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Especial Irã: Os objetivos geopolíticos americanos na guerra do Irã: contenção da China e da Rússia e reconfiguração do Rimland eurasiático
André Luis Novaes MirandaGeneral de Exército da Reserva.Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).Atualmente é Assessor Especial de Geopolítica na Diretoria Internacional da Fundação Getúlio Vargas. 1. Introdução O conflito armado envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, intensificado a partir do final de fevereiro de 2026, não pode ser compreendido apenas como desdobramento regional das tensões iniciadas com os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Embora o teatro imediato seja o Oriente Médio, sua lógica estratégica insere-se em uma competição sistêmica mais ampla, na qual a geografia, a energia e os corredores de conectividade assumem papel central. Diante desse contexto, o presente ensaio examina em que medida a guerra atual, para além de seus objetivos de guerra e militares imediatos, constitui instrumento de reconfiguração geopolítica do espaço eurasiático, tendo como eixo estruturante a contenção estratégica da China e da Rússia, por meio de seu isolamento, por vias terrestres, do Oriente Médio. Ademais, almeja-se também o controle do espaço e rotas energéticas e, obtida a relativa estabilidade regional, um reposicionamento de forças. Dessa forma, o Irã funciona simultaneamente como ator regional, potência revisionista e nó logístico relevante na articulação continental euroasiática. Parte-se da hipótese de que a escalada do conflito no teatro médio-oriental também se relaciona aos esforços de manutenção da primazia estratégica americana e à contenção indireta de rivais sistêmicos, especialmente China e Rússia. Para explorar essa hipótese, o artigo apresenta inicialmente uma breve contextualização da crise regional, discute o enquadramento teórico adotado e analisa os possíveis objetivos geopolíticos associados ao conflito. Importa destacar que o conflito se encontra em pleno desenvolvimento, com desdobramentos ainda incertos nos planos geopolítico, estratégico, operacional, político e diplomático. A abordagem aqui adotada é eminentemente político-estratégica, voltada à identificação de objetivos estruturais e tendências sistêmicas, e não à descrição tática dos acontecimentos. Trata-se, portanto, de análise introdutória, formulada sob condições de informação dinâmica e potencialmente incompleta, sujeita a aperfeiçoamentos, retificações ou ratificações à medida que novos dados se consolidem e o curso do conflito revele com maior nitidez suas consequências estratégicas. Do ponto de vista metodológico, o estudo adota abordagem qualitativa de caráter exploratório, baseada em análise geopolítica e estratégica. A investigação mobiliza a literatura clássica e contemporânea sobre geopolítica e a competição entre grandes potências, associada à interpretação de eventos recentes relacionados à escalada do conflito no Oriente Médio. 2. Breve síntese da dinâmica regional (2016-2025) A escalada que culmina no conflito atual deve ser compreendida como processo cumulativo iniciado ainda na segunda metade da década passada. Em janeiro de 2016, a entrada em vigor do Plano de Ação Conjunto Global (Joint Comprehensive Plan of Action – JCPOA) inaugurou a fase de contenção negociada do programa nuclear iraniano, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. Contudo, a retirada formal dos Estados Unidos do acordo em maio de 2018 e a reimposição de sanções econômicas em larga escala reconfiguraram estruturalmente o eixo Washington–Teerã, recolocando o programa nuclear no centro da disputa estratégica e inaugurando um ciclo de pressão máxima e de respostas graduais por parte do Irã. A partir de 2018, Israel intensificou ataques contra posições iranianas e de grupos aliados na Síria, buscando impedir a consolidação de corredores estratégicos e de capacidades militares avançadas na sua vizinhança. Em 2019, incidentes envolvendo navios petroleiros no Golfo de Omã e ameaças à navegação no entorno do Estreito de Ormuz evidenciaram a crescente centralidade das rotas energéticas na rivalidade regional. Em janeiro de 2020, ataques iranianos contra bases com presença norte-americana no Iraque reforçaram o padrão de ação e retaliação direta limitada, ainda sem ruptura para guerra aberta. O ponto de inflexão ocorreu em 7 de outubro de 2023, quando o ataque do Hamas a Israel desencadeou uma ampla campanha militar israelense e reativou plenamente a dinâmica do chamado “eixo da resistência”, composto por grupos apoiados pelo Irã no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen. A multiplicação de frentes de combate elevou o risco de expansão horizontal do conflito. Em abril de 2024, a troca de ataques diretos entre Israel e Irã marcou a erosão do padrão exclusivamente indireto de confrontação, sinalizando a disposição de ambos os lados de ultrapassar limiares anteriores de contenção. A escalada atingiu um novo patamar em junho de 2025, durante a chamada “Guerra dos Doze Dias”, quando operações de grande intensidade passaram a atingir a infraestrutura estratégica iraniana, incluindo instalações associadas ao ciclo nuclear. A Operação Midnight Hammer, conduzida em 22 de junho de 2025, simbolizou esse salto qualitativo ao empregar meios estratégicos de longo alcance contra alvos em profundidade. Esse encadeamento de eventos revela que o conflito em curso não resulta de uma crise episódica, mas de uma trajetória progressiva de reescalada na qual programa nuclear, redes de aliados regionais, controle de rotas energéticas e competição entre grandes potências convergiram em um mesmo problema estratégico. 3. A Estratégia de Segurança dos EUA Outro aspecto importante para compreender os objetivos geopolíticos norte-americanos neste conflito é a atual Estratégia de Segurança dos EUA, que prevê interesses fundamentais em assegurar que os suprimentos energéticos do Golfo Pérsico não caiam nas mãos de um inimigo declarado (leia-se China). Também prevê que o Estreito de Ormuz permaneça aberto; que o Mar Vermelho continue navegável; que a região não se torne um incubador ou exportador de terrorismo contra os interesses americanos ou contra o território dos Estados Unidos; e que Israel permaneça seguro. O Irã é considerado, pelos EUA e por Israel, o grande polo de instabilidade regional e esse exportador de terrorismo para todo o mundo e possui a capacidade, em tempo indeterminado, de vir a possuir artefatos nucleares. A China, principal rival americano, vinha importando a imensa maioria do petróleo iraniano, além de também ser uma grande compradora do petróleo que flui pelo Estreito de Ormuz. Também fazia uso do corredor ferroviário que liga o porto iraniano de Bandar Abbas à região de Shandong. Dessa forma, ao controlar o Irã, além de exercer influência sobre todo o petróleo produzido no Golfo Pérsico, os EUA farão a contenção da China e a isolarão, por terra, do Oriente Médio. Da mesma forma, essa ferrovia, a partir de Teerã, segue para Moscou, integrando o chamado Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC, na sigla em inglês), fazendo com que o controle do Irã pelos EUA também isolasse, por terra, a Rússia do Oriente Médio. Outro ponto importante da Estratégia de Segurança americana é a intenção de se aumentar a presença militar no Leste Asiático, mais especificamente na região do Mar do Sul da China e nas cercanias de Taiwan. As regiões do mundo nas quais há uma grande concentração de tropas são, além do próprio Leste Asiático, a Europa e o Oriente Médio, bastante instáveis no momento devido à Guerra na Ucrânia e às ações promovidas pelo Irã e seus proxies, respectivamente. 4. Enquadramento Teórico A compreensão do conflito à luz da tradição geopolítica clássica permite deslocar a análise do plano episódico para o estrutural, evidenciando que disputas aparentemente regionais frequentemente operam como instrumentos de rearranjo do equilíbrio sistêmico. A guerra em curso no entorno do Golfo Pérsico deve, portanto, ser interpretada como uma manifestação localizada de uma competição mais ampla pela reconfiguração do espaço eurasiático. Alfred Thayer Mahan demonstrou que o poder marítimo constitui uma variável decisiva na projeção de poder global, especialmente quando associado ao controle de rotas comerciais e gargalos estratégicos. O Estreito de Ormuz, por onde transita parcela substancial do comércio mundial de petróleo, insere-se precisamente nessa categoria de chokepoint. O controle — ou a capacidade de negação de acesso — a esse ponto crítico não implica necessariamente apropriação direta do recurso energético, mas condiciona a sua circulação. Em um sistema internacional dependente de cadeias logísticas contínuas, a regulação coercitiva do fluxo marítimo converte-se em instrumento de poder estrutural. Nicholas Spykman, ao formular o conceito de Rimland, argumentou que o domínio das fímbrias litorâneas da Eurásia — faixa intermediária entre o Heartland continental e os oceanos — determina o equilíbrio global. O Oriente Médio integra esse arco periférico decisivo, constituindo zona de contato entre potências marítimas e continentais. Controlar ou influenciar esse espaço significa, em termos spykmanianos, condicionar simultaneamente o acesso terrestre e marítimo à massa eurasiática. Zbigniew Brzezinski, ao tratar a Eurásia como o “grande tabuleiro” da política mundial, aprofundou essa leitura ao enfatizar que nenhuma potência pode aspirar à primazia global sem exercer influência determinante sobre os corredores estratégicos eurasiáticos. Nesse contexto, conflitos localizados podem desempenhar função instrumental na imposição de vulnerabilidades a competidores sistêmicos. A energia, as rotas de transporte e os pontos de estrangulamento logístico tornam-se peças centrais dessa disputa. Saul Cohen, por sua vez, qualificou o Oriente Médio como shatterbelt, isto é, região estruturalmente instável na qual rivalidades locais e competições globais se sobrepõem. Nessas zonas de fratura, crises regionais tendem a adquirir dimensão sistêmica, pois funcionam como espaços de projeção indireta das grandes potências. O padrão recorrente de intervenção externa e instabilidade confirma essa caracterização. Cohen também designa o Irã como um gate state, país que conecta duas regiões geopolíticas diferentes. Essas duas definições estão no cerne do presente ensaio. À luz desse arcabouço, o conflito atual revela-se menos como guerra bilateral isolada e mais como episódio inserido na disputa pela reorganização do espaço eurasiático. O controle de gargalos marítimos, a contenção de corredores continentais e a influência sobre regiões de fratura constituem dimensões complementares de uma mesma lógica estratégica. A guerra no entorno do Irã, portanto, pode ser compreendida como um mecanismo de ajuste geopolítico no interior da competição entre potências estabelecidas e revisionistas. 5. Objetivos Políticos e Militares A Operação Midnight Hammer, desencadeada em 22 de junho de 2025, marcou escalada qualitativa ao atingir instalações nucleares estratégicas iranianas, com o emprego de bombardeiros B-2 e munições de penetração profunda contra alvos como Fordow e Natanz. O episódio, conhecido como “Guerra dos Doze Dias”, sinalizou a disposição de uso de força direta contra o território iraniano. Do ponto de vista político, a Operação Epic Fury, também da coalizão EUA–Israel, parece perseguir quatro objetivos principais: (i) neutralizar definitivamente o programa nuclear iraniano; (ii) destruir a estrutura de mísseis, incluindo sua indústria; (iii) aniquilar a Marinha de Guerra iraniana; e (iv) assegurar-se de que o Irã não utilize seus proxies para desestabilizar a região. Esses objetivos foram explicitados pela Casa Branca em nota oficial alguns dias após o início da Operação. No entanto, um quinto objetivo chegou a ser anunciado pelo Presidente Trump e alguns auxiliares, que seria a mudança de regime iraniano. Esse objetivo segue sendo motivo de discussão em vários meios e ainda não está claro. Considerando os ataques de decapitação iniciais, seguidos da destruição de estruturas de comando e controle governamentais e militares, além de inúmeras ameaças políticas e apoio a grupos rebeldes armados, pode-se inferir que, passada a primeira janela de oportunidade, com a eliminação do líder supremo, Aiatolá Khamenei, e parte expressiva da cadeia de comando, algo está em curso no sentido de promover reconfiguração interna para (v) reduzir a autonomia estratégica do regime ou produzir alinhamentos regionais mais compatíveis com os interesses ocidentais. Para Israel, esses objetivos políticos chegam a ser existenciais, reduzindo um risco real de ataque direto e indireto ao seu território por Irã e seus proxies. No plano militar, os objetivos praticamente coincidem com os políticos, incluindo: (i) destruição de infraestrutura associada ao ciclo nuclear; (ii) neutralização de sistemas de defesa aérea; (iii) degradação da capacidade de lançamento de mísseis balísticos e indústria de defesa; (iv) destruição da marinha iraniana; (v) limitação da atuação da Guarda Revolucionária e meios de repressão interna; e (vi) decapitação do regime e destruição de sua capacidade de comando e controle. Trata-se de operação multidomínio envolvendo os componentes aéreo, naval, terrestre (ainda limitado no momento), cibernético, espacial e cognitivo, muito além de simples campanhas aéreas contra a infraestrutura do país, conforme inúmeros registros na história, desde a Primeira Guerra Mundial, e que iniciou semanas após uma enorme onda de protestos populares contra o regime, orgânicos e/ou patrocinados por órgãos de inteligência da coalizão, duramente reprimidos pelas forças de segurança iranianas. Quanto ao Irã, distinguem-se duas camadas de objetivos. No plano retórico-ideológico, permanece a narrativa de eliminação do Estado de Israel, chamado de “Pequeno Satã”. No plano estratégico realista, contudo, o centro de gravidade parece residir na sobrevivência do regime e na erosão indireta do adversário por meio de proxies regionais e dissuasão assimétrica. Militarmente, esses objetivos são buscados com ataques de mísseis e drones contra bases americanas, Israel, países do Golfo e aqueles que, no entendimento de Teerã, colaboram com a coalizão, incluindo ativos relacionados com a produção, refino e escoamento do petróleo, mas também hotéis, embaixadas e até um data center localizado nos Emirados Árabes Unidos. A intenção deve ser expandir a guerra, prolongá-la e causar o máximo de instabilidade econômica e política regional e global, minando a vontade da coalizão, principalmente dos EUA (“Grande Satã”), embora essas consequências elevem os custos da guerra também para a China. 6. Objetivos Geopolíticos Sistêmicos A dimensão geopolítica amplia significativamente a compreensão do conflito. O primeiro objetivo sistêmico dos Estados Unidos parece consistir no controle do território e das condições de acesso ao petróleo do Golfo, especialmente do Estreito de Ormuz e das linhas marítimas associadas. Não se trata de apropriação direta do recurso, mas de controle estratégico do espaço e das condições de circulação energética. Essa condição amplia a vulnerabilidade da China, cuja dependência de importação de petróleo do Golfo é elevada. Estimativas indicam que uma parcela significativa do suprimento energético chinês transita pela região. Em um cenário de interrupção prolongada, Pequim enfrentaria constrangimentos econômicos e estratégicos relevantes. O segundo objetivo consiste no isolamento simultâneo da China e da Rússia, do Oriente Médio, por via terrestre. A articulação de corredores ferroviários entre o Golfo Pérsico e o espaço eurasiático vinha reduzindo a dependência de rotas marítimas sujeitas à influência americana. A degradação de portos estratégicos como Bandar Abbas e Asaluyeh compromete temporariamente essa conectividade. O terceiro objetivo estratégico é, com uma possível estabilização regional, ainda que seja por meio de um grande enfraquecimento do Irã, mesmo que o regime se mantenha por ora, liberar capacidade militar americana para o Indo-Pacífico, deslocando recursos do Oriente Médio para o teatro prioritário de contenção da China. Nesse contexto, o Irã constitui elo geográfico crítico tanto na dimensão marítima quanto na terrestre da competição sistêmica. Um verdadeiro gate state. 