation in small states: creating a reverse asymmetry. London: Routledge, 2016. SCHARRE, Paul. Army of none: autonomous weapons and the future of war. New York: W. W. Norton & Company, 2018. SILVA FILHO, Edison Benedito da. Base industrial de defesafont-weight: bold;">: relações entre Estado, mercado e desenvolvimento tecnológico. Brasília,DF: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2019. SILVA, Luiz Maurício de Andrade da; MIGON, Eduardo Xavier Ferreira Glaser; NUNES, Rubens; PAGGIARO, Fábio Sahm. Inovação e tomada de decisão em defesa: considerações introdutórias ao planejamento baseado em capacidades. Revista de Relaciones Internacionales, Estrategia y Seguridad, Bogotá, v. 14, n. 1, p. 189-203, 2019. Rio de Janeiro - RJ, 06 de maio de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Ciência, Tecnologia e Inovação na defesa: base industrial de defesa, autonomia estratégica e a geração de capacidades militares. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/ct-i-para-defesa-desenvolvimento-e-seguranca-nacional/artigos/ciencia-tecnologia-e-inovacao-na-defesa-base-industrial-de-defesa-autonomia-estrategica-e-a-geracao-de-capacidades-militares.
Especial Irã: Guerra EUA/Israel x Irã – a economia e sua influência para a consolidação da revolução em assuntos militares em curso
Ricardo Luiz da Cunha RabeloGeneral de Brigada da Reserva do Exército Brasileiro.Pós-graduado pelo Command and General Staff College (US Army) epela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército/Fundação Getúlio Vargas. 1. O cenário do conflito na ótica estratégica O curso de uma guerra é inegavelmente dependente, dentre outros fatores, da capacidade econômica dos lados envolvidos, bem como da disposição – tanto da sociedade, quanto do governo – para assumir os sacrifícios temporários que uma situação de guerra exige. André Beaufre[1], respeitado estrategista do século XX, propôs que o modelo estratégico a ser adotado por um país em guerra dependeria da conjugação de diversos fatores. Assim, a estratégia a ser adotada deveria ser coerente com a análise dos fatores morais; dos fatores materiais; da liberdade de ação de que dispõe o país para empregar os meios disponíveis e as manobras exequíveis; bem como do tempo esperado para que o conflito esteja finalizado. Dentre os fatores materiais a serem considerados, além dos meios militares disponíveis, há que se considerar a capacidade econômica[2] para sustentar o esforço de guerra. Na guerra entre uma potência militar e econômica, os Estados Unidos da América (EUA), em aliança com Israel, uma potência militar regional, com a economia largamente apoiada pelos EUA, versus o Irã, um país de médio porte, com a economia enfraquecida por anos de sanções, já se podia antever que o Irã não buscaria o confronto (ofensiva) direto, preferindo agir defensivamente contra alvos não necessariamente israelo-americanos que poderiam trazer o efeito estratégico desejado, ou seja, prolongar a guerra. Tornar o conflito mais longo forçaria os EUA a ultrapassar o orçamento previsto, bem como a utilizar maior quantidade de meios militares para atingir os objetivos buscados. Tudo isso adquire ainda mais valor ao considerar-se que o Irã, a partir de um pensamento geopolítico, não é a prioridade de enfrentamento norte-americano no contexto internacional e, com isso, seria prudente que os EUA não comprometessem a sua capacidade dissuasória em outras partes do mundo. De fato, a aliança buscou a iniciativa das ações desde o primeiro momento, tendo sido reportados ataques a mais de 7.800 alvos nos primeiros 20 dias do conflito. Os resultados imediatos foram visíveis: quase a totalidade dos líderes iranianos de nível mais alto foi eliminada, a respeitada capacidade antiaérea foi neutralizada, 87% dos lançadores de mísseis balísticos foram destruídos, a Força Aérea foi destruída e 120 navios foram afundados, deixando a Marinha sem capacidade de manobra. Além disso, destruíram-se vários depósitos e fábricas de mísseis, drones e munições. Com isso, a aliança conquistou a superioridade aérea (alguns analistas apontam para supremacia aérea) e atingiu objetivos militares em tempo menor do que o esperado. Segundo o Departamento de Guerra dos EUA, em relatório enviado ao Congresso, os seis primeiros dias de guerra tiveram um custo de 11,3 bilhões de dólares[3]. O Irã, por sua vez, surpreendeu os EUA e Israel ao adotar a estratégia defensiva denominada “defesa em mosaico”, conceito segundo o qual os escalões inferiores das forças militares já tinham conhecimento de uma lista de alvos a serem atingidos, com liberdade de ação para executarem os ataques, de acordo com os efeitos buscados. Para isso, contavam com os meios necessários, devidamente dispersos e bem camuflados pelo território iraniano. Em consequência, não houve uma imobilidade estratégica por parte daquele país, nem devido à falta momentânea de liderança formalmente definida, nem por conta da perda da capacidade de manter comunicações confiáveis, ou de exercer efetivamente o comando e o controle (e, em consequência, os ciclos decisórios). Além disso, os ataques iranianos contra os países vizinhos, no Oriente Médio, comprometeram polos de produção de gás e petróleo, bem como a efetiva utilização de terminais aeroportuários de destinações turísticas regionais, causando surpresa inicial e tornando o desenrolar do conflito mais complexo. As ações iranianas exigiram intensa movimentação diplomática dos países da aliança, bem como o comprometimento mais numeroso de meios de defesa para cooperar com a segurança regional, elevando o custo da guerra. Entretanto, a cartada econômica decisiva foram as ameaças e os ataques iranianos contra navios cargueiros de gás natural e petróleo na passagem do estreito de Ormuz, por onde, repete-se exaustivamente, transitam cerca de 20% do comércio internacional desses produtos. Com isso, os efeitos econômicos da guerra começaram a incomodar não só os países regionais, principais produtores de petróleo e gás, como também praticamente todos os países do mundo, em especial, aqueles cuja economia depende, em grande escala, da importação desses produtos e de seus derivados. O barril de petróleo, negociado entre 67 e 71 dólares no início do conflito, passou a ser negociado por valores superiores a 100 dólares, chegando a 120 em determinada ocasião. As vitórias militares avassaladoras da aliança viram-se diminuídas e quase irrelevantes diante desse novo cenário. Em pouco tempo, como as empresas seguradoras do transporte marítimo não se mostraram dispostas a correr o risco de tentar atravessar o estreito, o controle daquele ponto de estrangulamento da rota marítima passou a ser um eficiente meio de pressão sobre a aliança. Mas havia outro potencial problema na equação econômica do esforço de guerra. Como o custo dos sistemas de armas e das munições empregados pela aliança era muito superior àquele mantido pelo Irã, constatou-se que a guerra era muito menos custosa aos iranianos. Os atacantes tinham custo de milhões de dólares, enquanto, os defensores, de milhares de dólares. Por isso, sabendo-se que esses meios são limitados, surgiu o questionamento, em meio à sociedade norte-americana e em outros países, sobre a capacidade da aliança de manter o esforço de guerra sem correr o risco de enfrentar uma escassez de munições estratégicas. 2. Os EUA podem enfrentar uma escassez de munições consideradas estratégicas? Um estudo publicado no Foreign Policy Research Institute (FPRI)[4] estimou que os EUA utilizaram mais do que 11.000 munições de diferentes tipos durante os dezesseis primeiros dias de guerra, o que faz com que essa campanha, denominada Epic Fury, seja considerada a mais intensa campanha aérea da história moderna. Dessas munições, pelo menos 1.000 (mil) delas são do tipo “stand-off”[5], consideradas escassas e caras, bem como outras centenas eram mísseis de médio alcance (cerca de 300 tomahawks), ou antirradiação, que interferem em radares antiaéreos. Outro grande problema refere-se à defesa aérea: o mesmo estudo estima o consumo de cerca de 140 mísseis Patriot PAC-3 MSE (interceptadores) e mais de 150 interceptadores THAAD[6]. Repor esse estoque tem o custo estimado em aproximadamente US$ 26 bilhões, mas o custo da guerra é muito maior. Recentemente, o governo Trump encaminhou ao Congresso uma solicitação de crédito orçamentário suplementar, na ordem de 200 bilhões de dólares, cerca de 20% do orçamento de defesa dos EUA para o atual ano fiscal. Enquanto isso, de acordo com Michael C. Horowitz, que ocupou, no então Departamento de Defesa, entre 2023 e 2024, o cargo de Subsecretário Adjunto de Defesa para o Desenvolvimento de Forças e Capacidades Emergentes, o Irã tem utilizado, em 71% de seus ataques aos países vizinhos do Golfo, os drones Shahed, cujo custo de fabricação gira em torno de 35.000 dólares. Somente os Emirados Árabes Unidos detectaram e destruíram 1.422 drones iranianos, tendo consumido, para defesa contra essa ameaça, mísseis Patriot, cujo valor é de cerca de 4 milhões de dólares por unidade. Ou seja, com o valor de produção de um míssil Patriot, pode-se fabricar cerca de 114 drones Shaheed, configurando uma tremenda desvantagem econômica para os EUA[7]. As autoridades de defesa americanas, sempre que questionadas sobre a discrepância de custo da guerra em relação ao Irã, ou sobre a possibilidade de “acabar” ou “faltar” munição aos EUA para essa guerra, têm fornecido respostas claras e seguras de que há munições suficientes para esse conflito. Entretanto, deve-se considerar que as forças armadas americanas necessitam dispor de variados tipos de sistemas de armas e de munições, muitas delas, com capacidades únicas e incomparáveis, não só para utilizá-las no conflito atual, mas principalmente para manterem a dissuasão estratégica em todas as regiões do mundo onde tenham que defender seus interesses. Isso significa preservar a capacidade de combate, assegurando a necessária prontidão logística[8], por meio de processos adequados de produção, distribuição, armazenamento e permanentes condições de emprego. O Presidente Trump, em seu perfil de mídia social, comunicou, em 06 de março, ter realizado reunião com os CEOs das principais indústrias de fabricação de munições e sistemas de armas considerados estratégicos para os EUA[9]. Naquele comunicado, informou que chegou a um acordo com as empresas para quadruplicar a produção desse material essencial. Apesar do anúncio de Trump, tornar essa medida uma realidade pode não ser tão simples assim, pois leva um tempo considerável para elevar a capacidade de produção na razão ora esperada. São mudanças que exigirão investimentos consideráveis para a contratação de força de trabalho, para a montagem de novas linhas de produção e para a aquisição de matéria-prima utilizada nos processos de produção. Além disso, há uma certa “insegurança cultural”, gerada a partir de exemplos já vividos no passado, por parte da indústria de defesa em relação à real capacidade do Estado de adquirir o volume da demanda apresentada. Em primeiro lugar porque, por vezes, as urgências momentâneas podem mudar a sua natureza de ano a ano, podendo redirecionar o esforço do Estado. Além disso, deve-se considerar que os acordos formulados com as empresas precisam ser transformados em alocações orçamentárias, com a aprovação do Congresso, para que os contratos de fornecimento possam, de fato, ser assinados. Por fim, alguns materiais utilizados na fabricação de munições guiadas de alta precisão estão disponíveis em poucos países do mundo, sendo que a sua indisponibilidade pode inviabilizar a produção. De forma sintética, pode-se inferir parcialmente que é bastante provável que não faltem munições para os EUA e seus aliados utilizarem nessa guerra contra o Irã. Entretanto, o ritmo de consumo, caso mantido, pode comprometer a dissuasão estratégica norte-americana em outros pontos de interesse. A reposição de eventuais estoques baixos pode ser dificultada em função do tempo necessário para produzir toda a munição necessária, da disponibilidade orçamentária para formalizar contratos de aquisição, bem como da possibilidade de aquisição de materiais críticos utilizados nos processos produtivos. Com isso, a pausa nos ataques à infraestrutura de energia iraniana, largamente anunciada (oficializada em mídia social em 26 de março) pelo Presidente Trump em função de suposta negociação em curso, é coerente com a cautela recomendada a fim de não comprometer o estoque necessário. É possível que essa interrupção sirva para o reestudo da situação e para a busca de cursos de ação que levem ao término do conflito, seja por meio de uma ação decisiva pela aliança, selando a derrota iraniana (mais difícil de ocorrer pela complexidade das ações possíveis), seja por intermédio de um cessar-fogo em torno de um acordo alcançado para encerrar as hostilidades (solução mais provável de ocorrer, porém considerada temporária). Mas o Irã explora essas técnicas, táticas e procedimentos favorecidos pelo baixo custo de forma inédita? Essa forma de combater indica alguma tendência nos combates modernos? Como tudo isso influencia a preparação para combate nas forças armadas dos países? Esses tópicos vão ser explorados no próximo segmento deste trabalho. 3. As tendências do combate moderno e o seu significado para as forças armadas de todo o mundo “O primeiro, o mais importante e o mais impactante ato de julgamento que um estadista e um comandante devem fazer é compreender o tipo de guerra no qual está embarcando, sem que haja erros, ou que se tente transformá-la naquilo que acredita ser” (Clausewitz, 1989, p.88 – tradução livre). O modelo norte-americano de supremacia militar, mundialmente consagrado e reconhecidamente eficiente ao longo da segunda metade do século passado e dos primeiros 20 anos do atual, depende de sistemas de armas com capacidades únicas, exóticas, de alta precisão, de elevado custo, cuja produção exige tempo e, naturalmente, suas destruições ou consumo representam uma grande perda. Em contraponto a esse modelo de dissuasão, verificou-se a recente propensão à utilização de sistemas aéreos remotamente pilotados (SARP) em combates modernos, com custos significativamente menores, de fácil produção e rápida reposição. O emprego de drones marcou uma tendência de elevada eficácia para as atividades de inteligência, reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos, como também tem exigido uma boa dose de adaptação, em especial, das forças blindadas e das tropas desembarcadas. Nesse contexto, o conflito entre Armênia e Azerbaijão pela região de Nagorno-Karabakh, em 2020, terminou com grande vantagem em favor do Azerbaijão, que lançou uma ofensiva para retomar territórios perdidos nos anos 1990, aproveitando-se de um investimento militar robusto e de alianças estratégicas, especialmente com a Turquia. Um dos elementos mais marcantes dessa campanha foi o uso massivo e altamente eficaz de drones de reconhecimento e ataque, como os Bayraktar TB2 turcos e outros drones “kamikaze” de origens diversas. Essas plataformas permitiram ao Azerbaijão destruir blindados, sistemas antiaéreos e posições fortificadas armênias com precisão e baixo risco para suas tropas. A superioridade tecnológica no campo aéreo reduziu drasticamente a capacidade de resposta da Armênia, que operava com equipamentos mais antigos e defesas aéreas insuficientes para lidar com enxames de drones. O resultado foi uma vitória rápida e contundente do Azerbaijão, que alterou o equilíbrio regional e redefiniu o papel dos drones como protagonistas em conflitos modernos. Outro conflito marcado pela larga utilização dos drones é a Guerra da Ucrânia, avaliada como o grande laboratório militar dessa nova era. Por pura questão existencial, a Ucrânia foi obrigada a conceber e implementar um modelo eficaz de adaptação na velocidade em que a guerra ocorre. A superioridade tecnológica e quantitativa dos meios militares empregados pela Rússia exigiu que a Ucrânia, além de empregar efetivamente os sistemas de armas advindos da importante ajuda dos países europeus e, principalmente dos EUA, reconhecesse a finitude dessa cooperação, passando a empregar os drones, de variadas formas, para multiplicar o poder de combate de suas tropas no terreno. A variação da forma de atuação, com o emprego de drones kamikazes contra veículos blindados e helicópteros, ou casamatas e posições fortificadas, ou ainda contra a tropa em progressão em terreno aberto, foi suficiente para reduzir o ímpeto do ataque russo, limitando o avanço de suas tropas e causando pesadas perdas. A frente de batalha permaneceu estacionada, com tentativas de avanço de ambos os lados em pontos