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A Arábia Saudita e o Crescente Xiita

Publicado: Quinta, 18 de Junho de 2020, 11h14 | Última atualização em Segunda, 03 de Agosto de 2020, 15h52 | Acessos: 329

André Nunes1

 Situado na Península Arábica e banhado a Leste pelo Golfo Pérsico e a Oeste pelo Mar Vermelho, o Reino da Arábia Saudita é um país muçulmano de vertente majoritária sunita e possui um regime de governo monárquico absolutista. Salman bin Abdulaziz al-Saud é o atual rei do país e será sucedido por seu filho Mohammed bin Salman, o primeiro da terceira geração a assumir a coroa desde a fundação do Reino em 1932 por seu avô Abdulaziz Ibn Saud. Embora seja um país de maioria sunita, há no seu território uma concentração populacional de muçulmanos xiitas que habita a Província Oriental, onde estão localizadas suas grandes reservas de petróleo, como o campo de Ghawar, o maior do planeta.

A Arábia Saudita é o maior exportador mundial de petróleo mas já não é mais o maior produtor, posição que atualmente é ocupada pelos Estados Unidos da América (EUA), que, por sua vez, continua sendo o maior consumidor global dessa commodity em conformidade com o BP Statistical Review of World Energy 2019. Os sauditas são também os detentores da maior economia entre os países da região do Oriente Médio e do Norte da África, sendo a sua a 18° maior do mundo conforme dados do Banco Mundial (THE WORLD BANK, [2018]). Ademais, nos anos 2017 e 2018 o Estado saudita foi divulgado como dono do 3° maior orçamento militar do mundo, atrás apenas de EUA e China e à frente de países como Rússia, França, Reino Unido e Índia. Foi a terceira vez que o Estado árabe atingiu essa colocação, pois o país já a havia assumido no ano de 2015. Nesse contexto, pela primeira vez os sauditas foram o país que mais destinou capital para o setor de Defesa, cerca de 8,8% do Produto Interno Bruto (PIB), superando o Sultanato de Omã, que havia ocupado a primeira colocação em todo o século XXI. (TIAN et al., 2019, p. 2; 10).

Um dos principais motivos que contribuem para que a Arábia Saudita invista pesadamente em seu setor de Defesa é o temor de que o Irã com um regime político revolucionário de orientação religiosa xiita, que se originou da queda de um monarca e que concedeu amplos poderes aos aiatolás, possa se tornar uma potência nuclear, no médio prazo. Porém, mesmo sem o Estado persa se tornar uma potência dessa natureza, Teerã tem expandido sua influência política, ideológica e religiosa em países da região, estabelecendo assim, nas palavras do rei Abdullah II, da Jordânia, um “crescente xiita” em torno do Reino, este cerco tem antagonizado com os interesses políticos, ideológicos e de caráter religioso dos sauditas na região. Em entrevista ao Washington Post, em 2004, o rei Abdullah II comentou sobre o avanço da influência iraniana sobre as populações xiitas em países da região como Iraque, Síria e Líbano, o que já naquele período vinha alterando o equilíbrio geopolítico regional entre sunitas e xiitas. Para ele, nem mesmo a Arábia Saudita estaria imune ao “crescente xiita” (WRIGHT; BAKER, 2004).

Desde 2004, o “crescente xiita” na região teria se expandido para países como o Bahrein e o Iêmen. O Bahrein é um país com população majoritariamente xiita e governado pela família al-Khalifa, de sunitas que, em 2011, durante protestos internos no período da Primavera Árabe teria solicitado auxílio militar saudita e emiradense para conter os levantes populares, que teriam sido agitados por Teerã, ao passo que Riad enviava auxílio militar ao país vizinho, o então rei Abdallah declarava que a Arábia Saudita nunca permitiria que um xiita chegasse ao poder no Bahrein (RIEDEL, 2018, p. 160). No Iêmen, o patrocínio iraniano aos rebeldes houthis teria aumentado após a Arábia Saudita declarar guerra e passar a atacar posições desse grupo no vizinho do sul (ARANGO; BERGMAN; HUBBARD, 2020). Tal situação gerou respostas militares contundentes por parte dos houthis com ataques de mísseis e drones contra a capital Riad e contra a infraestrutura crítica da estatal petrolífera Saudi Aramco.

