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Logística de Defesa e Capacidade Expedicionária da Marinha do Brasil

Publicado: Terça, 30 de Agosto de 2022, 01h01 | Última atualização em Quinta, 08 de Setembro de 2022, 13h57 | Acessos: 149

 

Esley Rodrigues de Jesus Teixeira

Capitão de Corveta do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil
e doutorando em Ciências Militares na ECEME

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1. Introdução

No início de 2022, um Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais, nível Elemento Anfíbio (ElmAnf - nucleado em uma Companhia de Infantaria de Fuzileiros Navais), conseguiu atingir o nível três no sistema de capacidades para Operações de Paz da Organização das Nações Unidas (UNPCRS, na sigla em inglês). Esta evolução foi fruto de um ano de preparação doutrinária, de recursos humanos e de aquisição de materiais específicos, cujo resultado foi refletido na avaliação positiva por parte da ONU.

Tendo em vista essas considerações, o presente artigo tem como objetivo apontar a importância do processo logístico integrado no gerenciamento das capacidades expedicionárias, haja vista a vocação nascitura da tropa anfíbia por excelência do Brasil, o Corpo de Fuzileiros Navais. Para tanto, este artigo está estruturado da seguinte forma: inicia-se abordando o feito pelo Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais, seguido de detalhes adicionais sobre a evolução doutrinária, sobre o processo de seleção de recursos humanos, sobre a aquisição de materiais e alguns apontamentos sobre o poder naval. Na parte final, propõe-se o estabelecimento de um sistema integrado de gerenciamento da cadeia de suprimentos, que permitirá além de menores custos totais, maior efetividade quando em operações expedicionárias sob a égide de organizações multilaterais.

2. A Evolução Doutrinária

A doutrina para operações de paz do Corpo de Fuzileiros Navais foi um constructo com o qual contribuíram diversas turmas de oficiais que participaram da Missão para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), operação de paz em que concorreram tropas anfíbias durante todo o período de vigência (14 anos). Também contribuiriam para sua evolução as experiências no Líbano (UNIFIL) e nas diversas operações de garantia da lei e da ordem (GLO) em que os fuzileiros navais estiveram envolvidos desde o fim de 2010.

Os primeiros manuais revisados surgiriam em 2008 e, em 2020, um grande esforço de revisão seria realizado, capitaneado pelos Almirantes Alexandre e Zuccaro, para positivar e efetivar as evoluções doutrinárias oriundas destas vivências. Em 2021, portanto, os fuzileiros navais passaram por um ano de adestramento com as novas doutrinas, incorporando as operações de paz como capacidade orgânica, conforme estipulado na Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL; 2020).

3. O Processo de Seleção dos Recursos Humanos

Na esfera dos recursos humanos, o Corpo de Fuzileiros Navais passou a adotar uma postura mais rigorosa para com os índices de testes de avaliação física (TAF) e com a saúde de seus militares. As provas passaram a adotar padrões diferentes daqueles cobrados pelos militares de outros corpos, fruto da revisão da norma que define os índices dos TAF, e os índices de massa corpórea passaram a ser medidos semestralmente, exigindo-se, tanto dos militares que obtêm notas abaixo de certos critérios, ou que estão acima do peso, que realizem programas de reeducação alimentar e/ou de exercícios específicos para que atinjam os índices estipulados. Está em estudo a implantação de um teste funcional, que avaliará a capacidade do fuzileiro naval de realizar as atividades específicas básicas de sua profissão, portando os equipamentos exigidos quando em combate (mochila, colete, capacete e armamento).

Com isso, objetiva-se dar aos recursos humanos do Corpo de Fuzileiros Navais maior pronto emprego. Além disso, a criação da Escola de Operações de Paz de Caráter Naval (EsOpPazCNav), subordinada ao Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo, permitiu que as frações em treinamento para missões de paz sejam instruídas nos materiais exigidos pela ONU, além de treinar o idioma e as características do país em que serão desdobrados.

4. A Aquisição de Materiais

Quanto a aquisição de materiais específicos, houve larga aquisição de barracas, beliches, banheiros de campanha, equipamentos para tratamento de esgoto e purificação de água. A intenção da base temporária de operações (TOB, na sigla em inglês) é aumentar a capilaridade do Force Commander, a partir do desdobramento de uma força de reação rápida. Ela possui uma autonomia de seis meses para atuar na operação de forma isolada, garantindo ao componente de comando da missão a realização de uma ação de presença efetiva em determinado ponto de interesse. Esta nova capacidade de pronto emprego e expedicionária permitirá que tropas anfíbias sejam rapidamente acionadas em qualquer lugar em que os interesses brasileiros e da ONU estejam em xeque, sobretudo quando se trata de assuntos caros à humanidade, como viver livre de indignidades, de necessidades vitais ou do medo, de acordo com o relatório especial do ano corrente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP, 2022).

Quanto aos materiais com que a força de reação rápida foi constituída, cabe que se reflita um pouco. Não sendo construídas no Brasil, as capacidades materiais adquiridas com a formação da força de reação rápida permanecem como um ativo que se pode tornar passivo. Sem a construção de uma “indústria” capaz de produzir os ativos necessários à manutenção desta capacidade adquirida, e sem a comunhão de uma certeza de equilíbrio e perenidade orçamentária, corre-se o risco de vez ou outra, ficar a força de reação rápida sem os suprimentos de reposição necessários à manutenção de sua força de combate.

O processo decisório da lei orçamentária anual, bem como dos demais procedimentos de formação do orçamento da defesa precisam estar diretamente relacionados à formação dos recursos humanos, da aquisição dos materiais e do desenho da cadeia de suprimentos, e da organização que a Força de Fuzileiros da Esquadra pretende dar doravante a suas Organizações Militares Subordinadas (OWENS, 2015), de maneira a melhorar as condições de desdobramento da força de reação rápida.