específicos, mas com limitado sucesso. A Rússia, com a cooperação do Irã, passou também a utilizar os drones em seu favor, exigindo, uma vez mais, a adaptação ucraniana para o desenvolvimento da defesa antidrones. De forma sintética, vale mencionar o drone de interceptação Sting, desenvolvido pela Ucrânia. É um SARP, com custo de produção de cerca de 2.000 dólares, que possui capacidade de carregar explosivos, atuando como interceptador dos drones Shahed, versão russa. Ele tem alcance de cerca de 37 km e é capaz de voar a 280 km/h, tendo abatido mais de 3.000 drones russos (estes com custo de cerca de 35.000 dólares). Chama a atenção a facilidade de produção, que exige apenas uma impressora 3D e pouco conhecimento para operá-la. Com isso, estima-se ser possível produzir aproximadamente 10.000 drones como esses por mês (é bom lembrar que os EUA têm previsão orçamentária para aquisição de apenas 67 mísseis Patriot no corrente ano fiscal). Para aprender a pilotá-lo, levam-se de 2 a 3 dias para quem já é operador de drones FPV (first person view). É esse o tipo de drone que despertou o interesse dos países do Oriente Médio no atual conflito, pois seria uma ferramenta muito útil para a defesa aérea contra os ataques do Irã[10]. Soma-se a isso a capacidade de utilização de inteligência artificial para o reconhecimento de modelos inimigos e classificá-los como alvos. Com essa experiência, a Ucrânia reuniu um banco de dados contendo os parâmetros de drones inimigos que, conforme afirmou Mykhailo Fedorov, Ministro da Defesa da Ucrânia, possui “uma variedade única de dados obtidos em campo de batalha, os quais são incomparáveis em qualquer outro lugar do mundo” (tradução do autor)[11]. Daquilo que foi observado nos conflitos de Nargono-Karabakh, na Ucrânia e, atualmente, no Irã, pode-se afirmar que a guerra de precisão, hoje, pode ser travada com a larga utilização de drones “descartáveis”, muitos de origem comercial, lançados em “enxame”. Dominar essa capacidade não requer um extenso parque industrial de alta tecnologia, podendo ser produzido, montado ou adaptado em escala por países médios ou pequenos. Mas as mudanças verificadas na forma de combater vão muito além dos drones. Na verdade, são inspiradas pelo emprego desses meios em associação com a inteligência artificial (e a promessa da computação quântica), com outras capacidades agregadas, caracterizando uma nova estrutura militar, cuja composição pode integrar: - sistemas autônomos de custo baixo; - sistemas de aquisição de alvos assistidos por inteligência artificial; - imagens de satélite obtidas por empresas privadas e negociadas em redes de comércio; - sistemas de comunicações resilientes; - sistemas integrados a centros de decisão e unidades de intervenção; e - ferramentas cibernéticas, especialmente as incapacitadoras de sistemas de IA empregados por oponentes. Tudo isso operando de forma coordenada nos diversos domínios do campo de batalha, com o objetivo de comprimir o tempo dos ciclos de busca, análise, processamento, decisão e atuação em combate. 4. Reflexões finais e os impactos sobre a Revolução em Assuntos Militares Do que foi visto até então, pode-se afirmar que o fator economia, como analisado nesta guerra em curso contra o Irã, está agindo como um catalisador das mudanças verificadas no emprego dos meios, particularmente em conflitos recentes, cujas características promovem mudanças na doutrina, nas táticas empregadas ou em procedimentos que tornam a ação em combate mais efetiva, o que muitos analistas apontam como uma Revolução em Assuntos Militares (RMA, sigla em inglês).[12] Os drones, de fato, podem alcançar qualquer lugar no campo de batalha e, com isso, os soldados não têm um local considerado seguro para recuperação ou descanso, exigindo atenção contínua e, com isso, provocando um desgaste acentuado do militar. Além disso, o uso de drones em larga escala contribui para suprimir a surpresa de manobras e inibe movimentos e concentrações de tropas, o que tende a levar à estagnação das frentes de batalha. Em uma guerra assimétrica, as características do material e as possibilidades de seu uso tendem a favorecer o lado mais fraco. É importante reconhecer que as grandes potências também estão incorporando os ensinamentos dos combates modernos às suas doutrinas. Como demonstra Mike Horowitz[13], pode-se detectar pontos acertados na atual gestão da defesa. O primeiro é o lançamento de novas e baratas armas, como o Low-cost Uncrewed Combat Attack System (LUCAS), um drone fabricado a partir do modelo iraniano do Shahed, que pode ser produzido em massa de forma mais rápida que os Tomahawks. O segundo ponto é a experiência de combate colhida pelas forças americanas, representando uma grande diferença entre os EUA e a China. O terceiro é o uso de modernos centros de suporte a decisão com o uso de IA, para tarefas como de seleção de alvos, bem como de comando e controle. Um exemplo é a pesquisa, conduzida em 2025, pela Força Aérea dos EUA, nomeada Decision Advantage Sprint for Human-Machine Team, ou DASH-2[14]. O referido estudo concluiu que as máquinas produzem recomendações em menos de 10 segundos, com uma variedade de opções de intervenção 30 vezes maior do que times formados somente por humanos. É prudente, entretanto, reconhecer que a RMA não substitui a forma de combater em curso, mas complementa os métodos utilizados, transformando o combate de forma significativa. O processo de desenvolvimento das novas capacidades passa pela absorção das mudanças necessárias pelo sistema de doutrina para que, então, gerem as repercussões na organização e nas instalações das unidades militares, na formação dos recursos humanos, na adoção efetiva dos materiais necessários e, por fim, no treinamento das tropas para que sejam capazes de desempenhá-las nos campos de batalha. O vencedor da guerra moderna e do futuro, se as tendências observadas mantiverem-se presentes, talvez não seja aquele que reúna sistemas de armas e munições de alta tecnologia, como mísseis balísticos de precisão, bombardeiros e aeronaves de ataque com capacidade stealth. É provável que a vitória sorria para aquele que tiver a capacidade de incorporar ao seu arsenal militar aquelas plataformas que são boas o bastante, com menor custo e reduzido tempo de produção (e de reposição), bem como muito bem integradas a outros sistemas e redes, utilizando o máximo que a IA pode oferecer. Cabe ressaltar, por fim, que a RMA já estava em processo de consolidação, mas o fator econômico acabou por catalisar o curso de sua implementação. Essa é uma lição que não deve ficar restrita aos países envolvidos no conflito, sendo recomendável a absorção dos ensinamentos colhidos pelo Brasil, particularmente no cenário vivenciado. A recomendação é desenvolver capacidades militares coerentes com a RMA em curso e reforçar a Base Industrial de Defesa (BID). (texto escrito em 10 de abril de 2026). 5. Referências Bibliográficas BEAUFRE, A. Introdução à Estratégia. Tradução de L.de Araripe. Rio de Janeiro: BIBLIEx, 1998. CLAUSEWITZ, C. V. On War. Editado por M. H. Paret. Tradução de V. Kriege. Princeton: Princeton University Press, 1989. HAZAM, C. M.; PAOLINI, D. D. The army´s logistics readiness posture. US Army, 26 jun. 2025. Disponível em: https://www.army.mil/article/286646/the_armys_logistics_readiness_posture. Acessado em 25 de março de 2026. [1] Para mais informações, consultar Beauffre, A. (1963, traduzido em 1998). Introdução à Estratégia. (L. d. Araripe, Trad.) Rio de Janeiro: BIBLIEx, com direitos adquiridos de Librairie Armand Colin. [2] Apenas para expandir a ideia, a capacidade econômica refere-se não só à disponibilidade de recursos para arcar com os custos correntes de uma guerra, ou para investir na produção de bens para reposição ou inovação dos meios e sistemas empregados, mas também a existência de infraestrutura de apoio, sendo essencial contar com um parque industrial capaz e diversificado. [3] Edmondson, C. (11 de março de 2026). New York Times. Fonte: Site do New York Times: https://www.nytimes.com/2026/03/11/world/middleeast/iran-war-costs-pentagon.html. [4]Matisek, J., Bazilian, M., & Amoah, M. (16 de março de 2026). Foreign Policy Research Institute (FPRI). Disponível em: https://www.fpri.org/article/2026/03/over-5000-munitions-shot-in-the-first-96-hours-of-the-iran-war/. Acessado em 23 de março de 2026. [5] Munições de longo alcance, geralmente com elevado grau de precisão, projetadas para serem lançadas a uma distância considerável do alvo, permitindo que a plataforma de lançamento — como uma aeronave, navio ou sistema terrestre — permaneça fora do alcance das defesas aéreas inimigas. Elas permitem atacar sem entrar na zona de ameaça, o que aumenta drasticamente a capacidade de sobrevivência. [6] Terminal High Altitude Area Defense – sistema de mísseis antiaéreos, utilizados para interceptar ameaças aéreas (mísseis balísticos de curto, médio e longo alcances) na sua trajetória terminal para o alvo. [7] Mísseis com alto índice de tecnologia incorporada, com capacidade de rastreamento, dirigibilidade autônoma e precisão elevada não constituem, com certeza, as armas mais adequadas para se contrapor às ameaças representadas pelos drones. Porém, por vezes, os mísseis são a única arma disponível naquela região contra o drone. [8] De acordo com o Exército dos EUA, a prontidão logística é entendida como a capacidade mensurável das forças militares de gerar, projetar e sustentar poder de combate, garantindo a disponibilidade oportuna de material, de manutenção, da movimentação (transporte), do apoio médico e de outros serviços (contratuais ou não) em todo o espectro operacional — inclusive em ambientes contestados ou degradados. (Hazam & Paolini, 2025) [9] Mensagem do Presidente Trump na rede Truth Social, em 06 de março de 2026. Disponível em https://truthsocial.com/@realDonaldTrump/116184185735585906. [10] Peleshuk, Dan; Reuters, 2026. [11] Hunder, Max; Reuters, 2026. [12] Revolução em Assuntos Militares (Revolution in Military Affairs – RMA) são entendidas como períodos de inovação em que as forças armadas desenvolvem novos conceitos envolvendo mudanças impactantes na doutrina, na tática, nos procedimentos e na tecnologia. (Knox & Murray, 2001) [13] Briefing, The Economist, 2026. [14] Henley, Debora; Department of War, 2025. Rio de Janeiro - RJ, 30 de abril de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Guerra EUA/Israel x Irã – a economia e sua influência para a consolidação da revolução em assuntos militares em curso. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/conflitos-belicos-e-terrorismo/artigos/guerra-eua-israel-x-ira-a-economia-e-sua-influencia-para-a-consolidacao-da-revolucao-em-assuntos-militares-em-curso. .
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas | 10/03/2025 - Conflito Israel x Hamas
OMPV O Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas, foi realizado no dia 10/03/2025, segunda-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército; - Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 10/03/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 10 de março 2025.
Seminário: Atualizações sobre a Guerra Rússia x Ucrânia | 09/07/2024 - Conflito da Ucrânia
OMPV O Seminário: Atualizações sobre a Guerra Rússia x Ucrânia, foi realizado no dia 09/07/2024, terça-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Cel Bochi, Instrutor ECEME, com o tema "Dimensão informacional da Guerra na Ucrânia"; e - Prof Sandro, Docente do PPGCM ECEME, com o tema: "Perspectiva Estratégica da Guerra na Ucrânia". O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/07/2024, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 24 de outubro 2024. . .
XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos - II Seminário sobre as Estratégias Globais e Nacionais para a Mitigação de Ameaças QBRN: Cooperação, Desenvolvimento e Projeção de Poder
OMPV Com o objetivo de promover um amplo fórum de debates sobre os desafios impostos pelas ameaças QBRN no Brasil e no mundo, o evento teve como foco a cooperação interagências, o desenvolvimento de capacidades nacionais e a projeção de poder. Esses temas foram discutidos a partir de cenários estratégicos: a rápida evolução tecnológica, a complexidade crescente do crime organizado, o legado de grandes eventos e a necessidade de antecipar situações críticas colocam as ameaças QBRN no centro das discussões de segurança contemporânea. Nesse contexto, torna-se essencial integrar esforços das Forças Armadas, dos órgãos de segurança pública, da defesa civil, da comunidade científica, da indústria e dos organismos internacionais. É nesse cenário que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) dedica-se ao estudo das implicações QBRN para a Defesa Nacional. O evento visou fomentar o conhecimento estratégico, fortalecer a cooperação institucional e preparar o país para responder de forma eficaz aos desafios de um ambiente global em constante transformação. Para assistir o XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 05 e 06 de agosto 2025, Clique aqui. Para mais informações: https://ppgcm.eceme.eb.mil.br/index.php/pt/quem-somos/grupos-de-pesquisa/655-nucleo-de-pesquisa-sobre-defesa-qbrn-e-desastres-nupedd-qbrn Rio de Janeiro - RJ, 02 de fevereiro 2026 . .
XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos
OMPV Nos dias 16 e 17 de junho de 2025, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) promoveu o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos (XXXI CEE), reunindo autoridades civis e militares, pesquisadores, docentes e especialistas nacionais e estrangeiros em torno do tema “IA e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa”. A conferência de abertura contou com exposições do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Richard, que abordou as diretrizes da Força Terrestre para a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA), e do Comandante do Instituto Militar de Engenharia, General Galdino, que apresentou os novos paradigmas tecnológicos, destacando oportunidades e desafios relacionados à temática. Ao longo das duas jornadas, a programação incluiu conferências, painéis e mesas temáticas que trataram da integração de IA e Tecnologias Quânticas (TQ) no campo da Defesa, destacando os avanços científicos, os impactos estratégicos, as implicações éticas e legais, bem como os desafios de implementação dessas tecnologias em um contexto operacional. As discussões abrangeram tópicos como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o emprego de IA nos conflitos contemporâneos, disputas geopolíticas em torno das tecnologias emergentes, ciberdefesa, implicações quânticas para a criptografia e segurança, além de temas voltados à governança, educação, energia e inovação. Especial atenção foi dedicada à preparação do Brasil e de suas Forças Armadas frente às exigências de um ambiente internacional cada vez mais tecnológico e complexo. O XXXI CEE também evidenciou a importância da sinergia entre a academia, os centros de pesquisa e as instituições militares no desenvolvimento de capacidades autônomas e na formulação de estratégias que assegurem a soberania nacional. Nesse sentido, a ECEME reafirma seu compromisso com a modernização e o fortalecimento do pensamento estratégico no âmbito do Exército Brasileiro, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e a construção de soluções inovadoras para os desafios da Defesa no século XXI. Para assistir o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 16 e 17 de junho 2025, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://sites.google.com/ime.eb.br/iatq/sobre-o-projeto/ciclo-de-estudos-estrat%C3%A9gicos?authuser=0 Rio de Janeiro - RJ, 19 de setembro 2025 . .
XXX Ciclo de Estudos Estratégicos - V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações
OMPV Nos dias 7 e 8 de agosto de 2025, a ECEME conduziu o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações e o V Simpósio de Defesa Nacional, Fronteiras e Migrações. O Ciclo de Estudos foi promovido pelo Instituto Meira Mattos da ECEME, em parceria com o Instituto para o Desenvolvimento Social e Econômico de Fronteiras (IDESF) e Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD). O evento incluiu mesas temáticas que promoveram discussões sobre segurança integrada das fronteiras e crimes transnacionais. As apresentações destacaram a necessidade de cooperação interagências e o uso de tecnologias avançadas para combater crimes transnacionais e garantir a segurança nacional. Para assistir o XXX Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 07 e 08 de agosto 2024, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 24 de março 2026 . .
XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos
OMPV Os Ciclos de Estudos Estratégicos visam promover um amplo fórum de debates sobre temas relacionados aos atuais desafios existentes no sistema internacional para a Defesa. Tendo em vista a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede para a realização da reunião da cúpula do G20 em 2024, momento em que os Chefes de Estado das 19 maiores economias do mundo e que o Presidente da União Europeia estarão discutindo temas relevantes para a sociedade, como o futuro da governança global e o desenvolvimento sustentável, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) procura dar a sua contribuição à sociedade e tem a satisfação de informar que realizará nos dias 28 e 29 de maio de 2024, o XXIX Ciclo de Estudos Estratégicos (XXIX CEE), cujo tema será o seguinte: OS DESAFIOS DO SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO PARA A DEFESA. Este Ciclo de Estudos Estratégicos contará com a participação de professores nacionais, professores estrangeiros, pesquisadores, diplomatas, militares, acadêmicos e demais personalidades analisando temas como o multilateralismo, as mudanças climáticas, o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a defesa. O evento foi organizado pelo Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Evento integrante do calendário do G20 2024. Para assistir o XXIX Ciclo do dia 28 e 29 de maio 2024, Clique aqui. Para mais informações sobre o XXIX CEE: https://www.eceme.eb.mil.br/instituto-meira-mattos-imm/cee/172-xxix-ciclo-de-estudos-estrategicos-os-desafios-do-sistema-internacional-contemporaneo-para-a-defesa Rio de Janeiro - RJ, 29 de maio 2024. . .
A ação dos EUA e de Israel no conflito no Oriente Médio - 19 março 2026 |
A visão iraniana do conflito no Oriente Médio - 10 março 2026 |
Análise estratégica militar da ação dos Estados Unidos na Venezuela - 06 janeiro 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
A questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano
A questão Essequibo é um litígio fronteiriço histórico. A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deveria ser a fronteira natural, conforme um mapa de 1777 que remonta aos tempos coloniais espanhóis. A Guiana, por sua vez, baseia sua soberania nas fronteiras estabelecidas por um laudo arbitral de Paris de 1899, que concedeu a maior parte da terra à então Guiana Britânica. Em 2015, a descoberta de reservas de petróleo e gás em águas profundas na costa do Essequibo, por empresas internacionais, intensificou a disputa, elevando o valor estratégico da região e suas águas adjacentes. No final de 2023, a antiga disputa pela região voltou ao cenário geopolítico sul-americano depois que o governo venezuelano realizou um referendo para legitimar a anexação do território. A crise expõe as limitações de organismos regionais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em mediar e prevenir conflitos entre seus membros, exigindo uma atuação mais forte de instâncias multilaterais e de atores internacionais. Até que ponto a questão Essequibo está envolvida nas atuais ações militares na região do Caribe e quais são os seus reflexos para o Brasil? Para abordar o tema “A Questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Ricardo De Toma, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ricardo Salvador De Toma-GarcíaPesquisador pós-doutoral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Professor, o senhor pode explicar resumidamente o que vem a ser a Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Essequibo, região rica em recursos minerais, é uma reivindicação antiga da Venezuela, que cobiça os 159.500 km² do território para acrecer aos seus 916.500 km². Já a Guiana, detentora da área cobiçada, possui 215.000 km². O que isso representa? Mais do que 70% do território que ocupa e administra a Guiana, país que nasceu como uma república em 1966, quando se tornou independente do Reino Unido. A Venezuela foi o segundo país a reconhecer a independência da Guiana, mas fez uma ressalva: o reconhecimento estabelecia uma reclamação sobre os 159.500 km² de Essequibo, que, para os venezuelanos, não deveria fazer parte do território guianense. A questão ganha eco basicamente pelos potenciais de hidrocarbonetos e petróleo em áreas marinhas não delimitadas. A exploração desses recursos por parte de corporações estadunidenses e chinesas é o que tem gerado o interesse sobre a região. Cabe destacar que o grande desenvolvimento econômico da Guiana, que vem sendo reconhecido como uma “Dubai sul-americana”, gerou atritos políticos, que acabaram por se transformar em grandes tensões entre a Venezuela e a Guiana. 2) OMPV: Como ocorreu o crescimento da economia da Guiana? Prof. Ricardo: A Guiana era um dos países com uma das menores economias da região. Ela dependia basicamente da exploração de manganês e de ouro. A partir de 2019, o país começou a produzir petróleo. Veja a situação, vamos falar de números: a Guiana tem hoje menos de 700 mil habitantes, com um crescimento demográfico negativo e um dos maiores índices de suicídio do mundo, justamente por essa situação econômica complicada. Hoje a Guiana está produzindo cerca de 700 mil barris diários de petróleo. Isso é quase um barril por habitante. Essa é a verdadeira transformação da economia da Guiana, repercutindo em um acentuado crescimento econômico e um significativo aumento da qualidade de vida da sua população. 3) OMPV: Como essa disputa por Essequibo afeta o Brasil? Prof. Ricardo: Essa resposta traz à tona a crise ocorrida em 1969, envolvendo a Venezuela e a Guiana, motivada por duas questões: a tomada militar da ilha de Anacoco, no rio Cuyuní, pela Venezuela, e a revolta do Rupununi, promovida por separatistas na Guiana, perto da localidade de Lethem, que faz fronteira com a cidade de Bonfim, na divisa com o Estado de Roraima. Esses incidentes aumentaram a tensão na fronteira com o Brasil e criaram um movimento de deslocados para o território brasileiro à época. Com o desenvolvimento econômico da Guiana, em decorrência da exploração petrolífera, a Venezuela resolveu retomar a sua cobiça por Essequibo. O governo venezuelano, afetado por uma série crise política, aproveitou-se desse tema para incrementar a sua popularidade. Todos esses movimentos geraram uma preocupação para o Brasil, Estado que tem uma grande responsabilidade em manter a inviolabilidade de suas fronteiras, garantindo que a região amazônica não seja alvo de cobiças internacionais. Há relatos da presença, no sul do rio Orinoco, de agentes da Rússia, inclusive com a presença de bombardeiros estratégicos russos na Venezuela. Os Estados Unidos também têm interesses na região e a China, apesar de manter certa neutralidade, possui fortes investimentos na área contestada. 4) OMPV: O atual território da Venezuela faz fronteira com a região contestada, ou há necessidade de passar pelo Brasil para chegar até essa área? Prof. Ricardo: Oficialmente, a Venezuela não reconhece a fronteira que foi estabelecida pelo laudo arbitral de Paris de 1899 e é por conta dessa situação que o caso está atualmente na Corte Internacional de Justiça, onde se discutirá justamente a delimitação da fronteira. Com relação à pergunta, a resposta é não, porque a região do Essequibo tem um limite com o estado de Delta Amacuro, no norte da Venezuela, e com o estado de Bolívar, permitindo o trânsito para o território contestado. Aliás, essa é uma zona transitada pelos indígenas Warao. 5) OMPV: Quais são os principais atores internacionais envolvidos na Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Já houve o envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há investimentos britânicos por meio de petroleiras, com concessões autorizadas unilateralmente pela Guiana sobre áreas marinhas não delimitadas. Também observa-se a aplicação de recursos na região por parte da Empresa Nacional de Petróleos da China, que opera conjuntamente com a ExxonMobil, dos Estados Unidos, sobre o Bloco Stabroek, campo petrolífero offshore na costa da Guiana. E ainda podemos citar a influência russa, que vê na Venezuela uma forma de projetar seu poder na região. Na Guiana, os franceses participaram de leilões de blocos para a exploração de petróleo, com a empresa Total. A existência desses interesses econômicos aumenta o potencial geoestratégico do território Essequibo. Você vê hoje, por exemplo, que a China investe pesado na modernização do aeroporto internacional de Georgetown, que possui projetos para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas, de um porto de águas profundas e interesse no desenvolvimento da rede 5G. A Guiana foi o primeiro país do Caribe Ocidental que estabeleceu relações com a China e que a reconheceu como “uma única China”. Essa lealdade é retribuída pela China com esses investimentos. 6) OMPV: Recentemente, o Brasil realizou a Operação Atlas, desdobrando tropas na região próxima a Essequibo, sob coordenação do seu Ministério da Defesa. Como é que o senhor vê a repercussão desse exercício para a região? Prof. Ricardo: O interessante é que, recentemente, na Venezuela, também foram realizados exercícios. Esses exercícios foram, de certo modo, uma resposta a um patrulheiro britânico que estava no porto de Georgetown, e eu lembro que, na época, houve uma manifestação do antigo chanceler do Brasil, que indicou que uma grande autoridade, de uma grande potência, havia manifestado que, caso a Venezuela tomasse a decisão de tomar Essequibo pela força, essa grande potência iria intervir. Entendo que a Operação Atlas repercute positivamente para o Brasil, demonstrando a capacidade logística das suas Forças Armadas e a determinação nacional de manter a estabilidade da região amazônica, deixando-a de fora de possíveis conflitos. Nove países tem parte na Amazônia e a presença de forças extra-regionais em um eventual cenário desagregado ou caótico pode ser lesiva para a soberania individual de cada um dos Estados pan-amazônicos. Assim, qualquer medida mais radical ou não consensual por partes de algum país pode gerar consequências incertas. Portanto, esse tipo de exercício é necessário para manter a segurança local, a cooperação e a paz. 7) OMPV: Recentemente os Estados Unidos têm aproximado tropas do litoral da Guiana. O que essas manobras têm a ver com a região de Essequibo? Prof. Ricardo: Os Estados Unidos assinaram um convênio com a Guiana. No ano de 2020, durante a pandemia, foi a primeira vez na história que um secretário de Estado americano visitou Georgetown. A partir desse ano, durante o primeiro governo Trump, foi assinado um convênio de patrulhamento entre o Serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos e a Guiana, que não possui uma força armada capaz de desenvolver essas operações. Esse acordo ficou centrado em neutralizar aparentes ou supostas operações de narcotráfico. Já se fala hoje da existência de um suposto Cartel de los Soles, com indícios que vinculam autoridades venezuelanas a atividades ilícitas. Então, o que temos que destacar é que os Estados Unidos, diante dessas suspeitas, podem atuar na defesa de seus interesses e no combate ao narcotráfico, trazendo mais tensão para a questão Essequibo. 8) OMPV: Qual é a relação comercial do Brasil com a Guiana? Prof Ricardo: O Brasil, por meio da Petrobras, tem interesse em participar da exploração dessas áreas marinhas não delimitadas. Existe também um interesse em pequenas exportações. O estado de Roraima é o principal interessado em que seja construída uma rodovia que passe por Bonfim, Lethem, Mahdia, Mabaruma Hills e depois Linden, até Georgetown, para escoar a sua produção. Ter acesso ao Caribe é uma situação que para o Brasil é importante do ponto de vista estratégico. 9) OMPV: Como o senhor vislumbra o desenvolvimento da Questão Essequibo no cenário internacional? Prof. Ricardo: É um tema que está atualmente na Corte Internacional de Justiça. Espera-se que nos próximos meses, sejam emitidas algumas considerações jurídicas sobre os documentos apresentados pelo Estado venezuelano, e a eventual decisão dessa questão por parte da Corte resultará em um fato julgado, que passará a ter um efeito imediato, sobre o processo de delimitação internacional entre a Venezuela e a Guiana, repercutindo nas atividades econômicas na região. Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2025. .
Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa
A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa. Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado. Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros, são alguns dos crimes da região. Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Tássio FranchiProfessor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia? Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões. Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional. Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais. Esses países veem a Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países. Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica. 2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números? Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo. As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária. O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras. Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas. Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais. 3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas? Prof. Tássio: Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles. O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos. Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas. OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países? Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor. Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica. Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia. 4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado? Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime. Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado. 5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região? Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas. Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação. O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico. A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável. As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras. 6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas? Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica. A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações. Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas. Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental. 7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia? Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano. Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais. Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera. Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos. Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto. 8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica? Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso. Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região. Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região. Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado. A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia. 9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa? Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas. Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína. Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África. Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga. O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas. Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu. A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa. 10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região? Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos. 11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso? Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas. Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil. E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas. Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção. Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink. Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil. Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados. 12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia? Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada. Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas. Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para. Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025. .
O acordo de paz entre Israel e o Hamas - Conflito Israel x Hamas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra. Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sandro Teixeira MoitaDoutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz? Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm. Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense. Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas. Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países. Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região. Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz. 2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito? Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha. O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani. E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos. Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área. Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. 3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz? Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas. Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio. 4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah? Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza. Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica. O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã. 5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz? Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro. Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro. Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região. Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra. Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz. 6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido? Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo. Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico. Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel. Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração. Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região. 7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz? Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo. 8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza? Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã. A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas. Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil. O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967. Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025. .
