A Gestão do Conhecimento e suas contribuições para gerar, preservar e aperfeiçoar capacidades militares
Rafael Hidalgo Olivieri Major Engenheiro Mecânico e de Armamento do Exército Brasileiro. Mestre em Engenharia Industrial e Gerenciamento - Gestão da Inovação. Gestor do Conhecimento certificado pela Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento e aluno do Curso de Direção para Engenheiros Militares da ECEME. Introdução Quando se discute a geração de capacidades militares, uma pergunta costuma ficar de fora: onde reside a capacidade? A resposta imediata aponta para viaturas ou sistemas e materiais de emprego militar. A resposta doutrinária, por seu lado, é mais ampla e distribui a explicação por um conjunto de atributos. Há, contudo, um aspecto que escapa a ambas as perspectivas e que é facilmente reconhecido por aqueles que vivenciam o cotidiano da tropa, a saber, o fato de que duas organizações militares com o mesmo material, o mesmo efetivo e a mesma doutrina podem apresentar desempenhos operacionais bem diferentes. A diferença está no conhecimento. No que a organização sabe, no que consegue recuperar quando precisa e no que é capaz de aplicar sob pressão de tempo. Este artigo sustenta que o conhecimento é o substrato comum a todos os atributos de capacidade e que a Gestão do Conhecimento (GC), por consequência, precisa ser tratada como função habilitadora do ciclo pelo qual a Força Terrestre gera, preserva e aperfeiçoa suas capacidades militares, e não como atividade administrativa de apoio, nem como sinônimo de tecnologia da informação. O texto percorre quatro etapas. Examina a natureza cognitiva dos atributos de capacidade tal como definidos no Catálogo de Capacidades do Exército Brasileiro (EB); delimita o que é e o que não é Gestão do Conhecimento; mapeia sua contribuição a cada atributo; e evidencia como a relevância dos processos de GC varia ao longo do ciclo de vida das capacidades. Ao final, discute óbices institucionais e propõe medidas. A natureza cognitiva dos atributos de capacidade O Catálogo de Capacidades do EB, em sua segunda edição, define capacidade como a aptidão para atingir um efeito desejado, sob condições específicas, por meio de um conjunto de atividades e tarefas. A capacidade militar, por sua vez, é caracterizada como a aptidão de uma Força Armada para executar as operações que lhe cabem, obtida mediante a combinação de soluções organizacionais que integram oito áreas: doutrina, organização, pessoal, educação, material, adestramento, infraestrutura e interoperabilidade, o acrônimo DOPEMAII, alinhado à Estratégia Militar de Defesa (BRASIL, 2026). Os oito atributos são, cada um a seu modo, formas de existência do conhecimento organizacional. O próprio Catálogo define a doutrina como um conjunto de princípios, conceitos, normas e procedimentos fundamentados principalmente na experiência, o que equivale a dizer que é o conhecimento coletivo codificado. A organização traduz o modo como a Força dispõe seus recursos para produzir efeitos, isto é, conhecimento cristalizado em estrutura e processos. O material compreende sistemas e materiais de emprego militar, que são conhecimento tecnológico incorporado em artefatos. A infraestrutura reúne os elementos estruturais e os serviços que dão suporte às atividades da Força, entre os quais os que determinam a possibilidade concreta de armazenar conhecimento e fazê-lo circular. Já a interoperabilidade, entendida como a compatibilidade dos demais atributos para que forças e agências operem em conjunto, pressupõe uma base de conhecimento compartilhada, com procedimentos, padrões e linguagem comuns (BRASIL, 2026). Nos três atributos restantes, a relação é ainda mais direta. O pessoal abrange a força de trabalho com as competências e habilidades necessárias ao exercício de cargos e funções. O adestramento prepara a Força para atuar conforme a doutrina, convertendo prescrição explícita em competência tácita coletiva. E a educação é definida como o conjunto de atividades continuadas de capacitação e habilitação voltadas ao desenvolvimento da competência individual, competência esta conceituada, no mesmo documento, como a capacidade de mobilizar de maneira inter-relacionada conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e experiências para decidir e atuar em situações diversas (BRASIL, 2026). É um conceito de gestão do conhecimento inscrito, com todas as letras, no documento que orienta o planejamento de capacidades da Força. A proposição central deste artigo decorre daí. A capacidade militar não é a soma dos atributos, mas o resultado da combinação entre eles, e essa combinação é, em essência, um problema de conhecimento. Um sistema de armas no estado da arte cujo conhecimento de emprego, manutenção e integração não esteja disponível, acessível e aplicável não gera capacidade; gera inventário. O que é e o que não é Gestão do Conhecimento Adota-se aqui a definição de que a Gestão do Conhecimento é o conjunto de estratégias, estruturas de governança, processos e práticas que visam possibilitar às organizações o melhor aproveitamento dos conhecimentos necessários ao cumprimento de suas missões, por meio da identificação, obtenção, retenção, disseminação e utilização sistemática e segura de conhecimentos tácitos e explícitos essenciais, articulando pessoas, processos e tecnologias em alinhamento aos objetivos institucionais. A formulação é convergente com a norma internacional de sistemas de gestão do conhecimento, que a trata como um sistema dotado de cultura, governança, liderança, papéis, tecnologia e processos (ISO, 2018); com o modelo concebido para a administração pública brasileira, que a define como método integrado de criar, compartilhar e aplicar conhecimento para produzir resultados institucionais (BATISTA, 2012); e com a teoria da criação do conhecimento organizacional, assentada na conversão contínua entre conhecimento tácito e explícito (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Duas delimitações ajudam a evitar mal-entendidos. A primeira é que a Gestão do Conhecimento não se resume à tecnologia da informação. Repositórios, sejam eles físicos ou digitais, sem curadoria, sem taxonomia e sem responsáveis designados, produzem acúmulo, não conhecimento acessível. A segunda é mais sutil no ambiente militar. A GC não se confunde com a capacidade militar terrestre de superioridade de informações, que é a aptidão para obter vantagem operacional pelo domínio do fluxo de informações no ambiente operacional, negando-o ao adversário (BRASIL, 2026). Essa é uma capacidade entre outras, orientada ao combate. A GC é anterior e transversal, e não figura no Catálogo como capacidade porque incide sobre os atributos que compõem todas elas. Registre-se que o Exército, desde 2015, mantém uma sistemática institucionalizada de gestão do conhecimento no campo doutrinário, com governança definida, papéis formais, processos de coleta e tratamento, e plataforma de difusão (BRASIL, 2015). No campo científico-tecnológico há precedente equivalente. A Agência de Gestão e Inovação Tecnológica, subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia, tem entre suas quatro áreas finalísticas a Gestão do Conhecimento Científico-Tecnológico, ao lado da propriedade intelectual, da cultura de inovação e das informações tecnológicas (BRASIL, 2019; CALDEIRA; MENDES, 2024). Esses dois precedentes importam menos pelo conteúdo do que pela demonstração de viabilidade, isto é, o modelo existe e funciona. Falta-lhes alcance e articulação, pois cobrem dois dos oito atributos de capacidades e operam em separado. A contribuição da GC a cada atributo de capacidades O quadro a seguir sistematiza o argumento, associando cada atributo ao papel do conhecimento em sua constituição e aos mecanismos de gestão do conhecimento já existentes ou possíveis no âmbito do EB. Quadro 1 – O conhecimento nos atributos de capacidade (DOPEMAII) Atributo Papel do conhecimento na composição da capacidade Práticas de GC existentes ou aplicáveis Doutrina Conhecimento coletivo codificado: conversão de experiência tácita em prescrição explícita e validada. Coleta e tratamento de lições aprendidas; oficiais de doutrina e lições aprendidas; portais de difusão doutrinária (Sistemática de Acompanhamento Doutrinário e Lições Aprendidas, SADLA). Organização O desenho organizacional e os processos incorporam o conhecimento sobre como a Força produz efeitos. Mapeamento de processos; memória organizacional; documentação de decisões e de suas justificativas. Pessoal As pessoas são o repositório primário do conhecimento tácito e o principal vetor de sua perda, em razão da rotatividade. Mapeamento de conhecimentos essenciais e críticos; transferência estruturada de cargos e funções; mentoria; bancos de especialistas. Educação Principal canal institucional de disseminação e de internalização do conhecimento validado. Realimentação das lições aprendidas nos currículos; aproveitamento dos trabalhos de conclusão de curso; repositórios digitais. Material Todo sistema de emprego militar é conhecimento tecnológico incorporado; sem domínio do conhecimento associado, resta a posse do artefato. Gestão do conhecimento científico-tecnológico; propriedade intelectual; prospecção tecnológica; documentação técnica de projetos. Adestramento Converte conhecimento explícito em competência tácita coletiva e produz novo conhecimento a cada exercício. Análises pós-ação; relatórios de exercícios e de operações reais; comunidades de prática entre unidades congêneres. Infraestrutura Instalações e sistemas digitais determinam a capacidade de armazenar, localizar e fazer fluir o conhecimento. Repositórios e bibliotecas digitais; plataformas colaborativas; taxonomias e curadoria de conteúdo. Interoperabilidade Operar em conjunto exige base de conhecimento comum: procedimentos, padrões, linguagem e referências compartilhadas. Intercâmbios e exercícios conjuntos e combinados; glossários e padrões comuns; lições aprendidas compartilhadas. Fonte: O AUTOR, 2026. O Quadro 1 organiza a análise por atributo. Lida pelo eixo dos processos de GC, a mesma relação se revela mais densa, porque cada um dos cinco processos incide sobre os oito atributos, ainda que com intensidades distintas. A identificação determina quais conhecimentos são necessários e orienta sua posterior obtenção. No atributo doutrina, é ela que separa o esforço dirigido do acúmulo de relatos avulsos, pois, sem definir previamente quais lacunas doutrinárias interessam, o sistema recebe observações dispersas em lugar de subsídios utilizáveis. Não por acaso, o Exército formaliza elementos essenciais de informações doutrinárias para orientar o que deve ser observado nas missões e atividades no exterior (BRASIL, 2015). No atributo pessoal, a identificação busca reconhecer os detentores de conhecimentos críticos e antecipar a possível perda desses conhecimentos em razão de desligamentos, transferências ou aposentadorias. No material, a identificação recai sobre as lacunas científico-tecnológicas que condicionam projetos futuros. A obtenção reúne as ações destinadas a adquirir, desenvolver ou acessar os conhecimentos previamente identificados como necessários. No adestramento, isso ocorre por meio de análises pós-ação e dos relatórios de exercícios; na doutrina, por meio de pesquisas doutrinárias, dos trabalhos de natureza profissional e das missões no exterior; e, no material, da absorção tecnológica e da documentação técnica gerada ao longo dos projetos. A retenção preserva os conhecimentos críticos já incorporados pela organização, evitando sua perda e assegurando sua disponibilidade para uso futuro. É decisiva no pessoal e no material, sustenta a organização quando as razões de uma decisão ficam registradas junto com ela e depende da infraestrutura, que lhe dá suporte físico e digital. A disseminação assegura que o conhecimento esteja disponível aos atores que dele necessitam, no momento e no contexto adequados à sua aplicação. Predomina na educação e na interoperabilidade, e é o processo que converte doutrina escrita em doutrina praticada. A utilização fecha o ciclo e é o único processo que produz efeito visível. Sem ela, os quatro processos anteriores geram custo sem retorno. Nenhum atributo de capacidades prescinde de qualquer um dos cinco processos. O que varia é a intensidade com que cada um se manifesta. Quase todos os mecanismos do Quadro 1 já existem, dispersos por sistemas e organizações distintos, com maturidade desigual e sem articulação entre si. O que falta não é iniciativa, mas integração. Gerar, preservar e aperfeiçoar: como os processos de GC se distribuem Além de variar por atributo, a contribuição dos processos de GC varia no tempo. O que a Força precisa de sua gestão do conhecimento muda conforme esteja gerando uma capacidade nova, preservando aquelas que já emprega ou aperfeiçoando uma capacidade existente. Distinguir os três casos evita que a GC seja tratada como proposição genérica e ajuda a localizar onde a ausência de gestão custa mais caro. Na geração de uma nova capacidade, predominam a identificação e a obtenção. Os conhecimentos requeridos podem provir do acervo da própria Força, ser desenvolvidos internamente ou obtidos no ambiente externo, alimentando novas soluções materiais, concepções de emprego e respostas a ameaças emergentes. Quando a origem é externa, entra em cena o que Cohen e Levinthal (1990) denominaram capacidade absortiva, isto é, a aptidão de uma organização para reconhecer o valor do conhecimento externo, assimilá-lo e aplicá-lo, a qual depende, em larga medida, do conhecimento prévio que ela já possui. Sem essa base, adquire-se o artefato ou o manual, não a aptidão. A Estratégia Nacional de Defesa, ao vincular o desenvolvimento de capacidades autônomas à redução da dependência externa, pressupõe, sem nomear, exatamente essa condição (BRASIL, 2025). Preservar uma capacidade em uso depende, principalmente, da retenção, apoiada pela disseminação. Uma capacidade raramente se degrada por perda de material. Ela se degrada em silêncio, pela saída das pessoas que sabiam operar, integrar e manter o material, e pela dissolução dos arranjos tácitos que faziam a estrutura funcionar. O resultado é uma capacidade que permanece no organograma e nos planos, mas não no efetivo. Esse é o modo de perda menos visível e o mais difícil de reverter, porque, quando percebido, o conhecimento já não pode ser mais recuperado. Aperfeiçoar uma capacidade existente mobiliza sobretudo a obtenção do conhecimento gerado no próprio emprego, sua disseminação e sua utilização. Uma capacidade evolui quando a experiência acumulada nas operações e no adestramento retorna ao ciclo sob a forma de alteração efetiva de doutrina, de procedimento, de instrução ou de estrutura. Vale insistir em um ponto que costuma passar despercebido: o fato de que registrar uma observação não é aprender. Relatórios arquivados, análises pós-ação sem destinatário e bancos de dados sem curadoria produzem acervo, não sendo aperfeiçoamento. Só há aprendizagem organizacional quando o conhecimento coletado modifica o comportamento da instituição. Óbices institucionais A institucionalização da GC no ambiente militar enfrenta óbices reconhecíveis. A rotatividade é o mais evidente. O ciclo de movimentações, essencial à carreira e à oxigenação institucional, é também o principal mecanismo de perda de memória organizacional quando não vem acompanhado de transferência estruturada de conhecimento. Em seguida, vem a dispersão. Os conhecimentos doutrinário, científico-tecnológico, logístico e de gestão são tratados por sistemas distintos (às vezes por mais de um sistema dentro de cada área), com linguagens e maturidades próprias, sem uma instância que os reconheça como um mesmo ativo institucional. Há ainda a tensão, legítima, entre a necessidade de compartilhar e os requisitos de segurança da informação. A resposta não está em escolher um dos polos, mas em classificar corretamente e disseminar dentro de cada nível. Por fim, faltam métricas. Sem indicadores de retenção de conhecimento crítico, de tempo entre a coleta e a disseminação de uma lição aprendida e de reuso efetivo dos conhecimentos, a GC permanece como intenção declarada, não avaliável. Considerações finais Se a capacidade militar resulta da combinação de oito atributos e se todos eles são, em alguma medida, formas de conhecimento organizado, a Gestão do Conhecimento deixa de ser um tema periférico e assume a posição de função habilitadora transversal. Três medidas decorrem dessa constatação. A primeira é incorporar a dimensão do conhecimento ao planejamento baseado em capacidades. Para cada capacidade pretendida, cabe identificar quais conhecimentos críticos a sustentam, onde residem e qual o risco associado à sua perda. É acrescentar uma pergunta ao processo já existente e não criar um processo novo. A segunda é estender aos demais atributos os modelos de governança já validados nos campos doutrinário e científico-tecnológico, com um órgão gestor definido, papéis formais nas organizações, processos de coleta e tratamento e plataforma de difusão, priorizando os atributos em que a perda de conhecimento produz maior impacto sobre as capacidades em uso. Forças congêneres oferecem parâmetros úteis de comparação. O Exército dos Estados Unidos mantém publicação doutrinária específica sobre GC, com seções e oficiais dedicados nos estados-maiores (UNITED STATES, 2024). A terceira é medir. Indicadores simples de cobertura, tempestividade e reuso permitem transformar a GC em objeto de gestão, e não apenas de discurso. Materiais podem ser adquiridos. Contudo, capacidades precisam ser construídas. E o que sustenta uma capacidade ao longo do tempo, entre um ciclo de movimentação e outro, entre uma geração de equipamentos e a seguinte, é o conhecimento que o EB é capaz de reter, disseminar e aplicar. Rio de Janeiro - RJ, 05 de novembro de 2026. Referências BATISTA, Fábio Ferreira. Modelo de gestão do conhecimento para a administração pública brasileira: como implementar a gestão do conhecimento para produzir resultados em benefício do cidadão. Rio de Janeiro: Ipea, 2012. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/754. Acesso em: 11 de agosto de 2026. BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Instruções Reguladoras para a Gestão do Conhecimento Doutrinário (EB20-IR-10.003). 2. ed. Brasília, DF: EME, 2015. Aprovadas pela Portaria nº 265-EME, de 22 de outubro de 2015. BRASIL. Exército Brasileiro. Comando do Exército. Regulamento da Agência de Gestão e Inovação Tecnológica. Brasília, DF: Comando do Exército, 2019. Aprovado pela Portaria nº 1.218, de 9 de agosto de 2019. Disponível em: www.sgex.eb.mil.br/sg8/001_estatuto_regulamentos_regimentos/02_regulamentos/port_n_1218_cmdo_eb_09ago2019.html. Acesso em: 10 de agosto de 2026. BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Catálogo de Capacidades do Exército Brasileiro (EB20-C-07.001). 2. ed. Brasília, DF: EME, 2026. Aprovado pela Portaria - EME/C Ex nº 1772, de 15 de julho de 2026, publicada no Boletim do Exército nº 30, de 24 de julho de 2026. BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025. 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Soberania digital e base industrial de defesa: o desafio brasileiro de transformar tecnologia em autonomia estratégica
