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A percepção de ameaças cibernéticas no discurso norte-americano.

Publicado: Quarta, 05 de Agosto de 2020, 17h00 | Última atualização em Segunda, 28 de Setembro de 2020, 19h34 | Acessos: 247

Marcos Luiz da Cunha de Souza1
Breno Pauli Medeiros2
Luiz Rogério Franco Goldoni3

Em matéria de 4 de abril do corrente, a agência de notícias Reuters publicou as declarações feitas pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, no âmbito da reunião de comemoração do 70º aniversário da OTAN. No discurso, Pompeu solicita que aliados se adaptem a ameaças emergentes, entre elas: intervenções militares da Rússia em lugares como a Venezuela; competição estratégica chinesa, figurada, principalmente pelo avanço da infraestrutura de telecomunicações 5G; migração descontrolada e riscos à segurança energética.

A temática cibernética foi central na fala de Pompeo, contribuindo para a narrativa securitária que categoriza China e Rússia como países que representam ameaças também no campo cibernético, como evidenciado em análises anteriores publicadas neste portal.

A análise em tela foca no conceito de ameaças e como ele tem sido moldado ao longo dos discursos oficiais dos EUA e em seus mais recentes documentos estratégicos. Dentre as adversidades listadas no encontro supracitado, Pompeo destacou a competição estratégica chinesa referente à infraestrutura de telecomunicações, ilustrada no caso da expansão da rede de 5G da empresa chinesa Huawei.

A ampliação da narrativa para outros problemas de segurança internacional relaciona-se com a chegada recente de militares russos na Venezuela, após o blecaute de dez dias no país, supostamente ocasionado, nas palavras de Maduro, por um ataque cibernético perpetrado pelos EUA. Ainda, segundo informantes, acreditase que dentre o efetivo militar russo, também se encontram especialistas em guerra cibernética para auxiliar na proteção da infraestrutura venezuelana, como tratado na análise do mês de março.

Em resposta ao posicionamento dos EUA, o Ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Ivan Gil, afirmou que as forças russas permanecerão no país o quanto for necessário. Contudo, Pompeo, em conversa com jornalistas após a reunião, afirmou que os membros da OTAN concordam que as tropas russas devem se retirar. Além disso, o chefe da Aliança, Jens Stoltenberg, aponta que as violações da Rússia ao Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio fazem parte de uma postura desestabilizadora que esse país vem construindo (WROUGHTON; BRUNNSTROM, 2019).

No caso da China, o Secretário de Estado pediu para que a OTAN se posicione contra a crescente influência chinesa nas telecomunicações europeias propiciada pela expansão da rede de 5G da empresa Huawei Technologies (WROUGHTON; BRUNNSTROM, 2019). Anteriormente, Washington já havia declarado que não fará parcerias com países associados a essa empresa. Além disso, asseverou que nem os EUA ou a OTAN poderão compartilhar informações, caso haja o envolvimento da Huawei no setor de comunicações dos países membros, devido aos indícios de ligações da empresa com setores de inteligência no governo chinês (LEE, 2019).

Os documentos de defesa dos EUA, Reino Unido e da OTAN embasam os discursos e a percepção de ameaças reforçada por Pompeo. No National Cyber Security Strategy 2016-2021 do Reino Unido, no que tange o contexto estratégico e as ameaças, os grupos organizados de origem russa são apontados como os principais criminosos cibernéticos atuantes contra o Reino Unido em práticas como roubo, extorsão e fraudes. Não há clareza sobre uma suposta acusação contra o Estado russo, contudo, o documento afirma que os grupos agressores e os cibercriminosos são majoritariamente da Europa Oriental (UK, 2016, p. 17).

Já no National Cyber Strategy of United States of America, há uma maior objetividade quanto aos atores, as ameaças e os desafios. Nele, é citado a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte como as principais origens dos ataques cibernéticos à empresas norte-americanas. Além disso, o documento também estabelece que os ataques perpetrados por esses países ou de origem neles, estão livres de consequências e responsabilidade legal, justamente por esses Estados não terem uma rígida legislação ou interesse em responsabilizar os criminosos (USA, 2018).