Análise sobre a tomada de decisão em ambiente de incertezas
Apresentação O ano letivo teve início na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e nossos alunos, civis e militares, assistiram, no dia 5 de fevereiro do corrente, à aula magna do Gen Ex R/1 Richard Fernandes Nunes, atualmente Diretor-Geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Na sua conferência, o antigo comandante da ECEME reforçou as ideias-força que são a tônica para o decisor na arte da guerra, traduzidas nos verbos: pensar, criar, decidir e agir, que há mais de 100 anos vêm sendo norteadores dos estudos nos cursos regulares da Escola. O desafio para as atuais gerações de discentes passa a ser como direcionar a tomada de decisão em uma conjuntura complexa como a atual, na qual a dimensão informacional ganhou protagonismo, e muitos dos problemas estão no campo do incognoscível. O ambiente empresarial, que também enfrenta as mesmas dificuldades, tem criado novas formas de gestão para atuar no campo das incertezas. Como exemplo, pode ser citada a metodologia Lean Startup, que une o design, a prototipação e a experiência do cliente, inverte a ordem do conhecido ciclo PDCA, entendendo que a fase do planejamento só deve iniciar quando se conhece realmente o problema a ser enfrentado. No campo das Ciências Militares, o processo de tomada de decisão tem sido objeto de estudos, muitos deles destacando o papel das tecnologias disruptivas e as competências próprias que devem acompanhar o decisor. A pergunta que fica é se as Instituições podem ter mecanismos próprios que viabilizem esse processo em alguma medida, criando seus ecossistemas que favoreçam a atuação dos decisores. O OMPV selecionou três artigos do General Richard que analisam e propõem ferramentas institucionais para criar o ambiente favorável à tomada de decisão, os quais nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o tema. 1. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito Os preceitos da comunicação estratégica passaram a ser efetivamente adotados pelo Exército Brasileiro a partir da constatação da conveniência de se expandir os ramos da tradicional comunicação social praticada – relações públicas, assessoria de imprensa e divulgação institucional – por meio da sincronização, da integração e do alinhamento das mídias sociais operadas no âmbito da Força, bem como da sistematização das relações institucionais estabelecidas em todos os níveis. Tudo de acordo com os objetivos constantes no Planejamento Estratégico do Exército.[1] As discussões levadas a cabo para a implementação dessa visão foram abrangentes e inéditas, devido à dificuldade de obtenção de literatura capaz de considerar as condicionantes específicas da expressão militar de um país com a trajetória histórica e as dimensões geográfica, política e estratégica do Brasil. Tentativas de adaptação de doutrinas estrangeiras, particularmente praticadas em blocos e alianças multinacionais, definitivamente não fornecem soluções aplicáveis à nossa realidade sui generis. Os projetos interdisciplinares conduzidos pelo Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), na ECEME, em consonância com as diretrizes do Comandante e as orientações do Estado-Maior do Exército (EME), foram fundamentais para o aprofundamento do tema. O órgão de direção operacional e os de direção setorial e de assistência direta e imediata aportaram contribuições. Naturalmente, coube ao CCOMSEx, órgão central do Sistema de Comunicação Social do Exército, papel de relevo na consolidação dos trabalhos. Como resultado de todo esse esforço, vários documentos foram elaborados. Algumas portarias do Comandante do Exército e do EME, como a que instituiu as regras para o emprego das mídias sociais, começaram a ser publicadas em 2019. Mas foi no ano seguinte que o arcabouço normativo se completou. A Portaria nº 1.237-C Ex, de 23 de novembro de 2020, que aprova a Diretriz Geral de Comunicação Estratégica no Âmbito do Exército, consolida e integra conceitos, responsabilidades e ações a realizar. Vencida a etapa da sistematização, o momento seguinte é o da concretização das ideias em objetivos, ações, metas e indicadores. Para isso, há necessidade de acurada análise do ambiente informacional. E essa tarefa, diante dos desafios vivenciados neste início de terceiro milênio, requer maturidade estratégica. A dificuldade de interpretação da conjuntura demanda permanente consciência situacional para o entendimento do nível adequado de posicionamento à tomada de decisão. Uma força, que transita dos níveis tático e operacional do campo de batalha aos político e estratégico da definição de objetivos organizacionais e da obtenção dos meios correspondentes, impõe aos seus agentes da comunicação estratégica a realização de constante ESAON[2]. A propósito do uso deste acrônimo tão peculiar ao Exército, cabe ressaltar que o recurso a esse expediente para simplificar o entendimento e a memorização de conceitos vem de longa data, mas tem-se intensificado com o volume extraordinário de informações disponibilizado na Era do Conhecimento. Por serem úteis ao tema deste artigo, serão discutidos o VUCA e o BANI. O chamado Mundo VUCA (volátil, “uncertain”/incerto, complexo e ambíguo) popularizou-se na virada do milênio, sintetizando a imprecisão de cenários gradativamente aprofundada no pós-guerra. Esse conceito tem sido empregado em trabalhos acadêmicos, no meio corporativo e pelos mais variados órgãos e agências, incluindo-se as forças militares. Lidar com as ideias de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para se estruturar a comunicação estratégica do Exército é como realizar o ESAON em terreno movediço. O importante agora pode tornar-se rapidamente irrelevante, o que é neste momento pode não ser daqui a pouco, as conexões são múltiplas, o inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo, aliás, quem é amigo de quem? E daí? Como sair desse atoleiro? O estudo do lanço[3], neste caso, perde qualquer noção de simplicidade. Analisar essas características pode ser útil, se não para a obtenção de balizamento mais claro ao planejamento, pelo menos para se evitar certas armadilhas capazes de turvar o pensamento e as atitudes. Se é lícito supor que estamos diante de ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, é indispensável que os diversos sistemas que compõem a Instituição sejam integrados, alinhados e sincronizados. Se entendermos a comunicação estratégica como um sistema de sistemas, podemos reduzir significativamente as ameaças e potencializar o aproveitamento das oportunidades, com vistas à consecução dos objetivos estratégicos do Exército. Mas o que parecia complicado ficou ainda mais instigante. Em 2018, o norte-americano Jamais Cascio, a partir da premissa de que o Mundo VUCA não favorecia mais o entendimento acerca da conjuntura atual, cunhou o acrônimo BANI (“brittle”/frágil, ansioso, não linear e incompreensível), que também logrou se popularizar, impulsionado pela perplexidade causada pela pandemia da COVID-19. Em sua visão, o Mundo VUCA admite a ideia de planejamento, desde que considerada a interligação de múltiplos sistemas; quando isso não funciona, surge o Mundo BANI, para expressar o caos resultante e nos fazer refletir sobre a necessidade de esboçar cenários capazes de nos proporcionar caminhos plausíveis a seguir. Ainda assim, cabe a pergunta: e daí? Como lidar com isso? Longe de cair em desânimo, é necessário aprimorar nosso ESAON, nossa capacidade de interpretação da realidade, a fim de se evitar a mera aceitação dessas características globais como condicionantes incontornáveis. Se o mundo é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, enfim, caótico, é necessário desenvolver resiliência e flexibilidade compatíveis para o enfrentamento de múltiplos cenários com um mínimo de orientação quanto à melhor trajetória a adotar. E a comunicação estratégica se impõe como absolutamente necessária a uma Força que não pode se fragilizar, que deve reagir com sereno rigor, sem dar vez à ansiedade, que deve lidar com um amplo espectro de atuação, e que precisa fazer-se compreender pelos diversos públicos de interesse. Se os mundos VUCA e BANI ainda não tiverem despertado suficiente inquietação, que tal uma provocação ao pensamento crítico? No que diz respeito ao entendimento da dimensão informacional, sugiro cunharmos outro acrônimo: PSIC! Não, talvez não seja o que sugere. Não se trata de rotular o ambiente como psicótico, desconectado da realidade. Para muitos pode ser isso mesmo, mas o que tenho observado é que estamos diante de um mundo precipitado, superficial, imediatista e conturbado. A precipitação é um mal recorrente na comunicação. Se antes, a volúpia de certos órgãos de mídia e jornalistas pelos furos de reportagem, muitas vezes sem a devida checagem, produzia danos de difícil reparação à veracidade dos fatos; hoje, com a disseminação das mídias sociais, essa mazela aumenta de modo exponencial, com inúmeros conteúdos sendo disparados sem o menor cuidado. Demonstrar estar bem informado é um dos traços de vaidade mais comumente observados. Para o Exército, alvo contumaz de matérias precipitadas, outra faceta dessa característica é que ela também afeta seu próprio público interno. E disciplinar essa questão é tarefa imperiosa para a comunicação estratégica. Assim como se adota a Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) como etapa indispensável à utilização do armamento, tem-se que atribuir a mesma prioridade à instrução com vistas ao emprego das ferramentas de comunicação digital[4]. Enviar ou encaminhar uma mensagem com um simples toque na tela de um smartphone pode ser tão crítico quanto acionar o gatilho de uma arma. Já a superficialidade é o reino da “água na canela”. A mídia recorre sistematicamente a especialistas. Alguns não passam de embusteiros que se autointitulam como tal e mal sabem do que estão falando. Não raro, influenciam opiniões a partir de platitudes acacianas. Pior, ainda, é quando por trás desses pseudoespecialistas se encontra a má-fé, com o objetivo de manchar reputações pessoais e institucionais, tratando-se temas complexos e sensíveis sem nenhuma profundidade de análise. No caso dos assuntos militares, esse problema se agrava, pois não são muitos os autênticos especialistas capazes de discuti-los com isenção e propriedade. O imediatismo grassa no meio informacional. O que importa é a obtenção de resultados no curto prazo. Sacrifica-se a construção de bases sólidas de relacionamentos institucionais e de relações de confiança. Parece não haver mais paciência para, de modo continuado, colher-se no futuro o que se semeia no presente. Para a comunicação estratégica do Exército, instituição cujo caráter permanente é constitucional, esse fenômeno tem-se caracterizado como de mão dupla, e precisa ser enfrentado sistematicamente. Pessoas e percepções são passageiras; o Exército, segue adiante. A conturbação tem encontrado terreno fértil na polarização exacerbada que tem caracterizado as relações sociais por todo o mundo. O que se observa é a preferência pelo dissenso em detrimento do consenso, a primazia das controvérsias e o desprezo pelo diálogo. Esse comportamento chama a atenção em certas plataformas de mídias sociais, onde o que mais se encontra são ofensas e demonstrações de intolerância. Na chamada mídia tradicional não é diferente. Certas matérias mais se assemelham a provocações irresponsáveis, alimentadas por atípicos bombeiros, que apagam incêndio com gasolina. É preciso reagir com lucidez a esse desafio. Se considerarmos como premissa que “quem me irrita me domina”, responder a certos provocadores pode ser exatamente a resposta por eles esperada. A maturidade proporcionada pela comunicação estratégica – alinhada, integrada e sincronizada – pode indicar a melhor linha de ação a adotar. Em síntese, ao combinarmos as características da realidade atual, plasmadas nos acrônimos discutidos neste artigo – VUCA, BANI e PSIC –, percebemos o quão desafiador é obter a consciência situacional necessária à tomada de decisões com base na dimensão informacional. As atividades de inteligência e de comunicação social, integradas a outras capacidades e aos centros de estudo e pesquisa, valendo-se de ferramentas adequadas e em permanente conexão, são imprescindíveis. Os trabalhos realizados no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), do EME, bem como no Instituto Meira Mattos (IMM) e no Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), da ECEME, são exemplos de subsídios relevantes para a concretização da comunicação estratégica do Exército. Por fim, é de se destacar que, ante a carência de referências típica desta época em que vivemos, há que se fortalecer o ethos militar, única garantia de preservação da autenticidade e da relevância da Instituição. Além do desenvolvimento de competências pessoais e de capacidades organizacionais, o que é fundamental para se fazer um adequado ESAON, com vistas à melhor condução da comunicação estratégica, nos ambientes VUCA, BANI, ou até mesmo PSIC, é a permanente observância dos princípios éticos e dos valores morais que têm notabilizado o Exército Brasileiro ao longo de sua extraordinária trajetória histórica. 2. O Mundo PSIC e a Ética Militar https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar Em abril do ano passado, em artigo publicado neste blogi, provoquei o pensamento crítico dos leitores com a cunhagem do acrônimo PSIC, para caracterizar o ambiente informacional da atualidade. Decorridos dez meses, retorno ao tema, por constatar que a precipitação, a superficialidade, o imediatismo e a conturbação atingiram patamares consideráveis, devido ao comportamento de muitos civis e militares, quando o assunto abordado é o papel desempenhado pelas forças armadas no cenário nacional. Tratando especificamente do Exército Brasileiro, cabe relembrar que sua História, cuja gênese remonta às Batalhas dos Guararapes, confunde-se com a própria evolução histórica do País. A atuação da Força Terrestre é ampla e abrangente, cobrindo nosso território de dimensões continentais com o braço forte e a mão amiga, o que exige tomada de decisões desde os níveis político e estratégico aos ambientes operacional e tático. A cada um desses níveis correspondem especificidades no que tange ao estudo de situação e à liderança. É bem sabido que não há solução tática capaz de corrigir uma formulação estratégica inadequada. E é indispensável destacar que só se chega aos mais altos postos percorrendo-se todos os graus hierárquicos, após décadas de dedicação à carreira das armas. Ninguém ingressa no Exército como general! Essa óbvia constatação é importante para que se compreenda o contexto ético-profissional que distingue a carreira militar. Hierarquia e disciplina, bases institucionais constantes em nossa Lei Magna, representam a própria essência da força armada. São conceitos que traduzem o exato cumprimento do dever e o respeito à cadeia de comando, composta por autoridades, em todos os escalões da estrutura da Força, que alcançam determinada posição, tendo experimentado as vicissitudes de seus subordinados. Esse arcabouço ético também é composto pelos valores indispensáveis a quem se dispõe a seguir a vida militar: patriotismo, coragem, lealdade, camaradagem, espírito de corpo, fé na missão, entre outros. Esses valores, ainda que universais, podem manifestar-se de modo distinto, conforme o nível de atuação considerado. A coragem esperada de um comandante tático, por exemplo, não se expressa da mesma forma que a de um líder no nível estratégico. Semelhante na essência, distingue-se na demonstração. Se do primeiro se requer o acatamento imediato da ordem recebida para conduzir seus subordinados ao cumprimento da missão; do outro se espera firmeza na defesa de princípios e valores, de tal forma que, por vezes, dizer "não" pressupõe muito mais coragem do que alinhar-se a eventuais pressões de caráter político. E o que o Mundo PSIC tem a ver com isso? Tudo! Pois é exatamente na dimensão informacional que temos assistido a condutas em desacordo com a ética militar por parte daqueles que, por indignação, ingenuidade, desconhecimento e, até mesmo, má-fé, têm contribuído para disseminar a desinformação, a relativização de valores e, consequentemente, a desunião que enfraquece o espírito de corpo. Fica a pergunta: a que interesses servem tais pessoas? Analisando-se o que têm expressado, via de regra em mídias sociais e aplicativos de mensagens, que adicionaram a comodidade do anonimato a esse tipo de atitude, facilmente se identificam as componentes PSIC. A precipitação é marca típica desse ambiente repleto de meias-verdades e fake news, onde se disparam e replicam mensagens sem a menor preocupação com a veracidade dos fatos e a idoneidade das fontes. Toma-se como verdade, de modo absolutamente irresponsável, conteúdos com juízos de valor destinados ao ataque a reputações e à crítica a decisões dos escalões superiores. Iniciado o processo, que é realimentado por “gatilhadas” digitais, o que se produz é uma verdadeira marcha da insensatez. A um militar que se preza não se permite essa falta de cuidado e de lealdade para com a instituição a que serve. A superficialidade é outro aspecto dissonante do comportamento ético. A atividade militar é, por natureza, grave e complexa. Em tempos de paz ou de conflito armado, lida-se com o poder dissuasório da Nação. Soluções simples para problemas complexos não são a regra. Tratar o emprego do Exército com base em análises simplórias de “especialistas” de ocasião, é o caminho mais seguro para se chegar a concepções inoportunas, parciais e ineficazes, o que é inadmissível por quem quer que tenha um mínimo de seriedade no processo de tomada de decisão. Quando um militar extrapola a esfera de suas atribuições, e passa a opinar publicamente sobre o que não é de sua competência, contribui para o descrédito na cadeia de comando e no cumprimento da missão. O imediatismo, por princípio, não se coaduna com o caráter permanente atribuído às forças armadas no texto constitucional. A relação custo-benefício de se trocar ganhos imediatos por duradouros resultados positivos costuma caracterizar vitória de Pirro. Os preceitos da ética militar indicam claramente que não se pode prejudicar a reputação e a credibilidade do Exército, conquistadas em séculos de História, por conta do oportunismo de uns e do jogo de interesses de outros, algo que tem sido observado em inúmeras postagens veiculadas em tempos recentes. A conturbação talvez seja o aspecto mais danoso do Mundo PSIC. A excessiva polarização da sociedade e a atuação dos extremos do espectro ideológico no ambiente informacional têm gerado visões radicais, resultando num círculo vicioso de intolerância e de absoluta ausência de diálogo. Essa situação é inaceitável aos membros de uma instituição apartidária, que se orgulha de oferecer oportunidades a todos os brasileiros, sem distinção de classe social, raça, gênero e credo. O inconformismo com a tradicional postura legalista e de neutralidade do Exército tem dado ensejo a insultos a camaradas de longa data, ataques a reputações típicos de regimes totalitários, “vazamentos” de supostas informações, divulgação de memes difamatórios, tudo para tentar atingir a coesão da Força, em flagrante traição ao sacrossanto respeito à hierarquia e à disciplina. Sendo os recursos humanos a força da nossa Força, é imperioso reafirmar diuturnamente a essencialidade da prática e do culto aos princípios e valores característicos da profissão militar para o aprimoramento da capacidade operacional necessária ao cumprimento de suas diversas missões. 