Marcos Dias de Paula Coordenador de Projetos de P&D do Centro de Tecnologia da FIRJAN SENAI SESI, MBA emPolítica, Estratégia, Defesa e Segurança Pública pelo Instituto Venturo/ADESG/ESG/CNOR,Oficial da Reserva de 2ª Classe (R/2) do Exército Brasileiro. Considerações iniciais A capacidade de defesa de uma nação não depende apenas dos equipamentos militares que possui, mas também do conhecimento e do controle tecnológico necessários para operá-los, protegê-los e sustentá-los. A transformação tecnológica está redefinindo as relações entre poder nacional, segurança, defesa e desenvolvimento. Inteligência artificial, sistemas autônomos, computação quântica, semicondutores, cibersegurança e tecnologias espaciais tornaram-se componentes estratégicos da capacidade de atuação dos Estados. Nesse cenário, surge uma questão fundamental para o Brasil: é possível assegurar autonomia estratégica quando tecnologias críticas para a Defesa Nacional dependem de conhecimentos, componentes, softwares e infraestruturas controlados por agentes externos? Soberania digital não significa isolamento tecnológico. Em cadeias produtivas interdependentes, a autossuficiência absoluta é pouco realista. A dependência, contudo, transforma-se em vulnerabilidade quando limita a capacidade nacional de decidir, operar, manter ou atualizar sistemas essenciais. O objetivo deste artigo é propor uma reflexão sobre como o domínio de tecnologias emergentes e o desenvolvimento de capacidades nacionais contribuem para a soberania digital e a autonomia estratégica da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. A hipótese é que a soberania depende menos da produção integralmente nacional de todas as tecnologias e mais da capacidade do país de desenvolver, absorver, dominar, proteger, manter, atualizar e, quando necessário, substituir tecnologias críticas. Essa perspectiva desloca o debate da origem de um equipamento para as condições efetivas de seu domínio. Um sistema adquirido no exterior não representa, por si só, uma vulnerabilidade insuperável. O risco estratégico surge quando o emprego de um equipamento depende de autorizações, atualizações, componentes ou serviços sobre os quais o país exerce controle insuficiente. Desenvolvimento A literatura de sistemas nacionais de inovação evidencia a importância da articulação entre Estado, empresas e instituições de pesquisa na construção de competências tecnológicas (Freeman, 1987; Lundvall, 1992; Nelson, 1993). Para orientar a análise do tema, este estudo adota uma abordagem aplicada, exploratória e analítica, de natureza predominantemente qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica e análise documental sobre inovação, capacidades tecnológicas, soberania digital, dependência tecnológica e Defesa Nacional. Consideram-se, entre outros instrumentos, a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional, aprovados pelo Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025 (Brasil, 2025). A partir desses fundamentos, organiza-se uma estrutura conceitual que relaciona tecnologias emergentes, capacidades, dependências críticas e autonomia estratégica, conforme destacado no documento oficial: “As atividades de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) são imperiosas para aprimorar e manter as capacidades operacionais das Forças Armadas, buscando reduzir as vulnerabilidades impostas pela defasagem tecnológica e dependência de produtos de Defesa de origem estrangeira. Assim sendo, ressalta-se a constante e intensa interação dos setores de CT&I das Forças Armadas com entidades públicas e privadas brasileiras afins, notadamente no que tange às tecnologias emergentes e disruptivas” (Brasil, 2025). O referido Decreto mostra que a redução da dependência tecnológica constitui uma questão estratégica para a Defesa Nacional, cuja superação exige a articulação entre capacidades científicas, tecnológicas, industriais e operacionais. Nesse sentido, o fortalecimento da autonomia nacional não pode ser atribuído exclusivamente às Forças Armadas, mas deve resultar de um esforço coordenado entre instituições públicas, empresas, universidades e centros de pesquisa e inovação. A capacidade de transformar conhecimento científico em tecnologias críticas, produtos e sistemas de defesa depende da existência de um ecossistema industrial estruturado, capaz de absorver, desenvolver, produzir, integrar e sustentar soluções tecnológicas ao longo de seu ciclo de vida. É nessa perspectiva que a Base Industrial de Defesa assume papel central na materialização das diretrizes nacionais de CT&I, constituindo o elo estratégico entre a geração do conhecimento, o desenvolvimento tecnológico e a efetiva capacidade de defesa do Estado brasileiro. O mesmo Decreto supracitado define a Base Industrial de Defesa (BID) como: “[...] o conjunto de órgãos, empresas e entidades, públicas e privadas, civis e militares, regidos pelo ordenamento jurídico brasileiro, que realizem ou conduzam pesquisas, projetos, desenvolvimento, industrialização, produção, reparo, conservação, revisão, conversão, modernização, manutenção, integração, desativação ou término de bens e serviços de defesa” (Brasil, 2025). A partir dessas diretrizes, torna-se possível avançar na compreensão da soberania digital da Base Industrial de Defesa como uma condição estratégica que ultrapassa a simples disponibilidade ou aquisição de tecnologias avançadas, estando diretamente relacionada à capacidade nacional de dominar, controlar, sustentar e adaptar recursos tecnológicos essenciais à Defesa Nacional. Para tanto, este artigo propõe uma abordagem conceitual estruturada em cinco dimensões interdependentes: (1) capacidade tecnológica, relacionada à competência nacional para pesquisar, desenvolver, absorver, adaptar e inovar em tecnologias estratégicas; (2) controle digital, associado ao domínio e à governança de dados, softwares, sistemas e infraestruturas digitais críticas, reduzindo vulnerabilidades decorrentes de controles externos; (3) resiliência tecnológica, compreendida como a capacidade de preservar ou restabelecer funções essenciais diante de interrupções nas cadeias de suprimentos, restrições de acesso ou crises; (4) autonomia operacional, expressa na possibilidade de empregar, manter, atualizar e sustentar sistemas de defesa sem dependências externas que comprometam a liberdade de decisão e atuação do Estado; e (5) capacidade de substituição, referente à existência de competências e alternativas tecnológicas que permitam substituir, adaptar ou desenvolver componentes e soluções considerados críticos. A articulação dessas dimensões constitui a base para identificar dependências tecnológicas, analisar vulnerabilidades estratégicas e subsidiar políticas de ciência, tecnologia e inovação voltadas ao fortalecimento da BID e à ampliação da autonomia estratégica brasileira. A relevância dessa estrutura analítica reside na possibilidade de transformar o conceito de soberania digital, frequentemente tratado de maneira abstrata, em um arcabouço prático capaz de orientar decisões estratégicas no âmbito da Base Industrial de Defesa. Ao integrar capacidade tecnológica, controle digital, resiliência tecnológica, autonomia operacional e capacidade de substituição, a análise permite compreender que a soberania não depende de um único atributo, mas da articulação entre competências científicas, industriais, digitais e operacionais. Essas dimensões oferecem subsídios para identificar vulnerabilidades nas cadeias de suprimentos, avaliar dependências tecnológicas críticas, estabelecer prioridades de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação e orientar políticas públicas de fortalecimento da indústria nacional de defesa. Sua principal contribuição está em aproximar a avaliação tecnológica do planejamento estratégico da Defesa Nacional, permitindo que decisões sobre aquisição, desenvolvimento e cooperação internacional considerem não apenas desempenho e custos, mas também os riscos à autonomia decisória do Estado brasileiro. Com base nesta discussão, evidencia-se que possuir tecnologia não significa necessariamente dominá-la. Uma plataforma militar pode apresentar elevado desempenho e, simultaneamente, depender de software proprietário, componentes importados ou serviços externos indispensáveis. Por isso, as dependências devem ser avaliadas ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas: desenvolvimento, aquisição, integração, operação, manutenção, atualização e substituição. A abordagem dialoga com a noção de soberania tecnológica como capacidade de preservar opções de ação e decisão (Edler et al., 2023) e com o debate sobre controle e autonomia no ambiente digital (Floridi, 2020). Ao considerar as dimensões propostas nesta discussão, torna-se possível oferecer uma reflexão analítica para identificar dependências estratégicas, orientar prioridades e apoiar futuras avaliações com indicadores e evidências empíricas. Considerações finais Fortalecer a BID brasileira exige mais do que ampliar a aquisição de tecnologias avançadas. É necessário desenvolver competências permanentes, integrar empresas, Forças Armadas e instituições científicas, apoiar pesquisa aplicada e estabelecer mecanismos que reduzam dependências capazes de comprometer a Defesa Nacional. Soberania digital é, nesse sentido, uma dimensão do poder nacional: a capacidade de decidir e agir mesmo diante de restrições tecnológicas, interrupções de fornecimento ou mudanças geopolíticas. O desafio brasileiro não é produzir internamente tudo o que utiliza, mas conhecer suas dependências, identificar as tecnologias críticas e construir alternativas para que nenhuma delas comprometa decisões estratégicas fundamentais. A soberania tecnológica não se mede apenas pelo que uma nação consegue adquirir, mas pelo que é capaz de compreender, dominar, proteger, sustentar e substituir. Nesse contexto, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira exige protagonismo institucional, liderança estratégica e uma visão de Estado orientada à soberania tecnológica. Cabe às instituições responsáveis pela formulação das políticas de defesa, em articulação com as Forças Armadas, a indústria nacional, as universidades e os centros de pesquisa e inovação, assumir a liderança de uma agenda estruturante, capaz de transformar capacidades científicas e tecnológicas em competências industriais e operacionais sustentáveis. Essa liderança deve ultrapassar iniciativas isoladas e ciclos governamentais, promovendo a continuidade dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, a formação de recursos humanos especializados, a transferência e absorção efetiva de tecnologias e a consolidação de cadeias produtivas estratégicas. Mais do que estimular a produção nacional, trata-se de estabelecer prioridades, coordenar esforços e construir mecanismos que reduzam progressivamente as dependências tecnológicas críticas. A autonomia estratégica não será consequência espontânea do avanço tecnológico, mas resultado de decisões institucionais, planejamento de longo prazo e liderança comprometida com os interesses permanentes do Estado brasileiro. Referências Bibliográficas BRASIL. Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025. Aprova a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 19 nov. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/assuntos/copy_of_estado-e-defesa/livro-branco-de-defesa-nacional-lbdn-1/arquivos/livro-branco-de-defesa-nacional/decreto-no-12-725-de-18-de-novembro-de-2025-dou_lbdn.pdf/view . Acesso em: 8 out. 2026. EDLER, Jakob; BLIND, Knut; KROLL, Henning; SCHUBERT, Torben. Technology sovereignty as an emerging frame for innovation policy: defining rationales, ends and means. Research Policy, v. 52, n. 6, art. 104765, 2023. 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Controle da informação na Rússia: uma análise à luz da doutrina ocidental
Luciano Hickert Coronel veterano do Exército junto à ConsultoriaJurídica da União no Estado do Rio Grande do Sul. Rafael de Oliveira PenteadoComandante do 8º Batalhão de Polícia do Exército em São Paulo.Foi auxiliar do adido militar do Brasil na Rússia, nos anos de 2024/2025. Introdução Desde o início da guerra contra a Ucrânia, a Federação Russa tem conduzido suas ações em ambiente que ultrapassa o campo estritamente militar. Em paralelo às operações convencionais, observam-se também campanhas transnacionais de influência que combinam financiamento, produção de conteúdo e coordenação de narrativas em múltiplas plataformas. Um exemplo recente dessa dinâmica foi a revelação de uma campanha atribuída a um grupo de espionagem russo na República Argentina, voltada a desacreditar o governo do país vizinho, com desembolso de pelo menos US$ 283.100 para a produção de mais de 250 conteúdos, em mais de 20 plataformas digitais. O caso ilustra como a disputa informacional contemporânea ultrapassa fronteiras nacionais e se vale de recursos financeiros, mediação tecnológica e exploração de tensões políticas internas para produzir efeitos cognitivos e simbólicos. À luz da doutrina da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), esse tipo de atuação se insere no campo das comunicações estratégicas e das operações de informação, entendidas como processos voltados à coordenação de mensagens, ações e efeitos no ambiente informacional. A doutrina da Aliança Ocidental enfatiza que palavras, imagens e ações devem manter coerência para produzir credibilidade e influência sobre audiências específicas. No mesmo sentido, a literatura norte-americana recente trata a informação como um elemento central da competição estratégica, destacando que o controle, a proteção e o emprego do ambiente informacional são componentes decisivos da vantagem operacional. Nesse contexto, este artigo sustenta que o Estado russo mobiliza instrumentos jurídicos, educacionais, econômicos, militares e digitais para consolidar uma narrativa dominante sobre a guerra e sobre a própria identidade nacional. O objetivo não parece ser apenas neutralizar o dissenso, mas também nivelar percepções, preservar a coesão social e legitimar, perante o público doméstico, a continuidade do conflito. Em termos analíticos, a leitura do caso à luz da literatura da OTAN e da doutrina norte-americana sobre comunicação estratégica e operações de informação oferece uma base mais comparável e internacionalmente reconhecível para interpretar esse processo. Desenvolvimento A literatura da OTAN trata a informação como parte central do ambiente operacional contemporâneo. A política de Comunicação Estratégica da Aliança define essa função como a coordenação de ações, palavras e imagens para apoiar objetivos de alto nível e influenciar as opiniões em ambientes de competição contínua. A mesma lógica aparece na doutrina da OTAN para Operações de Informação, que as entende como um conjunto de atividades sincronizadas para produzir efeitos no plano cognitivo e apoiar a tomada de decisão em contextos de paz, crise ou conflito. Já a doutrina dos Estados Unidos reforça essa compreensão ao tratar a informação como recurso estratégico a ser protegido, explorado e empregado em apoio às operações e à decisão. A recente institucionalização de um manual do Exército dedicado à informação mostra que o tema ganhou destaque na doutrina militar norte-americana, justamente porque todas as ações produzem efeitos informacionais em diferentes públicos e domínios. Isso amplia a análise ao demonstrar que a disputa por vantagem estratégica não ocorre apenas no terreno físico, mas também na esfera simbólica e cognitiva, onde se formam crenças, confiança e disposições políticas. Autores da tradição militar norte-americana já vinham chamando atenção para a dimensão informacional. Bartles, há 10 anos, destacou que a discussão sobre a forma russa de empregar guerra e informação exige cuidado conceitual, pois a leitura simplificada de “guerra híbrida” tende a obscurecer a integração entre instrumentos militares e informacionais. Sinclair, por sua vez, sustenta que a evolução do modo russo de guerrear não representa ruptura total com padrões anteriores, mas adaptação de práticas consolidadas ao ambiente contemporâneo. Esses referenciais ajudam a interpretar o caso russo como uma combinação coerente de coerção, narrativa e gestão do ambiente informacional, e não como uma mera soma de eventos isolados. No caso russo, a disputa informacional não se limita às mídias ou às plataformas digitais; ela é reforçada por um aparato jurídico que define o que pode ser dito, publicado e compartilhado. Sob a ótica da OTAN, esse tipo de arranjo é relevante porque as Operações de Informação (Op Info) não tratam apenas da circulação de mensagens, mas da coordenação entre atividades informacionais, opinião pública e efeitos cognitivos ao longo do ambiente operacional. Quando o ordenamento jurídico passa a definir quais narrativas são aceitáveis, o Estado deixa de apenas regular a comunicação e passa a organizar o próprio campo de interpretação da realidade. Esse movimento é coerente com a lógica descrita na doutrina norte-americana mais recente, segundo a qual a informação é central para o comando, para a tomada de decisão e para a obtenção de vantagem informacional. A publicação do Exército dos EUA reconhece que todas as atividades geram efeitos informacionais e que o adversário tenta explorar continuamente esse domínio para obter influência e controle antes mesmo de um confronto armado. Assim, medidas legais que restringem críticas, punem narrativas dissidentes e protegem a imagem institucional das Forças Armadas podem ser interpretadas como parte de uma disputa persistente por vantagem informacional. A doutrina da OTAN sobre comunicação estratégica destaca que mensagens, ações e sinais do Estado precisam ser coerentes para produzir credibilidade e efeito sobre audiências específicas. No caso analisado, essa coerência é buscada por meio da associação constante entre a guerra, o patriotismo, a defesa nacional e a legitimidade política. Em vez de uma comunicação episódica, observa-se a construção de uma narrativa dominante que estrutura a percepção dos fatos de modo contínuo, especialmente em contextos de conflito. Não menos importante, a dimensão educacional é central em qualquer estratégia voltada ao controle do ambiente informacional, porque ela atua sobre a formação de opiniões antes mesmo de o indivíduo entrar em contato com narrativas concorrentes. A doutrina da OTAN sobre Op Info destaca que a atuação informacional deve ser planejada para produzir efeitos cognitivos sobre públicos específicos ao longo de todo o tempo possível, inclusive em tempos de paz. Nesse sentido, programas escolares, materiais didáticos e iniciativas de formação cívica não funcionam apenas como instrumentos pedagógicos, mas como meios de modelar identidade, lealdade e interpretação histórica. No caso russo, a reorganização curricular, a introdução de aulas patrióticas e a reformulação de livros de história parecem buscar a consolidação de uma narrativa estatal única sobre passado, presente e futuro. Em termos estratégicos, isso se aproxima da lógica descrita pela doutrina da OTAN: informação e comunicação não são esferas acessórias, mas componentes capazes de influenciar atitudes e comportamentos de forma duradoura. A disputa por memória histórica, portanto, assume papel operacional, porque define quais interpretações da guerra e da identidade nacional serão consideradas legítimas pelas novas gerações. A presença de símbolos patrióticos no espaço público reforça essa mesma lógica. A comunicação estratégica da OTAN parte do princípio de que palavras, imagens e ações devem ser coerentes para sustentar credibilidade e produzir efeito sobre audiências-alvo. Quando símbolos militares, referências à guerra e sinais de unidade nacional são disseminados em escolas, repartições, transportes e campanhas públicas, o Estado amplia a repetição da mensagem e transforma o cotidiano em um ambiente de exposição contínua à narrativa oficial. Nesse contexto, a proteção da imagem das Forças Armadas russas é um elemento central da estratégia informacional voltada à manutenção da coesão interna. A doutrina norte-americana recente afirma que todas as atividades produzem efeitos informacionais e que a competição por influência é contínua, mesmo antes do confronto armado. Nesse contexto, criminalizar críticas ao Exército, limitar a circulação de relatos negativos e ampliar a visibilidade de símbolos militares contribui para preservar a legitimidade institucional e reduzir o desgaste político do conflito. OTAN, ao tratar de Operação de Informações, ressalta que a coordenação entre mensagens, ações e percepção pública é essencial para produzir efeitos cognitivos coerentes sobre audiências específicas. Quando o Estado associa as Forças Armadas à defesa da pátria, à ordem social e à identidade nacional, ele transforma o aparato militar em eixo moral da narrativa oficial. Isso não apenas reforça a moral interna, mas também limita o espaço de contestação ao enquadrar a crítica como ameaça à unidade do país. Assim, o controle sobre plataformas, aplicativos e fluxos digitais é outro componente importante dessa arquitetura. A OTAN observa que o ambiente informacional inclui dimensões físicas, lógicas e cognitivas, de modo que o controle de infraestrutura digital afeta diretamente a circulação de mensagens e a capacidade de influência. Assim, restringir redes estrangeiras, favorecer serviços nacionais e ampliar o monitoramento da comunicação são medidas que têm impacto simultaneamente técnico e estratégico. Em 2025, a Rússia aprovou a obrigatoriedade do aplicativo chamado de Max para todos os celulares do país, integrando mensagens, serviços públicos e identidade digital em uma mesma plataforma, que permite maior vigilância digital. Ele será pré-instalado em todos os celulares novos, e possibilita o acesso aos dados como localização, contatos, microfones e câmaras fotográficas, com uma política que permite compartilhar as informações com as autoridades governamentais. Tais recursos novos possibilitam ainda maior controle sobre a população, que tem perdido seu direito ao sigilo e à expressão. Na perspectiva dos Estados Unidos, a informação deve ser tratada como ativo operacional, e sua proteção é tão importante quanto sua exploração. Em termos práticos, isso significa que o Estado pode buscar reduzir a exposição da população a fontes alternativas, concentrar dados sensíveis e aumentar sua capacidade de vigilância e resposta. No caso russo, a soberania digital aparece, portanto, não apenas como uma política tecnológica, mas como um instrumento de controle do ecossistema informacional e de reforço da narrativa estatal. Conclusão Este artigo não pretende esgotar o tema nem oferecer uma descrição completa de todas as medidas de controle informacional existentes na Rússia. O foco foi demonstrar, com base na doutrina da OTAN e em documentos norte-americanos, que há coerência e intencionalidade na maneira como o governo russo restringe e modela o acesso à informação, redefine jurídica e simbolicamente territórios ocupados, mobiliza os sistemas educacional, cultural e memorial para formar opiniões de interesse, proteger juridicamente a reputação das Forças Armadas e construir uma arquitetura de soberania digital que concentra dados e reduz a autonomia dos cidadãos. À luz da literatura analisada, buscou-se evidenciar que esses movimentos não são fragmentados, mas compõem o emprego coordenado de múltiplos instrumentos de poder no espaço doméstico russo. A diferença central em relação ao cenário mais frequentemente tratado na doutrina ocidental é que, no caso russo, o alvo prioritário dessa operação não é apenas o inimigo externo, mas a própria população, entendida como centro de gravidade, cuja percepção da realidade pode facilitar ou limitar a liberdade de ação do governo em relação à guerra. Nesse sentido, entender o modo como a doutrina da OTAN e as ações russas se desenvolvem no campo informacional e da comunicação social serve como alerta para que as nações desenvolvam sistemas de comunicação menos vulneráveis à manipulação da opinião pública, sendo um fator chave para a soberania dos países na atualidade. Proteger a sociedade de ações premeditadas para manipular opiniões pode ser fundamental para a manutenção da soberania e do estado democrático de direito. Dotar as instituições brasileiras de mecanismos que protejam a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que filtrem informações patrocinadas por potências estrangeiras com objetivos contrários aos da nossa sociedade, é um desafio permanente e em constante evolução. Acompanhar os meios de comunicação e fortalecê-los de modo a possibilitar que operem sem influência direta de outros atores talvez seja o único caminho a seguir. Rio de Janeiro - RJ, 21 de outubro de 2026.