Um outro país que é percebido por Riad como sob influência de Terrã é o Catar. O caso catari foi potencializado após maio de 2017, a partir de uma declaração do Emir Tamim bin Hamad al-Thani à Qatar News Agency, por meio da qual, entre outras coisas, ele aceitava o Irã como uma potência islâmica e afirmava não haver razão para que os países árabes fossem hostis com o Irã. Al-Thani chegou a afirmar que tal declaração não teria sido feita por ele, porém após esse episódio, países como o Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Egito e Maldivas, seguiram o exemplo da Arábia Saudita e cortaram laços diplomáticos com Doha.

Aliado a isso, o “cerco xiita” teria se fortalecido no Iraque com a retirada das tropas americanas e nas vitórias em combate de forças iranianas e milícias xiitas contra o Estado Islâmico; no Líbano, com o robustecimento do Hezbollah; e na Síria; com o estabelecimento de bases militares iranianas, com a recuperação em batalha de territórios sob domínio do Estado Islâmico – inclusive com atuação do Hezbollah libanês – e com a manutenção de Bashar al-Assad no poder, que embora tenha sido garantida por Moscou manteve um importante aliado de Teerã na cadeira presidencial em Damasco.

A ampliação do “cerco xiita” teve participação direta do general Qasem Soleimani, comandante da força especial Quds, da Guarda Revolucionária Iraniana, que foi morto no Iraque na primeira semana de janeiro de 2020, após um ataque de drone autorizado pelo presidente Donald Trump, dos EUA. Soleimani além de ser um oficial do alto escalão da guarda Revolucionária e estrategista militar, tinha também grande influência na política externa iraniana com influência em nível similar à de Mohammad Javad Zarif, Ministro das Relações Exteriores (ARANGO; BERGMAN; HUBBARD, 2020). Em 2011 Soleimani chegou a planejar o assassinato do embaixador saudita para os EUA Adel al-Jubeir por meio da contratação de um assassino de um cartel de drogas mexicano, de modo que o jornal saudita Arab News chegou a descrevê-lo como “uma figura sombria no comando das forças iranianas de procuração” (HOW..., 2020).

Mesmo após a morte de Soleimani, é provável que o “cerco xiita” iraniano permaneça e que a percepção de ameaça da Arábia Saudita em relação ao seu vizinho persa leve o Estado árabe a manter um alto investimento no setor de Defesa nos próximos anos. No entanto, ainda é cedo para afirmar se o novo comandante da Força Quds, o general Esmail Qaani, conduzirá as atividades de guerra irregular de grupos não estatais da região da mesma forma que seu antecessor no médio e longo prazo.


1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) do Instituto Meira Mattos (IMM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).



Referências Bibliográficas:

ARANGO, Tim; BERGMAN, Ronen; HUBBARD, Ben. Qassim Suleimani, Master of Iran’s Intrigue, Built a Shiite Axis of Power in Mideast. The New Yor Times, 3 January, 2020. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/01/03/obituaries/qassem-soleimani-dead.html Acesso em: 22 fev. 2020.

HOW Iran’s Qassem Soleimani destabilized the Middle East. Arab News, Dubai, 5 January, 2020. Disponível em: https://www.arabnews.com/node/1607951/middle-east Acesso em: 23 fev. 2020.

RIEDEL, Bruce. Kings and Presidents: Saudi Arabia and the United States since FDR. Washington: Brookings Institution Press, 2018.

THE BRITISH PETROLEUM COMPANY. BP Statistical Review of World Energy 2019. London, Jun. 2019. Disponível em: https://www.bp.com/content/dam/bp/business-sites/en/global/corporate/pdfs/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2019-full-report.pdf Acesso em: 22 Fev. 2019.

THE WORLD BANK. GDP (current US$) - All Countries and Economies. [S. l.], [1979-1985]. Disponível em: https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD?end=1986&locations=DZ-GA-NG-ID-EC-VE-IR-IQ-KW-QA-AE-SA&start=1979&type=points&view=chart Acesso em: 28 de novembro de 2019.

TIAN, Nan. et al. Trends in World Military Expenditure, 2018. Stockholm International Peace Research Institute – SIPRI. April 2019.

Wright, Robin; Baker, Peter. 2004. ‘Iraq, Jordan See Threat to Election from Iran Leaders Warn Against Forming Religious State’. Washington Post, 8 December. At: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/articles/A43980-2004Dec7.html [Accessed on 7 May 2018].

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