3. A Liderança Estratégica ante os Desafios do Mundo PSIC https://eblog.eb.mil.br/w/a-lideranca-estrategica-ante-os-desafios-do-mundo-psic Em artigos anteriores, procurei caracterizar o ambiente informacional da atualidade por meio do acrônimo PSIC (precipitado, superficial, imediatista, conturbado), apreciando seus reflexos para a comunicação estratégica do Exército[5] e para a ética militar[6]. Neste trabalho, volto a abordar esse tema do Mundo PSIC, agora, sob o enfoque da liderança estratégica. Com efeito, se essas características PSIC devem merecer atenção no planejamento e na execução da comunicação do Exército, bem como suscitar reflexões de caráter ético-profissional, é natural que o exercício da liderança militar também possa sofrer consequências desse fenômeno. Comunicação, ética e liderança são abordagens indissociáveis, ainda mais nestes tempos de profundas mudanças nas relações sociais, provocadas pelos avanços que temos observado na tecnologia da informação. O exercício da liderança militar, em qualquer nível, pressupõe coragem e integridade de caráter plenamente reconhecidas. Quando se emprega a liderança direta, é possível mais facilmente superar óbices à percepção desses pressupostos, uma vez que a comunicação é menos suscetível a ruídos e manipulações. A força do exemplo se faz mais presente. Entretanto, quando lidamos com o nível estratégico, há variáveis mais difíceis de se controlar, o ambiente é mais complexo, e o distanciamento físico amplia o desafio de se influenciar comportamentos e direcionar esforços para a conquista de objetivos institucionais. O caráter digital e virtual do ambiente informacional PSIC potencializa as limitações da liderança indireta. Historicamente, os meios de comunicação de massa vinham se consolidando segundo uma lógica socioeconômica top-down. Foi assim com a mídia impressa, com o rádio, com a televisão – aberta e por assinatura –, e com a rede mundial de computadores. Entretanto, quando a telefonia celular e a internet se combinaram em smartphones, de aquisição amplamente disseminada, essa lógica deixou de prevalecer, uma vez que pessoas dos mais diversos estratos sociais passaram a desfrutar simultaneamente dessa ferramenta de produção e de difusão instantânea de conteúdos e mensagens. Esse fenômeno é de extrema relevância para a compreensão dos desafios enfrentados pela liderança estratégica, particularmente em uma Instituição de Estado, que tem na hierarquia um de seus alicerces. Qualquer que seja a abordagem adotada acerca da temática da liderança, é inquestionável que o conhecimento exerce papel primordial. O exercício da liderança, de modo geral, requer competências que proporcionem correta análise do ambiente considerado e adequada visão dos caminhos a seguir. No nível estratégico, mais incerto e complexo, a obtenção de razoável consciência situacional constitui requisito ainda mais crítico para o êxito. Em meio a um acúmulo exponencial de informações, veiculadas por intermédio de uma incontrolável massa de mídias, a questão que se impõe é separar o essencial do supérfluo, o significativo do irrelevante e o autêntico do falso ou distorcido. E essa tarefa é extremamente desafiadora, pois ao líder não é mais proporcionado tempo suficiente para a necessária reflexão, para ser proativo em vez de reativo, para elaborar a estratégia de comunicação adequada. A instantaneidade, a rapidez e o volume de dados disponibilizados no ambiente informacional escapam à lógica hierárquica e acarretam para a liderança um ciclo frenético de interpretação de dados e de tomada de decisões, de modo a que seja exercida com acerto e oportunidade. Para isso, é necessário identificar e contornar as armadilhas do Mundo PSIC. A precipitação conspira contra o senso de oportunidade. Sendo o tempo um dos fatores da decisão, há que se resistir a conclusões antecipadas, devido à disseminação indiscriminada da informação a níveis que não tenham competência funcional para realizar adequada análise da situação. O impulso de rapidamente se livrar de um problema ou atender ao clamor de bolhas midiáticas pode acarretar sérios prejuízos ao processo decisório. O líder estratégico precisa enfrentar com serenidade a tendência atual de agir apressadamente e preservar a capacidade de controlar os anseios daqueles a quem deve conduzir. Deve sempre se valer do ESAON3[7]. Navegar, ou seja, percorrer o caminho selecionado não pode ser um ato impensado. Deve ser o coroamento de todo um processo consciente, pautado pela ponderação e pelo equilíbrio. A superficialidade impede a obtenção do grau de conhecimento requerido para se analisar uma situação e se chegar à melhor decisão. A consciência situacional plena requer estudo abalizado. Não há como equacionar problemas complexos, como costumam ser os de nível estratégico, com informações insuficientes ou incompletas. Simplicidade é princípio de guerra. Permite descomplicar a solução, particularmente devido ao modo de se comunicar o que precisa ser feito. Simplismo, ao contrário, revela carência de fundamentos, sem levar em consideração aspectos essenciais à compreensão do ambiente. O líder precisa conhecer em profundidade a realidade a enfrentar, cercando-se de assessores zelosos, e não de meros repetidores de ideias e opiniões de “especialistas” e influencers, encontradas em profusão nas plataformas digitais. O imediatismo obscurece a visão de futuro, uma das componentes primordiais da liderança estratégica. As decisões de caráter estratégico exigem mais persistência no tempo e mais abrangência no espaço. Vantagens momentâneas raramente são sustentáveis, tampouco atendem a todos os aspectos envolvidos na análise da questão. Tendências de longo prazo devem sobrepujar percepções passageiras. É necessário semear para que se possa colher. E isso requer desprendimento, paciência e compreensão histórica. O líder estratégico precisa fazer escolhas que nem sempre lhe permitirão desfrutar dos resultados em curto prazo, mas a responsabilidade e o compromisso com as gerações vindouras impõem a humildade de preparar o terreno para que outros eventualmente colham os louros. A conturbação afeta a capacidade que se requer de um líder de conciliar múltiplos e diversos interesses na busca de um propósito comum. A polarização da sociedade, os posicionamentos radicais, o desprezo pelo diálogo e a cultura do cancelamento e linchamento nas redes virtuais têm causado sérias restrições ao exercício da liderança. No meio militar, esse tipo de comportamento atenta contra a hierarquia e a disciplina e compromete a coesão. Ambientes conturbados geram círculos viciosos de preconceitos, ofensas e retaliações, que subtraem energia e desviam o foco dos legítimos anseios coletivos e dos objetivos estratégicos a serem alcançados. A liderança estratégica demanda resiliência para sobrepujar essas questões limitadas e dispersivas. Como se pode observar, o exercício da liderança estratégica tem sido confrontado por características próprias do ambiente informacional altamente digitalizado da atualidade, que tenho identificado como Mundo PSIC. Assim como sugerido nos trabalhos anteriores, é necessário compreender essa questão a fim de se encontrar as respostas mais adequadas ao desafio que representa. De modo conclusivo, identifico na trilogia liderança estratégica – ética militar – comunicação estratégica o arcabouço mais indicado para se analisar o ambiente informacional de nossos dias e melhor compreender a realidade em que estamos inseridos, a fim de que se possam encontrar soluções integradas, alinhadas e sincronizadas para o amplo espectro de atuação do Exército, em face da relevância, da complexidade e da variedade das missões que lhe são atribuídas pela Nação Brasileira. [1] Definição proposta em artigo publicado após apresentação sobre o tema no XXI Ciclo de Estudos Estratégicos da ECEME, em julho de 2019 (Nunes, R. F. A Comunicação Estratégica do Exército e a Dimensão Informacional. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 13, n. 48, p. v-xi, 8 nov. 2019.) [2] Significa estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se e navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. [3] Em situação de combate, para progredir no terreno, o militar deve condicionar-se a responder aos seguintes questionamentos: Para onde vou? Por onde vou? Como vou? Quando vou? [4] Em 2020, por proposta do CCOMSEx, o COTER aprovou o Caderno de Instrução de Comunicação Social – Formação Básica, que orienta a instrução a ser ministrada a todos os militares incorporados ao Exército acerca deste e de outros assuntos correlatos. [5] O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito. [6] O Mundo PSIC e a Ética Militar, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar. [7] Acrônimo usual no Exército para Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se e Navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.
Análise sobre o V Encontro da Rede Nordeste de Estudos Estratégicos e Inovação - Inteligência Artificial, Tecnologias Quânticas e Soberania Digital
Organizado por Eduardo Xavier Ferreira Glaser MigonPós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Engenharia Nuclear (IME). Apresentação A era digital redefiniu os contornos da soberania nacional, elevando a inteligência artificial (IA), as tecnologias quânticas e a cibersegurança a pilares inegociáveis da defesa e do desenvolvimento. Em novembro de 2024, o Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV) iniciou um debate crucial ao relatar o seminário do Instituto Militar de Engenharia (IME), que inaugurou, em âmbito nacional, nas Forças Armadas, a discussão sobre a convergência entre IA e Defesa. Dando continuidade a essa reflexão estratégica, o presente trabalho aprofunda a análise, agora sob a ótica do V Encontro da Rede Nordeste de Estudos Estratégicos e Inovação (ERENEEI), realizado pelo Comando Militar do Nordeste (CMNE), em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O V ERENEEI não apenas regionalizou o debate, mas também sinalizou uma transição fundamental: da visão estratégica para a capacidade de execução. Em um cenário global marcado por uma intensa corrida tecnológica e por ameaças híbridas cada vez mais sofisticadas – que vão desde ataques cibernéticos a infraestruturas críticas até campanhas de desinformação em larga escala –, a capacidade de um Estado de controlar seus dados, infraestrutura e fluxos algorítmicos sem coerção externa tornou-se um imperativo. O Brasil, com suas dimensões continentais e sua crescente inserção no cenário internacional, precisa consolidar sua autonomia tecnológica para salvaguardar seus interesses e sua soberania. Esta análise crítica do V ERENEEI, que integra as primeiras entregas do projeto de pesquisa ‘Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas na Doutrina Militar Terrestre: Desafios Conceituais Associados ao Preparo e Emprego do Exército do Futuro’, financiado pelo Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), busca ir além do relato. Examinar detalhadamente as palestras, os debates e as propostas apresentadas, com o objetivo de identificar os avanços alcançados, as lacunas persistentes e os desafios que ainda precisam ser superados para que o Brasil possa, de fato, converter o conhecimento científico em soluções operacionais de alto impacto. 1 O V ERENEEI no panorama da soberania digital brasileira Realizado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o V ERENEEI congregou oficiais-generais, oficiais, pesquisadores de dezoito Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), executivos de startups dual-use e representantes de várias agências federais de fomento. Desde sua abertura, ficou explícita a ambição de transformar o Nordeste em um “laboratório vivo” para o desenvolvimento e teste de soluções em IA, computação quântica e cibersegurança. Essa vocação é reforçada pela estratégica malha de cabos submarinos da região e por um ecossistema universitário em franca expansão, que, juntos, criam um ambiente propício para a inovação. O maior diferencial do evento, contudo, foi a integração efetiva de atores da quádrupla hélice: Estado, Academia, Indústria e Sociedade Civil. Representantes desses quatro pilares não apenas dividiram todas as mesas de debate, mas também trocaram métricas e firmaram compromissos concretos. Tal articulação consolida a lógica da “tetra hélice”, um modelo indispensável para converter o conhecimento científico em capacidade operacional robusta no domínio cibernético. O avanço vertiginoso da IA, hoje capaz de gerar deepfakes convincentes, potencializar malwares polimórficos e automatizar ataques a infraestruturas críticas, torna a soberania digital um requisito inegociável para qualquer estratégia de Defesa Nacional. Nesse contexto, o alinhamento demonstrado entre o Exército Brasileiro (especificamente o CMNE), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Finep, a Embrapii e a RNP sinaliza que o País está, de fato, estruturando os instrumentos doutrinários, orçamentários e produtivos necessários para a proteção eficaz do ciberespaço. 2 Sessões científicas e debates estratégicos: uma análise aprofundada As vinte conferências apresentadas no V ERENEEI ofereceram um panorama abrangente e multifacetado sobre os desafios e oportunidades da soberania digital. A seguir, apresentamos uma síntese narrativa e analítica, agrupando as discussões em blocos temáticos para maior clareza e profundidade. 2.1 Fundamentos e Estratégias para a Defesa Cibernética e Tecnológica General de Exército Ribeiro (Comando Militar do Nordeste) – “Objetivo Nacional de Defesa, Setores Estratégicos e Defesa Cibernética” O General Ribeiro iniciou sua exposição contextualizando a Política e a Estratégia Nacionais de Defesa, reiterando que o ciberespaço, desde o Decreto 6.703/2008, figura como um pilar irrenunciável da soberania brasileira, ao lado dos domínios nuclear e espacial. Ele mapeou as vulnerabilidades do Brasil, que vão desde a sabotagem de cabos submarinos e a proliferação de dispositivos IoT mal configurados no agronegócio, até a desinformação em larga escala. Sua defesa central foi a migração de uma postura meramente reativa para uma dissuasão ativa, sustentada por algoritmos de IA proprietários e pela ampliação da tríplice hélice (Forças Armadas, universidades e indústria) para reduzir dependências tecnológicas. O General enfatizou que o CMNE oferece um terreno ideal para exercícios regionais de resposta a incidentes, mas alertou que, sem um orçamento plurianual e uma cultura de reporte de incidentes compatível com padrões da OTAN, a dissuasão permanecerá no campo da retórica. Propôs, então, a criação de um Centro Experimental de Ciberresiliência no Nordeste, que integraria chips soberanos e laboratórios de IA adversária, um passo crucial para mitigar a dependência de software estrangeiro e garantir acesso a hardware seguro. A dependência de semicondutores importados, que representa um “risco existencial”, exige o fomento a uma design house nacional e à litografia sub-10 nm, com o Nordeste podendo abrigar data centers soberanos alimentados por energia limpa para IA de defesa e administração pública. Hamilton J. Mendes (MCTI/SETAD) – “Plano IA para o Bem de Todos & IBQuantum” Representando o MCTI, Hamilton Mendes detalhou os ambiciosos investimentos federais em IA e tecnologias quânticas. O “Plano IA para o Bem de Todos 2024-2028” prevê R$ 6,9 bilhões para 31 metas, incluindo a implantação de um supercomputador petaescala movido a energia solar no Nordeste, clusters GPU em 18 institutos federais e a digitalização de acervos acadêmicos para treinamento de Large Language Models (LLMs). Destacou a criação de dez “Casas da Inteligência Artificial” em capitais nordestinas, com o objetivo de formar 20 mil desenvolvedores por ano, focando em cibersegurança, agroclima e medicina tropical. Na vertente quântica, a proposta “IBQuantum” é um programa decenal de R$ 5 bilhões, focado em sensores gravitacionais para defesa, distribuição quântica de chaves (QKD) em cabos costeiros e um protótipo nacional de computador quântico supercondutor de 100 qubits. Mendes reconheceu a lacuna em hardware, com apenas 12% das startups aceleradas tendo acesso a GPUs de ponta, o que levou o MCTI a negociar transferência de tecnologia com fabricantes asiáticos. A leitura crítica de sua apresentação indica um avanço federal robusto, especialmente