No mesmo documento, a China é percebida como um dos países mais envolvidos em espionagem econômica e roubo de propriedade intelectual, cujo prejuízo é estimado em um trilhão de dólares. A ameaça cibernética também é reconhecida como advinda de atores não estatais pelo referido documento, dentre eles incluem-se grupos terroristas e criminosos de forma geral. A atuação dessas organizações se concentra tanto no aspecto psicossocial por meio do recrutamento e da propaganda para atacar os EUA, quanto nos ataques cibernéticos com fins econômicos (USA, 2018).

No que se refere a OTAN, os EUA enfatizam a mesma narrativa que o Secretário de Estado apresenta em seus discursos. Isto fica claro no ponto "Strengthen Alliances and Attract New Partners"4:

Uma Europa forte e livre, vinculada por princípios comuns de democracia, soberania nacional e comprometimento ao Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte é vital para nossa segurança. A aliança irá dissuadir o aventureirismo russo, derrotar os terroristas que procuram assass text-indent: 0px;inar inocentes e abordar o arco de instabilidade que se desenvolve na periferia da OTAN. Ao mesmo tempo, a OTAN deve adaptar-se para permanecer relevante e adequada para o nosso tempo - com propósito, capacidade e tomada de decisão responsável. Esperamos que os aliados europeus cumpram seus compromissos de aumentar os gastos com defesa e modernização para fortalecer a aliança em face de nossas preocupações comuns de segurança (USA, 2018, p. 9, tradução nossa).5

O Departamento de Defesa dos EUA também destaca que a competição estratégica com a China e a Rússia são suas principais prioridades no longo prazo. A magnitude dessas ameaças representadas hoje exige investimentos maiores e assegurados para que os EUA possam prosperar no futuro (USA, 2018).

Nota-se, portanto, um esforço securitizador para a questão cibernética não só no reconhecimento de ameaças, mas também no que se refere à infraestrutura básica de telecomunicações. Ainda, é relevante que essa temática engendre tensões internas na OTAN, em decorrência da interconectividade do ciberespaço, de forma que se alguns países optarem por adotar a infraestrutura 5G chinesa, estarão, na prática, se distanciando dos EUA e de outros aliados em termos de cooperação.


1 Graduando em Defesa e Gestão Estratégica Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Estagiário do Instituto Meira Mattos (IMM) e pesquisador do Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV).
2 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado- Maior do Exército (PPGCM/ECEME). Mestre em Ciências Militares pela ECEME. Pesquisador adjunto da Área Temática “Defesa Cibernética” no OMPV.
3 Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor do PPGCM/ECEME. Coordenador acadêmico da Área Temática “Defesa Cibernética” do OMPV.
4 Fortalecer alianças e atrair novos parceiros (USA, 2018, tradução nossa).
5 A strong and free Europe, bound by shared principles of democracy, national sovereignty, and commitment to Article 5 of the North Atlantic Treaty is vital to our security. The alliance will deter Russian adventurism, defeat terrorists who seek to murder innocents, and address the arc of instability building on NATO’s periphery. At the same time, NATO must adapt to remain relevant and fit for our time—in purpose, capability, and responsive decision-making. We expect European allies to fulfill their commitments to increase defense and modernization spending to bolster the alliance in the face of our shared security concerns.

Referências Bibliográficas:
LEE, Matthew. Pompeo warns eastern Europe on Chinese and Russian meddling.Disponível em: https://www.washingtonpost.com/business/technology/pompeowarns-eastern-europe-on-chinese-and-russian-meddling/2019/02/12/bd7bb2a0-2ecd-11e9-8781-763619f12cb4_story.html?utm_term=.dcfad946931d/ Acesso em: 20 jan. 2019.

UK. National Cyber Security Strategy 2016-2021. HM Government, 2016.

USA. National Cyber Strategy of United States of America. Washington, DC: White House, 2018.

USA. National Defense Strategy. Washington, DC: Department of Defense, 2018.

WROUGHTON, Lesley; BRUNNSTROM, David. Pompeo calls on NATO to adapt to new threats from Russia, China. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-usa-nato/pompeo-calls-on-nato-to-adapt-to-newthreats-from-russia-china-idUSKCN1RG1JZ/> Acesso em: 24 abril. 2019.

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