A mobilização de competências e a geração de forças para a Defesa Nacional
Rodrigo Carran Oliveira dos Santos Cofundador da Vulcan Defense e especialista em Segurança da Informação, Governança e Gestão de Riscos Cibernéticos. Primeiro-Tenente da Reserva de 2ª Classe (R/2) do Exército Brasileiro. 1. Introdução Uma das capacidades estratégicas mais caras a uma Nação é a sua capacidade de mobilizar-se para responder a uma crise. Imaginemos um cenário no qual um operador elétrico perde o controle sobre parte de sua rede de supervisão. Quase ao mesmo tempo, três hospitais de referência relatam indisponibilidade de sistemas de suporte à vida, um terminal portuário suspende a movimentação de contêineres e um fornecedor estrangeiro comunica, sem alarde, que o firmware de uma estrutura crítica não receberá mais atualizações. Não há tropa cruzando as nossas fronteiras e não há declaração de guerra, entretanto, o país precisa, de forma urgente, reunir capacidades críticas. Engenheiros, operadores nacionais, pesquisadores, gestores, cientistas, criptógrafos, fabricantes e militares que nunca trabalharam juntos. Nesse momento, a pergunta que importa não diz respeito aos meios que o país possui, mas sim: quem convoca? Quem são os convocados? Com base em qual lista? Sob qual autoridade? E em quanto tempo? O país começou a tentar responder a essas perguntas em 2007, com a Lei nº 11.631, de 27 de dezembro de 2007, que criou o Sistema Nacional de Mobilização — o SINAMOB — regulamentado pelo Decreto nº 6.592/2008. Seu desenho permanece atual: um conjunto de órgãos, sob coordenação central do Ministério da Defesa, organizado em direções setoriais nas áreas política, econômica, social, psicológica, de segurança e inteligência, de defesa civil, científico-tecnológica e militar. A composição foi atualizada pelo Decreto nº 11.183/2022 para acompanhar a estrutura do Poder Executivo. A lei permite ao SINAMOB requisitar de órgãos públicos, pessoas e entidades as informações necessárias às suas atividades e lhes confere prioridade absoluta durante a execução da Mobilização. Trata-se de instrumento aprovado pelo Congresso e regulamentado. Sua doutrina básica, porém, permanece a 1ª edição de 1987, aprovada pela Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional — anterior à Constituição, ao Ministério da Defesa e à Lei do SINAMOB. O Ministério da Defesa a registra como “em vigor (revisão)”. Ao que parece, a lei e a estrutura foram atualizadas, porém o fundamento doutrinário ainda não. O desafio é transformar a resposta jurídica em capacidade comprovada, mas antes disso é preciso saber medi-la. Portanto, o Brasil não carece de base legal. Carece de prática recorrente, mensurável e capaz de alterar decisões, e este artigo se propõe a abrir esse diálogo e apontar caminhos que possam indicar possíveis soluções. 2. As primeiras iniciativas em mobilização nacional Em outubro de 2024, a Escola Superior de Defesa sediou o 1º Exercício de Planejamento de Mobilização Nacional, promovido pela Chefia de Logística do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, com representantes do SINAMOB e instituições convidadas. A despeito do mérito da iniciativa, dezesseis anos separaram a regulamentação do sistema de seu primeiro exercício integrado. O cenário foi o clássico: dois países fictícios em disputa por uma região rica em recursos hidrelétricos. Em agosto de 2025, nova edição, integrada à Operação ATLAS, confirmou a continuidade; porém, novos avanços precisam ser incorporados, a exemplo dos cenários híbridos e assimétricos, reproduzindo formas de coerção capazes de produzir efeitos estratégicos, antes que sua autoria ou natureza jurídica estejam esclarecidas. Entretanto, há boas práticas no Brasil que ensaiam crises tecnológicas. Desde 2018, o Exercício Guardião Cibernético (EGC), sob responsabilidade do Ministério da Defesa e coordenado pelo Exército Brasileiro, por meio do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), simula ataques contra infraestruturas críticas. Em setembro de 2025, sua sétima edição reuniu 169 organizações e cerca de 750 participantes de vinte países. Em sua oitava edição, realizada de 21 a 25 de setembro de 2026, o EGC 8.0 reuniu cerca de 1.300 participantes, aproximadamente 300 organizações e representantes de 14 países, com atividades em Brasília e nos polos de Belém, Manaus, Recife, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. No polo fluminense, as atividades ocorreram na Firjan SENAI Digitech. Os cenários envolveram a resposta a incidentes, a continuidade de serviços essenciais e a coordenação entre instituições públicas, privadas e militares, incluindo exercícios relacionados ao setor nuclear. A amplitude dessa prática oferece um ambiente concreto para avaliar a prontidão e a articulação de capacidades estratégicas. Em 2025, o Guardião Cibernético e o Exercício de Planejamento de Mobilização Nacional ocorreram na Escola Superior de Defesa. Até o levantamento documental realizado para este artigo, não foi identificado mecanismo público que estabeleça uma integração sistemática entre os resultados dos dois exercícios. A edição de 2026 do Guardião reforça a relevância dessa questão: multiplicam-se os participantes, os polos e os cenários de crise, mas ainda é necessário demonstrar como os aprendizados dessas simulações podem alimentar formalmente o planejamento de mobilização nacional. O Guardião testa a resiliência e a coordenação dos operadores diante de ataques simulados; o exercício de mobilização avalia a convergência das capacidades do Estado diante de hipóteses estratégicas. Sem uma interface formal e verificável, não é possível assegurar que as carências identificadas em um ciclo orientem os documentos produzidos no outro. A pergunta central permanece: quem identifica, convoca e habilita as competências de que os operadores necessitam quando a crise excede sua capacidade instalada? A lacuna a investigar está na articulação entre exercícios. Acoplar ciclos que já possuem público e estrutura pode ser uma decisão de governança mais econômica do que criar novos instrumentos. A lei define Mobilização Nacional como as atividades destinadas a capacitar o país para ações estratégicas de Defesa diante de agressão estrangeira. O Decreto nº 6.592/2008 inclui ameaças ou atos lesivos à soberania, ao povo ou às instituições, mesmo sem invasão. A Doutrina Militar de Defesa de 2025 incorpora a zona cinza: a faixa ambígua em que as fronteiras entre paz, crise e conflito armado perdem nitidez. O conceito já está na doutrina, porém o importante é convertê-lo em gatilho de preparo. A agressão pode chegar como comprometimento da cadeia de software, interrupção de serviços essenciais, negativa de suporte a sistema homologado ou manipulação informacional. Essas hipóteses não produzem automaticamente a certeza jurídica necessária à Mobilização formal. Por isso, o SINAMOB precisa ser preparado e exercitado antes que o Estado discuta, sob pressão, se o limiar legal foi alcançado. Não se propõe acionar fora da lei poderes reservados à Mobilização. Propõe-se cumprir o preparo contínuo, metódico e permanente previsto no regulamento, incorporando tecnologias e dependências que ganharam centralidade desde 2007. Como a Mobilização toca requisição, propriedade privada, dados pessoais e liberdade econômica, seus limites devem ser desenhados na normalidade, com transparência e supervisão. 3. A nova lógica da mobilização por competências Nossa tradição institucional de mobilização é demográfica. O serviço militar obrigatório, o alistamento, a reserva: o país sabe, com razoável eficiência, localizar e convocar pessoas em função de idade e de situação militar. É uma capacidade real, construída ao longo de gerações. Mas a crise descrita no início não pede somente efetivo. Pede competência nominal e na maioria das vezes escassa: quem opera determinado sistema industrial, domina engenharia reversa de firmware, mantém uma linha nacional de produção ou já respondeu a incidente em tecnologia operacional. Não há evidência pública de cadastro nacional, intersetorial e periodicamente exercitado que permita localizar essas pessoas, confirmar sua disponibilidade e integrá-las a equipes prontas. Cadastros isolados não formam reserva de capacidade; aquilo que não foi integrado em paz dificilmente será improvisado sob crise. Aqui está a lacuna central do ecossistema brasileiro de mobilização estratégica: temos reserva de efetivo e não temos reserva de capacidade. O ativo mais demorado de recompor não é uma plataforma e sim uma equipe que acumulou conhecimento, confiança e experiência operacional. Perder um profissional crítico custa anos que a Defesa pode não dispor. Essa constatação corre o risco de permanecer retórica enquanto não houver um número que a torne verificável. Proponho uma métrica: o Tempo de Mobilização de Competência, ou TMC. Defino o TMC como o intervalo entre o momento em que uma crise é caracterizada e o momento em que a equipe dotada das competências necessárias está constituída, autorizada e efetivamente operando sobre o problema. É um número, não um conceito, e decompõe-se em quatro parcelas mensuráveis: identificação, que responde a quem sabe fazer aquilo; localização, que responde ao lugar onde essa pessoa está e se está disponível; habilitação, que compreende vínculo, contrato, credenciamento de segurança e concessão de acesso; e integração, que vai da chegada da pessoa até a equipe operando de forma coordenada. Minha hipótese, formada na prática de resposta a incidentes, é que a parcela dominante não é a identificação, mas a habilitação. Costuma-se saber quem sabe fazer; o que não se consegue é colocar essa pessoa dentro do perímetro, com instrumento contratual válido, credencial concedida e acesso liberado, dentro da janela em que a intervenção ainda importa. Seria uma falha administrativa com consequência estratégica. Mas trata-se de hipótese, não de dado — e é exatamente por isso que esse tempo precisa ser medido em vez de estimado. Um país que não conhece a decomposição do próprio TMC não sabe onde investir para reduzi-lo, e corre o risco de gastar em capacidade técnica quando o gargalo parece ser jurídico-administrativo. Não há registro público de que o TMC tenha sido medido em qualquer exercício nacional. Proponho que o primeiro exercício híbrido do SINAMOB tenha como produto mínimo obrigatório esse número, decomposto nas quatro parcelas, por setor crítico. Um exercício que produza apenas isso já terá entregado mais do que qualquer diagnóstico narrativo, porque terá convertido uma preocupação em linha de base — e linha de base é o que permite estabelecer meta, cobrar prazo e justificar orçamento. A experiência de participação no EGC 8.0, em setembro de 2026, no hub do Rio de Janeiro, representando a Vulcan Defense em atividades de controle da linha temporal de simulações e de gestão de crise, reforça essa reflexão. A observação das dinâmicas de coordenação nos cenários de Defesa e Nuclear evidenciou a utilidade de distinguir o tempo de reação técnica do tempo necessário para identificar, autorizar e integrar competências externas. Essa experiência fundamenta uma questão de pesquisa; não constitui, por si só, mensuração do Tempo de Mobilização de Competência (TMC) nem comprovação de integração formal com o SINAMOB. 4. Transformando norma em ação estratégica Para converter arquitetura normativa em capacidade comprovada, as dimensões jurídica, humana, científico-industrial e operacional do SINAMOB precisam operar de forma integrada. O primeiro movimento é construir o módulo que falta. No Subsistema Setorial de Mobilização Científico-Tecnológica, um módulo permanente de preparo tecnológico e cibernético deve estabelecer gatilhos de planejamento, alerta, exercício e coordenação anteriores à caracterização formal de agressão. A Mobilização e os poderes extraordinários continuariam submetidos à Constituição e à lei; antes da crise, porém, devem estar definidos quem avalia, recomenda e decide, sob qual evidência e controle. Isso não duplica governança. A Política Nacional de Cibersegurança, de 2023, e a Estratégia Nacional de Cibersegurança, instituída pelo Decreto nº 12.573/2025 e dotada de eixo de soberania e governança, orientam a coordenação permanente. O Conselho Nacional de Cibersegurança (CNCiber) acompanha essa agenda; seu presidente é o representante do GSI/PR, órgão que também exerce a Secretaria-Executiva do colegiado. Coordenar segurança e resiliência na normalidade é função diferente de mobilizar capacidade sob crise. O módulo daria ao SINAMOB a interface técnica que lhe falta e ao Comitê um caminho institucional quando a resposta exceder a coordenação ordinária, preservada a competência de cada órgão. O segundo movimento é criar uma Reserva Nacional de Competências Estratégicas: cadastro voluntário de civis e militares em cibersegurança, tecnologia operacional, criptografia, energia, telecomunicações, logística, materiais e saúde. Por ser um mapa de alvos humanos, sua proteção é condição de existência: finalidade, minimização, compartimentação setorial, acesso auditável e relatório de impacto. No tratamento exclusivamente destinado à defesa nacional ou à segurança do Estado, incidirá o regime do art. 4º, III, e §§ 1º a 4º da LGPD, sob tutela pública e legislação específica; nos demais, as bases e salvaguardas ordinárias. O desafio é tornar esse cadastro um instrumento de vínculo permanente. O vínculo exige formação, exercícios, convocação previsível e contrapartida individual: certificação estatal, capacitação e remuneração ou compensação por disponibilidade e acionamento. A reserva só reduzirá o TMC se atacar a parcela dominante: credenciamento prévio, contratos de prontidão celebrados na normalidade — inclusive com empresas detentoras das competências e cessão temporária de especialistas — e acesso predefinido. Universidades, institutos federais e escolas militares formam a rede de preparação. A reserva também deve reter talentos. Em 2024, o Conhecimento Brasil recebeu 2.572 propostas de cientistas brasileiros em 56 países; a demanda aproximou-se de R$ 2 bilhões. O Estado respondeu: contratou 599 projetos de atração e fixação, com R$ 604 milhões, e aprovou 640 redes, com R$ 228,5 milhões. O dado não demonstra inércia; revela capacidade dispersa, demanda superior à oferta e ausência de vínculo com missões de Defesa. Residências Tecnológicas de Defesa poderiam reunir pesquisadores, engenheiros e militares por doze a vinte e quatro meses, trabalhando sobre missão real, com bolsa competitiva, laboratório, carreira previsível e regras prévias de propriedade intelectual. O terceiro movimento é mapear dependências críticas. O Currículo Lattes registra o que o País sabe fazer; não há registro equivalente daquilo que não sabe. Proponho um Balanço Nacional de Dependências Críticas, anual, com parte pública e parte classificada, respondendo: o que o Brasil não produz, quanto tempo levaria para produzir e qual linha nacional poderia assumir a encomenda. O balanço incluiria exercício de conversão industrial coerente com a Política Nacional da Base Industrial de Defesa (Decreto nº 11.169/2022): quais fábricas civis assumem produção de Defesa e em que prazo. Há ainda um recorte ignorado: exigimos origem e rastreabilidade no aço, mas não no código. Alinhados à Estratégia Nacional de Cibersegurança, os editais de Defesa devem exigir inventário de componentes de software (SBOM) em padrão aberto, atestações de integridade da cadeia de desenvolvimento e condições nacionais de manutenção. A patente só será capacidade nacional com protótipo, licenciamento, escala e usuário. O Balanço deve orientar uma Linha de Maturação Tecnológica de Defesa, financiada por entregas — prova de conceito, teste operacional, licenciamento e produção — e executada por universidade, empresa, Forças Armadas e Base Industrial de Defesa. O objetivo é evitar que conhecimento financiado pelo Brasil só se torne capacidade depois de atravessar a fronteira. O quarto movimento é realizar o ensaio que muda o orçamento. Basta acoplar os ciclos existentes: carências do Guardião alimentariam os documentos do SINAMOB, e as hipóteses de mobilização orientariam os cenários cibernéticos. O exercício integrado seria anual, alternando cenários e incluindo crise cibernética, energética, logística e informacional, com participação dos subsistemas e, sob regras adequadas, de operadores privados de infraestruturas críticas. Cada edição deveria medir e publicar o TMC e fazer seu relatório alimentar formalmente o planejamento e a proposta orçamentária do ciclo seguinte, com destino no plano plurianual e nas ações do Ministério da Defesa. Um exercício agendado, porém, mede a melhor hipótese: credenciais providenciadas na véspera, contratos assinados na semana anterior, pessoas avisadas. Para conhecer o TMC real, a rotina anual precisa ser complementada por chamadas de prontidão sem aviso prévio, de duração curta e escopo limitado, que verifiquem se o vínculo, a credencial e o acesso funcionam dentro de poucas horas. Exercícios sem efeito sobre prioridade, plano ou recurso perdem eficiência; exercícios que produzem consequência são os instrumentos mais econômicos de aprendizado estratégico do Estado. 5. O papel das lideranças estratégicas O verdadeiro exercício de soberania está em testar e medir o SINAMOB, que já tem órgão central, doutrina, subsistemas e uma cadência de simulações. A Política e a Estratégia Nacional de Defesa, aprovadas pelo Decreto nº 12.725/2025, já apontam essa direção: a AED-03 determina aprimorar o SINAMOB, e a AED-04, coordenar com os órgãos setoriais o atendimento dos requisitos de infraestruturas de interesse da Defesa. O que falta é definir o método de entrega: o responsável, o prazo, o indicador e a consequência. O TMC oferece o indicador; o restante depende de decisão. Uma agenda inicial deve conter a definição do módulo tecnológico e cibernético; a publicação do protocolo de acoplamento com o Guardião Cibernético e a metodologia do Balanço; a estruturação da primeira chamada da Reserva, com credenciamento e instrumento contratual resolvidos; e a marcação dos próximos exercícios, que deverão devolver ao País o seu primeiro TMC. A ameaça à soberania não está somente atrelada à violação do território; manifesta-se também quando um país descobre, no meio de uma crise, que mesmo com a lei, a doutrina, o sistema e as pessoas — nunca havia medido quanto tempo levaria para reuni-las. Bibliografia sugerida BRASIL. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. ANA participa do Exercício Guardião Cibernético 8.0 com foco na proteção do espaço cibernético brasileiro e infraestruturas críticas. Brasília, DF, set. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/ana-participa-do-exercicio-guardiao-cibernetico-8-0-com-foco-na-protecao-do-espaco-cibernetico-brasileiro-e-infraestruturas-criticas. Acesso em: 14 out. 2026. BRASIL. Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Censipam participa da abertura do Exercício Guardião Cibernético 8.0. Brasília, DF, 22 set. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/censipam/pt-br/central-de-conteudos/noticias/censipam-participa-da-abertura-do-exercicio-guardiao-cibernetico-8.0. Acesso em: 14 out. 2026. BRASIL. Comissão Nacional de Energia Nuclear. CNEN participa do Exercício Guardião Cibernético 8.0. Rio de Janeiro, 24 set. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/cnen/pt-br/assunto/ultimas-noticias/cnen-participa-do-exercicio-guardiao-cibernetico-8.0. Acesso em: 14 out. 2026. BRASIL. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Programa Conhecimento Brasil: atração, fixação e formação de redes com pesquisadores brasileiros no exterior. Brasília, DF: CNPq, 2024-2025. BRASIL. Decreto nº 6.592, de 2 de outubro de 2008. Regulamenta o disposto na Lei nº 11.631, de 27 de dezembro de 2007. BRASIL. Decreto nº 11.169, de 10 de agosto de 2022. Institui a Política Nacional da Base Industrial de Defesa. BRASIL. Decreto nº 11.183, de 25 de agosto de 2022. Altera o Decreto nº 6.592, de 2 de outubro de 2008, e atualiza a composição e a organização do Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB). BRASIL. Decreto nº 11.856, de 26 de dezembro de 2023. Institui a Política Nacional de Cibersegurança e o Comitê Nacional de Cibersegurança. BRASIL. Decreto nº 12.573, de 4 de agosto de 2025. Institui a Estratégia Nacional de Cibersegurança. BRASIL. Decreto nº 12.725, de 18 de novembro de 2025. Aprova a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional. BRASIL. Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro. Detran RJ participa do maior exercício cibernético do Hemisfério Sul. Rio de Janeiro, 25 set. 2026. Disponível em: https://detran.rj.gov.br/noticias/detran-rj-participa-do-maior-exercicio-cibernetico-do-hemisferio-sul.html. Acesso em: 14 out. 2026. BRASIL. Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. GSI/PR participa do 7º Exercício Guardião Cibernético, que reuniu 20 países. Brasília, DF, 3 out. 2025. BRASIL. Lei nº 11.631, de 27 de dezembro de 2007. Dispõe sobre a Mobilização Nacional e cria o Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB). BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). BRASIL. Ministério da Defesa. Exercício Guardião Cibernético 8.0 reúne cerca de 1.300 participantes em Brasília. Brasília, DF, 21 set. 2026. Atualizado em: 25 set. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/exercicio-guardiao-cibernetico-8-0-reune-cerca-de-1-300-participantes-em-brasilia/. Acesso em: 14 out. 2026. BRASIL. Ministério da Defesa. Escola Superior de Defesa. 1º Exercício de Planejamento de Mobilização Nacional. Brasília, DF, 17-25 out. 2024. BRASIL. Ministério da Defesa. Escola Superior de Defesa. Exercício de Planejamento de Mobilização Nacional. Integrante da Operação ATLAS 2025. Brasília, DF, 11-15 ago. 2025. BRASIL. Ministério da Defesa. Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. MD51-M-04: Doutrina Militar de Defesa. 3. ed. Brasília, DF: Ministério da Defesa, 2025. BRASIL. Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional. Doutrina Básica de Mobilização Nacional. 1. ed. Brasília, DF, 1987. Aprovada pela Exposição de Motivos nº 006, de 14 de setembro de 1987. Registrada pelo Ministério da Defesa como em vigor (revisão). INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION; INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. ISO/IEC 5962:2021: Information technology -SPDX Specification V2.2.1. Geneva: ISO/IEC, 2021. Rio de Janeiro - RJ, 15 de outubro de 2026.