ao atrelar a política industrial verde à autonomia digital. Contudo, a ausência de uma meta vinculante de compras governamentais, para criar um mercado inicial para esses hardwares ainda é um desafio. A urgência em formar projetistas de circuitos quânticos e a importância da diplomacia científica, com negociações para um Quantum Testbed em Salvador-BA e acordos de compartilhamento de patentes no BRICS-Tech, foram pontos cruciais de sua fala. General de Brigada Luís Carlos (Comando de Defesa Cibernética) – “Fortalecimento da Soberania Digital por meio de IA e Ciberdefesa” O General Luís Carlos apresentou uma das exposições mais abrangentes, definindo soberania digital como “o direito e a capacidade de um Estado controlar seus dados, infraestrutura e fluxos algorítmicos sem coerção externa”. Ele mapeou um panorama de ameaças emergentes, como deepfakes eleitorais, ransomware segmentado para utilities e exploração de zero-days em sistemas ferroviários. Ao comparar os investimentos em IA para defesa de potências como EUA (US$ 17 bi em 2025) e China (US$ 16 bi) com o Brasil (R$ 1,2 bi), o general posicionou o País na 30ª colocação do Global AI Index, atribuindo o atraso a gargalos de semicondutores e à fuga de mentes brilhantes. Apresentou o organograma reformulado do ComDCiber, incluindo o Centro de Guerra Eletrônica, a Escola Nacional de Defesa Cibernética (ENaDCiber) e um novo Laboratório de Avaliação de IA Adversária. Relatou o desempenho brasileiro em exercícios internacionais, como o 4º lugar no Cyber Flag 2025 (EUA) e a melhor pontuação em defesa de SCADA no Locked Shields 2025 (OTAN), justificando a ambição de sediar, em 2027, o primeiro grande exercício de ciberdefesa latino-americano integrado às simulações de IA generativa. O general ainda sustentou que a IA eleva a ciberdefesa a um patamar de velocidade inalcançável ao fator humano, com modelos de deep reinforcement learning prevendo ataques com horas de antecedência. Contudo, alertou para a face adversária da IA, capaz de gerar malware polimórfico em minutos. Defendeu um programa de chips soberanos (FPGA, design house de RISC-V para criptografia pós-quântica) e a transformação da ENaDCiber em Escola Superior de Soberania Digital. No plano normativo, indicou a necessidade de regulamentar o PL 2338/23 (Marco Legal de IA) sob a perspectiva de defesa, sugerindo um “Código de Conduta Algorítmica” para algoritmos de Defesa. Sua fala reforçou que “soberania digital não é atributo declaratório, mas ativo que se conquista diariamente”, conclamando indústria, academia e governo a acelerar a construção de um ecossistema endógeno de IA confiável. Prof. Edmar Gurjão (Universidade Federal de Campina Grande) – “Panorama das Pesquisas Cibernéticas no Brasil” O Professor Edmar Gurjão da UFCG e coordenador do Observatório de Cibersegurança, apresentou um diagnóstico inédito do ecossistema nacional de pesquisa, desenvolvimento e inovação em cibersegurança. Seu levantamento revelou 106 grupos de pesquisa cadastrados no CNPq que mencionam “cibersegurança”, mas apenas 49 mantiveram publicações ou projetos ativos nos últimos três anos. A densidade regional é desigual, com o Sudeste respondendo por 57% das iniciativas e o Nordeste por 18%. As bases de dados do INPI indicam 71 patentes relacionadas à segurança cibernética deferidas em 2023, mas menos de 5% referem-se a software embarcado para defesa. Gurjão destacou a ausência de um organismo nacional para articular prioridades de pesquisa, sugerindo a criação de uma “Agência Brasileira de Cibersegurança Aplicada” subordinada ao Ministério da Defesa e ao MCTI, argumentando que a dispersão de esforços reduz a competitividade. Analisou o marco regulatório (PNSI, E-Ciber, ANPD, Comitê Nacional de Cibersegurança), considerando-o sólido, mas apontou a falta de indicadores de desempenho claros e orçamento dedicado. Mapeou iniciativas industriais como o Febraban CyberLab e o Hub de Segurança Digital do Porto Digital, avaliando que a integração desses pólos ao ComDCiber poderia acelerar tecnologias TRL 7-9. Entre os temas emergentes, destacou criptografia pós-quântica e segurança em sistemas autônomos, sublinhando a urgência de proteger cabos submarinos, por onde passa 97% do tráfego internacional de dados do Brasil. Concluiu propondo a criação de um Cybersec Map interativo, que integraria metadados de laboratórios, linhas de pesquisa, patentes e necessidades da indústria, permitindo políticas de fomento baseadas em evidências e a atração de talentos para o Nordeste. 2.2 Aplicações e Inovação: O Impacto da Tecnologia em Diversos Setores General de Divisão Engenheiro Militar Juraci Galdino (Instituto Militar de Engenharia) – “Geopolítica e Planejamento Estratégico em CT&I: Perspectivas do IME” O General Galdino examinou como os controles internacionais sobre semicondutores, IA e comunicações quânticas impõem ao Brasil um planejamento de longo prazo. Apresentou a matriz “criticidade-maturidade” para priorizar P&D e descreveu programas-âncora como radares AESA e a viatura blindada Guarani autônomo, demonstrando um multiplicador econômico de 3:1 para investimentos em defesa. Sua perspectiva é de mission-oriented research, em que cada linha de pesquisa possui um TRL (Technology Readiness Level), meta econômica e plano de certificação. O ponto crítico, contudo, permanece a ausência de um fundo soberano que blinde o ciclo de inovação contra contingenciamentos orçamentários, garantindo a continuidade de projetos estratégicos. Prof. Gilberto Sousa Filho (Universidade Federal da Paraíba) – “Inteligência Artificial como Ferramenta das Ciências Forenses” O Professor Sousa Filho traçou a evolução da IA forense, apresentando um sistema de detecção de deepfakes de voz com 96% de precisão e um algoritmo de análise de licitações que reduz diligências em 40%. Ele também abordou a correção automática de redações do ENEM via transformers. Contudo, alertou para os desafios de explicabilidade e viés da IA, enfatizando que, sem trilhas de auditoria robustas, decisões judiciais baseadas em IA podem ser contestadas. Propôs a criação de laboratórios de data forensics integrados a órgãos de segurança, uma medida alinhada às boas práticas da OCDE, e antecipou o uso de IA generativa para a reconstrução de cenas criminais, o que demonstra o potencial transformador da IA nesse campo. Prof. Andrey Brito (Universidade Federal de Campina Grande) – “Computação Confidencial: Blindagem de Dados em Ambientes de Nuvem” O Professor Andrey Brito discorreu sobre Trusted Execution Environments (TEEs), como SGX, SEV-SNP e TDX, e sua capacidade de criptografar a memória, permitindo a atestação remota e a redução do chamado “fator administrador”. Ele mostrou casos de uso em treinamento federado de IA na saúde, inferência sigilosa para modelos proprietários e outsourcing seguro de dados críticos. Apontou uma sobrecarga de 5-15% e lacunas de padronização, propondo um selo nacional de conformidade e defendendo que setores regulados exijam computação confidencial como pré-requisito contratual, o que sublinha a importância da segurança e privacidade dos dados em ambientes de nuvem. Wânderson Pio (DHF) – “Plataforma DHF: Análise Preditiva na Saúde” Wânderson Pio apresentou a plataforma DHF, uma solução inovadora que integra chatbot, dashboards preditivos e roteirização inteligente para reduzir o absenteísmo em consultas do SUS. Um piloto municipal demonstrou uma queda de 20% nas faltas a agendamentos de consultas e uma economia anual de R$ 1,2 milhão. O roadmap da plataforma inclui teledermatologia e integração com prontuários eletrônicos, com um modelo de negócio SaaS (Software as a Service) baseado em assinatura per capita, visando um retorno em cinco meses por economia logística. Este exemplo ilustra o potencial da IA para otimizar serviços públicos e gerar impacto social e econômico direto. Alisson Daniel (Arandu Lab) – “Arandu Lab: Aprendizagem 5.0 com IA Interativa” Alisson Daniel detalhou o Arandu Lab, uma plataforma educacional que oferece 20 mil atividades alinhadas à BNCC, gamebooks, vídeos acessíveis e um motor de recomendação adaptativo. Escolas-piloto que utilizaram a plataforma registraram um aumento de 19% na conclusão de tarefas e uma redução de 11% na evasão. A plataforma também oferece dashboards preditivos, cursos de formação docente e detecção de plágio por IA. O plano é alcançar um milhão de usuários em dois anos, expandindo para a América Latina com um modelo de monetização híbrida, demonstrando como a IA pode revolucionar a educação, tornando-a mais personalizada e eficaz. Ten Cel Vítor G. Andrezo (Instituto Militar de Engenharia) – “Impacto das Tecnologias Quânticas sobre o Setor Cibernético” O Tenente-Coronel Vítor G. Andrezo estabeleceu metas ambiciosas para o Brasil no campo das tecnologias quânticas, incluindo um enlace QKD terrestre de 100 km até 2027, um satélite experimental em 2029 e a produção de chips de detecção de fótons únicos. Equilibrando ambição e pragmatismo, Andrezo reconheceu as divergências entre a Agência de Segurança Nacional (NSA) e a QKD, mas sustentou que países com vastos cabos submarinos, como o Brasil, ganham ao combinar QKD e criptografia pós-quântica para proteger suas comunicações. O desafio reside em financiar sensores de fóton único com escala industrial, um passo crucial para a autonomia tecnológica em um domínio tão estratégico. Profa. Andersan dos Santos Paula (Instituto Militar de Engenharia) – “Manufatura Aditiva em Prol da Defesa Nacional” A professora Andersan dos Santos Paula mapeou a evolução da impressão 3D metálica, discutiu suas vantagens logísticas para a Defesa e apresentou projetos em desenvolvimento, como blindagens balísticas e peças de grande porte. Ela insistiu na necessidade de produção nacional de pós metálicos especiais, como o titânio pulverizado, e na criação de uma norma brasileira equivalente à ASTM F42. A análise revela um gargalo significativo na produção desses materiais. A cadeia integrada proposta (Forças Armadas + IME + Base Industrial de Defesa e Segurança - BIDS + universidades) só vingará com incentivos à mineração e metrologia avançada, garantindo a matéria-prima e a qualidade necessárias para a manufatura aditiva em larga escala. Ícaro Emanuel (Universidade Federal da Paraíba) – “Saúde Positiva: IA para Acompanhamento Contínuo em Saúde Mental” Ícaro Emanuel apresentou a plataforma “Saúde Positiva”, que combina um chatbot empático, gamificação e teleconsulta para combater o abandono terapêutico em saúde mental. O acompanhamento de 2.300 pacientes resultou em um aumento de 76% na adesão ao tratamento e uma sensibilidade de predição de crise suicida de 0,89. O modelo de negócio B2B2C (Business-to-Business-to-Consumer), contratado por secretarias, prevê integração futura com wearables e foco na prevenção de burnout corporativo, projetando um faturamento de R$ 2 milhões no segundo ano. Este projeto demonstra o potencial da IA para impactar positivamente a saúde pública, especialmente em áreas sensíveis como a saúde mental. Gutemberg Ramos – “RX Gestão Inteligente: Compliance Fiscal Automatizado” Gutemberg Ramos detalhou o software em nuvem “RX Gestão Inteligente”, que automatiza o EFD-Reinf (Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais) em 230 unidades públicas. A solução resultou em uma redução de 68% nas pendências e evitou R$ 2,3 milhões em multas. O software opera em AWS GovCloud, possui trilha de auditoria imutável e prevê um módulo antifraude para notas de serviço. A proposta é que a adoção estadual transforme o sistema no primeiro ecossistema fiscal digital descentralizado do país, um exemplo claro de como a tecnologia pode otimizar processos burocráticos e gerar economia para o setor público. Cláudio Furtado (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino superior da Paraíba) – “Programa Paraibano de Pesquisa Aplicada em Cibersegurança” Cláudio Furtado anunciou um edital de R$ 1 milhão de reais para dois projetos-âncora em cibersegurança, que devem reunir ICTs (Instituições de Ciência e Tecnologia), empresas da Base Industrial de Defesa e órgãos públicos usuários. O programa prevê a criação de um consórcio estadual de ciberinteligência, a redução do tempo de detecção de incidentes e o surgimento de spin-offs exportadoras de serviços. Também estão previstos bolsas de pós-graduação e cursos de extensão para servidores, demonstrando um esforço coordenado para fortalecer a capacidade local em cibersegurança. Ronaldo Carmona (Financiadora de Estudos e Projetos) – “Fomento Finep à Defesa e o Nordeste como Plataforma Geopolítica” Ronaldo Carmona exibiu a expansão do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a linha “Autonomia Tecnológica em Defesa”, com um aporte de R$ 280 milhões. Ele destacou contratos para radar multimissão, motor hipersônico e satélite submétrico, projetos de alto valor estratégico. Carmona propôs a criação de um corredor tecnológico Fortaleza-Recife-Salvador para semicondutores, sistemas quânticos e IA embarcada, convocando consórcios nordestinos a apresentar projetos alinhados a essas prioridades. Essa visão de um polo tecnológico regional é fundamental para a descentralização e o fortalecimento da base industrial de defesa. Cláudio Schefer (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) – “Modelo Embrapii de Cofinanciamento Ágil para Defesa” Cláudio Schefer detalhou o modelo Embrapii, que permite que empresas negociem projetos com unidades Embrapii em 90 dias, com contrapartida pública de até 50% (70% para Micro e Pequenas Empresas - MPEs). Ele ressaltou que 25 unidades nordestinas estão aptas a atender o ComDCiber e propôs um acordo com o CMNE para testes de protótipos em batalhões locais, visando acelerar o TRL (Technology Readiness Level) de 3 a 7 em três anos. Este modelo de cofinanciamento ágil é crucial para a translação de pesquisa básica para aplicações práticas em defesa. Emilio Nakamura (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) – “RNP: Testbeds e Grupos de Trabalho em Segurança Digital” Emilio Nakamura detalhou os Grupos de Trabalho anuais da RNP em malware, IoT, blockchain e IA adversária, além do projeto ILIADA em identidade descentralizada, o Hub Nacional de Cibersegurança e o programa Hackers do Bem. Ele ofereceu infraestrutura SDN (Software-Defined Networking), clusters Kubernetes e integração à rede óptica de 16.000 km para exercícios militares e pesquisas em criptografia pós-quântica. A infraestrutura da RNP é um ativo valioso para o desenvolvimento e teste de soluções de cibersegurança no Brasil. Thayane Belchior (TrêsBê Delas) – “TrêsBê Delas: Aceleradora de Empreendedorismo Feminino Digital” Thayane Belchior apresentou o programa “TrêsBê Delas”, uma aceleradora que capacita microempreendedoras em marketing, finanças e e-commerce, hospedando lojas virtuais e um gateway de pagamentos inclusivo. Das 500 aceleradas, 90% permanecem ativas, duplicando a receita média em 18 meses e aumentando a arrecadação municipal de ISS em 18%. O programa planeja expandir para 20 cidades, firmar parceria com microcrédito e integrar-se a carteiras digitais, propondo cotas de compras públicas para cadeias de suprimentos femininas treinadas pela aceleradora. Este projeto, embora não diretamente ligado à defesa, demonstra o potencial do empreendedorismo digital para gerar impacto social e econômico, fortalecendo a base tecnológica do país de forma inclusiva. 3 Síntese: Da Visão Estratégica à Execução e o Futuro da Soberania Digital Brasileira O balanço entre o seminário do IME (2024) e o V ERENEEI (2025) confirma uma transição fundamental na abordagem brasileira sobre soberania digital: da visão estratégica para a capacidade de execução. Enquanto o encontro no IME consolidou o enquadramento conceitual de IA, quântica e cibersegurança, o evento em João Pessoa demonstrou um avanço significativo ao apresentar linhas de financiamento operacionais, testbeds funcionais e startups com contratos em vigor. Essa regionalização do debate, aliada à incorporação de métricas socioeconômicas, é um indicativo claro de que o Brasil está amadurecendo sua estratégia de inovação dual-use. A articulação de formulação doutrinária, políticas de fomento e aplicações de mercado, evidenciada no V ERENEEI, fornece ao País um protocolo replicável de inovação. A soberania digital brasileira, portanto, não é um conceito abstrato, mas um ativo que se constrói diariamente, dependendo diretamente da capacidade de converter o conhecimento científico em soluções operacionais que fortaleçam o poder terrestre e gerem externalidades positivas para a sociedade. A integração da quádrupla hélice – Estado, Academia, Indústria e Sociedade Civil – revelou-se um modelo promissor para acelerar os TRLs (Technology Readiness Levels) e aumentar a resiliência nacional. Entretanto, o desafio da coordenação interinstitucional permanece. Para que a tetra hélice atinja seu potencial máximo, é imperativo estabelecer uma governança robusta que assegure um fluxo anticíclico de recursos, padrões de interoperabilidade claros e indicadores de desempenho compartilhados. A ausência de um fundo soberano que blinde o ciclo de inovação contra contingenciamentos orçamentários ainda é um ponto crítico a ser superado. Finalmente, as propostas de um corredor tecnológico Fortaleza-Recife-Salvador para semicondutores e data centers soberanos, alimentados por energia renovável, sugerem que o Nordeste pode converter-se em uma plataforma geopolítica estratégica para o Brasil. Concretizar essa visão exigirá metas ambiciosas de conteúdo local, políticas de compras públicas tecnológicas que estimulem a indústria nacional e um ecossistema regulatório que favoreça a rápida transição de protótipos para o campo de operações. O V ERENEEI não foi apenas um evento, mas um marco que reforça a urgência e a viabilidade de o Brasil consolidar sua autonomia tecnológica, garantindo sua segurança e prosperidade em um cenário global cada vez mais complexo e interconectado. Rio de Janeiro - RJ, 09 de julho 2025.