5. O Poder Naval

As características intrínsecas do poder naval de mobilidade, versatilidade, flexibilidade e permanência (BRASIL, 2020) dependem de uma cadeia de suprimentos bem delineada, sobretudo considerando-se que a força de reação rápida se constitui em uma força de pronto emprego, que será desdobrada rapidamente em um ambiente extremamente hostil, e o risco do desconhecimento da área de responsabilidade exigirá níveis de suprimentos adequados a mitigar as incertezas do campo de batalha (PAGONIS; KRAUSE, 1994).

Este “reino das incertezas”, geradas pelo inimigo, ambiente e comportamento das tropas em litígio (KRESS, 2002), exigirá alto grau de flexibilidade da cadeia de suprimentos da força de reação rápida. Esta flexibilidade será um reflexo do bom planejamento logístico que deve considerar mudanças nas circunstâncias, mitigação de problemas inesperados e exploração de oportunidades não vistas previamente (SPELLER; TUCK, 2001). A flexibilidade anfíbia, ainda, é o maior ativo estratégico que um país ligado ao mar pode ter (HART, 1960), e a força de reação rápida, sendo oriunda da Força de Fuzileiros da Esquadra, certamente precisará corporificar esta vantagem competitiva. Flexibilidade e segurança, dois princípios da logística militar (BRASIL, 2002) precisam ser os guias do planejamento. 

6. Considerações Finais

Como relatado anteriormente, o conhecimento do processo orçamentário é essencial ao bom desempenho da logística militar, sobretudo quando se está gestando uma operação expedicionária. Não obstante, é importante que se leve em consideração o desenho dos processos internos de aquisição, se há um acompanhamento just in time do nível de suprimentos no teatro de operações por parte dos decisores (um gerenciamento participativo), se os processos são regularmente revistos e melhorados, e se há uma abordagem holística, com a participação de todos os stakeholders nos processos de aquisição (RÅDULESCU, 2013).

Propõe-se, dessa forma, que seja criado um sistema específico para o gerenciamento logístico e o tratamento dos dados de suprimentos da força de reação rápida, que deverá possuir uma interface, tanto do sistema ONU, quanto de prestadores locais (do país host) e nacionais, de maneira a garantir que as funções logísticas estejam funcionando otimamente, e que as incertezas sejam diminuídas (BOWERSOX; CLOSS, 2010). A começar no oficial de logística deste Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais até o encarregado de suprimentos de Operações de Paz no Comando do Material de Fuzileiros Navais, o sistema deve observar um orçamento perene (ou seja, diretamente ligado ao poder político, posto também ser de interesse de outros ministérios como das relações exteriores e ciência e tecnologia), contratos sempre disponíveis, e militares proficientes pelo menos no inglês, espanhol e francês (duas línguas oficiais da ONU).

A falta de previsibilidade de demanda de determinados itens, aliada a uma relativa necessidade de eficiência, permitem que o desenho do sistema logístico da força de reação rápida seja feito a partir de uma estratégia cujo fornecimento será sob estoque, demandando que certas características sejam contempladas, como quantidades econômicas de compra e remessas em grandes volumes. Mesmo assim, a flexibilidade nos processos, transporte de alta qualidade e pedidos individualizados, característica dos fornecimentos sob pedido, deverão ser observados para certos itens de maior valor agregado (BALLOU, 2006). Este desenho, portanto, exigirá que os militares operadores deste sistema compreendam as necessidades da “ponta da linha”, possuindo além de formação técnica, experiência de campo.

  

Referências Bibliográficas: 

  1. BALLOU, Ronald H. Gerenciamento da cadeia de suprimentos/logística empresarial. Tradução de Raul Rubenich. 5 ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.

  2. BOWERSOX, Donald; CLOSS, David. Logística Empresarial: o processo de integração da cadeia de suprimentos. 1 ed. São Paulo: Atlas, 2010.

  3. BRASIL. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa; Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, 2020.

  4. BRASIL. Ministério da Defesa. Doutrina de Logística Militar. Brasília, 2002.

  5. HART, Liddell. The Value of Amphibious Flexibility and Forces, Royal United Services Institution Journal, Vol. 105, nº 620, p. 483-492, 1960.

  6. KRESS, M. Operational Logistics: The Art and Science of Sustaining Military Operations. New York: Springer Science, 2002.

  7. OWENS, M. T.  Force Planning: The Crossroads of Strategy and the Political Process, Orbis, Vol. 59, nº 3, p. 411-437, 2015.

  8. PAGONIS, W. G.; KRAUSE, M. D. Operational Logistics and the Gulf War. Arlington: The Institute of Land Warfare, 1994.

  9. RÅDULESCU, Fånel. The implementation of total quality management in the military. A step forward for defense resources management, Journal of Defense Resource Management, Vol.4, nº 2, p. 135-142, 2013.

  10. SPELLER, Ian; TUCK, Christopher. Amphibious Warfare: The Theory and Practice of Amphibious Operations in the 20th Century. London: Amber Books Ltd, 2001.

  11. UNDP. New threats to human security in the Anthropocene: Demanding greater solidarity - Special Report 2022. New York: UNDP, 2022..

 

Rio de Janeiro - RJ, 30 de agosto de 2022.


Como citar este documento:
Teixeira, Esley Rodrigues de Jesus. Logística de Defesa e Capacidade Expedicionária da Marinha do Brasil. Observatório Militar da Praia Vermelha. ECEME: Rio de Janeiro. 2022.  

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