Seminário Wargaming, modelagem e simulação de conflitos
OMPV O Seminário: Wargaming, modelagem e simulação de conflitos, foi realizado no dia 08 de outubro 2026, quinta-feira, e contou com a participação dos seguintes expositores: • Major Renan Alves dos Santos, Instrutor de Simulação e Jogos de Guerra da ECEME; • João Renato Lima Paulon, Mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança pela UFF. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 13/10/2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 13 de outubro 2026.
Webinar: Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil
OMPV Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil O Webinar Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil, foi realizado no dia 24/06/2026, quarta-feira, e contou com a participação dos seguintes expositores: Coronel Edson da Silva, da Secretaria de Estado de Defesa Civil e Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro; Coronel Marcos Antônio, do Exército Brasileiro e especialista DQBRN. Uma conversa especial com profissionais que participaram da resposta ao desastre com o Césio-137, em Goiânia (1987), compartilhando suas experiências, aprendizados e a aplicação desses conhecimentos na gestão e resposta a emergências. O evento foi organizado pelo Núcleo de Pesquisa sobre Defesa QBRN e Desastres (NuPeDD-QBRN) em parceria com Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Webinar: Emergência Radiológica: um debate sobre a resposta ao acidente com Césio-137 no Brasil do dia 24 de junho de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 04 de setembro de 2026 . .
Seminário A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos
OMPV O Seminário: A assinatura do Acordo de Paz entre o Irã e os Estados Unidos, foi realizado no dia 25/06/2026, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 25/06/2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de junho 2026.
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos - O Exército Brasileiro nas Operações no Multidomínio
OMPV O ambiente operacional contemporâneo é marcado pela rápida evolução tecnológica, pela complexidade dos conflitos e pela ampliação dos espaços de disputa. Nesse cenário, as Operações no Multidomínio representam uma forma contemporânea de planejar e conduzir operações militares, integrando capacidades nos domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial, cibernético e informacional para produzir efeitos coordenados e potencializar os resulta dos operacionais. Para o Exército Brasileiro, esse conceito orienta a transformação da Força Terrestre, impulsionando a evolução da doutrina, o desenvolvimento de capacidades, a incorporação de novas tecnologias e o fortalecimento da integração com as demais Forças Armadas e instituições nacionais. As Operações no Multidomínio ampliam a consciência situacional, aceleram o processo decisório e fortalecem a capacidade de atuação do Exército Brasileiro, contribuindo para a defesa da soberania nacional e para o enfrentamento dos desafios do ambiente operacional do presente e do futuro. Nos dias 11 e 12 de agosto, a ECEME realizou o XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos (CEE), com o tema "O Exército Brasileiro nas Operações no Multidomínio". O evento reuniu especialistas nacionais e estrangeiros para discutir os desafios de um ambiente operacional marcado pela rápida evolução tecnológica e pela complexidade dos conflitos, com foco na integração de capacidades nos diferentes domínios: espacial, aéreo, terrestre, marítimo e eletromagnético, cibernético e cognitivo. Ao longo de dois dias, palestras e debates abordaram o futuro da guerra, o ambiente estratégico global, tecnologias disruptivas, sistemas antidrone, logística e a atuação das Divisões de Exército nas Operações no Multidomínio. O XXXIV CEE reafirma o compromisso da Escola com o avanço da Doutrina Militar Terrestre e a qualificação das competências exigidas pelos cenários de conflito presentes e futuros, consolidando seu papel como referência em pensamento e produção de conhecimento estratégico. Para assistir o XXXIV Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 11 e 12 de agosto de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 01 de setembro de 2026 . .
XXXIII Ciclo de Estudos Estratégicos - O Brasil e a transformação das Operações de Paz: Multilateralismo entre a crise e a afirmação da resiliência
OMPV O contexto atual é marcado por graves fragmentações políticas, crises de legitimidade e desafios operacionais. Hoje, é urgente a reflexão sobre como o multilateralismo institucionalizado pode se reinventar a fim de manter-se eficiente e relevante. As operações de paz da ONU são uma ferramenta multilateral que, há 80 anos, são desdobra das para lidar com conflitos armados e também têm sido afetadas pelo atual momento de inflexão, no qual a crise do multilateralismo se entrelaça com a necessidade de afirmar a sua relevância e de reforçar a sua resiliência. O Brasil está em uma posição privilegiada neste debate. Além de contribuir para a construção de consensos nos principais órgãos da ONU (Conselho de Segurança e Assembleia Geral), o país, desde 1956, também desdobra militares em operações de paz de diferentes naturezas, inclusive em cargos de liderança. Ademais, tem sido convidado para colaborar com a evolução doutrinária e operacional e para a construção da “resiliência institucional”. Nos dias 12 e 13 de maio de 2026, foi realizada a 33ª edição do Ciclo de Estudos Estratégicos (CEE), reunindo especialistas civis e militares, nacionais e estrangeiros, em discussões acadêmicas sobre os desafios contemporâneos das operações de paz e as transformações da ordem internacional. A ECEME reuniu militares, diplomatas, acadêmicos e pesquisadores nacionais e internacionais para dois dias de reflexão de alto nível sobre: "O Brasil e a transformação das operações de paz: multilateralismo entre a crise e a afirmação da resiliência". O evento contou com a participação do Embaixador Marcelo Viegas (Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores), do Professor Doutor Cedric de Conning (Norwegian Institute of International Affairs - NUPI), dos Generais de Exército Novaes e Costa Neves, dos Generais de Divisão Fernandes e Affonso da Costa, além de professores e pesquisadores do King's College London, South African Institute of International Affairs (SAIIA), Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Fundação Getúlio Vargas (FGV), Escola Superior de Guerra (ESG) e Rede Brasileira sobre Operações de Paz (REBRAPAZ). Os painéis do CEE, e a Mesa Redonda que antecedeu o evento, abordaram o atual cenário internacional, marcado por fragmentações políticas, crises de legitimidade e ascensão do papel de organizações regionais na gestão de conflitos, que impõe ao multilateralismo a necessidade de se reinventar para permanecer relevante e eficaz. Nesse contexto, as operações de paz da ONU, empregadas há oito décadas na gestão de conflitos armados, enfrentam o desafio de fortalecer sua resiliência institucional diante da crise do sistema multilateral. Organizado pelo Instituto Meira Mattos (PPGCM/IMM), o CEE consolida a ECEME como centro de referência nacional e internacional em pensamento estratégico - um espaço onde Academia, Defesa e Diplomacia convergem para antecipar os desafios da segurança internacional e fortalecer a projeção do Brasil no cenário global. Para assistir o XXXIII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 12 e 13 de maio de 2026, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 29 de maio de 2026 . .
XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos - II Seminário sobre as Estratégias Globais e Nacionais para a Mitigação de Ameaças QBRN: Cooperação, Desenvolvimento e Projeção de Poder
OMPV Com o objetivo de promover um amplo fórum de debates sobre os desafios impostos pelas ameaças QBRN no Brasil e no mundo, o evento teve como foco a cooperação interagências, o desenvolvimento de capacidades nacionais e a projeção de poder. Esses temas foram discutidos a partir de cenários estratégicos: a rápida evolução tecnológica, a complexidade crescente do crime organizado, o legado de grandes eventos e a necessidade de antecipar situações críticas colocam as ameaças QBRN no centro das discussões de segurança contemporânea. Nesse contexto, torna-se essencial integrar esforços das Forças Armadas, dos órgãos de segurança pública, da defesa civil, da comunidade científica, da indústria e dos organismos internacionais. É nesse cenário que a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) dedica-se ao estudo das implicações QBRN para a Defesa Nacional. O evento visou fomentar o conhecimento estratégico, fortalecer a cooperação institucional e preparar o país para responder de forma eficaz aos desafios de um ambiente global em constante transformação. Para assistir o XXXII Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 05 e 06 de agosto 2025, Clique aqui. Para mais informações: https://ppgcm.eceme.eb.mil.br/index.php/pt/quem-somos/grupos-de-pesquisa/655-nucleo-de-pesquisa-sobre-defesa-qbrn-e-desastres-nupedd-qbrn Rio de Janeiro - RJ, 02 de fevereiro 2026 . .
XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos - Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa
OMPV Nos dias 16 e 17 de junho de 2025, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) promoveu o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos (XXXI CEE), reunindo autoridades civis e militares, pesquisadores, docentes e especialistas nacionais e estrangeiros em torno do tema “IA e Tecnologias Quânticas: Tendências e Desafios para a Defesa”. A conferência de abertura contou com exposições do Chefe do Estado-Maior do Exército, General Richard, que abordou as diretrizes da Força Terrestre para a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial (IA), e do Comandante do Instituto Militar de Engenharia, General Galdino, que apresentou os novos paradigmas tecnológicos, destacando oportunidades e desafios relacionados à temática. Ao longo das duas jornadas, a programação incluiu conferências, painéis e mesas temáticas que trataram da integração de IA e Tecnologias Quânticas (TQ) no campo da Defesa, destacando os avanços científicos, os impactos estratégicos, as implicações éticas e legais, bem como os desafios de implementação dessas tecnologias em um contexto operacional. As discussões abrangeram tópicos como a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, o emprego de IA nos conflitos contemporâneos, disputas geopolíticas em torno das tecnologias emergentes, ciberdefesa, implicações quânticas para a criptografia e segurança, além de temas voltados à governança, educação, energia e inovação. Especial atenção foi dedicada à preparação do Brasil e de suas Forças Armadas frente às exigências de um ambiente internacional cada vez mais tecnológico e complexo. O XXXI CEE também evidenciou a importância da sinergia entre a academia, os centros de pesquisa e as instituições militares no desenvolvimento de capacidades autônomas e na formulação de estratégias que assegurem a soberania nacional. Nesse sentido, a ECEME reafirma seu compromisso com a modernização e o fortalecimento do pensamento estratégico no âmbito do Exército Brasileiro, promovendo o intercâmbio de conhecimentos e a construção de soluções inovadoras para os desafios da Defesa no século XXI. Para assistir o XXXI Ciclo de Estudos Estratégicos do dia 16 e 17 de junho 2025, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://sites.google.com/ime.eb.br/iatq/sobre-o-projeto/ciclo-de-estudos-estrat%C3%A9gicos?authuser=0 Rio de Janeiro - RJ, 19 de setembro 2025 . .
XXX Podcast - Wargaming: modelagem e simulação de conflitos - 08 outubro 2026 |
Evolução do sistema DQBRN do Exército Brasileiro - 25 junho 2026 |
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A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
A questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano
A questão Essequibo é um litígio fronteiriço histórico. A Venezuela argumenta que o rio Essequibo deveria ser a fronteira natural, conforme um mapa de 1777 que remonta aos tempos coloniais espanhóis. A Guiana, por sua vez, baseia sua soberania nas fronteiras estabelecidas por um laudo arbitral de Paris de 1899, que concedeu a maior parte da terra à então Guiana Britânica. Em 2015, a descoberta de reservas de petróleo e gás em águas profundas na costa do Essequibo, por empresas internacionais, intensificou a disputa, elevando o valor estratégico da região e suas águas adjacentes. No final de 2023, a antiga disputa pela região voltou ao cenário geopolítico sul-americano depois que o governo venezuelano realizou um referendo para legitimar a anexação do território. A crise expõe as limitações de organismos regionais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em mediar e prevenir conflitos entre seus membros, exigindo uma atuação mais forte de instâncias multilaterais e de atores internacionais. Até que ponto a questão Essequibo está envolvida nas atuais ações militares na região do Caribe e quais são os seus reflexos para o Brasil? Para abordar o tema “A Questão Essequibo e o cenário geopolítico sul-americano”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Ricardo De Toma, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ricardo Salvador De Toma-GarcíaPesquisador pós-doutoral do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militaresda Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Professor, o senhor pode explicar resumidamente o que vem a ser a Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Essequibo, região rica em recursos minerais, é uma reivindicação antiga da Venezuela, que cobiça os 159.500 km² do território para acrecer aos seus 916.500 km². Já a Guiana, detentora da área cobiçada, possui 215.000 km². O que isso representa? Mais do que 70% do território que ocupa e administra a Guiana, país que nasceu como uma república em 1966, quando se tornou independente do Reino Unido. A Venezuela foi o segundo país a reconhecer a independência da Guiana, mas fez uma ressalva: o reconhecimento estabelecia uma reclamação sobre os 159.500 km² de Essequibo, que, para os venezuelanos, não deveria fazer parte do território guianense. A questão ganha eco basicamente pelos potenciais de hidrocarbonetos e petróleo em áreas marinhas não delimitadas. A exploração desses recursos por parte de corporações estadunidenses e chinesas é o que tem gerado o interesse sobre a região. Cabe destacar que o grande desenvolvimento econômico da Guiana, que vem sendo reconhecido como uma “Dubai sul-americana”, gerou atritos políticos, que acabaram por se transformar em grandes tensões entre a Venezuela e a Guiana. 2) OMPV: Como ocorreu o crescimento da economia da Guiana? Prof. Ricardo: A Guiana era um dos países com uma das menores economias da região. Ela dependia basicamente da exploração de manganês e de ouro. A partir de 2019, o país começou a produzir petróleo. Veja a situação, vamos falar de números: a Guiana tem hoje menos de 700 mil habitantes, com um crescimento demográfico negativo e um dos maiores índices de suicídio do mundo, justamente por essa situação econômica complicada. Hoje a Guiana está produzindo cerca de 700 mil barris diários de petróleo. Isso é quase um barril por habitante. Essa é a verdadeira transformação da economia da Guiana, repercutindo em um acentuado crescimento econômico e um significativo aumento da qualidade de vida da sua população. 3) OMPV: Como essa disputa por Essequibo afeta o Brasil? Prof. Ricardo: Essa resposta traz à tona a crise ocorrida em 1969, envolvendo a Venezuela e a Guiana, motivada por duas questões: a tomada militar da ilha de Anacoco, no rio Cuyuní, pela Venezuela, e a revolta do Rupununi, promovida por separatistas na Guiana, perto da localidade de Lethem, que faz fronteira com a cidade de Bonfim, na divisa com o Estado de Roraima. Esses incidentes aumentaram a tensão na fronteira com o Brasil e criaram um movimento de deslocados para o território brasileiro à época. Com o desenvolvimento econômico da Guiana, em decorrência da exploração petrolífera, a Venezuela resolveu retomar a sua cobiça por Essequibo. O governo venezuelano, afetado por uma série crise política, aproveitou-se desse tema para incrementar a sua popularidade. Todos esses movimentos geraram uma preocupação para o Brasil, Estado que tem uma grande responsabilidade em manter a inviolabilidade de suas fronteiras, garantindo que a região amazônica não seja alvo de cobiças internacionais. Há relatos da presença, no sul do rio Orinoco, de agentes da Rússia, inclusive com a presença de bombardeiros estratégicos russos na Venezuela. Os Estados Unidos também têm interesses na região e a China, apesar de manter certa neutralidade, possui fortes investimentos na área contestada. 4) OMPV: O atual território da Venezuela faz fronteira com a região contestada, ou há necessidade de passar pelo Brasil para chegar até essa área? Prof. Ricardo: Oficialmente, a Venezuela não reconhece a fronteira que foi estabelecida pelo laudo arbitral de Paris de 1899 e é por conta dessa situação que o caso está atualmente na Corte Internacional de Justiça, onde se discutirá justamente a delimitação da fronteira. Com relação à pergunta, a resposta é não, porque a região do Essequibo tem um limite com o estado de Delta Amacuro, no norte da Venezuela, e com o estado de Bolívar, permitindo o trânsito para o território contestado. Aliás, essa é uma zona transitada pelos indígenas Warao. 5) OMPV: Quais são os principais atores internacionais envolvidos na Questão Essequibo? Prof. Ricardo: Já houve o envolvimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há investimentos britânicos por meio de petroleiras, com concessões autorizadas unilateralmente pela Guiana sobre áreas marinhas não delimitadas. Também observa-se a aplicação de recursos na região por parte da Empresa Nacional de Petróleos da China, que opera conjuntamente com a ExxonMobil, dos Estados Unidos, sobre o Bloco Stabroek, campo petrolífero offshore na costa da Guiana. E ainda podemos citar a influência russa, que vê na Venezuela uma forma de projetar seu poder na região. Na Guiana, os franceses participaram de leilões de blocos para a exploração de petróleo, com a empresa Total. A existência desses interesses econômicos aumenta o potencial geoestratégico do território Essequibo. Você vê hoje, por exemplo, que a China investe pesado na modernização do aeroporto internacional de Georgetown, que possui projetos para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas, de um porto de águas profundas e interesse no desenvolvimento da rede 5G. A Guiana foi o primeiro país do Caribe Ocidental que estabeleceu relações com a China e que a reconheceu como “uma única China”. Essa lealdade é retribuída pela China com esses investimentos. 6) OMPV: Recentemente, o Brasil realizou a Operação Atlas, desdobrando tropas na região próxima a Essequibo, sob coordenação do seu Ministério da Defesa. Como é que o senhor vê a repercussão desse exercício para a região? Prof. Ricardo: O interessante é que, recentemente, na Venezuela, também foram realizados exercícios. Esses exercícios foram, de certo modo, uma resposta a um patrulheiro britânico que estava no porto de Georgetown, e eu lembro que, na época, houve uma manifestação do antigo chanceler do Brasil, que indicou que uma grande autoridade, de uma grande potência, havia manifestado que, caso a Venezuela tomasse a decisão de tomar Essequibo pela força, essa grande potência iria intervir. Entendo que a Operação Atlas repercute positivamente para o Brasil, demonstrando a capacidade logística das suas Forças Armadas e a determinação nacional de manter a estabilidade da região amazônica, deixando-a de fora de possíveis conflitos. Nove países tem parte na Amazônia e a presença de forças extra-regionais em um eventual cenário desagregado ou caótico pode ser lesiva para a soberania individual de cada um dos Estados pan-amazônicos. Assim, qualquer medida mais radical ou não consensual por partes de algum país pode gerar consequências incertas. Portanto, esse tipo de exercício é necessário para manter a segurança local, a cooperação e a paz. 7) OMPV: Recentemente os Estados Unidos têm aproximado tropas do litoral da Guiana. O que essas manobras têm a ver com a região de Essequibo? Prof. Ricardo: Os Estados Unidos assinaram um convênio com a Guiana. No ano de 2020, durante a pandemia, foi a primeira vez na história que um secretário de Estado americano visitou Georgetown. A partir desse ano, durante o primeiro governo Trump, foi assinado um convênio de patrulhamento entre o Serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos e a Guiana, que não possui uma força armada capaz de desenvolver essas operações. Esse acordo ficou centrado em neutralizar aparentes ou supostas operações de narcotráfico. Já se fala hoje da existência de um suposto Cartel de los Soles, com indícios que vinculam autoridades venezuelanas a atividades ilícitas. Então, o que temos que destacar é que os Estados Unidos, diante dessas suspeitas, podem atuar na defesa de seus interesses e no combate ao narcotráfico, trazendo mais tensão para a questão Essequibo. 8) OMPV: Qual é a relação comercial do Brasil com a Guiana? Prof Ricardo: O Brasil, por meio da Petrobras, tem interesse em participar da exploração dessas áreas marinhas não delimitadas. Existe também um interesse em pequenas exportações. O estado de Roraima é o principal interessado em que seja construída uma rodovia que passe por Bonfim, Lethem, Mahdia, Mabaruma Hills e depois Linden, até Georgetown, para escoar a sua produção. Ter acesso ao Caribe é uma situação que para o Brasil é importante do ponto de vista estratégico. 9) OMPV: Como o senhor vislumbra o desenvolvimento da Questão Essequibo no cenário internacional? Prof. Ricardo: É um tema que está atualmente na Corte Internacional de Justiça. Espera-se que nos próximos meses, sejam emitidas algumas considerações jurídicas sobre os documentos apresentados pelo Estado venezuelano, e a eventual decisão dessa questão por parte da Corte resultará em um fato julgado, que passará a ter um efeito imediato, sobre o processo de delimitação internacional entre a Venezuela e a Guiana, repercutindo nas atividades econômicas na região. Rio de Janeiro - RJ, 18 de novembro de 2025. .
Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa
A Amazônia é um continente, territorialmente mais extenso que a Europa Ocidental. Politicamente e administrativamente, é formada por oito países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e um departamento ultramarino francês a Guiana Francesa. Além desses atores, é inegável que a Amazônia chama a atenção global. Diferentes países discutem maneiras de colaborar com a sua preservação. Com mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia cobre quase 40% do território da América do Sul. Nessa vasta região, encontram-se inúmeras riquezas minerais e uma biodiversidade com potencial econômico ainda não completamente explorado. Apesar de toda essa riqueza, a qualidade de vida da população, estimada em trinta e cinco milhões de amazônidas, reflete-se nos baixos índices de desenvolvimento humano. A falta de oportunidades e a percepção de impunidade levam grupos de diferentes classes sociais a se envolverem em atividades criminosas. Desmatamentos, queimadas, poluição, biopirataria, mineração ilegal, dentre outros, são alguns dos crimes da região. Para abordar o tema “Crime Organizado e Redes Transnacionais – A Expansão da Rota Amazônia-Atlântico-Europa”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Tássio Franchi, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Tássio FranchiProfessor em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: Qual a visão que os países da região têm sobre a Amazônia? Prof. Tássio: Quando pensamos sobre qual é a visão que os países amazônicos têm de sua própria região, de seus espaços territoriais, é importante fazermos algumas reflexões. Primeiro, para a maioria desses países, a porcentagem de seus territórios nacionais ocupados pelo bioma amazônico é próxima ou superior a 40%. No Brasil, essa faixa chega a 60% do território nacional. Cabe destacar que somente na Bolívia a maior parte da população realmente reside dentro da área amazônica. Nos outros países, tais como o Brasil, o Peru, a Venezuela e a Colômbia, o território amazônico, embora ocupe um espaço muito grande, possui uma densidade demográfica menor, caracterizada pela baixa presença de instituições estatais. Esses países veem a Amazônia como um espaço de riqueza, um espaço de fronteira, um espaço de reserva, seja de recursos naturais, minerais, seja de serviços ambientais, uma reserva para o desenvolvimento futuro para estes países. Todos os países amazônicos dão grande importância ao seu território amazônico, e isso pode ser materializado pelos conflitos interestatais que já ocorreram, vários deles caracterizados por disputas fronteiriças com ganhos e perdas territoriais na região amazônica. 2) OMPV: Como a riqueza regional se expressa em números? Prof. Tássio: A riqueza da região amazônica tem uma parte tangível e intangível, sendo que esta última ainda está em processo de compreensão. Quando falamos da riqueza da região amazônica, constatamos que, desde o período colonial, ela provém do extrativismo. As drogas do sertão, a madeira, a borracha, sempre foram recursos explorados, não só no Brasil, mas também na Bolívia e no Peru. Esses países utilizaram-se a ainda se utilizam de riquezas extrativista. Quando nos reportamos à Amazônia peruana e equatoriana, vemos importantes jazidas de petróleo, exploradas por esses países estão no porção amazônica de seus territórios. Outra riqueza tangível é o espaço para a expansão da agricultura e da pecuária. O Brasil também explora petróleo no rio Solimões, em Urucu, entre o município de Coari e Tefé. É importante destacar que cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem da exploração de reursos minerais. Vários polos minerais estão localizados na região amazônica como o de Carajás, Trombetas e outros. Já tivemos exploração de manganês na Serra do Navio, no Amapá, e diversas outras. Vamos agora voltar nossa análise para as riquezas intangíveis. São os chamados serviços ambientais e a bioeconomia, temas que estamos tentando entender desde a década de 1970. Cada vez mais a ciência nos mostra que, quando nos debruçamos sobre a floresta e a investigamos, mais compreendemos a importância dos ativos ambientais, ainda pouco explorados. Podemos citar, como exemplo, a produção de medicamentos, com seus princípios ativos oriundos de animais ou plantas da região. Para falar apenas de um setor da bioeconomia que gira milhões em divisas. Temos a questão dos serviços ambientais. Hoje, sabemos que o regime de evapotranspiração da floresta, as secas, cheias e chuvas na região amazônica ajudam a controlar a umidade no Centro-Oeste brasileiro, celeiro agrícola do país. Esse regime ainda influencia o clima dos demais países amazônicos. Ou seja, a agricultura depende de um regime de chuvas que vem do processos ambientais que ocorrem dentro da floresta, por isso serviços ambientais. Isso exemplifica o quão difícil é mensurarmos esses serviços ambientais. Só conseguimos entender o seu verdadeiro impacto, quando observamos as consequências dos fenômenos extremos de seca ou de inundação regionais. 3) OMPV: Abordamos a questãos das riquezas da Amazônia para que o nosso tenha uma noção exata do potencial econômico que a região tem. Como esses países lidam com essas riquezas? Prof. Tássio: Cada país lida de maneiras bem diferentes com as suas riquezas. Isso vai da organização social de cada um deles. O Brasil lida muito bem com a questão de uma fronteira agrícola de expansão. Ao visitar o Acre, na Secretaria de Agricultura, e possível observar projetos de agricultura sustentável, de sistemas agroflorestais, com o do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); e projetos com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltados para a soja ou para a pecuária. Além disto temos grandes projetos de mineração na Amazônia brasileira, como já falamos. Na Bolívia, temos a questão dos sindicatos de mineração, muitos dos quais sindicatos indígenas. Cerca de 5-6% do PIB esta conectado à atividade mineradora. Vale destacar que, nesse páis, é permitido minerar em terra indígena. Assim, muitas vezes, os próprios indígenas são administradores de sindicatos e cooperativas. OMPV: Os trabalhos que os governos de todos os países amazônicos fazem na exploração de toda essa riqueza não repercutem eficazmente na qualidade de vida da população local. Qual é a qualidade de vida da população da região amazônica, se compararmos dentro de cada país com o resto da população daqueles países? Prof. Tássio: Esse é um dos principais dilemas quando estudamos a região amazônica. É um cenário bem complexo, mas existe uma expressão cunhada por um pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), chamado José Augusto Drummond, que ele fala: “natureza rica, povos pobres.” É o título de um artigo desse pesquisador, em que ele mostra que as riquezas potenciais, e existenciais da região não se converteram em desenvolvimento para a sua população. Os modelos, muitas vezes extrativistas, que vivem apenas da retirada de recursos da floresta, embora apresentem certa preocupação com a sustentabilidade, nem sempre geram renda, pois não há agregação de valor ao produto extrativo. O produto mineral básico também carece dessa agregação de valor. Então, quando você tem um extrativismo – seja vegetal, animal, mineral – sem agregação de valor, ou seja, sem uma etapa de pré-industrialização ou industrialização do produto, não se gera PIB nem renda em volume e nem se redistribui o que é gerado. Por isso, a maioria dos estados dos países amazônicos não possui uma economia superavitária. Uma exceção é o estado do Amazonas, no Brasil. Nele, encontra-se o Polo Industrial de Manaus, que gerou desenvolvimento e agregou valor a uma série de produtos. Há também iniciativas relevantes de agregação de valor à renda oriunda do extrativismo, promovidas por algumas empresas, como a Natura, que atua em parceria com comunidades locais na exploração de determinados ativos, gerando renda para elas. No entando, essas iniciativas ainda não ocorrem em escala suficiente para beneficiar a maior parte da população amazônica. Quando observamos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos Municípios Amazônicos, verificamos que ele é, em geral, significativamente mais baixo do que os IDH dos municípios fora da Amazônia. 4) OMPV: Percebemos que a Amazônia, apesar de ser extremamente rica, não consegue converter essa riqueza em melhoria de qualidade de vida de seus habitantes. Esses dois fatores – baixa qualidade de vida e grande disponibilidade de riquezas – funcionam como atrativos para o crime organizado? Prof. Tássio: Eles são um atrativo recente para o crime organizado, para o modelo de crime organizado que a temos, atualmente, nos países amazônicos. Se analisarmos o contexto, o baixo desenvolvimento, a menor densidade populacional e o reduzido peso político dos estados amazônicos — decorrente do número inferior de eleitores — acabam resultando em menos políticas públicas e menores investimentos federais. Consequentemente, forma-se uma população mais desassistida, o que facilita sua cooptação pelo crime. Precisamos considerar que não estamos falando apenas de uma população pobre. Estamos também falando de uma classe média e de pequenos empresários, que podem ser levados, por uma lógica econômica, a optar por trabalhar de forma ilegal ou ilícita — seja com produtos ilegais, seja em atividades informais — buscando uma renda melhor, uma condição econômica mais estável, que muitas vezes não conseguem alcançar devido à falta de uma atuação mais efetiva do Estado. 5) OMPV: Quais são as principais atividades criminosas desenvolvidas na região? Prof. Tássio: Quando pensamos na criminalidade na região amazônica, considerando o conjunto dos países amazônicos, para além dos crimes cotidianos, como latrocínios, assaltos e outras ocorrências comuns, identificamos a existência de grandes vetores (drives) que impulsionam essas dinâmicas criminosas. Um grande driver de criminalidade na região é o narcotráfico. Os grandes produtores de coca, hoje, são o Peru, a Bolívia e a Colômbia e já há produção no Equador e na Venezuela, segundo os últimos estudos da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa produção de cocaína vem migrando dos Andes para a bacia amazônica. Já existem plantios de coca na região e a cocaína sempre foi um fator impulsionador do crime, seja pelo controle do cultivo e refino, seja pelo domínio das rotas de exportação. O Brasil sempre foi uma rota de exportação estratégica. No início, tinha um papel marginal, pois o escoamento da produção ocorria principalmente pela Venezuela, Colômbia e Equador. Mas o cenário tem mudado e as rotas amazônicas têm ganhado importância. O transporte de drogas era a principal atividade criminosa, mas com a evolução das organizações criminosas, acabou-se formando todo um ecossistema de crimes entorno do narcotráfico. A droga apresenta uma particularidade: não é um ativo ou uma mercadoria que possa ser segurada. Por isso, os próprios grupos criminosos precisam garantir sua segurança, o que exige manter controle territorial das rotas. Isso implica presença constante no território e acompanhamento armado do transporte, para evitar que a carga seja roubada por outro grupo criminoso ou facção rival. Trata-se de um produto de alto valor, e, por essa razão, o domínio territorial torna-se indispensável. As organizações criminosas, ao exercerem esse controle territorial, passam também a se aproveitar de outras atividades ilícitas. Já que estão presentes no território, começam a controlar o garimpo e, em alguns locais, também outras pequenas atividades econômicas. Assim como ocorreu no Brasil, na Colômbia e no Peru, o crime organizado deixou de atuar apenas como um empreendimento voltado para um produto específico — como drogas ou armas — e passou a extorquir trabalhadores e empresários locais, cobrando para que pudessem trabalhar ou mesmo viver na região. Esse fenômeno também começa a se manifestar na Amazônia, com maior intensidade em algumas áreas e menor em outras. 6) OMPV: Outras atividades criminosas, como a mineração em terras indígenas, a exploração ilegal de garimpo, a venda de madeira e a derrubada de árvores, estão relacionadas ao tráfico de drogas? Prof. Tássio: Não, é muito diverso. A Amazônia é muito grande, são muitos países com estruturas diferentes, portanto há diferentes estágios em cada país. Por exemplo, ao analisarmos a Colômbia — e, mais recentemente, o Equador —, o narcotráfico já estava muito estabelecido, com controle territorial, porque ali se produz, ali se refina e ali ocorre o primeiro transporte da pasta-base. Nesse contexto, o controle territorial precisa ser bastante rígido. Houve um processo pós-acordo de paz no qual grupos guerrilheiros que antes mantinham uma ideologia política foram perdendo essa dimensão ideológica com o decorrer do tempo e passaram a atuar de forma predominantemente econômica. A partir daí, esses mesmos grupos controlam o garimpo de forma direta; controlam também as pistas de pouso. Por que fazem isso? Porque há uma logística comum: a cocaína, para ser refinada, demanda gasolina e uma série de outros produtos químicos; para garimpar, é necessário combustível para mover geradores e motobombas. A mesma cadeia de suprimentos e a mesma pista de pouso irregular (em terras indígenas ou em áreas de garimpo) atendem tanto ao tráfico quanto ao garimpo, por isso os grupos acabam assumindo o controle desse conjunto de locais que garante a logística de suas diferentes operações. Essa dinâmica, porém, varia. Em outros locais e em outros países, os grupos não têm tanta força; eles nem sempre são os “donos” do garimpo, já que o garimpo é uma atividade histórica nas Américas — basta lembrar das minas de Potosí ou do ciclo do ouro no Brasil. Como o garimpo muitas vezes permanece sob o controle de populações locais, as organizações passam a atuar como financiadoras: o pequeno garimpo artesanal pode receber financiamento para adquirir uma escavadeira, um caminhão ou uma motobomba, com a promessa de que o grupo comprará o ouro para lavar o produto das drogas. Há ainda outra dinâmica: o grupo não precisa ser o financiador direto; pode atuar como cliente — comprando o ouro diretamente do garimpeiro, muitas vezes por um preço imediatamente mais vantajoso do que aquele obtido em canais oficiais. Essa liquidez imediata atrai o garimpeiro e integra o garimpo à cadeia econômica do crime organizado. O crime organizado apresentas várias nuances na forma de atuar e operar no crime ambiental. 7) OMPV: Quais são as principais organizações criminosas que dominam a Amazônia? Prof Tássio: Há uma série de organizações criminosas atuando na Amazônia. Quando analisamos as dissidências das FARC, no período pós-acordo de paz, observamos que as FARC se transformaram em um ator político, mas, paralelamente, surgiu um conjunto de dissidências. Entre elas, destacam-se o Comando da Fronteira e o Estado-Maior Conjunto, duas das principais facções dissidentes das FARC, que controlam territórios não apenas na Colômbia, mas também no Peru, além de possuírem presença em partes do território brasileiro e equatoriano. Você tem o ELN, o Exército de Libertação Nacional, presente tanto na Venezuela quanto na Colômbia. No caso do Brasil, identificam-se as grandes facções, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em diferentes áreas da Amazônia, seja dominando ou disputando rotas estratégicas. E essa presença não se limita à Amazônia brasileira: ao observarmos o Comando Vermelho, ele já está estabelecido em algumas regiões do Peru e da Bolívia; da mesma forma, o PCC também mantém presença em territórios de outros países. Por isso, são são organizações criminosas transnacionais. Há ainda uma miríade de pequenos grupos, como o Terceiro Comando Puro, a antiga Família do Norte, os Amigos dos Amigos e o Comando de Terror do Amapá. Cada estado ou região possui também grupos locais, que muitas vezes são terceirizados ou aliados das grandes facções, atuando tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Essa dinâmica também pode ser observada no Equador, onde grupos como Los Lobos, Los Choneros e Las Águilas Negras mantêm alianças com determinadas dissidências, como o Estado-Maior Conjunto ou os Comandos de la Frontera. Esses grupos criminosos funcionam como verdadeiras empresas, estabelecendo acordos comerciais entre si. Observa-se um processo de governança criminal, no qual, em determinados momentos, são construídos acordos de conveniência em certos territórios ou rotas estratégicas. Esses acordos têm como principal objetivo evitar o fratricídio entre as facções, prevenir conflitos diretos que possam prejudicar seus interesses econômicos e logísticos. Um grupo passa a dominar determinada rota, ou o comércio de um produto específico; outro traz a mercadoria, enquanto outro a distribui. Assim, estabelece-se um acordo de conveniência, uma espécie de pax criminal entre eles em certos territórios. No entanto, em outros pontos, esses grupos entram em franca disputa, e, como se observa nas grandes capitais metropolitanas, esses momentos são marcados por extrema violência, gerando conflitos intensos que acabam colocando a população amazônica no centro desse confronto. 8) OMPV: Quais são os principais problemas fronteiriços do Brasil na região amazônica? Prof. Tássio: Muitas vezes, temos uma visão equivocada de que a fronteira é algo que se fecha, algo que pode ser totalmente controlado. No entanto, quando pensamos na fronteira amazônica, percebemos que é impossível fechá-la por completo. Estamos falando de centenas de igarapés, pequenos rios e trilhas de acesso. Embora a Amazônia não possua uma quantidade de grandes rodovias como o sul e sudeste, ela apresenta uma série de outras dinâmicas de mobilidade e circulação que tornam impraticável a presença permanente do Estado brasileiro em todos os pontos. O gigantismo da Amazônia, que representa cerca de 60% do território nacional, impõe distâncias geográficas realmente significativas, o que dificulta a fiscalização e o controle efetivo da região. Para se deslocar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, no Acre, são cerca de 600 quilômetros, e somente há pouco tempo foi possível realizar esse trajeto por estrada — antes, o único meio de transporte era o barco, subindo o rio Solimões e Juruá desde Manaus. Da mesma forma, para sair de Manaus e chegar ao Médio ou Alto Solimões, estamos falando de duas horas de voo ou de dias inteiros de viagem fluvial. Essas distâncias e limitações de infraestrutura tornam extremamente difícil a presença constante do Estado e a manutenção de suas estruturas de controle e fiscalização em toda a região. Outro fator a ser considerado é a baixa densidade demográfica da região. Como o peso populacional é reduzido, as políticas de segurança acabam sendo pensadas sob uma lógica quantitativa: se há menos população, há menos necessidade de efetivo policial. Da mesma forma, entende-se que menos habitantes demandam menor oferta de políticas públicas. O resultado dessa lógica é que as áreas de fronteira permanecem desassistidas, tanto em termos de segurança quanto de presença efetiva do Estado. A fronteira realmente fica muito distante e, por isso, tudo se torna muito caro. É muito mais fácil realizar um projeto social no Sudeste, onde a logística é simples: as mercadorias chegam e são distribuídas de carro, como no caso das cestas básicas. Já para distribuir cestas básicas em terras indígenas, como a TI Yanomami por exemplo, é necessário o uso de helicópteros. Um dos grandes desafios enfrentados hoje nessa região fronteiriça é justamente a incapacidade do Estado de manter uma presença efetiva e constante, limitando sua atuação a uma lógica proporcional ao tamanho da população local — o que não reflete as reais necessidades e complexidades da Amazônia. 9) OMPV: O senhor pode falar um pouco mais sobre a rota Amazônia-Atlântico-Europa? Prof Tássio: A rota é Amazonas-Atlântico-Europa porque o rio Amazonas sempre foi uma via natural de escoamento, que atualmente se ressignifica com o aumento da demanda por drogas. Para compreendermos essa rota, é fundamental entender as demandas globais por drogas. Não é possível analisar o comércio de entorpecentes sem considerar sua origem, rota e destino, assim como os atores envolvidos — o produtor, o distribuidor e o consumidor. O que observamos é que, no cenário global, há três acontecimentos recentes que provocaram o aumento significativo do consumo de cocaína. Houve um aumento no uso de entorpecentes durante a pandemia de Covid-19 na Europa, segundo dados da ONU. Entre as drogas mais consumidas está a cocaína, e parte significativa desta droga chega ao continente europeu passa pelas rotas brasileiras, entre elas a rota amazônica, enquanto outra parcela segue pela rota caribenha. A rota brasileira tem se consolidado como uma das vias de escoamento desse entorpecente, de forma direta ou via África. Outra questão importante é o retorno do Talibã ao poder no Afeganistão. À primeira vista, pode parecer algo distante, mas esse evento tem impacto direto no mercado global de drogas. Quando o Talibã reassume o controle do país, ele passa a encarar a produção de entorpecentes sob a ótica da lei islâmica onde droga é crime e, por isso, destrói as plantações de papoula, base para a produção de ópio, droga amplamente consumida na Europa. Com a redução da oferta de ópio, há aumento da demanda por outras substâncias, o que estimula o consumo de cocaína. E é nesse contexto que os compradores voltam-se para a América do Sul como uma das principais origens desta droga. O terceiro componente são as mudanças no cenário geopolítico global, provocadas pela guerra na Ucrânia. Estudos europeus mostram que a área do conflito era uma das rotas de entrada de drogas na Europa, um dos grandes caminhos de entrada tanto de ópio quanto de produtos utilizados na produção de metanfetamina e outras drogas sintéticas. Os entorpecentes vinham da Rússia, passando por Belarus, e pela Ucrânia e adentrando o continente europeu. À medida que a guerra avança, essa fronteira se fecha, e máfias dos Bálcãs, que sustentavam o fornecimento e o consumo de drogas dentro da Europa, precisam buscar novas fontes, e onde encontram essa fonte? Na cocaína, cuja produção aumentou nos anos pós-pandemia, apesar do Plano Colômbia e de diversas iniciativas dos países para tentar reduzi-la. Com menos ópio e menor acesso às rotas tradicionais, a demanda por cocaína cresce, elevando seu preço e tornando-a um produto ainda mais atraente para o mercado europeu. A Europa é atualmente a segunda maior consumidora de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Assim, a droga segue pelo Pacífico e pelo Caribe em direção aos Estados Unidos, ou passa pelos portos brasileiros rumo à Europa.E é nesse contexto que o Brasil se encontra estrategicamente posicionado no meio do caminho, compondo a rota Amazônia-Atlântico-Europa. 