7. Consequências Geoeconômicas No curto prazo, conflitos envolvendo o Golfo Pérsico produzem um impacto imediato sobre os mercados energéticos globais. A simples percepção de risco sobre o Estreito de Ormuz — por onde transita parcela significativa do comércio marítimo de petróleo — eleva o prêmio de risco embutido nos contratos futuros, pressiona os custos de seguro marítimo e aumenta o frete internacional. Mesmo sem a interrupção física prolongada, a expectativa de instabilidade é suficiente para provocar volatilidade nos preços do petróleo, do gás natural e de derivados de hidrocarbonetos, com reflexos diretos sobre inflação, política monetária e balança comercial de economias importadoras. A dimensão logística também se torna sensível. Interferências em sistemas de navegação, ataques a navios-tanque, risco de lançamento de minas em rotas e eventual redirecionamento de fluxos comerciais aumentam o tempo de transporte e encarecem as cadeias globais de suprimento. Setores intensivos em energia e transporte — como petroquímica, fertilizantes, siderurgia e alimentos — tendem a absorver custos adicionais, com efeitos difusos sobre preços internacionais. Em cenários de incerteza elevada, observa-se ainda a valorização de ativos considerados refúgio, como o dólar norte-americano e o ouro, reforçando a centralidade do sistema financeiro ocidental em momentos de crise. No médio prazo, o impacto dependerá da duração e do resultado estratégico do conflito. Um enfraquecimento duradouro do Irã pode reconfigurar os fluxos energéticos regionais, ampliar a margem de manobra de Israel e facilitar a expansão de acordos de normalização diplomática no Oriente Médio. A estabilização relativa do Golfo, sob maior controle de coalizões alinhadas aos Estados Unidos, tenderia a reduzir prêmios de risco, mas simultaneamente se consolidaria como um instrumento de influência estrutural sobre o abastecimento energético global, aumentando as vulnerabilidades chinesas, além de permitir o deslocamento de tropas dessa região para o Extremo Oriente. Por último, uma derrota do Irã, uma das chamadas “potências revisionistas”, também poderá causar danos à imagem de China e Rússia como pretensos líderes de uma nova ordem multipolar, principalmente se esses dois países não prestarem nenhum tipo de apoio material adicional ao aliado durante o conflito. Em contrapartida, caso o regime iraniano sobreviva politicamente e consiga recompor capacidades, com apoio de China e Rússia, a narrativa de multipolaridade revisionista pode ganhar impulso. Nesse cenário, tenderiam a intensificar-se os esforços de diversificação de rotas energéticas, a aceleração de acordos bilaterais em moedas alternativas e o fortalecimento de corredores terrestres eurasiáticos como forma de reduzir vulnerabilidades marítimas. A dimensão geoeconômica do conflito, portanto, não se limita ao preço do petróleo: envolve a disputa pela arquitetura financeira, pela resiliência logística e pela capacidade de impor — ou mitigar — vulnerabilidades estruturais no sistema internacional. Por fim, resultados considerados negativos na guerra podem influir nas eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro de 2026. 8. Implicações Prospectivas e Reflexos para o Brasil A redistribuição de poder decorrente do conflito no Oriente Médio tende a produzir impactos indiretos, porém relevantes, sobre o Hemisfério Ocidental. À medida que a rivalidade sistêmica entre Estados Unidos e China se intensifica, a disputa por acesso a recursos estratégicos, rotas logísticas e cadeias tecnológicas tende a se expandir para regiões consideradas estáveis ou periféricas à confrontação direta. Nesse contexto, a América do Sul pode adquirir uma renovada importância geopolítica, não como teatro de conflito, mas como espaço de competição por influência e por ativos estratégicos. O Brasil, enquanto maior economia e principal ator político-militar da região, reúne atributos que o tornam relevante nessa equação: abundância de minerais críticos associados à transição energética e à indústria de alta tecnologia, capacidade de produção energética diversificada, disponibilidade de grande quantidade de água e biodiversidade, posição geográfica atlântica estratégica e inserção diplomática simultânea junto a potências ocidentais e emergentes. Em um cenário de maior polarização sistêmica, pressões por alinhamento podem se manifestar de forma indireta, especialmente em setores como infraestrutura digital, cadeias de semicondutores, mineração de terras raras e financiamento de projetos estratégicos. Oscilações prolongadas no mercado energético global também possuem efeitos domésticos tangíveis. A volatilidade do petróleo influencia inflação, taxa de câmbio e política monetária, com impactos sobre crescimento econômico e investimento público. Adicionalmente, a valorização de ativos considerados seguros, como o dólar, tende a pressionar economias emergentes, afetando o fluxo de capitais e as condições de financiamento. Assim, mesmo distante geograficamente do teatro de operações, o Brasil permanece economicamente exposto às dinâmicas geoeconômicas do conflito. Por outro lado, cenários de reconfiguração energética e logística podem abrir oportunidades estratégicas. A busca por diversificação de fornecedores e rotas pode favorecer exportadores estáveis e politicamente previsíveis. A consolidação de uma postura diplomática equilibrada e pragmática pode ampliar a margem de manobra brasileira em um ambiente de polarização crescente. Nesse sentido, a compreensão das implicações sistêmicas do conflito não constitui exercício meramente analítico, mas condição necessária para a formulação de políticas que preservem autonomia estratégica e capacidade de decisão soberana em um sistema internacional cada vez mais competitivo. 9. Considerações Finais A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transcende o conflito regional imediato. À luz da tradição geopolítica clássica, ela se revela como uma manifestação localizada de uma disputa mais ampla pela configuração do espaço eurasiático e pelo equilíbrio sistêmico entre potências estabelecidas e atores revisionistas. O controle de gargalos energéticos, a influência sobre corredores continentais e a disputa pelo Rimland constituem dimensões interligadas dessa dinâmica estratégica. Mais do que confronto circunstancial, o episódio atual integra um processo de reorganização do ambiente internacional, no qual energia, conectividade e vulnerabilidades estruturais assumem papel central. A capacidade de converter ganhos militares em resultados políticos duradouros será decisiva para determinar se a escalada produzirá uma estabilização relativa ou um aprofundamento da polarização sistêmica. Em qualquer hipótese, os efeitos geoeconômicos já observados indicam que o conflito impacta cadeias logísticas, mercados financeiros e percepções de risco em escala global. Importa ressaltar, contudo, que o conflito permanece em desenvolvimento, exigindo acompanhamento contínuo de seus desdobramentos geopolíticos, estratégicos, operacionais, diplomáticos e econômicos. Pela natureza do conflito, dificilmente haverá uma vitória clássica ou uma rendição incondicional de uma das partes, fazendo com que possa simplesmente desescalar sua intensidade e reequilibrar-se, com ambos os lados declarando o sucesso na consecução dos objetivos políticos, mas dificilmente para o status quo ante de um Irã forte e buscando a liderança regional. O presente ensaio não pretende oferecer uma interpretação exaustiva, mas contribuir com o enquadramento conceitual que permita compreender sua inserção em uma lógica estrutural mais ampla. Outros ângulos analíticos — militares, jurídicos, energéticos ou tecnológicos — podem e devem ser explorados à medida que novas informações se consolidem. Por fim, a leitura geopolítica aqui apresentada não exclui a centralidade dos interesses nacionais específicos de cada ator envolvido. As decisões de Estados Unidos, Israel, Irã, Rússia e China refletem percepções próprias de segurança, reputação e oportunidade estratégica, que condicionam tanto suas ações quanto as narrativas produzidas sobre o conflito. Compreender essa interação entre estrutura sistêmica e cálculo nacional é condição essencial para interpretar a evolução da crise e seus impactos sobre a ordem internacional contemporânea. Bibliografia sugerida BRZEZINSKI, Zbigniew. The grand chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives. New York: Basic Books, 1997. COHEN, Saul B. Geopolitics: the geography of international relations. 2. ed. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015. GRAY, Colin S. 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New York: Harcourt, Brace and Company, 1944. WALT, Stephen M. The origins of alliances. Ithaca: Cornell University Press, 1987. * O presente artigo contou com a valiosa colaboração do Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Prof. Dr. Coordenador do Laboratório de Ciências Militares / ECEME. Rio de Janeiro - RJ, 12 de março de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Os objetivos geopolíticos americanos na guerra do Irã: contenção da China e da Rússia e reconfiguração do Rimland eurasiático. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/os-objetivos-geopoliticos-americanos-na-guerra-do-ira-contencao-da-china-e-da-russia-e-reconfiguracao-do-rimland-eurasiatico. .
Especial Irã: A estratégia norte-americana no Irã
Reis FriedeProfessor Emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).Professor Honoris Causa da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).Professor Emérito da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO).Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra (ESG).Membro da Sociedade Brasileira de Direito Aeroespacial (SBDA),da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED),do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB),da Academia Brasileira de Defesa (ABD)e do Conselho Superior do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER). Ao contrário de algumas asseverações, a estratégia norte-americana no Irã tem se revelado clara, lógica e racional. Porém, sua execução, no estilo trumpista de ser, é bastante singular, por vezes parecendo caótica. O verdadeiro objetivo dos Estados Unidos não é propriamente atingir o Irã, país irrelevante na competição global com Washington, mas sim a China, a única que pode ameaçar a hegemonia estadunidense. A abordagem da Casa Branca é enfraquecer Pequim, sua rival estratégica, atacando um dos principais pontos fracos da China, sua alta dependência de hidrocarbonetos. Importando diariamente cerca de 11,6 milhões de barris de petróleo em 2025, o que lhes confere a primeira posição mundial nesse quesito, os chineses suprem suas necessidades por intermédio de vários fornecedores, havendo três em particular, que lhes permitem descontos especiais e pagamentos em yuan: a Venezuela, já neutralizada, o Irã e a Rússia. A forma de comercialização desse produto pelos três países vem permitindo driblar o acordo firmado em meados da década de 1970 pelos Estados Unidos, quando a ancoragem do dólar, que até 1971 era lastreada no ouro, passou a ser feita por meio da comercialização do petróleo – os chamados petrodólares –, viabilizando a contínua hegemonia financeira estadunidense. Embora a tentativa de romper ou burlar a exclusividade do uso da moeda norte-americana para transações envolvendo petróleo não seja uma novidade – tendo sido, em parte, a razão da deposição de MUAMMAR KADAFI na Líbia e de SADDAM HUSSEIN no Iraque –, essa empreitada nunca foi realizada de maneira coordenada como aparentemente está sendo feito pela China no contexto da atual competição acirrada. A derrubada de NICOLÁS MADURO na Venezuela sem que se objetivasse remover as lideranças do regime venezuelano e democratizar o país, bem como as tentativas de aproximação com VLADIMIR PUTIN desconsiderando os legítimos interesses da Ucrânia, evidenciam uma estratégia muito bem formulada por Washington: a defesa da hegemonia geral estadunidense e financeira do dólar, como moeda de referência internacional, cuja participação nas reservas internacionais estava em 57% em 2025 – comparativamente, em 2000 era de 71%. Nesse sentido, o controle do Irã é estratégico. Além de impedir a venda de petróleo barato em yuan para Pequim, interrompe-se a Rota da Seda, atrapalhando os propósitos chineses de expansão comercial. Portanto, o plano de DONALD TRUMP e de sua equipe de conselheiros vai muito além do reset comercial – e da reindustrialização dos EUA – por meio da imposição de tarifas. O que a Casa Branca almeja é reposicionar o país em uma nova realidade global tripolar (EUA, China e Rússia), com forte inclinação para tetrapolaridade (com a inclusão da Índia). A Europa, que até poderia ser um quinto polo, encontra-se enfraquecida, sendo completamente desconsiderada por TRUMP nesta equação. Exatamente como aconteceu com a Venezuela, os EUA também preferiam uma solução negociada com o Irã. Diante da resistência de Caracas, Washington deflagrou a ação que, no início de janeiro de 2026, captou e retirou MADURO do poder, passando a negociar com as demais lideranças do regime. Um método bastante semelhante foi utilizado no episódio do Irã. A cessação da Guerra dos Doze Dias contra a vontade de Tel Aviv partiu do princípio de que seria possível negociar, nos termos firmados por Washington, com Teerã em troca da manutenção do regime. Como isso se mostrou impraticável, a neutralização das principais autoridades políticas e militares da república islâmica passou a ser quase que uma condição para viabilizar a interrupção do suprimento de petróleo para a China – que, em essência, é o escopo central dos EUA – e para destruir a força ofensiva (de mísseis balísticos e hipersônicos, por exemplo) e a capacidade bélico-nuclear dos iranianos. Para tanto, a Casa Branca, em uma convergência de interesses, se valeu indiretamente do poderio bélico de Israel em seu benefício, e não o oposto, como alguns argumentam. De um modo geral, a desistência norte-americana de prosseguir nas conversações que estavam sendo levadas a cabo com o regime dos aiatolás tem pelo menos quatro explicações: Washington concluiu que Teerã apenas desejava ganhar tempo; que o iminente fornecimento de sofisticados mísseis antinavios chineses aos iranianos reduziria, ou até mesmo neutralizaria, a efetividade das forças navais norte-americanas; que o Irã, de uma maneira intensa, estava elevando seus estoques balísticos – sua cadência de fabricação era de 100 unidades por mês; que determinadas fontes, inclusive a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), estimam que o regime iraniano – que já enriquece urânio a 60%, percentual muito próximo ao mínimo necessário para se fabricar um artefato atômico – possua um estoque de urânio entre 400 e 600 kg, que não foi destruído pela “Operação Midnight Hammer”. Outro fator que acelerou o início do conflito foi o desdobramento, por parte de Teerã, do míssil hipersônico Fattah-2. De forma diferenciada dos artefatos balísticos tradicionais, que possuem trajetória parabólica, o Fattah-2 é capaz de fazer manobras evasivas em velocidades próximas de Mach 5, através de seu veículo de planeio – que forma o conhecido rastro de “cauda de dragão” –, tornando-o ainda mais difícil de ser interceptado pelos sistemas antibalísticos atuais. Costuma-se dizer que “nada é mais caro do que uma oportunidade perdida”. Levando a frase ao pé da letra, os Estados Unidos identificaram com precisão o timing para a denominada “Operação Fúria Épica”: a manhã do dia 28 de fevereiro de 2026, um sábado, quando os conceituadíssimos aparatos de inteligência de Washington e Tel Aviv constataram que a cúpula iraniana estava reunida em um mesmo lugar em Teerã. A grande conclusão a que se chega é que o poderio militar, econômico e financeiro estadunidense ainda persiste praticamente sem contraponto. E assim, em menos de uma hora, mais uma vez uma pequena fração do imenso poder militar dos Estados Unidos foi demonstrado sem que houvesse qualquer chance de resposta por parte do Irã. TRUMP, que de Mar-a-Lago acompanhava o desenrolar dos ataques, parece estar radiante com o êxito da missão. Mas ele sabe que o sucesso de sua política externa se subordina quase que exclusivamente ao apoio popular dos norte-americanos e sobretudo congressional, o “calcanhar de Aquiles” que seus rivais China e Rússia, duas autocracias, não possuem. Rio de Janeiro - RJ, 11 de março de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). A estratégia norte-americana no Irã. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/a-estrategia-norte-americana-no-ira. .
