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O papel dos militares no combate ao coronavírus: um olhar para a experiência chinesa

Publicado: Terça, 30 de Junho de 2020, 11h08 | Última atualização em Quinta, 24 de Setembro de 2020, 10h19 | Acessos: 292

Alana Camoça Gonçalves de Oliveira
Pós-Doutoranda do PPGCM da ECEME e doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ

 A pandemia mundial assumiu os holofotes nos últimos dias e vem afetando cenários e a vida de milhões de pessoas no mundo inteiro. Afinal, se as pessoas ainda não estão em quarentena, ao menos estão atentas aos noticiários e updates sobre o número de casos e mortes causados pelo novo coronavírus ao redor do mundo. De acordo com o Ministério da Saúde (2020), o coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias e o novo agente do coronavírus foi descoberto em 31 de dezembro de 2019 após casos registrados na China.

A doença já foi comparada pelo presidente norte-americano com uma gripe (Washington Post, 2020), todavia embora a taxa exata de mortalidade ainda não esteja clara, estima-se que a doença mate uma proporção maior de pessoas que a gripe (e é particularmente letal para pessoas com mais de 80 anos). Além da alta facilidade de transmissão, um dos maiores problemas causados pela doença, senão o maior, é a potencial sobrecarga do sistema de saúde, tendo em vista que uma parcela das pessoas infectadas (sejam jovens ou idosos) precisa de tratamento respiratório em hospitais, o que, como pode ser observado, vem afetando fortemente a Europa, mas principalmente a Itália, com inúmeras mortes diárias causadas pelo vírus.

A China já apresenta dados de controle da doença no país e, inclusive, tem se comprometido a ajudar países do mundo todo. Quando nenhum estado europeu respondeu ao apelo urgente da Itália por equipamentos médicos e equipamentos de proteção, a China se comprometeu publicamente a enviar 1.000 ventiladores, dois milhões de máscaras, 100.000 respiradores, 20.000 roupas de proteção e 50.000 kits de teste. A China também enviou equipes médicas e 250.000 máscaras para o Irã e enviou suprimentos para a Sérvia. Além disso, o co-fundador da Alibaba, Jack Ma, promete enviar grandes quantidades de kits de teste e máscaras para os EUA, além de 20.000 kits de teste e 100.000 máscaras para cada um dos 54 países da África (Campbell; Doshi, 2020).

Diante da recuperação e contenção chinesa do vírus cabe um questionamento: Qual foi o papel das forças militares no país e fora do país? Responder a essa pergunta pode nos auxiliar em descobrir como refletir sobre o papel das forças armadas brasileiras, por exemplo, na contenção e no auxílio às vítimas da doença no país. Apesar de não faltarem notícias sobre como a PLA (People’s Liberation Army) atuou ou atua no combate a doença, traçando a linha de tempo do surgimento à eclosão e posterior contenção, há estudiosos que consideram que houve uma certa morosidade e demora para o envio da PLA à Wuhan, tendo em vista que as forças militares chinesas só foram enviadas com o objetivo de auxiliar na contenção no dia 24 de janeiro de 2020 (Singer; Wood; Stone, 2020). Usualmente as pandemias exigem uma resposta rápida em grande escala e os governos geralmente mobilizam unidades militares para ajudar em tudo, desde serviços de saúde e alimentação até segurança e construção, como afirmam Singer, Wood e Stone (2020).

Tendo sido demorada ou não a resposta chinesa, desde 2 de fevereiro as unidades da PLA alocadas em Hubei estão providenciando apoio logístico e transportando itens essenciais diários para vários centros logísticos civis de Wuhan. No dia 4 de fevereiro, equipes de médicos da PLA começaram suas operações no hospital Huoshenshan (construído em 10 dias) para tratar de pacientes e no mesmo dia mais de 19 veículos de transporte militar e 60 soldados chegaram para transportar suprimentos para o "hospital de contêineres" que havia sido instalado em um estádio esportivo no distrito Wuchang (Singer; Wood; Stone, 2020). Ademais, aeronaves como a Y-20s e a Y-9s, por exemplo, e helicópteros auxiliaram na logística, levando militares, médicos e suprimentos para a cidade de Wuhan - diversas notícias sobre o papel das forças armadas e as medidas de combate podem ser encontradas no site de notícias China Military Online que é o único site oficial de notícias militares em inglês das Forças Armadas Chinesas (CMC, 2020).

Além disso, no dia 9 de fevereiro o PLA já havia enviado pelo menos 3.500 profissionais de saúde militares para Wuhan, sendo muitos deles funcionários que foram parte das respostas ao surto grave da SARS (Síndrome respiratória aguda) em 2003 e ao terremoto de Sichuan em 2008 (Chan, 2020a). Equipes médicas do PLA foram enviadas para operar temporariamente dois hospitais com o objetivo de combater o coronavírus e ajudar os pacientes, além disso o PLA convocou veteranos com conhecimento médico e experiência em socorro (Chan, 2020a).