Análise sobre a China
Organizado por Rodolfo Tristão PinaAssessor do Observatório Militar da Praia Vermelha. Apresentação Quando o presidente chinês Xi Jinping, ao explicar o Segundo Objetivo Centenário do país até 2049, diz que a democracia é um princípio inabalavelmente defendido pelo Partido Comunista Chinês (PCC), ele referenda a expressão: a China é uma democracia com características chinesas. Entender o que isso realmente significa com as lentes do Ocidente é um exercício importante para posicioná-la no cenário internacional. O país continua buscando espaço e reconhecimento, incrementando suas relações bilaterias com antigos aliados e abrindo portas para novas parcerias, a exemplo dos financiamentos chineses aos projetos ligados à produção e distribuição de energia na América Latina. A influência do Governo Chinês nas empresas multinacionais do país é notória, e os métodos utilizados para baratear custos são controversos e, em alguma medida, até desconhecidos, o que gera desconfiança nos principais adversários econômicos, principalmente aos Estados Unidos da América. O fato é que os interesses estratégicos chineses estão acima das ideologias políticas e culturais dos seus parceiros e o que realmente importa são os benefícios e as oportunidades criadas para o país. Em razão das características peculiares de sua política externa, a China ocupa um espaço considerável em análises de muitos think tanks no mundo e o OMPV selecionou alguns artigos que explicitam a participação geopolítica chinesa, os quais ajudarão a entender um pouco mais os interesses do país, principalmente no que tange à Defesa e Segurança. 1 . United States Departament of Defense Military and Security Developments Involving the People’s Republic of China 2024 – Annual Report to Congress – 18 de dezembro de 2024 US Departament of Defense Disponível em: https://media.defense.gov/2024/Dec/18/2003615520/-1/-1/0/MILITARY-AND-SECURITY-DEVELOPMENTS-INVOLVING-THE-PEOPLES-REPUBLIC-OF-CHINA-2024.PDF. Acesso em: 19 de abril de 2025. Resumo: O relatório abrange as estratégias nacional, econômica e militar da China, bem como as capacidades, atividades e objetivos de modernização do Exército de Libertação Popular (PLA). O documento traça o curso da estratégia chinesa, detalhando as capacidades atuais e futuras do PLA, com destaque para a modernização militar acelerada, os avanços tecnológicos, a expansão naval, as parcerias estratégicas e a fusão entre os setores militar e civil (MCF). Avalia o impacto da modernização militar da China na segurança regional e global. Destaca a “grande revitalização da nação chinesa” até 2049, aumentando o poder nacional e revisando a ordem internacional. O relatório estima que Pequim gaste entre 40% a 90% a mais do que anuncia em seu orçamento de defesa público, o que equivale a aproximadamente US$ 330 bilhões a US$ 450 bilhões em gastos totais com defesa para 2024. 2. Center for Strategic and International Studies (CSIS) Could Allies Decide the Future of the Indo-Pacific? - 1º de abril de 2025 Phillips O´Brien Disponível em: https://www.csis.org/analysis/could-allies-decide-future-indo-pacific. Acesso em: 21 de abril de 2025. Resumo: O texto argumenta que as alianças desempenharão um papel crucial na determinação do futuro da região do Indo-Pacífico. O autor questiona a visão tradicional que foca apenas nas capacidades individuais dos EUA e da China, enfatizando que a força e a coesão das alianças serão fatores decisivos. O relatório destaca que, historicamente, as guerras são frequentemente vencidas por alianças mais fortes, e não por potências individuais. Os EUA possuem aliados poderosos no Indo-Pacífico, como o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e Taiwan. No entanto, questiona-se o compromisso desses aliados em defender os interesses uns dos outros e a capacidade dos EUA de coordenar suas ações de forma eficaz. Embora os aliados da China (Rússia e Coreia do Norte) sejam economicamente mais fracos, eles demonstraram maior disposição em fornecer apoio militar e político uns aos outros, sem muitas restrições. 3. International Institute for Strategic Studies (IISS) China´s head –of-state and defence diplomacy – 17 de abril de 2025 Erik Green, Meia Nouwens Disponível em: https://www.iiss.org/online-analysis/charting-china/2025/04/chinas-head-of-state-and-defence-diplomacy/. Acesso em: 24 de abril de 2025. Resumo: Utilizando uma combinação de diplomacia de chefia de Estado e diplomacia de defesa, lideradas pelo próprio Xi Jinping e figuras estabelecidas pela Comissão Militar Central (CMC), a China intensificou esforços para construir influência geopolítica, especialmente em nações vizinhas e do Sul Global. Essas práticas se tornaram ferramentas para consolidar o status chinês no cenário global e desafiar o modelo ocidental de governança internacional. O fortalecimento da postura diplomática funciona como um vetor para viabilizar o intercâmbio tecnológico e alavancar cadeias industriais autônomas. Entre 2023 e 2024, Xi Jinping realizou 13 visitas internacionais (quatro em 2023, nove em 2024). Em contrapartida, a China recebeu 84 chefes de Estado em 2024, sendo 74% deles originários do Sul Global. O Ministro da Defesa Dong Jun e figuras da CMC realizaram 58 reuniões bilaterais com autoridades estrangeiras em 2024. O foco recai fortemente sobre países da Ásia, África Subsaariana e América Latina. The Global Security Initiative: China’s International Policing Activities – 24 de outubro de 2024 Erik Green, Meia Nouwens e Veerle Nouwens Disponível em : https://www.iiss.org/research-paper/2024/10/the-global-security-initiative-chinas-international-policing-activities/. Acesso em: 29 de abril de 2025 Resumo: O governo chinês adota uma estratégia de Iniciativa de Segurança Global (GSI) e vem promovendo parcerias policiais e treinamento, exportando ou doando tecnologias e equipamentos. Da perspectiva da China, tais acordos e atividades visam ajudar a promover a imagem do país como ator legítimo de segurança global, a popularizar as normas e padrões de policiamento e segurança chineses no exterior, a criar condições seguras para investimentos e outros interesses chineses no exterior, e a provar à população chinesa que o governo pode garantir a segurança dos cidadãos fora da China. Há também elementos políticos adicionais nessas iniciativas: a exportação de tecnologia e a integração de técnicos chineses em agências de segurança de países estrangeiros. Isso proporciona à China oportunidades de inteligência, capacidade de conduzir vigilância de cidadãos chineses no exterior, proporcionando a garantir da legitimidade e da segurança contínuas das ações do Partido. 4. Atlantic Council China´s explotation of overseas ports and bases – 21 de março de 2025 Thomas X. Hammes Dísponível em: https://www.atlanticcouncil.org/in-depth-research-reports/issue-brief/chinas-exploitation-of-overseas-ports-and-bases/. Acesso em 28 de abril de 2025. Resumo: Este artigo examina o potencial do Exército de Libertação Popular (ELP) chinês, explora sua crescente rede de portos e bases no exterior e o desafio do controle dos mares em uma possível guerra convencional contra os Estados Unidos. As preocupações de segurança com a propriedade chinesa de portos no exterior se enquadram em três categorias principais. Primeiro, a China coleta vasta quantidade de dados de inteligência por meio de sua rede portuária. Segundo, ela poderia usar essa inteligência e seu controle de portos e píeres importantes para interromper as remessas dos EUA durante a guerra. Finalmente, a China poderia alavancar esses portos para pré-posicionar armas, munições e equipamentos a fim de reabastecer seus navios de guerra e mercantes armados ou estabelecer rapidamente nós de antiacesso/negação de área (A2/AD) perto dos principais pontos de estrangulamento marítimo. Em suma, a China poderia explorar essa rede para disputar o controle dos mares em um conflito armado. 5. Council on Foreign Relations China in the Indo-Pacific: March 2025 – 9 de abril de 2025 Abi Mc Gowan, Aanika Veedon Disponível em: https://www.cfr.org/article/china-indo-pacific-march-2025. Acesso em 29 de abril de 2025. Resumo: Índia e China caminham para a estabilidade das relações, com Modi e Xi Jinping retomando o diálogo direto na cúpula do BRICS. Bangladesh fortalece laços com a China (US$230 milhões em investimentos recentes), enquanto sua relação com a Índia se deteriora, com Pequim assumindo, até mesmo, o setor de saúde, antes dominado pelos indianos. O Paquistão consolida sua parceria estratégica com a China ao ter o primeiro astronauta estrangeiro na Estação Espacial Tiangong e ao receber submarinos avançados. A China expande sua influência no Oceano Índico por meio das Maldivas, preocupando a Índia pela posição estratégica do arquipélago. Após o terremoto em Mianmar, a ajuda humanitária chinesa de US$14 milhões destacou-se, enquanto os EUA estiveram ausentes. Tensões continuam no Mar da China Meridional com demonstrações militares chinesas próximas às Filipinas. A Malásia, sob pressão americana, tenta restringir o fluxo de semicondutores avançados para a China, enquanto o Vietnã aprova a compra de aeronaves chinesas, apesar das controvérsias populares com símbolos territoriais chineses. 6. Rand Corporation Factors Shaping the Future of China's Military – 30 de janeiro de 2025 Mark Cozad, Jennie W. Wenger Disponível em: https://www.rand.org/pubs/research_reports/RRA2618-1.html. Acesso em 25 de abril de 2025. Resumo: O relatório examina como as mudanças demográficas na China, particularmente o declínio da taxa de fertilidade e o envelhecimento da população, impactarão o Exército de Libertação Popular (PLA). Apesar do envelhecimento da população, a China ainda possui uma grande população jovem, embora menor do que no passado. O relatório considera fatores adicionais que influenciam a elegibilidade militar, como nível de educação, saúde e aptidão física. O estudo também aborda o crescimento econômico da China e como ele pode ser afetado pelo envelhecimento da população. O relatório destaca que o PLA enfrenta desafios para atrair talentos com as habilidades necessárias à modernização de suas forças. A cultura do PLA e sua posição na sociedade podem dificultar o recrutamento de indivíduos com os níveis de educação e de aptidão desejados. 7. Chatam House (Royal Institute of International Affairs) Competing visions of international order – 27 de março de 2025 M. Taylor Fravel Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2025/03/competing-visions-international-order/02-china-balancing-us-increasing-global-influence. Acesso em: 30 de abril de 2025. Resumo: O texto explora a visão chinesa da ordem internacional, focando na diminuição da influência dos EUA e na maximização da própria influência global. A China busca o modelo westphaliano baseado em soberania, integridade territorial e não-intervenção, com influência proporcional às capacidades de cada estado. A redução do poder dos EUA é central para a estratégia chinesa, minimizando restrições à sua atuação internacional. A percepção chinesa do poder dos EUA é negativa, intensificada pela crescente competição e enquadramento ideológico de democracia versus autocracia. A China se opõe à imposição de valores ocidentais e considera as alianças dos EUA como ferramentas de poder. A China busca ativamente equilibrar o poder dos EUA por meio da modernização militar, da autossuficiência econômica e do aprofundamento das relações diplomáticas. A iniciativa "Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade" visa promover a visão chinesa de ordem, buscando ativamente a liderança e a influência global. 8. The Japan Institute of International Affairs (JIIA) China's Strategic Integration of Port Development and Military-Civil Fusion: Building Dual-Use Infrastructure to Support China's Goals of Becoming a "Transportation Power" and a "Maritime Power" – 18 de abril de 2025 Takahiro Tsuchiya Disponível em: https://www.jiia.or.jp/en/column/2025/04/prc-maritime-fy2024-01.html. Acesso em: 30 de abril de 2025. Resumo: O relatório analisa a estratégia da China de se tornar uma "potência de transporte" e "potência marítima" através da modernização de seus portos costeiros, simultaneamente implementando a estratégia de "Fusão Civil-Militar" (MCF). Esta abordagem integrada visa maximizar benefícios econômicos em tempos de paz, mantendo a capacidade de conversão rápida para uso militar quando necessário. A MCF incorpora requisitos militares já na fase de design da infraestrutura portuária, enfatizando maior resistência estrutural, capacidade de armazenamento e sistemas de comunicação robustos. Casos exemplares incluem o porto de Tianjin (totalmente automatizado), os portos estratégicos em Hainan (cruciais para operações no Mar do Sul da China) e o desenvolvimento do porto de Qingdao, como zona modelo de inovação em MCF. Através da Iniciativa Cinturão e Rota, a China expandiu investimentos portuários globalmente, incluindo o porto de Gwadar (Paquistão), o porto de Hambantota (Sri Lanka) e a base militar em Djibuti. Estes investimentos, embora apresentados como comerciais, possuem potencial para uso militar dual. Chinese Diplomacy in the Trump 2.0 Era (1): China's Narrative and New Keywords Amid Global Uncertainty – 21 de abril de 2025 Yumi Iijima Disponível em: https://www.jiia.or.jp/en/strategic_comment/2025/04/2025-03.html. Acesso em 30 de abril de 2025 Resumo: O artigo analisa a diplomacia chinesa nos primeiros dois meses da segunda administração Trump, destacando a narrativa da China como força estabilizadora global. Enquanto os EUA geram incertezas com mudanças abruptas de políticas, a China posiciona-se como fonte de "estabilidade" e "certeza", evidenciado nos discursos do Ministro Wang Yi na Conferência de Segurança de Munique e nas coletivas de imprensa. Um novo termo: "grande potência capacitadora" surge no discurso diplomático chinês, sugerindo que o desenvolvimento chinês contribui para o crescimento global, diferente das potências "extrativas" anteriores. A China busca se retratar como construtora da paz, defensora do multilateralismo e do livre comércio. A eficácia dessa narrativa chinesa enfrenta ceticismo no Ocidente devido ao comportamento coercitivo da China com vizinhos. Contudo, a retórica radical de Trump e os cortes em programas como USAID abrem oportunidades para a China fortalecer seu Soft power. Eventos diplomáticos significativos, em 2025, incluem a visita de Xi à Rússia, possível cúpula EUA-China, e conferências sobre igualdade de gênero. Síntese dos artigos É lícito supor que a China não se apresenta como um modelo a ser seguido, mas difunde a necessidade de um revisionismo na ordem internacional, dominada pela narrativa ocidental, ordem essa que, na visão chinesa, é mais utilizada como ferramenta de poder do que propriamente como fonte de estabilidade e desenvolvimento. A China tem uma forma peculiar de empregar seu Soft power pois grande parte dos acordos internacionais ainda são de natureza bilateral, embora o país tenha tentado, nos últimos anos, estabelecer a cooperação multilateral, a exemplo das ações na área policial. O país possui um planejamento estratégico de Estado e, no que tange à Defesa, a China não almeja um confronto global. A cooperação civil-militar tem se mostrado a tônica do propósito de não intervenção internacional, muito embora o aumento do orçamento rivaliza com as dificuldades de recompletamento de quadros técnicos no Exército de Libertação Popular (PLA), em razão da atratividade para talentos em outros setores da sociedade. A China busca sua autossuficiência tecnológica como um componente crítico de sua estratégia nacional. Por outro lado, o país entende a importância das parcerias estratégicas e das alianças para o setor de Defesa e para angariar peso nos fóruns internacionais. A sua política externa tem priorizado criar um entorno regional militarmente fortalecido, sobretudo alinhado aos interesses chineses e de seus aliados. Nesse mister, o desenvolvimento de portos e da indústria marítima ganha fôlego como política de expansão da influência chinesa pelo mundo, com vistas a reforçar alternativas de comércio exterior por mar e diminuir a influência americana. O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade chinesa em gerenciar divergências internas, preservar sua imagem entre parceiros e adaptar suas iniciativas diante de um ambiente geopolítico dinâmico e competitivo. Por fim, a China tem exportado não somente tecnologia, mas também metodologias, processos, normas e procedimentos, o que tem colaborado para divulgar sua cultura organizacional no Ocidente. O Departamento de Defesa americano cita como desafios à estratégia chinesa o equilíbrio entre eficiência econômica e requisitos militares, o aprimoramento da transparência legal e a mitigação dos impactos ambientais e sociais. Resta saber se os chineses também pensam dessa forma. Rio de Janeiro - RJ, 14 de maio 2025. .