Especial Irã: O tabuleiro geopolítico se move: o ataque EUA-Israel ao Irã e a reorganização sistêmica de riscos e prioridades
Gustavo Godoy Ribeiro da SilvaMajor do Serviço de Intendência.Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. Renato Cavalcanti FerreiraMajor da Arma de Infantaria.Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. 1. Introdução Conflitos internacionais raramente produzem efeitos confinados e isolados. Em ambientes estratégicos marcados pela competição entre grandes potências e por múltiplas crises simultâneas, ações militares relevantes tendem a gerar ondas de choque que alteram percepções, prioridades e decisões em diferentes esferas de poder. A recente escalada envolvendo ataques conduzidos pelos Estados Unidos da América (EUA), em coordenação com Israel, contra alvos associados ao aparato estratégico iraniano deve ser interpretada sob essa perspectiva ampliada. Operações dessa natureza não produzem apenas efeitos militares imediatos, mas também ampliam as incertezas quanto à evolução do programa nuclear iraniano, à estabilidade regional e à disposição das partes em sustentar custos prolongados (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026). Nesse sentido, mesmo antes da confirmação definitiva de desdobramentos internos em Teerã, o episódio já alterou expectativas estratégicas no sistema internacional (SI). Do ponto de vista teórico, a crise se desenvolve sob dinâmica compatível com o conceito clássico de “névoa da guerra”. Clausewitz argumenta que os conflitos são atravessados por fricções, informações imperfeitas e limitações cognitivas que reduzem a capacidade de controle racional dos acontecimentos. Em cenários contemporâneos, essa névoa é frequentemente ampliada por disputas de narrativas e pela instrumentalização política de anúncios e ameaças, aumentando o ruído estratégico e elevando o risco de erros de cálculo (Gomes, 2024). Nesse contexto, o Oriente Médio (OM) permanece um espaço central na interseção entre energia, rivalidades regionais e interesses das grandes potências. Contudo, a escalada envolvendo o Irã não ocorre em um vazio estratégico. Conforme argumenta Kimmage (2025), a política externa contemporânea dos EUA opera sob múltiplas pressões simultâneas, tornando a gestão de prioridades um fator crítico para a manutenção de sua influência global. Assim, a abertura ou intensificação de uma frente no OM interage diretamente com outros teatros estratégicos, incluindo a guerra na Ucrânia e a competição sino-americana no Indo-Pacífico (Cooper, 2026).Além disso, o histórico recente das negociações nucleares demonstra que a crise atual se insere em um contexto de sucessivos impasses diplomáticos associado à lógica de “pressão máxima”, o que reduziu incentivos ao compromisso pacífico. Nesse ambiente, a escalada militar tende a ser interpretada não apenas como um evento tático, mas também como um sinal político capaz de influenciar expectativas sobre o futuro do regime iraniano de não proliferação e sobre a disposição das partes em retomar canais diplomáticos (Garmsiri; Zarif, 2025; Kahalzadeh, 2021). Diante desse cenário, este artigo sustenta que o ataque ao Irã não deve ser compreendido como um episódio isolado, mas como um movimento capaz de desencadear ajustes sistêmicos mais amplos. Ao examinar os possíveis comportamentos de Rússia e China, as implicações para a segurança energética e os impactos diplomáticos e econômicos para o Brasil, busca-se responder à seguinte questão: como essa escalada altera o equilíbrio estratégico global e quais desdobramentos emergem para atores médios inseridos em um ambiente internacional fragmentado e competitivo? 2. O fato gerador e a escalada regional O ponto de inflexão recente no tabuleiro geopolítico decorre dos ataques conduzidos em coordenação político-militar entre os EUA e Israel contra alvos associados ao programa nuclear e à infraestrutura estratégica iraniana. Segundo Rodgers e Schiff (2026), operações desse tipo buscam degradar capacidades sensíveis e restabelecer a dissuasão, estabelecendo um “alto padrão de sucesso”. No entanto, caso não produzam resultados estratégicos verificáveis, essas ações podem gerar efeitos colaterais relevantes, ampliando custos e criando incentivos para ciclos subsequentes de escalada (Byman, 2026). Do ponto de vista iraniano, a expectativa predominante na literatura recente é de uma retaliação assimétrica e calibrada. Swanson (2026) argumenta que, diante da superioridade militar convencional dos EUA, Teerã tende a privilegiar instrumentos indiretos capazes de impor custos sem ultrapassar limiares que levem a uma guerra aberta. Entre esses instrumentos estão a coerção marítima em rotas energéticas, o emprego indireto de mísseis e drones por parceiros regionais e a possível ativação de capacidades cibernéticas (CSIS, 2026). A literatura sobre o histórico das negociações nucleares reforça que a escalada atual não surge em um vazio político. Garmsiri e Zarif (2025) destacam que a erosão do acordo nuclear de 2015 e o fracasso em estabilizar mecanismos de contenção ampliaram a desconfiança entre as partes e reduziram incentivos a compromissos graduais. Kahalzadeh (2021), ao analisar os efeitos da política de “pressão máxima”, sustenta que sanções prolongadas e isolamento diplomático contribuíram para endurecer a postura política em Teerã, aprofundando um ambiente negociador já fragilizado. O risco mais sensível, portanto, reside na regionalização do conflito por meio de redes aliadas e da pressão sobre gargalos estratégicos. Além do Estreito de Ormuz, a instabilidade em Bab el-Mandeb (corredor que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por extensão, ao Canal de Suez) pode produzir efeitos sistêmicos ao afetar simultaneamente fluxos energéticos e cadeias logísticas globais, especialmente diante de ataques conduzidos por grupos alinhados a Teerã, como os Houthis no Iêmen (Swanson, 2026). Esse vetor se soma à possibilidade de ativação coordenada de atores vinculados ao chamado “eixo de resistência”, como o Hezbollah no Líbano e, na Faixa de Gaza, o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina. A atuação desses grupos amplia o teatro de operações (TO) e eleva custos estratégicos sem exigir confronto convencional direto, sob lógica de negação plausível e escalada calibrada. Dessa forma, um conflito que poderia ser interpretado como um episódio bilateral entre Washington e Teerã passa a assumir contornos sistêmicos mais amplos. Ao recolocar a variável nuclear no centro da agenda estratégica e tensionar rotas energéticas críticas, a crise ultrapassa a dimensão local e reforça a centralidade do OM no cálculo estratégico de grandes potências e atores regionais (Kimmage, 2025; Swanson, 2026). 3. Dimensão profunda – Como o sistema internacional se organiza 3.1 Energia e rotas críticas como mecanismos de transmissão sistêmica A variável energética constitui o primeiro mecanismo estrutural de reorganização sistêmica decorrente da escalada. A centralidade dos chokepoints (pontos de estrangulamento) marítimos do OM, especialmente o Estreito de Ormuz, Bab el-Mandeb e o Canal de Suez, revela uma arquitetura de vulnerabilidade concentrada, na qual a instabilidade regional tende a gerar efeitos de difusão sobre a segurança energética e o comércio global. Nunes e Visentini (2018) demonstram que essas passagens formam um subcomplexo estratégico cuja vulnerabilidade possui consequências estruturais, pois concentram fluxos críticos de hidrocarbonetos e conectam áreas produtoras a grandes mercados consumidores. Mesmo na ausência de interrupção material prolongada, a elevação do risco percebido sobre essas rotas tende a ampliar a margem de risco, pressionando contratos futuros, seguros, fretes e custos logísticos globais. Swanson (2026) sustenta que o Irã dispõe de instrumentos para impor custos indiretos aos EUA e a seus aliados por meio de pressões sobre fluxos globais de petróleo e transporte marítimo, inclusive com potencial incentivo a incidentes no Mar Vermelho e ações seletivas contra embarcações comerciais. Nessa lógica, não é necessário um bloqueio total para produzir efeitos econômicos relevantes: a percepção de vulnerabilidade já induz reprecificação e comportamentos defensivos. De modo convergente, análises do CSIS indicam que o impacto energético pode derivar não apenas de Ormuz, mas também de ações contra infraestrutura de produção, oleodutos e navios, ampliando a instabilidade mesmo sob ataques limitados (CSIS, 2026). Os fatos históricos indicam que a fragilização das rotas energéticas críticas tende a produzir efeitos em cascata sobre inflação, política monetária e cadeias industriais globais, reforçando o papel da energia e da logística como infraestruturas estratégicas do poder (Swanson, 2026; CSIS, 2026). Essa dimensão estrutural também se conecta à evolução da política energética das grandes potências. Cherem e Marques (2024) indicam que, da administração Bush à Biden, a energia deixou de ser apenas uma variável econômica e passou a operar como instrumento de projeção estratégica e contenção geopolítica, articulando segurança energética e estratégia de poder em escala global. Em síntese, a energia não constitui mero efeito colateral da crise: ela opera como um mecanismo central de difusão sistêmica, elevando custos, ampliando incertezas e projetando a escalada regional para além do OM (CSIS, 2026; Swanson, 2026). 3.2 Negociação nuclear, “linhas vermelhas” e dinâmica de escalada O segundo mecanismo de reorganização sistêmica decorre da interação entre ação militar e impasse diplomático no campo nuclear. Rodgers e Schiff (2026) observam que ataques contra instalações estratégicas podem reduzir riscos imediatos de avanço técnico, mas ao mesmo tempo introduzem incertezas quanto ao paradeiro de materiais enriquecidos e à dispersão de especialistas, gerando riscos no médio prazo. Essa ambivalência reforça a natureza estrutural da crise: ganhos táticos podem gerar vulnerabilidades estratégicas quando não acompanhados de mecanismos políticos capazes de estabilizar expectativas. O histórico recente das negociações nucleares reforça essa interpretação. Garmsiri e Zarif (2025) argumentam que o fracasso em restaurar mecanismos estáveis de contenção aprofundou desconfianças mútuas e reduziu o espaço político para compromissos graduais. Kahalzadeh (2021), ao analisar os efeitos da estratégia de “pressão máxima”, sustenta que sanções prolongadas endureceram o ambiente doméstico iraniano, fortalecendo setores menos inclinados a concessões. Além das variáveis materiais, a literatura construtivista acrescenta um elemento relevante: identidades estratégicas e narrativas políticas moldam percepções de ameaça e margens de compromisso. Aguiar (2025) demonstra que a diplomacia nuclear iraniana se articula a narrativas de soberania, resistência e reconhecimento internacional, influenciando a aceitabilidade política de concessões e, consequentemente, a delimitação de “linhas vermelhas[1]”. Em paralelo, Motamedi (2026) destaca que as conversas entre EUA e Irã permanecem atravessadas por desacordos sobre parâmetros de conformidade, etapas de verificação e exigências consideradas “inegociáveis”. Esse cenário tende reduzir margens para fórmulas intermediárias de compromisso. Nesse contexto, ataques militares não operam em vazio diplomático: interagem com negociações fragilizadas e com identidades estratégicas mais rígidas, elevando o risco de inflexibilização adicional das “linhas vermelhas” (Garmsiri; Zarif, 2025; Kahalzadeh, 2021; Motamedi, 2026; Aguiar, 2025). Swanson (2026) acrescenta que, diante de ações militares diretas, a tendência iraniana é privilegiar retaliação indireta e escalada gradual, reduzindo a probabilidade de encerramento rápido da crise e ampliando a interação entre vetores nuclear, marítimo, regional e cibernético. 3.3 Sobrecarga estratégica, custo de presença e efeito de precedente O terceiro mecanismo refere-se à sobrecarga estratégica e ao custo político de sustentar a presença militar. Os EUA mantêm presença significativa no OM, estimada em dezenas de milhares de efetivos distribuídos em bases na região, o que amplia vulnerabilidades em caso de retaliação iraniana (Swanson, 2026). A proteção de instalações, rotas marítimas e aliados regionais impõe custos materiais e políticos crescentes, sobretudo quando combinada a compromissos simultâneos em outros teatros estratégicos. Esse cenário expõe limites práticos para a sustentação da primazia sem custos crescentes de desgaste e dispersão estratégica (Miller, 2026). Kimmage (2025) argumenta que a política externa contemporânea dos EUA opera sob restrições de atenção estratégica e legitimidade doméstica, tornando a administração de múltiplas crises um desafio central para a manutenção de primazia. De modo convergente, Cooper (2026) sustenta que a capacidade dos EUA de sustentar influência no Indo-Pacífico depende de escolhas seletivas e gestão cuidadosa de compromissos globais. A abertura ou intensificação de uma frente no OM, portanto, gera trade-offs (trocas compensatórias) materiais e políticos que podem repercutir em outros tabuleiros estratégicos. Há ainda o chamado efeito de precedente. Quando uma grande potência amplia o emprego da força em determinado TO, outros atores passam a reinterpretar os limites do aceitável e recalibrar suas matrizes de risco. Segundo Byman (2026), operações militares que não produzem resultados claros podem sinalizar vulnerabilidade ou dispersão estratégica, incentivando rivais a testar limites em arenas concorrentes. O precedente, nesse sentido, é político-militar: sinaliza disposição para sustentar custos, mas também expõe a elasticidade das coalizões e da atenção estratégica. Em conjunto, esses mecanismos (energia, impasse nuclear e sobrecarga estratégica) indicam que a crise ultrapassa a dimensão regional. Ela reorganiza prioridades, redistribui riscos e altera cálculos de dissuasão no sistema internacional, reforçando a transição para um ambiente de competição mais intensa e menos previsível. 4. EUA e Israel: objetivos, risco de prolongamento e “barra alta” de sucesso No curto prazo, ataques coordenados tendem a perseguir três objetivos estratégicos principais: degradar capacidades sensíveis ligadas ao programa nuclear iraniano, reduzir a eficácia do ecossistema de coerção indireta de Teerã (redes e parceiros regionais) e redefinir os termos da dissuasão regional em bases mais favoráveis a Washington e Tel Aviv. Essa lógica se conecta ao entendimento de que, em ambientes de competição prolongada, a credibilidade da dissuasão depende não apenas de capacidades militares, mas também de sinais claros de disposição para impor custos ao adversário (Swanson, 2026; Rodgers; Schiff, 2026). O problema central é que o conceito de “sucesso” nesse tipo de campanha envolve um padrão elevado. Os objetivos precisam ser claros, verificáveis e sustentáveis mesmo diante de escalada. Caso contrário, a operação pode elevar o custo político e militar de encerrar o conflito. Byman (2026) argumenta que a condução do esforço EUA–Israel estabelece uma “barra alta” de resultados e aumenta o risco de que, na ausência de critérios claros de término, a guerra se prolongue por inércia estratégica, gerando custos cumulativos de legitimidade, coesão de coalizão e presença militar. A literatura também indica que operações punitivas ou “cirúrgicas” frequentemente produzem um paradoxo estratégico. Embora imponham danos imediatos, podem ampliar incentivos para retaliação assimétrica e prolongar ciclos de escalada, sobretudo quando os canais diplomáticos se encontram bloqueados ou politicamente fragilizados. Swanson (2026) destaca que, diante de ataques diretos, o Irã tende a buscar mecanismos de resposta capazes de elevar custos ao adversário sem simetria militar, o que aumenta a duração provável da crise e dificulta uma saída de baixo custo. Além disso, a ampliação dos custos de presença tende a ser quase automática. O aumento de escoltas marítimas, defesa aérea regional, proteção de bases, vigilância de inteligência e prontidão para responder a ataques distribuídos eleva o custo operacional da campanha. Swanson (2026) observa que a presença militar norte-americana no OM cria um amplo conjunto de vulnerabilidades potenciais, pressionando o processo decisório e aumentando o risco de escalada gerencial, não por intenção de ocupação, mas pelo encadeamento de retaliações, contra-retaliações e medidas de proteção de ativos estratégicos. 5. Irã: coesão doméstica, retaliação assimétrica e coerção indireta Do lado iraniano, a questão central não é apenas se haverá retaliação, mas de que forma ela ocorrerá. O desafio para Teerã é responder preservando coesão doméstica, prestígio político e capacidade de barganha internacional. Em cenários marcados por forte fricção informacional, choques de liderança tendem a elevar pressões internas por respostas simbólicas e por ações indiretas que demonstrem resiliência do regime. Choksy e Choksy (2026) destacam que a estabilidade política iraniana depende de equilíbrios internos delicados e que choques abruptos podem intensificar disputas entre facções, influenciando o cálculo entre escalada e contenção. As análises disponíveis indicam que a resposta mais provável é assimétrica e gradual. Diante da superioridade militar convencional dos EUA, o Irã tende a explorar vulnerabilidades distribuídas (rotas marítimas, infraestrutura energética, logística, ciberespaço e redes regionais) em vez de buscar confronto direto. Swanson (2026) argumenta que esse repertório inclui coerção marítima, ataques indiretos por parceiros e ações contra infraestruturas sensíveis, com o objetivo de impor custos políticos e econômicos sem ultrapassar imediatamente o limiar de uma guerra convencional. Esse comportamento também se relaciona ao contexto diplomático deteriorado. Garmsiri e Zarif (2025) sustentam que a ausência de um arranjo estável para o impasse nuclear cria incentivos para o uso recorrente da força e reduz a credibilidade de compromissos graduais. Kahalzadeh (2021) acrescenta que estratégias prolongadas de coerção econômica tendem a endurecer posições internas e fortalecer setores menos inclinados à concessão, o que torna respostas indiretas e de desgaste incremental mais prováveis em momentos de crise. No plano técnico-operacional, análises do CSIS indicam que ataques contra instalações e capacidades estratégicas iranianas podem gerar efeitos ambivalentes: reduzem capacidades no curto prazo, mas ampliam incertezas sobre dispersão de ativos e sobre as escolhas futuras do regime. Esse cenário reforça a probabilidade de respostas distribuídas, incluindo operações cibernéticas e ações irregulares, como forma de elevar custos e preservar margem de manobra estratégica (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026). 