De fato, a principal atuação da PLA na China foi no apoio logístico às operações de contenção e tratamento de pacientes, nesse sentido, apesar de qualquer demora que se possa alegar sobre o envio de tropas à região, o governo chinês instrumentalizou suas forças militares para conter o surto no país. Afinal, como apresenta Chan (2020b), os oficiais de logística da PLA se encarregaram dos suprimentos médicos e diários essenciais quando colegas civis reclamaram da falta de equipamento de proteção e quando isso ocorreu, demonstrou-se que o sistema do exército é mais eficiente que os hospitais locais. Ademais, o corpo de logística também se encarregou da compra e transporte dos itens essenciais diários necessários para 11 milhões de pessoas confinadas dentro da cidade.

Para Stavridis (2020), um almirante aposentado da Marinha dos EUA e ex-comandante supremo aliado da OTAN, lutar contra uma pandemia é um trabalho para militares, na medida em que os militares treinam para operar em um mundo de armas biológicas e dispõem dos equipamentos pesados ​​e equipamentos de proteção individual necessários em um ambiente infectado. Usualmente, centros militares têm um enorme estabelecimento médico e uma capacidade de pesquisa profunda que pode ser aplicada a tratamentos táticos e à busca de vacinas e medicamentos paliativos. Além disso, os militares também têm habilidades logísticas para mover mão de obra, equipamentos e até hospitais completos em todo o mundo em questão de dias ou até horas.

No caso do último ponto, devemos considerar que este foi e tem sido o mais relevante na China e muito provavelmente será o papel fundamental das Forças Armadas brasileiras no combate ao novo coronavírus no país. Afinal, os números não param de crescer e previsões sobre o colapso do sistema de saúde são apresentadas como possíveis pelo Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (Agência Brasil, 2020). A grande questão é que países como Alemanha, EUA, Suíça, Irã, Inglaterra e outros estão mobilizando suas forças armadas para combater o vírus, o que demonstra justamente a capacidade e necessidade da atuação de militares no Brasil.

Rio de Janeiro - RJ, 13 de abril de 2020.



Como Citar este documento:

DE OLIVEIRA, Alana Camoça Gonçalves. O papel das Forças Armadas Chinesas no combate ao coronavírus. Observatório Militar da Praia Vermelha. Rio de Janeiro: ECEME. 2020.

Referências:

Agência Brasil (2020). Sistema de saúde pode entrar em colapso em abril, diz ministro. Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/sistema-de-saude-pode-entrar-em-colapso-em-abril-diz-ministro-da-saude. Acesso em 25 de março de 2020.

BBC (2020). China coronavirus spread is accelerating, Xi Jinping warns. Disponível em https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51249208. Acesso em 24 de março de 2020.

CAMPBELL, Kurt M.; DOSHI, Rush. The Coronavirus Could Reshape Global Order. Foreign Affairs. Disponível em https://www.foreignaffairs.com/articles/china/2020-03-18/coronavirus-could-reshape-global-order?utm_medium=social&utm_source=facebook_cta&utm_campaign=cta_share_buttons&fbclid=IwAR2dmgGPx1vUfIHWZAoURxn9nj0WlnRZhcnKmDnpqRMMUcMtRic1QUnt_50. Acesso em 25 de março de 2020.

Chan, Minnie (2020a). How China’s military took a frontline role in the coronavirus crisis. South China Morning Post. Disponível em https://www.scmp.com/news/china/military/article/3075396/how-chinas-military-took-frontline-role-coronavirus-crisis. Acesso em 24 de março de 2020.

Chan, Minnie (2020b). China’s military put to the crisis test in coronavirus call-up. South China Morning Post. Disponível em https://www.scmp.com/news/china/military/article/3049672/chinas-military-put-crisis-test-coronavirus-call. Acesso em 24 de março de 2020.

CMC (2020). Chinese Air Force's strategic projection capability proven in epidemic. Disponível em http://eng.chinamil.com.cn/view/2020-02/18/content_9744789.htm. Acesso em 25 de março de 2020.

Ministério da Saúde. Coronavírus. Disponível em https://coronavirus.saude.gov.br/ Acesso 20 de março de 2020.

Singer, Peter; Wood, Peter; Stone, Alex (2020). As Coronavirus Spreads, China’s Military Is Largely MIA. Disponível em https://www.defenseone.com/ideas/2020/02/coronavirus-spreads-chinas-military-has-been-largely-mia/162950/ Acesso em 24 de março de 2020.

Stavridis, James. Battling a pandemic is a job for the military. The Japan Times. Disponível em https://www.japantimes.co.jp/opinion/2020/02/02/commentary/world-commentary/battling-pandemic-job-military/#.XntYZnJS_b1. Acesso em 24 de março de 2020.

Washington Post (2020). Trump again downplays coronavirus by comparing it to the seasonal flu. It’s not a fair comparison. Disponível em https://www.washingtonpost.com/politics/2020/03/24/trump-again-downplays-coronavirus-by-comparing-it-seasonal-flu-its-not-fair-comparison/ Acesso em 25 de março de 2020.

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