10) OMPV: A droga produzida nos países amazônicos também abastece os Estados Unidos? Por isso a preocupação que o governo dos Estados Unidos tem demontrado em combater o narcotráfico na região? Prof: Tássio: Sim, porque temos cocaína sendo produzida na área amazônica da Colômbia e do Peru, inclusive muito próxima à fronteira brasileira. Atualmente, já há registros de produção de cocaína em algumas regiões da Venezuela, e essa cocaína, proveniente dos países amazônicos, de fato abastece o mercado internacional. É importante destacar que boa parte da produção de cocaína ainda se concentra na região andina, especialmente nos Andes da Colômbia, do Peru e da Bolívia, onde se localizam as principais plantações de folhas de coca. Então sim, essa droga vai chegar nos Estados Unidos. 11) OMPV: Uma das inovações do transporte de drogas na rota Amazônia-Atlântico-Europa é o uso de submarinos. O senhor pode explicar esse uso? Prof: Tássio: O uso de narcosubmarinos, que era muito comum no Pacífico, tornou-se cada vez mais frequente no Caribe e, mais recentemente, na região amazônica, especialmente no delta do rio Amazonas. Esses narcosubmarinos surgem a partir de um processo de adaptação das organizações criminosas, resultado de um verdadeiro jogo de gato e rato. Com o tempo, as organizações se adaptaram, desenvolvendo semissubmersíveis e submersíveis de verdade, atualmente com capacidade de submersão plena e autonomia de até 18 horas debaixo d’água, o que torna sua detecção extremamente difícil. E, por mais que pareça um investimento elevado, estamos falando de um semissubmersível que pode custar um a dois milhões de dólares, enquanto um submarino de maior porte pode chegar a algumas dezenas de milhões. No entanto, essas embarcações transportam drogas em toneladas, o que torna viável economicamente a construção e o uso de um barco de um a um milhão e meio de dólares, que é descartável após a viagem. O sucesso de uma única viagem geralmente cobre o custo da construção do narcosubmarino/semisubmersível, demonstrando a eficiência econômica dessa modalidade de transporte para as organizações criminosas. Se formos pensar, bem, esses valores que vou mencionar variam muito conforme a bibliografia consultada, mas os levantamentos de preço das drogas feitos pela Colômbia, recentemente, indicam que o preço de um quilo de pasta‑base gira em torno de 600 dólares. Em alguns lugares, varia entre 300 e 800 dólares, mas, em média, consideraremos 600 dólares. Quando esse quilo de pasta‑base chega à Península Ibérica, já está a 30–35 mil dólares.Quando alcança a Alemanha, os Países Baixos ou regiões mais interiores da Europa, pode ultrapassar 70 mil dólares por quilo. Esse quilo ainda pode ser fracionado, podendo gerar até 1,5 kg de cocaína “pura”. Assim, temos um produto cujo preço sobe de 500–600 dólares para cerca de 70 mil dólares por quilo, e submersível pode transportar cerca de oito toneladas. Temos a notícia de que um submarino foi apreendido na Colômbia. Ele teria a capacidade para transportar 8-10 toneladas. A vantagem do submersível é esse transporte de toneladas. Então, uma viagem paga todo o dinheiro gasto na sua construção. Tivemos seis apreensões de semissubmersíveis ligadas ao narcotráfico cuja apreensão ou origem foi o território brasileiro. Essas apreensões ocorreram no Pará e no Amapá e envolveram submarinos, que, na verdade, eram semisubmersíveis. São cascos de embarcações com perfil muito baixo, projetados para não serem visíveis no horizonte, o que dificulta a detecção. Eles possuem um perfil discreto e podem navegar do interior da Amazônia até o Atlântico e de lá para a Europa, orientados por GPS e com sistemas de comunicação via Starlink. Semisubmerssíveis, com origens no Brasil também foram capturados na Guiana e até na Espanha. E qual é a conexão com o Brasil? Quando um semissubmersível foi apreendido na Espanha, revelou-se que entre os ocupantes havia brasileiros, equatorianos e colombianos. Em geral, havia uma divisão de funções: alguém era responsável pela droga, outra pessoa dirigia a embarcação e os demais ocupantes cumpriam papéis logísticos, evidenciando a participação internacional e coordenada dessas operações criminosas. Na análise dos restos da embarcação, foram constatados sacos de alimentos comprados em supermercados do Amapá. Pelo número de série do motor, rastreado pela Polícia Federal, verificou-se que ele havia sido vendido no Pará, indicando a possibilidade de que o narcosubmersível tenha sido montado no Brasil. Outro problema é que o submersível não chega a desembarcar em nenhum porto europeu. A dinâmica é a seguinte: ele navega até próximo à Europa e transfere a droga para outra embarcação, como um iate ou veleiro. Após a transferência, o narcosubmarino é afundado, desaparecendo completamente, sendo utilizado apenas para uma única viagem. Isso dificulta muito estimarmos o volume de drogas que está utilizando esse meio de transporte, pois seus rastros são literalmente afundados. 12) OMPV: O que pode ser feito para minimizar a atuação dessas organizações criminosas na região amazônica? Há um espaço para uma solução integrada com a participação de todos os países no combate ao crime organizado na Amazônia? Prof. Tássio: A solução precisa ser integrada. O problema não é exclusivo de um país, nem se restringe apenas à região. Portanto, é necessária uma abordagem conjunta e coordenada. Se temos uma rota que vai do produtor ao atravessador e, finalmente, ao consumidor, é necessário atuar simultaneamente no mercado consumidor, no produtor e no atravessador. Portanto, o problema é transnacional e extrapola as fronteiras amazônicas. Não conseguiremos solucionar esse problema agindo apenas localmente em um único país. Por mais que existam investimentos e eficiência no bloqueio de determinadas rotas, se não houver, paralelamente, troca de informações de inteligência e apoio a políticas voltadas à produção ou ao consumo da droga, o problema continuará existindo. E por quê? Porque há uma lógica econômica por trás do contrabando. O negócio é lucrativo. Não devemos apenas combater o crime, mas sim modelo de negócio. Não é o crime que não deve compensar, é o negócio que não deve compensar. O negócio não compensando o crime para. Quando o custo do negócio de produção e transporte de cocaína se tornar maior que o lucro, ele deixará de ser viável. Para que isso aconteça, a solução precisa ser integrada, com todos os países atuando de forma conjunta. Rio de Janeiro - RJ, 30 de outubro de 2025. .
O acordo de paz entre Israel e o Hamas - Conflito Israel x Hamas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente que Israel e o Hamas concordaram com a primeira fase do Plano de Paz mediado por Washington, que prevê a libertação de todos os reféns e a retirada parcial das tropas israelenses da Faixa de Gaza, como primeiros passos rumo a uma paz forte, duradoura e eterna. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o anúncio como um grande dia para Israel e afirmou que convocará o gabinete de governo para aprovar oficialmente o acordo. Em comunicado divulgado à emissora libanesa Al Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah, a liderança do Hamas confirmou o acordo e declarou que ele põe fim à guerra em Gaza, prevê a retirada das forças de ocupação, a entrada da ajuda humanitária e a troca de prisioneiros. O comunicado ainda fez menções positivas às mediações do Catar, do Egito e da Turquia e aos esforços do presidente Trump para encerrar a guerra. Para abordar o tema “A Paz entre Israel e o Hamas e seus Reflexos para o Cenário Geopolítico Atual”, o Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o Prof. Dr. Sandro Moita, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sandro Teixeira MoitaDoutor em Ciências Militares e Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 1) OMPV: O que significa a primeira fase desse acordo de paz? Prof. Sandro: Nessa primeira fase, Israel receberá todos os reféns da Faixa de Gaza. Do total de quarenta e oito reféns, estima-se que vinte ainda estejam vivos. Esses devem ser liberados de uma só vez pelo Hamas e por outros grupos que os detêm. Em outro momento, Israel receberá todos os corpos dos outros vinte e oito reféns. Ao mesmo tempo, os israelenses deverão libertar uma série de prisioneiros que estão no seu sistema prisional, ligados ao Hamas ou a outros grupos. Esse fato é objeto de muitas críticas por algumas alas do governo israelense, que apoiam o governo Netanyahu, especialmente o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ambos da extrema-direita israelense. Temos que ter uma visão otimista com relação a esse acordo, pois, finalmente, ele está se concretizando. Junto a esse processo de troca de reféns por prisioneiros, outro fator importante das negociações de paz é a retirada das forças israelenses da Faixa de Gaza. Pelo negociado, Israel deixaria de ocupar a área que hoje ocupa, em torno de 57% do território, e passaria a ocupar algo em torno de 43%. Israel deve, ainda, retirar-se da região, à medida que as etapas do acordo forem sendo concluídas. Uma das propostas mais polêmicas do acordo de paz é o desarmamento do Hamas e a anistia dos seus membros. A polêmica se explica porque ainda não se sabe que tipo de anistia será essa, se membros do Hamas poderão permanecer em Gaza, ou serão exilados em outros países. Cabe destacar que, apesar das polêmicas e suspeitas sobre a negociação, o fato é que, nesse momento, há um acordo de paz apoiado por Estados Unidos, Turquia, Catar, Indonésia, Arábia Saudita e Jordânia, que são decisivos para que se obtenha a paz na região. Não podemos deixar de relatar que as negociações foram conduzidas em Charméu Sheik, no Egito, país que tradicionalmente é um dos atores da região com importante papel de mediador entre Israel e o Hamas. Isso aumenta ainda mais a credibilidade no êxito desse acordo de paz. 2) OMPV: Poucas semanas atrás, o mundo tinha uma ideia completamente diferente do que aconteceria em Gaza, porque Israel declarou claramente que continuaria sua ofensiva, com o objetivo de destruir o Hamas. Duas ou três semanas depois, o presidente Trump anunciou esse acordo de paz. O que provocou essa guinada de posição de Israel? Como explicar essa mudança brusca na condução do conflito? Prof. Sandro: Sem dúvida, o ataque em Doha. O ataque que Israel fez a Doha, contra os elementos da liderança do Hamas, vitimou um alto funcionário de segurança do Catar. Algumas fontes especulam que era um militar de alta patente. Outras fontes dizem que era um funcionário da inteligência, tendo acesso, inclusive, ao primeiro-ministro do Catar, que é da família que governa o país, a família Al Thani. E quando Israel realiza esse ataque, há uma mensagem que é passada no sentido de dizer: “olha, não há ninguém que esteja fora do alvo israelense no Oriente Médio”. Essa é uma mensagem muito poderosa, mas não repercutiu bem junto aos catarianos, pois eles não se sentiram defendidos pelos Estados Unidos. Aproveito para lembrar que os americanos são grandes aliados do Catar, país que possui a maior base militar americana fora dos Estados Unidos. Esse talvez seja o principal fator que acelerou a busca pela paz no conflito. Mas não podemos deixar de citar o fato de que a ofensiva na cidade de Gaza tem sido uma luta metódica, muito lenta e exaustiva para as Forças de Defesa de Israel. Com relação ao povo local, a situação é crítica, porque o Hamas impede que a população consiga sair da região do conflito. Estamos falando de um território de quase um milhão de habitantes e que, quando do início do conflito, menos de quinhentas mil pessoas tinham conseguido sair dessa área. Outro fator a ser analisado é a típica falta de paciência do presidente americano, Donald Trump, que não digeriu bem a ação israelense e não foi informado do ataque contra as lideranças do Hamas, em Doha. Segundo algumas fontes que pesquisamos, essa ação o enfureceu, fazendo com que ele alertasse Netanyahu de que aquilo não iria se repetir. Em seguida, vimos uma foto, publicada pela Casa Branca, na qual Netanyahu pede desculpas ao emir do Catar, com o telefone sendo segurado por Donald Trump. Essa imagem tem grande peso na política internacional, mostrando que Israel entendeu que a sua atuação tinha um limite e que estava tutelado pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. 3) OMPV: Qual o papel da liderança do presidente dos Estados Unidos nas tratativas para esse acordo de paz? Prof. Sandro: Tenho observado que alguns especialistas têm contestado a liderança de Trump, destacando que seria apenas mais um evento de marketing do presidente dos Estados Unidos, mas este acordo só está sendo viabilizado pela ação de Donald Trump. Diferente do presidente Biden, Trump é a figura que conseguiu, por meio de relacionamentos pessoais e de laços diretos, conversar com lideranças que são capazes de pressionar os líderes do Hamas. Quais seriam essas lideranças? As lideranças do Catar, algumas da Turquia, como o próprio presidente Erdogan, o seu ministro das Relações Interiores, Hakan Fidan, que é egresso do serviço de inteligência turco e a própria inteligência turca. Turquia e Catar são dois países decisivos para que se negocie com o Hamas. Se você quer passar uma mensagem ao Hamas ou você faz via Turquia, ou você faz via Catar. E quando você procura negociar com o Hamas em Gaza, entra aí um terceiro ator no cenário geopolítico regional: o Egito, com o seu presidente Abdel Fattah al-Sisi e o seu chefe de inteligência que é o general Abbas Kamel, que conhece o Hamas como poucos. Para o governo egípcio, que é laico, secular e derivado de militares, interessa muito um Hamas controlado e de perfil baixo, porque esse grupo foi criado em Gaza, na década de 1980, tendo como inspiração a Irmandade Muçulmana Egípcia. Para o Egito, um Hamas muito forte e vitorioso seria um problema, pois poderia trazer riscos do surgimentos de movimentos internos, contrários ao governo egípcio. 4) OMPV: Por que, nesse momento, não se ouve mais falar no Irã e no Hezbollah? Prof. Sandro: Para nós que fazemos o acompanhamento do conflito in loco, quando você observa a imprensa local, fala-se tanto no Irã quanto no Hezbollah. O que não é muito comentado, mas foi mencionado em entrevista pelo presidente Trump, é que o Irã pode ter um novo papel nesse novo Oriente Médio que está surgindo, derivado desse acordo em Gaza. Cabe lembrar que o Hezbollah está num processo de reorganização, em razão da guerra que travou contra Israel em 2024 e 2025, na qual foi muito agredido, tendo perdido grande parte das suas lideranças. O perfil atual do líder do Hezbollah, Naim Qassem, é diferente do seu antecessor, Hassan Nasrallah. Ele não é um líder de grandes discursos, de grandes pronunciamentos, de um domínio da retórica. O Irã, de certa forma, ainda está sob o efeito da Guerra dos Doze Dias. Entretanto, quando a gente acompanha a mídia local, é interessante notar que por parte de jornais iranianos, israelenses e de outros países da região, há uma crescente preocupação de que possa haver uma segunda rodada de guerra, ainda em 2025, entre Israel e Irã. 5) OMPV: Como é que israelenses e palestinos estão vendo essa tentativa de paz? Prof. Sandro: De todos os contatos que eu tenho em Israel, do que eu tenho conversado com a sociedade civil, ou mesmo com militares e com pessoas ligadas aos serviços de segurança israelenses, há um clima de alívio. Por outro lado, aproxima-se a hora da prestação de contas do governo, com uma comissão nacional sendo criada para investigar aquilo que foi o 7 de outubro. Todo episódio dramático da história israelense sempre envolve a criação de uma comissão nacional, na qual eles procuram entender o que aconteceu, por que aconteceu, quem são os responsáveis e como evitar que o problema volte a ocorrer. Mas o fato é que há um imenso alívio, e parece que desta vez há uma luz no fim desse túnel, sob o qual o país se abate desde os ataques de 7 de outubro. Do lado palestino, há também uma grande felicidade no sentido de acreditar que a violência esteja acabando, podendo ter início a reconstrução de Gaza. Porém, a questão que fica ao final dessa guerra é se ela será capaz de mudar as relações entre israelenses e palestinos, ou se ela vai ser só mais uma rodada do conflito na região. Há um colunista israelense muito famoso, Amit Segal, que, por esses dias, fez uma pergunta muito interessante. O questionamento não é se o acordo vai funcionar, mas sim se as crianças palestinas vão deixar de aprender na escola que se deve matar judeus e que isso é correto. Segal também pergunta se os grupos extremistas da sociedade israelense, que acreditam que não deve haver espaço para os palestinos no território do Estado de Israel, ou nos territórios como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, acreditam que os palestinos têm direito à sua terra. Talvez este seja o primeiro momento para uma reconciliação. Se assim o processo prosseguir, poderemos, qem sabe, acreditar que a paz tenha finalmente chegado. Entretanto, há minorias em ambos os lados que estão interessadas em manter esse perpétuo estado de conflito – essa talvez seja a principal questão a ser resolvida numa segunda fase desses acordos de paz. 6) OMPV: No cenário mundial, há um certo ceticismo com relação à efetividade desse acordo de paz. Que eventos podem atestar que esse acordo será bem-sucedido? Prof. Sandro: Uma desocupação militar de Gaza é o sinal mais visível. O estabelecimento de uma autoridade em Gaza, de tecnocratas palestinos também deve ser considerado. Eles não estão em Gaza, mas também encontram-se espalhados pelos diversos estados do Golfo. Há uma figura muito interessante, que é o Mohamed Dalban, um palestino educado no Ocidente. Fugiu de Gaza quando o Hamas tomou o controle da faixa em 2007 e é uma figura que tem boa capacidade de coordenação tanto com países ocidentais, quanto com os do Golfo Pérsico. Outra questão interessante é que, no próximo ano, haverá eleições gerais em Israel. Uma eleição que coloque no poder lideranças que não estejam muito preocupadas em continuar com a guerra e com o desejo de alcançar a paz, como pregada por Itzhak Rabin, será outro fator mensurável importante. Devemos nos lembrar que todas as guerras que ocorreram em Gaza, especialmente depois de 2007, quando o Hamas tomou o controle da faixa, foram guerras que não duraram muito. A mais longa durou dois meses. O conflito atual já completou dois anos. Algo inédito na história de Israel. Israel não travou nenhuma guerra que durou dois anos. Israel não travou nenhuma guerra que durou um ano. Israel não tem, na sua constituição estratégica, na sua cultura estratégica, o ideal de travar guerras de longa duração. Assim, vemos, sem dúvida, uma real possibilidade de paz. A questão é ver se os dois lados conseguirão concretizá-la, mas o fato é de que haverá a necessidade de um forte incentivo de atores externos. Os Estados Unidos, o Catar, o Egito, a Turquia, a Jordânia, a Indonésia e outros países árabes ou muçulmanos, para que seja criado um consenso de paz real para a região. 7) OMPV: A criação de um Estado Palestino faz parte do acordo de paz? Prof. Sandro: Ainda não, mas isso dependerá muito do presidente Trump. Se ele mantiver o interesse pela paz no Oriente Médio, pode ser que pressione o governo israelense a aceitar compromissos que originalmente não aceitaria. Por outro lado, os atores do Golfo, como o Catar, e outros países da região, como a Turquia e o Egito, são os atores capazes de dialogar com as lideranças do Hamas e de outros grupos terroristas palestinos, e convencê-los a seguir nesse acordo. 8) OMPV: Você acha viável a criação de uma Força Internacional de Paz para mediar a paz na Faixa de Gaza? Prof. Sandro: Essa é uma questão muito interessante. O acordo fala em anistia para os membros do Hamas, mas não há, até o momento, uma declaração que comprove que esse perdão será efetivado, e se ele também atingirá outros grupos menores que estão em Gaza, como por exemplo, a Jihad Islâmica Palestina, considerada por muitos especialistas um proxy do Irã. A pressão de todos os atores envolvidos que já citamos nessa entrevista será fundamental para que possamos ver criada uma força internacional de paz. Teria uma participação brasileira nessa força? Possivelmente, porque na questão de quem deveria enviar tropas a Gaza, a ideia é que você tenha atores que sejam percebidos como neutros, no sentido de que a população não enxergue neles representantes de Israel, ou defensores do Hamas. Essa força, para ter maior legitimidade, deve estar sob a égide da Organização da Nações Unidas, com o mandato pelo Conselho de Segurança, e creio que o Brasil é um dos países que tradicionalmente é visto como um ator que é capaz de ser neutro. O Brasil é percebido como um ator neutro, e eu pude ver isso pessoalmente. Palestrando em Israel sobre o conflito, pude ver na assistências tanto israelenses, quanto palestinos com a bandeira do Brasil. O Brasil já tem experiência histórica na região. Um dos bairros ao sul de Rafah é chamado de Campo al Brasile, local que abrigou o antigo aquartelamento brasileiro da Força de Emergência das Nações Unidas na operação em Suez, entre 1957 e 1967. Rio de Janeiro - RJ, 10 de outubro de 2025. .