6. Rússia: benefício indireto por competição de prioridades e saturação estratégica Embora a Rússia não seja parte direta do TO, a escalada no OM pode gerar ganhos indiretos ao redistribuir atenção e recursos do Ocidente. O principal mecanismo é a competição de prioridades: quando os EUA precisam reforçar presença militar, proteger ativos e administrar a escalada, aumentam os custos de oportunidade em outros tabuleiros estratégicos. Swanson (2026) descreve justamente esse risco de prolongamento da crise e de ampliação dos custos de presença. Esse efeito é consistente com análises mais amplas sobre os limites práticos da primazia norte-americana. Kimmage (2025) argumenta que a política externa dos EUA opera sob restrições de seletividade estratégica e que crises simultâneas ampliam fricções domésticas e entre aliados, reduzindo a capacidade de sustentar múltiplos compromissos com a mesma intensidade. Nesse contexto, mesmo sem adotar posicionamentos diplomáticos formais, Moscou pode explorar janelas de oportunidade criadas pela saturação decisória e pela disputa por recursos, estoques militares e atenção política. Entre essas possibilidades, destacam-se o aumento das exportações de hidrocarbonetos para países dependentes do petróleo iraniano, preenchendo eventuais lacunas no mercado energético internacional, e a intensificação da pressão militar sobre Kiev. Trata-se, portanto, de uma inferência cautelosa. Se a crise impõe custos adicionais de presença e escalada aos EUA, é plausível que aumente a pressão sobre a alocação de recursos estratégicos e, consequentemente, amplie incentivos para Moscou testar limites no teatro europeu. O argumento não implica ganho automático para a Rússia, mas sugere uma recalibragem de riscos em um ambiente de recursos finitos (Swanson, 2026; Kimmage, 2025). 7. China: choque de custos, segurança econômica e ruído estratégico no Indo-Pacífico Para a China, os efeitos da crise se manifestam principalmente por dois canais: geoeconômico e estratégico. No plano econômico, o aumento do prêmio de risco sobre energia e rotas marítimas tende a elevar custos industriais e reduzir previsibilidade econômica, fatores sensíveis para uma potência engajada em competição tecnológica de longo prazo. Swanson (2026) observa que a coerção marítima e o tensionamento das rotas energéticas podem elevar custos globais de transporte e petróleo, afetando economias industriais profundamente integradas às cadeias de suprimento globais. No plano estratégico, crises simultâneas ampliam a sobrecarga norte-americana e aumentam o ruído estratégico no Indo-Pacífico. Cooper (2026) argumenta que a capacidade dos EUA de sustentar influência regional depende de foco estratégico, credibilidade e gestão eficiente de compromissos. Kimmage (2025) acrescenta que a seletividade estratégica se torna essencial quando múltiplas frentes competem por recursos e atenção. Nesse cenário, uma escalada prolongada no OM pode alterar o cálculo de risco no Estreito de Taiwan, não como determinismo, mas como recalibragem de incentivos e maior propensão a demonstrações coercitivas. Há ainda um pano de fundo estrutural associado à competição tecnológica entre EUA e China. Winter-Levy e Leicht (2026) destacam que a concentração de capacidades avançadas, como inteligência artificial e infraestrutura computacional, cria dependências e vulnerabilidades persistentes para países que não controlam essas plataformas. Em disputas geopolíticas prolongadas, choques que pressionem energia, logística e planejamento econômico tornam-se particularmente relevantes para a segurança estratégica. 8. Europa e Golfo Pérsico: vulnerabilidade político-econômica e incentivos à desescalada Para a Europa, os impactos tendem a ser principalmente político-econômicos. A elevação dos preços da energia, o aumento dos custos logísticos e a instabilidade prolongada ampliam pressões domésticas e dificultam a formação de consensos políticos, especialmente em um contexto já marcado por tensões internas relacionadas à segurança, inflação e migração. O mecanismo energético descrito por Swanson (2026), a exemplo da pressão sobre rotas e custos, sustenta essa leitura de vulnerabilidade indireta. No Golfo Pérsico, por sua vez, prevalecem incentivos à desescalada, embora acompanhados de riscos relevantes. O CSIS (2026) observa que, em cenários de escalada regional, os Estados do Golfo Pérsico precisam ajustar suas posturas para reduzir a probabilidade de serem diretamente arrastados para o conflito. Ao mesmo tempo, enfrentam riscos concretos à infraestrutura energética e à estabilidade econômica. Essa ambiguidade aumenta a probabilidade de realinhamentos táticos e decisões defensivas rápidas, contribuindo para maior instabilidade. 9. Escalada assimétrica e risco transnacional: a internacionalização da instabilidade Um vetor adicional, decisivo para compreender a dimensão sistêmica da crise, é o risco transnacional associado à escalada assimétrica. Quando retaliações são distribuídas por redes e instrumentos indiretos, o conflito pode transbordar do teatro regional para infraestruturas críticas e sistemas de segurança interna de diversos países. Swanson (2026) argumenta que a lógica estratégica iraniana privilegia coerção distribuída (marítima, energética e por intermédio de parceiros), ampliando custos e imprevisibilidade. Além disso, análises do CSIS (2026) indicam que, em cenários de guerra prolongada, cresce a probabilidade de ações irregulares e operações cibernéticas integradas ao ciclo de escalada. Esse tipo de dinâmica amplia o custo sistêmico do conflito ao afetar cadeias econômicas, infraestruturas críticas e mecanismos de resiliência doméstica. Nesse contexto, o risco não deve ser interpretado como inevitabilidade de uma “onda terrorista”, mas como aumento de vulnerabilidades em um ambiente marcado por conflito assimétrico e negação plausível. Esse transbordamento é justamente o elemento que transforma uma crise regional em fator de instabilidade global: quando os custos passam a envolver economia, infraestrutura e segurança interna, o tabuleiro estratégico se amplia e obriga diferentes atores a recalibrar prioridades simultaneamente (Rodgers; Schiff, 2026; Swanson, 2026). 10. Implicações para o Brasil No plano econômico, a principal via de transmissão da crise para o Brasil é a combinação entre energia e logística. A literatura sugere que a coerção indireta iraniana pode incidir sobre fluxos globais de petróleo e sobre o transporte marítimo global, elevando prêmios de risco e pressionando custos de frete e seguros (Swanson, 2026). De modo convergente, análises do CSIS indicam que ações contra rotas críticas e infraestrutura energética podem gerar efeitos sistêmicos mesmo sem interrupção total do fluxo, pois a simples elevação do risco percebido já tende a impactar preços e cadeias produtivas (CSIS, 2026). Para uma economia como a brasileira, cujas cadeias são intensivas em transporte, dependência de fertilizantes importados e sensibilidade a preços de combustíveis, choques desse tipo podem pressionar inflação, câmbio e a margem de manobra da política econômica. O segundo canal é o diplomático. A crise reforça um dilema típico de potências médias: preservar relações funcionais com os EUA e parceiros ocidentais, sem perder capacidade de interlocução com o Sul Global e com a China (maior parceira comercial do Brasil). Pautasso et al. (2021) argumentam que, em ambientes polarizados, a equidistância pragmática se torna mais custosa, porque decisões e posicionamentos passam a ser lidos como sinais de alinhamento. Assim, em cenário de escalada prolongada e de internacionalização dos custos (energia, logística e segurança), votos e declarações em fóruns multilaterais tendem a ter peso geopolítico maior do que em crises de menor intensidade. A dimensão institucional do BRICS+ adiciona complexidade a esse cálculo. Embora o arranjo seja heterogêneo e, em grande medida, voltado à cooperação econômica e à diversificação de instrumentos financeiros, sua ampliação pode gerar percepções externas de alinhamento automático em contextos de alta tensão estratégica. Como indicam Pautasso et al. (2021), a competição sistêmica entre grandes potências frequentemente se projeta sobre fóruns multilaterais, elevando a pressão por posições mais nítidas. Nesse contexto, a diplomacia brasileira deve realizar um exame detalhado sobre a coerência entre o discurso de legalidade internacional e a prática de engajamento em coalizões e plataformas emergentes. Há também um componente estrutural: quanto mais a crise se prolonga e quanto mais seus efeitos se espalham, maior tende a ser a pressão por iniciativas de desescalada e recomposição de canais diplomáticos. O CSIS (2026) ressalta que conflitos desse tipo reduzem o espaço de acomodação política se não forem acompanhados por mecanismos mínimos de contenção e monitoramento. Para o Brasil, cuja tradição diplomática enfatiza multilateralismo e solução negociada de controvérsias, isso abre espaço para apoiar medidas de confiança, inspeções e recomposição de um diálogo prudente, evitando protagonismo retórico que limite a autonomia de manobra. Por fim, a crise oferece uma oportunidade estratégica condicionada. Em ambientes de polarização e sobrecarga decisória das grandes potências, atores intermediários que sustentem uma postura consistente de legalidade e diálogo podem contribuir como pontes diplomáticas, ainda que de forma discreta. A literatura sobre limites da primazia norte-americana e competição sistêmica sugere que crises simultâneas ampliam a demanda por coordenação e gestão multilateral de riscos (Kimmage, 2025; Cooper, 2026). Para o Brasil, a estratégia mais prudente combina proteção econômica doméstica frente à volatilidade energética com diplomacia calibrada, preservando autonomia decisória e evitando que a polarização EUA–China e OM contamine de forma estrutural sua inserção internacional. 11. Conclusão A escalada coordenada envolvendo EUA e Israel contra alvos estratégicos iranianos não deve ser interpretada como um evento isolado, mas como um catalisador de reorganização sistêmica de riscos e prioridades no xadrez geopolítico. Análises do CSIS indicam que ataques desse tipo podem reduzir riscos imediatos associados a capacidades sensíveis, mas ao mesmo tempo introduzem novas incertezas, inclusive quanto à dispersão de materiais e especialistas, e ampliam a probabilidade de ciclos prolongados de retaliação (Rodgers; Schiff, 2026; CSIS, 2026). De forma convergente, Swanson (2026) argumenta que, nas condições atuais, ações militares contra o Irã tendem a estimular retaliação assimétrica e pressão sobre energia e transporte marítimo, aumentando o risco de um conflito mais longo e custoso do que o inicialmente previsto. O “movimento no tabuleiro” decorre, portanto, da convergência de três mecanismos estruturais: (i) pressão sobre energia e rotas críticas como vetores de transmissão geoeconômica; (ii) retaliação assimétrica distribuída por meio de instrumentos marítimos, irregulares e cibernéticos; e (iii) sobrecarga estratégica associada à necessidade de proteger ativos e administrar múltiplos compromissos simultaneamente (Swanson, 2026; Rodgers; Schiff, 2026). Em um ambiente de competição entre grandes potências, essa redistribuição de atenção e recursos tende a alterar incentivos em outros teatros estratégicos. Kimmage (2025) observa que a política externa dos EUA opera sob restrições de seletividade estratégica, de modo que crises simultâneas ampliam fricções domésticas e disputas de prioridade. Nesse contexto, a Rússia pode perceber oportunidades para testar limites contra a Ucrânia no teatro europeu, enquanto a China pode recalibrar seu cálculo estratégico no Indo-Pacífico, sobretudo em relação a Taiwan, à luz da sobrecarga político-militar norte-americana e da volatilidade sistêmica (Cooper, 2026). Para a Europa, os efeitos tendem a se manifestar sobretudo por meio da volatilidade energética e de seus impactos políticos domésticos, com potencial para fragilizar consensos e ampliar tensões internas. Para potências médias, como o Brasil, o “e daí” estratégico assume dimensão dupla: econômica e diplomática. A pressão sobre petróleo e transporte marítimo tende a afetar cadeias logísticas e expectativas macroeconômicas, enquanto o ambiente internacional mais polarizado eleva o custo da equidistância pragmática e a necessidade de um posicionamento assertivo em fóruns multilaterais (Pautasso et al., 2021). Em síntese, o ataque atua como uma peça deslocada em um tabuleiro já tensionado. Ao redistribuir riscos, prioridades e oportunidades, a crise reforça a transição para um SI mais fragmentado, competitivo e sensível a choques geoeconômicos. O desafio para Estados de diferentes perfis não está apenas em reagir ao evento, mas em ajustar estratégias a um ambiente no qual energia, dissuasão e competição sistêmica interagem de forma cada vez mais interdependente. Referências AGUIAR, Tânia. A influência da identidade na diplomacia nuclear com o Irão: análise comparativa entre Estados Unidos da América e União Europeia (2009-2018). 2025. 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Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/united-states/ai-divide. Acesso em: 28 fev. 2026. [1] O conceito de "linhas vermelhas" (ou red lines) no contexto das relações internacionais e negociações diplomáticas refere-se ao limite máximo que uma das partes está disposta a aceitar antes de interromper uma conversa ou tomar medidas drásticas (como retaliações econômicas ou intervenção militar). Rio de Janeiro - RJ, 11 de março de 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O tabuleiro geopolítico se move: o ataque EUA-Israel ao Irã e a reorganização sistêmica de riscos e prioridades. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/o-tabuleiro-geopolitico-se-move-o-ataque-eua-israel-ao-ira-e-a-reorganizacao-sistemica-de-riscos-e-prioridades. .
Competição Estratégica EUA-China: Comércio, Tecnologia e Terras Raras - Impactos Sistêmicos e Implicações para o Brasil
Gustavo Godoy Ribeiro da SilvaMajor do Serviço de Intendência.Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. Henrique Endres BublitzMajor da Arma de Infantaria.Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. Leonardo Leão Fernandes NishiguchiMajor da Arma de Cavalaria.Aluno do 2º ano do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército. 1. Introdução A crescente rivalidade entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China (RPC) consolidou-se, ao longo da última década, como o principal vetor de transformação do Sistema Internacional (SI). A eclosão da guerra comercial em 2018, marcada pela imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos chineses, revelou não apenas tensões bilaterais relacionadas ao aço, ao alumínio e à propriedade intelectual, mas sobretudo a insatisfação estratégica dos EUA diante do rápido avanço econômico, tecnológico e industrial da China, conforme destacam Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019). Embora as tarifas tenham constituído o elemento mais visível da crise, estudos como os de Pautasso et al. (2021) demonstram que elas representam apenas a dimensão superficial de um processo mais amplo de reconfiguração sistêmica, associado ao declínio relativo da hegemonia norte-americana e à ascensão chinesa, interpretada como parte de uma transição de poder em curso. Nesse contexto, a competição sino-americana extrapola o domínio estritamente comercial e avança de forma decisiva sobre a esfera tecnológica, particularmente no controle das cadeias globais de inovação e dos setores de alta complexidade. A disputa em torno do 5G, a corrida por semicondutores avançados, as restrições à transferência de tecnologia e o fortalecimento dos regimes de proteção à propriedade intelectual refletem a estratégia norte-americana de conter o avanço chinês em áreas consideradas críticas para a liderança estratégica do século XXI (Valls, 2019; Pautasso et al., 2021). A pressão exercida sobre empresas como a Huawei e a reorganização forçada de cadeias produtivas globais evidenciam que a tecnologia passou a ocupar o núcleo da rivalidade estratégica contemporânea. Entretanto, a dimensão tecnológica da disputa articula-se a um eixo igualmente estratégico: o controle de recursos naturais críticos, especialmente os minerais estratégicos e as terras raras. Essenciais para setores como defesa, energia, indústria aeroespacial, eletrônica avançada e tecnologias associadas à transição energética, esses insumos tornaram-se elementos centrais da competição geopolítica. A China, responsável por parcela dominante do processamento global desses minerais, utiliza essa posição como instrumento de poder estrutural, conforme evidenciado nos embates jurídicos na Organização Mundial do Comércio (OMC) envolvendo EUA, União Europeia e Japão (Melo, 2017). No caso brasileiro, embora existam reservas relevantes, estudos do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), notadamente o relatório STM-73,[1] indicam limitações industriais e tecnológicas que restringem a inserção competitiva do país nessas cadeias de maior valor agregado. Nos anos mais recentes, essa rivalidade passou a manifestar-se de forma mais explícita em espaços geográficos e temáticos antes considerados periféricos, como o Ártico, a América Latina e a arquitetura financeira internacional. O interesse estratégico dos EUA pela Groenlândia e os movimentos associados à Venezuela evidenciam a centralidade das temáticas relacionadas aos recursos naturais e às rotas estratégicas na competição sino-americana que, conforme Pautasso et al. (2021), extrapolam o comércio e assumem dimensão sistêmica. Paralelamente, a ampliação do uso de sanções, o debate sobre reservas monetárias e moedas digitais indicam que a disputa também se projeta sobre a governança financeira global, ampliando os contornos da guerra geoeconômica. Além disso, a rivalidade manifesta-se por meio de instrumentos típicos da guerra híbrida, como sanções econômicas, pressões diplomáticas, disputas cibernéticas, operações informacionais e controle de narrativas (Albuquerque; Da Silva; Da Silva, 2019). A erosão do multilateralismo, o acirramento das tensões no Indo-Pacífico e a fragmentação institucional reforçam, como apontam Pautasso et al. (2021) e González Garcia (2020), a percepção de que o SI atravessa uma fase de incerteza estrutural, marcada por disputas prolongadas de poder e competição estratégica de longo prazo. Para o Brasil, a relevância do tema é incontornável. O país encontra-se em posição estratégica sensível, ao manter elevada dependência econômica da China — sua principal parceira comercial — e, simultaneamente, vínculos históricos com os EUA nas áreas de defesa, tecnologia e diplomacia. Os impactos da guerra comercial já evidenciaram ganhos conjunturais em setores como soja e aço, acompanhados de riscos estruturais relacionados à reprimarização da pauta exportadora e à dependência tecnológica (Carvalho; Azevedo; Massuquetti, 2019). Ademais, a reorganização das cadeias globais de valor, a disputa por minerais estratégicos e a intensificação da competição por ativos naturais e financeiros ampliam os desafios à autonomia estratégica brasileira. Diante desse cenário, o presente artigo tem por objetivo analisar os reflexos da competição estratégica entre EUA e China sobre o SI, destacando seus impactos econômicos, tecnológicos e geopolíticos, com especial atenção ao Brasil. Para tanto, examinam-se os elementos estruturantes da rivalidade sino-americana, a disputa tecnológica e mineral associada às novas cadeias produtivas e os riscos e oportunidades para a inserção internacional brasileira em um contexto marcado pela intensificação da competição entre grandes potências. 