A nova dissuasão nuclear
Organizado por Rodolfo Tristão PinaAssessor do Observatório Militar da Praia Vermelha. Apresentação O modelo de dissuasão nuclear que prevaleceu durante a Guerra Fria se baseava no ideário da destruição global, quando do emprego de arsenais nucleares, e na confiança de uma racionalidade cautelosa dos dirigentes políticos dos países detentores desse tipo de arma de destruição. Hoje questionam-se tais premissas à medida em que os avanços tecnológicos e a multipolaridade dominante se apresentam como desafios às definições consagradas que tipificam os armamentos nucleares e convencionais. Tal tema tem sido bastante explorado por muitos think tanks no mundo, no momento em que o novo governo do presidente Donald Trump dos EUA aventa a possibilidade de mudar as prioridades militares junto à OTAN. O OMPV selecionou uma gama de artigos/entrevistas que suscitam a discussão dessa temática e que ajudarão a entender a complexidade do que está em jogo no tabuleiro geopolítico mundial. 1 - Chatham House (Royal Institute of International Affairs) Perspectives on Nuclear Deterrence in the 21st Century - 11 Dez 2020 https://www.chathamhouse.org/2020/04/perspectives-nuclear-deterrence-21st-century-0/human-rationality-and-nuclear-deterrence Resumo: O artigo questiona a racionalidade das lideranças em tempos de crise, sugerindo que a distorção cognitiva, as emoções e as interpretações subjetivas do risco podem influenciar significativamente a tomada de decisão, minando a eficácia dos modelos de dissuasão baseados em teorias de jogos. Argumenta, ainda, a ausência de uso nuclear desde 1945 não deve ser interpretada como prova definitiva da eficácia da dissuasão nuclear, pois considera a possibilidade de que o mundo tenha simplesmente evitado conflitos nucleares por sorte. O autor sugere uma reavaliação das estratégias de segurança que dependem de armas nucleares, considerando o risco de se realizar uma transição para alternativas mais viáveis e seguras. Essa reflexão é essencial à luz da crescente complexidade do cenário internacional e das limitações inerentes à suposição de racionalidade na dissuasão nuclear. A new nuclear order - In conversation with Rafael Mariano Grossi - 7 Fev 23 https://www.chathamhouse.org/events/all/members-event/new-nuclear-order Resumo: Rafael Mariano Grossi discutiu a importância de manter a segurança nuclear na Ucrânia, destacando os esforços da AIEA para evitar acidentes nucleares e apoiar as instalações nucleares do país em um contexto de conflito. Ele mencionou a implantação de missões permanentes da AIEA em reatores ucranianos e o diálogo contínuo com o presidente Zelenskyy para criar uma zona de proteção ao redor da usina de Zaporizhzhia. Grossi destacou os desafios enfrentados devido à militarização dessas instalações e a complexidade de negociar acordos de desmilitarização em zonas de combate ativas. Ele também abordou a questão da legalidade em torno dos ataques a instalações nucleares, enfatizando que já existem restrições legais e protocolos internacionais para proibir tais ações. “Cybersecurity of the civil nuclear sector” - 12 Jul 2024 https://www.chathamhouse.org/2024/07/cybersecurity-civil-nuclear-sector Resumo: Muitos países estão se interessando mais pela energia nuclear como uma maneira de atingir metas ambientais, promover o desenvolvimento econômico e garantir a segurança energética. Durante a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU (COP28) em dezembro de 2023, 25 países, incluindo os EUA e o Reino Unido anunciaram a ambição de triplicar a capacidade de energia nuclear até 2050 para limitar o aquecimento global. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, muitos países ocidentais mudaram suas estratégias de segurança energética, aumentando o interesse global pela energia nuclear para reduzir dependências externas e fortalecer a segurança energética doméstica. Este artigo contribui para o debate, discutindo ameaças e riscos à infraestrutura nuclear civil, o arcabouço legal internacional aplicável e recomendando políticas e melhores práticas para governos e partes interessadas relevantes, focando em prevenir operações cibernéticas maliciosas. France should join NATO’s nuclear sharing arrangements to strengthen European deterrence - 12 Mar 2025 https://www.chathamhouse.org/2025/03/france-should-join-natos-nuclear-sharing-arrangements-strengthen-european-deterrence Resumo: A retórica hostil da administração do presidente Donald Trump em relação à Europa, incluindo sugestões de realocar ou retirar tropas dos EUA, reacendeu debates sobre a dissuasão nuclear europeia. Os europeus estão particularmente preocupados com a potencial retirada das armas nucleares dos EUA estacionadas na Europa, um elemento crucial da dissuasão ampliada da OTAN. Essa mudança na retórica gerou dúvidas sobre o comprometimento dos EUA em apoiar a Europa durante crises, o que é um fator crítico para manter uma postura de dissuasão forte. Várias alternativas foram sugeridas para reduzir a dependência da Europa na dissuasão nuclear dos EUA. O presidente francês Emmanuel Macron propôs estender o guarda-chuva nuclear da França para proteger outros estados europeus. Isso envolveria acordos formais e possivelmente incluiria as forças nucleares do Reino Unido, que já contribuem para o Grupo de Planejamento Nuclear da OTAN. "UK's Nuclear Deterrent Relies on US Support, but There Are No Other Easy Alternatives" - 24 Mar 2025 https://www.chathamhouse.org/2025/03/uks-nuclear-deterrent-relies-us-support-there-are-no-other-easy-alternatives Resumo: O artigo examina a dependência do Reino Unido em relação aos EUA para a manutenção do seu programa de dissuasão nuclear. A centralidade desta discussão reside na necessidade do Reino Unido reconsiderar seu alinhamento estratégico, considerando os riscos associados à imprevisibilidade da política externa americana. No texto, três alternativas principais são propostas para o Reino Unido: desenvolver uma capacidade industrial própria para a produção de mísseis balísticos lançados por submarinos, estabelecer uma parceria com a França para a utilização de seus mísseis, ou construir um esquema de cooperação nuclear europeia, possivelmente sob os auspícios da OTAN. No contexto atual, o governo britânico deve navegar cuidadosamente entre suas aspirações nucleares e as realidades geopolíticas, enquanto busca sinergias que minimizem dependências externas. 2 - International Institute for Strategic Studies (IISS) When it comes to starting a nuclear war, size doesn't matter – 21 Abr 2017 https://www.iiss.org/online-analysis/survival-online/2017/04/nuclear-war/ Resumo: O artigo apresenta uma análise aprofundada sobre o risco de uso de armas nucleares por países com menores arsenais, como a Coreia do Norte, a Índia e o Paquistão, enfatizando que o tamanho do arsenal de cada país pode não ser um fator determinante na decisão de iniciar um conflito nuclear. Ele destaca que países com arsenais nucleares mais modestos podem ser mais inclinados a usá-los, principalmente quando se sentem ameaçados. Esta visão foi discutida em um simpósio sobre riscos nucleares nas Nações Unidas, onde se argumentou que, apesar da atenção dada aos grandes arsenais nucleares de potências como Rússia e Estados Unidos, os riscos podem ser mais agudos nos países com menores capacidades nucleares devido às percepções de insegurança e retórica belicosa. Apesar das tensões, é improvável que os Estados Unidos realizem um ataque preventivo devido ao risco de retaliação contra seus aliados na Ásia. Isso cria uma situação instável onde a dissuasão é mantida através de um equilíbrio delicado de ameaças e retórica militar. Are nuclear weapons an option for Ukraine? - 7 Fev 2025 https://www.iiss.org/online-analysis/online-analysis/2025/02/are-nuclear-weapons-an-option-for-ukraine/ Resumo: O artigo detalha os desafios técnicos e políticos envolvidos na busca da Ucrânia por capacidades nucleares. Discute a complexa situação de segurança da Ucrânia frente às ameaças russas, explorando a ideia da aquisição de armas nucleares ou da adesão à OTAN como meios de garantir segurança e soberania. Diante do cenário atual, onde a adesão à OTAN permanece incerta e as garantias de segurança se mostram insuficientes, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, expressou a necessidade de uma aliança sólida ou da posse de armas nucleares, destacando que, sem uma dessas opções, a posição do país permanece vulnerável. Essa retórica reflete a urgente busca da Ucrânia por mecanismos de defesa capazes de garantir sua soberania e sua integridade territorial frente à agressão russa. A Ucrânia está ciente das restrições associadas à busca de armas nucleares. Isso não só desafia as capacidades econômicas do país, mas também ameaça desintegrar o apoio internacional reunido durante o conflito atual. 3 - Council on Foreign Relations (CFR) U.S.-Iran Nuclear Diplomacy Is Stirring: Is It Serious? 11 Mar 2025 https://www.cfr.org/expert-brief/us-iran-nuclear-diplomacy-stirring-it-serious Resumo: O texto aborda a possibilidade de retomada das negociações entre os EUA e o Irã sobre a militarização do programa nuclear iraniano, destacando que uma série de reveses para o Irã, incluindo o enfraquecimento de suas alianças regionais e a vulnerabilidade de suas instalações nucleares, pode abrir espaço para o diálogo. No entanto, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, demonstrou ceticismo em relação às negociações com os EUA, sugerindo que essas propostas visam impor agendas externas ao invés de resolver problemas. A Rússia tem atuado como um mediador chave, mantendo diálogos com o Irã e destacando sua histórica participação no Plano de Ação Integral Conjunto de 2015. Apesar de os EUA terem se retirado do acordo em 2018, o Irã e a Rússia continuaram a cooperar, inclusive fortalecendo laços militares, o que complica o panorama diplomático atual. 4 - RAND Corporation Nuclear Deterrence: Can Britain and France Take on America's Role in Defending Europe Against Russian Aggression? 19 Mar 2025 https://www.rand.org/pubs/commentary/2025/03/nuclear-deterrence-can-britain-and-france-take-on-americas.html Resumo: O artigo aborda as dúvidas europeias sobre a dissuasão, que antecedem a atual administração dos EUA, e como a invasão russa da Ucrânia em 2022 trouxe a importância das armas nucleares para o primeiro plano. Os líderes europeus estão considerando alternativas para a dissuasão na Europa, incluindo a dissuasão nuclear francesa e britânica. No entanto, a Rússia tem um arsenal nuclear muito maior do que a França e o Reino Unido combinados. O artigo argumenta que a solução para a Europa pode estar em armas convencionais avançadas para deter a agressão russa, construindo a capacidade de aumentar os custos nos estágios iniciais de um conflito através de uma estratégia de negação. Além disso, os Estados europeus devem encontrar um fórum institucional para coordenar a dissuasão, seja através do regresso da França ao grupo de planeamento nuclear da OTAN ou da criação de outro conselho para a dissuasão europeia. 5 - Atlantic Council The US can reduce Russia’s nuclear energy—and geopolitical—influence – 7 Mar 2025 https://www.atlanticcouncil.org/blogs/energysource/the-us-can-reduce-russias-nuclear-energy-and-geopolitical-influence/ Resumo: Durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, os esforços dos EUA para fortalecerem a indústria de energia nuclear do país no mercado global continuarão sendo uma prioridade. Em fevereiro, o Secretário Chris Wright destacou a intenção dos EUA de liderar a comercialização de energia nuclear acessível e abundante para atender à crescente demanda global por energia. Isso não apenas impulsionaria o crescimento econômico e a segurança energética nos EUA, mas também poderia reduzir a influência da Rússia nos mercados nucleares europeus e seu poder geopolítico associado. Os EUA, junto a aliados como França e Coreia do Sul, podem transformar o interesse comercial por produtos não-russos em vantagens estratégicas, especialmente para países que possuem reatores da era soviética. Exemplos práticos incluem a Bulgária, que assinou um acordo com os EUA para a construção de dois reatores Westinghouse, e a Armênia, que busca diversificar sua matriz energética após se afastar da influência de Moscou. 6 - Center for Strategic and International Studies (CSIS) - Estados Unidos U.S. Sanctions on Pakistan’s Missile Program Highlight Nuclear Threats from South Asia – 28 Jan 2025 https://www.csis.org/analysis/us-sanctions-pakistans-missile-program-highlight-nuclear-threats-beyond-south-asia Resumo: Em dezembro de 2024, os Estados Unidos anunciaram sanções contra quatro entidades no Paquistão, acusadas de desenvolver mísseis balísticos de longo alcance, capazes de atingir alvos além do Sul da Ásia, incluindo os EUA. O Paquistão, contrariando essas sanções, sustentou que suas capacidades estratégicas visam a preservação da paz e da estabilidade regional, mas as ações dos EUA simbolizam uma nova fase de tensões. A Índia, por sua vez, está atenta a essas movimentações pela relevância direta com sua segurança, enquanto também fortalece suas relações nucleares com os EUA. As sanções dos EUA surgem em meio a uma complexa rede de alianças, onde Paquistão e China enfrentam os interesses conjuntos de Índia e Estados Unidos. O cenário exige dos EUA uma estratégia delicada de engajamento no Sul da Ásia, onde sanções e passos diplomáticos devem ser bem calculados para não aprofundar tensões regionais. 7 - The Japan Institute of International Affairs (JIIA) Challenges and opportunities in debating the European dimension of France's nuclear deterrence – 18 Mar 2025 https://www.jiia.or.jp/en/column/2025/03/missile-fy2025-01.html Resumo: Em 21 de fevereiro, o futuro chanceler alemão Friedrich Merz propôs discussões com o Reino Unido e a França sobre a possibilidade de compartilhamento nuclear ou de garantia de segurança nuclear para a Alemanha, à luz de incertezas sobre o compromisso dos EUA com a OTAN. Isso levou o presidente francês Emmanuel Macron a reabrir o debate sobre a dimensão europeia da dissuasão nuclear francesa, tema que ainda gera debates e mal-entendidos em toda a Europa. Macron destacou a importância de discutir a proteção nuclear da França para os aliados europeus e sugeriu que exercícios de dissuasão nuclear franceses poderiam incluir aliados interessados, reforçando assim a cultura estratégica europeia. Esta série de declarações representa uma mudança significativa, pois, tradicionalmente, a doutrina nuclear francesa era caracterizada por menos transparência e comunicação. Macron utilizou uma linguagem que reflete seu desejo de maior autonomia estratégica europeia, especialmente em resposta às ameaças percebidas da Rússia. No entanto, a ambiguidade em torno de quais países seriam contemplados por essa proteção, especialmente em relação à Ucrânia e Moldávia, ainda precisa ser esclarecida. Síntese dos artigos O setor nuclear apresenta muitos desafios, pois ainda carece de uma compreensão abrangente sobre o cenário de ameaças cibernéticas e de estratégias eficazes de resiliência. É importante notar também que as premissas sobre a dissuasão nuclear se modificaram, pois estas exigem certo equilíbrio entre o custo de implantação e manutenção, independência tecnológica, e colaboração e participação internacionais. Programas nacionais independentes implicam altos custos e compromissos políticos, sendo estes talvez os mais dificeis de manter em um mundo cada vez mais polarizado. Pode-se aventar que a administração do presidente Donald Trump pretende consolidar parcerias que possam facilitar investimentos em projetos de infraestrutura nuclear, alavancando os avanços domésticos para reduzir o domínio russo no setor e, consequentemente, seu peso geopolítico. No sul da Ásia, Índia e Paquistão também são objeto de preocupação devido à evolução de suas doutrinas nucleares e sinais políticos contraditórios. China e Rússia têm oferecido condições de financiamento mais acessíveis para projetos nucleares, o que explica sua presença crescente em regiões como a África. Na Ucrânia, onde a adesão à OTAN permanece incerta e as garantias de segurança se mostram insuficientes, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, expressou a necessidade de uma aliança sólida ou da posse de armas nucleares, destacando que, sem uma dessas opções, a posição do país permanece vulnerável. Na França, apesar da intenção do presidente Macron em discutir a dissuasão nuclear em um contexto europeu, o país não aceita compartilhar suas armas nucleares nem a autoridade de decisão. O fato é que não há tempo para mudanças significativas na estrutura nuclear europeia, devido ao tempo que essas novas medidas demandariam, além do alto custo envolvido. Rio de Janeiro - RJ, 02 de abril 2025. .