Criminal Non-State Actors: Historical Developments and Impacts in South America
Autor: Marcos Alan Ferreira Por Anderson Araujo Fernandes do Couto Major do Exército Brasileiro,aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME emestrando do PPGCM do Instituto Meira Mattos. e Márcio José Reis da Silva Tenente-Coronel do Exército Brasileiro e mestrando do PPGCM do Instituto Meira Mattos. O crescimento de organizações criminosas capazes de controlar territórios, estabelecer normas próprias, administrar mercados ilícitos e atuar além das fronteiras nacionais impõe desafios que ultrapassam o campo tradicional da segurança pública. Em diferentes regiões da América do Sul, essas organizações exercem influência sobre populações e espaços sociais, controlam atividades econômicas e desenvolvem redes transnacionais que afetam a autoridade dos Estados. É nesse contexto que se insere a obra Atores Criminosos Não Estatais: Desenvolvimentos Históricos e Impactos na América do Sul, de Marcos Alan Ferreira, publicada em 2025, como parte da série editorial Contribuições para os Estudos de Segurança e Defesa, da Springer Nature. O livro busca compreender essas organizações como uma categoria específica de atores não estatais, considerando principalmente suas atividades, estruturas, capacidades de governança e atuação transnacional. Marcos Alan Ferreira é professor e pesquisador nas áreas de Ciência Política e Relações Internacionais, com pesquisas voltadas principalmente para os impactos do crime organizado e da violência de Estado sobre a paz, no Brasil e na América do Sul. A obra resulta de uma agenda de investigação desenvolvida pelo autor ao longo de vários anos e procura aproximar o estudo do crime organizado dos debates das Relações Internacionais, da Segurança e da Defesa. Essa perspectiva é relevante porque determinadas organizações criminosas deixaram de produzir efeitos apenas no âmbito doméstico, passando a atuar regional e internacionalmente e a representar desafios à segurança e à paz. O livro é estruturado de maneira progressiva. Inicialmente, Ferreira apresenta a discussão conceitual sobre os atores criminosos não estatais (CNSAs) e desenvolve os conceitos de governança criminal e governança híbrida. Em seguida, essa construção é aplicada aos casos dos cartéis colombianos de Medellín e Cali, do Comando Vermelho (CV), do Primeiro Comando da Capital (PCC) e, finalmente, à dinâmica criminal na Amazônia. Assim, os casos permitem observar diferentes formas de organização, atividades e governança, bem como a capacidade desses grupos de ampliar a atuação local. Uma das principais contribuições da obra está na sistematização das organizações criminosas como uma categoria específica de atores não estatais. Ferreira parte da constatação de que grande parte da literatura agrupa organizações criminosas, terroristas, guerrilhas, insurgentes e outros grupos na categoria mais ampla de atores não estatais “violentos” ou “armados”. Para o autor, entretanto, os CNSAs caracterizam-se principalmente pela busca de ganhos materiais por meio de atividades ilícitas, embora possam eventualmente envolver-se em questões políticas. Essas organizações assumem diferentes estruturas e desenvolvem capacidades de governança que podem evoluir do controle sobre o próprio grupo para o controle de mercados e até de determinados espaços sociais. Atividade, estrutura e governança formam, dessa maneira, os três pilares utilizados para compreender sua atuação transnacional. O tratamento dado à violência é um dos pontos mais interessantes dessa construção. Embora essas organizações possam recorrer frequentemente a meios violentos, a violência, por si só, não explica sua natureza nem permite diferenciá-las adequadamente de outros atores não estatais. Esse argumento amplia a compreensão sobre grupos que também utilizam corrupção, cooptação, negociação e outras estratégias para garantir seus interesses. Porém, a própria análise dos casos permite levantar que o menor emprego da violência não necessariamente significa que a capacidade de coerção tenha perdido importância, fenômeno observado por Ferreira. Uma organização que consolidou sua autoridade pode não precisar recorrer constantemente à violência para garantir obediência. Assim, parece importante diferenciar a violência efetivamente empregada da capacidade de utilizá-la, que pode continuar sustentando parte do poder desses grupos. Nesse sentido, a governança constitui um dos eixos centrais da obra. Ferreira demonstra que as organizações criminosas não apenas violam a ordem estabelecida pelo Estado, mas também podem produzir formas próprias de ordenamento. Elas estabelecem regras, regulam mercados ilícitos, solucionam conflitos e exercem controle sobre determinados espaços sociais. O PCC constitui um exemplo significativo, ao desenvolver formas complexas de autogoverno em periferias e prisões, estabelecer códigos de conduta e manter sistemas paralelos de justiça. Dessa forma, compreender o crime organizado apenas pela prática de atividades ilícitas deixa de ser suficiente, pois algumas dessas organizações também exercem funções de autoridade sobre os territórios e grupos sociais nos quais estão inseridas. A ideia de governança híbrida aprofunda essa discussão. A atuação criminosa não ocorre necessariamente apenas onde o Estado está ausente. O próprio Ferreira ressalta que a fraqueza estatal em determinados espaços não significa a inexistência de autoridade do Estado. Estruturas formais de governança estatal e estruturas informais de governança criminosa podem coexistir, competir ou até desenvolver relações de cooperação e simbiose. Esse entendimento evita uma explicação simplificada segundo a qual o crime organizado apenas ocupa um “vazio” deixado pelo poder público. A realidade apresentada no livro é mais complexa, pois diferentes fontes de autoridade podem atuar simultaneamente no mesmo espaço. Os casos colombianos ajudam a demonstrar essa diversidade. Os cartéis de Medellín e Cali adotaram estratégias distintas para alcançar seus objetivos. Enquanto o de Medellín ficou marcado pelo emprego mais ostensivo da violência, o de Cali apresentou inicialmente uma atuação mais discreta, utilizando também corrupção e influência política. A política, entretanto, não aparece separada dos interesses econômicos. Ferreira mostra que organizações criminosas podem utilizar instrumentos políticos para alcançar objetivos predominantemente econômicos, seja cooptando agentes públicos, seja buscando influência dentro das próprias instituições estatais. O contraste entre os cartéis reforça, portanto, a ideia de que o emprego da violência pode variar significativamente entre organizações que compartilham características de CNSAs. No Brasil, o Comando Vermelho demonstra principalmente a capacidade de adaptação das organizações criminosas. Originado no sistema prisional, o grupo modificou suas atividades e sua estrutura ao longo do tempo, incorporando-se ao mercado de drogas e estabelecendo conexões que ultrapassaram sua atuação inicial. Já o PCC apresenta um desenvolvimento mais complexo de mecanismos de governança, com códigos, normas internas e sistemas de justiça paralelos, ao mesmo tempo em que ampliou sua presença para outros estados e países. A trajetória dessas organizações mostra que os CNSAs não devem ser compreendidos como estruturas estáticas. Suas atividades, formas de organização e relações com os mercados ilícitos se modificam de acordo com as oportunidades e dificuldades encontradas. O capítulo dedicado à Amazônia reúne diversos elementos desenvolvidos anteriormente. A região é analisada a partir da atuação de organizações como o PCC, o CV e a Família do Norte (FDN), considerando disputas territoriais, violência, legitimidade, mercados ilícitos e diferentes fontes de autoridade. A pesquisa utiliza cinco variáveis para compreender a governança híbrida: coexistência de sistemas jurídicos e políticos paralelos, disputa pelo controle territorial e da violência, variações nos níveis de violência, diferentes formas de legitimidade e diferentes escalas das atividades ilegais. Por reunir essas diferentes dimensões, o capítulo permite observar de forma integrada vários dos conceitos discutidos ao longo da obra. A Amazônia também demonstra como a atuação dos CNSAs pode ultrapassar o narcotráfico. Ferreira identifica a disputa pelo controle territorial e a possibilidade de diversificação dos mercados ilícitos, particularmente por meio de crimes ambientais relacionados à mineração e ao desmatamento. Essa dinâmica amplia a relevância do fenômeno para os Estudos de Segurança e Defesa, pois envolve organizações transnacionais, controle territorial, fronteiras e exploração de recursos naturais. Nesse contexto, atividades criminosas diferentes podem compartilhar espaços, rotas e estruturas, aumentando a complexidade do problema enfrentado pelos Estados. Outro ponto interessante da obra está na sua base empírica. Além da literatura especializada e de fontes documentais, Ferreira utiliza pesquisas de campo realizadas ao longo dos anos. O capítulo sobre a Amazônia apresenta caráter particularmente empírico, utilizando informações obtidas em pesquisas realizadas entre 2023 e 2025 em cidades do Brasil, Peru e Colômbia. Os dados de campo e entrevistas são triangulados com documentos oficiais, imprensa e literatura especializada. Isso fortalece a obra, pois permite relacionar a discussão conceitual às manifestações concretas do fenômeno analisado. Apesar dessas contribuições, alguns aspectos permanecem em aberto. Um deles diz respeito às fronteiras entre os CNSAs e outras categorias de atores não estatais. O próprio livro demonstra essa dificuldade ao tratar das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e de outros grupos colombianos que combinaram objetivos políticos, atuação armada, governança territorial e participação em mercados ilícitos. A literatura apresentada por Ferreira também reconhece que a divisão entre objetivos econômicos e políticos nem sempre é clara, pois diferentes atores podem combinar ambos. Nesse caso, permanece a questão de quando uma organização insurgente passa a ser predominantemente um ator criminoso não estatal, ou mesmo se essas categorias precisam ser necessariamente excludentes. O próprio autor reconhece que esse debate não está encerrado. Entre os pontos que ainda precisam ser explorados estão a relação dos CNSAs com organizações terroristas, sua influência sobre a política externa, a interação com mercados como tráfico de armas e lavagem de dinheiro e sua manifestação em outros continentes. Ferreira também questiona se essas organizações podem se sobrepor às categorias como grupos étnicos e insurgentes. Dessa forma, a concentração dos casos na América do Sul não constitui propriamente uma deficiência da obra, pois permite aprofundar uma realidade regional específica. Entretanto, ainda será necessário verificar até que ponto as características identificadas podem ser aplicadas a organizações criminosas inseridas em outros contextos. Essas questões não diminuem a importância do livro. Pelo contrário, demonstram que a proposta apresentada permite ampliar o debate e formular novas perguntas sobre o crime organizado contemporâneo. A principal contribuição de Ferreira está justamente em demonstrar que determinadas organizações criminosas não podem ser compreendidas apenas como grupos que praticam atividades ilegais. Elas podem desenvolver governança, controlar mercados e territórios, relacionar-se de diferentes maneiras com o Estado e atuar além das fronteiras nacionais. O próprio autor conclui que esses grupos podem operar tanto em Estados fortes quanto fracos e apresentar estruturas e atividades bastante distintas. O livro apresenta, assim, uma contribuição relevante para compreender as transformações do crime organizado na América do Sul. Ao aproximar esse fenômeno dos debates das Relações Internacionais, da Segurança e da Defesa, Ferreira oferece elementos para compreender organizações que desafiam a autoridade estatal não apenas por meio da violência, mas também pelo controle de mercados, territórios e populações. Para pesquisadores e profissionais interessados em Segurança, Defesa, crime organizado, fronteiras e Amazônia, a obra oferece uma perspectiva útil e fundamentada, ao mesmo tempo em que deixa abertas questões importantes para pesquisas futuras. Referência bibliográfica FERREIRA, Marcos Alan Shaikhzadeh. Criminal Non-State Actors: Historical Developments and Impacts in South America. Cham: Springer Nature Switzerland, 2025. Rio de Janeiro - RJ, 22 de setembro de 2026.
As Big Techs e a Guerra Total: O complexo militar-industrial-dataficado
Autor: Sérgio Amadeu da Silveira Por Everton Antônio Ramos Major de Infantaria do Exército Brasileiro,aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME edoutorando do PPGCM do Instituto Meira Mattos. Em um mundo no qual algoritmos orientam a identificação de alvos em Gaza, contratos bilionários integram Amazon, Microsoft, Google e Oracle ao Departamento de Defesa norte-americano, e dados coletados por plataformas comerciais são processados para fins letais, o vocabulário convencional mostra-se insuficiente para nomear o que está em curso. É essa lacuna analítica que a obra resenhada se propõe a preencher. Em “As Big Techs e a Guerra Total: o complexo militar-industrial-dataficado”, Silveira (2025) parte da constatação de que o antigo complexo militar-industrial, conforme alertado por Eisenhower em 1961, sobreviveu e reinventou-se, incorporando de forma orgânica a infraestrutura de dados, os algoritmos e a Inteligência Artificial (IA) das grandes corporações digitais ao aparato da guerra. O autor denomina essa fusão de complexo militar-industrial-dataficado, conceito que constitui a hipótese central do livro. Sociólogo, doutor em Ciência Política pela USP e professor associado da UFABC, Sérgio Amadeu da Silveira possui extensa produção sobre tecnologia, democracia e direitos digitais. Nesta obra, avança além do diagnóstico habitual da vigilância comercial e adentra o terreno da guerra, mobilizando um arcabouço teórico interdisciplinar. Sete seções temáticas organizam a obra, a saber: As big techs e a guerra total; As plataformas são máquinas de guerra?; Os negócios da nuvem; A IA realmente existente rumo à guerra; Como a IA pode montar uma máquina de alvos; Complexo militar-industrial-dataficado; e A monetização da guerra. O autor transita entre teoria social, contratos públicos e casos empíricos, priorizando a coerência argumentativa em detrimento da sistematização metodológica formal. O argumento desenvolve-se em três movimentos. O primeiro constrói a base conceitual em torno da dataficação, a conversão sistemática de atividades humanas e maquínicas em dados, insumo central tanto do capitalismo de plataforma quanto das operações militares contemporâneas. Silveira demonstra que as grandes plataformas digitais são, em primeiro lugar, empresas de dados, e que esse acervo, coletado em escala global, constitui um recurso estratégico militarmente utilizável. A formulação tem antecedente que o próprio autor reconhece. Silveira apresenta o antropólogo Roberto J. González (2022) como quem nomeou de complexo militar-digital a rede que interliga Forças Armadas e agências de inteligência, big techs como Google, Palantir e Amazon Web Services, startups de defesa e universidades que desenvolvem IA para aplicações militares. Nessa leitura, a guerra torna-se um problema de processamento de dados, com a política e a ética deslocadas para a periferia. Silveira acrescenta o que julga faltar nela, a posição das big techs que controlam dados das populações como centro indispensável da guerra. O segundo movimento descreve a materialidade do processo. Silveira desfaz a ilusão da desterritorialização da nuvem ao lembrar que os data centers são infraestruturas físicas, concentradas em poucos países e operadas por oligopólios tecnológicos. O Joint Warfighting Cloud Capability, contrato de até 36 bilhões de dólares até 2028, formalizou a integração das Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud e Oracle Cloud ao Departamento de Defesa dos EUA. As big techs passaram a operar no interior da cadeia de decisão militar, provendo a infraestrutura sobre a qual correm o reconhecimento, a análise de imagens de drones e a fixação automatizada de alvos. O terceiro movimento documenta a operacionalização dessa integração em Gaza. O Projeto Nimbus, contrato de 1,2 bilhão de dólares entre Israel, Google e Amazon, é apresentado como a pré-estreia do novo complexo. O Projeto Lavender, sistema de IA da Unidade 8200, processou 37 mil alvos humanos com base em redes sociais, interceptações e imagens de satélite, atingindo, segundo seus operadores, 90% de precisão. O sistema complementar Where's Daddy? rastreava os alvos até suas residências para a execução dos ataques. Um oficial que operou o sistema declarou “que a máquina fez isso friamente” e “que isso tornou tudo mais fácil”. A frase sintetiza o argumento ético central do livro, segundo o qual a automação acelera a guerra e ao mesmo tempo dissolve a responsabilidade moral do ato de matar. Para dar conta dessa dissolução, Silveira recorre a Grégoire Chamayou e Achille Mbembe. Em “Teoria do drone”, conforme a leitura do autor, Chamayou demonstra que a ética do guerreiro vem sendo substituída pela ética do caçador, na qual o atacante elimina o alvo sem risco, a partir de padrões comportamentais. Os signature strikes equivalem a condenar alguém à morte por probabilidade estatística, dispensando a evidência. De Mbembe, toma o conceito de “necropolítica” para nomear o poder que decide quem vive e quem morre. A IA industrializou essa lógica, conferindo-lhe escala e aparência de objetividade técnica. A estrutura que sustenta tudo isso é nomeada por Silveira a partir de Lewis Mumford. A IA realmente existente aparece como “megamáquina”, sistema sociotécnico composto por servidores, GPUs especializadas e data centers de consumo energético descomunal. A essa arquitetura soma-se o conceito de sensor-to-shooter timeline, pelo qual o imperativo militar de reduzir o tempo entre detecção e disparo converte o humano em gargalo a contornar. O chamado controle humano significativo sobre sistemas autônomos letais não passa de ilusão. Entre os pontos fortes destacam-se a precisão conceitual do termo complexo militar-industrial-dataficado, a robustez empírica ancorada em contratos públicos, documentos vazados e reportagens do The Guardian, da +972 Magazine e da Wired, e a relevância estratégica para o Brasil diante de sua dependência de infraestrutura digital estrangeira. As limitações também merecem registro. O foco quase exclusivo nos EUA e em Israel empobrece a dimensão multipolar do argumento, e a China aparece marginalmente, apesar da expansão das capacidades de IA de uso dual de empresas como Huawei e Hikvision. A tendência a homogeneizar as big techs como um bloco monolítico subestima contradições internas relevantes, e o viés político enfraquece a obra ao reforçar críticas contundentes ao governo americano sem oferecer contrapartida normativa. Cabe ainda uma objeção de fundo, formulada a partir do exame do mesmo caso empírico. Em “AI, Automation, and War”, publicado no mesmo ano, King (2025) trabalha com dados que coincidem com os de Silveira sobre o Lavender e sobre o intervalo de vinte segundos concedido aos oficiais israelenses para validar cada alvo. A conclusão, porém, inverte-se. King (2025) sustenta que seria equivocado afirmar que sistemas como o Gospel e o Lavender deslocaram os comandantes israelenses, e menos ainda suas responsabilidades legais e éticas, uma vez que foram comandantes humanos que fixaram os parâmetros da máquina e definiram o que bastaria para confirmar um alvo. A ressalva qualifica o diagnóstico de Silveira em ponto decisivo para o oficial que planeja. O que a automação dissolve, portanto, talvez seja menos a responsabilidade do que a sua percepção por quem opera o sistema. A contribuição aos estudos de segurança e defesa opera em dois planos. No plano teórico, a obra fornece ao campo uma categoria de análise para a infraestrutura digital da guerra, dimensão que a literatura de defesa ainda trata de modo disperso. No plano operacional, quatro contribuições se destacam para o profissional militar. A primeira é a documentação de como a IA transforma a cadeia de decisão operacional. A segunda é a identificação da dependência de nuvem privada estrangeira como vulnerabilidade estratégica de primeira ordem, questão de interesse direto para o Brasil. A terceira é o diálogo com os debates contemporâneos sobre guerra assimétrica e automação do ciclo decisório. A quarta é o alerta sobre a monetização da guerra, lógica pela qual conflitos contínuos tornam-se atrativos para o setor privado, com riscos à governança das Forças Armadas. A obra não responde a todas as perguntas que levanta. A ausência de análise comparada com outros modelos de integração militar-tecnológica, como o chinês e o russo, e a escassez de proposições normativas concretas são lacunas que futuras pesquisas precisarão enfrentar. Ainda assim, a obra demonstra que a transformação do complexo militar-industrial deixou o plano das hipóteses e tem hoje endereço, orçamento e vítimas identificáveis em Gaza. Quando a guerra se torna unidade de negócios das mesmas corporações que mediam o entretenimento cotidiano, o alerta de Eisenhower em 1961 adquire dimensão que ele próprio não poderia ter antecipado. Para o profissional militar que atua em ambientes de decisão mediados por IA, a obra oferece uma chave de leitura da infraestrutura sobre a qual correm suas próprias decisões. Sua utilidade está em obrigar a perguntar de quem depende, em uma crise, a camada computacional que sustenta comando, controle e inteligência. Referências bibliográficas GONZÁLEZ, Roberto J. War virtually: the quest to automate conflict, militarize data, and predict the future. Oakland: University of California Press, 2022. KING, Anthony. AI, automation, and war: the rise of a military-tech complex. Princeton: Princeton University Press, 2025. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-dataficado. São Paulo: Hedra, 2025. Rio de Janeiro - RJ, 15 de setembro de 2026.