2. As origens estruturais da competição A rivalidade entre EUA e China deve ser compreendida a partir de transformações estruturais que remodelaram a economia política internacional nas últimas quatro décadas. Desde as reformas econômicas iniciadas por Deng Xiaoping ao final dos anos 1970, a China passou por um processo contínuo de modernização produtiva, expansão comercial e inserção progressiva nas cadeias globais de valor, alterando de forma significativa a distribuição relativa de poder no SI e deslocando o eixo da produção industrial e tecnológica em direção ao leste asiático. Ao longo desse período, a China deixou de ocupar uma posição periférica baseada em exportações de baixo valor agregado e passou a construir uma economia marcada por crescente complexidade produtiva. Conforme apontam Pautasso et al. (2021), o país sofisticou sua pauta exportadora e ampliou sua presença em setores intensivos em tecnologia, como eletrônicos, telecomunicações, máquinas industriais e bens de capital. Esse avanço é evidenciado pelo aumento expressivo do número de empresas chinesas entre as maiores corporações globais, superando os EUA em termos absolutos e sinalizando uma mudança estrutural no equilíbrio econômico internacional. Paralelamente, observou-se uma alteração profunda nos padrões de comércio bilateral entre as duas potências. Segundo González Garcia (2020), o déficit comercial norte-americano em relação à China cresceu de forma acelerada a partir dos anos 2000, tornando-se um dos principais focos de tensão econômica. A combinação entre abertura chinesa ao investimento estrangeiro direto (IED), incorporação de tecnologias ocidentais e relocalização de plantas industriais contribuiu para o deslocamento da manufatura global, afetando setores estratégicos da economia norte-americana e gerando pressões políticas internas que seriam decisivas para a adoção de uma agenda protecionista a partir de 2017. Outro elemento central das origens estruturais da competição reside na forma como a China se inseriu na ordem liberal internacional liderada pelos EUA no pós-Guerra Fria. Conforme analisam Albuquerque e Silva (2019), Washington apoiou a entrada chinesa na OMC em 2001, sustentando a expectativa de que a integração econômica promoveria convergência institucional e alinhamento geopolítico. No entanto, a trajetória chinesa combinou abertura seletiva com forte planejamento estatal, políticas industriais robustas e investimentos estratégicos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Esse modelo de desenvolvimento produziu resultados expressivos, mas também intensificou, do ponto de vista norte-americano, a percepção de erosão de sua primazia econômica, tecnológica e estratégica. A frustração das expectativas de convergência política, somada ao avanço chinês em setores sensíveis à segurança nacional, contribuiu para a consolidação de uma narrativa de competição sistêmica. Assim, a interação entre a expansão produtiva chinesa, os desequilíbrios comerciais persistentes percebidos pelos EUA e a frustração quanto à convergência política e institucional da China constitui o núcleo estrutural da atual rivalidade sino-americana, que progressivamente transcende o plano econômico e se projeta sobre a disputa pela liderança global. 3. A guerra comercial como parte da transição sistêmica A eclosão da guerra comercial entre EUA e RPC, em 2018, não deve ser interpretada como um evento isolado, mas como expressão de um processo mais amplo de reconfiguração do SI. Conforme destacam Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019), as tarifas impostas pelos EUA, especialmente sobre o aço, o alumínio e os produtos associados à propriedade intelectual, foram justificadas como medidas de proteção à segurança nacional e de correção de práticas comerciais consideradas desleais. Contudo, tais ações buscaram, sobretudo, reconfigurar a competitividade industrial norte-americana e pressionar Pequim a revisar políticas industriais, tecnológicas e comerciais percebidas como estruturalmente assimétricas. Esse movimento esteve diretamente associado à estratégia “America First”, que marcou uma inflexão relevante na política econômica e externa dos EUA. Ao priorizar instrumentos unilaterais, enfraquecer mecanismos multilaterais e revalorizar a política industrial doméstica, Washington sinalizou uma mudança em relação ao modelo de globalização liberal que havia liderado no pós-Guerra Fria. A guerra comercial, nesse sentido, integrou um esforço deliberado de redução de dependências externas, reindustrialização seletiva e contenção do avanço chinês em setores estratégicos. Valls (2019) demonstra que a escalada tarifária seguiu um padrão progressivo e juridicamente fundamentado, iniciando-se com investigações técnicas previstas na legislação comercial norte-americana e avançando para listas extensas de produtos tarifados. Destaca-se que parcela relevante dessas medidas incidiu sobre setores tecnologicamente sensíveis, como bens de capital, componentes eletrônicos e insumos industriais avançados, evidenciando o uso da política comercial como instrumento de contenção estratégica. A literatura econômica aponta que a guerra comercial produziu efeitos sistêmicos relevantes. González Garcia (2020) observa que a intensificação tarifária elevou custos de produção, reduziu fluxos de comércio, desorganizou cadeias globais de valor e contribuiu para a desaceleração do crescimento econômico mundial. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicaram que uma escalada prolongada poderia reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em até 0,8%, refletindo o impacto da incerteza e da fragmentação comercial sobre investimentos. Esses efeitos reforçam a interpretação de que a guerra comercial atuou como catalisadora de tendências mais profundas, como a regionalização das cadeias produtivas, a revalorização de políticas industriais nacionais e o enfraquecimento da governança econômica multilateral. Assim, mais do que corrigir distorções comerciais pontuais, as tarifas passaram a integrar uma estratégia mais ampla de reposicionamento estrutural dos EUA frente à ascensão chinesa, configurando-se como etapa intermediária da disputa hegemônica entre as duas potências. 4. A guerra híbrida e a dimensão político-estratégica A competição entre EUA e China assume características típicas de uma guerra híbrida, marcada pelo emprego combinado de instrumentos econômicos, tecnológicos, jurídicos, cibernéticos, informacionais e diplomáticos. Conforme destacam Albuquerque, Da Silva e Da Silva (2019), esse tipo de disputa opera predominantemente em “zonas cinzentas”, nas quais sanções econômicas, restrições tecnológicas, pressões diplomáticas, operações de influência e controle de narrativas são utilizadas para alterar equilíbrios estratégicos sem o uso do recurso militar direto. Pautasso et al. (2021) reforçam essa perspectiva ao analisar episódios recentes, como o fechamento recíproco de consulados, as restrições a empresas e plataformas digitais, as disputas normativas envolvendo Hong Kong, a pressão diplomática sobre países terceiros e a intensificação de exercícios militares no Indo-Pacífico. Esses eventos evidenciam que a rivalidade sino-americana se manifesta de forma difusa e multidimensional, ampliando a instabilidade sistêmica e dificultando respostas coordenadas no âmbito do multilateralismo. Nesse contexto, a questão de Taiwan ocupa posição central na dimensão político-estratégica da disputa. Considerada por Pequim parte integrante da doutrina de “Uma Só China”, a ilha é tratada como questão essencial de soberania e legitimidade interna. Ao mesmo tempo, sua relevância na cadeia global de semicondutores e o aprofundamento de seus vínculos políticos e militares com os EUA transformam o Estreito de Taiwan em um dos principais pontos de tensão do SI, com elevado potencial de escalada e impactos globais. De forma complementar, as disputas marítimas no Mar do Sul da China (MSC) reforçam o caráter híbrido da competição. A presença constante de forças navais, operações de patrulhamento e disputas jurídicas sobre zonas econômicas exclusivas revelam uma escalada controlada de tensões, frequentemente mediada por narrativas concorrentes de soberania e direito internacional, envolvendo aliados diretos dos EUA e ampliando os riscos geopolíticos regionais. A guerra híbrida também se expressa no plano jurídico-estratégico, especialmente no controle indireto de recursos e ativos críticos. O caso das terras raras, analisado por Melo (2017), ilustra como recursos naturais estratégicos podem ser instrumentalizados em arenas jurídicas internacionais, notadamente na OMC. O uso de licenças, quotas e controles de exportação pela China afetou cadeias produtivas globais e desencadeou disputas normativas, evidenciando que a competição transcende o mercado e incorpora dimensões jurídicas e geopolíticas. Assim, a guerra híbrida consolida-se como elemento estruturante da rivalidade sino-americana, expressando-se no entrelaçamento de pressões econômicas, disputas tecnológicas, instrumentos jurídicos, conflitos diplomáticos e operações informacionais. Esse ambiente de competição ampliada, marcado pela erosão do multilateralismo e pela fragmentação normativa, molda o atual SI e condiciona as escolhas estratégicas de países como o Brasil, inseridos em um contexto de crescente complexidade e risco sistêmico. 5. As três dimensões da disputa EUA-China Conforme analisam Pautasso et al. (2021), a rivalidade sino-americana pode ser compreendida a partir de três níveis analíticos inter-relacionados: o nível superficial, caracterizado por tarifas comerciais e medidas de proteção setorial; o nível intermediário, associado à disputa tecnológica e ao controle das cadeias produtivas estratégicas; e o nível profundo, no qual se insere a competição pela liderança do SI. Essa abordagem evidencia que a guerra comercial representa apenas um dos instrumentos de uma disputa mais ampla, cujos efeitos extrapolam o comércio e alcançam dimensões geopolíticas, normativas e estratégicas. No nível superficial da disputa situam-se as medidas tarifárias e as iniciativas de proteção setorial que marcaram a eclosão da guerra comercial em 2018. Valls (2019) descreve o uso de instrumentos jurídicos previstos na legislação comercial norte-americana que permitiram a imposição de tarifas elevadas sobre um amplo conjunto de produtos chineses, abrangendo setores como aço, alumínio, máquinas, eletrônicos, produtos químicos e componentes industriais. Essas medidas foram justificadas pelos EUA como mecanismos de correção do desequilíbrio comercial bilateral, de resposta às práticas consideradas desleais e de estímulo à reindustrialização doméstica. Contudo, seus efeitos extrapolaram o âmbito bilateral, impactando os mercados globais por meio da alteração de preços relativos, do desvio de fluxos comerciais e da reconfiguração das cadeias internacionais de suprimentos. Como observa González Garcia (2020), o impacto agregado da guerra comercial foi amplamente negativo para a economia global, resultando em aumento de custos produtivos, elevação da incerteza econômica e retração do comércio internacional. Assim, embora as tarifas constituam a face mais visível da rivalidade sino-americana, elas operam sobretudo como instrumentos táticos de pressão estratégica, integrados a um processo mais profundo de competição estrutural entre as duas potências. O nível intermediário da disputa sino-americana está associado ao controle das cadeias tecnológicas e dos setores de alta complexidade, nos quais se localiza o núcleo estratégico da rivalidade entre EUA e China. Estão em jogo áreas decisivas para o poder nacional no século XXI, como telecomunicações, semicondutores, inteligência artificial (IA), sistemas espaciais, defesa e infraestrutura digital. Pautasso et al. (2021) destacam que a disputa em torno do 5G, particularmente envolvendo a Huawei, tornou-se um dos símbolos centrais dessa competição. Para os EUA, permitir que uma empresa chinesa lidere a infraestrutura global de telecomunicações representa riscos à segurança nacional e à influência geopolítica; para a China, consolidar liderança nesse setor significa reduzir dependências tecnológicas e projetar poder por meio da definição de padrões digitais globais. No campo da IA, estudos recentes indicam que a concentração de capacidade computacional e de capital humano tende a aprofundar assimetrias estruturais entre grandes potências e países intermediários. Winter-Levy e Leicht (2026) argumentam que EUA e China concentram a maior parte da capacidade global de computação avançada e dos pesquisadores de ponta em IA, criando um ciclo cumulativo de vantagens tecnológicas que dificulta a inserção autônoma de outras economias nesse setor estratégico. Outro elemento central desse nível é o setor de semicondutores, considerado o “coração” das tecnologias avançadas. Conforme Valls (2019), os EUA concentram domínio nas etapas de maior valor agregado da cadeia, como o design de chips, os softwares de automação de projeto (EDA) e a produção de equipamentos críticos, enquanto a China busca acelerar sua autonomia por meio de políticas industriais como o programa Made in China 2025, enfrentando restrições crescentes impostas por Washington. Destaca-se ainda o papel estratégico de Taiwan, cuja empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) consolidou-se como principal fabricante mundial de chips de última geração. A elevada dependência global dessa capacidade produtiva transforma o Estreito de Taiwan em um dos pontos mais sensíveis do SI. A essa dimensão tecnológica soma-se o controle de minerais estratégicos, especialmente as terras raras, insumos essenciais para semicondutores, baterias e sistemas de defesa. Melo (2017) demonstra que a China concentra as maiores reservas e, sobretudo, domina as etapas de refino e processamento — responsáveis pelo maior valor agregado — consolidando posição hegemônica nesse segmento e ampliando sua capacidade de influência sobre cadeias produtivas globais. Dessa forma, o nível intermediário evidencia que a disputa entre EUA e China envolve o controle das cadeias tecnológicas e minerais que sustentam o poder no século XXI, configurando uma competição estrutural por liderança tecnológica e estratégica. No nível profundo, a rivalidade assume caráter sistêmico, envolvendo a disputa pela definição das regras, instituições e padrões que estruturam a ordem internacional. Não se trata apenas de quem produz ou exporta mais, mas de quem estabelece os marcos normativos e os mecanismos de governança global. Conforme Pautasso et al. (2021), a China tem ampliado sua projeção internacional por meio da Belt and Road Initiative (BRI), combinando infraestrutura, financiamento e diplomacia econômica para expandir sua influência. Em paralelo, os EUA reforçam alianças estratégicas no Indo-Pacífico, como o Quad[2] e o AUKUS[3], numa estratégia de contenção ao avanço chinês. O fortalecimento e a expansão do BRICS, sobretudo após as sanções financeiras impostas à Rússia em 2022, evidenciam tentativas de diversificação do sistema financeiro internacional, com iniciativas voltadas à ampliação de mecanismos alternativos de pagamento e à redução da centralidade do dólar. No plano normativo, disputas como as travadas na OMC em torno das terras raras (Melo, 2017) demonstram que a competição também envolve a capacidade de moldar regimes jurídicos e regulatórios globais. Assim, o nível profundo da disputa revela a essência da transição sistêmica em curso: a competição pela liderança da arquitetura internacional nas próximas décadas. 6. Os riscos identificados para o Brasil A competição estratégica entre EUA e RPC produz impactos diretos e indiretos sobre o Brasil nas dimensões comercial, tecnológica e geopolítica. Como economia emergente fortemente dependente da demanda chinesa por commodities e historicamente vinculada aos EUA em áreas sensíveis, o país ocupa posição particularmente vulnerável na transição sistêmica em curso. A seguir, serão analisados os principais reflexos dessa rivalidade a partir de seus efeitos comerciais imediatos e de seus desdobramentos estruturais. A guerra comercial abriu oportunidades conjunturais para determinados setores brasileiros. Conforme Carvalho, Azevedo e Massuquetti (2019), a retaliação chinesa às exportações norte-americanas ampliou a demanda por soja brasileira, com impacto positivo sobre a produção nacional. Dinâmica semelhante foi observada no setor de aço, em razão do redirecionamento de fluxos comerciais. Entretanto, tais ganhos foram essencialmente circunstanciais. González Garcia (2020) observa que a escalada tarifária elevou custos globais, aumentou a incerteza e desacelerou o comércio internacional. Além disso, a desorganização das cadeias globais de valor, apontada por Valls (2019), afetou o acesso brasileiro aos insumos industriais, ampliando vulnerabilidades produtivas. Assim, embora tenha havido benefícios pontuais decorrentes do desvio de comércio, estes não alteraram a estrutura da inserção internacional brasileira, marcada pela dependência de commodities e pela limitada autonomia tecnológica. A intensificação da disputa tecnológica entre EUA e China evidencia as fragilidades brasileiras em setores de alta complexidade. Conforme Pautasso et al. (2021) e Valls (2019), a reorganização das cadeias globais tende a restringir o acesso a componentes críticos e elevar exigências regulatórias, ampliando a vulnerabilidade de países que não dominam etapas estratégicas da produção tecnológica. A literatura recente aponta ainda que a revolução da IA pode aprofundar essa assimetria. Winter-Levy e Leicht (2026) alertam que a incapacidade de “estocar” capacidades de IA — dependentes de acesso contínuo à infraestrutura computacional avançada — cria vulnerabilidade permanente para economias intermediárias, que passam a depender de sistemas controlados por grandes potências. O Brasil insere-se nesse grupo. A ausência de capacidade nacional em segmentos como semicondutores, microeletrônica e equipamentos avançados de telecomunicações limita sua autonomia diante de restrições externas e choques geopolíticos, sobretudo em um cenário de fragmentação das cadeias globais de valor. Essa dependência tecnológica é agravada pela dimensão mineral da disputa. Como demonstra Melo (2017), o domínio chinês sobre o refino e processamento de terras raras, etapas de maior valor agregado, cria assimetrias estruturais no SI. Países que não convertem reservas em capacidade industrial permanecem dependentes de cadeias controladas por terceiros. No caso brasileiro, estudos do CETEM, especialmente o relatório STM-73, indicam reservas relevantes de terras raras, mas também limitações industriais nas etapas de separação e processamento. Assim, a vulnerabilidade nacional decorre menos da ausência de recursos naturais e mais da dificuldade de internalizar valor agregado. Em um contexto de crescente interdependência entre tecnologia, minerais e energia, essa combinação de dependência tecnológica e fragilidade industrial configura risco estrutural à autonomia brasileira, afetando setores estratégicos como defesa, energia e indústria de transformação. No plano geopolítico, o Brasil enfrenta o que Albuquerque, Da Silva e Da Silva (2019) definem como “dilema do alinhamento”. Enquanto mantém forte dependência comercial da China, seu principal parceiro econômico, preserva cooperação histórica com os EUA em áreas sensíveis como defesa, segurança e governança digital. Em um cenário de crescente polarização, essa dupla vinculação impõe escolhas complexas à política externa brasileira (PEB). Conforme Pautasso et al. (2021), o enfraquecimento do multilateralismo e a intensificação da competição tecnológica reduzem o espaço de manobra de países emergentes. Ao analisar a posição das “middle powers”, Winter-Levy e Leicht (2026) identificam três estratégias possíveis na disputa tecnológica: alinhamento a uma das grandes potências, equilíbrio pragmático entre ambas ou busca de soberania tecnológica. Todas implicam custos e riscos distintos e exigem capacidade estratégica interna para evitar dependência estrutural. Disputas por padrões tecnológicos, regimes regulatórios e infraestrutura crítica, como no caso do 5G, ampliam pressões externas e geram dilemas simultâneos de soberania, segurança e desenvolvimento. Paralelamente, recursos estratégicos, cadeias energéticas e ativos financeiros tornam-se instrumentos de pressão geopolítica. Sanções, controles de exportação e disputas jurídicas integram o repertório central da competição entre grandes potências. Como observa Melo (2017), normas e regimes multilaterais também operam como instrumentos de poder. Para o Brasil, cuja tradição diplomática se ancora no multilateralismo e na solução negociada de controvérsias, esse ambiente representa desafio adicional à preservação da autonomia estratégica. O principal impacto da rivalidade EUA-China reside na necessidade de equilibrar relações sem comprometer a margem decisória nacional em um SI cada vez mais fragmentado e competitivo. 7. As oportunidades estratégicas para o Brasil Apesar dos riscos associados à rivalidade sino-americana, a reorganização das cadeias globais abre oportunidades estratégicas para o Brasil, desde que acompanhadas por planejamento de longo prazo, coordenação institucional e políticas industriais consistentes. Em primeiro lugar, conforme indicam Melo (2017) e estudos do CETEM, o país possui potencial relevante para ampliar sua inserção nas cadeias de minerais estratégicos e terras raras, avançando da extração para etapas de maior valor agregado, como processamento e refino. Investimentos em pesquisa mineral, engenharia e capacitação industrial podem reduzir vulnerabilidades estruturais e posicionar o Brasil de forma mais estratégica na transição energética e em setores como defesa, mobilidade elétrica e tecnologias verdes. Em segundo lugar, o Brasil pode fortalecer sua atuação em articulações Sul-Sul. Como apontam Pautasso et al. (2021), blocos emergentes tendem a ganhar relevância em contextos de fragmentação geopolítica. A ampliação recente do BRICS, com a incorporação de novos membros estratégicos, amplia o peso geoeconômico do grupo e diversifica alternativas de financiamento e cooperação. Contudo, essa expansão também exige do Brasil uma diplomacia ainda mais cuidadosa, capaz de evitar a percepção de alinhamento automático a agendas geopolíticas que possam comprometer sua tradicional estratégia de equilíbrio entre grandes potências. Por fim, a intensificação da competição tecnológica pode servir como catalisador para uma estratégia nacional mais assertiva em CT&I. Áreas como semicondutores, segurança cibernética, indústria de defesa e infraestrutura digital oferecem espaço para políticas industriais voltadas à redução de dependências externas e ao aumento da densidade tecnológica da economia. Assim, a disputa EUA-China não representa apenas risco, mas também janela de oportunidade. Seu aproveitamento depende da articulação entre diplomacia ativa, política industrial consistente e visão estratégica orientada à preservação da autonomia nacional em um sistema internacional cada vez mais competitivo e fragmentado. 8. Conclusão A rivalidade entre China e EUA confirma que o SI atravessa uma transição marcada pela convergência de disputas comerciais, tecnológicas, normativas e geopolíticas. A guerra comercial revelou apenas a dimensão mais visível de um fenômeno estrutural que envolve proteção setorial, controle de cadeias críticas e competição pela liderança da ordem global. Países de posição intermediária, como o Brasil, são diretamente impactados por essa reconfiguração. Os ganhos conjunturais obtidos em setores como soja e aço não alteraram a dependência estrutural brasileira de commodities nem reduziram sua vulnerabilidade tecnológica. A exposição às cadeias de semicondutores, telecomunicações e equipamentos avançados evidencia fragilidades em segmentos centrais da economia do conhecimento. De modo semelhante, embora possua reservas relevantes de terras raras, o Brasil carece de capacidade industrial e tecnológica para convertê-las em autonomia estratégica. No plano geopolítico, o país enfrenta o risco do “dilema do alinhamento”, decorrente da dependência comercial da China e da cooperação estratégica com os EUA. Em um ambiente de polarização crescente, pressões regulatórias e tecnológicas tendem a intensificar-se, restringindo a margem de manobra diplomática. Diante desse cenário, torna-se essencial adotar uma estratégia de inserção internacional baseada em autonomia tecnológica, fortalecimento industrial e diversificação produtiva, com investimentos consistentes em setores críticos como semicondutores, defesa, energia e minerais estratégicos. Mais do que escolher entre Washington ou Pequim, o desafio central consiste em construir um projeto nacional capaz de combinar pragmatismo, soberania decisória e protagonismo internacional em um sistema global cada vez mais competitivo. Referências ALBUQUERQUE, José Luiz; DA SILVA, Antônio Marcelo Jackson Ferreira; DA SILVA, José Medeiros. A Guerra Comercial entre China e Estados Unidos. Revista do Fórum Internacional de Ideias, v. 9, n. 1, p. 11, 2019. CARVALHO, Monique Fernandes Pereira; AZEVEDO, André Filipe Zago de; MASSUQUETTI, Angélica. O Brasil no contexto da guerra comercial entre EUA e China. 2019. Disponível em: https://www.anpec.org.br/sul/2019/submissao/files_I/5-0835cda12a9792564cef6a42fd641bd a.pdf. Acesso em: 26 nov. 2025. GONZÁLEZ GARCIA, Juan. G. Causas, evolución y perspectivas de la guerra comercial para China. Análisis Económico, v. 35, n. 89, p. 91–116, ago. 2020. Disponível em: http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2448-66552020000200091&lng=es&nrm=iso. Acesso em: 26 nov. 2025. Epub 13 nov. 2020. MELO, Filipe Reis. A geopolítica das terras raras. Carta Internacional, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 219–243, 2017. DOI: 10.21530/ci.v12n2.2017.634. Disponível em: https://cartainternacional.abri.org.br/Carta/article/view/634. Acesso em: 26 nov. 2025. PAUTASSO, D.; NOGARA, T. S.; UNGARETTI, C. R.; PRESTES RABELO, A. M. As três dimensões da guerra comercial entre China e EUA. Carta Internacional, [S. l.], v. 16, n. 2, p. e1122, 2021. DOI: 10.21530/ci.v16n2.2021.1122. Disponível em: https://cartainternacional.abri.org.br/Carta/article/view/1122. Acesso em: 26 nov. 2025. VALLS, Lia. Avanços e recuos na guerra comercial Estados Unidos e China. Revista Conjuntura Econômica, v. 73, n. 6, p. 60–65, 2019. VIEIRA, Elbert Valdiviezo; LINS, Fernando Antonio Freitas. Concentração de minérios de terras-raras: uma revisão. Rio de Janeiro: CETEM/CNPq, 1997. 53 p. (Série Tecnologia Mineral, 73). WINTER-LEVY, Sam; LEICHT, Anton. The AI Divide: How U.S.-Chinese Competition Could Leave Most Countries Behind. Foreign Affairs, 10 fev. 2026. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/united-states/ai-divide. Acesso em: 12 fev. 2026. [1] O relatório STM-73 integra a Série Tecnologia Mineral (STM) do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/CNPq). Trata-se de um estudo técnico especializado sobre ocorrência, caracterização e tecnologias de processamento de minérios de terras raras no Brasil, incluindo panoramas geológicos, rotas de beneficiamento e limitações estruturais nacionais. [2] QUAD (Quadrilateral Security Dialogue): Mecanismo de cooperação estratégica entre Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia, voltado à segurança marítima, ao Indo-Pacífico livre e aberto e ao equilíbrio de poder na região. [3] Acordo de parceria de segurança firmado entre Austrália, Reino Unido e EUA em 2021, voltado para defesa avançada, compartilhamento tecnológico e transferência de submarinos nucleares. Rio de Janeiro - RJ, 25 de fevereiro 2026. Como citar este documento: ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). Competição Estratégica EUA-China: Comércio, Tecnologia e Terras Raras - Impactos Sistêmicos e Implicações para o Brasil. Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: http://ompv.eceme.eb.mil.br/areas-tematicas/geopolitica-e-defesa/artigos/competicao-estrategica-eua-china-comercio-tecnologia-e-terras-raras-impactos-sistemicos-e-implicacoes-para-o-brasil. .
Seminário Internacional: A Emergência Climática, Os Desastres Naturais e a Defesa Nacional
OMPV Nos dias 16 e 17 de outubro de 2024, a ECEME sediou o Seminário Internacional “A Emergência Climática, os Desastres Naturais e a Defesa Nacional”. A abertura do evento foi conduzida pelo General Carlos Machado (Chefe do DECEx), Drª. Eliete Bouskela (Diretora Científica da FAPERJ) e Dr. Luiz Antonio Pessan (Diretor de Programas e Bolsas da CAPES). Após as palavras iniciais, o Dr. Henrique dos Santos Pereira, Diretor do INPA, deu início à conferência de abertura. A 1ª mesa temática discutiu as implicações dos tratados climáticos para a segurança e o desenvolvimento sustentável, contando com a Drª. Marianna Albuquerque (UFRJ), Dr. Rubens de Siqueira Duarte (ECEME) e Dr. Franziskus Von Lucke (Universidade de Tübingen), sob a moderação do Coronel Luquez. A 2ª mesa, com o Coronel Luís Manuel Brás Bernardino (Instituto Universitário Militar de Portugal) e Tiago Molina Schnorr (Defesa Civil Nacional), explorou os desafios que as Forças Armadas enfrentam em um contexto de mudanças climáticas. Na sequência, foram apresentados os estudos de caso das Operações Pantanal e Taquari II, respectivamente, pelo General Abreu, Chefe do Centro de Coordenação de Operações (CCOp) do CMO, e pelo General Zucco, Chefe do CCOp do CMS, destacando as respostas das Forças Armadas aos desafios climáticos. Na manhã do dia 16, também foi realizada uma mesa redonda discente, onde pesquisas de mestrado, doutorado e iniciação científica desenvolvidas na ECEME e na EGN foram apresentadas. Com a moderação de Thauan Santos (EGN). Essa atividade contou com a participação de Isabelly Correa, Juvêncio Lobo, Caio Samuel Milagres e Carine Lacerda. O evento foi organizado pelo Instituto Meira Mattos, por meio do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e contou com apoio da CAPES, via projeto do Dr. Tássio Franci, docente do programa. Para assistir o Seminário Internacional: A Emergência Climática, Os Desastres Naturais e a Defesa Nacional do dia 16 e 17 de outubro 2024, Clique aqui. Para mais informações sobre o Seminário Internacional: https://www.eceme.eb.mil.br/ppg/imm/cee/seminario-internacional-a-emergencia-climatica-os-desastres-naturais-e-a-defesa-nacional Rio de Janeiro - RJ, 08 de setembro 2025. . .
Seminário O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã
OMPV O Seminário: O ataque dos EUA contra as instalações nucleares do Irã, foi realizado no dia 26/06/2025, quinta-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - João Gabriel Fischer, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 26/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 07 de julho 2025.
Seminário Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial | 09/06/2025
OMPV O Seminário: Influência da Política Externa dos EUA no cenário mundial, foi realizado no dia 09/06/2025, segunda-feira às 14h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Hélio Caetano Farias, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Professor Carlos Frederico de Souza Coelho, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 09/06/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 23 de junho 2025.
Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas | 10/03/2025
OMPV O Seminário: Situação Atual do Conflito entre Israel x Hamas, foi realizado no dia 10/03/2025, segunda-feira às 10h, e contou com a participação dos seguintes expositores: - Professor Sandro Teixeira Moita, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME; - Coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército; - Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da ECEME. O evento foi organizado pelo Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Para assistir o Seminário do dia 10/03/2025, Clique aqui. Rio de Janeiro - RJ, 10 de março 2025.
A visão iraniana do conflito no Oriente Médio - 10 março 2026 |
Análise estratégica militar da ação dos Estados Unidos na Venezuela - 06 janeiro 2026 |
Análise geopolítica da ação dos Estados Unidos na Venezuela - 06 janeiro 2026 |
A indústria de defesa na Alemanha em meio ao conflito ucraniano
Após os ataques dos EUA e Israel ao Irã, a Alemanha adotou uma postura de apoio à mudança política em Teerã. O chanceler Friedrich Merz afirmou que concordava com a ideia de que o regime iraniano deve ser removido do poder e o país considera unir-se formalmente à campanha militar, caso o Irã não cesse suas retaliações. Desde 2022, com o início do conflito na Ucrânia, países europeus têm revisado suas políticas de defesa e buscado direcionar investimentos diretos em projetos nessa área. O Observatório Militar da Praia Vermelha entrevistou o engenheiro de sistemas Marcelo Nogueira de Sousa, que atua na indústria de defesa alemã, para saber sobre os avanços e programas em curso naquele país, sob uma perspectiva tecnológica. Marcelo Nogueira de SousaCoronel Engenheiro Militar da Reserva do Exército Brasileiro, residente em Nuremberg 1) OMPV: Como a guerra da Ucrânia influenciou a percepção de segurança da população alemã que, historicamente, devido ao legado da Segunda Guerra Mundial, possui uma rejeição cultural ao militarismo e às forças armadas? A ameaça percebida da Rússia gerou um reconhecimento generalizado da necessidade de uma Bundeswehr capaz e bem equipada para defender a Alemanha e seus aliados? Cel Nogueira: A guerra da Ucrânia rompeu décadas de Kultur der Zurückhaltung (cultura de contenção), porém, no meu segmento de atuação, sensores e guerra eletrônica, o choque foi bastante técnico. Os alemães passaram a compreender que defesa não é apenas tratar da aquisição de tanques, mas envolve capacidades, a exemplo do domínio do espectro eletromagnético. O apoio popular ao aumento dos gastos em defesa saltou de 39%, em 2018, para 66%, em 2025, e isso se reflete na priorização orçamentária de sistemas de vigilância e comando. O orçamento de 2026 destinou €47,88 bilhões exclusivamente para aquisições militares, com ênfase em sensores e integração C4ISR. Na prática, essa mudança de percepção se materializou em contratos que observo diariamente. Um exemplo paradigmático é a seleção do sistema de guerra eletrônica Arexis da Saab para os caças Eurofighter alemães, na função EloKa (Elektronische Kampfführung-Guerra Eletrônica). É interessante ver como uma empresa sueca tornou-se peça-chave para dotar a Luftwaffe de capacidade de supressão de defesas aéreas (SEAD) — algo impensável há poucos anos. Os alemães continuam avessos ao "belicismo", mas reconhecem que, sem soberania em sensores e capacidade de processamento de sinais, não há dissuasão credível. A transformação é profunda, com efeitos práticos, porém cautelosa, tipicamente alemã. 2) OMPV: Desde o período pós-Guerra Fria, a Alemanha sempre foi comedida no orçamento de Defesa e era criticada pela postura de manter esses gastos abaixo da meta de 2% do PIB estabelecida pela OTAN, o que não condiz com seu poder econômico. Em 2022, poucos dias após a invasão russa da Ucrânia, o chanceler Olaf Scholz anunciou a "Zeitenwende" (ponto de virada), um plano para modernizar as Forças Armadas alemãs. Isso incluiu a criação de um fundo especial de €100 bilhões para o Exército e o compromisso de atingir e manter o gasto de 2% do PIB em defesa anualmente. Você percebeu essa inflexão na indústria de defesa local? O discurso de "verteidigungsfähigkeit" (capacidade de defesa) tornou-se realmente central ou ainda é uma retórica? Cel Nogueira: No meu dia a dia em Nuremberg, a inflexão é absoluta e mensurável em sistemas de radiofrequência. O Zeitenwende não é retórica: o fundo de €100 bilhões está integralmente alocado, e o orçamento de defesa para 2026 alcança €108,2 bilhões. Na minha área, isso significa que empresas como Hensoldt, especializada em sensores, radares e guerra eletrônica, projetam receita de €2,8 bilhões para 2026, com backlog de €5,9 bilhões. A Diehl Defence, com sede aqui, ampliou investimentos para €330 milhões em 2025, focando em sistemas de contramedidas eletrônicas e integração de sensores em plataformas não tripuladas. Entretanto, um caso que merece destaque é o da Saab Deutschland. Em março de 2025, a empresa recebeu da Taurus Systems (joint venture Saab/MBDA) um contrato de €152 milhões para modernização e manutenção do míssil Taurus KEPD 350, com vigência até 2035. É um trabalho silencioso, de bastidor, mas absolutamente crítico: garantir que esses mísseis de cruzeiro permaneçam operacionais por mais duas décadas, o que significa manter viva uma capacidade estratégica que poucos países na Europa possuem. O modelo de inovação TechHUB SVI em Nuremberg, financiado pelo governo bávaro, conecta diretamente pesquisa em radiofrequência, via a organização Fraunhofer e universidades, às linhas de produção de sistemas de defesa aérea e guerra eletrônica. A Verteidigungsfähigkeit tornou-se KPI diário: não se discute mais se precisamos de capacidade de guerra eletrônica, mas quão rápido podemos integrá-la. 3) OMPV: A política alemã considera que a OTAN sempre será o principal pilar da defesa dos seus países membros, e por isso a maioria dos grandes projetos de defesa na Europa é multinacional, ou hoje o governo alemão e a iniciativa privada no país buscam autonomia própria no nível estratégico? Cel Nogueira: No segmento de sensores e integração de defesa, a resposta é dupla: soberania seletiva dentro da aliança. A SVI-Strategie (Estratégia da Indústria de Segurança e Defesa) de 2024 define "tecnologias-chave de soberania" que incluem, explicitamente: radar, guerra eletrônica, criptografia e processamento de sinais, áreas em que a Alemanha não pode depender exclusivamente de terceiros. Simultaneamente, a OTAN segue como pilar, e isso significa interoperabilidade obrigatória: todos os sistemas de comando e controle alemães devem ser compatíveis com os padrões da aliança. Na prática, isso gera projetos híbridos. O míssil Arrow 3, comprado de Israel por US$ 6,7 bilhões, exige integração com os radares e centros de comando alemães e da OTAN, trabalho que empresas como Hensoldt e Airbus Defence & Space estão executando. O programa de defesa FCAS com a França (€43 bilhões) é o exemplo máximo. O sistema de guerra eletrônica e sensores do caça de sexta geração do programa será desenvolvido conjuntamente, mas a Alemanha exige que parte da tecnologia permaneça soberana. A presença da Saab nesse ecossistema, com seu sistema Arexis já selecionado para o Eurofighter, mostra como parceiros não alemães, mas europeus, podem ocupar nichos de excelência sem comprometer a soberania, desde que tragam tecnologia de ponta e disposição para a integração local. 