War and Power: Who Wins Wars - and Why
Autor: Phillips Payson O'Brien Por Tiago Marques dos Santos Filho Major de Infantaria do Exército Brasileiro,aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME edoutorando do PPGCM do Instituto Meira Mattos. A compreensão do fenômeno da guerra e a calibração do poder dissuasório das nações enfrentam uma crise metodológica severa na presente década, com analistas e planejadores falhando sistematicamente em prever o desempenho real de forças militares em cenários de alta intensidade. Em War and Power: Who Wins Wars - and Why, lançado em 2025 pela editora PublicAffairs, o historiador Phillips Payson O'Brien utiliza o erro de diagnóstico ocidental na invasão da Ucrânia em 2022, sintetizado na recusa do presidente Volodymyr Zelensky à proposta norte-americana de ajuda para a evacuação do território ucraniano ("Eu preciso de munição, não de uma carona"), para desestruturar o secular "paradigma das grandes potências". O autor argumenta que a tradição realista, ao focar exclusivamente em inventários materiais, balanços de forças estáticos e métricas puras de armamentos, negligencia as dinâmicas institucionais, operacionais e o peso da liderança política, gerando um modelo analítico cego à realidade do combate contemporâneo. A obra divide-se em duas grandes seções ("Power" e "War"), desdobrando-se em dez capítulos que dissecam metodicamente as condicionantes que de fato governam a vitória e a derrota no século XXI, estruturando um instrumental teórico que desafia os dogmas tradicionais das Ciências Militares. Iniciando o primeiro bloco focado na anatomia do poder em tempo de paz, o Capítulo 1 estabelece que a fundação da proeminência militar reside estritamente na força econômica e tecnológica, especificamente na capacidade nacional de projetar, manufaturar e regenerar insumos complexos em alta escala. O'Brien desconstrói o determinismo demográfico ou geográfico bruto ao demonstrar que nações de vasta extensão territorial, como a Rússia ou o Canadá, ou de grandes massas populacionais isoladas, não se convertem automaticamente em potências de espectro completo. O verdadeiro diferencial reside no domínio da produção industrial de alta tecnologia e na capacidade financeira de sustentar os custos crescentes do desenvolvimento científico. Analisando a evolução histórica do Produto Interno Bruto (PIB) e do Produto Nacional Bruto (PNB) desde o século XIX, o autor evidencia que a capacidade de converter riqueza material em força militar real é o que separa as potências autênticas dos "pretendentes" ao topo da pirâmide global. No Capítulo 2, O'Brien demonstra que essa base material e industrial é ativada e direcionada pela liderança política do Estado. O autor rejeita a premissa de que existe um "interesse nacional" abstrato e imutável ao qual todos os líderes aspiram; em vez disso, o interesse nacional é determinado pelas escolhas políticas, preconceitos, ideologias e idiossincrasias dos governantes. Essa análise do processo decisório e da centralidade do Executivo dialoga diretamente com as contribuições teóricas do professor Octávio Amorim Neto na literatura nacional, que há muito sublinha o modo como o arranjo institucional doméstico e a governança do Poder Executivo moldam a formulação das políticas de defesa e a projeção externa do Estado. O'Brien detalha como decisões de indivíduos, como a recusa de Kaiser Wilhelm II em renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia ou a obsessão de Adolf Hitler por plataformas superpesadas e pelo controle político rígido que asfixiava a produção nos primeiros anos da guerra, alteraram o destino de nações poderosas, provando que a liderança pode mitigar ou sabotar o potencial econômico do país. O Capítulo 3 estende essa análise à sociedade e à sua estrutura política, argumentando que a solidez do poder nacional depende da harmonia entre as instituições governamentais e do compromisso da população. O autor examina os impactos da corrupção e da falta de integridade institucional na eficiência das forças armadas, demonstrando que desvios orçamentários sociais e burocracias corruptas funcionam como parasitas que corroem o poder militar por dentro, mesmo em Estados que ostentam vultosos orçamentos de defesa. Em contrapartida, sociedades democráticas ou coesas, apesar de lidarem com pressões populistas ou debates internos sobre o isolacionismo, tendem a demonstrar maior flexibilidade, resiliência e capacidade de inovação disruptiva quando submetidas a crises existenciais, servindo como uma barreira contra o colapso estrutural que frequentemente acomete regimes autocráticos e centralizados. No Capítulo 4, o autor analisa o processo de construção de um instrumento militar, evidenciando que as forças armadas são subprodutos diretos das interações políticas, econômicas e sociais prévias, e não dados físicos isolados. O'Brien detalha como os requisitos doutrinários e a seleção de sistemas de armas refletem a visão de guerra de suas lideranças, apontando o fracasso histórico do programa do bombardeiro quadrimotor alemão Heinkel He 177 (Grief) como um exemplo contundente de desperdício de recursos gerado por exigências operacionais contraditórias e pressões políticas. A incapacidade da Luftwaffe em consolidar uma força de bombardeio estratégico e a posterior dependência alemã de defesas antiaéreas pesadas (flak) ilustram como falhas na concepção do instrumento militar limitam as opções estratégicas do Estado, dinâmica que se repetiu nas severas restrições tecnológicas que a União Soviética enfrentou ao tentar replicar a revolução computacional ocidental. Encerrando a primeira parte da obra, o Capítulo 5 aborda a arquitetura de alianças internacionais, apontando que o isolacionismo estratégico é um catalisador de vulnerabilidades históricas e que as coalizões integradas amplificam o poder nacional de forma orgânica. O'Brien resgata a diplomacia britânica anterior a 1914 para demonstrar como o Reino Unido utilizou acordos e ententes com a França e a Rússia para compensar sua liderança industrial declinante e conter a ameaça naval alemã. Essa perspectiva foca na cooperação de longo prazo e se choca frontalmente com o realismo ofensivo do teórico das relações internacionais John Mearsheimer, que tende a conceber as alianças como arranjos temporários, frágeis e estritamente instrumentais, nos quais o dilema de segurança e o cálculo egoísta de sobrevivência dos Estados impedem uma integração profunda e duradoura no sistema anárquico internacional. É imperativo ponderar, contudo, que a linearidade estrutural proposta por O'Brien entre a higidez econômica e tecnológica e a projeção do poder nacional sofre severas contestações quando submetida ao crivo do Realismo Estrutural e das teorias de defesa contemporâneas. Ao reduzir a dinâmica internacional a um fluxo quase determinístico de capacidade manufatureira e governança institucional, o autor arrisca-se em um tecnicismo que subestima a perenidade da anarquia sistêmica. No segundo bloco da obra, voltado à manifestação prática do poder no ambiente do conflito armado, o Capítulo 6 introduz a distinção conceitual central entre a "lógica da batalha" (compromissos táticos efêmeros e limitados geograficamente) e a "lógica da guerra" (competição sistêmica, atricional e de longo prazo). O autor critica duramente a fixação clássica da historiografia e das academias militares por choques decisivos na linha de frente, argumentando que o resultado de combates individuais raramente decide o destino de uma campanha de alta intensidade. Mediante uma revisão documental rigorosa do teatro de operações europeu na Segunda Guerra Mundial, O'Brien demonstra que o desfecho de batalhas tidas como "pontos de inflexão" não alterou o balanço macroeconômico de forças, uma vez que as perdas materiais eram absorvidas pelas linhas de montagem dos beligerantes, reposicionando o combate como um mero revelador do estado do poder das nações, e não como sua causa primária. O Capítulo 7 aprofunda a crítica ao “fetiche” tecnológico ao provar que a eficácia operativa depende do domínio e da coordenação de operações complexas interconectadas, como as missões de supressão de defesas aéreas inimigas (SEAD) e o gerenciamento de cadeias logísticas globais, e não do desempenho isolado de armas consideradas revolucionárias. O autor utiliza o exemplo histórico dos grupos de batalha de porta-aviões norte-americanos e a infraestrutura do "fleet train" para demonstrar que o suporte logístico móvel foi o verdadeiro multiplicador de força no Pacífico. No Capítulo 8, O'Brien confronta o fator humano com as métricas quantitativas estáticas, demonstrando que o adestramento, o moral e a flexibilidade tática das tropas no terreno são as verdadeiras engrenagens que traduzem massa material em resultados operativos. Revisando os dados reais das batalhas de Stalingrado e Kursk em 1943, o autor desconstrói as narrativas hiperbólicas de destruição de forças criadas pela propaganda soviética, evidenciando que as perdas alemãs em blindados e aeronaves nesses confrontos foram estatisticamente modestas face à produção anual da Alemanha. O que determinou a derrota das forças do Eixo foi a incapacidade humana e sistêmica de coordenar o suporte combinado de armas sob fogo e manter o moral das tropas diante de um oponente que demonstrava superioridade na inteligência de sinais e na capacidade de absorver e responder aos choques táticos. O Capítulo 9 foca na dialética entre iniciar e sustentar o esforço de guerra, destruindo o mito da "guerra curta e clínica" que frequentemente seduz os planejadores estratégicos. O'Brien adverte que os estoques materiais com os quais as nações iniciam um conflito convencional moderno são consumidos em ritmo alarmante nas primeiras semanas de hostilidades, convertendo a campanha em um teste desesperado de regeneração, reparo e substituição contínua de forças. O autor demonstra que o colapso da ilusão da guerra rápida força o Estado a reconfigurar toda a sua economia doméstica para o esforço bélico, punindo severamente as nações que falharam em estruturar linhas de suprimento resilientes ou que se tornaram dependentes do comércio externo de insumos críticos e componentes de difícil reposição. O Capítulo 10 consolida o argumento bélico da obra ao analisar o embate histórico entre Estados isolados e alianças integradas, demonstrando a superioridade incontestável das coalizões que operam de maneira cooperativa em termos logísticos, financeiros e militares. O autor aponta que potências que tentaram agir de forma autárquica ou que encararam seus parceiros como meros objetos de exploração imperial, como a Alemanha nazista e o Japão imperial, foram esmagadas pela sinergia de blocos que souberam compartilhar tecnologia, coordenar rotas comerciais e dividir o fardo do combate de forma integrada. Essa inclinação de War and Power ao tecnicismo e à primazia do atrito industrial clássico torna-se ainda mais problemática quando confrontada com a velocidade de obsolescência das táticas e plataformas no campo de batalha do século XXI. Enquanto O'Brien argumenta que a vitória pertence ao ator capaz de sustentar linhas de montagem e fluxos logísticos de massa em longo prazo, analistas voltados à inovação disruptiva, como Christian Brose, alertam que a digitalização radical e a consolidação da "cadeia de destruição" (kill chain) redefiniram o tempo operacional da guerra moderna. Sob a perspectiva de Brose (2020), a capacidade de processamento de dados e o encurtamento dos laços entre sensores e combatentes (sensor-to-shooter loops) conferem uma assimetria letal que pode paralisar as plataformas pesadas e tradicionais — como os grupos de porta-aviões idealizados pelo autor — antes que qualquer engrenagem de reposição industrial consiga reagir. Complementando esse argumento, o analista militar Michael Kofman observa que, embora o conflito contemporâneo retenha um caráter atricional inegável, a introdução de sistemas de armas autônomos (LAWS) e de inteligência artificial cria uma dialética de adaptação tecnológica em tempo real que desafia a métrica puramente quantitativa de O'Brien, demonstrando que o domínio do espectro eletromagnético e a agilidade algorítmica podem suplantar a mera capacidade de substituição material em massa no teatro de operações. Na conclusão do livro, O'Brien direciona seu modelo analítico para o Indo-Pacífico, avaliando as condicionantes de um eventual choque de alta intensidade entre os Estados Unidos e a China. O autor sublinha que a dissuasão e a estabilidade na região não serão medidas pela contagem de mísseis ou navios prontos na linha de partida, mas sim pela resiliência das cadeias de suprimento globais, pela capacidade de inovação e pela firmeza do processo decisório político frente ao atrito industrializado de longo prazo. Para o leitor, War and Power consolida-se como uma ferramenta de utilidade pragmática inestimável, servindo como um freio conceitual necessário contra soluções simplistas e reposicionando a integridade das instituições, a robustez da logística e a clareza da liderança como os verdadeiros pilares da vitória militar. REFERÊNCIAS BROSE, Christian. The kill chain: defending America in the future of high-tech warfare. New York: Hachette Books, 2020. Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.
O Soldado e o Estado
Autor: Samuel P. Huntington Por Alberto Gressler dos Santos Major do Exército Brasileiro e aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME. Um corpo de oficiais político, dividido em facções, subordinado a fins ocultos, ressentindo-se de prestígio, mas sensível aos apelos da popularidade, colocaria em perigo a segurança do Estado. Por outro lado, um corpo de oficiais profissionais forte e altamente integrado, imune à política e respeitado por seu caráter militar, seria um imperturbável fator de equilíbrio na conduta da política (HUNTINGTON, 2016, p. 527). Samuel P. Huntington foi um cientista político norte-americano, nascido em 1927 e falecido em 2008. Formou-se na Universidade de Yale e doutorou-se em Harvard, onde lecionou até 2007. É autor, coautor e editor de 17 livros e de mais de 90 artigos acadêmicos. Dedicou-se ao estudo das relações cívico-militares e à geopolítica. Sua tese de maior impacto foi a que ficou conhecida como a teoria do “Choque das Civilizações”. O livro “O Soldado e o Estado” analisa as relações entre civis e militares desde o surgimento do oficialato como profissão, que remonta ao século XIX, com a reforma do exército prussiano por Scharnhost, Gneisenau e Grolmann, e chega ao período da Guerra Fria. Huntington utiliza-se de apontamentos filosóficos sobre a profissão militar e a percepção desta pelas sociedades humanas ao longo da história, exemplificando as diferentes relações entre civis e militares na política de Estados com formação bastante distinta da norte-americana, como a Alemanha e o Japão, cujas sociedades viveram a “tragédia do militarismo”, o que permite observar os comportamentos e apreender algumas conclusões importantes para a realidade brasileira. A partir de uma base teórica bem explicada, temperada com uma análise empírica detalhada, o autor contribui para a compreensão da participação militar nas decisões políticas nacionais, permitindo clareza na diferenciação de quando se fala em Política Nacional e quando se trata de política partidária. Segundo Luiz de Alencar Araripe, na apresentação da 1ª edição, o autor soube utilizar recursos adequados para tornar agradável um livro sobre um tema tão árido. Samuel Huntington inicia sua análise pela definição de profissão, fazendo dessa primeira parte uma verdadeira lição para civis e militares na compreensão da finalidade e da motivação da profissão das armas. Salienta-se que o foco do autor está na oficialidade, na medida em que esse corpo é responsável por dirigir a estrutura militar e, em consequência, pela segurança do Estado e, por isso, ele inicia a obra definindo a natureza do corpo de oficiais e discorrendo sobre sua mentalidade. Para o autor, a especialização, a responsabilidade e a corporatividade distinguem uma determinada profissão como um tipo especial de vocação. A responsabilidade é caracterizada pelo serviço essencial que o profissional presta ao funcionamento da sociedade. As motivações do oficial residem no amor técnico por sua habilidade e no senso de obrigação social de utilizar essa qualidade em benefício da sociedade (...) A sociedade, por outro lado, só pode garantir essa motivação se oferecer pagamento continuado e condigno a seus oficiais, tanto no serviço ativo quanto na inatividade (HUNTINGTON, 2016, p.33).Huntington elabora o conceito de ideal militar, segundo o qual “O oficialato é mais forte e mais eficiente quanto mais perto se encontra do ideal profissional; mais débil e mais imperfeito quando lhe falta esse ideal”, o que exige uma verdadeira reflexão do leitor militar a respeito de si próprio. Para esse exercício profissional, “cumpre (ao oficial) possuir destreza intelectual, cujo domínio exige estudo intenso”, delineando, assim, a especialidade do profissional. Nessa toada, Huntington define a especialização do oficial como uma esfera distinta de competência militar, comum a todos os oficiais e somente a eles, que os distingue de todos os civis, dada pela capacidade de, segundo Harold Laswell, “administrar a violência”. Para seu pleno domínio, a qualificação militar requer uma vasta base de cultura geral – história, política, economia, sociologia e psicologia. Não lhe é possível desenvolver plenamente suas habilidades analíticas, de percepção, julgamento e imaginação se apenas for treinado para tarefas vocacionais. (HUNTINGTON, 2016, p.32) Após tamanha abordagem inicial, Samuel Huntington parte do suposto problema da participação do grupo militar na política dos Estados e das implicações positivas e/ou negativas para um país. Para isso, utiliza-se dos exemplos da Alemanha e do Japão como referências para fazer uma comparação com o estudo dos EUA. É nessa parte que ele elabora um questionamento relevante: “A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares. Mas quais os limites da obediência?”. Para o autor, “as instituições militares de qualquer sociedade são moldadas por duas forças: um imperativo funcional, originado das ameaças à segurança da sociedade; e um imperativo societário, proveniente das forças sociais, das ideologias e das instituições dominantes dessa sociedade”. Ele alerta que as instituições militares que só refletem valores sociais podem ser incapazes de desempenhar com eficiência sua função específica, mas, por outro lado, é impossível conter dentro da sociedade instituições militares moldadas exclusivamente por imperativos funcionais. É nesse ponto que está o nó do problema abordado pelo autor. Huntington destacou a necessidade que os militares têm do direcionamento político para o estabelecimento da estratégia de defesa. Desse modo, o conceito de Controle Civil Objetivo é explicado pela relação segundo a qual a política estabelece os fins e aloca os recursos, ao passo que os militares utilizam e empregam esses recursos para atingir tais objetivos - ou seja, elaboram a estratégia. Inevitavelmente existe uma sequência a ser seguida: a política vem antes da estratégia. Se o governo do Estado não estabelece os fins ou se não há uma direção, contínua, constante, progressiva, previsível, o meio militar atua perdido, sem rumo. “Sem ele [um Conselho de Segurança Nacional que definisse a Política Nacional de Defesa ou Militar], não havia rumo para nada (…) Os pensadores militares reconheciam que um Conselho de Defesa era mais necessário na paz do que na guerra” (HUNTINGTON, 2016, p. 300). Além desse exemplo, o livro traz à baila vários aspectos do militarismo norte-americano que geram reflexão sobre o estado das relações cívico-militares no Brasil. Note-se que a tradição militar dos EUA foi desenhada a partir de três princípios, quais sejam o tecnicismo, a popularização e o profissionalismo. Huntington deixa claras, ao longo da obra, as dificuldades da sociedade americana em aceitar um agrupamento militar permanente. Ora gerado pela mentalidade liberal que o acusava de dispêndio desnecessário e prejudicial ao progresso econômico e ao bem-estar do povo; ora pela ausência de ameaças devido ao isolamento geográfico. Um tema de tangência entre os exércitos norte-americano e brasileiro, e de verdadeira relevância atual, é a perda de oficiais para o mercado civil de trabalho. Isso é citado por Huntington, no período pós Segunda Guerra Mundial, quando a aproximação entre os militares e os empresários se consolidou. Tal proximidade permitiu o desenvolvimento da indústria de defesa dos EUA. Dessa forma, aproveitando o prestígio obtido pelos oficiais durante a guerra, o empresariado seduziu jovens oficiais, com maiores capacidades intelectuais e de direção, que enxergaram melhores oportunidades financeiras se trabalhassem nas empresas e nas indústrias. Embora Samuel Huntington se centre na história dos EUA, é fácil perceber a universalidade das suas teses. Como a obra foi escrita na década de 1950, talvez haja uma possível lacuna na obra - por limitação temporal - sobre como evoluiu o sentimento favorável aos heróis militares na sociedade americana, assim como é percebido na cultura por meio dos filmes, dos esportes e dos ambientes públicos. Como afirma Filho (2020), embora escrito há mais de sessenta anos, O Soldado e o Estado é leitura obrigatória para militares e civis profissionais, por aprofundar a relação entre as expressões política e militar do Poder Nacional. Dois questionamentos elaborados pelo autor devem ser deixados para reflexão. Inicialmente, que modelo de relação entre civis e militares é mais compatível com os valores liberais-democráticos? Por fim, essa pergunta fomenta outra mais importante: que modelo de relação entre civis e militares será melhor para manter a segurança da nação ? Referência bibliográfica FILHO, Paulo Roberto da Silva Gomes. Samuel Huntington e a ética militar profissional. Paulo Filho – Liderança e Geopolítica, 27 jul. 2020. Disponível em: https://paulofilho.net.br/2020/07/27/samuel-huntington-e-a-etica-militar-profissional/. Acesso em: 31 de maio de 2026. Rio de Janeiro - RJ, 22 de julho de 2026.