4) OMPV: Há um arcabouço legal que fomente a base industrial de defesa alemã, por exemplo, por meio de tratamento preferencial em compras governamentais (políticas de buy national), incentivos fiscais para P&D no setor, e normas que facilitem a participação de empresas nacionais em projetos de defesa? Cel Nogueira: Sim, e ele é especialmente relevante para minha área de atuação. A lei BwPBBG (Planungs- und Beschaffungsbeschleunigungsgesetz), em vigor desde janeiro de 2026, permite contratações diretas e dispensa de licitação quando estão em jogo "tecnologias críticas de soberania", categoria que inclui sensores, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle. Isso significa que projetos de modernização de radares ou integração de sistemas C4ISR podem ser contratados diretamente com empresas como Hensoldt ou Rheinmetall Electronics, sem a burocracia tradicional. Para P&D, a Forschungszulage foi reforçada em 2026: teto de €12 milhões por empresa, com acréscimo de 20% para pesquisa interna e alíquota de 35% para PMEs. No TechHUB SVI em Nuremberg, startups de guerra eletrônica e sensoriamento acessam esses incentivos diretamente, conectando-se à Bundeswehr via contratos do BAAINBw (agência governamental alemã). O arcabouço não é protecionismo puro, as regras da União Europeia ainda valem, porém, criou-se um ambiente no qual a "segurança nacional" prioriza cadeias produtivas locais em radiofrequência e integração de sistemas. A Saab Deutschland, com sua trajetória de cooperação com o BAAINBw , beneficia-se desse ambiente ao mesmo tempo que contribui com tecnologia que complementa a indústria local. 5) OMPV: Quais são as empresas alemãs que têm mais entrada no mercado de defesa e em quais segmentos atuam (aeronáutico, naval, terrestre, espacial, cibernético)? Cel Nogueira: No meu segmento específico — sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas —, as líderes são Hensoldt AG, Rheinmetall Electronics, Diehl Defence e Airbus Defence & Space. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado alemão de defesa deve movimentar US$ 26,73 bilhões em 2025, com CAGR de 4,3% até 2035. - Hensoldt: referência absoluta em radar (TRML-4D, TwInvis), guerra eletrônica, optrônica e cibersegurança. Backlog de €5,9 bilhões em 2025. - Rheinmetall Electronics: atua em comando e controle (C2), simulação e integração de sistemas de missão. Em 2025, a divisão de eletrônica cresceu 36%. - Diehl Defence: forte em sensores para defesa aérea (IRIS-T SLM), sistemas de contramedidas (GARMR, Ziesel com kit PLATON) e integração de cargas úteis. - Airbus Defence & Space: lidera em sistemas de comunicação militar, satélites de reconhecimento (SAR, SIGINT) e integração de sensores em plataformas (Eurofighter, A400M). - Rohde & Schwarz: especializada em comunicações seguras, criptografia e guerra eletrônica, fornecendo rádios táticos e sistemas de inteligência de sinais. - Saab Deutschland GmbH: ainda que sueca, sua presença na Alemanha é crescente e estratégica. Além do Taurus e do Arexis, a empresa tem acordo de cooperação com a Hensoldt para projetos navais, oferecendo sistemas como o 9LV CMS, um dos mais avançados sistemas de gerenciamento de combate do mundo, baseado em arquitetura aberta e modular, e a família Giraffe C4I, que integra radares de vigilância aérea com centros de comando e controle. Essas empresas dominam o ecossistema de sensores e C2, operando em consórcios europeus, mas garantindo que o coração tecnológico permaneça em solo alemão. A Saab, com sua característica de system integrator que combina competências próprias em radar, C4I e guerra eletrônica, ocupa um espaço de parceiro tecnológico confiável, não de concorrente predatório. 6) OMPV: Ainda pensando na amplitude da base industrial de defesa alemã, muito mais que o número de empresas, a diversidade e a profundidade da capacidade produtiva, cobrindo diferentes segmentos e etapas da cadeia de valor (pesquisa básica, desenvolvimento, produção, manutenção, modernização e desativação) são fundamentais. O senhor poderia fazer uma avaliação desse setor? Cel Nogueira: Na área de guerra eletrônica, sensores e integração, a profundidade é impressionante e cobre toda a cadeia de valor. A SVI-Strategie explicita que a indústria deve abranger desde pesquisa básica em radiofrequência e materiais semicondutores (via Fraunhofer FHR, Fraunhofer FKI e DLR) até produção escalável de arrays de radar, manutenção de sistemas e modernização com software-defined defence . O segmento de manufatura, projeto e engenharia responde por 63% do mercado, enquanto manutenção, reparo e operação deve dobrar até 2029 (€13-17 bilhões anuais) . Em Nuremberg, isso é visível: o TechHUB SVI integra pesquisa em IA para processamento de sinais, produção de sensores e manutenção de sistemas de defesa aérea . A capacidade de modernizar frotas existentes, como os radares dos Eurofighter ou os sistemas de guerra eletrônica dos Tornado, mantém-se internamente. Entretanto, há também limitações como a dependência de matérias-primas críticas (germânio, terras-raras) e gargalos em semicondutores de alta frequência. A desativação de sistemas ainda não é a prioridade estratégica, e as exportações de tecnologia de sensores sofrem restrições políticas. No que tange à diversidade em tecnologias de RF e profundidade de integração, a base alemã é uma das mais completas da Europa. A Saab contribui para essa profundidade com soluções como o sensor passivo Sirius, que localiza ameaças aéreas sem emitir radiação, complementando os radares ativos da família Giraffe, um exemplo de como a integração de tecnologias diferentes (ativas e passivas) aumenta a resiliência do sistema como um todo. 7) OMPV: Quais são os maiores parceiros internacionais da Alemanha no mercado de Defesa? Cel Nogueira: No segmento de sensores, guerra eletrônica e integração de sistemas, os parceiros são definidos por complementaridade tecnológica e interoperabilidade: - Estados Unidos: principal fornecedor de tecnologia de ponta em guerra eletrônica e sensores. A compra dos caças F-35 (US$ 8,8 bilhões) inclui acesso aos seus sistemas de missão e radar AESA, mas a Alemanha exige que a integração dos sensores nacionais (Hensoldt) seja feita localmente. 46% das importações europeias de defesa vêm dos EUA. - Israel: parceiro tecnológico crítico em sensores e defesa aérea. O sistema Arrow 3 (US$ 6,7 bilhões) é o maior exemplo: a Alemanha compra o míssil, mas desenvolve localmente a integração com seus radares e centros de comando. - França: parceira indispensável no FCAS (€43 bilhões), onde o sistema de guerra eletrônica e sensores do futuro caça será desenvolvido conjuntamente por Thales e Hensoldt. A cooperação em sensores é tensa, mas estratégica. - Suécia (Saab): um caso à parte. A Saab consolidou-se como parceiro tecnológico de primeira linha na Alemanha. O sistema Arexis para o Eurofighter EloKa e a modernização do Taurus são exemplos de uma relação que vai além da compra-e-venda: há transferência de tecnologia, integração industrial e cooperação de longo prazo. A parceria com a Hensoldt para a Marinha alemã reforça esse caráter de integração profunda. O GlobalEye da Saab, com sua capacidade única de vigilância aérea, marítima e terrestre simultânea, é o tipo de solução que a Alemanha observa com interesse crescente. - Noruega: com o "Hansa Arrangement" (2026), há cooperação em sensores navais e integração de sistemas de combate nos submarinos 212CD e fragatas. - Finlândia: no programa CAVS, a integração de sistemas de missão e sensores dos blindados 6x6 envolve a indústria alemã (FFG, KNDS). Em suma: os EUA fornecem o estado da arte; Israel, tecnologias aplicadas; França, o futuro; e a Suécia, oferece aquela combinação rara de excelência técnica com perfil discreto e colaborativo, um parceiro que entrega o que promete, sem estardalhaço, algo que os alemães, no fundo, valorizam profundamente. Rio de Janeiro - RJ, 04 de março de 2026. .
Análise sobre a tomada de decisão em ambiente de incertezas
Apresentação O ano letivo teve início na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e nossos alunos, civis e militares, assistiram, no dia 5 de fevereiro do corrente, à aula magna do Gen Ex R/1 Richard Fernandes Nunes, atualmente Diretor-Geral do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. Na sua conferência, o antigo comandante da ECEME reforçou as ideias-força que são a tônica para o decisor na arte da guerra, traduzidas nos verbos: pensar, criar, decidir e agir, que há mais de 100 anos vêm sendo norteadores dos estudos nos cursos regulares da Escola. O desafio para as atuais gerações de discentes passa a ser como direcionar a tomada de decisão em uma conjuntura complexa como a atual, na qual a dimensão informacional ganhou protagonismo, e muitos dos problemas estão no campo do incognoscível. O ambiente empresarial, que também enfrenta as mesmas dificuldades, tem criado novas formas de gestão para atuar no campo das incertezas. Como exemplo, pode ser citada a metodologia Lean Startup, que une o design, a prototipação e a experiência do cliente, inverte a ordem do conhecido ciclo PDCA, entendendo que a fase do planejamento só deve iniciar quando se conhece realmente o problema a ser enfrentado. No campo das Ciências Militares, o processo de tomada de decisão tem sido objeto de estudos, muitos deles destacando o papel das tecnologias disruptivas e as competências próprias que devem acompanhar o decisor. A pergunta que fica é se as Instituições podem ter mecanismos próprios que viabilizem esse processo em alguma medida, criando seus ecossistemas que favoreçam a atuação dos decisores. O OMPV selecionou três artigos do General Richard que analisam e propõem ferramentas institucionais para criar o ambiente favorável à tomada de decisão, os quais nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o tema. 1. O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito Os preceitos da comunicação estratégica passaram a ser efetivamente adotados pelo Exército Brasileiro a partir da constatação da conveniência de se expandir os ramos da tradicional comunicação social praticada – relações públicas, assessoria de imprensa e divulgação institucional – por meio da sincronização, da integração e do alinhamento das mídias sociais operadas no âmbito da Força, bem como da sistematização das relações institucionais estabelecidas em todos os níveis. Tudo de acordo com os objetivos constantes no Planejamento Estratégico do Exército.[1] As discussões levadas a cabo para a implementação dessa visão foram abrangentes e inéditas, devido à dificuldade de obtenção de literatura capaz de considerar as condicionantes específicas da expressão militar de um país com a trajetória histórica e as dimensões geográfica, política e estratégica do Brasil. Tentativas de adaptação de doutrinas estrangeiras, particularmente praticadas em blocos e alianças multinacionais, definitivamente não fornecem soluções aplicáveis à nossa realidade sui generis. Os projetos interdisciplinares conduzidos pelo Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx), na ECEME, em consonância com as diretrizes do Comandante e as orientações do Estado-Maior do Exército (EME), foram fundamentais para o aprofundamento do tema. O órgão de direção operacional e os de direção setorial e de assistência direta e imediata aportaram contribuições. Naturalmente, coube ao CCOMSEx, órgão central do Sistema de Comunicação Social do Exército, papel de relevo na consolidação dos trabalhos. Como resultado de todo esse esforço, vários documentos foram elaborados. Algumas portarias do Comandante do Exército e do EME, como a que instituiu as regras para o emprego das mídias sociais, começaram a ser publicadas em 2019. Mas foi no ano seguinte que o arcabouço normativo se completou. A Portaria nº 1.237-C Ex, de 23 de novembro de 2020, que aprova a Diretriz Geral de Comunicação Estratégica no Âmbito do Exército, consolida e integra conceitos, responsabilidades e ações a realizar. Vencida a etapa da sistematização, o momento seguinte é o da concretização das ideias em objetivos, ações, metas e indicadores. Para isso, há necessidade de acurada análise do ambiente informacional. E essa tarefa, diante dos desafios vivenciados neste início de terceiro milênio, requer maturidade estratégica. A dificuldade de interpretação da conjuntura demanda permanente consciência situacional para o entendimento do nível adequado de posicionamento à tomada de decisão. Uma força, que transita dos níveis tático e operacional do campo de batalha aos político e estratégico da definição de objetivos organizacionais e da obtenção dos meios correspondentes, impõe aos seus agentes da comunicação estratégica a realização de constante ESAON[2]. A propósito do uso deste acrônimo tão peculiar ao Exército, cabe ressaltar que o recurso a esse expediente para simplificar o entendimento e a memorização de conceitos vem de longa data, mas tem-se intensificado com o volume extraordinário de informações disponibilizado na Era do Conhecimento. Por serem úteis ao tema deste artigo, serão discutidos o VUCA e o BANI. O chamado Mundo VUCA (volátil, “uncertain”/incerto, complexo e ambíguo) popularizou-se na virada do milênio, sintetizando a imprecisão de cenários gradativamente aprofundada no pós-guerra. Esse conceito tem sido empregado em trabalhos acadêmicos, no meio corporativo e pelos mais variados órgãos e agências, incluindo-se as forças militares. Lidar com as ideias de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade para se estruturar a comunicação estratégica do Exército é como realizar o ESAON em terreno movediço. O importante agora pode tornar-se rapidamente irrelevante, o que é neste momento pode não ser daqui a pouco, as conexões são múltiplas, o inimigo do nosso inimigo não é necessariamente nosso amigo, aliás, quem é amigo de quem? E daí? Como sair desse atoleiro? O estudo do lanço[3], neste caso, perde qualquer noção de simplicidade. Analisar essas características pode ser útil, se não para a obtenção de balizamento mais claro ao planejamento, pelo menos para se evitar certas armadilhas capazes de turvar o pensamento e as atitudes. Se é lícito supor que estamos diante de ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, é indispensável que os diversos sistemas que compõem a Instituição sejam integrados, alinhados e sincronizados. Se entendermos a comunicação estratégica como um sistema de sistemas, podemos reduzir significativamente as ameaças e potencializar o aproveitamento das oportunidades, com vistas à consecução dos objetivos estratégicos do Exército. Mas o que parecia complicado ficou ainda mais instigante. Em 2018, o norte-americano Jamais Cascio, a partir da premissa de que o Mundo VUCA não favorecia mais o entendimento acerca da conjuntura atual, cunhou o acrônimo BANI (“brittle”/frágil, ansioso, não linear e incompreensível), que também logrou se popularizar, impulsionado pela perplexidade causada pela pandemia da COVID-19. Em sua visão, o Mundo VUCA admite a ideia de planejamento, desde que considerada a interligação de múltiplos sistemas; quando isso não funciona, surge o Mundo BANI, para expressar o caos resultante e nos fazer refletir sobre a necessidade de esboçar cenários capazes de nos proporcionar caminhos plausíveis a seguir. Ainda assim, cabe a pergunta: e daí? Como lidar com isso? Longe de cair em desânimo, é necessário aprimorar nosso ESAON, nossa capacidade de interpretação da realidade, a fim de se evitar a mera aceitação dessas características globais como condicionantes incontornáveis. Se o mundo é frágil, ansioso, não linear e incompreensível, enfim, caótico, é necessário desenvolver resiliência e flexibilidade compatíveis para o enfrentamento de múltiplos cenários com um mínimo de orientação quanto à melhor trajetória a adotar. E a comunicação estratégica se impõe como absolutamente necessária a uma Força que não pode se fragilizar, que deve reagir com sereno rigor, sem dar vez à ansiedade, que deve lidar com um amplo espectro de atuação, e que precisa fazer-se compreender pelos diversos públicos de interesse. Se os mundos VUCA e BANI ainda não tiverem despertado suficiente inquietação, que tal uma provocação ao pensamento crítico? No que diz respeito ao entendimento da dimensão informacional, sugiro cunharmos outro acrônimo: PSIC! Não, talvez não seja o que sugere. Não se trata de rotular o ambiente como psicótico, desconectado da realidade. Para muitos pode ser isso mesmo, mas o que tenho observado é que estamos diante de um mundo precipitado, superficial, imediatista e conturbado. A precipitação é um mal recorrente na comunicação. Se antes, a volúpia de certos órgãos de mídia e jornalistas pelos furos de reportagem, muitas vezes sem a devida checagem, produzia danos de difícil reparação à veracidade dos fatos; hoje, com a disseminação das mídias sociais, essa mazela aumenta de modo exponencial, com inúmeros conteúdos sendo disparados sem o menor cuidado. Demonstrar estar bem informado é um dos traços de vaidade mais comumente observados. Para o Exército, alvo contumaz de matérias precipitadas, outra faceta dessa característica é que ela também afeta seu próprio público interno. E disciplinar essa questão é tarefa imperiosa para a comunicação estratégica. Assim como se adota a Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) como etapa indispensável à utilização do armamento, tem-se que atribuir a mesma prioridade à instrução com vistas ao emprego das ferramentas de comunicação digital[4]. Enviar ou encaminhar uma mensagem com um simples toque na tela de um smartphone pode ser tão crítico quanto acionar o gatilho de uma arma. Já a superficialidade é o reino da “água na canela”. A mídia recorre sistematicamente a especialistas. Alguns não passam de embusteiros que se autointitulam como tal e mal sabem do que estão falando. Não raro, influenciam opiniões a partir de platitudes acacianas. Pior, ainda, é quando por trás desses pseudoespecialistas se encontra a má-fé, com o objetivo de manchar reputações pessoais e institucionais, tratando-se temas complexos e sensíveis sem nenhuma profundidade de análise. No caso dos assuntos militares, esse problema se agrava, pois não são muitos os autênticos especialistas capazes de discuti-los com isenção e propriedade. O imediatismo grassa no meio informacional. O que importa é a obtenção de resultados no curto prazo. Sacrifica-se a construção de bases sólidas de relacionamentos institucionais e de relações de confiança. Parece não haver mais paciência para, de modo continuado, colher-se no futuro o que se semeia no presente. Para a comunicação estratégica do Exército, instituição cujo caráter permanente é constitucional, esse fenômeno tem-se caracterizado como de mão dupla, e precisa ser enfrentado sistematicamente. Pessoas e percepções são passageiras; o Exército, segue adiante. A conturbação tem encontrado terreno fértil na polarização exacerbada que tem caracterizado as relações sociais por todo o mundo. O que se observa é a preferência pelo dissenso em detrimento do consenso, a primazia das controvérsias e o desprezo pelo diálogo. Esse comportamento chama a atenção em certas plataformas de mídias sociais, onde o que mais se encontra são ofensas e demonstrações de intolerância. Na chamada mídia tradicional não é diferente. Certas matérias mais se assemelham a provocações irresponsáveis, alimentadas por atípicos bombeiros, que apagam incêndio com gasolina. É preciso reagir com lucidez a esse desafio. Se considerarmos como premissa que “quem me irrita me domina”, responder a certos provocadores pode ser exatamente a resposta por eles esperada. A maturidade proporcionada pela comunicação estratégica – alinhada, integrada e sincronizada – pode indicar a melhor linha de ação a adotar. Em síntese, ao combinarmos as características da realidade atual, plasmadas nos acrônimos discutidos neste artigo – VUCA, BANI e PSIC –, percebemos o quão desafiador é obter a consciência situacional necessária à tomada de decisões com base na dimensão informacional. As atividades de inteligência e de comunicação social, integradas a outras capacidades e aos centros de estudo e pesquisa, valendo-se de ferramentas adequadas e em permanente conexão, são imprescindíveis. Os trabalhos realizados no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), do EME, bem como no Instituto Meira Mattos (IMM) e no Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), da ECEME, são exemplos de subsídios relevantes para a concretização da comunicação estratégica do Exército. Por fim, é de se destacar que, ante a carência de referências típica desta época em que vivemos, há que se fortalecer o ethos militar, única garantia de preservação da autenticidade e da relevância da Instituição. Além do desenvolvimento de competências pessoais e de capacidades organizacionais, o que é fundamental para se fazer um adequado ESAON, com vistas à melhor condução da comunicação estratégica, nos ambientes VUCA, BANI, ou até mesmo PSIC, é a permanente observância dos princípios éticos e dos valores morais que têm notabilizado o Exército Brasileiro ao longo de sua extraordinária trajetória histórica. 2. O Mundo PSIC e a Ética Militar https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar Em abril do ano passado, em artigo publicado neste blogi, provoquei o pensamento crítico dos leitores com a cunhagem do acrônimo PSIC, para caracterizar o ambiente informacional da atualidade. Decorridos dez meses, retorno ao tema, por constatar que a precipitação, a superficialidade, o imediatismo e a conturbação atingiram patamares consideráveis, devido ao comportamento de muitos civis e militares, quando o assunto abordado é o papel desempenhado pelas forças armadas no cenário nacional. Tratando especificamente do Exército Brasileiro, cabe relembrar que sua História, cuja gênese remonta às Batalhas dos Guararapes, confunde-se com a própria evolução histórica do País. A atuação da Força Terrestre é ampla e abrangente, cobrindo nosso território de dimensões continentais com o braço forte e a mão amiga, o que exige tomada de decisões desde os níveis político e estratégico aos ambientes operacional e tático. A cada um desses níveis correspondem especificidades no que tange ao estudo de situação e à liderança. É bem sabido que não há solução tática capaz de corrigir uma formulação estratégica inadequada. E é indispensável destacar que só se chega aos mais altos postos percorrendo-se todos os graus hierárquicos, após décadas de dedicação à carreira das armas. Ninguém ingressa no Exército como general! Essa óbvia constatação é importante para que se compreenda o contexto ético-profissional que distingue a carreira militar. Hierarquia e disciplina, bases institucionais constantes em nossa Lei Magna, representam a própria essência da força armada. São conceitos que traduzem o exato cumprimento do dever e o respeito à cadeia de comando, composta por autoridades, em todos os escalões da estrutura da Força, que alcançam determinada posição, tendo experimentado as vicissitudes de seus subordinados. Esse arcabouço ético também é composto pelos valores indispensáveis a quem se dispõe a seguir a vida militar: patriotismo, coragem, lealdade, camaradagem, espírito de corpo, fé na missão, entre outros. Esses valores, ainda que universais, podem manifestar-se de modo distinto, conforme o nível de atuação considerado. A coragem esperada de um comandante tático, por exemplo, não se expressa da mesma forma que a de um líder no nível estratégico. Semelhante na essência, distingue-se na demonstração. Se do primeiro se requer o acatamento imediato da ordem recebida para conduzir seus subordinados ao cumprimento da missão; do outro se espera firmeza na defesa de princípios e valores, de tal forma que, por vezes, dizer "não" pressupõe muito mais coragem do que alinhar-se a eventuais pressões de caráter político. E o que o Mundo PSIC tem a ver com isso? Tudo! Pois é exatamente na dimensão informacional que temos assistido a condutas em desacordo com a ética militar por parte daqueles que, por indignação, ingenuidade, desconhecimento e, até mesmo, má-fé, têm contribuído para disseminar a desinformação, a relativização de valores e, consequentemente, a desunião que enfraquece o espírito de corpo. Fica a pergunta: a que interesses servem tais pessoas? Analisando-se o que têm expressado, via de regra em mídias sociais e aplicativos de mensagens, que adicionaram a comodidade do anonimato a esse tipo de atitude, facilmente se identificam as componentes PSIC. A precipitação é marca típica desse ambiente repleto de meias-verdades e fake news, onde se disparam e replicam mensagens sem a menor preocupação com a veracidade dos fatos e a idoneidade das fontes. Toma-se como verdade, de modo absolutamente irresponsável, conteúdos com juízos de valor destinados ao ataque a reputações e à crítica a decisões dos escalões superiores. Iniciado o processo, que é realimentado por “gatilhadas” digitais, o que se produz é uma verdadeira marcha da insensatez. A um militar que se preza não se permite essa falta de cuidado e de lealdade para com a instituição a que serve. A superficialidade é outro aspecto dissonante do comportamento ético. A atividade militar é, por natureza, grave e complexa. Em tempos de paz ou de conflito armado, lida-se com o poder dissuasório da Nação. Soluções simples para problemas complexos não são a regra. Tratar o emprego do Exército com base em análises simplórias de “especialistas” de ocasião, é o caminho mais seguro para se chegar a concepções inoportunas, parciais e ineficazes, o que é inadmissível por quem quer que tenha um mínimo de seriedade no processo de tomada de decisão. Quando um militar extrapola a esfera de suas atribuições, e passa a opinar publicamente sobre o que não é de sua competência, contribui para o descrédito na cadeia de comando e no cumprimento da missão. O imediatismo, por princípio, não se coaduna com o caráter permanente atribuído às forças armadas no texto constitucional. A relação custo-benefício de se trocar ganhos imediatos por duradouros resultados positivos costuma caracterizar vitória de Pirro. Os preceitos da ética militar indicam claramente que não se pode prejudicar a reputação e a credibilidade do Exército, conquistadas em séculos de História, por conta do oportunismo de uns e do jogo de interesses de outros, algo que tem sido observado em inúmeras postagens veiculadas em tempos recentes. A conturbação talvez seja o aspecto mais danoso do Mundo PSIC. A excessiva polarização da sociedade e a atuação dos extremos do espectro ideológico no ambiente informacional têm gerado visões radicais, resultando num círculo vicioso de intolerância e de absoluta ausência de diálogo. Essa situação é inaceitável aos membros de uma instituição apartidária, que se orgulha de oferecer oportunidades a todos os brasileiros, sem distinção de classe social, raça, gênero e credo. O inconformismo com a tradicional postura legalista e de neutralidade do Exército tem dado ensejo a insultos a camaradas de longa data, ataques a reputações típicos de regimes totalitários, “vazamentos” de supostas informações, divulgação de memes difamatórios, tudo para tentar atingir a coesão da Força, em flagrante traição ao sacrossanto respeito à hierarquia e à disciplina. Sendo os recursos humanos a força da nossa Força, é imperioso reafirmar diuturnamente a essencialidade da prática e do culto aos princípios e valores característicos da profissão militar para o aprimoramento da capacidade operacional necessária ao cumprimento de suas diversas missões. 3. A Liderança Estratégica ante os Desafios do Mundo PSIC https://eblog.eb.mil.br/w/a-lideranca-estrategica-ante-os-desafios-do-mundo-psic Em artigos anteriores, procurei caracterizar o ambiente informacional da atualidade por meio do acrônimo PSIC (precipitado, superficial, imediatista, conturbado), apreciando seus reflexos para a comunicação estratégica do Exército[5] e para a ética militar[6]. Neste trabalho, volto a abordar esse tema do Mundo PSIC, agora, sob o enfoque da liderança estratégica. Com efeito, se essas características PSIC devem merecer atenção no planejamento e na execução da comunicação do Exército, bem como suscitar reflexões de caráter ético-profissional, é natural que o exercício da liderança militar também possa sofrer consequências desse fenômeno. Comunicação, ética e liderança são abordagens indissociáveis, ainda mais nestes tempos de profundas mudanças nas relações sociais, provocadas pelos avanços que temos observado na tecnologia da informação. O exercício da liderança militar, em qualquer nível, pressupõe coragem e integridade de caráter plenamente reconhecidas. Quando se emprega a liderança direta, é possível mais facilmente superar óbices à percepção desses pressupostos, uma vez que a comunicação é menos suscetível a ruídos e manipulações. A força do exemplo se faz mais presente. Entretanto, quando lidamos com o nível estratégico, há variáveis mais difíceis de se controlar, o ambiente é mais complexo, e o distanciamento físico amplia o desafio de se influenciar comportamentos e direcionar esforços para a conquista de objetivos institucionais. O caráter digital e virtual do ambiente informacional PSIC potencializa as limitações da liderança indireta. Historicamente, os meios de comunicação de massa vinham se consolidando segundo uma lógica socioeconômica top-down. Foi assim com a mídia impressa, com o rádio, com a televisão – aberta e por assinatura –, e com a rede mundial de computadores. Entretanto, quando a telefonia celular e a internet se combinaram em smartphones, de aquisição amplamente disseminada, essa lógica deixou de prevalecer, uma vez que pessoas dos mais diversos estratos sociais passaram a desfrutar simultaneamente dessa ferramenta de produção e de difusão instantânea de conteúdos e mensagens. Esse fenômeno é de extrema relevância para a compreensão dos desafios enfrentados pela liderança estratégica, particularmente em uma Instituição de Estado, que tem na hierarquia um de seus alicerces. Qualquer que seja a abordagem adotada acerca da temática da liderança, é inquestionável que o conhecimento exerce papel primordial. O exercício da liderança, de modo geral, requer competências que proporcionem correta análise do ambiente considerado e adequada visão dos caminhos a seguir. No nível estratégico, mais incerto e complexo, a obtenção de razoável consciência situacional constitui requisito ainda mais crítico para o êxito. Em meio a um acúmulo exponencial de informações, veiculadas por intermédio de uma incontrolável massa de mídias, a questão que se impõe é separar o essencial do supérfluo, o significativo do irrelevante e o autêntico do falso ou distorcido. E essa tarefa é extremamente desafiadora, pois ao líder não é mais proporcionado tempo suficiente para a necessária reflexão, para ser proativo em vez de reativo, para elaborar a estratégia de comunicação adequada. A instantaneidade, a rapidez e o volume de dados disponibilizados no ambiente informacional escapam à lógica hierárquica e acarretam para a liderança um ciclo frenético de interpretação de dados e de tomada de decisões, de modo a que seja exercida com acerto e oportunidade. Para isso, é necessário identificar e contornar as armadilhas do Mundo PSIC. A precipitação conspira contra o senso de oportunidade. Sendo o tempo um dos fatores da decisão, há que se resistir a conclusões antecipadas, devido à disseminação indiscriminada da informação a níveis que não tenham competência funcional para realizar adequada análise da situação. O impulso de rapidamente se livrar de um problema ou atender ao clamor de bolhas midiáticas pode acarretar sérios prejuízos ao processo decisório. O líder estratégico precisa enfrentar com serenidade a tendência atual de agir apressadamente e preservar a capacidade de controlar os anseios daqueles a quem deve conduzir. Deve sempre se valer do ESAON3[7]. Navegar, ou seja, percorrer o caminho selecionado não pode ser um ato impensado. Deve ser o coroamento de todo um processo consciente, pautado pela ponderação e pelo equilíbrio. A superficialidade impede a obtenção do grau de conhecimento requerido para se analisar uma situação e se chegar à melhor decisão. A consciência situacional plena requer estudo abalizado. Não há como equacionar problemas complexos, como costumam ser os de nível estratégico, com informações insuficientes ou incompletas. Simplicidade é princípio de guerra. Permite descomplicar a solução, particularmente devido ao modo de se comunicar o que precisa ser feito. Simplismo, ao contrário, revela carência de fundamentos, sem levar em consideração aspectos essenciais à compreensão do ambiente. O líder precisa conhecer em profundidade a realidade a enfrentar, cercando-se de assessores zelosos, e não de meros repetidores de ideias e opiniões de “especialistas” e influencers, encontradas em profusão nas plataformas digitais. O imediatismo obscurece a visão de futuro, uma das componentes primordiais da liderança estratégica. As decisões de caráter estratégico exigem mais persistência no tempo e mais abrangência no espaço. Vantagens momentâneas raramente são sustentáveis, tampouco atendem a todos os aspectos envolvidos na análise da questão. Tendências de longo prazo devem sobrepujar percepções passageiras. É necessário semear para que se possa colher. E isso requer desprendimento, paciência e compreensão histórica. O líder estratégico precisa fazer escolhas que nem sempre lhe permitirão desfrutar dos resultados em curto prazo, mas a responsabilidade e o compromisso com as gerações vindouras impõem a humildade de preparar o terreno para que outros eventualmente colham os louros. A conturbação afeta a capacidade que se requer de um líder de conciliar múltiplos e diversos interesses na busca de um propósito comum. A polarização da sociedade, os posicionamentos radicais, o desprezo pelo diálogo e a cultura do cancelamento e linchamento nas redes virtuais têm causado sérias restrições ao exercício da liderança. No meio militar, esse tipo de comportamento atenta contra a hierarquia e a disciplina e compromete a coesão. Ambientes conturbados geram círculos viciosos de preconceitos, ofensas e retaliações, que subtraem energia e desviam o foco dos legítimos anseios coletivos e dos objetivos estratégicos a serem alcançados. A liderança estratégica demanda resiliência para sobrepujar essas questões limitadas e dispersivas. Como se pode observar, o exercício da liderança estratégica tem sido confrontado por características próprias do ambiente informacional altamente digitalizado da atualidade, que tenho identificado como Mundo PSIC. Assim como sugerido nos trabalhos anteriores, é necessário compreender essa questão a fim de se encontrar as respostas mais adequadas ao desafio que representa. De modo conclusivo, identifico na trilogia liderança estratégica – ética militar – comunicação estratégica o arcabouço mais indicado para se analisar o ambiente informacional de nossos dias e melhor compreender a realidade em que estamos inseridos, a fim de que se possam encontrar soluções integradas, alinhadas e sincronizadas para o amplo espectro de atuação do Exército, em face da relevância, da complexidade e da variedade das missões que lhe são atribuídas pela Nação Brasileira. [1] Definição proposta em artigo publicado após apresentação sobre o tema no XXI Ciclo de Estudos Estratégicos da ECEME, em julho de 2019 (Nunes, R. F. A Comunicação Estratégica do Exército e a Dimensão Informacional. Coleção Meira Mattos: revista das ciências militares, v. 13, n. 48, p. v-xi, 8 nov. 2019.) [2] Significa estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se e navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. [3] Em situação de combate, para progredir no terreno, o militar deve condicionar-se a responder aos seguintes questionamentos: Para onde vou? Por onde vou? Como vou? Quando vou? [4] Em 2020, por proposta do CCOMSEx, o COTER aprovou o Caderno de Instrução de Comunicação Social – Formação Básica, que orienta a instrução a ser ministrada a todos os militares incorporados ao Exército acerca deste e de outros assuntos correlatos. [5] O Mundo em Acrônimos e a Comunicação Estratégica do Exército, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-em-acronimos-e-a-comunicacao-estrategica-do-exercito. [6] O Mundo PSIC e a Ética Militar, disponível em: https://eblog.eb.mil.br/w/o-mundo-psic-e-a-etica-militar. [7] Acrônimo usual no Exército para Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se e Navegue. Trata-se de um procedimento de sobrevivência que visa a retomada da consciência da situação e da capacidade de decidir de modo a prosseguir na missão. Rio de Janeiro - RJ, 04 de fevereiro 2026.
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Edição Atual: Vol. 4, nº 11, Julho/Dezembro - 2025 - (pdf completo) Apresentação O Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV) tem como missão realizar estudos políticos e estratégicos de interesse da área militar, bem como busca contribuir para o incremento e difusão da mentalidade de Defesa no Brasil. Para tanto, o OMPV está organizado atualmente em oito áreas temáticas: Conflitos Bélicos e Terrorismo; Defesa Cibernética; DQBRN; Geopolítica e Defesa; Missão de Paz; Movimentos Migratórios e Segurança na Faixa de Fronteira; Segurança Pública e Crime Organizado Internacional; e Sistemas Bélicos e Simulação. Para a produção de conhecimento, o OMPV conta com o apoio de pesquisadores civis, pesquisadores militares, professores doutores, alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da ECEME, instrutores da ECEME, alunos da ECEME e oficiais de nações amigas servindo na Escola. Além dessa equipe, o OMPV ainda recebe a colaboração de pessoas externas à ECEME. O Panorâmico é uma publicação quadrimestral deste observatório e que tem como finalidade apresentar os artigos já publicados no site do OMPV, os quais tratam de temas relevantes relacionados às oito áreas temáticas citadas anteriormente. Para mais informações, visite a página do OMPV na internet (www.ompv.eceme.eb.mil.br). Contando com produtos como palestras, relatórios, artigos de opinião, análises, entrevistas aos meios de imprensa e bibliografias em geral, o leitor poderá verificar a existência de um portfólio robusto e diversificado de contribuições dadas pelo OMPV à sociedade, em seus pouco mais quatro anos de existência. Edições Vol. 4, nº 11, Julho/Dezembro - 2025 NOVO! 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